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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Eleições

Quem quer dar sinais de descontentamento ou sugerir ao regime a necessidade de inflexões ideológicas, tem um leque razoável e simpático de candidatos e candidatas para o fazer, da esquerda à direita (excluindo o chegano). Nenhum deles ou delas é um Churchill? Bem, nós também não somos a Inglaterra de 1940 (nem a Inglaterra hoje é a mesma de quarenta, bem vistas as coisas…). Um eleitorado tantas vezes medíocre e absentista devia ser mais humilde nas exigências.

Em todo o caso, não julgo que estamos mal servidos. E quem se quer divertir ou está mesmo zangado até tem uma opção interessante, um candidato que sabe contar uma parábola com seixos que, essa sim, devia orgulhar um povo.

Os outros descontentes que andam à procura de um príncipe encantado, deviam ter cuidado, porque está à vista de todos que o príncipe é afinal um sapo.

Se os neurónios estiverem um pouco enferrujados e precisarem de ajuda para perceber isso, deixo aqui duas pistas, dois posts do blogue Antologia do Esquecimento.

O primeiro reúne um conjunto de perguntas que cada um deve fazer a si mesmo. Só com isso a resposta virá com a evidência de um murro nas trombas.
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/tenho-duvidas.html

O segundo apresenta uma lista dos «portugueses de bem» que fazem parte do Chega:
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/portugueses-de-bem.html

Bem sei que a preguiça é muita, mas basta ler meia dúzia de linhas de cada um dos posts. Meia dúzia de linhas do princípio, do meio ou do fim, tanto faz. Trinta segundos de atenção a cada texto são suficientes. Se depois disso ainda acharem que há algo de positivo no indivíduo e no seu partido, bem amigos, o vosso é um caso perdido, sois burros por gosto. Ou sois má rês como ele.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

«A condição humana pode ser muito cínica»

«A condição humana pode ser muito cínica. Existem pessoas que têm medo de mudanças evidentes e rápidas, que detestam o feminismo, a transformação social, a queda de certas hierarquias, e querem vê-las restabelecidas.»
A citação é de Anne Applebaum e resume indirectamente a simpatia pelo Chega.

Sim, há os trolls que saíram das caixas de comentários dos jornais para a luz do dia e concordam com as boçalidades do líder. Sim, há pessoas no geral estimáveis mas zangadas com a vida e a política e que se iludem com as mentiras de um paladino de fancaria que uma criança é capaz de detectar. Mas os mais perigosos são os cínicos, para quem os fins justificam os meios. Para esses, André Ventura é o idiota útil, o testa-de-ferro, o magarefe que trata do trabalho sujo. Eles ficam a aguardar para colher os despojos.

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A entrevista de Anne Applebaum pode ser lida aqui:
https://brasil.elpais.com/brasil/2021/01/07/eps/1610037420_550433.html

domingo, 10 de janeiro de 2021

O grande barrete

João Miguel Tavares 

Trump, o Trump híbrido de Berlusconi e Mussolini que discursou no dia 6, poderia ter ele mesmo encabeçado como Moisés* a multidão depois de a ter incitado a atravessar o Mar Vermelho, podia ter sido «bravo» de acordo com os seus padrões em vez de assistir pela televisão e comentar pelo Twitter, como costuma, podia ter-se sentado com chapéu e cornos na cadeira de Nancy Pelosi, poderia ter acossado polícias renitentes ou feito selfies com polícias complacentes enquanto partia mobília, podia ter entrado na sala do Senado para proclamar ele mesmo o golpe, no que provavelmente seria seguido pelos ratos republicanos que agora saltam borda fora, Trump poderia, enfim, por uma vez ter sido consequente e ilustrativo e auto-evidente que nem assim António Barreto deixaria de ter escrito o que escreveu** e nem assim João Miguel Tavares teria deixado de saltar na cadeira de largo sorriso a aplaudir Barreto como criança a que lhe servem a sobremesa***.

