quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Perplexidade

Mesmo para leigos como eu, que apenas lêem uns artigos e uns raros livros, há coisas que não podem deixar de causar perplexidade. A extensão da crise e a forma como as medidas aplicadas nos dois lados do Atlântico não a fazem recuar nem um pouco pareceriam implicar acima de tudo uma revisão (mais ou menos profunda) do capitalismo ou da sua prática, não esta involução na continuidade.
Há quem invoque a História (diferentes momentos da História, na verdade) para defender diferentes soluções. Mesmo que concordemos que a ortodoxia seguida pela direita em Portugal e na Europa é a pior escolha (e são cada vez mais os economistas a dizer que sim, até já doem os ouvidos), não parece ser certo que soluções mais keynesianas, digamos assim, fossem eficazes. Um número crescente e heterogéneo de autores fala na irreversibilidade do declínio ocidental — para lá das questões sobre a culpa. (E no entanto há entre estes autores quem proponha que ainda era possível evitar “um mundo de soma zero”, onde os interesses de uns países competem com ou anulam os interesses de outros.)
A ascensão dos BRIC não implica necessariamente um bem-estar generalizado para as suas classes sociais e certamente não significa que a democracia mundial (se sobreviver) passa a ser defendida (nem mesmo tutelada) por outros quadrantes geográficos.
Estes dois cenários, a crise ocidental e a ascensão económica mas não mais democrática dos países emergentes, parecem pôr em causa o capitalismo, a sua actual eficácia ou até pertinência. Mas o que vemos? Políticos incapazes de pensar fora do arquétipo. Comentadores ocupados nos seus jogos florais de demonização do outro. A Inquisição à procura de quem viveu acima das posses ou teve ilusões. Ideólogos de blogosfera a achar excelente a oportunidade para aplicar finalmente velhas receitas muito lá de casa.
Em Portugal não admira que assim seja, a política e a gestão da coisa pública há muito estão entregues a dinossauros e a jotinhas (querem culpados?), o pensamento independente e crítico não é bem-vindo. Mas na Europa não haverá quem meta algum senso nas cabecinhas dirigentes?

domingo, 22 de janeiro de 2012

Vasquito

Só li citações (ando a poupar nos jornais), mas parece que o camarada Vasco, escrevendo sobre cultura, ontem falou de “produção nacional”. Diria que o fez para dar razão ao seu próprio argumento: em Portugal não falta quem fale sobre o que não conhece.
Acertou, não duvido, na questão dos vereadores — quanto a mim, acerta-se sempre quando se fala mal de vereadores.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Sai mais um bagaço

«O Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência muitíssimo bem pagos. O que produziu um escândalo de certa maneira inesperado. (…) À superfície não se vê por isso o motivo por que um acto, por assim dizer normal, de Passos Coelho provocou agora tanta indignação e tanta conversa.»
Vasco Pulido Valente, «Uma velha história», Público de 14/1/2012

A “análise” de que extraí o pedaço acima não se distingue, a não ser pelo acabamento da prosa, daquilo que produziriam habituados comentadores de tasca, exímios a concluir serem os políticos todos iguais e a defender ser profundamente estúpido considerar a mudança. Fecha a porta ao debate da mesma forma (embora com outra conveniência, mas não é esse o ponto que agora me interessa).
Por vezes espanta que as redacções de VPV, com frequência pouco mais do que fúteis, façam dele o cronista-mor do reino. Mas a explicação é simples: também a intelectualidade portuguesa não se distingue geralmente do auditório de taberna — excepto por uma mais aguda sensibilidade à gramática e à retórica. Se estivéssemos no século XIX, o corte da jaqueta seria igualmente considerado. E aí o escriba teria talvez de mudar de alfaiate.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Considerações de um músico de metro

Ainda que a biologia não permitisse a K. ter uma consciência estética desenvolvida ao tempo, os anos 60 e 70 do século XX são muito as suas décadas, musicalmente falando. Quer dizer, se tiver de declarar alguma coisa aos costumes, K. é um filho dos eighties, esquizofrénico como eles. Mas as maiores emoções, as mais lancinantes, reconhece, vêm-lhe de músicas anteriores. Se K. ouve algumas canções daquelas décadas, apetece-lhe frequentemente desfazer-se em lágrimas. Outras vezes desata aos pulos e a esbracejar como imagina que se esbracejava na altura. Há uma explicação. K. viveu por dentro os anos oitenta e, portanto, o que lhe acontece por vezes é sentir nostalgia — no máximo. Já os sessenta e setenta foram sempre, ainda que de forma indirecta, espiritualmente mais intensos, míticos, lendários, verdadeira religião de que lhe chegavam, como do além, rumores em fitas magnéticas e raro vinil. Uma religião de que testemunhou, com curiosos olhos infantis, as últimas manifestações, observando platonicamente, como sombras em cavernas, o difuso estertor alcoólico de festas num armazém da vizinhança. (Ainda se dançava Pink Floyd com charme e copo de tinto, cigarro na mão, mas era já uma despedida.)
Há a questão dos ídolos. K. não pode dizer que tivesse conhecido pessoalmente algum nos anos 80. Dos anos 80. Contudo, na sua adolescência ainda contactou com dois ou três dos que tinham alcançado grandeza na década anterior.
Objectivamente, não é bem assim. Os seus ídolos de vizinhança apenas tinham tocado a grandeza ao interpretarem, à guitarra e em cima de palcos apertados e pouco seguros, a musicografia de sessenta e setenta. No entanto, K. não sentiu neles a fraude que se sente quando se compra fancaria. Eles eram genuínos, the real thing. Podiam limitar-se a fazer covers dos êxitos da sua época, mas soavam como os originais, vestiam e não cortavam o cabelo como os originais, transpiravam como os originais, drogavam-se como os originais. Não se distinguiam dos originais excepto por estarem vivos ou fisicamente presentes.
Um tipo da geração de K. não procurava aprender com alguém musicalmente activo em 80 — competia com essas pessoas. A quem K. pedia conselhos e aulas de guitarra era aos ídolos de setenta. Aprender as canções que eles tratavam por tu, como filhos legítimos, era ser-se iniciado na linguagem dos deuses, de que todas as canções de 80, mesmo as que K. pudesse escrever, emanavam, eram sucedâneos. K. imagina-se a sentir vaga camaradagem por algum condiscípulo da sua geração, mas o respeito, a admiração, o afecto reserva-o todo para aqueles que usavam calças à boca-de-sino antes de elas serem retro fashion.
K. acredita, em suma, que há na música, ainda que revolucionária e libertária, uma hierarquia (ou uma cronologia) a respeitar, um código de honra e de valores onde os mais velhos ocupam lugares determinantes, como em certas tribos.

Sentando no túnel do metro para mais um dia de trabalho, com um orgulho melancólico nas suas calças de ganga genuinamente gastas e rotas, K. reflecte sobre tudo isto na hora de escolher o repertório. Experimentou alguns temas seus contemporâneos, mas nenhum lhe soa bem à viola acústica. K. não dispõe de suporte electrónico mas não julga ser esse o principal óbice à verosimilhança, embora lhe pareça haver um problema de credibilidade quando se está de chapéu estendido a evocar um imaginário tão eminentemente burguês e entediado como o de oitenta. 

A vida de K. (7)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Problemas de (co-)habitação

Quando, há vários anos, K. ficou com a casa só para si, sentiu um peso na consciência: eram cinco quartos a mais, até para alguém como ele, que precisava de espaço. Mas na altura não havia assim tanta gente com dificuldades, e a pátria, que tinha casas de sobra, não parava de as construir, era preciso vendê-las. K. permitiu-se essa comodidade extravagante e os remorsos não foram um problema muito grande, já que casas novas mais pequenas tinham rendas maiores (as pessoas até preferiam comprá-las). Mudar-se significaria quase de certeza gastar mais dinheiro.
Depois a habitação tornou-se um problema. Não a habitação: as rendas, houve uma reforma legislativa, com a qual nem discordava fundamentalmente. Ainda assim, aquilo que K. pagava em três meses passou a custar-lhe a casa num, o que alterava substancialmente as regras do seu jogo. Habitar o palacete, mesmo que decadente, sem atractividade para a anterior classe média, era agora um luxo que não podia pagar.
Antes de se mudar para a rua, K. pôs um anúncio, e durante algum tempo viveu com companhia. Mas não se habituava. A decisão de subarrendar partes da casa, para além de o ter ajudado a suportar a prestação mensal por um curto período, estava de acordo com o seu pensamento político — união de esforços, partilha de sacrifícios, coisas assim. Porém, uma coisa é encontrar virtudes teóricas em certos aspectos do comunismo, outra é viver em comunidade. Por mais que o satisfizesse acolher pessoas que os bancos tinham posto na rua, K. não se acostumava a comungar o quotidiano. De repente era como viver num hostel, desconhecidos a partilharem a louça, a cozinha e a sala de televisão, o autoclismo a soar sem que sejamos nós a puxá-lo, gente que canta no banho ou fala a dormir, tipos que arrotam ou cortam as unhas enquanto vêm as notícias de mais austeridade — o teatro impudico e repugnante da intimidade alheia. Ter reservado para si o direito de ficar na velha suite, com a sua casa de banho privativa e a sua antecâmara, não protegia K. de uma excessiva proximidade às vidas dos outros.
Por isso, até agora K. animava-se a si próprio dizendo com humor que uma das vantagens de dormir na rua era não ter de suportar gente a ressonar no quarto ao lado.

