segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Absent friends

De resto, há uma banda sonora suficientemente irónica para a Divina Comédia do meu amigo José. Here’s to you

Panem et circenses

«Há muito tempo que o Estado tomou sobre si o extraordinário encargo de animar a populaça», escreve Vasco Pulido Valente e tem razão. Nos factos e na crítica que o adjectivo deixa implícita. É, de resto, uma crítica partilhada por uma parte dos comentadores de direita e pelo Secretário de Estado da Cultura. Acabar com o circo parece e é uma campanha urgente. Num país a sério não se usam as instituições do Estado como comissões de festas. O papel de mordomos de romaria ou anfitrião de circo cabe à sociedade civil — e a palhaços encartados.
Acontece que a sanha da direita agora no poder mais do que se arrisca a deitar fora o menino com a água do banho.
A obscena promiscuidade entre o que é animação e cultura tem dois sentidos: algumas das instituições que providenciam o disparatado entretenimento vão sendo também responsáveis pelo pouquinho que resta de cultura na lusa pátria. Acabar com elas sem mais é pintar de cinzento o país, de um velho e estupidificante cinzento.
Ou a direita deseja isto ou não conhece o país que habita.
Uma das razões nem sempre mencionada quando se apela à extinção das estruturas culturais do país é o incómodo da direita com a arte contemporânea. A EGEAC, um dos alvos do artigo de VPV, é, entre outras coisas, também promotora de acções neste âmbito. Para a direita que temos no poder, animação e arte contemporânea são a mesma e desprezível coisa. Mas talvez a direita, se frequentasse mais o país real, soubesse que onde lê arte contemporânea poderia ler arte clássica. A realidade é esta: tirando a animação, tudo está no mesmo triste bote neste rectângulo que se afunda. Julga a direita que a música clássica se salva sem a subvenção e as instituições do Estado? O bailado? A ópera? A literatura? O teatro clássico? O teatro, tout court? Que os cidadãos correm a ver o que se lhes ofereça nesta área? Que pagam um tostão que seja se por azar passarem à porta? Em que planeta vive esta direita? 

Horóscopo

A senhora chega afogueada ao supermercado e sem mais demoras ataca o escaparate das revistas. Escolhe uma, segura. Não a folheia com diletância, a ver como vai o mundo cor-de-rosa. Tem um objectivo. E conhecimento. Hábito. Urgência. Molha o indicador e, em três ou quatro movimentos, chega onde quer. Antes de ler, respira fundo, preparando-se para a sentença.

Tarot

Também nós chegamos, num momento ou outro, ao tarot da Maya na Pública. Sem uma reclamação. Quer o jornal que a gente o leia acreditando nos seus jornalistas, nas suas fontes, na sua inteligência — e, a páginas tantas, apresenta-nos o tarot. Não é como as palavras cruzadas, o su doku, os mistérios policiais, as crónicas do Quintela. Nada que nos possa distrair, fazer passar o tempo enquanto exercitamos ou divertimos, pouco ou muito, o cérebro. Nem sequer é como as crónicas do Daniel Sampaio. É só tonteria. Estultícia. Imbecilidade.
Que enriquece. A senhora dona Maya não é uma estagiária da redacção a quem é entregue o horóscopo, essa página de praxe inofensiva. Não precisa de mostrar prosa esforçada, bonita, original, inteligente. Basta-lhe reciclar e recombinar a meia dúzia habitual de possibilidades do destino aceites pela classe média. E ir de festa em festa, de revista em revista exercer a sua influência social. O Público ajuda, concede-lhe a respeitabilidade necessária.

domingo, 28 de agosto de 2011

Saíram felizes

No restaurante (dava o Sporting) o rapaz senta-se de costas para a televisão e ela de frente. Benfiquista ou portista, pensei — esquecido de que o mundo ainda comporta gente que não liga assim tanto ao futebol. Saíram felizes, indiferentes ao resultado. 

