quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Alberto João, esse velho comunista

Madeira, o 195.º estado

Se as eleições forem vencidas por Alberto João, nas circunstâncias actuais e com discursos como este, não resta outra coisa a fazer se não conceder à Madeira a sua desejada e merecida independência. Não seria uma secessão dramática. Na ilha e no continente, as pessoas limitar-se-iam a alinhar-se nas respectivas costas e a acenar os lenços sem grande emoção, como quando parte num navio um familiar distante.
O voto dos madeirenses não poderá deixar de ser entendido como uma adesão clara do povo ao pensamento do soberano e, por coerência, à ideia independentista, mesmo que a velha raposa fanfarrona não use o termo “independência” (todos sabemos porquê). Os restantes portugueses bocejarão ou mudarão de canal quando um dia a RTP transmitir a transferência de poder. Nem o Conselho de Segurança da ONU se oporá.

Amostragem

Nas circunstâncias actuais, vai ser interessante perceber como vão votar os madeirenses nas próximas eleições. Serão capazes de não votar em Jardim? Abandonarão finalmente o seu papel de súbditos ou de clientela?
Não estamos a observar um povo estrangeiro ou exótico. Os madeirenses, também para o que aqui interessa, são portugueses, partilham o mesmo genoma, a mesma idiossincrasia, e descobrir como reagirão ao cúmulo da desvergonha ajudar-nos-á a conhecermo-nos melhor enquanto nação.
Importa averiguar se os portugueses finalmente perceberam como é pernicioso votar acriticamente; se perceberam que o seu comportamento enquanto eleitores influencia de facto o seu futuro enquanto povo; que os erros que estão dispostos a perdoar ou de que são cúmplices se voltam contra eles próprios mais cedo ou mais tarde.
Se isto acontecer, talvez estejamos a dar o primeiro passo para sair da crise (se a crise tiver saída que dependa de nós) e para nos tornarmos um país mais decente e mais focado num bom desempenho económico e social.
Claro que por segurança é melhor apostarmos que nada vai mudar, que o soberano ilhéu continuará a ter as grandes vitórias do costume enquanto for candidato. Porque a exposição da desvergonha por si só não representou propriamente uma novidade. As pessoas sabiam, de algum modo sabiam como eram governadas (na Madeira como em tantas paróquias de norte a sul do continente). O que pode fazer a diferença é desta vez acontecer alguma coisa de facto, haver alguma consequência para Jardim e para a Madeira. E isso está nas mãos dos políticos e das instituições do Estado. Façam o seu papel, mostrem que há consequências e talvez o povo comece a repensar o seu comportamento e a fazer com que a democracia representativa funcione, deixe de ser a farsa com que nos iludimos.
De Cavaco Silva já ninguém no seu juízo espera nada de útil ou sequer relevante, mas Passos Coelho tem aqui a oportunidade de mostrar que é mesmo uma pessoa com vontade de fazer as coisas bem, que não foi apenas um tipo que soube aproveitar o momento para agarrar o lugar ambicionado e alguém obcecado em aplicar um certo programa ideológico, seu ou daqueles a quem dá ouvidos.

Público-alvar

Nos “extras” de um DVD, os actores e o realizador falam da sua ambição para o filme. Todos esperam que seja um «bom entretenimento», que os espectadores desfrutem da acção, dos efeitos especiais. Conseguido isso, seria maravilhoso se o público gostasse da história, por exemplo, se se emocionasse com as personagens, apreciasse a evolução da narrativa, a sua estrutura, e, oh felicidade, se sentisse estimulado com o suspense e o «paradoxo» do final. O realizador espera que as pessoas pelo menos não se aborreçam se não perceberem tudo. Tem confiança que não, porque a acção e os efeitos especiais, talvez a história de amor, hão-de ser suficientes para a maior parte das pessoas apreciar o trabalho.
O filme chama-se “Código Base” e é bonzito — apesar da audiência imbecil para quem, a julgar pelos testemunhos dos protagonistas, parece ter sido feito.

P.S. Não sei se isto é exactamente uma qualidade do filme, mas podem todos ficar descansados: o público-alvo consegue decerto percebê-lo e desfrutar — embora, claro, talvez se sinta defraudado no que toca a acção e a piadas de taberna. Por mais que tivesse, nunca seriam demais, dirá.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Estamos condenados a perscrutar os céus

Nuns dias aguardamos o milagre, o deus ex machina que há-de solucionar o drama que vivemos. Noutros, procuramos não ser atingidos por uma das 26 peças do satélite UARS que vão sobreviver à sua queda descontrolada. Com isto, tiram-nos o último direito — o de, humilhados e envergonhados, podermos atravessar a rua de cabeça baixa.

Tudo sob controlo

A NASA tinha duas possibilidades: planear a queda do seu satélite em lugar inóspito ou monitorizar diariamente os céus (com a mão em pala sobre os olhos) e gritar em tempo útil «cuidado com a cabeça». De um lado estava a fria tecnologia de ponta e o insosso rigor matemático; do outro, a adrenalina.
— Quando vai cair?
— Sexta-feira, mais dia, menos dia.
— Onde?
— Abaixo da Dinamarca e acima da Antárctida.*
Ou a NASA tem andado a contratar nos excedentes da função pública portuguesa ou o império americano está mesmo no fim dos seus dias. Deixar cair satélites à toa não era uma prerrogativa russa? Houston, we really have a problem.

* Este diálogo não é ficção, vem nos jornais.

Negócio de ocasião

A probabilidade de ganhar o euromilhões é de 1 em 116.531.800; a de alguém ser atingido por um pedaço de satélite é de 1 em 3.200 — e você acha o capacete caro?

Pergunta o disléxico

O satélite que vai cair é filho da Ursa Menor ou da Maior?

Esconjuro comunista

Se para acabar com o comunismo foi preciso uma perestroika, para a democracia capitalista uma troika há-de bastar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

É um pássaro? Um avião? Não, é o Superpateta

A notícia é sobre um concurso que visou escolher «o homem mais forte de Portugal» e o destaque diz: «Se houvesse dez milhões de portugueses assim, a troika não estava cá.» Num primeiro momento fica-se com a ideia de que a frase é mais uma bravata, que os nossos problemas se resolviam com força bruta, escorraçando o FMI e talvez os credores. Mas o texto esclarece. Os portugueses a que a pessoa citada se refere são gente que trabalha de dia e «treina à noite», «alguns há mais de vinte anos». «É muito sangue e suor.»
Percebe-se então que aquilo está em causa é uma defesa do trabalho, da dedicação, da perseverança. Com uma população assim, insinua-se, a economia portuguesa não teria descido até onde desceu. Não há como não simpatizar com a ideia.
A ironia é que o que a troika e Passos Coelho pretendem para o país é exactamente muito sangue e suor (eles acrescentam lágrimas). Ainda vamos descobrir, portanto, que na pátria não se estão a implementar medidas económicas, mas um programa de body building. Passos Coelho não é um primeiro-ministro, mas o personal trainer de dez milhões de cidadãos. O que se visa não é diminuir o défice e o endividamento, aumentar a produtividade — é que cada português seja capaz de levantar um pneu de 350 quilos ou arrastar um camião TIR.
Mas conhecerá Passos a receita dos strongmen? Trabalhar, treinar e comer, «não há outra hipótese». «Muitas proteínas, arroz, batata e feijão». Ora, tudo indica que esta parte da receita vai ser negada aos portugueses, pelo que, mais do que strongmen, o que se nos pede é que sejamos um tipo original de supermen: anoréxicos, mas pujantes. Escanzelados, mas fortes como touros. Uma espécie de Superpatetas, talvez. Alimentados a amendoins.

Força bruta

O concurso referido acima foi vencido por um tal Adérito Santos (35 anos, 139 quilos). Mas isso só aconteceu porque Alberto João Jardim não participou. O madeirense (68 anos e umas boas arrobas) é na verdade o homem mais forte de Portugal. Não vira pneus nem arrasta camiões, mas até à data vergou 18 (a caminhar para 19) governos da República e parece que se prepara para arrastar 92 mil quilómetros quadrados de território para um buraco ainda mais fundo. Sem um arranhão e mantendo um belo sorriso nas ventas.

A besta sou eu?

Há quem defenda que o segredo da força de Alberto João está na sua condição de ilhéu: a insularidade tonifica os músculos e fortalece o carácter. Por outro lado, um estudo mais apurado do carácter em questão poderia indicar que a sua singularidade se deve a outra palavra com o mesmo radical: insolação. No entanto, os resultados da contenda relatados no post anterior deixam sérias dúvidas sobre quem na nação tem apanhado sol a mais.

Bairrismo

Já agora, uma curiosidade: a notícia (de página inteira) que serviu de base a estas patetices é, aparentemente, sobre o concurso que o Porto acolheu, mas na verdade é apenas uma demonstração de bairrismo bacoco da secção Local (Norte) do Público. A foto e o texto não destacam o vencedor, mas um dilecto e vencido filho da terra das francesinhas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Passadeiras

Atravessar uma passadeira não é só o modo correcto e (eventualmente) mais seguro de cruzar uma rua. É também uma forma de exposição, uma submissão aos olhares críticos dos automobilistas, ao seu escrutínio indiscreto.

Em certa óptica, uma passadeira é uma passerelle, com a diferença de que nesta só desfila quem o deseja, muitas vezes concretizando um sonho de vida. Na passadeira, o que os tímidos ambicionam é ser invisíveis, porque receiam os longos segundos em que o olhar dos condutores pousa sobre eles, avaliando, procurando os defeitos, as excentricidades, tudo aquilo que lhes permita (aos automobilistas) desdenhar para si mesmos do peão que os fez usar os travões.

