sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Passadeiras

Atravessar uma passadeira não é só o modo correcto e (eventualmente) mais seguro de cruzar uma rua. É também uma forma de exposição, uma submissão aos olhares críticos dos automobilistas, ao seu escrutínio indiscreto.

Em certa óptica, uma passadeira é uma passerelle, com a diferença de que nesta só desfila quem o deseja, muitas vezes concretizando um sonho de vida. Na passadeira, o que os tímidos ambicionam é ser invisíveis, porque receiam os longos segundos em que o olhar dos condutores pousa sobre eles, avaliando, procurando os defeitos, as excentricidades, tudo aquilo que lhes permita (aos automobilistas) desdenhar para si mesmos do peão que os fez usar os travões.

Enquanto os inseguros sempre que podem escolhem uma pausa no fluxo de veículos — não raro aguardando a uma distância que não traia a intenção de atravessar, ou, se descobertos, concedendo prioridade aos carros com um gesto de falsa indulgência com a pressa alheia —, outro género de pessoas aprecia a sensação de fazer parar o trânsito. Os seguros de si revelam-se até ousados, por vezes temerários. Põem o pé na estrada num confronto claro, num desafio aos condutores — ou às leis da inércia e do atrito, em certas alturas. A devassa dos olhares alheios não os incomoda, sentem-na como uma carícia, gostam de ser apreciados.

Uma estatística que incluísse elementos psicológicos das vítimas diria que os tímidos são mais propensos a atropelamentos na passadeira: não têm uma aura que desperte os olhares, que convide os automobilistas a pararem para observar. São, ironicamente (quando não fatalmente), mais invisíveis do que julgam ser.

Por outro lado, os extravagantes, ou sobretudo as mulheres vistosas, num mundo que tudo escrutinasse e anotasse figurariam nos relatórios das companhias de seguros como “causa” vulgar de batidas pela retaguarda. Alguns automobilistas, na sua exposição à seguradora, diriam, sem mentir totalmente, que foram forçados a parar. Mas seria fraco álibi: o perito sagaz que quisesse poupar despesas à sua empresa escreveria um parecer de moralidade irrefutável: «O segurado deve assumir a culpa no sinistro, já que a sua paragem na passadeira não se deveu ao respeito pelas regras (e pelo peão) mas a um impulso de macho voyeurista que não soube reprimir como lhe competia.»

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O gosto do proletariado

Como a televisão, embora em menor medida (dada a profusão de estações), também as rádios são veículos de previsibilidade. Os “sucessos” que emitem são-no não porque a audiência tenha elevado certas músicas a essa condição, mas porque as estações apostam nalguns temas (e podemos não estar só a falar de música) para esse estatuto, passando-os até à exaustão, conseguindo que sejam de facto os mais ouvidos. Não por mérito, mas por preencherem todo o espectro sonoro disponível.

E, porque também as rádios têm pânico de emitirem para o vácuo, as suas apostas são seguras, não é ainda aqui que há riscos, novidades, surpresas. Como a televisão, as rádios são uma peça na engrenagem do ciclo vicioso.

O que espanta é que, apesar de todo o esforço e manipulação dos agentes da previsibilidade (podemos incluir aqui os jornais, os media em geral, em larga medida a própria Internet), o que espanta é que subsistam focos de originalidade criativa no mundo e espíritos curiosos que navegam nos interstícios do sistema dispostos a serem surpreendidos, enriquecidos com o diverso e o novo. O que espanta é que, apesar do empenho concertado de governos e media, não tenha ainda crescido lã nas costas de todos os cidadãos e cascos nos seus pés.

É um espanto optimista, este, um maravilhamento com a natureza humana que talvez se alimente do dia luminoso e quente que esteve hoje. Estendamo-lo, resistamos ao Outono que se aproxima, permitamo-nos por momentos aliviar o cepticismo, o pessimismo ontológico; perguntemo-nos como seria o mundo se não tivesse sido inventada esta contradição nos termos: uma ditadura do (gosto do) proletariado dirigida superiormente.