E no entanto

Já na rua, passam em caminhada de prescrição médica três senhoras de uma certa idade (não exactamente como esta). Não sabias?, diz uma. Joga o Sporting.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Genoma

Um autarca desfiliou-se do PSD por «um acumular de situações». A gota de água foi o facto de Passos Coelho ter, sem noção das prioridades, declinado um convite para estar presente nas comemorações do dia do município. Mas parece que, muito tristemente, o PSD também não tem escolhido gente da terra para as listas de deputados. Os senhores reparem: estamos a falar de um concelho onde o PSD há 26 anos não perde uma eleição para a câmara municipal. E ele próprio, o autarca, ganhou três eleições sucessivas. É obra. É serviço. A confraria tinha de retribuir, o que lhe custava?

É isto. O que se espera dos políticos é que recompensem os militantes com cargos e visitinhas aduladoras, para mostrar ao bom povo a importância dos caciques. Vem no Eça e no Camilo — e no Estado Novo era rotina.

A longevidade dos autarcas não explica tudo (o exemplar em análise até é novo, apesar de tantos mandatos, 42 aninhos). É antes a longevidade do gene que, hereditariamente, os consubstancia e os anima. Acabar-lhes com linhagem pareceria uma solução para o país — mas suspeito que o gene esteja, infelizmente, no DNA nacional.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os homens — cenas da vida matrimonial

1. A linguagem
A maneira como um homem se refere aos trabalhos que faz em casa define a sua relação com o conceito de igualdade de géneros. Se disser que «ajuda» a companheira, mesmo que de facto ajude muito e tenha nisso sincero orgulho, chumbou o teste. A linguagem trai. O homem equânime não ajuda — faz a sua parte, o que é necessário, o que se impõe; age de moto próprio num sistema sem privilégios nem subordinações.

A emancipação das mulheres é imensamente mais difícil e demorada, mas, para um mundo mais justo, o homem também precisa de se emancipar. Desde logo de uma cultura que deixa no seu subconsciente falsas prerrogativas de superioridade. Que lhe formata o pensamento fazendo-o achar que o seu desempenho na cozinha ou com os filhos é ajuda — quando não favor ou piedade.

2. Happy end
Na mesa ao lado, alguns casais partilham entre si a sobremesa e, com o resto da sala, a vida íntima. A morena avisa, ainda com ar jovial, que está cheia do comportamento dos homens. Só têm tempo para os amigos, nunca para a casa ou a família. Se calha de virem cedo, é para se deixarem cair no sofá, anunciado exaustão ou dores de cabeça. Ajudar (a morena não é totalmente emancipada, embora neste momento pareça a um passo de o estar) nas lidas domésticas, não é com eles, que, marrados na TV, exibem a expressão de quem não tem força para erguer os membros. Nenhum dos cinco. (No subtexto do rol de queixas da morena parece incluir-se a não consumação do matrimónio.)
As duas louras e a ruiva concordam, com acenos e monossílabos enfáticos, fornecendo o apoio de que a morena sente falta. De vez em quando dão os seus próprios exemplos. Os homens, pelo seu lado, tentam brincar, obstar, boicotar. Inesperadamente, cruzam os braços, entregam-se à evidência, esperam que o tempo (e aquela conversa) passe.
A voz da morena sobe de tom, as faces coram-lhe, parece querer pôr-se de pé na cadeira. Em crescendo, manda calar o homem, adiciona pormenores cada vez mais elucidativos, dá ao seu aviso inicial ares de ultimato. O que começou como um cliché, considerações genéricas, conversa gasta de encontro de casais, transformou-se — por força da própria retórica, do apoio do lado feminino da mesa e talvez do vinho — numa espécie de pré-anúncio de divórcio unilateral.
O resto da sala, pendente, troca olhares. Prepara-se para ouvir a morena informar o marido de que a partir de hoje e até haver decisão judicial dorme no sofá. Mas ela faz uma pausa, bebe um golo de água e, com um sorriso apaziguador, diz para o marido: «Bem, hoje deixo-te pagar a conta.»
O resto da sala pousa os talheres — quer de volta o dinheiro dos bilhetes.

