Devido a uma mudança de fornecedor de serviço de internet que implicou a instalação de mais parafernália informática do que a que na realidade necessito, fiquei com uma tal quantidade de luzes a piscar na secretária que sinceramente não sei se a minha sala vai entrar em órbita daqui a pouco ou se o mundo vai explodir dentro de trinta segundos. Só não fico apreensivo porque há algo de sedutor em ambas as hipóteses.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
A insustentável leveza da pubescência
Talvez houvesse também razões musicais, mas parece-me que na disputa
entre Spandau Ballet e Duran Duran eu preteria os primeiros porque pareciam demasiadas
vezes vestidos para casar (ou ser padrinhos de casamento), enquanto a mistura de
farrapada punk e marinheiro russo que frequentemente cobria os segundos os
tornava românticos aos meus olhos adolescentes. Mas românticos de aventuras,
não do coração. Afinal, na altura eu também preferia a Rama de Arthur C. Clarke
à Praga de Milan Kundera. E ainda revirava os olhos nas cenas de beijo dos
filmes, fazendo mentalmente zapping
para Mad Max.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
13/9 ou a arte de procrastinar resolvendo sudokus
Gostaria de poder dizer que sou um daqueles procrastinadores que o
filósofo John Perry considerou “produtivos”, aqueles que enquanto adiam
indefinidamente uma tarefa realizam muitas outras igualmente importantes. Não
sou. A não ser que se considere importante resolver sucessivas colectâneas de
Sudoku Master.
A minha pilha de livros para ler só não aumentou porque desde que há
crise quase não tenho comprado livros. Em contrapartida, a minha pilha de
livros por escrever aumentou consideravelmente. Não porque ande a coleccionar apontamentos
de ideias para romances ou ensaios (o sudoku não me deixa tempo para isso), é
só a idade a acumular-se sem que daí resulte obra.
Para bem da minha sobrevivência física, sou tecnicamente incapaz de
procrastinar no emprego (qualquer coisa genética, herdei do meu pai isso e a rabugice).
É só ao chegar a casa que adopto o hedonismo pessoano de ter um livro para ler
(ou escrever) e procrastinar. A coisa está tão grave que já não compro o Público ao fim-de-semana, como antes, por
causa do Ípsilon, da Fugas ou da 2, mas porque é nesses dias que saem os sudokus de maior grau de
dificuldade (que naturalmente me farão perder mais tempo).
Nem me posso defender dizendo que a ginástica dos números me foi
prescrita pelo meu intelectual trainer:
passar a noite naquilo não me põe mais ágil na tabuada (continuo bastante dependente
da calculadora) e definitivamente não acordo com a mente mais preparada para as
obrigações do dia. Procrastinar por interpostos sudokus é antes um vício tão
alienante como a coca. O hábito poderia ter-me sido prescrito, isso sim, pelo
meu psicanalista, com o intuito de me fazer limpar a mente depois de dias
intensos de trabalho (como faz o resto dos portugueses, submetendo-se ao brainwashing da TV). Ou melhor: a
sudokumania é coisa que recomendariam no Conde Ferreira ou no Magalhães Lemos:
terapia ocupacional para distrair os malucos de fazerem maluquices. Sim, que disparates
não teria eu escrito se não tivesse passado o Verão a preencher números em linhas
e colunas?
Quando terminei de escrever Os
Idiotas (que, a propósito, fez sexta-feira um ano e é a única razão para
ter escrito este post), senti que
tinha finalmente atingido a maturidade, estava pronto para ser o Wallace
português (ou o Franzen, pronto*). Mas senti também que a probabilidade de
falhar nisso era muito, muito grande. O sudoku, temo bem, é apenas um dos meus álibis
para não arriscar falhar.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Deserção à hora do chá*
«Os escritores ingleses são todos snobs!»
«Pois eu queria ser um escritor inglês. Nem precisava, aliás, ser escritor. Inglês snob era suficiente. Ou apenas snob. Um snob convicto, sem escrúpulos nem clemência, em vez de português suave com filtro. Da próxima vez que der por mim com rosadas pretensões tugas, faço-me um ultimato britânico, juro. Antes a cor do sangue que o apelo do sangue, if you know what I mean.»
* Diálogo de uma novela por escrever.
«Pois eu queria ser um escritor inglês. Nem precisava, aliás, ser escritor. Inglês snob era suficiente. Ou apenas snob. Um snob convicto, sem escrúpulos nem clemência, em vez de português suave com filtro. Da próxima vez que der por mim com rosadas pretensões tugas, faço-me um ultimato britânico, juro. Antes a cor do sangue que o apelo do sangue, if you know what I mean.»
* Diálogo de uma novela por escrever.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Considerações sobre o bacalhau
Nunca, na minha vida civil, estou preparado para um aperto de mão.
Quando se vive uma existência ensimesmada, o exuberante comércio social que é o
aperto de mão surge inesperadamente, de súbito, como uma bala no campo de
batalha (nunca estamos preparados para uma bala, nem num campo de batalha, há
toneladas de bibliografia a asseverá-lo).
