Às cinco da manhã houve fogo-de-artifício na rua ali atrás e não fui eu
que o lancei. Podia ter sido: partilho da mesma insónia e do mesmo desejo de adiantar
a pirotecnia e os ponteiros, da mesma pressa em sair deste ano velho e de maus-fígados.
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Bastardia
Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Um Pirandello para Coelho
Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um
papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos
Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia
mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido
precocemente actividades.
Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha»
Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou
porque é mais exigente um casting para
musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia
portuguesa.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
«A vida militar»
«Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas
frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram
absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no
mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com
um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem
loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados.
Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam
de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se
eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me
mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar
seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do
ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada
os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os
cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do
seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser
perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura
do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem
bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado
onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à
hierarquia.
Nas
primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de
sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda
mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila
para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona,
incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o
equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de
suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao
contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que
éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de
os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas
ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que,
numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se
ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa,
tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para
conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada
a atmosfera já de si empestada da caserna.
O
pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de
Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e
mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do
Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a
perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era
de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na
parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os
gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do
alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho
ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com
a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se
pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica,
como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um
tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em
que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma
num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número
três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros,
quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral
verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt
de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta
e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente
penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os
cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no
desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço,
ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro
que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me
entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de
ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em
metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da
manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade
da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista
de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e
na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram
infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»
* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem
sofística do Exército.
P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Mil poetas
A Chiado Editora tem uma Antologia de Poesia Contemporânea que reúne cerca de mil autores. Sim,
apenas mil. Julgávamos nós que Portugal era um país de poetas e a Chiado,
propondo-se antologiar a raça, não encontra mais de mil. Que ineficiência. Que
preguiça. Que falta de respeito pela veia pátria.
É certo que o excesso de escrúpulo teve as suas
vantagens: não há na antologia senão Homeros. O escasso número de autores assegura ao leitor o mesmo conforto que teve o organizador: em colectânea peneirada
com tal minúcia é virtualmente impossível encontrar um poema mau.
A opção elitista da editora tem naturalmente
desvantagens comerciais (o que dá uma certa nobreza abnegada à empresa, é de
reconhecer). Sabendo-se que os leitores portugueses, na hora de comprar, são
movidos sobretudo pela cumplicidade estética,
pela afectividade intelectual e pelos laços literários
que mantêm com os autores, está bom de ver que se venderão uns meros seis
ou sete milhares de exemplares da antologia quando se poderiam vender pelo
menos sessenta mil, se se multiplicasse por dez o número de antologiados.
Reflectindo, aliás, mais verosimilmente a contemporânea arcádia lusitana.
Dez mil poetas lusos* é o mínimo que uma antologia que se preze deve às letras
portuguesas.
* De longas barbas e de braço dado a cantar eurovisivamente,
à grega, “Good bye, my love, good bye”.
P.S.: Entre o Sono e o Sonho é o título da
antologia da Chiado Editora. Entre o sono dos leitores e o sonho delirante dos
autores, presumo.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A ascensão germânica
Há quem diga que todas as rivalidades dos anos 80 foram redimidas com o
convite de Nena a Kim Wilde em 2002 para o remake de “Irgendwie, Irgendwo,
Irgendwann”, incluído no álbum que celebrava os 20 anos de carreira da cantora
alemã com o título “Anyplace, Anywhere, Anytime”. Mas a exegese do vídeo que acompanhou a canção deu azo a duas teorias diferentes. A primeira toma o gesto de Nena por
um acto de piedade, não de conciliação. Contudo, embora a piedade não raro envolva
sobranceria ou condescendência, pode-se ainda optar por ver ali apenas nobreza.