3. Dores de cabeça
No drama do fastio matrimonial, se não se sabia antes sabe-se agora, as dores de cabeça não são um argumento exclusivamente feminino.

sábado, 20 de agosto de 2011

Os talibãs da ocidental praia

Nos restaurantes, as mulheres sentam-se de costas para a televisão. É esta a norma não escrita do machismo luso. Em Portugal, uma televisão acesa tem, se não garantia, elevadas probabilidades de estar sintonizada num dos canais da Sport TV. “Sport” ali significa futebol, como se sabe. Os casais entram e, por um acordo tácito, aviltante para ambos, ela senta-se de costas, ele sintoniza-se com o canal. Ela mantém a ilusão de uma conversa, ele vai respondendo por monossílabos ou gestos enfadados nas pausas das jogadas. Ela, de classe baixa, média ou alta, teenager ou matrona, não consegue (ou não tenta) a sua rebelião. Ele, sem classe, demasiado bruto para a equidade ou o pundonor, retouça na sua condição de talibã da ocidental praia. E não há quem lhe ponha uma albarda.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Institute for the Future of… anything but a Book

A intensa futurologia à volta dos livros parece augurar, por si mesma, a perenidade da literatura. Mas é um engano. «No futuro, o conteúdo dos livros valerá muito pouco; as pessoas vão pagar é pelo contexto e pela comunidade à volta desse conteúdo.» Quem o afirma é um tal de Bob Stein (director duma curiosa instituição designada Institute for the Future of the Book), citado por Isabel Coutinho, no Ípsilon.

Será certamente erro de percepção meu, ou a manifestação de um ressentimento irreprimível, mas sempre que leio experts ou jornalistas divagarem sobre esta matéria não consigo deixar de os imaginar como grotescos adolescentes em corpos maduros e tolinhos por gadjets. Leio as suas palavras não como análises ponderadas mas como um exemplo de wishfull thinking. Para mim, o que eles dizem não é o que investigação indica que vai acontecer, mas o que eles desejam que aconteça e tudo farão para que aconteça. Com sucesso, não duvido. Os textos desta gente esquecem tantas vezes o “conteúdo” dos livros que, concluímos, para eles o futuro, este futuro, não é apenas inevitável — é agora.

As editoras, dizem, têm de aprender com os “jogos electrónicos” a “integrar diferentes formas de media” e “como lidar com comunidades de leitores”, já que no futuro “serão as discussões à volta dos livros que passarão a ter valor”. O valor, note-se, é aqui também valor comercial; a maior preocupação desta gente são os atalhos para chegar às multidões (e aos milhões) e não a forma de trazer leitores ao livro.

Somos tentados a visualizar uma comunidade de leitores a discutir um produto cujo conteúdo deixou de ser importante. Falarão de quê? Do suporte, claro, dos tablets e dos kindles, da forma como o autor conseguiu integrar fotos e vídeos e quinquilharia afim, como conseguiu assegurar a interactividade com os leitores, talvez aparecendo-lhes em casa à hora em que escreve, na forma de hologramas em cuecas, ou permitindo-lhes em tempo real intervir na feitura da obra, moldando-a a seu bel-prazer — afinal, é da contemporaneidade a revelação de que todos somos artistas. Tudo isto, esta comunidade de leitores em plena discussão à volta de uma coisa sem conteúdo, é muito sofisticado e espantoso, mas consegue-se descrever numa imagem simples (maravilhas que a linguagem ainda permite): moscas à volta de merda.