Enquanto os inseguros sempre que podem escolhem uma pausa no fluxo de veículos — não raro aguardando a uma distância que não traia a intenção de atravessar, ou, se descobertos, concedendo prioridade aos carros com um gesto de falsa indulgência com a pressa alheia —, outro género de pessoas aprecia a sensação de fazer parar o trânsito. Os seguros de si revelam-se até ousados, por vezes temerários. Põem o pé na estrada num confronto claro, num desafio aos condutores — ou às leis da inércia e do atrito, em certas alturas. A devassa dos olhares alheios não os incomoda, sentem-na como uma carícia, gostam de ser apreciados.

Uma estatística que incluísse elementos psicológicos das vítimas diria que os tímidos são mais propensos a atropelamentos na passadeira: não têm uma aura que desperte os olhares, que convide os automobilistas a pararem para observar. São, ironicamente (quando não fatalmente), mais invisíveis do que julgam ser.

Por outro lado, os extravagantes, ou sobretudo as mulheres vistosas, num mundo que tudo escrutinasse e anotasse figurariam nos relatórios das companhias de seguros como “causa” vulgar de batidas pela retaguarda. Alguns automobilistas, na sua exposição à seguradora, diriam, sem mentir totalmente, que foram forçados a parar. Mas seria fraco álibi: o perito sagaz que quisesse poupar despesas à sua empresa escreveria um parecer de moralidade irrefutável: «O segurado deve assumir a culpa no sinistro, já que a sua paragem na passadeira não se deveu ao respeito pelas regras (e pelo peão) mas a um impulso de macho voyeurista que não soube reprimir como lhe competia.»

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O gosto do proletariado

Como a televisão, embora em menor medida (dada a profusão de estações), também as rádios são veículos de previsibilidade. Os “sucessos” que emitem são-no não porque a audiência tenha elevado certas músicas a essa condição, mas porque as estações apostam nalguns temas (e podemos não estar só a falar de música) para esse estatuto, passando-os até à exaustão, conseguindo que sejam de facto os mais ouvidos. Não por mérito, mas por preencherem todo o espectro sonoro disponível.

E, porque também as rádios têm pânico de emitirem para o vácuo, as suas apostas são seguras, não é ainda aqui que há riscos, novidades, surpresas. Como a televisão, as rádios são uma peça na engrenagem do ciclo vicioso.

O que espanta é que, apesar de todo o esforço e manipulação dos agentes da previsibilidade (podemos incluir aqui os jornais, os media em geral, em larga medida a própria Internet), o que espanta é que subsistam focos de originalidade criativa no mundo e espíritos curiosos que navegam nos interstícios do sistema dispostos a serem surpreendidos, enriquecidos com o diverso e o novo. O que espanta é que, apesar do empenho concertado de governos e media, não tenha ainda crescido lã nas costas de todos os cidadãos e cascos nos seus pés.

É um espanto optimista, este, um maravilhamento com a natureza humana que talvez se alimente do dia luminoso e quente que esteve hoje. Estendamo-lo, resistamos ao Outono que se aproxima, permitamo-nos por momentos aliviar o cepticismo, o pessimismo ontológico; perguntemo-nos como seria o mundo se não tivesse sido inventada esta contradição nos termos: uma ditadura do (gosto do) proletariado dirigida superiormente.

Beleza enfadada

O ar de enfado ou de permanente irritação que ostentam muitas daquelas mulheres e raparigas que visivelmente se afanam a aprimorar ou a manter a beleza é pura eloquência. De quê? De uma superioridade que se impacienta com a banalidade do universo? De uma perfeição que não suporta a feiura e a vil natureza do resto da humanidade? É expressão indissimulável de deuses caídos e obrigados a habitar o repugnante mundo terrestre?

Talvez aquela eloquência apenas traia o esforço e o desapontamento dos seres em questão. O esforço sobre-humano a que obriga aquele tipo de beleza (disciplina, vigilância, concentração, exercício, dieta, investimento) e o desapontamento que vem de, depois de tudo, a pessoa continuar humana entre humanos, triste, vulgar, quotidiana e agastadamente humana.

Ou talvez aquela seja a expressão adequada e recomenda por especialistas em beleza para manter a frescura da pele e a tonicidade dos músculos faciais. Para manter um estado, uma condição, um nível de aperfeiçoamento que um sorriso, uma manifestação de agrado, de espanto, ou outra qualquer reacção emotiva, claro, faria desabar irremediavelmente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Se a questão é alijar carga

Numa altura em que o Governo trata de vender ao desbarato património e recursos nacionais, talvez a privatização da Madeira há pouco proposta no café fosse uma alternativa a ter em conta. Para além de eventualmente trazer alguma folga orçamental ao País, resolvia o problema da sempre adiada secessão da ilha — poupando ainda no referendo. (Tal como para as demais privatizações, o Governo nem precisava de perguntar nada aos portugueses.)

P.S. Alberto João manda dizer que privada já a ilha é, seus cubanos invejosos.

A profundidade das prateleiras

O zapping radiofónico apanha na Antena 3 o que parece uma conversa sobre livros. Falso alarme: apenas um fait divers a meio de mais um programa banal. O assunto é, naturalmente, cómico: um artigo da Economist revela que a Ikea tenciona remodelar as suas prateleiras de livros (modelo Billy), tornando-as mais fundas para que possam albergar bugigangas e brique-a-braque — aquilo que as pessoas de facto lá põem. Ainda mais agora que os e-books se popularizam.

A classe média pode enfim respirar. Está, de hoje em diante, dispensada de comprar enciclopédias e calhamaços para mostrar sofisticação intelectual. O que se lhe pede é que encha a sala de tralha. Ainda mais.

O fim do livro impresso parece ser a alegria de muita gente (não só da classe média). Mas eu se fosse aos fãs do livro electrónico não me dava precipitados ares de superioridade: não tarda os fabricantes do Kindle e afins estão também a conceder mais desta “profundidade” às prateleiras dos seus aparelhitos: o povo vai com toda a certeza querer lá meter muita bijutaria no lugar de livros.

A ilusão do ecrã (ou o elogio do livro impresso)

Por outro lado, ainda há quem reconheça utilidade ao velho livro. Ou descubra o quanto um ecrã pode ludibriar:


(O elogio do livro neste caso não coincidiu com uma boa crítica à obra: quatro pontos e meio em dez. Confira.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Façanheiros…

Uma das coisas que a crise financeira iniciada em 2008 necessariamente faz (ou devia fazer) é interrogar como é que o sensato pessimismo antropológico da direita  se coaduna com a crença fervorosa num mercado desregulado. Para além da natural dificuldade de resistirem aos muitos crimes possíveis num mercado assim, ficou evidente que não só os agentes económicos são também capazes de agir irracionalmente, e portanto contra os interesses do sistema, como são capazes de arriscar “irracionalmente”, porque sabem que no fim estará sempre o Estado para cobrir as falhas.
Esta é a chave. Num mercado verdadeiramente livre, o Estado não poria a mão por baixo de especuladores ou instituições que arriscaram de mais. Só que aparentemente não o pode fazer, porque as consequências do risco estúpido afectam o resto do mercado e, no final, a sociedade. Os especuladores sabem-no ― por isso, como personagens façanheiras, riem do “risco”.

…e façanhudos

É claro que os mais radicais defensores do mercado livre, que acreditam nos «efeitos benéficos da cobiça», defendem, para serem coerentes, a queda dos fracos e dos que falham, defendem que o Estado os deixe cair.
Não podemos deixar de ver nesta proposta a defesa de um darwinismo social. Um apelo ao velho farwest. De onde, de resto, vêm muitos destes arautos. Não é portanto uma proposta civilizacional (a civilização é solidária, regrada e policiada) ― mas uma tara. Não é um sistema filosófico ou político ― mas um remake cinematográfico. Não tem um pensador a inspirar o movimento ― tem o John Wayne. O que explica tudo. As suas ideias não assentam em reflexões, experiências, conhecimento, estudo ― assentam na sela de um cavalo.

Ideólogos versus idealistas

A maneira como certos ideólogos do mercado livre acreditaram no comportamento racional e responsável dos agentes económicos (esqueçamos por um momento que a irresponsabilidade é gratuita nos mercados, como dito aqui) aproxima-os dos mais cândidos idealistas de esquerda. Estes dois grupos, aliás, começam a partilhar outra característica: a descrença no homem. Os primeiros, desde sempre, por herança de pensamento; os segundos, recentemente, vencidos pelo cansaço e pelas evidências, a ver no panteísmo uma compensação emocional. A diferença é que os idealistas tendem a mobilizar-se pelo ambiente e os ideólogos tendem a destruí-lo.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Agentes da previsibilidade

Televisões
Quando as televisões generalistas fazem referência em horário nobre à estreia de um espectáculo de teatro, esse espectáculo é uma comédia ou tem actores que a própria televisão mediatizou noutras actividades. Na maior parte das vezes verificam-se as duas situações: é uma comédia com actores mediáticos.
De resto, não é por atribuírem importâncias às artes do palco que as televisões referem os espectáculos. Fazem-no para apanhar boleia do impacto que sabem que aquelas peças (jornalísticas) vão ter. É a mediatização a alimentar-se de si mesma. É notícia aquilo que a figura pública faz quando é feito por ela, não por alguém desconhecido. O mesmo espectáculo protagonizado por actores desconhecidos (ainda que excelentes) jamais terá honras de fecho de telejornal.

A televisão teme não ser vista. Vive nesse pânico. Torna-se histérica. Patológica. Deixa de ser um veículo de imagens, janela do mundo, para se tornar espelho de si própria. Aquilo que uma vez funcionou, foi visto pelos espectadores, é tudo o que a televisão arrisca mostrar. Apressa-se a deitar fora o que quer que tenha ficado um grau abaixo das melhores expectativas. Reduz o foco da sua atenção até, no futuro, não restar mais do que um pixel no centro do ecrã. O mais mediático pixel da história da humanidade. Devemos ansiar por esse dia.