E o que diz Barreto lá do fundo da sua resmunguice, do seu ressentimento ou do que lhe habita a alma? Que a culpa da invasão do Capitólio é das «esquerdas», pois claro. Ou, vá lá, de «democratas-cristãos, socialistas e sociais-democratas». Ou antes, na versão matizada, a culpa é dos «erros, defeitos e vícios» dos democratas****. Um dia em que se empolgue na indignação e no moralismo, ainda havemos de o ler a culpar a esquerda pelo pecado original de Adão e Eva, em que decerto se dispõe a acreditar.

Poderia Barreto ter-se ficado, por uma vez, como as pessoas sem segundas intenções, pela condenação da coisa em si e dos responsáveis directos por ela? Poderia, depois de ter listado retoricamente como listou uma série de atributos de Trump, afirmar inequivocamente que sim, este é Trump, em vez de dizer apenas «Tudo isto pode ser verdade» (itálico meu) e acrescentar um longo mas? Claro que podia. Mas como perder uma oportunidade de verberar o «sistema» (sem de facto falar do «sistema»)?

A lengalenga barretiana é agora antiga e não é totalmente errada. Sem esquecer nunca a culpa activa dos republicanos e dos promotores dos Trumps deste mundo (que Barreto amavelmente desvaloriza ou em que participa), é preciso considerar que as democracias têm de facto sido absurdamente complacentes com a corrupção e as desigualdades, por exemplo. Mas como mencionar isto sem falar do capitalismo, proeza que Barreto facilmente realiza?

Nas últimas décadas, com o surgimento de uma nova geração de direita, que aprendeu, nos melhores casos, pelos manuais do conservadorismo britânico e, nos piores, pelos manuais do neo-liberalismo americano, criou-se na Europa e exacerbou-se na América, com o regozijo de velhos ressentidos que aproveitaram para sair do armário, uma raiva ao «socialismo» (termo discricionariamente usado para englobar todas as esquerdas e o centro), uma raiva ao «socialismo» (que soa quase a comunismo, o comunismo estalinista) como fonte de todos os males, ao «socialismo» como demónio na Terra.
Não interessa que alguns dos principais pecados atribuídos a este «socialismo» sejam na verdade de índole não doutrinária. A corrupção e a manutenção ou agravamento das desigualdades têm sido muito democraticamente praticados pelos vários partidos que chegam a entrar em governos ou outros níveis de poder. As variações de grau da prática da corrupção devem-se mais, temo, ao contexto e às oportunidades concretas com que cada um se depara do que a subtilezas de carácter ou filiações partidárias ou doutrinárias. Contudo, esses flagelos sem pátria ou partido foram invocados com toda a lata por uma vasta multidão de opinativos mundiais (de que tivemos a nossa parte generosa) para criar o ambiente favorável à eleição de Trump e Bolsonaro pela rejeição violenta dos candidatos que se lhes opunham. Quando o mais simples bom senso dizia que, na ausência de candidatos melhores, a ter de se escolher o mal menor, haveria o eleitor que se resignar provisoriamente com a mediania ou mediocridade de Hillary ou de Haddad, eis que o mundo assiste estupefacto à farsa inimaginável de ter de tomar Trump e Bolsonaro como candidatos de fora do «sistema» capazes de combater a corrupção e as desigualdades.

Na verdade, a corrupção e as desigualdades são uma inevitabilidade do capitalismo como ele vem sendo praticado (e que poucos se atrevem a questionar sem desvio doutrinário bafiento), e são uma inevitabilidade em que, deve dizer-se, além de demasiados políticos, participa à sua escala uma boa parte da população anónima (incluindo, naturalmente, aquela mui puritana que vota em Trump, Bolsonaro ou no Doutor Sapo de Loiça).