O Institute for the Future of the Book não parece ser uma instituição que se interesse pelo futuro do livro. Não parece preocupar-se em preservar e estimular a leitura, a razão do livro existir. A leitura exige silêncio, compenetração, tempo, isolamento, pelo menos mental — não a berraria electrónica dos jogos. Depois da leitura, vivam as comunidades e as fotos e os vídeos e o diabo a quatro. Não antes. Não durante. Sobretudo, não em vez de.

Está de acordo com o zeitgeist — ou, mais prosaicamente, com a estupidez reinante — esta mania de valorizar o acessório em detrimento do essencial. Mas talvez uma coisa como o Institute for the Future of the Book devesse revelar alguma preocupação com a qualidade dos livros e dos leitores — em vez de parecer tão ocupada a determinar o futuro do livro de acordo com a idiossincrasia (ou idiotia) dos seus dirigentes.

Que diabo!, divirtam-se com o que quiserem, inventem o que quiserem — mas não desvalorizem a experiência da leitura e os seus proveitos para o individuo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Amas-de-leite

O artigo do multimilionário Warren Buffet publicado no New York Times (sob o título gritantemente elucidativo “Parem de mimar os super-ricos”) humaniza o autor — mas não redime a classe. Pelo contrário. Ao contrastar com o silêncio comprometido ou a oposição obscena dos restantes milionários, evidencia ao extremo o desinteresse egoísta destes pelo resto do mundo.

Em sociedades decentes, bastaria a transparência cristalina daquele pequeno texto para que governos caíssem rubros de vergonha. Ninguém tinha dúvidas que andavam a mimar os ricos, mas quando são os próprios a dizê-lo… bem, resta muito pouco que fazer.

Ou talvez não. Não subestimemos a sabujice ou a petrificação ideológica. Nos EUA os republicanos boicotam ufanamente medidas de justiça financeira. Em Portugal aumenta-se para o máximo o IVA da electricidade e mantém-se no escalão mais baixo o do golfe.

O simpático tratamento fiscal dado aos mais ricos e às grandes corporações e empresas não é uma opção estratégica para favorecimento da economia global, como querem fazer crer (ou chegam a crer, com fé farisaica) os ideólogos do sistema. É a medida do desprezo que ideólogos e governantes sentem pelo cidadão comum. É a medida da impotência da classe média. É, sobretudo, a caricatura da democracia: o povo escolhe pelo voto as amas-secas dos ricos. Ou antes: as amas-de-leite — na verdade, os governos dão de mamar aos ricos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Rebelde sem calças

Devido aos distúrbios de Londres, a Levi’s cancelou (ou adiou?) uma campanha que continha imagens de motins e de jovens desafiando a polícia. Vestidos de ganga, claro.

O culto da “marginalidade” está presente em muitas das campanhas publicitárias de produtos para jovens. Repare-se: não é o culto da marginalidade em relação ao mainstream, às convenções, ao pensamento único, etc. Não. É marginalidade no sentido penal, de delinquência.

Campanhas deste género, agindo de braço dado com os imbecilizantes blockbusters americanos e videoclips enérgicos de canções hip hop, têm sido bem sucedidas a formatar a gloriosa juventude. Basta andar pelas ruas das cidades e observar como as novas gerações se movem como membros de gangues, têm a figura e os gestos de desordeiros, com trivial frequência e prolixidade, em muitos casos numa base diária, agem como desordeiros.

Talvez nunca como agora a expressão “rebelde sem causa” se possa aplicar com tanta propriedade. Mas não se trata, como na ideia original, de um certo estado de espírito, de uma inquietação interior, das normais dores de crescimento, de perplexidade perante o absurdo. É um estilo. Uma “atitude”. Uma pose. A introspecção não é estimulada, pelo que este tipo de jovem dificilmente reflecte sobre as suas inquietações. Se se vai colocar em frente a um piquete de polícia não é porque tenha uma queixa verdadeiramente justa, uma ideia ou uma palavra a dizer — é simplesmente pelo confronto, pela pose, pela adrenalina, pela probabilidade de haver violência. Para, heroicamente, copiar o boneco da Levi’s.