Beleza enfadada

O ar de enfado ou de permanente irritação que ostentam muitas daquelas mulheres e raparigas que visivelmente se afanam a aprimorar ou a manter a beleza é pura eloquência. De quê? De uma superioridade que se impacienta com a banalidade do universo? De uma perfeição que não suporta a feiura e a vil natureza do resto da humanidade? É expressão indissimulável de deuses caídos e obrigados a habitar o repugnante mundo terrestre?

Talvez aquela eloquência apenas traia o esforço e o desapontamento dos seres em questão. O esforço sobre-humano a que obriga aquele tipo de beleza (disciplina, vigilância, concentração, exercício, dieta, investimento) e o desapontamento que vem de, depois de tudo, a pessoa continuar humana entre humanos, triste, vulgar, quotidiana e agastadamente humana.

Ou talvez aquela seja a expressão adequada e recomenda por especialistas em beleza para manter a frescura da pele e a tonicidade dos músculos faciais. Para manter um estado, uma condição, um nível de aperfeiçoamento que um sorriso, uma manifestação de agrado, de espanto, ou outra qualquer reacção emotiva, claro, faria desabar irremediavelmente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Se a questão é alijar carga

Numa altura em que o Governo trata de vender ao desbarato património e recursos nacionais, talvez a privatização da Madeira há pouco proposta no café fosse uma alternativa a ter em conta. Para além de eventualmente trazer alguma folga orçamental ao País, resolvia o problema da sempre adiada secessão da ilha — poupando ainda no referendo. (Tal como para as demais privatizações, o Governo nem precisava de perguntar nada aos portugueses.)

P.S. Alberto João manda dizer que privada já a ilha é, seus cubanos invejosos.

A profundidade das prateleiras

O zapping radiofónico apanha na Antena 3 o que parece uma conversa sobre livros. Falso alarme: apenas um fait divers a meio de mais um programa banal. O assunto é, naturalmente, cómico: um artigo da Economist revela que a Ikea tenciona remodelar as suas prateleiras de livros (modelo Billy), tornando-as mais fundas para que possam albergar bugigangas e brique-a-braque — aquilo que as pessoas de facto lá põem. Ainda mais agora que os e-books se popularizam.

A classe média pode enfim respirar. Está, de hoje em diante, dispensada de comprar enciclopédias e calhamaços para mostrar sofisticação intelectual. O que se lhe pede é que encha a sala de tralha. Ainda mais.

O fim do livro impresso parece ser a alegria de muita gente (não só da classe média). Mas eu se fosse aos fãs do livro electrónico não me dava precipitados ares de superioridade: não tarda os fabricantes do Kindle e afins estão também a conceder mais desta “profundidade” às prateleiras dos seus aparelhitos: o povo vai com toda a certeza querer lá meter muita bijutaria no lugar de livros.

A ilusão do ecrã (ou o elogio do livro impresso)

Por outro lado, ainda há quem reconheça utilidade ao velho livro. Ou descubra o quanto um ecrã pode ludibriar:


(O elogio do livro neste caso não coincidiu com uma boa crítica à obra: quatro pontos e meio em dez. Confira.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Façanheiros…

Uma das coisas que a crise financeira iniciada em 2008 necessariamente faz (ou devia fazer) é interrogar como é que o sensato pessimismo antropológico da direita  se coaduna com a crença fervorosa num mercado desregulado. Para além da natural dificuldade de resistirem aos muitos crimes possíveis num mercado assim, ficou evidente que não só os agentes económicos são também capazes de agir irracionalmente, e portanto contra os interesses do sistema, como são capazes de arriscar “irracionalmente”, porque sabem que no fim estará sempre o Estado para cobrir as falhas.
Esta é a chave. Num mercado verdadeiramente livre, o Estado não poria a mão por baixo de especuladores ou instituições que arriscaram de mais. Só que aparentemente não o pode fazer, porque as consequências do risco estúpido afectam o resto do mercado e, no final, a sociedade. Os especuladores sabem-no ― por isso, como personagens façanheiras, riem do “risco”.