Mecenato
Algo parecido acontece com o “mecenato” em Portugal. Com a fraca excepção dos equipamentos nacionais (em Lisboa e Porto), nenhuma empresa ou instituição patrocina a sério as artes neste país. Os patrocínios vão todos para artistas ou eventos mediáticos (por definição capazes de sobreviver sem apoios). Isto porque as empresas e as instituições (mesmo que em parte do Estado) não tencionam prestar nenhum serviço público. Como as TVs, querem apenas apanhar boleia do que é mediático, promoverem-se a si mesmas. Na verdade, o que fazem é comprar espaço de publicidade nos cartazes ou nos palcos das actividades que dizem apoiar. E que, perversamente, promiscuamente, acabam por apoiar de facto, promovendo ainda mais o que já é sobejamente conhecido e não raro medíocre.

Decisores
Isto não acontece porque o panorama artístico nacional, aquele que resiste apesar de tudo, seja miserável. Não é. Acontece porque a sofisticação cultural da maioria dos empresários e responsáveis deste país é nula*. Televisões, instituições e empresas estão-se nas tintas para a arte. São apenas agentes da previsibilidade, elemento e alimento do ciclo vicioso.

Público
O grande público é apanhado nas voltas deste ciclo vicioso, verdadeiro rolo compressor de mentalidades. Tudo o que lhe é dado a ver, tudo o que levam até ele, é aquilo que ele conhece. Não o questionam, não lhe pedem a opinião. Não o tratam democraticamente, apresentando-lhe em pé de igualdade um leque de alternativas para que ele possa escolher, em liberdade. Não o respeitam, portanto. Não o deixam ser livre. Não arriscam.

* Um estudo interessante e esclarecedor seria aquele que divulgasse a quantidade de vezes que, nos últimos anos, entraram num teatro, e para ver que espectáculos, os responsáveis por empresas e instituições e opinion makers nacionais. E, já agora, também o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da Cultura. 

Agentes da previsibilidade II

Não raro, em defesa da feira de vaidades instituída, é dito que a mediatização de intérpretes concedida pelas televisões é benéfica para o teatro. Que de alguma forma essa mediatização foi responsável por devolver público ao teatro. Mas a questão é esta: de que teatro falam? Salvo honrosas excepções, as vedetas de televisão sobem aos palcos para compor o orçamento (ou o ego) com umas comediazinhas ligeiras, muito vezes verdadeiramente execráveis. Que de quando em quando são apresentadas como exemplos de produção verdadeiramente “independente”. E rentável, claro: apostam sempre no número (de circo) vencedor.
A não ser se pretenda que teatro passe a ser sinónimo de comédia, que se pretenda reduzir, digamos, dramaticamente a amplitude da disciplina, amputá-la dos seus múltiplos ramos, purgá-la de géneros, correntes, autores, a não ser que o objectivo seja esta simplificação extrema (ideia que certamente excita muitas cabecinhas), a mediatização não tem servido de muito ao teatro. Quantos dos “famosos” aproveitam a sua fama para dar visibilidade a alguma forma de teatro que não seja a esperada pela TV? O métier português não é como o londrino, pois não.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um par de cabeças garrafas vazias

Na esplanada, como se a avisar que o bom tempo não é para levar demasiado a sério, sopra uma súbita rajada de vento. Da mesa de duas mulheres caem duas garrafas de plástico. Elas ficam a vê-las rebolar. Não têm um gesto instintivo para deter a queda, não se levantam depois. Viram sem sobressalto as cabeças e ficam, estáticas, a observar o percurso imprevisível das garrafas até o atrito vencer a inércia. Não mexem ou pestanejam. Dir-se-ia que calculam, ou aguardam para ver, o sítio exacto onde se hão-de dirigir para as apanhar. As garrafas detêm-se. As duas mulheres voltam-se uma para a outra e recomeçam a conversa onde a tinham interrompido. Aquele hiato não serviu afinal para traçarem a rota mais directa para as garrafas, a forma mais cómoda e discreta de as apanharem.

O tempo suspendeu-se ali na esplanada. Tudo esteve de alguma forma pendente da trajectória seguida pelas garrafas de água. Não saberemos que pensamentos as mulheres tiveram. Talvez tenham avaliado a sua amizade ou tomado decisões sobre certos aspectos das suas vidas. Não é crível que, como o tempo, se tenha também suspendido o fluxo de consciência delas e a única coisa a acontecer no mundo, registada pelos olhos mas não pelo cérebro, tenha sido um par de garrafas a rolarem vazias e sem objectivo pelo passeio de cimento.

O vento incidiu de determinada forma e com energia potencialmente mensurável. Podemos considerar que houve uma relação directa entre o trajecto e o tempo que as garrafas demoraram a deter-se e aos pensamentos que tiveram lugar? Se houve conclusões, poderão elas ter sido influenciadas por aquela rajada de vento? Seriam outras se as garrafas tivessem descrito outro percurso, rolado mais ou menos algumas vezes?

Quase certo é que o inverso não se verificou. O olhar das mulheres não influenciou o movimento das garrafas, a não ser que queiramos dar crédito à telecinética. Caso o tivesse feito, caso elas tivessem decidido onde e quando paravam as garrafas, tinha sido uma intervenção inconsequente: não aconteceu nada depois disso.

Na verdade, nem tudo foi mistério ali na esplanada. Sabemos que a pausa das mulheres não representou uma tentativa frustrada de vencer a preguiça ou a indiferença. Sabemos também que elas não gastaram aqueles segundos com a metafísica do civismo, a ponderar quanta solidariedade lhes merecia o empregado de mesa. Ou então foi exactamente isso que fizeram — e concluíram que o pobre não lhes merecia nenhuma solidariedade. Tinha mais era de apanhar o lixo delas, ora essa.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Who you gonna call? Ghostbusters?

Não, o problema português não foi apenas elevar a despesa e o consumo a níveis sem correspondência com a produtividade. Não foi só o esbanjamento. O endividamento. Se fosse apenas isto, porque estariam a explodir de raiva os funcionários da denúncia? Porque espumariam? Porque se pareceriam tanto com o professor despótico que assombrava The Wall, olhos a saltar das órbitas?
O que leva aquelas almas da indignação à apoplexia é que, em simultâneo com o regabofe, perpassou pelo país, aqui e ali, uma brisa de civilização. Algumas pessoas permitiram-se sonhar com um Estado ao serviço do cidadão, cultura descentralizada, assistência na doença, serviços abrangentes e próximos, disseminados.
Onde já se viu? Quem se julgou esta gentinha?
O professor nazi que agora nos fustiga não nos censura tanto o desacerto das medidas tomadas, a insensatez das políticas seguidas. O que o deixa fora de si é a própria ousadia, a veleidade em si mesma. A impertinência que os vermes tiveram de pretenderem mais do que a sua condição.
Agora não nos basta arrepiar caminho, pagar as contas. Depois de nos saltarem à estrada de dedo em riste, os inquisidores vão querer ir mais além, habitar-nos os sonhos, assombrar-nos as noites de descanso. Que de resto não merecemos. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O último estrato

Não raro, do alto de quatro décadas de carreira, escritores consagrados declaram com tédio o fim próximo da literatura. Sentados nos seus trinta volumes publicados, não os incómoda que a literatura acabe. Já estão servidos. É, aliás, melhor que acabe. O ideal é ser-se o último estrato geológico, pensam sem o dizer.

Vasco Pulido Valente e o equívoco*

«Durante trinta anos, Portugal gastou bastante mais do que ganhou» e agora tem de pagar os desvarios. Num ano ou dois.
Aquele é o diagnóstico (de resto acertado), e esta é a sentença, pronunciada com um sadismo de velho mestre-escola.
Percebo o furor. A um queirosiano não são permitidas meiguices. Depois de Uma Campanha Alegre, malho que hesite não conta. No entanto, a venerável retórica de Vasco Pulido Valente, se serve para nos divertir, não serve a verdade.
O endividamento de Estado não foi uma originalidade nacional, mesmo tendo em conta os níveis absurdos que atingiu com Sócrates. Durante as últimas décadas, esta foi uma praxis ocidental, aliás incentivada pelo sistema económico internacional vigente, com manifesto regozijo dos mercados. Um estado que resolvesse seguir um caminho diferente ou era nórdico ou era estúpido. Ora, não consta que haja fiordes em Portugal e desde 1986 que a Europa não nos deixa ser (demasiado) estúpidos. Pelo contrário: de alguma forma, a Europa indicou-nos este caminho, ao “sugerir-nos” que não havia necessidade de produzirmos tanto em áreas como a agricultura e as pescas, por exemplo.
O descalabro poderia ser evitado? Claro. Aqui como na Espanha ou em Itália. Ou nos Estados Unidos. Mas, de certeza que cinco anos atrás havia assim tanta gente favorável a uma mudança de paradigma económico (que é aquilo que está em cima da mesa)?
Um destes dias, a Europa e os EUA vão descobrir que não se resolve em 24 meses um erro colectivo velho de trinta anos. Isto muito antes de descobrirem que a premissa de crescimento permanente em que assenta o capitalismo também terá de ser revista.

*Público de hoje.

Qual o rating da naftalina?

«A secretaria de Estado [da Cultura] tem um papel na discussão do que deve ser o repertório de um teatro nacional.»

domingo, 4 de setembro de 2011

Música para as trincheiras

Peter Gabriel é alguém que respeito na música. Quando levanta a voz, petrifica. De vez em quando, fá-lo, com aquela sua voz que continua rouca mesmo se projectada umas oitavas acima do que seria de esperar em alguém com tão respeitável careca.
No álbum “Scratch My Back”, de 2010, tem algumas versões admiráveis de temas de outros músicos. “Heroes” (David Bowie), “Listening Wind” (Talking Heads) e “My Body is a Cage” (Arcade Fire) são as minhas preferidas (não só porque já gostava dos originais), junto com “Street Spirit” (Radiohead). Nesta última, se por um lado deixa que a idade ou a emoção lhe cortem a voz em certos falsetes, Gabriel lembra noutros momentos mais graves o nosso Vítor Espadinha. Mas isto deixou de ser vexatório desde que o mais romântico dos portugueses participou numa das grandes canções da música lusa. Conferir aqui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

No videoclube I

Com frequência talvez patológica, mas também com um certo desespero probabilístico, o artilheiro arrisca escolher filmes de aspecto e sinopse mais do que duvidosos. Em certos dias maus apetece um pouco de aventura, um thriller, suspense, ficção científica. E os períodos de crise económica têm muito dias maus. O organismo reage à depressão convocando o adolescente que ficou cá dentro, como um alter-ego, como o super-ego que combate o mal.