As marcas comerciais não fizeram esta juventude. Pelo menos não sozinhas. De certa forma, limitaram-se a explorar o sentimento predominante. É isto que as marcas fazem, ir ao encontro dos anseios do seu público-alvo. Ou daquilo que elas consideram serem os anseios do seu público-alvo. Mas seria estúpido considerar que tantos milhões de seres humanos não têm anseios de outra espécie. Têm-nos, pelo menos em forma latente. O problema é que explorar outras formas de chegar ao adolescente, ao jovem, implica mais trabalho, mais ousadia, mais coragem. Mais inteligência. Mais respeito pela individualidade. Os criativos das agências de publicidade são uma espécie muito limitada de criativos. A sua criatividade está circunscrita, condicionada, parte de preconceitos, censura-se. Parte do óbvio para chegar ao evidente e ao fácil. Criou o seu estereótipo e trabalha sucessivamente para ele. Quanto mais iguais as pessoas forem, mais clientes o produto pode ter. No fundo, os criativos têm medo. De perder o emprego, claro, e de falharem as suas previsões, de o mundo ser diferente daquilo que propõem. Ou, não raro, acreditam mesmo no que propagam, são eles próprios imbecis a pregarem para os seus iguais. (Não me esqueço de, nos primórdios da informática, haver génios a anunciarem o fim da acentuação nas palavras, só porque os seus teclados ou programas americanos a não possuíam e eles não concebiam a possibilidade de alguém se interessar por resolver o problema.)

No entanto, como o Estado e a família se demitem ou partilham desta forma de pensar (a família por identificação ou omissão; o Estado por conveniência — cidadãos conscientes e críticos não interessam demasiado), é na verdade este género de criativos (ao serviço das marcas, do cinema, das revistas, das televisões) que educa a juventude. Por isso é que dificilmente a rebeldia voltará a ter causas. Dificilmente ser marginal equivalerá a estar à margem do pensamento único, das modas, dos clichés, dos preconceitos, da imbecilidade. Não se vê uma campanha publicitária que incentive os jovens a ler livros, pois não? A ir ao teatro? À dança? Ao teatro e à dança contemporâneos? A exposições? A conferências? A ler jornais? A ouvir música subversiva? A ter curiosidade e mente aberta? A estudar? Isso, essas coisas antiquadas, são uma seca, diz a publicidade com repetida e despreocupada desfaçatez. Isso, essas coisas de nerds, têm em si a real semente da dissidência, da marginalidade, da rebeldia, e as marcas não querem clientes rebeldes; querem-nos submissos e cumpridores. Compradores. O Estado também não quer esse tipo de cidadãos, capazes de não votar nos partidos que o dominam. A família… bem, à família, na sua indolência arrivista, tanto se lhe dá.

Quando agora alguém olha para as imagens de James Dean não procura lembrar-se do guião dos filmes que ele protagonizou, das personagens, das emoções, do espírito da época. Aprecia-lhe apenas a elegância, o estilo, a pose. O “ar” de rebelde — afinal, tudo o que importa. Interroga-se se a ganga que ele veste é Levi’s.

Um verdadeiro rebelde seria aquele que se recusasse vestir calças Levi’s só porque lhe dizem que o deve fazer ou porque todos os outros as vestem.

Ocorre perguntar como se sentirão os adolescentes e os jovens assim retratados, mas a pergunta é tão ociosa quanto eles o são — a ovelha não se questiona porque segue o rebanho. Claro que a ovelha tem um cérebro um pouco menos desenvolvido, mas, como diria o guionista de A ressaca ou o autor da campanha da Levi’s, isso são pormenores que não interessam nada.