…e façanhudos

É claro que os mais radicais defensores do mercado livre, que acreditam nos «efeitos benéficos da cobiça», defendem, para serem coerentes, a queda dos fracos e dos que falham, defendem que o Estado os deixe cair.
Não podemos deixar de ver nesta proposta a defesa de um darwinismo social. Um apelo ao velho farwest. De onde, de resto, vêm muitos destes arautos. Não é portanto uma proposta civilizacional (a civilização é solidária, regrada e policiada) ― mas uma tara. Não é um sistema filosófico ou político ― mas um remake cinematográfico. Não tem um pensador a inspirar o movimento ― tem o John Wayne. O que explica tudo. As suas ideias não assentam em reflexões, experiências, conhecimento, estudo ― assentam na sela de um cavalo.

Ideólogos versus idealistas

A maneira como certos ideólogos do mercado livre acreditaram no comportamento racional e responsável dos agentes económicos (esqueçamos por um momento que a irresponsabilidade é gratuita nos mercados, como dito aqui) aproxima-os dos mais cândidos idealistas de esquerda. Estes dois grupos, aliás, começam a partilhar outra característica: a descrença no homem. Os primeiros, desde sempre, por herança de pensamento; os segundos, recentemente, vencidos pelo cansaço e pelas evidências, a ver no panteísmo uma compensação emocional. A diferença é que os idealistas tendem a mobilizar-se pelo ambiente e os ideólogos tendem a destruí-lo.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Agentes da previsibilidade

Televisões
Quando as televisões generalistas fazem referência em horário nobre à estreia de um espectáculo de teatro, esse espectáculo é uma comédia ou tem actores que a própria televisão mediatizou noutras actividades. Na maior parte das vezes verificam-se as duas situações: é uma comédia com actores mediáticos.
De resto, não é por atribuírem importâncias às artes do palco que as televisões referem os espectáculos. Fazem-no para apanhar boleia do impacto que sabem que aquelas peças (jornalísticas) vão ter. É a mediatização a alimentar-se de si mesma. É notícia aquilo que a figura pública faz quando é feito por ela, não por alguém desconhecido. O mesmo espectáculo protagonizado por actores desconhecidos (ainda que excelentes) jamais terá honras de fecho de telejornal.

A televisão teme não ser vista. Vive nesse pânico. Torna-se histérica. Patológica. Deixa de ser um veículo de imagens, janela do mundo, para se tornar espelho de si própria. Aquilo que uma vez funcionou, foi visto pelos espectadores, é tudo o que a televisão arrisca mostrar. Apressa-se a deitar fora o que quer que tenha ficado um grau abaixo das melhores expectativas. Reduz o foco da sua atenção até, no futuro, não restar mais do que um pixel no centro do ecrã. O mais mediático pixel da história da humanidade. Devemos ansiar por esse dia.

Mecenato
Algo parecido acontece com o “mecenato” em Portugal. Com a fraca excepção dos equipamentos nacionais (em Lisboa e Porto), nenhuma empresa ou instituição patrocina a sério as artes neste país. Os patrocínios vão todos para artistas ou eventos mediáticos (por definição capazes de sobreviver sem apoios). Isto porque as empresas e as instituições (mesmo que em parte do Estado) não tencionam prestar nenhum serviço público. Como as TVs, querem apenas apanhar boleia do que é mediático, promoverem-se a si mesmas. Na verdade, o que fazem é comprar espaço de publicidade nos cartazes ou nos palcos das actividades que dizem apoiar. E que, perversamente, promiscuamente, acabam por apoiar de facto, promovendo ainda mais o que já é sobejamente conhecido e não raro medíocre.

Decisores
Isto não acontece porque o panorama artístico nacional, aquele que resiste apesar de tudo, seja miserável. Não é. Acontece porque a sofisticação cultural da maioria dos empresários e responsáveis deste país é nula*. Televisões, instituições e empresas estão-se nas tintas para a arte. São apenas agentes da previsibilidade, elemento e alimento do ciclo vicioso.

Público
O grande público é apanhado nas voltas deste ciclo vicioso, verdadeiro rolo compressor de mentalidades. Tudo o que lhe é dado a ver, tudo o que levam até ele, é aquilo que ele conhece. Não o questionam, não lhe pedem a opinião. Não o tratam democraticamente, apresentando-lhe em pé de igualdade um leque de alternativas para que ele possa escolher, em liberdade. Não o respeitam, portanto. Não o deixam ser livre. Não arriscam.