Um filme é uma porta aberta para um outro mundo. Ou deveria ser. Na esmagadora maioria dos casos, um filme é uma porta aberta para um território que já visitámos, para um lugar-comum, é um déjà vu, um plágio, em suma.

Está errada a ideia de que um argumentista é um criador. Não é. Ocupa na actualidade o lugar que os monges copistas ocupavam na Idade Média. Ei-los ali, pachorrentos, alinhados num claustro, a copiarem pacientemente o modelo que lhes foi facultado, com melhor ou pior letra, consoante a habilidade de cada um (quase sempre escassa — são pouco mais do que ignorantes, iluminados apenas por uma vela, ou uma tocha).

Talvez os argumentistas, inspirados um dia pela obra, seja ela qual for, tenham achado que era sua função propagá-la, como os seus ancestrais faziam com a Bíblia. Não se trata, afinal, de conceber produtos originais, de trazer novidade ao mundo, estimular a imaginação dos clientes dos clubes de vídeo, ou dos assinantes da TV Cabo, do Meo. Trata-se de proselitismo. A obra revelou-se aos argumentistas e eles querem que nos convertamos a ela. À força.

Ou talvez não seja nada disto. Talvez as companhias cinematográficas tenham feito estudos de mercado. Avaliado as capacidades mentais do espectador médio, do cidadão médio, bitola por que o mundo se rege — e se dana. Como pode comprovar qualquer pessoa que já tenha ido a um cinema popular, o espectador médio perante um filme novo, com argumento original, perde-se, não consegue seguir a história, aborrece-se, fica como um boi a olhar para um palácio. O boi quer erva igual e abundante, um pasto a perder de vista com milhões de pezinhos de erva replicando-se exactamente uns aos outros. Porque haveria o espectador médio de ser diferente? Porque haveria de desejar mais do que a enésima repetição do mesmo argumento?

Daí que as novas gerações de argumentistas já não frequentem cursos de escrita criativa. Vestem hábitos de serapilheira e passam temporadas em mosteiros a aprimorar as iluminuras.

A talhe de foice

Um dos filmes mais bem sucedidos dos últimos tempos, com seis sequelas, chama-se “Saw”. Saw, estão a ver a desarmante franqueza? Saw: viu um, viu todos. Um sucesso que se repete.

No videoclube II

Casal, por volta dos trinta. Ambos arejados, bem-dispostos. Entram com à-vontade na secção porno. Talvez em busca de um estímulo extra para o serão. Devem diverti-los as possibilidades de escolha porque cá fora ouvem-se com frequência gargalhadas. Também se ouve quando ela diz: «Esse não, um que tenha alguma história.»

São, afinal, como os casais que vasculham secções, digamos, mais ordinárias (banais, pronto). Acção, policial, terror, suspense, drama, ficção histórica, ficção científica, comédia, pornografia, you name it: eles apenas e sempre interessados na acção — elas a reclamar um pouco de narrativa.

(O mesmo perante os cartazes do cinema. O mesmo perante a vida. O cromossoma y não determina apenas o sexo: determina igualmente o lugar na escala evolutiva.)

Fast forward

No tempo da minha adolescência, eram os rapazes que associavam narrativa a pornografia. Não todos. Aqueles educados no pudor ou na vergonha das coisas do sexo. No pânico dos adultos. Se tínhamos de falar da nossa “vida sexual”, corávamos e dizíamos: sim, gostamos de pornografia, mas com história. Como se, para o caso de aquilo chegar aos ouvidos dos adultos, deixássemos implícita a indignação: somos por acaso alguns animais, coelhos? Éramos, claro. Ou desejávamos ser. Urgentemente.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Os homens da limpeza

O Ministério da Cultura não deveria ter terminado para dar lugar a uma secretaria de estado da cultura. A questão, sabe-se agora, não era um emagrecimento estrutural — era uma mudança de ramo. Do mesmo modo, a Direcção-Geral das Artes deveria ter mudado de nome — por que também mudou de ramo.
As notícias que vêm a público sobre estes organismos não são sobre cultura, são sobre outra coisa qualquer. Por exemplo, a DGArtes «passou a disponibilizar [online] todos os apoios concedidos às entidades financiadas pela Secretaria de Estado da Cultura»*. O objectivo é «implementar uma política de transparência entendível a todos os cidadãos». Além disso, a DGArtes «anunciou ainda que pretende iniciar um processo de monitorização e avaliação do trabalho efectuado pelas entidades beneficiárias, cujo resultado final esteja acessível de forma “clara e transparente a todos os cidadãos, sem filtros nem obstáculos”».

Não são estas notícias que estão mal, ou as iniciativas de que elas falam. Isso está muito bem, aplaude-se, é o que se espera de todos os organismos públicos. O problema é a total ausência de notícias sobre o que pretendem fazer as duas instituições em relação ao seu principal mister, a (com licença da palavra) cultura. Se vieram só para desratizar, deveriam ter tido a franqueza de se apresentar com as credenciais certas: Secretaria de Estado da Higienização. Direcção-Geral da Desparasitagem. (Talvez também Ministério do Fomento dos Tribunais Populares.)  

Caso alguém, por distracção, lhes venha a perguntar se consideram importante para um país ter teatro, dança, artes, os homens da limpeza, naturalmente dirão: Isso não é da nossa alçada. E com razão.

A dúvida agora é saber se o Executivo tem em mente, para o futuro, a criação de estruturas na área da cultura ou se apenas reformulará o organigrama governamental, como é forçoso, transferindo as duas instituições acima referidas para o ministério que tutela o Ambiente.

* Não é medida nova, mas parece que os almeidas não conseguiam ler o PDF que anteriormente se publicava.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Terras pequenas

O fenómeno repete-se de norte a sul. Há terras que se rejeitam a si próprias. Terras que se desprezam por serem pequenas, por serem peculiares. Que se envergonham de estarem onde estão e passam o tempo a olhar para lá das colinas, para os subúrbios da cidade. Que não querem ser acolhedoras ou simpáticas ou bonitas ou ter qualidade de vida. Terras que apenas querem ser grandes e indistintas. Terras que não querem ser amadas por quem esteja disposto a isso.

O forasteiro chega sinceramente disposto a gostar da terra. Percorre a paisagem em volta e apenas repara onde ela é bonita, como um convidado educado. Nas ruelas, ignora os atentados urbanísticos, os edifícios incaracterísticos, devolutos, as ruínas sem história. Só lhe interessam esta fachada, aquela varanda, a inesperada beleza de um portal, a rua inteligentemente preservada, quando ela existe. Os seus olhos filtram a feiura, programados para descobrirem o que a terra tem de melhor.

A memória do forasteiro está habitualmente solidária com o seu desejo de se encantar. É uma memória amestrada e grata, apenas pretende coisas boas para o portador. Se não houver percalços, se a terra se deixar abraçar e desfrutar com prazer, como os gatos quando se lhes passa a mão pelo dorso, o forasteiro ficará rendido e a sua memória escolherá as imagens para guardar como quem selecciona as melhores fotografias, as que vai de certeza desejar-se ver mais tarde. Uma terra assim será sempre uma localidade bonita e simpática. Recomendada. A que apetece voltar. Onde apetece viver.

Mas se a terra não fizer a sua parte, se não acrescentar algo de imaterial aos seus dotes, o forasteiro experiente não volta — sabe que a beleza passiva desmorona à segunda visita. Nenhum olhar é virgem duas vezes. No segundo momento, o feio insinua-se — e vence, se a terra não tiver outras armas, outras formas de seduzir. Sobretudo se, conquistado pela natureza, pela pedra, pela cal, pela arquitectura, pela história, o forasteiro não for embalado do mesmo modo pelas gentes da terra.

São as gentes que tornam as terras feias, não a pobreza, não a distância, não a natureza agreste. São as gentes que desfazem o encanto das terras pequenas; elas por si só, entregues ao tempo e à erosão, mantêm-se encantadas, por vezes reforçam o encantamento na proporção inversa dos telhados abaulados, das paredes que caem. O forasteiro não diz que ruínas tão feias, mas é natural que às vezes lhe sai-a com um suspiro que terra tão mal habitada. As ruínas permitem-nos imaginar vidas diferentes de outrora, povos amáveis, empreendedores, comunidades acolhedoras, em paz com a sua terra natal, a darem o melhor dos seus braços e da sua inteligência por ela, mesmo que depois um destino ingrato lhes troque as voltas. Uma terra habitada não pode disfarçar a sua hostilidade, a sua inércia, a sua amargura, a sua auto-complacência, a sua vontade de ir embora. Uma terra habitada vai ser cada vez mais deserta se não aprender a ver-se pelos olhos dos forasteiros. A tomar os forasteiros como os seus próprios olhos, os olhos da terra. Um forasteiro é um vizinho em devir — ou alguém que inconscientemente decide não voltar para não quebrar o encantamento que lhe ficou de algum momento em que as ruas estavam desertas de gente.

Terras pequenas II

Os habitantes de certas terras pequenas gastam o seu tempo de vida a suspirar pela grande cidade. Por vezes sabem que jamais se mudarão para a grande cidade. Alguns até suspeitam que há algo de bom em morar numa terra pequena, falta só um clique para o bom ser perfeito. Mas, no seu complexo auto-sustentado de morador em terra pequena, acreditam que o clique em falta só está ao alcance dos moradores em cidade grande.