É assim que em vez de uma juventude capaz de relativizar as dificuldades por que passa, capaz de uma visão histórica que lhe permita descobrir o quão afortunada na realidade é se comparada com qualquer uma das gerações que a antecederam, capaz de um contributo para desbravar os novos caminhos que a sociedade necessariamente terá de seguir nos próximos anos, capaz de ser realmente rebelde, rebelde com conteúdo, temos ociosos carneirinhos da indústria preparados para partir montras e obterem aquilo que devia ser seu por direito natural. As suas sapatilhas de marca. Os seus telemóveis. As suas Levi’s. Afinal, como pode alguém viver sem estes bem essenciais?

Não se volta ao lugar onde se foi feliz

O José Ferreira Borges, amigo e compagnon das manobras periféricas, resolveu finalmente voltar à lide. Podem (e devem) lê-lo no Divina Comédia, blogue acrescentado nas ligações aqui ao lado.
O Vítor Lamas, poeta que se tornara abstinente, escreveu uns versos há coisa de dois meses.
Se por sua vez o Fernando Gouveia, outros dos mosqueteiros, se deixasse de merdas e voltasse a ter vida para isto, a sequência dos factos até podia causar um arrepiozinho na coluna. Mas não se volta ao lugar onde se foi feliz.

domingo, 14 de agosto de 2011

A Nero o que é de Nero, a Bush o que é de Bush


Da sua colina de historiador, e não sem um certo deleite, Vasco Pulido Valente vê confirmar-se o seu pessimismo sobre o império americano (e o império do Ocidente). O declínio (ou a inevitabilidade, se partilharmos o determinismo histórico) teria começado com o final da Guerra Fria, embora só agora se tenha começado a perceber.
Tenho uma tese diferente. O declínio da América e do Ocidente começou com a eleição de George W. Bush e o apogeu de uma certa visão do mundo. Ou, se quisermos, o declínio começou quando Bush, ou alguém por ele, viu na invasão do Iraque a possibilidade de tornar inevitáveis algumas ideias e práticas que ainda hoje excitam imensa gente e bloqueiam a política americana (e, de certa forma, a europeia).
Não roubemos ao homem o seu lugar na História. Pertence-lhe por direito. Estaríamos onde estamos se o Iraque não tivesse sido invadido? Esta é a pergunta.

O nome da besta

Se os presidentes americanos tivessem cognomes como os nossos reis, e se as fontes históricas fossem as colunas de imprensa, Bush passaria para os anais como George, O Idiota. Mas, por mais que apraza à esquerda, um tal epíteto retira-lhe imputabilidade, e isso desconsidera o seu papel na História.
Por outro lado, epítetos que se lhe podem colar ainda com mais propriedade têm o mesmo efeito de descrédito. George, O Testa-de- Ferro ou George, O Títere não só resultam ser injúrias insuficientes como lhe fornecem um dispensável álibi.
Porém definem melhor o seu papel.
As forças que estiveram por trás de Bush não foram para a reforma com ele. Como historiadores distantes, observam asséptica e ironicamente o declínio do império porque têm outro na calha para lhe suceder. Um que não precisa de pátrias nem de valores. Não de valores que não sejam traduzíveis em números. De contas bancárias.
O declínio pode ser inevitável, mas valia a pena deixá-lo apressar-se?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O nadador*

Não há como viajar pelo país para constatar a admirável difusão da estupidez. Nenhuma empresa de comunicações se pode gabar de ter uma cobertura tão extensiva. Por vezes, chegamos a uma zona montanhosa, a um bosque mais cerrado ou a uma longa planície desertificada e ficamos sem sinal no telemóvel. Mas bastam poucos instantes para nos darmos conta que, ali onde as ondas electromagnéticas não chegam, chega a estultícia. Não há fauna ou flora que ocorra com tanta frequência e regularidade na geografia nacional; nem o prolixo, adaptável e para muitos asqueroso rato é tão comum quanto a idiotice.