O que estava em causa com a eleição de Trump e Bolsonaro não era, para os mais condescendentes com a dupla de ogres, esse combate, mas o cultural. Sim, ainda que encha a boca com os problemas económicos das populações rurais americanas, o que levou aquela gente a ser complacente com Trump e Bolsonaro foi a possibilidade de os ter como campeões de um combate que a maioria não queria assumir ou travar completamente às claras: a reacção a reformas sociais e culturais, à transformação da sociedade. (Um ogre é por definição um ser atávico, logo escolha certa se queremos preservar o mundo mítico que conhecemos.)

É verdade que a esquerda e o centro têm colocado um menor empenho no combate à corrupção e à pobreza do que nas causas culturais e sociais. O combate à corrupção e às desigualdades falha claramente porque, além de um raro carácter honesto e solidário, exige uma coragem muito maior: a de enfrentar o desconhecido (o que propor para mudar ou substituir o capitalismo actual?) e a de enfrentar o poder dos grandes agentes económicos. Já as reformas sociais apenas exigem enfrentar uma parte da população sem uma fracção desse poder.

Significa isto, esta pequena grande cobardia das democracias, que as reformas sociais deveriam ser postas de parte? Claro que não. Tal como é errado desprezar as dificuldades e o sentimento dos eleitores inocentes de Trump seria errado, por exemplo, desprezar os problemas ancestrais das várias minorias e desaproveitar a oportunidade de os corrigir, e de corrigir atavismos nacionais. Mas o que nos é proposto pelos que toleram Trump é que façamos essa escolha, que tomemos como problemas reais ou «sérios» os que a América rural simboliza e como meros caprichos burgueses as questões sociais ou culturais e as que afectam as minorias ou as mulheres, por exemplo. É, portanto, caracterizar a rejeição de uma parte da população como egoísmo e snobismo urbano, apelando, com uma suposta superioridade moral, à rejeição de outra parte dessa mesma população.

Percebo o receio de certo mundo conservador, e partilho do desagrado que sente, perante excessos e idiotices que à esquerda se praticam, como o fenómeno Cancel Culture e outros. Mas estes, mesmo quando graves, são equívocos, não são as causas de quem rejeita Trump e Bolsonaro.

Temos de lhes pedir, a este tipo de conservadores, que se controlem e não deixem que o medo do fim do mundo como o conhecem os empurre para uma distopia pior, que é a de um mundo que tem como supostos campeões da liberdade e da justiça bullies idiotas, corruptos, amorais e egoístas como Trump ou Bolsonaro ou eventuais plagiários indígenas.

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* Imagens de António Muñoz Molina no excelente artigo de hoje no El País: https://elpais.com/opinion/2021-01-09/un-paisaje-de-trastorno.html
** https://www.publico.pt/2021/01/09/opiniao/opiniao/perceber-1945609
*** https://www.facebook.com/joaomiguel.tavares/posts/3635077483244744
**** Note-se que Barreto chega a dizer que a democracia tem «tantos ou mais defeitos» do que Trump e programas de gente como ele…

domingo, 3 de janeiro de 2021

Os vizinhos do lado

Os vizinhos do lado devem ter oferecido a si mesmos uma televisão nova este Natal e andam há dias a fazer-lhe a rodagem vendo até onde chega o ponteiro do volume de som. Ou isso ou perderam acuidade auditiva durante o confinamento. Em qualquer caso, desde o tempo em que no Alentejo tive por vizinhos dois anciães de oitenta anos bastante moucos que não estava a par do enredo das novelas e do Big Brother como estou agora

domingo, 29 de novembro de 2020

Pela verdade

Esta pandemia foi criada para reintroduzir o hábito retrógrado e o gosto vicioso da leitura, mas a humanidade resistirá!