Então o cidadão entedia, ressente, projecta no exterior, no forasteiro, as suas frustrações. Não cuida do que a terra tem de bom. Não alimenta o seu amor pela terra (embora alimente o seu bairrismo). Deixa de acreditar na terra. Deixa de acreditar em si, ele que já acreditava tão pouco.

Este tipo de morador de terra pequena não imagina que a sua profissão pode ser um contributo para a qualidade de vida da terra. Trabalha por necessidade, o menos possível, aborrecido, de trombas. Fica à espera de um forasteiro que possa hostilizar. É nisto que ele se realiza; aqui encontra algum ânimo. Alguém que visita a terra ou que nela vem viver pela primeira vez tem de deixar às portas da povoação toda a veleidade, como às do Inferno se deixa a esperança.

São os regulamentos da terra, que o forasteiro desconhece, mas cuja aplicação, por mais desactualizados que estejam, por mais absurdos que sejam, se torna de repente essencial. O próprio morador não percebe a utilidade do regulamento, a sua finalidade, provavelmente não o leu nem o cumpre, mas sabe que existe, sempre foi assim e assim será. Quem está mal muda-se — mesmo que tenha acabado de se mudar.

As instituições e as repartições da terra, geridos com enfado e parados no tempo, são barreiras que se levantam contra o forasteiro. Não há cá disso, vão avisando mal dispostos os mangas-de-alpaca da terra sempre que o forasteiro pretende determinado documento ou serviço ou informação. Isso pode ser algo que a Constituição da República consagra, algo que a repartição em causa está obrigada a fazer, algo que é trivial noutras paragens. Mas não aqui. Aqui é uma terra pequena, desgraçada, não temos tempo nem meios para nos actualizarmos, talvez não tenhamos mesmo todas faculdades humanas quiçá mentais necessárias aos tempos modernos, coitados de nós. Se queria modernices, comodidades, ficasse lá pelo sítio de onde veio. Quem lhe pediu para vir? Que raio de ideia foi a sua? A terra está a desertificar não há gente para fazer as coisas. Como? Que estou cá eu para fazer este serviço que foi o que me pediu? O que quer dizer com isso?

Depois os funcionários das repartições e os gerentes das instituições ficam sentados lado a lado no alpendre ao pôr-do-sol a ver o forasteiro arrastar as malas pelo pó, a regressar pisando as suas próprias pegadas, ainda frescas. Lá vai o esquisito, dizem entre gargalhadas que se perdem no vazio da paisagem. Estes tipos de fora é só manias. A noite cai, as gentes recolhem-se, não tarda as ruas ficam desertas. Alguns moradores passam na tasca a confirmar como a terra está sem vida, sem ânimo, já não há parceiros para a bisca lambida, e vão para casa, afundam-se no sofá, em frente à televisão, a imaginar o que será viver na cidade.
De manhã o galo canta e o censo conta menos umas almas.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Divertimento nocturno

Gonçalo Portocarrero de Almada é um padre que escreve de vez em quando no Público. O jornal deve ter ido buscá-lo ao fundo do gavetão de uma sacristia húmida e bolorenta, uma daquelas onde fantasmas de abades medievais guardam os paramentos que usam à noite para assombrar velhas ruínas de conventos ou mosteiros convertidos em pousadas de charme. (Todas têm o seu fantasma, como os mais genuínos castelos escoceses.) Foi lá buscá-lo, com aquele cheiro a parafina, porque um jornal precisa de ser pluralista, apartidário, representativo de toda a sociedade civil (múmias em sarcófago incluídas).
As questões “fracturantes” têm vários paladinos do lado apologista de quebrar a louça (no Bloco, na JS, até na JSD, em certos dias de maluqueira). O lado, digamos, conservador também tem alguns (Assunção Cristas, antes de ser ministra), mas Portocarrero assegura a representação da ala botina-de-elástico. É um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer.
Acresce que, para maior felicidade dos leitores, o escriba não só defende posições (sobre o aborto, a eutanásia, o casamento entre homossexuais, a identidade de género, todo o ramalhete) já de si cómicas como o faz com apreciável humor. Ou com apreciável tentativa disso, como na crónica de hoje.
Para sublinhar (ia dizer sublimar, Deus me perdoe) essa faceta das crónicas, e porque o jornal, avaro, lhe não disponibiliza um ilustrador, até se deixou fotografar com um sorriso de seminarista malandreco. Ei-lo ali, sarcástico, de negras vestes, pousado como um corvo (ou gralha? a “gralha” de estimação dos tipógrafos do Público) em cima das letras do próprio nome, em foto tipo passe com as cores um pouco saturadas (vermelhusco nas fauces, partida marota do jornal, certamente). O leitor vê a foto e sabe, é avisado que pode começar a rir. Se, por distracção, atravessar todo o texto com azedume, ferido no seu liberalismo, nas suas luzes, na sua inteligência; se, coisa pouco provável, o leitor chegar ao fim da prosa sem que a boa disposição o tome, o nosso presbítero, que está aqui para nos divertir, com cabeção e tudo, deixa-lhe uma derradeira possibilidade, a punch line infalível, as duas últimas linhas: «Licenciado em Filosofia e vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família.» De família

Não, ninguém acendeu a lareira, são as chamas do Inferno

Ok. Fui um bocadinho cruel no retrato anterior. Não se deve ser malicioso nem ter animosidade em relação aos que pensam diferente de nós. É pecado. Há todo um círculo no Inferno para gente assim. Acho que, nesta madrugada insone, me deixei contaminar demais pelo estilo Portocarrero — mas sem os Altos contactos dele. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Absent friends

De resto, há uma banda sonora suficientemente irónica para a Divina Comédia do meu amigo José. Here’s to you

Panem et circenses

«Há muito tempo que o Estado tomou sobre si o extraordinário encargo de animar a populaça», escreve Vasco Pulido Valente e tem razão. Nos factos e na crítica que o adjectivo deixa implícita. É, de resto, uma crítica partilhada por uma parte dos comentadores de direita e pelo Secretário de Estado da Cultura. Acabar com o circo parece e é uma campanha urgente. Num país a sério não se usam as instituições do Estado como comissões de festas. O papel de mordomos de romaria ou anfitrião de circo cabe à sociedade civil — e a palhaços encartados.
Acontece que a sanha da direita agora no poder mais do que se arrisca a deitar fora o menino com a água do banho.
A obscena promiscuidade entre o que é animação e cultura tem dois sentidos: algumas das instituições que providenciam o disparatado entretenimento vão sendo também responsáveis pelo pouquinho que resta de cultura na lusa pátria. Acabar com elas sem mais é pintar de cinzento o país, de um velho e estupidificante cinzento.
Ou a direita deseja isto ou não conhece o país que habita.
Uma das razões nem sempre mencionada quando se apela à extinção das estruturas culturais do país é o incómodo da direita com a arte contemporânea. A EGEAC, um dos alvos do artigo de VPV, é, entre outras coisas, também promotora de acções neste âmbito. Para a direita que temos no poder, animação e arte contemporânea são a mesma e desprezível coisa. Mas talvez a direita, se frequentasse mais o país real, soubesse que onde lê arte contemporânea poderia ler arte clássica. A realidade é esta: tirando a animação, tudo está no mesmo triste bote neste rectângulo que se afunda. Julga a direita que a música clássica se salva sem a subvenção e as instituições do Estado? O bailado? A ópera? A literatura? O teatro clássico? O teatro, tout court? Que os cidadãos correm a ver o que se lhes ofereça nesta área? Que pagam um tostão que seja se por azar passarem à porta? Em que planeta vive esta direita? 

Horóscopo

A senhora chega afogueada ao supermercado e sem mais demoras ataca o escaparate das revistas. Escolhe uma, segura. Não a folheia com diletância, a ver como vai o mundo cor-de-rosa. Tem um objectivo. E conhecimento. Hábito. Urgência. Molha o indicador e, em três ou quatro movimentos, chega onde quer. Antes de ler, respira fundo, preparando-se para a sentença.

Tarot

Também nós chegamos, num momento ou outro, ao tarot da Maya na Pública. Sem uma reclamação. Quer o jornal que a gente o leia acreditando nos seus jornalistas, nas suas fontes, na sua inteligência — e, a páginas tantas, apresenta-nos o tarot. Não é como as palavras cruzadas, o su doku, os mistérios policiais, as crónicas do Quintela. Nada que nos possa distrair, fazer passar o tempo enquanto exercitamos ou divertimos, pouco ou muito, o cérebro. Nem sequer é como as crónicas do Daniel Sampaio. É só tonteria. Estultícia. Imbecilidade.
Que enriquece. A senhora dona Maya não é uma estagiária da redacção a quem é entregue o horóscopo, essa página de praxe inofensiva. Não precisa de mostrar prosa esforçada, bonita, original, inteligente. Basta-lhe reciclar e recombinar a meia dúzia habitual de possibilidades do destino aceites pela classe média. E ir de festa em festa, de revista em revista exercer a sua influência social. O Público ajuda, concede-lhe a respeitabilidade necessária.

domingo, 28 de agosto de 2011

Saíram felizes

No restaurante (dava o Sporting) o rapaz senta-se de costas para a televisão e ela de frente. Benfiquista ou portista, pensei — esquecido de que o mundo ainda comporta gente que não liga assim tanto ao futebol. Saíram felizes, indiferentes ao resultado. 

E no entanto

Já na rua, passam em caminhada de prescrição médica três senhoras de uma certa idade (não exactamente como esta). Não sabias?, diz uma. Joga o Sporting.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Genoma

Um autarca desfiliou-se do PSD por «um acumular de situações». A gota de água foi o facto de Passos Coelho ter, sem noção das prioridades, declinado um convite para estar presente nas comemorações do dia do município. Mas parece que, muito tristemente, o PSD também não tem escolhido gente da terra para as listas de deputados. Os senhores reparem: estamos a falar de um concelho onde o PSD há 26 anos não perde uma eleição para a câmara municipal. E ele próprio, o autarca, ganhou três eleições sucessivas. É obra. É serviço. A confraria tinha de retribuir, o que lhe custava?