Isto a propósito de música e piscinas. O viajante, sequioso e derretido, entra numa povoação e, antes de querer saber de factos históricos ou etnográficos, pergunta desesperado pela piscina do município. Não há curiosidade cultural que se imponha a um céu sem nuvens e temperaturas superiores a 30 graus. De qualquer modo, a forma como uma comunidade se banha, as cores e modelos dos seus calções e biquínis e o jeitinho que tem para se revirar ao sol são dados importantes para o conhecimento etnológico.

Não tanto, infelizmente, quanto a música que se põe a tocar numa piscina.

De norte a sul, as piscinas são o prolongamento diurno e com excesso de cloro de discotecas. Mas não discotecas que usem um som universal, abrangente, transversal a classes e gerações. Não discotecas sensatas no volume e apuradas no gosto. Não. Apenas discotecas dedicadas ao franchise idiota e minimalista das «batidas graves e ensurdecedoras», para usar a definição entusiasta de um jornalista do Público (entre aspas).

Pensa o viajante que o jazz vai bem com água fresca e guarda-sóis? Pensa mal, o esquisito. Bossa nova ou, vá lá, algo caribenho? Nãããã. Um pop/rock sem data? Cota.

O cardápio é simples, tão simples (ou elementar; ou básico, no sentido que a tropa dava ao termo), tão simples que mentes distraídas como a do viajante acreditariam se lhes dissessem que durante a tarde toda apenas uma faixa do CD tinha sido posta a tocar (quando na verdade teria sido toda uma exaustiva e, hum…, complexa, discografia de uma época). O cardápio é e só o prato do dia, de todos os dias e meses do ano. O prato do dia que alimenta um par de gerações como as piores indústrias alimentam porcos – com a diferença de que as «batidas graves e ensurdecedoras» não são um equivalente a ração para engorda, ainda que deixem o utente com o mesmo olhar e curiosidade intelectual de um chouriço espanhol.

Não há espaço para devaneios sonoros nas piscinas nacionais. Não há espaço sequer para relaxar, aliviar stress, dormitar sonhadoramente. O banhista simplesmente tosta ao sol com os pensamentos ao nível adequado (e ali generalizado) dos de um frango de aviário (posto no churrasco) ou dá umas braçadas tentando não seguir o ritmo frenético da banda sonora se quiser chegar sem distensões musculares à noite. Mais sensatamente, o banhista fecha o livro (que por razões insondáveis e também elas estultas julgou poder ler) e foge em pânico para o mais próximo charco de água da chuva que tenha sobrado do Inverno (vulgo rio ou barragem de difícil acesso).

Para ser justo, o viajante terá de referir que nem todas as piscinas são geridas como coutadas exclusivas de adolescentes duros de ouvido ou imbecilizados pelas drogas. Há um ou outro tanque onde o público adulto é bem-vindo – sobretudo se tiver acabado de chegar de França para arejar a sua maison sazonal. Tony Carreira e respectiva prole fazem-se ouvir de vez em quando. E também um tipo atento ao zeitgeist económico que canta «já não há papel nem para o WC». E outro que refere (com excitação científica ou enternecimento humanista, não percebi bem) uma qualquer patologia anatómica de um certo buraco que, «coitadinho», apenas serve para urinar.

Nesta altura o viajante tende a partilhar com certos concidadãos de longas barbas e trajes andrajosos que encontra pelo caminho uma visão apocalíptica do mundo. Para distrair, lê o jornal, e encontra então a definição acima citada da actual música de discoteca. Lê o jornal e, enquanto procura o ramo mais alto e resistente de azinheira para deitar a corda, constata que mesmo os festivais de Verão, como o da Zambujeira, já não têm as bandas como «força motriz que faz avançar a máquina». A força motriz, ao que diz o excitado jornalista, é cada vez mais a das «batidas graves e ensurdecedoras» que tencionam transformar os festivais em discotecas ao ar livre – «com remisturas do último single dos Coldplay e tudo»!