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Para uma semiótica do pessimismo antropológico

Há uma subtil mas significativa contradição naqueles pessimistas antropológicos que exigem governantes sem defeito. Alguns protegem-se perante si mesmos da incoerência tornando-se facciosos, especialistas em fabricar semânticas diferentes para governantes de sinal contrário.
Levada a um extremo, ou associada a uma menos subtil mas raramente admitida defesa do privilégio sobre todos os outros assuntos políticos, esta antinomia faz eleger Trumps e Bolsonaros sem dar notícia da intrínseca fractura no racionalismo do mundo. Ou, pelo contrário, considerando-a o corolário mais que perfeito da cosmogonia pessimista. Os seres desta última espécie designam-se como masoquistas ou cínicos, consoante a posição na tabela social.

sábado, 15 de agosto de 2020

Himmler não entra

Um misantropo é capaz de compreender que não se goste de pessoas, porque ao fim e ao cabo ele próprio não as tem em grande estima. Um pessimista antropológico (ou, se quisermos, um realista que consulte as tiragens dos jornais, as audiências das televisões, as listas de livros mais vendidos e a opinião comum nas redes sociais) receia com bons motivos o advento da democracia directa e pergunta-se, como o misantropo, para quando as viagens a Marte.

Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.

Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.

Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.

Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Nos fundilhos de um negrilho

O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.

Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.

Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Rebuliço na madrugada

Rebuliço na madrugada. Adolescentes bêbados e sobretudo parvos. O costume. Chamam a polícia e desta vez não são os vizinhos involuntariamente insones a fazê-lo, mas alguém do próprio grupo infecto-festivo num assomo de bom senso ou, mais provavelmente, por vingança beberrona. Um carro-patrulha, dois, três. Uma dezena de polícias, algumas cotoveladas joviais de cumprimento social para evitar conflitos e demonstrar certa compreensão perante a parvoeira — e nenhum protocolo evidente quanto a máscaras, distâncias e, sobretudo, madrugadas silenciosas.
O rebuliço, que se resolvia talvez transportando simbolicamente um ou dois patetas para curar a égua na esquadra e dispersando os restantes com vozes de pastor ou condutor de gado, é arrastado pelos agentes numa dança de ameaças entediadas, soletração lenta e por escrito da identidade de um ou outro grunho e por fim convívio geral e magnânimo. As moças riem à distância, pouco aflitas com o dispositivo cénico, gozando o panorama.
Por instantes, a galhofa é agora também policial (parte dos agentes parece saída há pouco daquela mesma adolescência).
O cidadão na varanda, farto da encenação e gozando antecipadamente o inusitado do acto que por sua vez enceta, silva um shiuuu irónico mas sonoro. Um dos adolescentes civis lá em baixo riposta: tropeçando e enrolando a língua a tentar parecer sóbrio, faz notar que tem a autoridade a seu lado, ou do seu lado. O cidadão, rindo para dentro, responde de forma a ser ouvido por toda a juventude, uniformizada ou não, que há na vizinhança, por incrível que pareça à tropa galhofeira, quem queira dormir. Instantes depois, a polícia dispersa. Menos mal.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Malhoa

Uma nação revela-se quando uma pesquisa no Google por José Malhoa tem como primeiro resultado o autor de Ana Malhoa e outras obras escusadas.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A morte de um afro-americano

Uma forma sofisticada de racismo, que utiliza o álibi do combate ao «politicamente correcto», afirma que a designação «afro-americano» é segregacionista, porque divide uma população que é toda «americana». Pretende quem tal propõe que, ao auto-designarem-se de afro-americanos, os negros dos Estados Unidos cultivam a sua própria guetização.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Alegria no trabalho

Talvez para dar alento a quem definha perante a possibilidade (inverosímil) de não haver festas populares no país este ano, a equipa de um dos veículos de recolha de resíduos urbanos que passa aqui pelo bairro tomou medidas terapêuticas quotidianas: quando estaciona fá-lo, do ponto de vista acústico (perdoe-se-me a sinestesia), como se assentasse arraiais à margem do ecoponto um daqueles camiões-palco vítimas de tuning, quitados com grupo musical, par de minissaias e muitos decibéis. A mesma selecção musical, a mesma desenvoltura de roadie, a mesma alegria no trabalho.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Sociologia barata do desconfinamento