Infelizmente, há males piores, descobriu K. com desalento quando um casal de maltrapilhos particularmente roncante fez a cama de papelão nas imediações da sua. «Esperemos que sem-abrigo sejam gente a quem falte o ânimo da cópula», rogou depois K. a Ninguém, lembrando-se de que na sua curta experiência de vida em comunidade havia coisas mais intrusivas do que pessoas a ressonar.


A vida de K. (6)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sono criogénico

A segunda vida d’O Canhões de Navarone não foi longa — cerca de seis meses, por vezes agradáveis, por vezes sofríveis, com algumas satisfações e vários tiros na água —, mas agora impõe-se por tempo indeterminado um novo sono criogénico. Ou nem tanto. Serviços mínimos, ocasionais posts, talvez, textos sem bússola — um tipo respira, anda por aí a observar a vida dos outros, não é? Vão passando.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cientistas dão razão aos críticos da função pública

«Declínio do cérebro afinal começa aos 45 anos. Estudo avaliou três vezes as capacidades cognitivas de mais de sete mil funcionários públicos num período dez anos, concluindo que, afinal, a deterioração não começa aos 60 anos.»
Ao cuidado do Governo: face aos novos dados científicos, propõe-se que a idade da reforma seja antecipada na mesma proporção. 

Cibernices

1. Da evolução do homem
O saber wikipédico substitui o saber enciclopédico.

2. Tábua rasa
Desligar o homem da net é um acto filosófico.

3. Revolução
O motor de combustão está para a revolução nos transportes como o motor de busca está para a, digamos, revolução cultural.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A fina linha

A China respondeu a certas inferências do meu post de ontem (e de outros em que falei de televisão). Segundo o Público, o «entretenimento de “mau gosto” está a desaparecer velozmente da televisão chinesa». Claro que a China não espera que isso aconteça voluntariamente, por decisão sensata dos directores de canais, intervenção escrupulosa da entidade reguladora, ou exigência criteriosa dos telespectadores. A China é um país autoritário, toma medidas. (Como aliás propunha, não exactamente quanto ao entretenimento, certo grupo de trabalho reunido pelo governo português.)
Mas também é claro que a China toma por entretenimento de mau gosto programas que classifica de «golpes estratégicos para ocidentalizar e dividir o nosso país». E impõe em sua substituição outros que «promovam as virtudes tradicionais e os valores fundamentais socialistas». Se se tivesse ficado pelo banimento dos reality shows, sem considerandos de ordem geopolítica nem sucedâneos proselitistas, os leitores do Canhões corriam o risco de lerem aqui amanhã um hino ao Império do Meio — e debandariam de vez, considerando irreversível a demência do artilheiro.

Qualquer intervenção do Estado nas televisões, nos jornais, nas editoras, nos teatros ou nos cinemas está sempre a um passo curto de ser um erro. A linha que separa o intervencionismo do paternalismo, do proselitismo ou da pura manipulação é fina, muito fina. A informação, a cultura, as ideias, a arte devem ser deixadas em paz, se o objectivo é ter uma sociedade democrática, livre, emancipada, plural, intelectualmente desenvolvida. No entanto, a realidade faz-nos suspeitar que deixar as instituições trabalhar livremente não garante todas as boas conquistas do mundo ocidental, não garante a sua perduração. Suponho que não precisamos de ser todos pessimistas para concluirmos que há um afunilamento do espaço público, uma tendência para a uniformização, uma simplificação que amputa, reduz a diversidade, elimina a exigência e o escrúpulo. Se tomarmos o exemplo das televisões, somos forçados a concluir que a liberdade de acção não assegura a qualidade do serviço, mesmo que falemos apenas de entretenimento. Teríamos de aplicar critérios muito estreitos e pouco exigentes, deixando de fora imensas manifestações da inteligência e do espírito humanos e da sua variedade se quiséssemos considerar que sim, que as grelhas actuais reflectem uma sociedade interessante. E é preciso ter em conta que, apesar da Internet e do cabo, o espaço público continua a ser em grande parte formatado pelos canais de televisão em sinal aberto, com todas as consequências que isso tem no próprio desempenho social e económico do país.

Terá, então, o Estado de intervir, a exemplo da China, erradicando programas de mau gosto e decretando grelhas correctas, seja qual for o critério? Não creio. A linha é fina, mas não deve ser cruzada. Diria que ao Estado compete talvez assegurar que a complexidade do jogo social não se reduz, que não se eliminam variáveis nem jogadores, que o espaço público é mesmo público e diverso, ou seja, passível de ser frequentado e influenciado por todos. Ao Estado compete assegurar que não se constroem guetos à margem da manada hegemónica. Que não se cria um canal 2 para alívio de consciências e álibi do fartar vilanagem nos restantes três canais, que há no gueto critérios de elevação do intelecto e dignidade do espírito que não se aplicam ao resto. Como se faz isto? Não perguntem a Hu Jintao.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bronzeadores em África

Há muitos anos, uma trovoada providencial queimou a televisão lá de casa e desde então a caixa mágica só me enfeitiça em ocasional restaurante ou café, se não levar comigo um jornal ou companhia. Hoje, por qualquer distúrbio na ordem universal ou distracção do estalajadeiro, a coisa sintonizou-se por momentos na RTP2. Não me dei logo conta de que era a RTP2, mas a publicidade, os programas anunciados e o documentário que entretanto se iniciou pareciam assunto de outro planeta, não de um onde reina essa pouco inventiva invenção do demo que dá pelo nome de televisão generalista. Imaginei um canal do cabo, mas teria de ser um pouco esquizofrénico, dada a diversidade das propostas. (Imagino os canais de cabo temáticos, mas posso estar enganado.)
Depois passou uma publicidade institucional e percebi que era de facto a 2 (ok, também houve um separador que a anunciou). Estava numa mesa distante e não a vi em pormenor, mas a publicidade era sobre civismo, comportamentos censuráveis em diferentes circunstâncias, toques de telemóveis inoportunos, deselegantes, coisas assim. Ignoro se passa também no canal 1, mas desconfio que não. Seria contra a lógica nacional. O civismo implica sensibilidade, respeito, aceitação do outro e da diferença. É matéria de minorias, portanto, conclui a lógica nacional. Logo, passa na 2. Se fosse algo relacionado com estupidez de massas, sim, teria direito ao canal principal e a horário nobre. Se promovesse o uso polifónico do telemóvel no cinema, no teatro e na sala de aulas, sim, passaria frequentemente na RTP1. Mas como fala de valores, como tem uma mensagem que, se decifrada, pode ofender o povo do prime time (pelo retrato implícito), o melhor é passar na 2, onde a entendem e aprovam. Nem que isso equivalha a vender bronzeadores em África. A lógica nacional é assim, redundante e pusilânime. Capaz de conceber uma campanha de promoção do civismo, mas receosa de a passar no canal onde ela faria falta. (Ainda a acusariam de querer educar o povo.)

Talvez eu esteja enganado e a campanha passe nos dois canais. A lógica nacional por vezes distrai-se. 

Javier Marias

«Cinquenta e sete críticos e colaboradores do Babelia, suplemento cultural do El País, escolheram Los enamoramientos (Alfaguara) como o melhor livro publicado em Espanha durante 2011.»

O Teu Rosto Amanhã (ou deveria dizer Tu Rostro Mañana?), de Javier Marias, continua a ser o melhor livro que li neste século, obra-prima. A Dom Quixote publicou o primeiro volume (de três) e depois descontinuou-o. Desta vez não perdi tempo e fui a Espanha comprar Los Enamoramientos. Menos impostos para o Estado. 

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Foram cinquenta e sete os críticos e colaboradores do Babelia a fazer o balanço de 2011. No suplemento do Expresso foram 8.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O futuro

Quando no fim da adolescência (talvez mais tarde, pronto) comecei finalmente a acreditar que também eu haveria de morrer, chorei por antecipação a mágoa de não estar cá para testemunhar tantos progressos e descobertas científicas que a humanidade haveria de fazer mesmo sem mim. Era uma sacanice haver evolução para admirar e eu ter terra nos olhos. Viagens interestelares, teletransporte, semana laboral de dez horas, coisas destas. Achei fraco prémio de consolação ter-me sido dada a oportunidade de ver passar de moda aqueles visionários telemóveis pequeninos de abrir a meio preconizados pela série O Caminho das Estrelas.
O futuro sempre foi o meu lugar, e não só porque seguia a sábia doutrina do deixa para amanhã o que podes fazer hoje. Quando li os clássicos, fi-lo porque os encarei como novidades, produtos de uma era adventícia — a minha idade mental era a de um homo neanderthalensis, se comparada com a dos defuntos escritores. Mas mal pude convencer-me que essa etapa da minha formação estava cumprida, que tinha bagagem suficiente para não parecer completamente estúpido (o que ocorreu prematuramente, ao contrário do início das leituras), determinei que um livro com mais de três anos era velho. Isso levou-me a percorrer do fim para o início a obra dos autores vivos que achei dignos de serem lidos na íntegra (talvez com consequências na minha percepção cronológica do mundo). Como nesta área fui um patriota entusiasta do esbanjamento, nos anos Sócrates acumulei livros que não tive tempo de ler e, quando mais tarde olhei para as datas de edição, percebi o desperdício de ter investido em obras que já não leria, por terem ultrapassado o meu prazo. Mas, tirando estar a, como se diz, hipotecar o futuro da república, não era grande a chatice. Dava-me bem com a produção mais recente. Não via razões para estar pessimista quando ao talento literário das gerações vivas e rejubilava particularmente, por antecipação, com as pérolas que estavam ainda no prelo ou mesmo no disco rígido dos escribas. Acreditei durante muito tempo que o melhor estava sempre para vir. Até sentia alguma excitação com a ideia de livro digital, nas suas primeiras e futuristas visões.