«Vamos lá tirar a Kim da sua jardinagem por um momento e lembrar ao mundo como também
ela cantava bem», poderia ter pensado a simpática Nena, num arroubo de caridade.
sexta-feira, 27 de março de 2015
Benefícios do agendamento de posts
Uma das vantagens de ter escrito livros que permanecem inéditos é esta possibilidade de ir publicando excertos no defeso, alimentando com eles o
blogue, agendando posts como se o
escritor ainda estivesse vivo (quem o garante?). Além disso, o leitor pode
encontrar certo prazer lúdico em coleccionar os excertos e tentar uma
reconstrução da obra, a ver se lhe encontra sentido. Etiquetas como Aranda ou Hotel do Norte, havendo paciência, podem encher-se de um número
suficiente de excertos para que, montando-os laboriosamente como bobinas de
película, o leitor logre ufano a sua reader’s
cut.
Claro, há também a possibilidade de, no termo da montagem ou cansado de
tentativas, o leitor descobrir que a obra não tem afinal, digamos, ponta por
onde se lhe pegue. Mas nessa altura não é certo que o autor ainda esteja aí para sofrer o
choque.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Existencialismo automóvel
Estou a envelhecer. Antes acordava a meio da noite a questionar-me se chegara a estacionar o carro ou se simplesmente o parara no meio da rua e subira assobiando as escadas de casa. Hoje espreito frequentes noites da varanda se o carro ficou estacionado numa perpendicular perfeita ao lancil e com distâncias cívicas aos automóveis dos vizinhos.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Um café no Agueiros
Juro que queria ter ido a Felgueiras esta semana. Nem toda a gente ali tem culpa do culto fatimida que durante anos vigorou no concelho, e de resto essa é uma religião partilhada pela maioria dos compatriotas, com uma ou outra variante regional no que ao orago diz respeito. A cidade tem um teatro bonito restaurado com franco optimismo há poucos anos e há nas redondezas uns cafés simpáticos. Não tanto pela decoração, mas pelo serviço. O Agueiros, por exemplo. Ah, um cimbalino, uma água das Pedras e um boletim do Euromilhões no Agueiros, em Felgueiras. Fica-se tão bem disposto que apetece ir logo pagar 20 milhões de impostos e desaparecer por uma década ou duas no sigilo bancário. Isso e substituir a foto de perfil no Facebook por um boneco das caldas.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Uma semana de férias
Sempre gostei de gente encurralada. Assim de repente lembro-me de um
pelotão americano no Estreito de Bering à espera dos russos num filme sobre a terceira
guerra mundial, Tex Willer numa colina à espera dos índios, uma multidão
sozinha em casa à espera de zombies em ene variações cinemáticas sobre o mesmo
tema e um escritor de asa ferida atolado numa cabana setentrional à espera do
degelo da Primavera. Fascina-me a tensão da espera. Ou talvez me fascine a
sensação de isolamento, de solidão extrema, tipo último homem na terra face ao seu destino. Eis porque gostei de Eu Sou a Lenda (até aparecerem outros humanos).
A neve é um bom contexto para histórias de encurralados e/ou solitários.
Eu, que me vejo com frequência masoquista na posição de encurralado, odeio que
não neve neste país de brando clima. Abasteci a despensa de conservas para o
dia em que nevasse para uma semana e de cada vez que recorro a elas é apenas porque
há uma crise económica, forma pífia de encurralamento.
Um dos males de se ser adulto fora da ficção é estar-se encurralado e
não se poder simplesmente ficar em casa à espera dos zombies, como Penélope à
espera de Ulisses mas com menos carinho e mais zagalotes. Quando se é adulto e não se é
personagem de um filme ou de um livro, como é minha triste condição, um
tipo tem de sair para conviver com os zombies, fingir-se um deles, agir como
eles, com o mesmo tipo de prazeres e ambições.
Por isso quando, a propósito de férias, me perguntaram qual o meu local
de sonho para uma semana em Portugal eu respondi sem hesitar: «a Herdade da
Coitadinha, Barrancos».
Que era um fim-de-mundo, disseram com pasmo depois de eu explicar onde
ficava. Exactamente. Se o limite é o território nacional, não vejo onde possa
desejar mais estar do que naquele belíssimo cu de judas.