Os testemunhos que vamos dando nas redes sociais sobre o desconfinamento utilizam uma ferramenta tecnicamente precisa — o olhómetro —, ao serviço de um fino pensamento teórico que procura, com rigor científico, confirmar sem escolhos a tendência pessimista ou optimista de cada um de nós. Este método é ainda modelado por contributos de fria matemática, como o estado de espírito, e de isenta objectividade, como o rancor ou a empatia que nos suscita o objecto de estudo — o Outro.
É assim que Portugal hoje, consoante os diagnósticos, aderiu a uma etiqueta social de pura orgia kamasutriana em espaço público — ou continua refém do medo de sair de casa. A ciência exacta que nos molda o olhar e o feeling diz-nos que o povo enlouqueceu e já não se lembra que há uma pandemia — ou que o povo soçobrou ao pânico sinistro instalado pelo Governo e não arrisca sair do teletrabalho nem para abastecer a despensa.
Onde uns vêem uma multidão desenfreada a recuperar meses de abraços e langores perdidos, outros vêem lojas pouco animadas e cafés vazios. Uns apelam para as pessoas saírem de casa e fazerem compras — outros exigem mais uma temporada de abstinência social.
O teletrabalho é a esperança de manter longe chefes e colegas intragáveis — ou a certeza inquietante de que o horário laboral e o seu olho omnisciente tomaram conta da vida privada.
O tuga aproveita para não telefazer nenhum — ou desespera por trabalho mesmo sem rede ou máscara.

Todas estas coisas e outras acontecem em simultâneo, em doses variáveis, influenciadas pela geografia e pela demografia.
O povo é biodiverso. Os problemas são complexos e paradoxais.
É no ponto onde se jogam todos os equilíbrios que as nações sobreviverão. Ou não, que sei eu.

domingo, 3 de maio de 2020

Ao serviço do ténis

[Pequeno ensaio sob hipnose]

Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.

Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.

Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.

A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.

A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.

No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.

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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.

domingo, 26 de abril de 2020

Um 25 de Abril

Há muitos, muitos anos, noutra encarnação, eu era baixista numa banda que no seu derradeiro momento perdeu para os Ornatos Violeta e paralelamente fazia gigs, como agora se diz em bom português, em bares, salões de baile, comícios e cerimónias de 25 de Abril.
Bem, no 25 de Abril tocámos apenas uma vez, que me lembre.
Foi na Adega do Faustino, esse templo dionisíaco em Chaves, e como a coisa era à tarde ainda não estávamos suficientemente bêbados para eu logo ter esquecido tudo. Não é que lembre grandes detalhes (foi há muitos, muitos anos, como disse...), mas há uma parte que ficou, não sei se comovente se cómica. Já veremos.
Éramos um trio, por vezes quarteto ou quinteto (não dependia do cachet), que levava o trabalho a sério e para aquele dia preparámos, por gosto musical e adequação temática, várias obras do Zeca Afonso. Não tínhamos ideias políticas muito definidas, acho, e na minha família recuada até havia certa admiração (felizmente retórica, sem correspondência material) por Salazar, mas o imaginário e mensagem afonsinos seduziam-nos, além de que não éramos tão estúpidos que não percebêssemos a importância do 25 de Abril até para o simples facto de podermos estar ali a desfrutar de tão faustinos prazeres.
Mas, como disse, tínhamos ido para trabalhar, em bom rigor, pelo que havíamos preparado um alinhamento que incluía, como se imagina, como se impunha, a «Grândola». Mais do que prevê-la no alinhamento, planeámos o set para que aquela música fosse o apogeu, a razão última de ali termos ido. Não sabíamos, ou quisemos ignorar, que esse era também o sentimento do público.
Ficámos por isso surpreendidos — embora tivéssemos montado todo um número em torno da «Grândola» que incluía sacar o baterista a tarola do seu tripé para fazer de caixa de rufos e alinharmos com ele as guitarras e o passo como pelotão napoleónico em marcha —, ficámos então surpreendidos (e quase, quase, envaidecidos, penhorados) por aos primeiros rufos se ter levantado toda a audiência para, numa rigidez e seriedade de hino nacional, algumas mãos no peito, aguardar que despachássemos o prelúdio e a encenação que tanto nos orgulhavam e chegássemos, como era mister, à parte cantada, em que todos podiam participar, dando finalmente como bem cumprido o seu dia cerimonioso.