* Um estudo interessante e esclarecedor seria aquele que divulgasse a quantidade de vezes que, nos últimos anos, entraram num teatro, e para ver que espectáculos, os responsáveis por empresas e instituições e opinion makers nacionais. E, já agora, também o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da Cultura. 

Agentes da previsibilidade II

Não raro, em defesa da feira de vaidades instituída, é dito que a mediatização de intérpretes concedida pelas televisões é benéfica para o teatro. Que de alguma forma essa mediatização foi responsável por devolver público ao teatro. Mas a questão é esta: de que teatro falam? Salvo honrosas excepções, as vedetas de televisão sobem aos palcos para compor o orçamento (ou o ego) com umas comediazinhas ligeiras, muito vezes verdadeiramente execráveis. Que de quando em quando são apresentadas como exemplos de produção verdadeiramente “independente”. E rentável, claro: apostam sempre no número (de circo) vencedor.
A não ser se pretenda que teatro passe a ser sinónimo de comédia, que se pretenda reduzir, digamos, dramaticamente a amplitude da disciplina, amputá-la dos seus múltiplos ramos, purgá-la de géneros, correntes, autores, a não ser que o objectivo seja esta simplificação extrema (ideia que certamente excita muitas cabecinhas), a mediatização não tem servido de muito ao teatro. Quantos dos “famosos” aproveitam a sua fama para dar visibilidade a alguma forma de teatro que não seja a esperada pela TV? O métier português não é como o londrino, pois não.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um par de cabeças garrafas vazias

Na esplanada, como se a avisar que o bom tempo não é para levar demasiado a sério, sopra uma súbita rajada de vento. Da mesa de duas mulheres caem duas garrafas de plástico. Elas ficam a vê-las rebolar. Não têm um gesto instintivo para deter a queda, não se levantam depois. Viram sem sobressalto as cabeças e ficam, estáticas, a observar o percurso imprevisível das garrafas até o atrito vencer a inércia. Não mexem ou pestanejam. Dir-se-ia que calculam, ou aguardam para ver, o sítio exacto onde se hão-de dirigir para as apanhar. As garrafas detêm-se. As duas mulheres voltam-se uma para a outra e recomeçam a conversa onde a tinham interrompido. Aquele hiato não serviu afinal para traçarem a rota mais directa para as garrafas, a forma mais cómoda e discreta de as apanharem.

O tempo suspendeu-se ali na esplanada. Tudo esteve de alguma forma pendente da trajectória seguida pelas garrafas de água. Não saberemos que pensamentos as mulheres tiveram. Talvez tenham avaliado a sua amizade ou tomado decisões sobre certos aspectos das suas vidas. Não é crível que, como o tempo, se tenha também suspendido o fluxo de consciência delas e a única coisa a acontecer no mundo, registada pelos olhos mas não pelo cérebro, tenha sido um par de garrafas a rolarem vazias e sem objectivo pelo passeio de cimento.

O vento incidiu de determinada forma e com energia potencialmente mensurável. Podemos considerar que houve uma relação directa entre o trajecto e o tempo que as garrafas demoraram a deter-se e aos pensamentos que tiveram lugar? Se houve conclusões, poderão elas ter sido influenciadas por aquela rajada de vento? Seriam outras se as garrafas tivessem descrito outro percurso, rolado mais ou menos algumas vezes?

Quase certo é que o inverso não se verificou. O olhar das mulheres não influenciou o movimento das garrafas, a não ser que queiramos dar crédito à telecinética. Caso o tivesse feito, caso elas tivessem decidido onde e quando paravam as garrafas, tinha sido uma intervenção inconsequente: não aconteceu nada depois disso.

Na verdade, nem tudo foi mistério ali na esplanada. Sabemos que a pausa das mulheres não representou uma tentativa frustrada de vencer a preguiça ou a indiferença. Sabemos também que elas não gastaram aqueles segundos com a metafísica do civismo, a ponderar quanta solidariedade lhes merecia o empregado de mesa. Ou então foi exactamente isso que fizeram — e concluíram que o pobre não lhes merecia nenhuma solidariedade. Tinha mais era de apanhar o lixo delas, ora essa.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Who you gonna call? Ghostbusters?