Não falo de cor. Já lá estive e sei bem o quão isolado e desejavelmente
pouco frequentado é o sítio. Estudei-lhe a geologia e parece-me solo pouco
consistente. O castelo de Noudar ali perto já viu algumas das suas fundações cederem
com inveja da Torre de Pisa. Tenho esperança de que quando lá me conseguir
hospedar por uma semana se abram entre mim e a civilização barrancos como
fossos de profundidade Senhor dos Anéis
(não aquelas valazitas que hoje dão nome ao sítio) e que a assim a minha semana
se torne residência definitiva. Confio na bondade humana para me fazer descer
víveres em pára-quedas, mas estou disposto a enganar-me nesse item e a viver de
raízes.
Ah, ir uma semana para a Herdade da Coitadinha e já não sair. Livros e
uma carabina, eis a minha bagagem. Livros para as necessidades básicas da vida
e a carabina para a eventualidade de apodrecidas visitas indesejadas. Isso e
uma nevada canadiana em Barrancos. Mas canadiana de Grise Fiord, não de
Toronto. Nos terraços da Herdade da Coitadinha, que já experimentei, está-se
como nos terraços de Davos (e o tempo é igualmente relativo).
Não peço muito mais para as minhas férias. Talvez uma mantinha a cobrir
as pernas, se realmente nevar.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Abduzido pela música
A música, como a literatura, transporta-nos. É um velho cliché e, como
tantos velhos clichés, uma verdade. Mas em alguns momentos da minha vida a
música foi para mim menos Ambrósio e
mais Mr. Scott, não tanto por o meu imaginário
permanecer intergaláctico mas porque a deslocação promovida pela música era do
género teletransporte, sugava-me a alma e materializava-a através de um feixe numa
realidade paralela. Só assim se compreende, por exemplo, que certa noite na alta
adolescência eu subisse a rua e em vez de torcer o nariz ao rádio que a Maria
da Luz sintonizara em volume de arraial no passeio desse por mim a dançar a “Billie
Jean”, do Michael Jackson. É certo que tinha andado a tentar aprender a linha
de baixo da canção, mas geralmente mantinha na intimidade esse tipo de desvio
de personalidade. Era Verão e havia possivelmente lua cheia, mas não me lembro
de nenhuma visão que quase me parasse o coração (caso contrário teria dançado o
“Thriller”). Aquilo era abdução pura, um metafísico tabefe gaulês que de mim só
deixava as sandálias em modo moonwalk
no passeio. Era eu por interposta pop a convidar o Álvaro de Campos sensacionista
que havia em mim a calçar os meus sapatos (sim, felizmente também me acontecia
a ouvir Depeche Mode, mesmo antes de eles terem gravado a canção). Depois a
música acabava — depressa demais, como sempre acontece com a pop/rock (que
saudades tinha do Barroco) — e lá ficava eu aturdido a sacudir o pó da roupa
como se tivesse acabado de fazer a Route 66 ou de acompanhar Bento de Góis na
primeira viagem europeia terrestre da Índia para a China (e toda a gente sabe
como ficamos cheios de pó se vamos a pé da Índia para a China).
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
O Brecht dos bons observadores
O Observador é uma bela ideia
na imprensa portuguesa: junta num mesmo antro uma quantidade jeitosa de situacionistas.
Torna-se mais fácil evitar a seita quando sabemos onde ela se acoita e é também
mais simples mantermo-nos actualizados (basta um clique) quando, enquanto
verdadeiros democratas, procuramos a nossa dose higiénica de contraditório. (Na
verdade, não é bem isso que ali se procura, não vale a pena sermos generosos — nem
escondermos a nossa compulsão pornógrafa.)
Numa das produções recentes
daquela folha online lemos de um tal Mário Amorim Lopes:
«Quando financiamos uma peça de Brecht de um qualquer encenador que jura que a cultura deve ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança é um preço demasiado elevado a pagar.»*
O parágrafo é todo um programa
— e de uma subtileza antológica. Imagine-se que o rapaz escolhia outro dramaturgo;
por exemplo, um daqueles gregos um pouco menos odiados pela direita Observadora:
Sófocles, Eurípedes. Ou o inglês Shakespeare. O sofisma teria um impacto diferente.