Depois o livro digital veio mesmo e o mundo editorial transformou-se. (Uma coisa não foi causa exclusiva da outra.) Houve várias mudanças: o apogeu dos franchises, dos autores mediáticos, das vedetas ocas feitas escritor, a retracção da crítica e das páginas literárias na imprensa e na vida social, a mercantilização do livro, a concentração em grupos editoriais grossistas, o domínio do gosto de uma classe média iletrada, uma idade política favorável à dinâmica de mercado. De repente, o futuro não é assim tão promissor. Muitos jornalistas e especialistas de literatura passaram a discutir mais os suportes e a forma em que a escrita pode ser embrulhada do que o que ela tem para dizer. Os gadjets e as operações comerciais das empresas concentraram as atenções. A palavra ainda é livro, mas é um grande chapéu-de-chuva, já não se refere à mesma coisa.

Os escritores continuam a escrever e a internet até facilita a edição. Há um site, por exemplo (referido pelos Booktailores…), que anuncia «dez dicas para autores ou escritores independentes» (desconfio que é sintomática a distinção entre autores e escritores). Mas nas dez dicas apenas uma vez, e só no título, vem mencionado o interesse de se escrever um «bom livro». O resto são sugestões sobre marketing, estudos de mercado, estratégias de venda, questões técnicas, propaganda.

Não perdi o optimismo quanto à qualidade da literatura — perdi-o quanto ao pormenor de a boa literatura ser editada. Face à avassaladora mercantilização da vida social e cultural, à forma como o vazio e o supérfluo substituem o essencial, como as pessoas do meio e os leitores se deixam levar pela onda ou sucumbem a ela, prevejo que a boa literatura editada tem os dias contados ou será marginal, difícil de adquirir, demasiado cara. A boa notícia é que já não devo estar cá para ver.

Já não sou, portanto, um tipo do futuro, embora ainda não seja um indefectível do passado. Deve ser isto o prenúncio da meia-idade.

Adenda

O estudo da Comissão Europeia citado ali em baixo refere-se a medidas tomadas entre 2009 e 2011. Ou seja, consulado do inefável Sócrates. Contudo, os embeiçados pelos lindos olhos de Passos Coelho não devem começar já a esfregar as mãos. Esperem pelo estudo do ano que vem (supondo que se fará um). Ou alguém acha que neste domínio Passos Coelho está a fazer alguma coisa melhor que Sócrates? Que está, sequer, a fazer alguma coisa?
Pensando bem, talvez esteja: a assegurar activa e convictamente que Portugal não desce no ranking dos mais desiguais. 

Questões de moral no admirável mundo novo

1. As empresas públicas devem ser privatizadas — mas não faz mal que sejam adquiridas (a preço de ocasião) por empresas estatais chinesas.

2. A Holanda, movida talvez por um ligeiro impulso chauvinista, quer restringir o cannabis holandês aos holandeses. Não lhe agrada ser um paraíso de embriaguez para estrangeiros — excepto se a embriaguez for a do lucro. Deve ser a isso que chamam moral calvinista.

3. Alexandre Soares dos Santos, de resto, concorda com os juízos morais que se têm feito sobre Portugal e os seus defeitos éticos. Por isso se mudou para a Holanda — prefere que o dinheiro dos seus impostos sirva uma sociedade moralmente superior. Mesmo que de qualquer maneira isso não lhe dê acesso aos coffeeshops dos nativos.

Deve ser isto que Passos Coelho chama de «democratização» da economia

«Entre os seis países da União Europeia mais afectados pela crise, Portugal é o único onde as medidas de austeridade exigiram um esforço financeiro aos pobres superior ao que foi pedido aos ricos, revela um estudo recente publicado pela Comissão Europeia. Na comparação com Grécia, Estónia, Irlanda, Reino Unido e Espanha, Portugal é também o País que regista um dos maiores aumentos de risco de pobreza devido às medidas de consolidação orçamental adoptadas durante a crise, ultrapassando a barreira dos 20% da população em risco.»

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Dogmas

A triste realidade dos números e um número razoável de economistas (como este) desmentem a fórmula, no entanto a malta persiste impante na sua onda thatcheriana, friedmaniesca ou lá o que é. Dogmas são dogmas, não desaparecem só porque se estampam (e estampam o país) contra o pormenor de uma parede.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Três quadros de Inverno

1. A árvore da vida

Altura da poda. O homem novo, talvez numa ocupação de férias natalícias, usa uma escada de metal reluzente e, por vezes, uma tesoura com uma extensão que lhe permite trabalhar a partir do solo. O idoso sobe para os galhos por uma velha escada de madeira camba e, em equilíbrio vertiginoso, apara os ramos com a clássica tesoura preta que também se lhe vê nas mãos em época de vindimas. Há a história do velho, o rapaz e o burro, mas é inadequada. A partir de certa idade, a poda é uma questão pessoal. O velho mais depressa treparia a oliveira, como quando em rapaz ia aos figos, do que usaria a escada nova e a ferramenta fashion do filho ou genro. É este que precisa dos apetrechos e das luvas do Mestre Maco. As mãos do velho estão calejadas, e subir a pulso a árvore da vida fará parte do seu quotidiano até ao último dia na terra. Vive enquanto a pode subir, morrerá de não a poder subir.


2. A vil existência

Pouco depois das quatro da tarde ocorrerá o pôr-do-sol. Embrulhados nos seus kispos e forros polares, os caminhantes cumprem apressados a prescrita hora ou hora e meia de marcha junto ao rio. Os amantes da corrida fazem desfilar calças de licra, gorros e mp3. Ela usa calções de perna comprida e justa e uma sweatshirt larga. Numa curva, a última curva antes de a sombra estender por todo o lado o seu manto irrevogável, ela tem a intuição do fim da luz e detém-se. Abre os braços, levanta o rosto ao deus-sol e sorri. É bom estar viva, apetece abraçar o astro. Cinco segundos de carícia e alheamento, e ei-la de novo num trote firme, o sorriso agora embaraçado, talvez por a vil existência ter regressado nos olhares dos transeuntes, que tentam encontrar-lhe no rosto sinais de um espírito débil ou excêntrico.


3. Encruzilhada

Vestidos com as prendas de Natal — casacos Lanidor e Massimo Dutti, calças Tiffosi ou da Salsa, peúgas e roupa interior a expensas rituais de tias idosas —, passeiam no parque o carrinho de bebé. Com uma criança dentro, deduz-se, não se vê. Eles também não a vêem: ela senta-se num banco a olhar um ponto fixo, talvez do passado, ele fica de pé a observar o trânsito de famílias e casais. Ambos com rostos graves, diferentes do cliché de uma tarde bonita no parque. Entre os dois, o carrinho. Estático porque o terreno é plano — ninguém o segura, jaz por instantes abandonado, troféu de um jogo de forças em que possivelmente fica com o prémio quem perde. Talvez numa parte dos seus espíritos apetecesse que o carrinho começasse a deslizar para fora das suas vidas, pudessem sair dali cada um por seu trilho do parque, desejando esquecer que um dia estiveram numa encruzilhada. Mas um deles há-de voltar a empurrar o carrinho, provavelmente a mãe, mesmo que seja para seguir o seu próprio caminho. Ou as catorze estações do Calvário.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As pessoas em concreto

Há muito tempo que não lia Pacheco Pereira e já não recordo quão frequentemente ocorria a palavra «imbecis» nos seus escritos, para mais impressos. Mas é bom lê-la, sobretudo no contexto: 
«(…) Há uns imbecis nos blogues que acham que falar dos problemas concretos das pessoas que não são fils a papa, publicitários, gente de glamour, neoliteratos, assessores de várias eminências, yuppies sem mercados, consultores, advogados de sucesso, é neo-realismo. A única coisa que se lhes pode perdoar é não saberem o que a palavra significa, mas tudo o resto não e perdoável nem mesmo com muito "espírito de Natal".»*
Infelizmente, o meu problema com as coisas concretas é inverso. Salvo excepções, é quando penso em concreto nas pessoas que me torno entusiasta de Passos Coelho. E de Torquemada.

Alguns estão prontos a insinuar, por isso, que o uso da abstracção faz de mim um utópico da laia de Rosseau. Mas diferimos, o francês e eu. Ele via bons selvagens. Eu vejo selvagens — mas não acho isso bom.

Por outro lado, os liberalecos da direita e eu não estamos, de certa forma, em radical desacordo. Números, índios-de-cu-ao-leu: é indiferente como encaramos as pessoas — desde que não tenhamos de sociabilizar.