Resulta que a extremidade que estendo em reacção a um cumprimento,
mesmo quando o faço de bom-grado, se apresenta geralmente frouxa, é apertada
sem chegar a apertar. Nos melhores momentos, naqueles em que não dou choques
eléctricos e consigo tempo para invocar o conceito de aperto de mão, estalam-me
as falanges e os ossos do pulso no exercício de tentar que o destreinado conjunto
se configure na posição correcta. Num ápice a minha mão direita é esmagada sem
oposição (quando do outro lado está um culturista ou um operário) ou humilhada
(quando acomodada num cumprimento competente, franco). Conheço pessoas assim,
cujos bacalhaus me embaraçam, pela assertividade férrea ou pela afabilidade uterina
com que acolhem os meus metacarpos. E invejo-as, sobretudo as segundas. Sim, invejo
as afáveis. Um cumprimento triturador pode ser involuntário (num madeireiro
habituado ao machado), mas é frequentemente exibicionista, uma pueril forma de
cotejamento, não raro uma pré-declaração de guerra. Pelo contrário, um aperto
de mão afável, acomodatício, ergonómico, envolvente e restaurador como uma massagem é gesto de quem vive em estado de graça. Ou é como a ironia em quem
a sabe usar. Um gesto de verdadeira superioridade.
Ah, não ser um desses que levitam enquanto dão apertos de mão; dar
mais cinco como quem unge Lázaro ou administra a extrema-unção. Ah, não ter
sido bafejado com uma anatomia sociável, mãos como berços em vez de apêndices desajeitados,
misantropos. Antes mãos de tesoura — e podia ganhar sossegadamente a vida a
podar sebes. Afinal, ninguém estranha a soturnidade num jardineiro.quinta-feira, 17 de julho de 2014
O estado do trânsito
Comparado com o resto do parque automóvel português, o meu Chevrolet parece um arraial minhoto. Não porque eu seja um adepto do tuning; apenas porque uso com bastante regularidade os piscas. Em cruzamentos e rotundas, por exemplo.
Na verdade, o meu carro não é feérico — os restantes é que são, de um ponto de vista eléctrico, sombrios, como electrodomésticos no blackout americano de 65. Ou lúgubres, do ponto de vista do código da estrada.
Os únicos momentos em que não pareço conduzir um carro alegórico no meio de um desfile de incônscias limusinas funerárias são os dias vitoriosos da Selecção, do Benfica* ou de um partido do arco governativo, quando naquele trânsito cintilante o meu utilitário parece de súbito circunspecto. Até fúnebre, é justo dizê-lo.
* Ou Porto, riscar o que não interessa.
Na verdade, o meu carro não é feérico — os restantes é que são, de um ponto de vista eléctrico, sombrios, como electrodomésticos no blackout americano de 65. Ou lúgubres, do ponto de vista do código da estrada.
Os únicos momentos em que não pareço conduzir um carro alegórico no meio de um desfile de incônscias limusinas funerárias são os dias vitoriosos da Selecção, do Benfica* ou de um partido do arco governativo, quando naquele trânsito cintilante o meu utilitário parece de súbito circunspecto. Até fúnebre, é justo dizê-lo.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
O Tua e a sua canção (ou)vistos pela nova direita
Um grupo de artistas dedicou uma canção ao Tua. A Helena Matos já deverá estar a escrever no pravda da nova direita um artigo a defender que se afogue não só o vale como os artistas. Se faltavam motivos para construir a barragem, dirá ela, agora temos um. João Miguel Tavares, pelo seu lado, pessoa sensível, aumentará o caudal do Tua com uma lágrima ou duas pelo vale e pelos artistas, mas lembrar-lhes-á a sua culpa por canções e paisagens belas serem actividades condenadas num Portugal falido.
Pedro Lomba dirá num briefing falhado que os artistas deviam era estar a contribuir para a demografia fazendo filhos enquanto a água não os cobre. Poiares Maduro tentará tirar-lhes o subsídio de férias e Passos vender-lhes uma formação em aeronáutica que lhes permita emigrar a partir de qualquer aeródromo das redondezas. Que os há-de haver.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo
No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina
procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco
Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:
«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*
Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa
similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento
de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas
para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou
lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência,
mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo
inteligente».
Descontada a boutade pateta, há
decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas.
A Europa devia lembrar-se.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
Golo da Costa Rica
Não foi uma excentricidade como ir ao Solar Transmontano, mas perdi a
cabeça e gastei doze euros numa churrasqueira. Por vezes, o bilhete para observar
a vida selvagem sai caro.
O empregado perguntou-me o que estava a achar do Mundial e eu não dei
parte de fraco: aqueles cinco a um da Espanha eram qualquer coisa… Passei no
teste sem ter de explicar que coisa eram os cinco a um. De seguida chamaram-no
a outra mesa e também não tive de opinar sobre o Uruguai x Costa Rica que se
disputava no plasma (cujo resultado tinha espreitado preventivamente enquanto
ele falava e sobre o qual estava a tentar pensar o que haveria de expectável a
dizer).
