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quarta-feira, 14 de março de 2018

Sociologia de supermercado #2

— Quando for grande quero ser um génio.
— Já tivemos esta conversa.
— Quero ser como o Einstein.
— Esse não, escolhe outro.
— Porquê, mãe?
— Os génios não têm grande futuro.
— Mas eu quero ser o Einstein.
— O Einstein morreu sozinho, pobre, na desgraça.
— Mas foi um génio, eu li.
— Não insistas.
— Vou ser o Einstein.
— Na escola não têm livros sobre o dono da Sonae, por exemplo?
— Sonae? O que é Sonae?

Sociologia de supermercado #1

O cliente pousa as laranjas no tapete e a caixa tenta equilibrá-las na balança à sua frente.
— Não havia lá sacos?
— Julgo que sim, mas não são necessários, não é?
— Ah, você é anti-sacos…

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O arcanjo Gabriel

Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A minha carreira musical

Um dia fui tocar para um conjunto de baile. O baixista titular fora requisitado pela tropa, a temporada de festas aproximava-se e alguém fez espalhar o boato de que eu sabia tocar o instrumento. Fui convocado. No primeiro ensaio, entusiasmados com a aquisição, os chefes da banda espetaram-me também com um microfone à frente e disseram-me para cantar. Era evidente que o nefando boateiro, por pura maldade, escondera a minha incapacidade biológica para o canto. Ok, talvez não a tivesse escondido em absoluto, já que era uma música dos Sétima Legião o que queriam que eu cantasse. (Convém dizer que naquela altura os grupos de baile eram organizações eclécticas com um repertório que ia sem hesitações nem mudanças de figurinos do samba aos Doors.) Como em tantas fases da minha vida, o simples facto de me pedirem uma coisa activou o bloqueio mental que em momentos-chave me impede de dizer o imperativo «não». (Bloqueio esse que, entre outras coisas dolorosamente inesquecíveis, fez de mim em tempos signatário cumpridor de um contrato para adquirir a prestações uma imprescindível bíblia de luxo). Cantei, portanto. Ou tentei. Foram na verdade horas de tortura (para todos, mas sobretudo para os restantes músicos): qual Rambo nas mãos do Vietcong, eu estava naquela época, ainda mais do que hoje, programado para nunca soçobrar perante o ridículo.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
Na verdade, a minha carreira musical iniciara-se anos antes, invejando o talento musical de um irmão e observando, especado em frente ao palco, o conjunto de serviço nos bailes de domingo à tarde, em particular o seu baixista, com bigodito de actor porno dos anos 70, que, se não recordo mal, usava apenas um dedo da mão direita e dois da esquerda. Aprendi a tocar guitarra fazendo sangrar os meus próprios dedos com um entusiasmo totalmente excessivo e desajustado e assumi a carreira de baixista anos antes de pegar num baixo, escondendo de mim mesmo que as duas cordas a menos não tinham nada que ver com a escolha. Para provar a vocação, estava sempre pronto a chamar de ignorante quem repetia o dito então em voga que dizia serem os baixistas guitarristas frustrados. Não era frustração, era sensibilidade.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.

sábado, 13 de janeiro de 2018

FNAT

Na despedida, o presidente da TAP diz que os últimos 17 anos foram para si muito «enriquecedores». Não é o único, felizmente, a sentir-se realizado em Portugal. Francisco de Lacerda, António Mexia e umas dezenas mais também têm tido carreiras agradavelmente estimulantes e recompensadoras.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

26 de Dezembro ou um post sem sentido

Há dez anos comprei uma biografia de Mao Tsé-tung (escrita por Jung Chang e Jon Halliday). Fazia parte do meu plano de conhecer melhor as grandes bestas do século XX. Li biografias de Hitler, Himmler e Estaline, mas por alguma razão a de Mao foi sendo adiada, ao ponto de ter passado anos a servir de plataforma elevatória do ecrã do computador, junto com um volume sobre castelos e uma escalfeta avariada. Há uns meses arranjei no IKEA uma solução melhor para assegurar a altitude ergonomicamente favorável do ecrã, mas nem assim me ocorreu começar a leitura, e o livro foi para a estante. O melhor que consegui fazer por ele foi pô-lo na posição de não lido.