*Público de 24/12

Pacheco

Reencontrar a prosa de Pacheco Pereira (no blogue ou nos jornais) e ver nela alguma coincidência de pontos de vista reforça a convicção de que não é preciso ser-se de esquerda para perceber a intrínseca leviandade ou estupidez de certo discurso tão propalado pela gente de Passos, no Governo, nos jornais ou nos blogues.
«É particularmente irritante, e socialmente perigoso, que acrescentem à miséria uma lição moral do género "têm o que merecem porque viviam acima das suas posses", todos contentes com a purga moral do país pelo empobrecimento. O empobrecimento pode ser inevitável, mas deixem de lhe atribuir qualquer valor catártico e vender como nova propaganda que, no dia em que estivermos mesmo muito pobres, vai começar a nova aurora económica, a ascensão de uma economia de sucesso, livre do Estado, competitiva e dirigida por uma "nova geração" liberal e desempoeirada.»

Sedução do eleitorado

Proposta de estudo sociológico: averiguar que percentagem (masculina e feminina) da população convertida ao discurso da miséria se deixou seduzir literalmente pelos lindos olhos de Passos Coelho.

Agência Rangel

Se Paulo Rangel concretizar a sua agência de emigração, tem cliente. Desde que pague as passagens. (Ou a passagem, sabemos que é só de ida.) Em Vimioso diz que oferecem mil euros a casais que aumentem a população. Não ficaria mal ao Governo (e seria coerente com as suas opções políticas) pagar quantia semelhante a quem se voluntarie para desemparar a loja. Com mil euros há todo um mundo de possibilidades e destinos. O amor à Pátria aumenta na exacta proporção de quanto ela está disposta a pagar para se ver livre de nós.

Mas claro que a Agência Rangel há-de ser mais exactamente uma agência de aventuras, uma coisa que inclua o risco e o revivalismo. Os clientes farão, digamos, um investimento de risco (mas com risco mesmo), embarcando numa aventura old fashioned, como agrada aos conservadores. Rangel talvez tire do museu de cera um guia que nos acompanhe até à raia, mas a fronteira há-de ser passada a salto, os rios cruzados a vau e as distâncias percorridas a calcantes. Tudo brindado a vinho verde, que é do nosso Portugal!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Males do couro cabeludo

O rapaz está sentado na cadeira do cabeleireiro. A funcionária, munida de pente e tesoura de dentes, vai desferindo golpes vigorosos. Com exuberância de gestos, levanta compridas repas da cabeleira e ataca-as como se disso dependesse a continuação do mundo. A determinado momento do labor, questiona o cliente:
— Estou a magoar?
O rapaz, com uma expressão torturada no rosto, ombros encolhidos como se tivesse deflagrado uma granada, responde o não mais sim de que K. se lembra.

(A espreitar tão discretamente quanto pode pelo vidro da montra, K. conhece o tormento do rapaz — também foi um dia cliente daquele salão. Houve um tempo em que K. podia recorrer àquele género de serviços, o luxo de um corte de cabelo a doze euros. Lembra-se de como a figura dócil, de prima carinhosa, daquela funcionária escondia uma harpia, que se revelava no momento em que as pessoas tinham o azar de coincidir no seu turno de trabalho. Também K. quis muitas vezes dizer não quando dizia o seu sim educado. Até ao dia em que começou a espreitar pela montra antes de entrar — e a retroceder nos seus passos se estava de serviço tal instrumento da Inquisição.)

Depois o equilíbrio nas forças em conflito altera-se. Acabado o desbaste, a cabeleireira entra nas minudências, e aí o rapaz tem uma palavra a dizer. Há que assegurar determinada proporcionalidade entre a forma como a nuca é rapada e os lados se penteiam para a frente. Um gesto em falso e é a vez da senhorita experimentar a violência do rapaz, patente nos olhares que lança ao espelho e nos monossílabos escandalizados que solta se ela avança por onde não deve.

O penteado de um adolescente é uma problemática que não deve ser abordada de ânimo leve. Nisto, não difere muito a época actual dos tempos de K., talvez apenas na banda sonora. K. teve o seu momento Duran Duran numa altura em que os demais rapazes deixavam crescer cabeleiras à Iron Maiden ou permaneciam nos seus cortes medianos e clássicos de burgueses anódinos ou sucumbiam à escalpelização periódica das famílias mais pobres. Também nessa altura o drama maior de uma vida se relacionava muitas vezes com uma tesoura que progredia em terreno proibido — na adolescência, o tempo que leva a repor uma madeixa é exasperante, tem escala cósmica.   

Agora K. submete-se sempre que há uma máquina disponível à estética militar, a clássica, a do pente zero. Há ameaças antigas que regressaram, piolhos, lêndeas, e quando se anda na rua dispensam-se contratempos extra. Já não estão presentes mães que nos passem com zelo pelos cabelos, acariciando agudamente o crânio, pentes de dentes juntíssimos, que nos desenriçam e livram de parasitas e outros males do couro cabeludo.

A vida de K. (5)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Onde está a piada

Exercício interessante: decifrar o tipo de riso que deflagra em cada indivíduo que se confronta com o cartoon anterior. A forma como rimos e as coisas de que nos rimos, o ponto da narrativa onde encontramos a piada — se a encontramos ou consideramos —, também nos definem.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tirado daqui.

Palcos

K. passou a adolescência a querer pertencer a uma banda rock. Hoje suspeita que passará a meia-idade a lastimar não ser um velho rocker. Pelo meio subiu a uns palcos, mas nada que possa ser visto no Youtube e de que as pessoas possam agora rir-se ou sentir saudades.

A vida de K. (4) 

Fim-de-ano-mundo

São dez a jantar, o quadro de pessoal de uma empresa. Natal, sabem como é. Na televisão há futebol e são elas que anunciam os golos. Também são elas que falam de traições ao matrimónio. São ainda elas que discutem aspectos do fim-do-mundo em 2012. Não o que resulta da crise económica. O outro, o da profecia Maia, o que se pode realmente discutir. Parece que há discórdia quanto à data específica. Haverá quem afiance ser a 12/12/12, outros colam-no ao fim-de-ano. Mas estes serão empresários oportunistas, a planearem uma passagem-de-ano de arromba. Não está cientificamente provado (enunciaram-no mesmo assim) que o Armagedão coincida com o reveillon, mas não é exagerado dizer que naquela mesa se tratou do fim-do-mundo como se trataria do fim-de-ano (opções de vestuário incluídas).
E talvez venham a dar no mesmo. Não são as melhores festas aquelas em que gozamos como se não houvesse dia seguinte? Em 2011 será talvez precoce, mas em 2012 esse espírito é garantido.

Feia

A certa altura, os homens também falaram, um em particular, o patrão, não poupando nos decibéis, depois das libações. E o que disse? Eis a transcrição, textual:
— Não consigo gostar daquela filha da puta. Penso que não passa de uma cabra de merda. Olho para a cara dela e apetece-me espancá-la.
Os outros machos da mesa estranharam ou quiseram ser irónicos:
— Não há lá nenhuma rapariga que não seja uma querida!
Ele não se comoveu:
— Para mim é mais uma filha da puta que não faz a ponta dum corno. Olho-lhe para a cara e é isto que penso.
— É feia? — perguntou uma das mulheres, mas não há certeza que estivesse a ser sarcástica, que se tivesse servido da palavra para denunciar o interlocutor.

Emigrar

O problema não está na emigração, rapazes. Emigrar é, consoante os casos, uma saída, uma alegria, uma revelação, uma necessidade, um percalço, uma tragédia. O melhor de uma vida ou o fim de uma vida. Uma oportunidade ou o fim do mundo. Cada um sabe de si.

Emigrar era, como sempre, um receio ou um desejo, um pesadelo ou um sonho. Agora é talvez uma premência. Não só porque há uma crise. 

Ridículos

O Governo está a fazer, digamos, o que pode? Aceitemos que sim. Mas não se está a transcender, isso é certo. Como tal, é um manifesto exagero incensá-lo, lamber-lhe as botas. Vocês parecem os indefectíveis de Sócrates, rapazes. Tão ridículos quanto eles foram.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Graffiti

Ainda estava longe a ameaça quando K. declarou que prescindiria do subsídio de férias ou do de Natal, ou de parte do salário, se essa fosse uma forma eficaz de aliviar problemas, prevenir males maiores. Não porque tivesse um particular peso na consciência. No que dependeu dele, não houve delírios despesistas, e pessoalmente K. não contraiu dívidas insensatas (embora não tivesse poupado). Foi sempre crítico da paixão nacional pelo betão e pelos investimentos frívolos. Não percebia porque, para o país, os melhores presidentes de câmara ou primeiros-ministros eram os que deixavam “obra”, no sentido que os empreiteiros davam ao termo. Atribuía isso a uma etimologia limitada: o povo não tinha sido familiarizado com a amplitude semântica das palavras e o erro trazia consequências à praxis dos eleitos, condicionava-lhes o desempenho (embora K. soubesse que os eleitos, iguais entre iguais, não faziam o que faziam por se sentirem constrangidos).
Porque não tinha passado de pobre a arrivista, K. abominara o espírito novo-rico da época, o consumismo exibicionista, o materialismo dominante. Quando um dia teve de trocar de carro, escolheu o segundo mais barato do mercado (por uma questão cromática, confessava esse capricho) e desagradou-lhe que não estivessem disponíveis unidades sem ar condicionado. K. não era ascético, mas de Inverno chegava-lhe a chauffage e de Verão gostava de circular de vidros abertos, cabelos ao vento.
O seu desprendimento do dinheiro não era revelação de um espírito luterano, nem era sintoma de masoquismo. Resultava da consciência de que havia pessoas em piores condições, pessoas para quem qualquer corte nos rendimentos seria literalmente (e não literariamente) um drama. E resultava também da consciência de que algumas coisas boas no país seriam postas em causa se a crise se abatesse com a máxima fúria.
Não foi por isso para K. um choque quando o Governo anunciou aquelas medidas de austeridade. O futuro, o seu futuro, preocupava-o, claro que sim, mas ele estava psicologicamente confortável com os sacrifícios. Pelo menos enquanto pensou que eles eram por uma boa causa. Ou inevitáveis. O desconforto veio quando K. percebeu que se ia atravessar a longa crise sem que fosse aproveitada a oportunidade para tomar medidas que moderassem os rendimentos dos mais ricos em favor dos mais desfavorecidos: os relatórios continuavam a indicar o crescimento descarado do fosso.