Num outro ‘concerto’, em diferente localidade e ocasião, tínhamos conquistado a sala quando, por manifesta incapacidade de sermos artisticamente compreendidos pelo público, desistimos do repertório ensaiado e atacámos, por gozo, por revanche, por casualidade até, as notas memoráveis duma peça que dava pelo nome arcádico de «Apita o Comboio». A assembleia levantou-se com um ânimo que fazia da imagem que anteriormente tínhamos dela uma vista de lápides em campo santo, juntou-se em pares e bailou como se não houvesse amanhã. Perante aquela explosão súbita, perante aquela alegria que não queríamos ser culpados de tornar breve (ai de nós, diziam-nos alguns olhares), improvisámos mais longamente que os Pink Floyd em Pompeia, dispostos a despir a camisa (e a gravata, usávamos gravata) se necessário fosse.

Ora, com uma carreira que obtinha reacções assim, podíamo-nos ter interrogado (mas nunca o fizemos, claro) sobre as vantagens que um gira-discos não teria para o público, o promotor e sobretudo a nossa dignidade artística.

No 25 de Abril flaviense, com a «Grândola», nós queríamos causar aquela reacção, aquela comoção, planeáramos aquilo, mas quando aconteceu não estávamos suficientemente confiantes de sermos capazes de o obter. Podíamos então ter sido artistas realizados — se não tivéssemos percebido logo, com uma clareza que na verdade sempre fora evidente, que o empolgamento não estava na nossa prestação, mas na canção e no que ela representava. O melhor que podíamos ter feito naquele dia, do ponto de vista da originalidade artística, da capacidade de atrair atenções especificamente para o nosso trabalho, era termos destruído a música e o momento logo depois dos primeiros coros, mas não tínhamos vocação punk. E também não calculámos a tempo quantas daquelas pessoas se levantaram e cantaram apenas por tradição, por ritual, como recitavam na missa em coro o Pai-Nosso — e como no texas-bar de Cabeceiras ou o raio teriam dançado o «Apita o Comboio», com o mesmo empenho e convicção.

sábado, 25 de abril de 2020

O livro e a cultura

O editor e escritor Francisco José Viegas alerta há muitos anos, e com lancinante razão, para a tristeza trágica de termos um país sem uma política «favorável à criação de leitores e à circulação do livro». Fá-lo, por vezes, e é pena, opondo ao do livro outros sectores culturais onde a «incúria ou a indiferença» dos poderes será menor. Aconteceu de novo no artigo que escreveu esta quarta-feira no Público.

Defendermos que o livro e a leitura precisam de ser a grande prioridade de qualquer política cultural não nos devia tornar insensíveis a outras áreas. Por isso, a recorrente alusão de FJV ao sector do «espectáculo» com um certo tom de menosprezo compreende-se mas a generalização implícita e injusta desilude quem o lê e partilha as suas preocupações, fazendo temer uma mundividência algo truncada.

Julgo que concordamos que um dos grandes equívocos desta era, que perverte o apoio às artes, é tomar-se também como «cultura» actividades que com maior honestidade e proveito público se catalogariam de forma diferente. Manifestações, por exemplo, do domínio do mero entretenimento, em que sobretudo a moderna música popular é pródiga. Esta promiscuidade terminológica deixa sequelas legislativas e constitui a antecâmara de certa permissividade institucional na utilização discutível de dinheiros públicos, contribuindo, por isso, para a má percepção ou mesmo o antagonismo de alguma opinião pública.