Hoje, a meio de uma página do terço final de Os Loucos da Rua Mazur, aborrecido sem razão (não poderia culpar o romance), senti o súbito impulso de pegar na biografia e lancei-me a ela. Logo no início li que Mao Tsé-tung nasceu a 26 de Dezembro. Fiquei algum tempo a reflectir nesta coincidência, mas não concluí absolutamente nada.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A crise e a cultura: manigâncias

O ilusionista Luís de Matos, citado num artigo do JN, vê um lado positivo na crise que (também) afecta o sector cultural: «algumas companhias, cuja razão de existir sempre foi o facto de que certo dia conseguiram passar a ser subsidiadas, vão acabar.»
Aparentemente, este regozijo com o fim de companhias não tem origem num sentimento de injustiça ou inveja, porque no mesmo artigo o ilusionista revela que «só neste ano já fez 40 espectáculos à bilheteira» e, sublinha, «todos com lucro». Luís de Matos não tem portanto razões para cobiçar o famigerado «subsídio». Donde poderíamos concluir que quem se congratula com a extinção de companhias é o cidadão contribuinte que há nele.
Mas não. O seu é um desabafo de agente cultural. Ouçam-no: «A forma como se financia a cultura em Portugal é profundamente desmotivadora para quem trabalha e altamente proteccionista para os chamados subsídio-dependentes». (Luís de Matos trabalha; certas companhias, não, deduz-se.)
Lido com atenção, o discurso do ilusionista revela-se, afinal, apenas mais um lamento pela falta de apoios. Como português genuíno que é, o mágico não se incomodaria com uma ajudinha do Estado. Incomoda-se, sim, com a existência de «companhias que são subsidiadas há mais de duas décadas e, invariavelmente, os seus espectáculos têm 20 ou 30 espectadores». (Não revelou ao jornal se a contagem de cabeças nas plateias, ao longos dos anos, incluiu, generosamente, a do próprio ilusionista.)

Este género de manifestos ocorre com alguma frequência, artistas ou produtores que fazem coexistir no mesmo parágrafo a vaidadezinha pelo sucesso comercial e o lamento pela falta de apoio do Estado. Não notam a incoerência, são verdadeiros artistas portugueses.

Um pouco mais à frente, reforçando a sua perspectiva da crise enquanto bondoso «processo de selecção natural» e a confiança na sua própria fórmula, Luís de Matos diz que «quem faz bem, nada deve temer». Só não explicou o que entende por «fazer bem». Devem as companhias optar pela prestidigitação em vez do teatro ou da dança? Ou acredita o mágico que obteria idêntico sucesso comercial se encenasse Beckett ou mesmo o «imperecível» Shakespeare? Talvez o segredo de ter público para a dança não esteja em levar à cena «O Quebra-Nozes» no Natal, mas em ter o Luís de Matos a interpretar Merce Cunningham ou Pina Bausch. O Estado deveria era despejar dinheiro em produções destas, êxitos garantidos de bilheteira. Quem não pagaria para ver?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prédios

1.
Vi-o de cabeça levantada — medindo o colosso com ar entendido, o indicador percorrendo os pisos com minúcia de sapador — e por momentos pensei que estudava a distribuição de cargas adequada para implodir um dos prédios “Coutinho” cá do burgo. Mas não. Era só um turista divertido, contando quantos pisos o mamarracho tinha acima das vivendas em redor, recolhendo amostras para uma antropologia lusitana, tirando fotos para o seu álbum de aberrações de Portugal.
  