Quando caiu na rua, K. teve mais tempo para ver os grafitti, as palavras-de-ordem inscritas nas paredes. Lamentou que entre os seus talentos não estivesse o do desenho. Não gostava de pichagens abjectas ou esteticamente irrelevantes, medíocres, não gostava de borrões idiotas, palavras ocas, mas apreciava quando os autores sabiam transformar uma parede arruinada numa obra de arte, mesmo que subversiva, ou quando o humor ou a inspiração dos slogans se sobrepunham ao eventual prejuízo urbano. Ao contrário de palavras-de-ordem irónicas como «o último a sair apague a luz e feche a porta», não o costumavam entusiasmar slogans como «os ricos que paguem a crise». Mas agora, enquanto aquecia as mãos na fogueira improvisada, perguntava-se se ainda tinha razões para permanecer fiel ao seu pensamento razoável, se aquele não era o tipo de “demagogia” a que um sem-abrigo como ele estava moralmente autorizado a recorrer.


A vida de K. (3)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Naufrágio

Há algo de naufrágio declarado quando o governo e os blogues que o formataram e lhe abanam as folhas de palmeira nas faces se obstinam tanto em mandar bugiar emigrar os conterrâneos. O barco está a ir ao fundo, é notório, tanta água mete. E a culpa há-de ser em grande parte dos que estão dentro do barco, todos nós. Mas desconfio que o capitão não vai ser o último a abandoná-lo. Por enquanto, ainda é jovens e professores primeiro, mas mais para a frente há-de ser o salve-se quem puder — na esteira, aliás, de um passado exemplar.
Ainda um dia havemos de ser elucidados sobre como é que esta aposta na emigração de jovens e quadros se coaduna com aquela mágoa tão típica da direita com a infertilidade do país, o envelhecimento da população. Afinal, a juventude faz ou não falta para viabilizar economicamente a pátria?
Posso adiantar-me e esclarecer o paradoxo. A preocupação com a natalidade existia no tempo em que era preciso defender com estatísticas a falência iminente do Estado Social, agora que ele está em processo de desmantelamento já não são precisas muletas dessas.
Não tenho ilusões quanto ao que é possível o governo fazer nas condições actuais. E há uma boa dose de pragmatismo na exortação à debandada, claro que sim. Só que não precisamos de um Governo para nos dizer o que fazer quando a coisa fica preta, não é exactamente para isso que o elegemos. Seria insensato (é insensato) pedir-lhe que nos assegure o nível de vida anterior, como pedem as diferentes corporações no seu habitual egoísmo. Sempre foi insensato exigir ao Estado que garantisse emprego para todos nas profissões escolhidas, saídas automáticas da universidade para o mercado de trabalho. É estultícia conceber-se um Estado assim. Mas, por outro lado, o mínimo que pedimos a um governo é que lute pela diminuição do desemprego e estimule algo de patriotismo, ou melhor, de participação colectiva no bem comum. As pessoas sentir-se-ão mais confortáveis a pagar impostos e aumentarão mais facilmente a produtividade se o fizerem em nome de um país que se entristece com a saída dos nativos, não de um que os menospreza ou dispensa jactando-se de “frontalidade” e “pragmatismo”.
Não me repugna, porém, que o Governo exorte os conterrâneos a mudar de área profissional (como aliás também fez, diga-se em abono da verdade). Mas para que este apelo fosse mais do que mera hipocrisia, seria preciso que a economia estivesse a ser estimulada para criar emprego. Seria preciso que passássemos da fase do castigo moral (a “solução” exclusiva e beatífica da austeridade) à do vamos lá tentar resolver esta merda, nem que fosse com campanhas de repovoamento do interior, regresso ao sector primário. Está o Governo a fazer algo mais do que gerir a insolvência? Tem planos neste âmbito? Tenciona mostrar na União Europeia que assim não vamos lá e que eles também têm culpa no que nos aconteceu, que os juros que pagamos são inibidores? Não, claro que não. Por isso, quando o Governo indica a porta de saída aos seus cidadãos, não está a ser frontal — está a confessar a derrota, a anunciar que desistiu. Provavelmente antes mesmo de ter tentado.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Nem tudo está perdido

«Hello, I am 15 years old. I would like to apologize for what my generation has done to music. That is all.»

[Comentário no Youtube a um vídeo dos Beatles]

Still my guitar gently weeps

Há muito que K. não acompanhava a sua vida à guitarra. Quando se tornou feliz não soube que utilidade dar à velha Ibañez e encostou-a a um canto, a acumular pó. Não era de acordes festivos; se tinha de tocar, dedilhados e gemidos era o que tirava das cordas. A sua vocação perdeu por isso sentido, era um ofício de tempos cinzentos, desactualizou-se. Nos últimos anos, sempre que lhe pediam para tocar, K. recusava, preferia desiludir os convidados a dar o tom errado aos convívios. Se se pusesse a tocar sair-lhe-iam melodias pungentes, lamentosas, boas para embalar a melancolia. Estava totalmente fora de questão cometer essa indelicadeza, estragar as festas, deprimir a audiência. Os amigos recordavam-lhe o talento e sentiam-se vagamente saudosos de o ouvir, mas K. resistia a avivar-lhes a memória quanto ao carácter específico do seu talento — era quase tão perigoso referi-lo como exemplifica-lo. K. estava feliz, os convidados estavam felizes, se havia necessidade de música, o repertório teria de ser alegre. Entregava a guitarra a um dos outros sem sequer a afinar (mesmo essa tarefa seria plangente, nas suas mãos) e em poucos minutos a música era como devia ser.
Por mais de uma vez esteve para se desfazer da guitarra. Que interesse tinha mantê-la? Não era pessoa de acumular tralha, memorabilia. Desconfiava até que havia qualquer coisa de mórbido em conservar aquele instrumento de uma vida anterior, quase como guardar as relíquias de um morto. Censurava-se a inércia, a falta de coragem, perguntava-se se não devia temer a possibilidade de um objecto assim trazer má-sorte.
Depois os mercados entraram em pânico ou ficaram de mau humor, uma destas coisas, e K. deu consigo a pegar na guitarra. Inicialmente apenas a encostou ao peito, transmitindo os seus batimentos cardíacos à madeira. Chegava a casa, sentava-se e punha-a sobre as pernas, apoiando o tórax nela. Mais tarde, fez soar as primeiras notas. Quando deu por si, tinha deixado crescer as unhas da mão direita, voltaram os harpejos, os dedilhados, as melodias comoventes e lúgubres que saíam do nada.

K. nunca tinha tocado no metro. Agora que o fazia, perguntava-se se devia estar contente por ainda ter a guitarra ou se devia amaldiçoar-se por a ter conservado. Talvez a velha Ibañez se tivesse cansado do silêncio ou do uso indevido e tivesse exigido de volta a vida poética de antigamente. Talvez tivesse simplesmente atraído azar — mais do que atraía moedas para o chapéu.

A vida de K. (2)

sábado, 17 de dezembro de 2011

A relíquia

O Público tem na sua última página dois colunistas e uma relíquia. Infelizmente, não segue a política dos museus nacionais de fechar a página ao fim-de-semana. Mas devia. Se a ideia é ter naquele espaço representantes da direita e da esquerda, o Pedro Lomba e o Rui Tavares cumprem-na com distinção. O tipo que que entra de serviço à sexta desequilibra o arranjo. Mas não exactamente por favorecer um dos pratos da balança: antes porque acrescenta uma dimensão bizarra às coisas. No Público, há a realidade, há as interpretações da esquerda e da direita e há a visão do Vasco. É um pouco como se diz dos ingleses: bem comportadinhos nos dias úteis e bêbados ao fim-de-semana. É divertido, claro, ler-se a última página do Público de sexta a domingo, mas, como a cerveja, não traz proveito à vidinha que nos espera na segunda. Só que, instituído como está o Vasquito ao fim-de-semana, prescindir agora o Público da sua prosa seria como a New Yorker abdicar do flâneur e da borboleta. (Ou só da borboleta, pronto.)

Tendo em conta a crise da imprensa, talvez o Público pudesse proletarizar-se um pouco e ir buscar ao JN o Manuel António Pina. Ganhava-se a classe média e ganhava-se em pontaria, é certo, mas prejudicava-se a decoração da casa. Os dois são escribas sucintos, mas têm utilidades diferentes: Manuel António escreve pouco e acerta muito; os textitos do Vasco vão bem com o grafismo e as cortinas da Redacção. No dia em que acabem com ele (salvo seja) repetir-se-á o avassalador drama ocorrido quando o Público mudou de logótipo: lágrimas e ranho por uma ou duas infindáveis semanas.