*Referência, hum, erudita e criadora de ambiente ao magnífico conto de John Cheever, que deu azo a um swim movie (com Burt Lancaster, se não estou em erro; vá confirmar ao Google, que eu vou nadar.)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Teoria da conspiração

Citação do 31 da Armada no Público de ontem: «A Standard & Poor’s baixou o rating da dívida americana de longo prazo. Como é que ficam os teóricos (…) da teoria da conspiração americana contra a Europa?»

A precisar de rever a sua teoria. A conspiração existe e não é de ordem geoestratégica, mas ideológica. Ou nem isso: apenas, digamos, pragmática, de interesses particulares. Os países conspiram, naturalmente, mas o jogo no tabuleiro actual tem de um lado o capital (perdoem-me o palavrão e as suas conotações) e do outro a social-democracia. Obama é circunstancialmente americano, mas as suas ideias não tanto e escandalizam uma grande parte dos seus concidadãos, mormente os que mais beneficiam de um mundo regido pelos interesses monetários de uns poucos.

A S&P não agiu contra a América, mas contra Obama e o que ele representa. A minha teoria da conspiração diz que se o presidente fosse Bush ou um outro servidor da causa não haveria descida de rating. Sim, porque o endividamento para fazer guerras estúpidas (mas lucrativas para alguns, hélas) não é censurável, ao contrário do endividamento para sustentar políticas de interesse social, essa estanha forma de pensar.

Profetas em causa própria

Aparentemente, como se lê aqui e ali, o gesto da S&P iliba as agências de rating. Vejam, até baixam a cotação da América, como poderiam ser funestas estas agências? Como não reconhecer a isenção e a forma cristalina como actuam?

O Quarta República (igualmente citado pelo Público), a propósito do discurso de Obama, que, patrioticamente, clamou que os EUA serão sempre triplo A (como Sócrates faria – e Passos Coelho ou Cavaco depois dele), sugere que os governos deveriam ser geridos como empresas, e nas empresas os conselhos de administração abstêm-se, naturalmente, de interferir nas demonstrações financeiras. O Quarta República sugere que, tal como as demonstrações financeiras das empresas devem ficar a cargo de terceiros, “especializados”, os estados devem deixar a interpretação da sua saúde financeira às agências.

Sucede que as agências de rating não têm sido meros juízes imparciais. As suas opiniões determinam acontecimentos. Um pouco como quando um responsável da Porto Editora (um dos grandes grupos editoriais portugueses) prevê que os livros de poesia vão deixar de ser editados. É deste tipo de previsões auto-realizáveis que falamos.

Caos e anarquia

E já que estamos a falar de profetas e conspirações, fechemos em tom apocalíptico. Em Tony Judt pode ler-se que o estado social, nas suas diferentes formas, não foi apenas uma admirável criação generosa, altruísta, dos governantes do pós-guerra. Foi o resultado de uma leitura diligente da história das primeiras décadas do século XX. É preciso manter a classe média apaziguada – era esta a lição –, livre da influência de demagogos e dos seus próprios instintos aniquiladores. Os demónios à solta em França, na Grécia e agora na Inglaterra (para não falar nos países árabes) deveriam fazer soar campainhas. Mas não. Os mercados são mais importantes. No meio do caos e da anarquia, os condomínios de investidores e especuladores, vigiados por empresas de segurança privadas, hão-de sobreviver. Porquê preocupar-nos?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A arte de demolir

Talvez não seja culpa dele (não é certamente), mas pelo que se vai lendo na imprensa o Secretário de Estado da Cultura parece mais um liquidatário, alguém contratado pelo Governo para conduzir o processo de falência de uma pasta. Começou pela auto-despromoção: Viegas deve ser o único convidado para um cargo que impôs como condição prévia a imediata regressão na carreira. Nos últimos dias, a imprensa citou-o a determinar que Portugal tem equipamentos culturais a mais. Deverá seguir-se, naturalmente, o anúncio de que a SEC cabimentou uma verba para explosivos.


Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.

Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.

Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.

Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.

Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?

A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)

A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.

Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.

Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.

Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.

Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?