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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Mark Kozelek, Knausgård e a arte aos cinquenta*

De visita rotineira e esperançada a um blogue aparentemente decesso, parei mais do que o habitual na canção ‘This My Dinner’, que ali encima como epitáfio a coluna desactualizada de posts. É sempre um gosto ouvir aquele tema dos Sun Kil Moon, de Mark Kozelek, mas desta vez atentei na letra e quis acompanhar a lê-la uma segunda audição da música. Fez-me pensar num Karl Ove Knausgård que, em vez de romancista, fosse cantor e escrevesse letras para canções. E não por a letra de ‘This My Dinner’ ser uma espécie de hino à Noruega e aos noruegueses. Kozelek (fui ler mais letras e uns artigos sobre o homem) escreve as letras dos seus últimos álbuns no registo que se chama em amaricano stream of consciousness — o mesmo que James Joyce usou em Ulisses para pôr a sua Molly Bloom a discorrer na cama — e portanto são de esperar minudências, cenas do quotidiano, disparates, embirrações, obsessões, ansiedades, contradições, uma ou outra lamúria e alguns insultos e palavrões. Há ali (mas não só) o mesmo prazer do detalhe insignificante, do episódio sem grandeza e do relato autobiográfico cru.

Como Knausgård, Kozelek é inconveniente, não sei se também para a família, mas certamente para jornalistas. Uma delas escreveu um artigo no The Guardian contando como foi chamada de bitch ao vivo num concerto onde Kozelek relatou com duvidosa seriedade uma troca de e-mails entre eles. (Depois disse que estava a brincar. E depois reincidiu). De resto, o estilo spoken word e improvisado de Kozelek serve ao vivo por vezes mais para gozar e insultar o mundo à sua volta (outros músicos, jornalistas, público, fãs) do que para trips poéticas ou místicas a la Morrison Hotel, ainda que soe de forma semelhante.

E é curioso como a letra pode mudar todo o estado de espírito que uma canção nos sugere. Aquela voz angustiada e requebrada, por vezes melosa e outras tantas empolgada como um comandante de pelotão pessimista, parece falar-nos de dramas amorosos, crises existenciais ou combates fatais a travar, e na verdade pode estar apenas a contar-nos como lavou as suas meias num hotel de Madrid entre paragens numa digressão. É o mesmo desconcerto que Neil Hannon (o senhor Divine Comedy) despeja sobre nós se estivermos distraídos das suas letras irónicas e humorísticas e nos focarmos apenas no barítono sofrido que ele deixa escorrer para o microfone. Ninguém atento dançava slows nos anos oitenta ao som de músicas dos Divine Comedy**. Hoje ninguém dança slows, mas ainda não se inventou a imunidade ao mal de amor, pelo que convém vigiar as expressões e as poses quando se ouve publicamente Sun Kil Moon.

Não quero com isto desdenhar o que pode haver de literatura e poesia nas letras de Mark Kozelek (seria como ignorar a Beat Generation). Pelo contrário: eu apreciei muito, honestamente, como literatura, o políptico A Minha Luta, de Knausgård , e estou aliás chateado com a demora na tradução do último volume. (Bem sei que a geração anterior à minha, que não viveu os anos oitenta, prefere o À La Recherche, mas isso é por uma questão de proximidade vivencial.)
Aos cinquenta sabemos apreciar como arte sincera a resposta que Mark deu a uma nossa compatriota no final de um concerto em Espinho (relatada na letra de ‘Soap for Joyful Hands’):
«Mark, além da música, quais são as tuas outras paixões?»
Eu disse, «Eu tenho cinquenta anos, querida, acho muito relaxante estender-me no sofá
E também gosto de ler livros com os meus óculos de leitura novos
E gosto de ter cinquenta e não sofrer de cancro do pâncreas
E gostei de acordar depois de ter sido anestesiado para uma colonoscopia e descobrir que não tinha cancro do cólon
Queres saber quais são as minhas paixões além de viver o meu sonho de ser músico?
Estas são as respostas»

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* Um título tonto para um post tonto
** Isto é mentira, como sabem todos os então desesperados.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

LER de Verão

Saiu mais uma edição da LER e está de apetite. Assinalo três novidades (e continuo uma tradição): 1) este número das revista não inclui as páginas com os livros do trimestre; 2) os Manifestos de Francisco José Viegas foram publicados no blogue posteriormente (embora, como antes, sejam repescados do Correio da Manhã); 3) não há Manifestos de Bruno Vieira Amaral (mas isso só dá conta quem como eu tem a picuinhice de ir confirmar as iniciais que assinam os textinhos).