Claro que se o Público dispensasse o Vasco a ERC poderia intervir. Quer dizer, talvez não a ERC — o Instituto dos Museus e da Conservação. Ou o Instituto de Arqueologia*. Uma dessas entidades tão absolutamente caras ao novo poder decerto sairia em defesa da sua relíquia queirosiana.


* Como é evidente, o Governo decidiu fundir o IMC e o IGESPAR apenas para estragar a piada.


[Nota: texto revisto e com pequenos acrescentos.]

Rosso

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Planos de vida

K. tem um objectivo de vida: acumular suficientes livros para a meia-idade (não conta ter velhice, diz que a vida não está para luxos desses). K. acredita que, nas noites ao relento, os livros dão melhor forragem do que os jornais, é preciso saber escolhê-los volumosos e de capas maleáveis. Há um livro que K. procura mais do que todos: A Guerra do Fogo. É uma demanda com razões afectivas, mas com um sentido prático, se se podem colocar as coisas assim. Em novo, K. leu grande parte do livro de J.-H. Rosny numa noite de tempestade à luz da vela e o que recorda são camadas sobrepostas de prazer: a leitura saborosa, a luz intimista, o calor aconchegante do fogão a lenha, o frio e a chuva e o vento na rua a lembrarem como é bom (e suficiente) ter abrigo e lume. Não lhe serve qualquer edição. K. precisa de uma antiga, com páginas amarelas e o cheiro certo, aquele que possa só por si evocar a história de uma infância feliz. K. acha que vai precisar desse género de sortilégios quando as noites forem mesmo frias e não houver luz para ler, ou ele não esteja com disposição para isso — K. imagina que não há muita disposição para ler quando se é um sem-abrigo. É esta a vantagem do livro impresso, pensa ironicamente, se não o podemos ler, continuamos a poder cheirá-lo e ter assim o nosso lume e a nossa noite aconchegada. (Façam isso com o kindle e o seu cheiro neo-liberal a máquina de calcular made in China, diz K., um pouco agastado.)

A vida de K. (1)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Homo Sapiens Sapiens

Aos escritores, aos editores e aos jornais pede-se-lhes que se reinventem. Aos artistas de palco pede-se-lhes pouco, talvez que se deixem extinguir sem demasiado ruído. Ao público nada se lhe pede. O público é soberano. Um dia o público vai determinar que só os urros são literatura ou música ou notícia e aos escritores ser-lhes-á pedido que grafem onomatopeias, aos músicos que sejam minimais e repetitivos, aos editores que descubram formas de embalar e vender grunhidos e aos jornalistas que nada perguntem, apenas segurem no microfone.

Como as artes, os livros e os jornais estão condenados à irrelevância ou à imbecilidade. Parece não haver público para as produções do intelecto. Não é certo, por isso, que haja um estádio para a humanidade acima do Homo Sapiens Sapiens. Mesmo que o mundo continue, a probabilidade é que os deuses nos retirem a dupla adjectivação, como as agências de rating retiram AA aos países e às empresas.

*A direita achará tudo isto inevitável e acusará a esquerda e os keynesianos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O espantalho

Fez a sua aparição numa curva da A24, na zona de Viseu. Empoleirou-se na laje de betão que serve de telhado a um barraco de apoio à agricultura — o terreno à margem da estrada é produtivo e é cultivado. O espantalho alçou-se ali, presume-se, para afastar a passarada. No entanto, há dois anos que ele fita é o trânsito, saúda-o. Na primeira passagem, a sua antropomorfia talvez assustasse o condutor desprevenido, mas com a repetição da viagem criava-se uma empatia. O espantalho era simpático, talvez até para os irmãos pássaros, um seguidor de Francisco de Assis. Provavelmente não era um espantalho, mas um totem místico, o padroeiro dos motoristas — não se vêem marcas de acidentes naquela curva.
Há meia dúzia de meses, arranjou companhia. Foi agradável vê-lo partilhar o horizonte com alguém da sua espécie, o mesmo ar négligé, a mesma forma original de combinar peças de roupa, a mesma barriguita de palha. Talvez o novo indivíduo seja uma senhora-espantalho, e, nesse caso, podemos imaginá-los por vezes a fazerem gazeta à função protectora e a olharem o pôr-do-sol nos montes (ou no mar, a imaginação não tem limites). Alguém deveria subir ali e colocar o braço de um sobre o ombro de outro.
Na verdade, talvez o tenham feito já, num fim de tarde auspicioso ou numa noite de lua cheia: na passada quinta-feira foi detectado um terceiro espantalho no mesmo telhado. A condução atenta não permitiu discernir pormenores, mas não custa aventar que se trata de descendência; o período de gestação de um espantalhinho não tem necessariamente de ser de nove meses.
Em pouco tempo, a curva da A24 ganhou uma tríade protectora, como dita o Livro. Passa-se ali e adquire-se um sorriso instantâneo — o sorriso que nos tinha sido tirado ao cruzar o pórtico das portagens, instituídas na mesma quinta-feira.
Viajar no interior do país pode ter ficado mais caro, mas há felizmente alguém que zela pelo bom humor dos viajantes, se o Governo não tem vocação para isso. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Sofisma (Requiem)

Os amigos andavam-lhe a dizer que estava a compor melhor do que nunca. Tinha uma página no Myspace e fazia para ali upload das peças que criava ao piano no estúdio caseiro. No entanto, a crise acabara com os concertos, e os discos há muito não se vendiam. Gostava de compor, mas gostava mais que o ouvissem, de preferência em directo, em clubes de jazz. E os clubes de jazz também fechavam as portas, falta de clientela. Estava a compor melhor que nunca, mas estava também mais deprimido do que nunca. Estar deprimido era importante, crucial — a música saía-lhe do sofrimento, da melancolia, do desespero. Mas isso costumava ser suportável, porque a ideia de tocar ao vivo num ambiente de penumbra e fumo (também tinham acabado com o fumo) mantinha-o vivo, a expectativa de umas horas de felicidade relegava os dias de chumbo.
Numa primeira fase, pediram-lhe sem subtilezas que encurtasse as actuações, a maior parte da gente já não ia pela música, as despesas de funcionamento tinham aumentado, era preciso estimular o consumo dos clientes, facilitar o trabalho dos empregados que sobraram. Quer dizer, a música ainda era importante, fazia a diferença, mas três quartos de hora bastavam para cumprir o ritual, não era? Meia hora. Decerto não lhe interessava tocar se não o ouviam, e nos últimos tempos era notório que as pessoas se davam menos conta do que acontecia no palco. Não era também verdade que já nem os melómanos estavam para as quatro horas da ópera? Riam-se. Mais tarde decretaram em cartel regras que proibiam encores (a sua desculpa para prolongar as actuações), mesmo se algumas mesas esquecidas da linha da frente ainda os pediam.
O circuito de clubes, que em tempos fora a espinha dorsal da noite, estava agora reduzido a meia dúzia de apêndices obsoletos, em processo de reorientação, onde pernoitavam os saudosistas e os neuróticos. Bons consumidores, mas com dívidas e em número decrescente ano após ano. Morriam sem que fossem substituídos. Pertenciam a um povo que não se renovava. O circuito era agora um bas-fond sem charme.
De modo que estava a compor melhor que nunca, mas na verdade havia meses que não compunha, salvo uns adágios, uns esboços de tema, talvez promissores, inspirados, mas sem aprofundamento, continuidade. Sentia-se derreado de tristeza e frustração — o que normalmente o fazia correr para o piano —, mas sem um palco no horizonte achava supérfluo o exercício. Morria aos poucos do esforço. Recentemente eram mais as vezes que ficava na audiência a assistir ao afundamento do meio do que aquelas em que se sentava ele mesmo ao piano. Já nem tamborilava na mesa.

Quando na última noite consultou as estatísticas no contador de acessos da sua página, ficou a olhar para o gráfico de uma empresa em bancarrota. Descobriu que em dois meses, os últimos, ninguém sequer visitara o site, as mais recentes composições não tinham sido postas a tocar nem uma vez. A não ser que houvesse avaria no servidor, tinha de concluir que os próprios elogios dos amigos eram só uma tentativa educada, instintiva, de o animar.
Antes de pendurar a corda, ainda teve um pensamento optimista: o divórcio do público libertava-o do seu compromisso com a música — e, sem razões para compor, não tinha afinal necessidade de ficar deprimido.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O povo, pois, o povo

Envelhecer traz problemas, não só aos ossos e à tripalhada. De repente damos por nós a transbordar de bons sentimentos, a mancar para a esquerda. Havendo barricadas, saltamos para o lado do povo. Infelizmente, certos acontecimentos obrigam-nos a reconhecer o erro. Não há em Portugal um povo que mereça ser salvo. No dilúvio talvez se enchesse um bote, não mais do que isso. Os nossos bons sentimentos carecem de um objecto que os justifique. Podemos criticar com razão a direita por fazer pagar o justo pelo pecador, mas talvez seja também verdade que as nossas medidas para poupar os justos salvam uma quantidade insuportável de pecadores.
Isto, contudo, não absolve Passos Coelho — obriga-o a consultar-me caso a caso.

