A nostalgia é um péssimo juiz. Age exactamente como o trauma, mas em sentido oposto. A pessoa traumatizada repelirá, odiará, desprezará ou temerá, com fobia ou pânico, tudo o que tenha uma relação com a causa do seu trauma. Os nostálgicos, pelo seu lado, acham maravilhosa qualquer coisa que evoque um passado onde tenham estado ou a que se sintam ligados, mesmo que tangencialmente.
Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.
Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.
Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.
Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.
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terça-feira, 7 de julho de 2020
quinta-feira, 25 de junho de 2020
O caixote das coisas justas
Nas mudanças de estação, se não somos adeptos de disruptivos banhos de loja, imergimos decerto no guarda-roupa lá de casa em busca da indumentária da época. Dá-se o caso, a partir de certa idade e de certo genótipo, de encontrarmos ali peças, ainda em anos anteriores viáveis e suficientemente neutras para irem bem com qualquer moda, que de repente se não deixam vestir, encalhando nas curvas. É a altura em que, se temos familiares receptivos e magros ou subestimamos a vaidade dos pobres que visitam o contentor público de roupas usadas, atiramos com intenção pretensamente temporária (mas procrastinadora) as peças para o caixote das coisas justas. E ficamos de repente pesarosos. Não pela silhueta perdida, mas pela possibilidade, que nos sugere a reverberação do nome, de no caixote termos vindo a arquivar mais do que roupa.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Os tiques de Nadal
Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Dilemas antigos
Recusando que a cretinice de terceiros me perturbe o Proust e os dias, escolho sofrer só de dilemas antigos, pré-crise de 2011. Se chove, hesito entre ter música de fundo ou ficar a ouvir a chuva. Se o tempo está favorável, agora que os dias são grandes, hesito entre ler na varanda ou correr no parque. Se o ocaso está de apetite, hesito entre ficar a ler ao crepúsculo ou ficar a ver o crepúsculo.
Não é fácil.
Não é fácil.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Alegria primitiva
Sinto quando por acaso descubro uma capa com o logótipo da revista LER, como agora aconteceu, a mesma alegria primitiva que sentia na infância se no horizonte havia uma revista da Disney (que raramente ou nunca pude comprar) ou, mais tarde, algo da Marvel (que já comprava com alguma frequência, preferindo investir nesses álbuns o dinheiro que outros gastariam para comer).
Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.
Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.
Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.
Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.
Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.
Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.
domingo, 8 de março de 2020
Meta-embaraço
Na mesma sessão de jogging do post anterior, um casal caminhando à minha frente e dando-se as mãos de braços estendidos, como se preocupado apenas com a transmissão aérea do vírus, ocupa toda a largura do trilho e preparo-me para o ultrapassar usando a estreita faixa de erva entre o caminho e um atoleiro. A escassos metros, o elemento masculino do casal apercebe-se da minha chegada pelas suas costas e delicadamente tenciona deixar-me passagem pelo meio dos dois, largando a mão da amada e encostando-se à esquerda, para a faixa de erva que eu planeara usar. Quer porque a inércia da corrida e a má forma já não me permitem mudar radicalmente de rumo, quer porque gosto de passar pela vida discreto, sem perturbar ou partilhar o caminho dos outros, tudo o que consigo é não atropelar o tipo alargando um pouco mais o arco da ultrapassagem pela esquerda — o que me põe a chapinhar pesadamente no lamaçal durante todos os longos segundos que levo a deixá-los para trás. Sem me voltar, ouço o ohhh culpado e embaraçado do rapaz e embaraço-me eu também por ter os pés em equilíbrio precário e sujo na lama e por o ter deixado embaraçado a ele com a minha mania de contornar todas as multidões, mesmo que de dois. Embaraço-me ainda por lhe ter, provavelmente, salpicado as calças, que ele trazia tão estimadas e esticadas. Continuo, como faço sempre, olhando em frente, como se apenas tivesse olhos para a meta — mesmo não sabendo o que seja e a que distância se encontra.
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
A melancolia de um misantropo
Paul Mason, no seu livro optimista sobre a humanidade e a inteligência artificial, diz, grosseiramente resumindo, que a superação deste capitalismo em furibunda crise de existência passa pela cooperação. Eu se fosse um deus seria um em que o Nick Cave de “Into My Arms” poderia acreditar. A minha vontade divina é ter sempre, em todas as ocasiões e circunstâncias, a coragem de ficar a um canto a ler e a espreitar a humanidade sem nunca intervir. A crença que consubstancio, menos ambiciosa ou mais utópica, é que já estaria bem se as pessoas não se atropelassem umas às outras.
Mas talvez haja também nisto uma forma de cooperação. Um misantropo é ainda um contribuinte para o bem comum, porque, tirando os casos extremos de eremitas, faquires e artistas da fome, come e bebe com apetite e paga as suas despesas e impostos com menos desagrado do que a maioria dos industriais e empreendedores a quem o capitalismo reza pela salvação. Uma sociedade de misantropos assim seria talvez pouco animada pelos padrões actuais de irrequietude e chinfrineira, de interacção símia, mas estaria, por natureza, muito mais preparada para assinar um pacto de não-agressão. Estaria, sem cinismo, muito mais preparada para retomar um ideal de União Europeia, a melhor das Uniões Europeias, uma em que cobriria o continente uma espécie de melancolia escandinava, com tudo o que ela traz de produtivo, bem-estar social e favorecimento da leitura.