Aqui e ali, um ou outro velho conservador torceria a sua penca, sentado em
frente às prateleiras de bom carvalho da biblioteca do solar. Um clássico grego é um clássico, raios, e Stratford-upon-Avon não é assim tão
longe de Oxford. Há sempre uma criança que se pode sacrificar para salvar os
clássicos, como sabia Churchill. Com dramaturgo de outra família literária, o
voluntarismo do neófito seria remetido para a gaveta das inanidades próprias da
juventude. Mas ele soube jogar em terreno seguro e lá colheu as suas palmaditas
nas costas.
Jogou aliás tão pelo seguro
que usou para sofismar esse democraticamente odiado universo da performance
teatral. Imagine-se que ele tinha dito, por exemplo, quando financiamos uma apresentação
da 9.ª Sinfonia de um qualquer maestro
que jura que Beethoven é património da humanidade e a sua interpretação deve
ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis
para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. Haveria por certo chatice da próxima vez que o avô descesse à capital para a sua ida sazonal ao S. Carlos.
Ou imagine-se que Amorim se atrevia ainda
mais, num acto de verdadeira rebeldia juvenil (hipótese meramente académica, já se sabe), e saía para outros campos semânticos: quando financiamos uma empresa que paga
impostos na Holanda, podemos estar
a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais
uma vida. Ou, já num assomo de loucura: quando financiamos pornograficamente
prémios a gestores, podemos estar
a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais
uma vida. E sacrificar a vida de uma criança para enriquecer uma classe não raro incompetente e criminosa que se
julga incensada e merecedora de todo o dinheiro que nega aos outros é um preço
demasiado elevado a pagar.
Mas não. Quem escreve no Observador não se atreve a boutades divertidas como estas. Os bons
conservadores preferem piadas onde se bate sempre no ceguinho do Brecht (aliás felizmente
já tão pouco habitual nos teatros quanto decerto o próprio Amorim Lopes).
*A
prosa tem um contexto alegadamente racional que pode ser livremente aferido
aqui: http://observador.pt/opiniao/quanto-vale-uma-vida/
João Miguel Tavares segrega pessoas de estatura mediana
Aborrecido com o hábito de ainda se confundir a direita com os ricos e a
esquerda com os pobres (a quem ocorre tal coisa?), João Miguel Tavares resolveu
introduzir um novo «eixo político» para separar as águas de forma mais democrática,
digamos. Esse novo eixo dividiria o espectro político em «alto/baixo».
Ouçamo-lo:
«Neste novo “alto” poderíamos incluir tanto a habitual casta económica e política, como os detentores de privilégios corporativos, os burocratas que dificultam a livre iniciativa ou os especialistas na arte de fugir aos impostos; enquanto no novo “baixo” poderíamos colocar não só os pobres, mas também os reformados que se sentem espoliados, os jovens que nunca conseguiram um emprego, e todos aqueles que vêem a sua ascensão social dificultada pelas mais variadas redes de interesses que dominam os estados contemporâneos.»
Ora, a não ser que JMT reconheça que todas as pessoas honestas e boas
são pobres (o que se diria uma surpresa na sua mundividência), esta nova divisão acrescenta
a um novo maniqueísmo uma omissão ou um estigma. Um tipo que mantenha um emprego
conseguido por mérito e não passe fome ou não existe no Portugal tavaresco ou é detentor de um privilégio corporativo, um burocrata que dificulta a livre
iniciativa, enfim, um especialista na arte de fugir aos impostos.