É isto. O que se espera dos políticos é que recompensem os militantes com cargos e visitinhas aduladoras, para mostrar ao bom povo a importância dos caciques. Vem no Eça e no Camilo — e no Estado Novo era rotina.

A longevidade dos autarcas não explica tudo (o exemplar em análise até é novo, apesar de tantos mandatos, 42 aninhos). É antes a longevidade do gene que, hereditariamente, os consubstancia e os anima. Acabar-lhes com linhagem pareceria uma solução para o país — mas suspeito que o gene esteja, infelizmente, no DNA nacional.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os homens — cenas da vida matrimonial

1. A linguagem
A maneira como um homem se refere aos trabalhos que faz em casa define a sua relação com o conceito de igualdade de géneros. Se disser que «ajuda» a companheira, mesmo que de facto ajude muito e tenha nisso sincero orgulho, chumbou o teste. A linguagem trai. O homem equânime não ajuda — faz a sua parte, o que é necessário, o que se impõe; age de moto próprio num sistema sem privilégios nem subordinações.

A emancipação das mulheres é imensamente mais difícil e demorada, mas, para um mundo mais justo, o homem também precisa de se emancipar. Desde logo de uma cultura que deixa no seu subconsciente falsas prerrogativas de superioridade. Que lhe formata o pensamento fazendo-o achar que o seu desempenho na cozinha ou com os filhos é ajuda — quando não favor ou piedade.

2. Happy end
Na mesa ao lado, alguns casais partilham entre si a sobremesa e, com o resto da sala, a vida íntima. A morena avisa, ainda com ar jovial, que está cheia do comportamento dos homens. Só têm tempo para os amigos, nunca para a casa ou a família. Se calha de virem cedo, é para se deixarem cair no sofá, anunciado exaustão ou dores de cabeça. Ajudar (a morena não é totalmente emancipada, embora neste momento pareça a um passo de o estar) nas lidas domésticas, não é com eles, que, marrados na TV, exibem a expressão de quem não tem força para erguer os membros. Nenhum dos cinco. (No subtexto do rol de queixas da morena parece incluir-se a não consumação do matrimónio.)
As duas louras e a ruiva concordam, com acenos e monossílabos enfáticos, fornecendo o apoio de que a morena sente falta. De vez em quando dão os seus próprios exemplos. Os homens, pelo seu lado, tentam brincar, obstar, boicotar. Inesperadamente, cruzam os braços, entregam-se à evidência, esperam que o tempo (e aquela conversa) passe.
A voz da morena sobe de tom, as faces coram-lhe, parece querer pôr-se de pé na cadeira. Em crescendo, manda calar o homem, adiciona pormenores cada vez mais elucidativos, dá ao seu aviso inicial ares de ultimato. O que começou como um cliché, considerações genéricas, conversa gasta de encontro de casais, transformou-se — por força da própria retórica, do apoio do lado feminino da mesa e talvez do vinho — numa espécie de pré-anúncio de divórcio unilateral.
O resto da sala, pendente, troca olhares. Prepara-se para ouvir a morena informar o marido de que a partir de hoje e até haver decisão judicial dorme no sofá. Mas ela faz uma pausa, bebe um golo de água e, com um sorriso apaziguador, diz para o marido: «Bem, hoje deixo-te pagar a conta.»
O resto da sala pousa os talheres — quer de volta o dinheiro dos bilhetes.

3. Dores de cabeça
No drama do fastio matrimonial, se não se sabia antes sabe-se agora, as dores de cabeça não são um argumento exclusivamente feminino.

sábado, 20 de agosto de 2011

Os talibãs da ocidental praia

Nos restaurantes, as mulheres sentam-se de costas para a televisão. É esta a norma não escrita do machismo luso. Em Portugal, uma televisão acesa tem, se não garantia, elevadas probabilidades de estar sintonizada num dos canais da Sport TV. “Sport” ali significa futebol, como se sabe. Os casais entram e, por um acordo tácito, aviltante para ambos, ela senta-se de costas, ele sintoniza-se com o canal. Ela mantém a ilusão de uma conversa, ele vai respondendo por monossílabos ou gestos enfadados nas pausas das jogadas. Ela, de classe baixa, média ou alta, teenager ou matrona, não consegue (ou não tenta) a sua rebelião. Ele, sem classe, demasiado bruto para a equidade ou o pundonor, retouça na sua condição de talibã da ocidental praia. E não há quem lhe ponha uma albarda.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Institute for the Future of… anything but a Book

A intensa futurologia à volta dos livros parece augurar, por si mesma, a perenidade da literatura. Mas é um engano. «No futuro, o conteúdo dos livros valerá muito pouco; as pessoas vão pagar é pelo contexto e pela comunidade à volta desse conteúdo.» Quem o afirma é um tal de Bob Stein (director duma curiosa instituição designada Institute for the Future of the Book), citado por Isabel Coutinho, no Ípsilon.

Será certamente erro de percepção meu, ou a manifestação de um ressentimento irreprimível, mas sempre que leio experts ou jornalistas divagarem sobre esta matéria não consigo deixar de os imaginar como grotescos adolescentes em corpos maduros e tolinhos por gadjets. Leio as suas palavras não como análises ponderadas mas como um exemplo de wishfull thinking. Para mim, o que eles dizem não é o que investigação indica que vai acontecer, mas o que eles desejam que aconteça e tudo farão para que aconteça. Com sucesso, não duvido. Os textos desta gente esquecem tantas vezes o “conteúdo” dos livros que, concluímos, para eles o futuro, este futuro, não é apenas inevitável — é agora.

As editoras, dizem, têm de aprender com os “jogos electrónicos” a “integrar diferentes formas de media” e “como lidar com comunidades de leitores”, já que no futuro “serão as discussões à volta dos livros que passarão a ter valor”. O valor, note-se, é aqui também valor comercial; a maior preocupação desta gente são os atalhos para chegar às multidões (e aos milhões) e não a forma de trazer leitores ao livro.

Somos tentados a visualizar uma comunidade de leitores a discutir um produto cujo conteúdo deixou de ser importante. Falarão de quê? Do suporte, claro, dos tablets e dos kindles, da forma como o autor conseguiu integrar fotos e vídeos e quinquilharia afim, como conseguiu assegurar a interactividade com os leitores, talvez aparecendo-lhes em casa à hora em que escreve, na forma de hologramas em cuecas, ou permitindo-lhes em tempo real intervir na feitura da obra, moldando-a a seu bel-prazer — afinal, é da contemporaneidade a revelação de que todos somos artistas. Tudo isto, esta comunidade de leitores em plena discussão à volta de uma coisa sem conteúdo, é muito sofisticado e espantoso, mas consegue-se descrever numa imagem simples (maravilhas que a linguagem ainda permite): moscas à volta de merda.

O Institute for the Future of the Book não parece ser uma instituição que se interesse pelo futuro do livro. Não parece preocupar-se em preservar e estimular a leitura, a razão do livro existir. A leitura exige silêncio, compenetração, tempo, isolamento, pelo menos mental — não a berraria electrónica dos jogos. Depois da leitura, vivam as comunidades e as fotos e os vídeos e o diabo a quatro. Não antes. Não durante. Sobretudo, não em vez de.

Está de acordo com o zeitgeist — ou, mais prosaicamente, com a estupidez reinante — esta mania de valorizar o acessório em detrimento do essencial. Mas talvez uma coisa como o Institute for the Future of the Book devesse revelar alguma preocupação com a qualidade dos livros e dos leitores — em vez de parecer tão ocupada a determinar o futuro do livro de acordo com a idiossincrasia (ou idiotia) dos seus dirigentes.

Que diabo!, divirtam-se com o que quiserem, inventem o que quiserem — mas não desvalorizem a experiência da leitura e os seus proveitos para o individuo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Amas-de-leite

O artigo do multimilionário Warren Buffet publicado no New York Times (sob o título gritantemente elucidativo “Parem de mimar os super-ricos”) humaniza o autor — mas não redime a classe. Pelo contrário. Ao contrastar com o silêncio comprometido ou a oposição obscena dos restantes milionários, evidencia ao extremo o desinteresse egoísta destes pelo resto do mundo.

Em sociedades decentes, bastaria a transparência cristalina daquele pequeno texto para que governos caíssem rubros de vergonha. Ninguém tinha dúvidas que andavam a mimar os ricos, mas quando são os próprios a dizê-lo… bem, resta muito pouco que fazer.

Ou talvez não. Não subestimemos a sabujice ou a petrificação ideológica. Nos EUA os republicanos boicotam ufanamente medidas de justiça financeira. Em Portugal aumenta-se para o máximo o IVA da electricidade e mantém-se no escalão mais baixo o do golfe.

O simpático tratamento fiscal dado aos mais ricos e às grandes corporações e empresas não é uma opção estratégica para favorecimento da economia global, como querem fazer crer (ou chegam a crer, com fé farisaica) os ideólogos do sistema. É a medida do desprezo que ideólogos e governantes sentem pelo cidadão comum. É a medida da impotência da classe média. É, sobretudo, a caricatura da democracia: o povo escolhe pelo voto as amas-secas dos ricos. Ou antes: as amas-de-leite — na verdade, os governos dão de mamar aos ricos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Rebelde sem calças

Devido aos distúrbios de Londres, a Levi’s cancelou (ou adiou?) uma campanha que continha imagens de motins e de jovens desafiando a polícia. Vestidos de ganga, claro.

O culto da “marginalidade” está presente em muitas das campanhas publicitárias de produtos para jovens. Repare-se: não é o culto da marginalidade em relação ao mainstream, às convenções, ao pensamento único, etc. Não. É marginalidade no sentido penal, de delinquência.