Não, o problema português não foi apenas elevar a despesa e o consumo a níveis sem correspondência com a produtividade. Não foi só o esbanjamento. O endividamento. Se fosse apenas isto, porque estariam a explodir de raiva os funcionários da denúncia? Porque espumariam? Porque se pareceriam tanto com o professor despótico que assombrava The Wall, olhos a saltar das órbitas?
O que leva aquelas almas da indignação à apoplexia é que, em simultâneo com o regabofe, perpassou pelo país, aqui e ali, uma brisa de civilização. Algumas pessoas permitiram-se sonhar com um Estado ao serviço do cidadão, cultura descentralizada, assistência na doença, serviços abrangentes e próximos, disseminados.
Onde já se viu? Quem se julgou esta gentinha?
O professor nazi que agora nos fustiga não nos censura tanto o desacerto das medidas tomadas, a insensatez das políticas seguidas. O que o deixa fora de si é a própria ousadia, a veleidade em si mesma. A impertinência que os vermes tiveram de pretenderem mais do que a sua condição.
Agora não nos basta arrepiar caminho, pagar as contas. Depois de nos saltarem à estrada de dedo em riste, os inquisidores vão querer ir mais além, habitar-nos os sonhos, assombrar-nos as noites de descanso. Que de resto não merecemos. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O último estrato

Não raro, do alto de quatro décadas de carreira, escritores consagrados declaram com tédio o fim próximo da literatura. Sentados nos seus trinta volumes publicados, não os incómoda que a literatura acabe. Já estão servidos. É, aliás, melhor que acabe. O ideal é ser-se o último estrato geológico, pensam sem o dizer.

Vasco Pulido Valente e o equívoco*

«Durante trinta anos, Portugal gastou bastante mais do que ganhou» e agora tem de pagar os desvarios. Num ano ou dois.
Aquele é o diagnóstico (de resto acertado), e esta é a sentença, pronunciada com um sadismo de velho mestre-escola.
Percebo o furor. A um queirosiano não são permitidas meiguices. Depois de Uma Campanha Alegre, malho que hesite não conta. No entanto, a venerável retórica de Vasco Pulido Valente, se serve para nos divertir, não serve a verdade.
O endividamento de Estado não foi uma originalidade nacional, mesmo tendo em conta os níveis absurdos que atingiu com Sócrates. Durante as últimas décadas, esta foi uma praxis ocidental, aliás incentivada pelo sistema económico internacional vigente, com manifesto regozijo dos mercados. Um estado que resolvesse seguir um caminho diferente ou era nórdico ou era estúpido. Ora, não consta que haja fiordes em Portugal e desde 1986 que a Europa não nos deixa ser (demasiado) estúpidos. Pelo contrário: de alguma forma, a Europa indicou-nos este caminho, ao “sugerir-nos” que não havia necessidade de produzirmos tanto em áreas como a agricultura e as pescas, por exemplo.
O descalabro poderia ser evitado? Claro. Aqui como na Espanha ou em Itália. Ou nos Estados Unidos. Mas, de certeza que cinco anos atrás havia assim tanta gente favorável a uma mudança de paradigma económico (que é aquilo que está em cima da mesa)?
Um destes dias, a Europa e os EUA vão descobrir que não se resolve em 24 meses um erro colectivo velho de trinta anos. Isto muito antes de descobrirem que a premissa de crescimento permanente em que assenta o capitalismo também terá de ser revista.

*Público de hoje.

Qual o rating da naftalina?