2. 
O anúncio lista os atractivos do apartamento à venda num andar estratosférico do Porto. Das muitas virtudes mencionadas, só uma é verdadeiramente irresistível: o andar tem vista para «a relva do Estádio do Dragão». Não era dito qual dos tufos da relva do Estádio do Dragão — o anúncio carecia de detalhe.
Mas era um anúncio inteligente, dirigido a um vasto especto de compradores. Entre os candidatos a morar em tão celestial nuvem estão inúmeros portistas detentores de binóculos e, desconfio, alguns benfiquistas com licença de porte de carabina com mira telescópica.
  
3. 
Os edifícios residenciais por vezes adoptam nomes que lhes garantem distinção, ou, em fase de venda, lhes prometem compradores. Não vi até à data nenhum título capaz de despertar mais o instinto consumista num sem-abrigo do que “Varandas da A4”. A A4 é, adivinharam, uma auto-estrada — e alguém concebe melhor forma de passar os dias domésticos do que à varanda a ver o tráfego Porto-Amarante? Eu não.

Ontem

1. Tecnologia Gutenberg
Às cinco e meia da tarde, na piscina, julguei por momentos que o meu cérebro fora sequestrado pela silly season. Tinha pago mais de cinco euros para ficar sentado numa cadeira de lona a sofrer as sevícias de uma selecção musical idiota, com o volume regulado para surdos profundos. Depois, ufa!, lembrei-me que podia abrir o livro ou ir nadar. Experimentei nadar e deu resultado: debaixo de água quase não se ouve a música. No entanto, esta solução revelou-se ineficaz a longo prazo — há limites para o tempo que aguentamos sem respirar (se não estivermos assim tão desesperados com a música). Agradeci sem sinceridade ao nadador-salvador por me ter trazido à tona (eu estava assim tão desesperado) e, de volta à cadeira, abri o livro. Iniciou-se de imediato o processo de teletransporte dali para fora. Devia ter optado desde logo pela tecnologia Gutenberg.

2. Efectivamente, escuto as conversas
Na esplanada do restaurante ouvia-se à noite música de altifalantes. O largo da terra era ali ao lado e este era o fim-de-semana da festa. (O meu cérebro tinha sido sequestrado pela silly season, caso contrário o que fazia ali eu?) De qualquer modo, o conjunto ainda não tinha começado a tocar, pelo que as lesões nos tímpanos eram para já reversíveis. Se eu saísse antes das 23h00 as coisas não iam de certeza piorar.
Mas pioraram. Pode haver coisas piores do que altifalantes roufenhos a debitar hits pimba. Como por exemplo sentar-se na mesa ao lado da nossa um par de machos lusitanos ébrios de 4x4 e de uma meia dúzia de cervejas bebidas no fim de uma tarde a rolar no monte.
Ao lado da sua irrequietude envolta em t-shirts com logótipo e do seu vozear de gorila na tundra (talvez a imagem certa seja chimpanzés com voz de hienas), as músicas do grupo Chave D’Ouro que se ouviam antes pareciam suites de Bach para violoncelo.
Não havia uma piscina por perto para onde me pudesse atirar (com a base de cimento do guarda-sol amarrada ao pescoço) e em vez de um livro tinha trazido o Expresso. (Céus, o Expresso!) Estava portanto dependente da velocidade da cozinha e da velocidade das minhas mandíbulas. O chef não colaborou (as mandíbulas sim, quando finalmente lhes foi dada a oportunidade), pelo que tive de suportar a minha meia hora de calvário ouvindo as conversas da mesa ao lado. Nada a que não esteja habituado. Quer porque apenas posso frequentar restaurantes populares (troika obligé), onde as conversas são geralmente mantidas aos berros de licitadores num leilão de porcos, quer porque tenho o vício estúpido de recolher matéria para livros que ninguém quer editar, provavelmente ninguém quer ler, e eu decerto não sei escrever.