E contudo uma parte do mundo do espectáculo, aquela que se refere por exemplo ao teatro e à dança e seus cruzamentos, padece de problemas análogos aos do livro. Também esta área, quando não coincide com o «espectáculo» no sentido superfluamente festivo e sobretudo decorativo a que Viegas alude, carece de uma política favorável à criação de público e à circulação de produções. Infelizmente, o sistema político e social vigente opera aqui do mesmo modo que expressa esta passagem essencial do artigo de FJV:
«“de cima” […] nunca vem um exemplo capaz de levar mais pessoas a ler, a querer ler ou a sentirem que a leitura é um importante instrumento de conhecimento e de diálogo com o passado e com o futuro, e também de elevação individual e participação na vida comunitária».
Experimente-se substituir na frase anterior, para alargamento da ideia e não como oposição a ela, o campo semântico da «leitura» pelo do «teatro» e compreenderemos como um dos problemas estruturais da cultura no país é, de facto, «a indiferença e a incúria», mas também o desdém ou mesmo a hostilidade, de diferentes poderes políticos e económicos.

A cultura, do livro ao teatro, tem demasiadas vezes essa função, nem sempre involuntária, de pin de lapela e item de checklist inofensiva ou politicamente correcta. É usada por dirigentes ou entidades como berloque em eventos auto-promocionais e exibida depois, com a aposição de um diligente visto burocrático, numa lista de pequenas penitências ou obrigações a que o moderno líder político não julga poder escapar — embora também nunca lhe ocorra ter nada de importante a fazer com ela.

No fundo precisamos de CEOs e de líderes e representantes políticos (no caso não demasiado provável de ainda termos onde os escolher) capazes de darem o exemplo a partir «de cima», capazes de adoptarem como lema para si mesmos e para as instituições que dirigem (a começar pelas televisões de sinal aberto e pelas grandes editoras) o slogan da RTP2: «Culta e adulta». Culta no sentido antigo de se ter mundo e leituras e adulta não no sentido de liberdade para a pornografia mas de fim da idade parva.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Observando (online) a vida selvagem

Tenho no blogue uma rubrica, algo descontinuada, que se dedica a pequenas observações da vida selvagem. Hoje, com a fauna confinada ao lar, esta prática zoológica está mais condicionada mas não é menos possível. A bicheza está agora, mais do que nunca, com maior ou menor empenho, investida no papel de concorrente de um Big Brother universal. Na impossibilidade de conviver como habitualmente, passa o tempo a mostrar nas redes sociais os cantos da casa, a estante cheia de bibelôs, o bar, a mesa posta e pós-prandial, os comensais, o sofá, os pijamas, produz vídeos de tolices mais ou menos encenadas e já falta pouco, se ainda falta, para alguém começar um directo de um coito mal disfarçado sob o edredão (pontapés e murros já deve ter havido bastantes, mas quem os dá geralmente não filma e a mera notícia deles está de momento a aguardar uma solução estatística). Não tarda, as televisões, que agora têm as equipas de reportagem confinadas como antes já tinham os escrúpulos, encontrarão no Instagram os conteúdos das suas grelhas futuras, com júbilo dos felizes contemplados.

A idade da Internet e das redes sociais fez-nos desaproveitar colectivamente a oportunidade que antes, numa época não muito remota, tantos desejavam: a de uma desculpa para ficar em casa a ler horas a fio, sem remorsos. Perde-se a oportunidade porque se perdeu antes o hábito, a curiosidade, o desejo. A pergunta «que livro levaria para uma ilha deserta» ficou de repente sem resposta, porque já só a uma minoria ocorre nesta nova era levar livros seja para onde for, incluindo para uma quarentena — embora ninguém se esqueça do telemóvel, vá para onde vá. Selfies e stories com palmeira, areal e mar seriam a ocupação mais provável do habitante único da tal ilha mítica ou retórica.