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A seita

O universo da Chiado Books é como o de uma seita particularmente impudica em que todos pagam o dízimo para serem patetas felizes. O fundador da seita, ele próprio um génio ressentido que abandonou a religião ortodoxa por frustração (parece que no princípio dos tempos foi ignorado por trinta editoras), promete aos neófitos uma entrada no mundo dos autores contra a entrega de uma certa quantia. Como sói acontecer, a busca da felicidade por via de pagamento enriquece sobretudo o guru, que tipicamente se faz passear de Ferrari e, dêmos asas à imaginação, malas cheias de notas.

Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.

Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.

Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?

Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.

Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Panes e contratempos

Em certa época da sua vida conduzia uma Renault 4L e teve de adicionar dois acessórios aos equipamentos de origem da viatura: quatro quilos de um paralelepípedo de granito e cinquenta centímetros de uma vara de aço de doze milímetros. Estavam, a viatura e ele, ao serviço de uma empresa de engenharia, pelo que aqueles acessórios foram de fácil obtenção e ambos se revelaram de uma utilidade fulcral, ainda que em diferentes utilizações. O paralelepípedo, que ia substituindo sempre que necessário, era indispensável no estacionamento em rampas e a vara de aço como auxiliar do motor de arranque, quando este bloqueava.

É certo que na maioria dos locais inclinados onde na altura estacionava, mesmo em lazer, era quase sempre fácil encontrar nas redondezas pedras, calhaus ou rebos adequados à função travatória, mas nenhum dava ao manuseamento as mesmas garantias de higiene que os seus paralelos polidos por décadas de serviço numa calçada do Estado Novo. Se tinha de pegar num calço de cada vez que parava a carroça em plano inclinado, nada o obrigava a sujar as mãos em pedra alheia, exposta sabe-se lá a quê. Bastava enfiar a mão debaixo do banco e retirar de lá uma das suas pedras-de-toque. Pelo contrário, se tivesse de perder um minuto ou mais a seleccionar o melhor seixo em cada local de parqueamento íngreme, nada lhe garantia que ainda houvesse 4L na rampa quando ele regressasse para contrariar a gravidade. Do mesmo modo que ninguém no seu perfeito juízo aceitaria hoje um carro sem travão de mão ou seu equivalente, ele não dispensava os seus hexaedros de granito.

A vara de aço, heliaço, sobra da armadura de um pilar ou viga, com a sua superfície marcada por nervuras transversais oblíquas (muito úteis quando era Verão e as mãos transpiravam), entrava em funções uns segundos após cerca de cinquenta por cento das vezes em que ele rodava a chave para accionar o motor. Poder-se-ia dizer, dado o uso frequente, que era um complemento da chave da ignição que, por razões compreensíveis, não usava no porta-chaves.

Segundo rezam os anais da época, as escovas do motor de arranque tendiam, sobretudo com altas temperaturas, a colar na superfície interior do cilindro onde estavam aprisionadas. Os mecânicos diziam que era o metal das escovas a fundir, mas podia-se legitimamente suspeitar de uma revolta. Bem, revolta não, que isso era precisamente o que as escovas recusavam fazer. Talvez insurreição. E isso contrariava-se fazendo vibrar o metal do invólucro para descolar os fios das escovas no seu interior.