sábado, 18 de agosto de 2012

Dinamite

O meu amigo é especialista em perfuração com explosivos. Recentemente contrataram-no para uma intervenção no metro de Roma, mas não há qualquer relação entre isso e as notícias de que o Coliseu está a ficar inclinado.
Uma amiga do meu amigo tinha toupeiras no jardim e queixava-se disso. Ele resolveu intervir. Minou o terreno, com cargas cirurgicamente distribuídas e ligadas entre si, posicionou-se, e, accionando o detonador à distância, rebentou com o jardim. Foi uma limpeza, diz. E bonito: o jardim elevou-se uns trinta centímetros, com um fragor surdo, e regressou ao chão. Revolto como se tivesse andado por ali um engaço furioso. Não havia mais toupeiras. Nem jardim. Agora era só passar um ancinho e semear nova relva, disse ele, com aquele sorriso de menino, de menino traquinas. Um sorriso de Calvin. Perguntei-lhe como se chamava a amiga, mas não, não era a Susie.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Cristo faz parapente

No meu percurso de jogging aparece a certa altura um Cristo crucificado. Não, não é um milagre. Cristo não me escolheria para aparições dessas, não sou uma testemunha credível: demasiada propensão para crer no fantástico. Trata-se de uma escultura religiosa postada em frente a uma capela. À distância, parece uma espécie de cruz ortodoxa, com um segundo travessão acima da cabeça de Cristo. Mas este travessão é maior e não menor, e vinte passadas depois confirmamos que é na realidade uma cobertura em chapa, para que o Filho de Deus não molhe a coroa de espinhos.
Entre estes dois momentos, ou entre estas duas distâncias, há uma outra ilusão. A dez passadas, sem óculos, a cobertura — com as suas duas águas mas sem vértice na cumeeira, curva como um tecto de hangar, ligada por duas tiras ao madeiro onde Cristo tem os braços — surge insuflada como um pára-quedas. É como se o Nazareno praticasse parapente.
Não sei se é assim que Ele desce dos Céus nos dias de aparições, suponho que não. Seria como “caminhar” nas águas sobre uma prancha de surf, excitante porém fraudulento. Todavia, um Cristo “radical”, que também fizesse a Sua ascensão escalando com as mãos e pés-de-gato, como todos os alpinistas, ao invés de o fazer flutuando com propulsão telepática, seria certamente mais humano — e não mais um dos mutantes dos X-Men.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Álbum fotográfico

O povo diz que o futuro a Deus pertence e isto tanto pode ser uma manifestação de impotência como de renúncia. Mas e o passado? A quem pertence o passado?
Olhando para algumas fotografias de infância, hesito. Reconheço o décor, o guarda-roupa, os restantes personagens, mas tropeço no protagonista. Quem é aquele indivíduo? De quem são aqueles cabelos? Aqueles olhos generosos? O sorriso inocente? Não faço ideia. As minhas memórias, as que sobreviveram, encaixam vagamente nas cenas retratadas, mas não evito um forte sentimento de desconfiança quando observo a criança que supostamente era eu trinta e tal ou quarenta anos atrás. Se não houvesse outras testemunhas, não me custaria falar em usurpação: um rapazola de belos caracóis a fazer-se passar por este pobre artilheiro.
Avanço entretanto na cronologia do álbum e na adolescência não fico mais descansado. Fico, aliás, mais incomodado. Que cortes de cabelo são aqueles que me atribuem? Que trajes ridículos dizem as fotos que vesti?
Aqui o personagem não me é tão estranho, cruzei-me com ele várias vezes, crescentemente, nos espelhos da casa de banho e do guarda-fatos. Numa ou noutra montra. A partir de certo dia, nos espelhos atrás de balcões em cafés. Quem sabe se na bola de espelhos de alguma discoteca dos anos oitenta, naqueles momentos em que o êxtase nos põe a olhar parvamente o tecto.
Em todo o caso, reconhecer o gajo não é aceitar de ânimo-leve que ele e nós somos um. Estamos a falar de alguém que vimos ao espelho há trinta anos. Quer dizer, há trinta anos havia certamente muita gente a frequentar os mesmos espelhos, quem pode garantir qual dos semblantes reflectidos éramos nós?
Pode acontecer que eu seja um caso particular, que mais ninguém se intrigue assim com um álbum fotográfico. As pessoas tendem a aceitar como boas as memórias que os outros têm da sua própria infância e adolescência. Partem do princípio de que não há no mundo, no seu mundo, maldade suficiente para que alguém minta sobre um período tão inocente. Eu próprio tenho partido desse princípio. Por isso me sinto agora como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, embora ainda não tenha esclarecido a que décadas corresponde cada uma das facetas.
Mas vamos que nos tenham mentido. Vamos que no que toca ao passado tudo não passe de um embuste, uma conspiração. Talvez devêssemos pensar humildemente duas vezes antes de nos gabarmos de feitos da infância: se calhar não éramos nós. De igual modo, talvez possamos deixar de sofrer com as maldades que supostamente fizemos décadas atrás: mesmo que não tenham prescrito, decerto foram cometidas por outra pessoa. Quem tenha dúvidas, que compare o nosso DNA com o DNA das fotos a preto e branco ou com cores deslavadas que alegadamente nos incriminam. Estou seguro de que não coincidem nos pixéis ou nas percentagens CMYK. 
O nosso passado é uma narrativa dos mais velhos. Não temos nada a ver com isso.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Perdemos, e foi bom