Domingo desportivo II

Tord Gustavsen Ensemble + Kristin Asbjornsen.
Veja também Kristin Asbjornsen + Pedro Mexia (4:53)

Domingo desportivo I


O terceiro tabuleiro*

«Seria revoltante, sendo Portugal o segundo país mais desigual da Europa, não ir concertando as coisas de modo a tornar o país mais justo.»
Perante uma evidência que ele próprio enuncia e reconhece, Passos Coelho promete ser mais rigoroso com… a atribuição do rendimento social de inserção. A julgar pela sua entrevista ao Público, é assim que ele pretende, digamos, tornar o país mais justo.
Rimos ou choramos?

* Os três tabuleiros de Passos Coelho: «contas públicas em ordem»; «tornar o país mais competitivo» e, digamos, «tornar o país mais justo». Riam, riam.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pré-coito

Ela faz as despesas da conversa. Ele solta uns monossílabos, muito de vez em quando, como o ajudante de maquinista punha carvão na fornalha da locomotiva quando ela circulava sem pressas em terreno plano — displicente e sem encher a pá, o grosso do tempo encostado ao cabo. No caso, é o garfo que fica frequentemente na vertical sobre o prato, ao jeito das crianças em luta com as couves, embora ele não recoste a cabeça rapada na mão. A aposta fácil é a de que o tipo, grandalhudo, se aborrece, escolheram a sala sem TV. Para beber, uma garrafa de tinto. Na frente dele, uma parede cujo branco já viu melhores dias; na dela, a três mesas de distância, alguém lê o jornal e na mudança de página espreita os comensais.

Magra, frágil, defende-se erguendo uma barreira de palavras. Ou, não a subestimemos, ataca como pode, com uma salva de artilharia que tenta confundir o inimigo. As molduras na parede são de súbito o motivo da conversa e ele é obrigado por momentos a abandonar a sua pose egípcia para se revelar tridimensional, mas fá-lo ainda em silêncio, aparentemente desinteressado, talvez a recapitular os últimos resultados da champions league.

À passagem para as páginas internacionais, ouve-se a voz dela, um ou dois decibéis acima do discurso ininterrupto de antes. Alta o suficiente para se sobrepor aos últimos trambolhões do euro. «Aborreces-me!», diz ela. O tipo do jornal levanta a cabeça e tenciona chamar o funcionário: alguém mexeu na decoração sem pré-aviso, ou mudaram de canal sem o consultar. Acha que tem uma palavra a dizer no que toca à escolha dos programas — mesmo que afinal não haja televisão. Mas logo esquece isso para se maravilhar com a natureza humana. O cenário que tinha dado por adquirido a três mesas de distância sublevou-se e o que pode observar agora é um gajo careca e tímido que tenta segurar nas mãos e beijar os dedos finos da amada. E uma tipa magra com ar de megera que sonega a osculice do imbecil que aceitou ter por conviva. Ela esbofeteia-o depois repetidas vezes com as pontas dos dedos. Não o quer ferir, não fisicamente. Mas não se importa de o humilhar perante o tipo que se debate ruidosamente com o jornal. E o parceiro fala, por fim, solta umas palavras em voz fina, trémula, uma voz que lhe reduz o corpanzil ao recheio de um peluche: «Môr...»

Por alturas do editorial, que no Público vem nas últimas páginas, como se sabe, o que se vê é a cabeça dela entre as mãos dele, a cabeça dele sobre a cabeça dela, tudo em cima da mesa, rebolando, mas sem semelhanças com o judo ou o sumo — uma ronronice de felinos em pré-coito. A garrafa está vazia.

Osso Vaidoso


A crise e a naftalina de turno devolverão a província à sua condição subalterna e atávica — é esse o plano. A que a província aliás não se opõe. No entanto, por um hiato a província foi um local decente para habitar. Um post do Luís no Rebuçado de Mentol fez-me recordá-lo. Dezembro do ano passado. Osso Vaidoso: Ana Deus e Alexandre Soares em concerto. Um de tantos momentos inesperados. Os textos de Regina Guimarães. Também para o Teatro de Ferro. Que já agora me recorda a Circolando. E o Teatro de Marionetas do Porto. E… As harpias e os assessores de serviço farão o seu serviço obliterador, claro que sim, mas talvez a memória seja um osso duro de roer. Um osso vaidoso.

Momento Asimov II


















Roubada aqui.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O remorso de Valter Hugo Mãe

Abel Barros Baptista escreve na Ler uma crónica sobre o caso Valter Hugo Mãe e as minúsculas. Parece que alguns daqueles que antes lhe grafavam o nome como o próprio, em minúsculas, passaram a usar as maiúsculas desde que o autor se converteu à normalidade (talvez vencido pelos remorsos). Há quem dance conforme a música. É divertido. E seria ainda mais se no próximo livro Valter resolvesse baralhar de novo, por exemplo escrevendo apenas minúsculas no início das palavras. vALTER hUGO mÃE. Segui-lo-iam?

Referida assim, a questão até parece do domínio do capricho. E é. Que mais se pode chamar às opções de Valter Hugo? O uso exclusivo das minúsculas só era uma questão de estilo no sentido que a moda emprestou à palavra: oco, fútil, efémero (como aliás parece agora provado). Na literatura, o estilo não tem exactamente que ver com a forma como o escritor utiliza a tipografia. (Se assim fosse, o autor que usasse sempre a fonte Avant Garde seria talvez de imediato um vanguardista.) O estilo de Saramago, por exemplo, não se define pela escassa utilização de pontos finais e sua substituição por vírgulas, embora isso seja fulcral na obra. A pontuação usada como ele a usava estava ao serviço do ritmo, da sonoridade, da forma de pensar e narrar. Com Valter Hugo Mãe e as minúsculas não era isso que acontecia.

Creio ter lido algures uma entrevista onde o autor referiu que não usava maiúsculas porque queria que a leitura fosse mais torrencial, sem se deter muito, sem tropeçar nas maiúsculas, portanto. Ora, o que determina o ritmo da leitura é a narrativa, o enredo, a construção das frases e a pontuação, não a forma como se utilizam as maiúsculas. Tanto quanto posso julgar pelo único livro de Valter Hugo que li, a sua prosa (que tinha personalidade, mas por outras razões) não se distinguia por uma pontuação particular. Pelo contrário, lembro-me de que em certas passagens havia uma boa quantidade de vírgulas a ceifar, ali postas à maneira clássica. Se o objectivo era acelerar, o escritor rejeitara oportunidades de aliviar os travões. E a ausência de maiúsculas, sendo inesperada e contrária aos automatismos da prática da leitura, até atrasava.

Embora descobrisse no processo que não era o meu género de literatura, passei uma tarde agradável com O Remorso de Baltazar Serapião, mas cheguei ao fim a achar que o próprio escritor devia sentir remorsos por se envaidecer de tão obstinada e fútil originalidade.

Como em Saramago (ou em Lobo Antunes), o leitor despreconceituoso, ao fim de algumas páginas de leitura persistente, entra naquele universo e vai progressivamente dançando ao som da música do autor (neste contexto a dança é legítima). Mas a questão é se vale a pena o esforço. Talvez se descubra que sim, que vale a pena, mas não é certamente pelas minúsculas — inúteis, contraproducentes, caprichosas e alheias à literatura como os piercings de José Luís Peixoto.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O sentido do fim



Se vista da serra, a cidade adormece imergida num mar de nuvens. O noctâmbulo caminha nas suas ruas como se a terra fosse outra, tal a acção do nevoeiro nos objectos, nas formas, na luz, na arquitectura, na atmosfera. Puxa as golas do casaco para proteger o pescoço do frio. O dia amanhecerá gelado; a temperatura desceu e aquele manto branco, que não pretende levantar acampamento, não vai deixar entrar um raio de sol. É quase inconcebível evocar o Verão em tais circunstâncias, mas era isso que o caminhante pensava fazer, o Verão como marco miliário na distância, ponto de fuga da tela onde ele é figurante, éden cíclico aguardado com devoção religiosa. Se a revista conhecida lhe perguntasse como gostaria de morrer diria ligeiramente bêbado à beira de uma piscina. Contudo, pensa no corpo nu sob o astro e não é daí que lhe vem o conforto agora, mas da ténue protecção do casaco, da energia da caminhada vigorosa, do silêncio e da solidão extrema que um banco de nevoeiro pode proporcionar. Os carros e os transeuntes ficam em casa, tementes da humidade silenciosa, ameaça cinematográfica, e os adolescentes deixam a parvoeira para outra altura da semana, não apetece grunhir nem partir garrafas na rua em noites assim. Alguém acendeu uma lareira rústica algures, talvez um fumeiro nostálgico num anexo ou garagem, custa a crer que o lume ou o fumo tenham aquele cheiro na cidade. Decerto lenha trazida da aldeia, depois de uma temporada no alpendre, sabiamente cagada pelas galinhas e pelos gatos e pelos pássaros, curtida pelo sol e pelo vento que se esgueira entre friestas de muros de hortas e lameiros e paredes de combarros. Não, o Verão não permite este alheamento, esta deslocalização, este passear a alma por paisagens distantes sem abandonar a geografia do quotidiano. Não quando se está sóbrio, pelo menos. Pensa que talvez possa descrer do Verão sem cometer heresia. Afinal, tem de recordar que também gosta da chuva quando ela cai em Novembro, gosta de se abrigar como no útero a escutá-la com atenção, ou de levar com as suas pingas enquanto corre, o cabelo empastado e o poliéster do casaco permissivo. E gosta da geada, que deixa o céu todo à mostra, o universo primordial à vista desarmada. Da neve, luzente e também silenciosa, excepto quando estala debaixo dos pés. Não, não é o Verão — são os elementos todos. Isto não é bem uma conversão, embora seja uma epifania: o noctâmbulo é afinal devoto da intempérie como do tempo favorável. Aceita a tormenta e a bonança. Um progresso ou um prenúncio de união panteísta? Lembrança que o pó ao pó volta? A felicidade não mora assim tão longe da melancolia.