Acreditando que JMT não se vê a si mesmo como uma destas pessoas, temos de
concluir que faz parte da habitual casta económica e política. Ou então é um pobre,
já que não parece um dos reformados que se sentem espoliados nem um dos jovens
que nunca conseguiram um emprego. A não ser, claro, que Tavares se sinta como
um daqueles que vêem a sua ascensão social dificultada pelas mais variadas
redes de interesses que dominam os estados contemporâneos e aí está tudo explicado,
incluindo a sua divertida proposta taxonómica.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Objectos inúteis
Para elevar o ecrã do portátil ao nível dos olhos e tentar contrariar a
marreca de horas a mais ao teclado, uso uma biografia de Mao Tsé-Tung, um
volume sobre castelos e uma escalfeta velha. São três objectos que não me fazem
falta. De crápulas sei já o suficiente. Para castelos deixei de ter posses.
Contra o frio rasteiro calço uns eficazes peúgos de lã grossa e áspera. Este é,
contudo, um pragmatismo diferente daquele que com alegria incauta erigiu a
babélica torre sobre a secretária.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Densidade
Meio à procura de alienação fílmica, meio enganado pelas estrelinhas do Público (dois críticos, 4 estrelas, não li a sinopse), fui um destes dias ver Blackhat – Ameaça na
Rede. Não é uma comédia, mas diverti-me como se estivesse a ver uma (o filme é
mauzinho). A dada altura, numa homenagem ao mítico MacGyver, o protagonista
improvisa armamento e equipamento de protecção pessoal. Para este fim, envolve
os seus abdominais em revistas, e, num dos raros momentos sérios da noite, fiquei
a pensar quão eficaz seria aquele colete improvisado contra balas e facas.
Concluí que bastante, se se tratasse de revistas com artigos densos. Colectâneas
de textos do Ministério da Educação, por exemplo. Impenetráveis.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
My own private blitz
A abóbada nocturna da cidade tem sido nos últimos tempos varrida por
focos de luz, e honestamente não vejo que fosse absurdo dar por mim em certas noites
de nevoeiro pacientemente à espera dos bombardeiros (quem nunca desejou a ira
dos céus?), com aquele misto de fascínio pela sofisticação das máquinas e
terror pelo que elas transportam no porão.
P.S. É avisadamente que os estabelecimentos não arriscam a piada de utilizar
a marca de Batman nos seus focos de luz: poderiam atrair o tipo errado de
noctívagos. Quem sabe, de todos os anjos vingadores que aguardam a sua vez nas
trevas de uma cidade, quantos não se formaram com a DC Comics?
domingo, 11 de janeiro de 2015
Pássaro na gaiola
Está um frio de rachar e, submerso em camadas de vestuário de acordo
com os receituários meteorológicos, ouço pássaros em plenos fôlego e inspiração
melódica. Não duvido da minha sanidade, mas pelo sim pelo não encosto os phones à orelha para checkar: no meio de
tantas páginas abertas para os trabalhos de hoje alguma terá talvez música de
fundo ornitológica. Porém, não. Os pássaros não esperam por padecer da
nostalgia de ar livre (mesmo que siberiano) e do consequente impulso que senti
há pouco quando me permiti espreitar a janela por segundos. Os pássaros
recusam-se à ladainha humana de ser domingo e ter de trabalhar e ficar meses
sem passear pelos montes. Os pássaros voam assobiando ou assobiam voando, e que
se foda a vidinha responsável e burguesa! Onde raios pus as minhas asas e o
diapasão?
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Mademoiselle Marcelle La Pompe, aliás, Renée Dunan
A realidade pode ser ainda mais truculenta e divertida do que já
achávamos. Alertam-me que o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle La Pompe», que me serviu há dias para prosa a armar, é na
verdade obra de Renée Dunan, escritora, crítica, poeta, anarquista, dadaísta e
feminista francesa que provavelmente emparelhou com alguma da clientela
surrealista do café La Fleur en Papier Doré. Marcelle La Pompe era apenas um
dos seus vários pseudónimos.
(Devia saber que os meus dois vagos anos lectivos de francês não me
autorizavam hermenêutica deste calibre.)