Uma coisa é a emoção de torcer até ao fim pela selecção, outra é querer mesmo que ela ganhe. Para uma quantidade demasiado ruidosa e abastecida de combustível de pessoas, uma vitória é uma licença para tomar o espaço público e impedir por longas horas qualquer movimento ou forma de vida ou de expressão para lá do ritual futebolístico.
Nesse sentido, o jogo de hoje, com prolongamento e penalties, permitiu o melhor de dois mundos: emoção redobrada e expandida — e um resto de noite aberto a outras possibilidades.
O campeonato perfeito seria aquele em que Portugal estivesse presente em todas as fases, da qualificação à final, e não ganhasse nenhuma delas. Sou pela emoção do jogo, não pela da vitória.

sábado, 23 de junho de 2012

Parabéns

António Pinto Ribeiro faz hoje no Ípsilon o seu balanço de um ano de Secretaria de Estado da Cultura. Voltarei ao texto mais tarde. Por agora fico-me por algumas observações avulsas.
APR lembra duas iniciativas fantásticas do SEC: a «criação de uma rede de património do judaísmo» e a programação de uma «tournée de Verão a ser realizada por uma orquestra». A primeira proposta tem o seu interesse, sejamos magnânimos, mas faz-nos perguntar, por exemplo, que iniciativas teria Viegas se fosse um apaixonado pela cultura muçulmana, um pouco mais visível no património.
A segunda seria só ridícula se não fosse sintomática (a primeira também o é, aliás): de facto, o que fazia falta em Portugal era uma estrutura do Estado central que se dedicasse à programação. Deve ser a este paternalismo que Viegas chama liberalismo. À moda antiga, pois claro.

Depois da famosa entrevista de FJV ao I em Maio de 2011, é bom fazer notar que em Portugal as apresentações de dança, teatro e música (excepto pop/rock) diminuíram drasticamente (há salas que simplesmente já não programam teatro), mas, hélas!, um ano de SEC depois a música pimba e manifestações conexas não retrocederam. Pelo contrário: procuram ocupar o vazio da restante programação.
Se quisermos ser simplórios, podemos atribuir à falta de dinheiro ou à desistência de algumas câmaras municipais o recuo na programação de qualidade, mas também não custa perguntar à SEC por onde tem andado.
Uma resposta possível é esta: ocupada a telefonar ao maestro Vitorino d’Almeida a propor-lhe o projecto do «Festival Grande Orquestra de Verão» que, pasme-se, vai levar concertos promenade a várias cidades do país, cousa nunca vista nem sonhada.

O país pode portanto dormir descansado: desaparecem o teatro, a dança e a música menos óbvia, mas uma vez no ano vai ter o senhor maestro e uma orquestra expressamente providenciados pela SEC. Uma barrigada.