Os clientes também podem ser constrangedores, quando são conhecidos do
pessoal. Uma das cozinheiras passa a caminho da casa de banho mas é detida por
umas perguntas e considerações mundanas da mãe de duas crianças do outro lado
da sala. A cozinheira, não contando demorar-se, fica a três quartos, com um pé no
ar, respondendo pelo canto da boca e pronta a continuar o seu caminho. Todavia,
a cliente tem sempre mais uma coisa para dizer e a cozinheira, indecisa entre a
delicadeza e a urgência, naquela postura de quem só ouvirá mais uma frase e
continuará a andar, vai deixando os pés para trás e inclinando o corpo na
direcção que pretende seguir. Estão nisto mais um longo minuto e eu preparo-me
para amparar a cozinheira, que está mesmo no limite da sustentabilidade da sua
posição. Mais uma frase da cliente e a queda é irreversível, foi atingido o ângulo
máximo de inclinação que um corpo humano consegue atingir sem se estatelar. Por
fim ouve-se uma interjeição telepática e a cozinheira dá o seu passo em frente,
aquele passo que suspendera antes, e deixa a cliente a falar para a abertura que
dá para o hall dos lavabos. Esta resigna-se,
dá um safanão numa das crianças e comenta para o garçon que o golo da Costa Rica foi mesmo um grande golo.
sábado, 14 de junho de 2014
Cristo sinaleiro
Cristo persegue-me (quando devia talvez ser o contrário, eu ir-lhe na
peugada com veneração e toga de discípulo). Hoje postou-se-me a meio de uma
bifurcação de estradas e, com aqueles seus braços permanentemente abertos, a
apontar uma coisa e o seu contrário, fiquei sem perceber se me aconselhava a
direita, se a esquerda. Como sinaleiro, tem muito a aprender. Nem deviam,
aliás, autorizá-lo a exercer (mas neste país uns são filhos de deus, outros...).
A certa altura mais carente da viagem (havia uma recta de uns setenta metros
antes de ter de escolher), achei que ele abria os braços mas era para me
abraçar e fiquei tentado a ir em frente, entregar-me ao amplexo cristão com
Chevrolet e tudo. Travei antes do muro.
(E ao passar-lhe ao largo devo dizer que me pareceu mais o Roger Hodgson
do que o Cristo: ou há um culto novo na cidade ou anda alguém a brincar com os
moldes.)
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Gosto que os meus amigos bloggers
ou facebookers façam de DJs. Em cada
visita à internet vou coleccionando toda uma banda sonora do dia em janelas
abertas à espera de serem ouvidas. Depois ouço-as, a maior parte das vezes com prazer
e proveito. (Isto porque ganhei o higiénico hábito de ocultar chatos, pessoas
desinteressantes e fãs do ‘Blasfémias’, que, como se sabe, têm péssimo gosto
musical).
quinta-feira, 12 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Não e não
Uma coisa que é capaz de não ajudar nada este blogue: ao contrário de tantos, não vou inaugurar uma série de posts sobre o mundial.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Bombos
[Para os patriotas que se
entusiasmaram com o post anterior]
Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos
forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente
as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do
globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas
por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos
melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade
rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza
física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque,
não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são
a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar
talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos
nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo
de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.
P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente
ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o
triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer
relevância musical.
Aufklärung – a semântica do iluminismo alemão
Leio que o termo alemão para iluminismo é «Aufklärung». E orgulhosamente
concluo que o povo germânico importou daqui as luzes. «Aufklärung» é resultado
de um adido ou embaixador ter acrescentado o prefixo canino-teutónico «auf» ao
étimo portuense «clarão» (dito com sotaque).
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Virgulino
Há muito tempo que não compro um jornal por causa de um cronista.
Compraria um que publicasse registos diários de Ivone Mendes da Silva e António Gregório, por exemplo. Talvez prevenindo-se
contra isso, o Expresso contratou
Duarte Marques, não fosse eu assiná-lo, ou o raio.
Verdade
Não há verdade em literatura. Se alguma coisa tiver acontecido a um coveiro
em Janeiro, o escritor dirá que foi em Dezembro, para não rimar.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Cu
Da minha geração e anteriores, muita gente escreve cu com assento. Embora pareça, cu com assento não é um imerecido privilégio pré-troikiano, é um erro ortográfico. Erro que juraria vir do facto de no nosso tempo a palavra ser lida apenas em publicações malformadas. Malformadas mas muito consultadas e manuseadas.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Má-língua
Os que se preocuparam com os ajustes directos de Fernando Tordo já foram ver o caderno de encargos de Kátia Guerreiro?
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Tupperwares
Enquanto o país se distrai com o Benfica, eu ocupo-me de problemas sérios. Tenho recebido apoio alimentar de diversas proveniências e, chegada a hora de devolver os tupperwares, não sei quais pertencem a quem… As cores não ajudam. Tirando os reciclados de sobremesas, é tudo amarelo ou laranja. Vou ter de tomar medidas: de hoje em diante, só aceito solidariedade a fundo perdido ou em tupperwares etiquetados.
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