«A secretaria de Estado [da Cultura] tem um papel na discussão do que deve ser o repertório de um teatro nacional.»

domingo, 4 de setembro de 2011

Música para as trincheiras

Peter Gabriel é alguém que respeito na música. Quando levanta a voz, petrifica. De vez em quando, fá-lo, com aquela sua voz que continua rouca mesmo se projectada umas oitavas acima do que seria de esperar em alguém com tão respeitável careca.
No álbum “Scratch My Back”, de 2010, tem algumas versões admiráveis de temas de outros músicos. “Heroes” (David Bowie), “Listening Wind” (Talking Heads) e “My Body is a Cage” (Arcade Fire) são as minhas preferidas (não só porque já gostava dos originais), junto com “Street Spirit” (Radiohead). Nesta última, se por um lado deixa que a idade ou a emoção lhe cortem a voz em certos falsetes, Gabriel lembra noutros momentos mais graves o nosso Vítor Espadinha. Mas isto deixou de ser vexatório desde que o mais romântico dos portugueses participou numa das grandes canções da música lusa. Conferir aqui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

No videoclube I

Com frequência talvez patológica, mas também com um certo desespero probabilístico, o artilheiro arrisca escolher filmes de aspecto e sinopse mais do que duvidosos. Em certos dias maus apetece um pouco de aventura, um thriller, suspense, ficção científica. E os períodos de crise económica têm muito dias maus. O organismo reage à depressão convocando o adolescente que ficou cá dentro, como um alter-ego, como o super-ego que combate o mal.

Um filme é uma porta aberta para um outro mundo. Ou deveria ser. Na esmagadora maioria dos casos, um filme é uma porta aberta para um território que já visitámos, para um lugar-comum, é um déjà vu, um plágio, em suma.

Está errada a ideia de que um argumentista é um criador. Não é. Ocupa na actualidade o lugar que os monges copistas ocupavam na Idade Média. Ei-los ali, pachorrentos, alinhados num claustro, a copiarem pacientemente o modelo que lhes foi facultado, com melhor ou pior letra, consoante a habilidade de cada um (quase sempre escassa — são pouco mais do que ignorantes, iluminados apenas por uma vela, ou uma tocha).

Talvez os argumentistas, inspirados um dia pela obra, seja ela qual for, tenham achado que era sua função propagá-la, como os seus ancestrais faziam com a Bíblia. Não se trata, afinal, de conceber produtos originais, de trazer novidade ao mundo, estimular a imaginação dos clientes dos clubes de vídeo, ou dos assinantes da TV Cabo, do Meo. Trata-se de proselitismo. A obra revelou-se aos argumentistas e eles querem que nos convertamos a ela. À força.

Ou talvez não seja nada disto. Talvez as companhias cinematográficas tenham feito estudos de mercado. Avaliado as capacidades mentais do espectador médio, do cidadão médio, bitola por que o mundo se rege — e se dana. Como pode comprovar qualquer pessoa que já tenha ido a um cinema popular, o espectador médio perante um filme novo, com argumento original, perde-se, não consegue seguir a história, aborrece-se, fica como um boi a olhar para um palácio. O boi quer erva igual e abundante, um pasto a perder de vista com milhões de pezinhos de erva replicando-se exactamente uns aos outros. Porque haveria o espectador médio de ser diferente? Porque haveria de desejar mais do que a enésima repetição do mesmo argumento?

Daí que as novas gerações de argumentistas já não frequentem cursos de escrita criativa. Vestem hábitos de serapilheira e passam temporadas em mosteiros a aprimorar as iluminuras.

A talhe de foice

Um dos filmes mais bem sucedidos dos últimos tempos, com seis sequelas, chama-se “Saw”. Saw, estão a ver a desarmante franqueza? Saw: viu um, viu todos. Um sucesso que se repete.

No videoclube II

Casal, por volta dos trinta. Ambos arejados, bem-dispostos. Entram com à-vontade na secção porno. Talvez em busca de um estímulo extra para o serão. Devem diverti-los as possibilidades de escolha porque cá fora ouvem-se com frequência gargalhadas. Também se ouve quando ela diz: «Esse não, um que tenha alguma história.»

São, afinal, como os casais que vasculham secções, digamos, mais ordinárias (banais, pronto). Acção, policial, terror, suspense, drama, ficção histórica, ficção científica, comédia, pornografia, you name it: eles apenas e sempre interessados na acção — elas a reclamar um pouco de narrativa.

(O mesmo perante os cartazes do cinema. O mesmo perante a vida. O cromossoma y não determina apenas o sexo: determina igualmente o lugar na escala evolutiva.)