Mas em certos casos os remorsos persistem, porque há uma dimensão moral neste capitalismo absurdo do crescimento infinito que pune as peças da engrenagem que deixem de rodar como previsto, mesmo que a avaria ou a paragem da máquina não sejam culpa delas. Passam assim alguns a quarentena a dar voltas à cabeça para encontrar formas de serem úteis à economia, quando a maior utilidade, própria e social, por razões sanitárias e cívicas, para o presente e para o futuro, seria, precisamente, ficar em casa — a ler.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Futebol

Há muito que o mundo do futebol vive, já não num estado de excepção, mas numa «norma» que contamina o resto da sociedade e transforma em politicamente incorrecto o que vou escrever a seguir.
No futebol, uma falta intencional, mesmo que provoque lesão no jogador adversário, pode ser não só desculpada ou louvada mas também desejada, implorada pelos dirigentes e aficionados, se ela tiver importância no resultado do jogo — a única coisa que verdadeiramente passou a interessar, o fim que justifica todos os meios.
Jornalistas e escritores, outrora classes respeitadas, e até artistas pop, vão para as televisões debater com minúcia durante horas intermináveis os «casos do jogo» e, entre risadinhas ou leves indignações, lá arranjam forma de desculpar a falta, de a compreender ou de a justificar, se se dignam sequer falar dela duma perspectiva «moral», digamos. De resto, esta estirpe de intelectuais suspende alegremente o juízo crítico, a serenidade racional e o esforço de isenção quando se trata de futebol porque, já se sabe, a paixão clubística desculpa-se e a condição de associado pressupõe lealdade cega.
O futebol é, em suma, um particular mundo viril e neste particular mundo viril não se aplicam os princípios gerais da civilização. E desta forma gerações de pais levam gerações de filhos pequenos ao futebol e estes vão assimilando os comportamentos, a linguagem, a duplicidade de critérios, o pensamento fanático, a ideia geral de que tudo o que aprendem na escola ou «no lado feminino» da família pode ser rasurado se houver um enquadramento futebolístico.
E quase tudo vai tendo hoje um enquadramento futebolístico, ou tribal, se quisermos. A política, desde logo, onde, mais do que qualquer programa ideológico ou ideia de serviço público, nalguns partidos já vigora a fidelidade a líderes ou a facções organizadas para a mera conquista do poder. Mas também nas discussões sobre temas sociais, com os contendentes a cerrarem fileiras em claques que procuram vencer pelo ruído e pelo insulto. Pela «falta», se necessário.
Não admira que esta manhã, a propósito do caso Marega, se escreva um pouco por todo o lado que «no futebol sempre houve cânticos racistas e isso não costumava ser um problema.» E que o único deputado único candidato a fascista possa vir dizer que basicamente somos todos uns mariquinhas e ser aplaudido por milhares de energúmenos, alguns ainda a passarem por pessoas respeitáveis.

Ondas fundidas

O leitor de CDs do Chevrolet avariou há uns meses deixando-me refém das estações de rádio quando o silêncio se me torna perigoso por ir a conduzir demasiado desperto. Hoje a Antena 3 estava mais chata do que o habitual, com uma playlist que era uma egotrip de um apresentador qualquer. Mas só fui tentar a Antena 3 depois de passar sem ficar pela M80 (esse pecadilho geracional) porque a Antena 2 estava com uma intromissão. A meio de uma sinfonia simpática tinha começado a ouvir vozes. De início julguei que eram as vozes da minha cabeça a interferir com as ondas de rádio, mas notei que aquelas vozes tinham uma conversa um pouco mais cordial do que as minhas.
Algumas experiências de sintonização mais tarde, descobri que na zona do país em que circulava a Antena 2 e a Antena 1 estavam a partilhar a mesma frequência. Alguém no Lumiar ou lá onde é trocara inadvertidamente os fios ou carregara no botão errado, pensei. Mas no regresso, um par de horas depois, o problema persistia e agora era já o futebol que disputava as ondas com uma agudíssima soprano.
Demasiado pessimista para acreditar em conspirações benignas, nem por um momento imaginei, romanticamente, que alguém estava a boicotar o futebol com ópera. Não. Concluí logo que se tratava de uma acção pouco subtil para acabar com a alternativa clássica em favor do desporto único. Por estes dias já não há desaforos interditos para os sabotadores da civilização.