*Não, não tem a ver com o (muito recomendável) livro cuja capa e título usurpa.

Recado ao artista quando jovem

O candidato a escritor que vive a tentar equilibrar o trabalho de fundo com a diarística de um blogue um dia descobrirá que há vertentes incompatíveis na escrita. Um post de cinco linhas impede uma página de romance. Inversamente, o trabalho de fôlego faz hibernar blogues por um longo período.
A declinação das editoras surge então como convite a voltar ao trabalho, tem esta faceta positiva. É quando chega a carta com a fórmula amável que o escriba retoma o verdadeiro ofício. Uma recusa é um aviso de que o recreio acabou, já não é sério viver à sombra da obra feita. Porque não existe obra, di-lo a fatídica missiva.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Teatro Nacional

Quando Vasco Pulido Valente, a propósito do Dona Maria, insiste no «fracasso» da dramaturgia nacional como uma das duas razões para no seu entender se extinguir a instituição, dir-se-ia que na sua cabeça está um Teatro Nacionalista, não um Teatro Nacional. Não é estranho que à época da sua instituição o TNDM II pretendesse criar um repertório nacional, mas seria estúpido que mais de cento e cinquenta anos depois essa permanecesse a única ideia ou a ideia fundamental (quando, aliás, Shakespeare entrou naquela casa logo no século XIX). Ainda que aceitássemos nada se ter escrito no domínio dramatúrgico em Portugal que valesse a pena, caberia contudo explicar porque não se justifica um Teatro que apresente peças estrangeiras. O chauvinismo não parece ser razão séria — e é talvez pouco respeitável alguém que defenda um Portugal fechado sobre si mesmo.

A outra razão que VPV aponta é a inexistência de público para o teatro em Portugal. Este argumento não é de todo destituído e, apresentado na sua forma simplória, colhe em vários círculos pensantes e decisores. Poder-se-ia argumentar que, por exemplo, as Finanças em Portugal também não têm uma audiência fácil, mas nem por isso deixam de tentar existir. A resposta é que as Finanças são fundamentais para a sobrevivência do país, o teatro não. É verdade. Mas de que país estamos a falar?
Um país que dispensa o teatro com este argumento dispensa, por coerência, todas as manifestações culturais “eruditas” (ou não comerciais). Não significa isto que os utentes são necessariamente os mesmos, significa que — do teatro à literatura, da dança à história, das artes plásticas à filosofia, da cultura clássica à mais contemporânea — são todos minorias, pouco relevantes, se avaliados por uma estatística cega.
Ora, um dos deveres democráticos de um Estado é assegurar uma sobrevivência digna às suas minorias — mesmo que antropologicamente, se quiserem. Depois, se pretender integrar uma certa ideia de civilização, poderá tentar fazer mais alguma coisa.
É claro que muitos convivem bem com ideia de choldra, até para poderem continuar a usar a sua gramaticazinha queirosiana. Mas não parece ser essa a função de um Governo.

Excedeu-se o Estado português neste seu labor de assegurar a “alternativa democrática” na área da cultura? Com um orçamento significativamente inferior a 1% do OE não parece ser o caso. Tanto mais que o investimento público na área do entretenimento, da festa pura e dura, do pimba, é superior. Mas isto, mesmo que inútil, é popular, concorrido — e, enfim, não se intromete no quintal do cronista.

domingo, 27 de novembro de 2011

Plural majestático

No snack-bar, o empregado usa por sistema a terceira pessoa do plural com os clientes, ainda que estejam sozinhos. «O que ides comer?» «Já tendes a conta?» «Como quereis o prego?» «Ainda não vos trouxeram o fino?» «Ora aqui está o vosso troco.» Talvez o faça para não ter de pensar na formulação correcta quando por exemplo pergunta a um cliente se já encomendou: no contexto das suas intervenções, «já pedistes?» nunca é erro.
Infelizmente, o serviço nem sempre corresponde ao tratamento. Somos majestades para as suas palavras, mas não para a sua prestação, sofrível. E quando de repente o ouvimos perguntar «já acabaste?» sentimo-nos incomodados. As suas palavras não soam apenas a súbita intimidade, mas a verdadeira impertinência, desaforo. Um tipo habitua-se a ser tratado como merece e depois ressente-se.

Ulan Bator

Guimarães Jazz 2011. O crítico Nuno Catarino viaja a convite da organização do festival. Na abertura do seu texto declara que o evento é um caso de sucesso «apesar da sua localização condicionante». É um elogio, claro. Mas é também a habitual menorização de tudo o que não é Lisboa. (Exercício para o qual, aliás, os próprios provincianos geralmente concorrem.) Lisboa estranha casos de sucesso em terras inóspitas. Lisboa, a Lisboa jornalista, a maior parte das vezes só viaja para locais assim «a convite», como quando vai a Ulan Bator. O seu âmbito é o do termo da aldeia capital, e não apenas por uma questão de orçamento. Se alguém tem a ideia peregrina de fazer coisas a mais de uma légua, prepare-se para «convidar» os jornais se quiser ter reportagens e críticas. E mesmo assim é preciso que ao jornalista apeteça a estafante viagem.

Sobre a inutilidade do debate online

Who cares, idiots arguing on the internet. What’s the worst you can do? CAPS LOCK EACH OTHER TO DEATH?

Freqeist, no Youtube, comentando uma discussão sobre a cover dos Radiohead do tema “Wonderwall” (Oasis).

Escroques

Se os escroques permanecem, porque passou a palavra de moda?

Fernando Gouveia, algures em Portugal

Prove que é humano

Uma operação na Internet pede-me a dada altura: «Prove que é humano». Fico a olhar para aquilo, perplexo. É um pedido e pêras, para uma hora tão matutina. É um pedido exigente em qualquer altura, aliás, sobretudo tendo em conta que o espaço que me é dado para escrever é ridiculamente minúsculo. Eu já estou a pé (mais ou menos), mas ainda tenho de ir acordar a Filosofia. Ou ir bater ali à porta do meu amigo Zé. Inequívoco e conciso, eis o que me é pedido que seja. Ensaio duas ou três ideias, mas nenhuma cabe em tão apertada caixa. É então que me dou conta que o que se me pede é que copie duas palavras aleatórias escritas com letras manhosas logo acima do espaço da resposta*. Só isso. Para ser humano basta saber copiar. A que ponto baixaram a bitola. E eu que estava a ser estúpido — talvez nem precisasse de transcrever as letras para provar a minha humanidade.

* Captcha.

sábado, 26 de novembro de 2011

O funcionamento do mundo

O indivíduo espreita os seus e-mails e, sabe o diabo porquê, detém-se num que alerta para determinado perigo, certo esquema criminoso ameaçador para a bolsa privada e a saúde pública. Por vezes o filtro deixa escapar algumas destas mensagens. E outras que prometem aumentar o pénis ou depilar sem dor. (Depois do susto, percebe-se que pénis e depilar são felizmente palavras sem um radical comum.) Resolvido a perder tempo, o indivíduo abre o e-mail em análise. A coisa, tantas vezes reencaminhada, tem múltiplos pontos de exclamação e um rasto que remonta a 2009. Neste momento o indivíduo fica fascinado e parte para o Google em safari. Antes de chegar à região dos Grandes Lagos, descobre um blogue que postou o mesmo alerta e foi alvo de uma centena e meia de comentários. As reacções são de susto e indignação. O texto interessa às pessoas, preocupa-as, assusta-as, como era seu objectivo. Elas têm opiniões sobre o assunto, teorias, denunciam possíveis conspirações. Não tarda Deus é invocado, os astros, o próprio demónio. A discussão na caixa de comentários divide-se em duas abordagens: a conspirativa e a esotérica. (Alguns intervenientes jogam nos dois tabuleiros.) Os insultos entre facções afloram. Lá para o trigésimo quinto comentário, um dia depois da postagem, uma alma intervém pela primeira vez e comunica que recebeu o e-mail, notou que havia nele um nome, uma instituição e um número de telefone que pretendiam credibilizá-lo. Ocorreu-lhe que ligar para aquele número poderia evitar alguns equívocos. Fê-lo. A pessoa e a instituição existiam, mas jamais tinham emitido tal alerta, aquilo era uma fraude, já a conheciam mas nada tinham podido fazer.
A caixa de comentários do blogue fica por instantes perplexa, nota-se uma pausa na cadência das intervenções. Depois os seus habitantes retomam a actividade normal, os místicos insistem na influência das forças ocultas e os crentes em conspirações aludem ao governo e a certas corporações. Nenhum se deixou perturbar pelo instante de sensatez que acometeu o funcionamento do mundo.

Por volta do centésimo comentário, o observador retira-se, confiante. O debate não voltara a distrair-se das questões essenciais e os insultos continuavam em crescendo. Dois anos depois ainda havia gente a reencaminhar a boa nova.