Alguns links úteis:
http://lenaweb.voila.net/Dunan/Reneee_Dunan01.jpgsegunda-feira, 15 de dezembro de 2014
E-musas
Uma vez escrevi em directo no blogue, durante semanas, um conto longo que
em boa parte se inspirava na persona de PJ Harvey de alguns vídeos e tinha como
banda sonora obsessiva um outro vídeo com uma música igualmente obsessiva de
Radiohead — “Street Spirit (Fade Out)”. Lembrei-me disto enquanto imaginava a
vida de escritor na Antiguidade Clássica: uma actividade dura, sem o YouTube e sem
essa invenção fundamental que é o loop.
A estatuária grega, falando de musas, tinha a vantagem (também táctil) dos
volumes, uma tridimensionalidade que o YouTube ainda não tem, mas faltava-lhe o
movimento, e seria necessária uma sucessão de estátuas para cobrir toda a
expressividade do rosto de PJ: a inocência e a perversidade, a candura e a dureza,
a melancolia e a violência. Retratá-la seria trabalho para toda uma guilda
medieval. Já manter uma trupe dias a fio a tocar a mesma música sairia caro em
broa e vinho, algo que a electrónica nos poupa.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Catalogue des prix d’amour
[O senhor flagrado não é Paul Nougé, apesar do ar satisfeito]
Mosquitos em Bruxelas parecia-me um contra senso, imaginando-os bichos eminentemente meridionais ou amigos de ambientes de gente pobre. Mas quando me começaram a cair no copo lembrei-me que sou pobre e meridional. Não, não foi isso. Quando passei a usar a vetusta base de copos como tampa contra os dípteros kamikazes, tomei consciência do sítio onde estava: La Fleur en Papier Doré (Het Goudblommeke in Papier para os amigos flamengos), um café que respeita o seu ilustre passado mantendo, quase sem a espanar, a decoração original. A Flor em Papel Dourado é um estaminet fundado em 1366, mas não creio que houvesse nenhum mosquito dessa colheita. Os que partilharam comigo o cabernet e mais tarde nadaram nos meus sucos gástricos deveriam ser do tempo da última remodelação do botequim, acontecida, diria, na transição de oitocentos para novecentos. Gosto de sítios assim, com verdadeira história. E se tomasse notas no meu moleskine (ou, menos romanticamente, usasse a câmara do telemóvel), poderia hoje reproduzir na íntegra, poupando o trabalho de inventar tema e coerência para um post, a piéce de résistance das antiquarias que enfeitam, emolduradas, amareladas e empoeiradas, as paredes da casa. Refiro-me ao tarifário de um prostíbulo, de 1915.
Não me parece que o nome do café derive deste dístico utilitário, mas podia: o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle Lapompe”1 é um belo documento histórico em papel dourado pelo tempo. E a flor… vocês sabem.
A informação disponível no café refere que Magritte e os surrealistas belgas passavam ali os dias, e acredito que eles tenham reparado, como eu, que chez Marcelle Lapompe2 havia descontos se o cliente não precisasse de luz (já a vela custava 15 cêntimos). Talvez, pensando bem, o tarifário tenha sido esquecido ali por um dos surrealistas, depois de o ter consultado disfarçadamente no meio de um exemplar que fingia ler de L’Amour Fou, do condiscípulo francês. Ou, quem sabe, o papelito comprometedor caiu do bolso de um Paul Nougé vindo de se ter feito “glouglouter le poireau”3, depois de “faire sucer une pastille de menthe a l’opératrice”. Tudo é possível (refiro-me à cronologia): o tarifário diz que “anula todos os precedentes”, mas pode ter vigorado nas décadas seguintes (é consultar a inflação da época).
A tabela de Mademoiselle Lapompe — que eu mesmo que tivesse tomado notas na verdade não citaria, por pudor — é simultaneamente um documento de grande objectividade e um catálogo de metáforas e eufemismos de 1915 para essa outra metáfora e esse eufemismo intemporal que é o “amor”.
Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.
Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.
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1 Ok, fui pesquisar na Internet, comprovando de passagem a minha teoria de que hoje não é preciso levar máquina fotográfica para as viagens, alguém já tirou as fotografias de que precisamos.
2 Na Rue du Chant-Noir, número, adivinharam, 69.
3 Pardon my french.
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