Mas para que a melancolia de um misantropo seja para ele fonte de felicidade suponho que faça falta uma humanidade em tonta correria, a voltear no seu habitat urbano com afã de traça em candeeiro. O misantropo é feliz por contraste. Desdenha a humanidade mas precisa dela para se recordar de como os seus dias poderiam ser piores se tivessem um propósito social.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Montes ígneos
Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite
por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as
chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que
os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a
determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar,
víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais)
na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos
como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma
milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória,
simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho
fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um
braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que
parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio.
Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda
muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico
Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que
vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que
acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia
hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma
crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais
vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível.
Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu
imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha
brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se
lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto
é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta
que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno
comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o
número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que
aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.quarta-feira, 1 de abril de 2015
O tee do 17
Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras
Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam
as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez
mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia
sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17
anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha
memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e
vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u)
intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade
o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje
quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo
— me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam
ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das
Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do
lado de dentro.
E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque
de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a
minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo,
tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado
à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação
de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a
Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros
e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais
precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na
encosta do monte. Refiro-me ao tee
dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de
subir para a first shot, talvez por em
Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap
alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue
nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a
discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith
Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo
desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron
deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e
mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem,
felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só
deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao
final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos.
Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.
P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo
dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os
que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Lugar de saudade
Questionado sobre que sítio gostara mais de visitar recentemente, pensei em diversos destinos ibéricos e europeus, mas depois passou uma fotografia de uma country house no ecrã e senti uma nostalgia dilacerante de uma cidadezinha que nunca visitei no País de Gales. Os Velhos Diabos, prazeroso, nem está no meu top de leituras, mas lembrar-me do seu cenário foi um sinal eloquente de como os lugares literários disputam aos lugares reais um espaço no meu coração. E de como a literatura se me apresenta actualmente como um radioso, feliz — e sobretudo distante — lugar de saudade.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Pássaro na gaiola
Está um frio de rachar e, submerso em camadas de vestuário de acordo
com os receituários meteorológicos, ouço pássaros em plenos fôlego e inspiração
melódica. Não duvido da minha sanidade, mas pelo sim pelo não encosto os phones à orelha para checkar: no meio de
tantas páginas abertas para os trabalhos de hoje alguma terá talvez música de
fundo ornitológica. Porém, não. Os pássaros não esperam por padecer da
nostalgia de ar livre (mesmo que siberiano) e do consequente impulso que senti
há pouco quando me permiti espreitar a janela por segundos. Os pássaros
recusam-se à ladainha humana de ser domingo e ter de trabalhar e ficar meses
sem passear pelos montes. Os pássaros voam assobiando ou assobiam voando, e que
se foda a vidinha responsável e burguesa! Onde raios pus as minhas asas e o
diapasão?
domingo, 28 de dezembro de 2014
Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia
Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de
costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece
mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a
fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou
ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de
parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz
a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no
enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a
mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode
ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó
passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece
corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.
Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a
especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam
para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local
foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez
alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.
(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar
fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar
cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)
terça-feira, 12 de agosto de 2014
A constante da equação
Entre uma foto e outra passaram dois anos. Na primeira, de 2012, o
livro era A Informação, de Martin
Amis. Na segunda, actual, o livro é Os Velhos
Diabos, de Kingsley Amis.
Há duas ordens de leitura possíveis para estes livros — por data de
edição ou por idade dos autores e dos protagonistas —, mas só uma é cronologicamente
correcta.
Há também inúmeras formas de os ler, mas só uma nos salva deles. É que ambos
são divertidos, mas a matéria de que fazem uso (a vida) não o é assim tanto, se
levada a sério. Não caia na asneira de os ler na cama ou no sofá lá de casa. É
necessário descer ao sol promissor do Alentejo e enfiarmo-nos em calções curtos
numa piscina infantil, se quisermos sair verdadeiramente risonhos de ler os
Amis.
Publicado originalmente em 1995, quando Martin tinha 46 anos, A Informação trata de gente na casa dos
quarenta. Os Velhos Diabos saiu
antes, em 1986, tinha Kingsley 64, e fala de sexagenários. Martin, que tem
agora 65 anos, há-de andar desesperado para não
escrever um romance demasiado parecido a Os
Velhos Diabos. Ser-lhe-á difícil. Não porque esteja condenado a imitar o estilo
do pai — mas porque a vida (a tal matéria literária) não muda, verdadeiramente.
Da minha relativa juventude, prevejo que não difere muito ser-se sexagenário em
1986, 2014 ou 2034. Daqui a vinte anos eu próprio estarei a ter as minhas
dificuldades para não publicar uma imitação de Os Velhos Diabos.
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