Campanhas deste género, agindo de braço dado com os imbecilizantes blockbusters americanos e videoclips enérgicos de canções hip hop, têm sido bem sucedidas a formatar a gloriosa juventude. Basta andar pelas ruas das cidades e observar como as novas gerações se movem como membros de gangues, têm a figura e os gestos de desordeiros, com trivial frequência e prolixidade, em muitos casos numa base diária, agem como desordeiros.

Talvez nunca como agora a expressão “rebelde sem causa” se possa aplicar com tanta propriedade. Mas não se trata, como na ideia original, de um certo estado de espírito, de uma inquietação interior, das normais dores de crescimento, de perplexidade perante o absurdo. É um estilo. Uma “atitude”. Uma pose. A introspecção não é estimulada, pelo que este tipo de jovem dificilmente reflecte sobre as suas inquietações. Se se vai colocar em frente a um piquete de polícia não é porque tenha uma queixa verdadeiramente justa, uma ideia ou uma palavra a dizer — é simplesmente pelo confronto, pela pose, pela adrenalina, pela probabilidade de haver violência. Para, heroicamente, copiar o boneco da Levi’s.

As marcas comerciais não fizeram esta juventude. Pelo menos não sozinhas. De certa forma, limitaram-se a explorar o sentimento predominante. É isto que as marcas fazem, ir ao encontro dos anseios do seu público-alvo. Ou daquilo que elas consideram serem os anseios do seu público-alvo. Mas seria estúpido considerar que tantos milhões de seres humanos não têm anseios de outra espécie. Têm-nos, pelo menos em forma latente. O problema é que explorar outras formas de chegar ao adolescente, ao jovem, implica mais trabalho, mais ousadia, mais coragem. Mais inteligência. Mais respeito pela individualidade. Os criativos das agências de publicidade são uma espécie muito limitada de criativos. A sua criatividade está circunscrita, condicionada, parte de preconceitos, censura-se. Parte do óbvio para chegar ao evidente e ao fácil. Criou o seu estereótipo e trabalha sucessivamente para ele. Quanto mais iguais as pessoas forem, mais clientes o produto pode ter. No fundo, os criativos têm medo. De perder o emprego, claro, e de falharem as suas previsões, de o mundo ser diferente daquilo que propõem. Ou, não raro, acreditam mesmo no que propagam, são eles próprios imbecis a pregarem para os seus iguais. (Não me esqueço de, nos primórdios da informática, haver génios a anunciarem o fim da acentuação nas palavras, só porque os seus teclados ou programas americanos a não possuíam e eles não concebiam a possibilidade de alguém se interessar por resolver o problema.)

No entanto, como o Estado e a família se demitem ou partilham desta forma de pensar (a família por identificação ou omissão; o Estado por conveniência — cidadãos conscientes e críticos não interessam demasiado), é na verdade este género de criativos (ao serviço das marcas, do cinema, das revistas, das televisões) que educa a juventude. Por isso é que dificilmente a rebeldia voltará a ter causas. Dificilmente ser marginal equivalerá a estar à margem do pensamento único, das modas, dos clichés, dos preconceitos, da imbecilidade. Não se vê uma campanha publicitária que incentive os jovens a ler livros, pois não? A ir ao teatro? À dança? Ao teatro e à dança contemporâneos? A exposições? A conferências? A ler jornais? A ouvir música subversiva? A ter curiosidade e mente aberta? A estudar? Isso, essas coisas antiquadas, são uma seca, diz a publicidade com repetida e despreocupada desfaçatez. Isso, essas coisas de nerds, têm em si a real semente da dissidência, da marginalidade, da rebeldia, e as marcas não querem clientes rebeldes; querem-nos submissos e cumpridores. Compradores. O Estado também não quer esse tipo de cidadãos, capazes de não votar nos partidos que o dominam. A família… bem, à família, na sua indolência arrivista, tanto se lhe dá.

Quando agora alguém olha para as imagens de James Dean não procura lembrar-se do guião dos filmes que ele protagonizou, das personagens, das emoções, do espírito da época. Aprecia-lhe apenas a elegância, o estilo, a pose. O “ar” de rebelde — afinal, tudo o que importa. Interroga-se se a ganga que ele veste é Levi’s.

Um verdadeiro rebelde seria aquele que se recusasse vestir calças Levi’s só porque lhe dizem que o deve fazer ou porque todos os outros as vestem.

Ocorre perguntar como se sentirão os adolescentes e os jovens assim retratados, mas a pergunta é tão ociosa quanto eles o são — a ovelha não se questiona porque segue o rebanho. Claro que a ovelha tem um cérebro um pouco menos desenvolvido, mas, como diria o guionista de A ressaca ou o autor da campanha da Levi’s, isso são pormenores que não interessam nada.

É assim que em vez de uma juventude capaz de relativizar as dificuldades por que passa, capaz de uma visão histórica que lhe permita descobrir o quão afortunada na realidade é se comparada com qualquer uma das gerações que a antecederam, capaz de um contributo para desbravar os novos caminhos que a sociedade necessariamente terá de seguir nos próximos anos, capaz de ser realmente rebelde, rebelde com conteúdo, temos ociosos carneirinhos da indústria preparados para partir montras e obterem aquilo que devia ser seu por direito natural. As suas sapatilhas de marca. Os seus telemóveis. As suas Levi’s. Afinal, como pode alguém viver sem estes bem essenciais?

Não se volta ao lugar onde se foi feliz

O José Ferreira Borges, amigo e compagnon das manobras periféricas, resolveu finalmente voltar à lide. Podem (e devem) lê-lo no Divina Comédia, blogue acrescentado nas ligações aqui ao lado.
O Vítor Lamas, poeta que se tornara abstinente, escreveu uns versos há coisa de dois meses.
Se por sua vez o Fernando Gouveia, outros dos mosqueteiros, se deixasse de merdas e voltasse a ter vida para isto, a sequência dos factos até podia causar um arrepiozinho na coluna. Mas não se volta ao lugar onde se foi feliz.

domingo, 14 de agosto de 2011

A Nero o que é de Nero, a Bush o que é de Bush


Da sua colina de historiador, e não sem um certo deleite, Vasco Pulido Valente vê confirmar-se o seu pessimismo sobre o império americano (e o império do Ocidente). O declínio (ou a inevitabilidade, se partilharmos o determinismo histórico) teria começado com o final da Guerra Fria, embora só agora se tenha começado a perceber.
Tenho uma tese diferente. O declínio da América e do Ocidente começou com a eleição de George W. Bush e o apogeu de uma certa visão do mundo. Ou, se quisermos, o declínio começou quando Bush, ou alguém por ele, viu na invasão do Iraque a possibilidade de tornar inevitáveis algumas ideias e práticas que ainda hoje excitam imensa gente e bloqueiam a política americana (e, de certa forma, a europeia).
Não roubemos ao homem o seu lugar na História. Pertence-lhe por direito. Estaríamos onde estamos se o Iraque não tivesse sido invadido? Esta é a pergunta.

O nome da besta

Se os presidentes americanos tivessem cognomes como os nossos reis, e se as fontes históricas fossem as colunas de imprensa, Bush passaria para os anais como George, O Idiota. Mas, por mais que apraza à esquerda, um tal epíteto retira-lhe imputabilidade, e isso desconsidera o seu papel na História.
Por outro lado, epítetos que se lhe podem colar ainda com mais propriedade têm o mesmo efeito de descrédito. George, O Testa-de- Ferro ou George, O Títere não só resultam ser injúrias insuficientes como lhe fornecem um dispensável álibi.
Porém definem melhor o seu papel.
As forças que estiveram por trás de Bush não foram para a reforma com ele. Como historiadores distantes, observam asséptica e ironicamente o declínio do império porque têm outro na calha para lhe suceder. Um que não precisa de pátrias nem de valores. Não de valores que não sejam traduzíveis em números. De contas bancárias.
O declínio pode ser inevitável, mas valia a pena deixá-lo apressar-se?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O nadador*

Não há como viajar pelo país para constatar a admirável difusão da estupidez. Nenhuma empresa de comunicações se pode gabar de ter uma cobertura tão extensiva. Por vezes, chegamos a uma zona montanhosa, a um bosque mais cerrado ou a uma longa planície desertificada e ficamos sem sinal no telemóvel. Mas bastam poucos instantes para nos darmos conta que, ali onde as ondas electromagnéticas não chegam, chega a estultícia. Não há fauna ou flora que ocorra com tanta frequência e regularidade na geografia nacional; nem o prolixo, adaptável e para muitos asqueroso rato é tão comum quanto a idiotice.

Isto a propósito de música e piscinas. O viajante, sequioso e derretido, entra numa povoação e, antes de querer saber de factos históricos ou etnográficos, pergunta desesperado pela piscina do município. Não há curiosidade cultural que se imponha a um céu sem nuvens e temperaturas superiores a 30 graus. De qualquer modo, a forma como uma comunidade se banha, as cores e modelos dos seus calções e biquínis e o jeitinho que tem para se revirar ao sol são dados importantes para o conhecimento etnológico.

Não tanto, infelizmente, quanto a música que se põe a tocar numa piscina.

De norte a sul, as piscinas são o prolongamento diurno e com excesso de cloro de discotecas. Mas não discotecas que usem um som universal, abrangente, transversal a classes e gerações. Não discotecas sensatas no volume e apuradas no gosto. Não. Apenas discotecas dedicadas ao franchise idiota e minimalista das «batidas graves e ensurdecedoras», para usar a definição entusiasta de um jornalista do Público (entre aspas).

Pensa o viajante que o jazz vai bem com água fresca e guarda-sóis? Pensa mal, o esquisito. Bossa nova ou, vá lá, algo caribenho? Nãããã. Um pop/rock sem data? Cota.