A propósito: António Pinto Ribeiro também refere «a dimensão kitsh da aplicação obrigatória da menção ‘Governo de Portugal’ em todo material de comunicação de todas as acções que tenham um mínimo de apoio do Estado». Esqueceu-se de referir que na cultura a menção inclui ainda «Secretário de Estado da Cultura». Secretário, não Secretaria…

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Daqui houve nome Portugal

A exemplo de tantos outros edifícios abandonados no país, talvez a Escola da Fontinha, no Porto, nem precisasse de ser ocupada por uma associação recreativa e folclórica, um clube de amigos do automóvel, ou um qualquer grémio jantante de pessoas de bem para ser generosamente cedida em protocolo por uma década ou duas. Bastava ter sido pedida com vénias e salamaleques e outras homenagens ao imenso ego do xô presidente da Câmara. O requerimento, mesmo que para aquelas nobres actividades, não podia era ser apresentado por gente com rastas, piercings ou tatuagens, que as boas famílias em Portugal não apreciam.

Presidida por quem é, a Câmara do Porto não perdeu naturalmente um minuto a avaliar o eventual mérito da ocupação da Escola e jamais equacionaria a possibilidade de lhe dar ela própria enquadramento e apoio. O preconceito tem demasiada força.
Rui Rio é um presidente de câmara a governar para uma cidade que existe sobretudo na sua cabeça. Não está ao serviço de todos, divide os cidadãos de acordo com os seus (dele) preconceitos, beneficiando uns e desprezando os outros. É autoritário, e nas restantes vezes é ressabiado, vingativo. Durante o seu reinado, a Invicta só não desceu mais ao nível de uma qualquer cidade de província porque houve iniciativa privada que por exemplo atraiu turismo (mochileiro, é certo), uma onda que ele oportunisticamente tentou surfar. Onda essa que lhe serve, e infelizmente a demasiada outra gente, para achar que a vida no Porto está boa. Não está assim tanto. Como segunda cidade de um país europeu, o Porto deixa muito a desejar. Os paroquianos é que são pouco exigentes.
Rui Rio continuará até ao fim a colher os frutos de bravatas que passaram por discurso iluminado e lhe deram fama de homem rigoroso e tenaz. Não foi muito disto e em tantos momentos foi-o em favor de causas que só empobreceram a cidade, a tornaram mais provinciana. Mas o auditório conservador português, ele próprio de tendência paroquial, está sempre a suspirar por um «déspota esclarecido» — e o mau-feitio do Presidente da Câmara nortenha passa muitas vezes por isso. Talvez venha a governar o país.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O cantinho do hooligan (I)

Tenho um amigo que me oferece vídeos e livros de Medina Carreira e desconfia que um vizinho ciclista é beneficiário do RSI, já que não faz outra coisa senão pedalar todos os dias.
O meu amigo não esclarece, mas deve ser a isto que se chama indícios de enriquecimento ilícito.
Nos dias que correm, ter um topo de gama e muitos zeros no salário dá menos nas vistas. Há, aliás, uma quantidade interminável de idiotas úteis nos blogues e nos jornais (e no Governo) pronta a sustentar o álibi dos que cometem vencimentos e rendimentos milionários.
Também sou dos que acham que há demasiada gente a ganhar sem merecer. Apenas discordo que estejam todos na base da pirâmide. E, como tantos bloggers liberais, também me sinto um ironista, mas a prazo: vai ser divertido ver o povo estourar. Com a cabeça dos ricos.

Estrangeiro próximo ou vá para fora cá dentro

Claro que podemos ser optimistas e imaginativos. A DG Artes anunciou recentemente um programa de apoio à internacionalização das artes. Talvez aqui no interior possamos contar com a solidariedade da SEC numa candidatura para acolhimento de projectos artísticos ao abrigo daquele programa.

terça-feira, 27 de março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Debate

É certo que ainda tenho Pedro Lomba como um tipo de direita sensato e que, quando o lia há uns anos, apreciava boa parte do que escrevia António Barreto, mas na conjuntura actual pergunto-me o que será um debate com Pedro Lomba e José Manuel Fernandes, moderado por António Barreto.