A sua acção subsequente a cada volta em falso da ignição era, portanto, brandir a verga de aço, não como quem vareja azeitonas ou rebate a bola no baseball, mas como quem cutuca com displicência um formigueiro ou como quem crava repetidamente uma lança no coração da besta, dependendo das circunstâncias e das emoções. Abria o capot e cutucava o motor de arranque com carinho se ele se recusava a funcionar de manhã antes de ir para o trabalho, compreendendo a sua angústia e pronto para lhe agradecer uma nega sustentada. Em contrapartida, à hora de sair para petiscadas ou copos, percutia-o, impaciente e nervoso, como um êmbolo humano desgovernado, pronto para desferir vergastadas a torto e a direito como Cristo aos vendilhões do templo.

Nas ocasiões em que o motor da 4L ia abaixo, por deficiência ou envelhecimento da viatura, ou, concedamos a hipótese académica, por aselhice do condutor (imaginemos o pára-arranca de uma fila ou um semáforo a ficar verde e o carro a recusar-se a pegar de novo porque as benditas escovas voltaram a colar), lamentava não ter a vara o diâmetro, a alma e a utilidade de uma bazuca, mas saía sorridente do lugar do condutor, abria o capot com as pontas dos dedos, entalando-lhe com experimentada e coreográfica eficácia a escora oleosa, e dava pancadinhas elegantes no motor de arranque, mais parecendo um mágico a agitar a sua varinha ou um maestro sulcando o ar com a sua batuta, como se aquilo fosse apenas uma performance que lhe aprazia fazer para alegrar a hora de ponta, quebrar a rotina do tráfego urbano. Por dentro, contudo, tremia de vergonha e raiva como… varas verdes. E à noite o sono demorava-se porque se detinha, sádico, a reviver e a dramatizar o acontecimento.

Trinta anos depois, numa prova da decadência do mundo ocidental, o que lhe apoquenta os dias automobilizados é não ter gás no ar-condicionado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Diário de uma boina Basca

Quando soube que Vasco Pulido Valente regressara aos jornais com um diário publicado semanalmente no Público, não saquei logo a pistola porque não uso, mas pensei de imediato no prazer de me lançar na escrita contrapontística de um diário anti-Vasco. Saiu-me na hora um título e tudo: Diário de uma boina basca. Durante uma semana diverti-me com a ideia e sobretudo com o título — mas não me sentei ao computador. Quando finalmente o fiz, senti desolação: eu não ia querer obrigar-me semanalmente a ler aquela prosa sádica que, sob o argumento altruísta de nos mostrar o mundo como ele é, dedica fervor e fel à defesa de um péssimo mundo possível mas não inevitável.

Para alguns bem-intencionados, a escrita alegadamente irónica de Vasco cumpre hoje o papel das farpas de Eça de Queirós. Tem o mesmo espírito endiabrado, o gosto de fustigar a nação. É certo que, como Eça, Vasco procura o efeito e pretende ver o país por uma luneta. Mas o sátiro Eça elevava-se. O sarcástico Vasco entrincheira-se. As suas frases têm o resultado, por vezes implícito mas dificilmente involuntário, de defender posições conservadoras e cínicas.

Outros dizem que em certos aspectos a escrita de Vasco ressuma anacronia como a de Eça. Talvez apenas porque Vasco, historiador, engalana frequentemente a sua prosa punitiva com as casacas e as polainas da época. Mas na verdade, apesar das recorrentes alusões a figuras e factos do século XIX, nem o próprio Vasco pretende confundir-se com Eça, salvo na inconfessada ambição estética de ser o irónico-mor da pátria. E de facto os dois autores não se confundem: a décalage de Eça, morto de um século, não nos tolda o riso; já a pátina reaccionária do plumitivo Vasco, agora redivivo, mendiga pena.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas

Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta. Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.  

terça-feira, 4 de setembro de 2018

«Woodstock na Igreja»

Vendo-se incapaz de fazer desaparecer devoções e ritos populares dedicados a deuses pagãos, a Igreja Católica ancestral resolveu incorporá-los na sua própria caderneta hagiográfica e no seu calendário paralitúrgico. As festas populares dizem-se de devoção a este ou aquele santo católico, mas uma boa parte delas tem na sua origem e estrutura uma devoção e um costume pagãos.

A moeda de troca que a Igreja Católica aceitou pagar para que o povo não rejeitasse a apropriação foi a bênção mais ou menos tácita do lado profano das celebrações: a música, os bailes, as refeições pantagruélicas, a bebida a rodos, uma alegria desenfreada e por vezes debochada, pouco católica, em suma.