O cardápio é simples, tão simples (ou elementar; ou básico, no sentido que a tropa dava ao termo), tão simples que mentes distraídas como a do viajante acreditariam se lhes dissessem que durante a tarde toda apenas uma faixa do CD tinha sido posta a tocar (quando na verdade teria sido toda uma exaustiva e, hum…, complexa, discografia de uma época). O cardápio é e só o prato do dia, de todos os dias e meses do ano. O prato do dia que alimenta um par de gerações como as piores indústrias alimentam porcos – com a diferença de que as «batidas graves e ensurdecedoras» não são um equivalente a ração para engorda, ainda que deixem o utente com o mesmo olhar e curiosidade intelectual de um chouriço espanhol.

Não há espaço para devaneios sonoros nas piscinas nacionais. Não há espaço sequer para relaxar, aliviar stress, dormitar sonhadoramente. O banhista simplesmente tosta ao sol com os pensamentos ao nível adequado (e ali generalizado) dos de um frango de aviário (posto no churrasco) ou dá umas braçadas tentando não seguir o ritmo frenético da banda sonora se quiser chegar sem distensões musculares à noite. Mais sensatamente, o banhista fecha o livro (que por razões insondáveis e também elas estultas julgou poder ler) e foge em pânico para o mais próximo charco de água da chuva que tenha sobrado do Inverno (vulgo rio ou barragem de difícil acesso).

Para ser justo, o viajante terá de referir que nem todas as piscinas são geridas como coutadas exclusivas de adolescentes duros de ouvido ou imbecilizados pelas drogas. Há um ou outro tanque onde o público adulto é bem-vindo – sobretudo se tiver acabado de chegar de França para arejar a sua maison sazonal. Tony Carreira e respectiva prole fazem-se ouvir de vez em quando. E também um tipo atento ao zeitgeist económico que canta «já não há papel nem para o WC». E outro que refere (com excitação científica ou enternecimento humanista, não percebi bem) uma qualquer patologia anatómica de um certo buraco que, «coitadinho», apenas serve para urinar.

Nesta altura o viajante tende a partilhar com certos concidadãos de longas barbas e trajes andrajosos que encontra pelo caminho uma visão apocalíptica do mundo. Para distrair, lê o jornal, e encontra então a definição acima citada da actual música de discoteca. Lê o jornal e, enquanto procura o ramo mais alto e resistente de azinheira para deitar a corda, constata que mesmo os festivais de Verão, como o da Zambujeira, já não têm as bandas como «força motriz que faz avançar a máquina». A força motriz, ao que diz o excitado jornalista, é cada vez mais a das «batidas graves e ensurdecedoras» que tencionam transformar os festivais em discotecas ao ar livre – «com remisturas do último single dos Coldplay e tudo»!

*Referência, hum, erudita e criadora de ambiente ao magnífico conto de John Cheever, que deu azo a um swim movie (com Burt Lancaster, se não estou em erro; vá confirmar ao Google, que eu vou nadar.)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Teoria da conspiração

Citação do 31 da Armada no Público de ontem: «A Standard & Poor’s baixou o rating da dívida americana de longo prazo. Como é que ficam os teóricos (…) da teoria da conspiração americana contra a Europa?»

A precisar de rever a sua teoria. A conspiração existe e não é de ordem geoestratégica, mas ideológica. Ou nem isso: apenas, digamos, pragmática, de interesses particulares. Os países conspiram, naturalmente, mas o jogo no tabuleiro actual tem de um lado o capital (perdoem-me o palavrão e as suas conotações) e do outro a social-democracia. Obama é circunstancialmente americano, mas as suas ideias não tanto e escandalizam uma grande parte dos seus concidadãos, mormente os que mais beneficiam de um mundo regido pelos interesses monetários de uns poucos.

A S&P não agiu contra a América, mas contra Obama e o que ele representa. A minha teoria da conspiração diz que se o presidente fosse Bush ou um outro servidor da causa não haveria descida de rating. Sim, porque o endividamento para fazer guerras estúpidas (mas lucrativas para alguns, hélas) não é censurável, ao contrário do endividamento para sustentar políticas de interesse social, essa estanha forma de pensar.

Profetas em causa própria

Aparentemente, como se lê aqui e ali, o gesto da S&P iliba as agências de rating. Vejam, até baixam a cotação da América, como poderiam ser funestas estas agências? Como não reconhecer a isenção e a forma cristalina como actuam?

O Quarta República (igualmente citado pelo Público), a propósito do discurso de Obama, que, patrioticamente, clamou que os EUA serão sempre triplo A (como Sócrates faria – e Passos Coelho ou Cavaco depois dele), sugere que os governos deveriam ser geridos como empresas, e nas empresas os conselhos de administração abstêm-se, naturalmente, de interferir nas demonstrações financeiras. O Quarta República sugere que, tal como as demonstrações financeiras das empresas devem ficar a cargo de terceiros, “especializados”, os estados devem deixar a interpretação da sua saúde financeira às agências.

Sucede que as agências de rating não têm sido meros juízes imparciais. As suas opiniões determinam acontecimentos. Um pouco como quando um responsável da Porto Editora (um dos grandes grupos editoriais portugueses) prevê que os livros de poesia vão deixar de ser editados. É deste tipo de previsões auto-realizáveis que falamos.

Caos e anarquia

E já que estamos a falar de profetas e conspirações, fechemos em tom apocalíptico. Em Tony Judt pode ler-se que o estado social, nas suas diferentes formas, não foi apenas uma admirável criação generosa, altruísta, dos governantes do pós-guerra. Foi o resultado de uma leitura diligente da história das primeiras décadas do século XX. É preciso manter a classe média apaziguada – era esta a lição –, livre da influência de demagogos e dos seus próprios instintos aniquiladores. Os demónios à solta em França, na Grécia e agora na Inglaterra (para não falar nos países árabes) deveriam fazer soar campainhas. Mas não. Os mercados são mais importantes. No meio do caos e da anarquia, os condomínios de investidores e especuladores, vigiados por empresas de segurança privadas, hão-de sobreviver. Porquê preocupar-nos?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A arte de demolir

Talvez não seja culpa dele (não é certamente), mas pelo que se vai lendo na imprensa o Secretário de Estado da Cultura parece mais um liquidatário, alguém contratado pelo Governo para conduzir o processo de falência de uma pasta. Começou pela auto-despromoção: Viegas deve ser o único convidado para um cargo que impôs como condição prévia a imediata regressão na carreira. Nos últimos dias, a imprensa citou-o a determinar que Portugal tem equipamentos culturais a mais. Deverá seguir-se, naturalmente, o anúncio de que a SEC cabimentou uma verba para explosivos.


Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.

Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.

Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.

Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.

Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?

A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)

A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.

Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.

Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.

Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.

Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os EUA não são Portugal, apenas viajam no mesmo barco

Não vale a pena perder tempo a ponderar de que modo as palavras de Obama se relacionam com o brio nacional (luso e grego). Também não é crucial saber se em algum momento da história outro presidente dos EUA teve de lembrar a grandeza daquele país comparando-o com minorcas. E se isso revela um presidente enfraquecido ou desesperado. O que ressalta da famosa frase de Obama é o seu carácter involuntário de alarme, de sinal de falha da máquina. Algo está a colapsar no admirável mundo da economia: talvez afinal o sistema tal como o têm vindo a conceber não funcione.

Antes de privatizar o país, Passos Coelho devia deitar um segundo olhar à América, questionar a receita, duvidar da eterna bondade e eficácia dos mercados. Poupava-se algum trabalho quando, dentro de algum tempo, alguém tiver de apanhar os cacos na Europa e na América. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Notas para que a namorada não mais me acuse de ser direitista.

1. A conjuntivite da direita
De repente, a Moody’s (para já ela) está errada, é mal intencionada, tem uma agenda, a bandida. Sócrates, percebemos agora, não era só um mau primeiro-ministro — era um argueiro no olho da direita portuguesa. Ou isso ou Passos Coelho é um colírio. Aquilo que nós, simples cidadãos ignorantes de economia, tínhamos intuído há meses, descobriu-o agora com horror a cândida direita lusa. Foi o país a eleições para quê? Para aliviar a conjuntivite da direita? Mas isso não devia ser função de um sistema de saúde privado? Como justificar perante a troika tamanho mau uso dos recursos nacionais?

2. O casus belli
Alguma da direita portuguesa que bloga ou opina nos jornais não é mal intencionada — é cândida. Ou estúpida. (A restante é estúpida e mal intencionada). A invasão do Iraque foi a primeira prova. Que candidez. Que deslumbramento. Que emoção. Desde os soldadinhos de chumbo nos egrégios mosaicos do solar-lá-nas-berças-onde-se-vai-uma-vez-por-Verão que não havia adrenalina assim. Depois, quando o embuste deu à costa, o espectáculo foi comovente. Houve confissões de candura que eram, por si só, epitáfios de um cérebro que se preza, a carta de despedimento que antecede um harakiri. (E contudo, como diria Galileu, esta direita continuou a mover-se.) Houve, em alguns casos, contorções que não envergonhariam as antigas ginastas… soviéticas. E, naturalmente, houve cinismo: precisamos do petróleo, não é? O dirty job que alguém tem de fazer — a direita mais que todos.

3. Mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma
Agora a mesma direita achou que o que fazia falta a Portugal era mudar de políticas, mudar de paradigma. Daí termos um governo mais troikista do que a troika — um herói trágico, peripatético, um Zezé Camarinha de estola a quem afinal as agências dizem I’m not in the mood.
Não ocorre a estas irrequietas sinapses de direita que o que faz falta a Portugal é mudar de práticas. A incompetência, o despesismo, o compadrio, a corrupção, o arrivismo são os grandes males da economia portuguesa, não a social-democracia que querem enterrar. Talvez Passos Coelho, depois de ter passado pela reunião dos autarcas portugueses (esmagadoramente PS e PSD, como se sabe), possa ter recordado algumas verdades sobre este assunto que nas últimas décadas tem unido laboriosamente tantos socialistas e pepedês.

4. Liquidação total
Esta direita em Portugal não deveria ser governo — devia ser liquidada num mercado de (penas) capitais.