O corolário relativamente recente desta concordata plebeia foi o livre-trânsito para a brejeirice da música pimba. Conquanto um bom punhado de crentes não falte à missa e à procissão, a Igreja não vê qualquer inconveniente em que no adro, na madrugada anterior, se rocem os corpos e cantem letras libidinosas e frequentemente grosseiras, machistas, sexistas, atávicas e desafinadas.

É por isso curioso ler agora que um conjunto de católicos e o próprio bispo de Santarém se indignaram porque no festival Bons Sons (na aldeia de Cem Soldos) houve um concerto de música moderna portuguesa numa capela («Woodstock na igreja», disseram, escandalizados). O protagonista do concerto era essa figura mefistofélica que dá pelo nome artístico de Homem em Catarse (googlem, só correm o risco de gostar).
A notícia vem em vários órgãos de comunicação, alguns dos quais provavelmente nunca dedicaram uma linha ao festival e às actividades de Cem Soldos mas não hesitaram perante esta polémica.

Se tivesse pelo menos a inteligência táctica que demonstrou há séculos, a Igreja Católica estaria hoje a tentar seduzir o Bons Sons (e nós esperando que sem sucesso). Assim, limitou-se a demonstrar de novo uma estrutural estupidez e falta de gosto*.

(*Com a excepção do padre da paróquia.)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras


Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular, entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram «grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras, ocupado por crianças ou adolescentes.

Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra «grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo» era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol, vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria. De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau — com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele «groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».

Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente «groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem, portanto.

Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?

Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford, no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando, exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da França?

Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou, se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle, chargé de faire les courses». Grumo, em suma.

Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente para inglês que ele tinha sido um «Brumo».

Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A insensatez da espeleologia na adolescência

Há no parque termal das Pedras Salgadas uma mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
 Logo a seguir ao portão, a mina divide-se em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão, também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos, contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
 Sobre o outro túnel, o da esquerda, não havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
 De Inverno, o terreno baixo por onde se acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não havia graffitis, beatas, garrafas, camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.   
 Houve fascínio e regozijo, naturalmente, como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por fim adiar sine die a segunda fase da expedição.
 Havia, contudo, motivos de interesse naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de luz e medir assim o comprimento do túnel.
 Dois de nós voltámos atrás com essa nova missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização do buraco.
 Demos com o buraco, depois de saltar o muro para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia, certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da direita.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O meu Groundhog Day

No filme Groundhog Day (O Feitiço do Tempo), o protagonista vive todos os dias o mesmo dia, com os acontecimentos a repetirem-se sem alterações.
No meu percurso diário para o trabalho, que, quando beneficio da sorte de ter tempo, segue um traçado invariável e reiterado, há também repetições, pessoas com quem me cruzo nos mesmos lugares (uma delas cortou o bigode mas não mudou mais nada), as mesmas infracções de trânsito (com diferentes protagonistas mas nos sítios habituais) e o mesmo deslumbramento ao atravessar o parque (apesar da vaga ameaça outonal agora a insinuar-se no alongar das sombras).
Há variações de episódios sobre o mesmo cenário, variações que só o são na cadência diária, já que repetem tendências e vícios humanos intemporais e por isso não alteram o feitiço do tempo. Num dia, o restolhar das folhas para lá da sebe deixa de ser o dos melros ou dos gaios para denunciar um clássico voyeur, dos que adoptam a camuflagem e o método de David Attenborough, mas para espiar através da vegetação casais de namorados em plena urgência erótica. No dia seguinte, no mesmo local, é resgatado da folhagem contra a sua vontade um idoso que se tresmalhara do resto dos utentes do lar, ali em passeio, por vício logo censurado de querer estar sozinho. Ao terceiro dia, o que a folhagem mal oculta é uma vulgar e não muito preocupada transacção de estupefacientes, entre seres que se confundem no exotismo com criaturas mitológicas do parque. Há o tímido casal homoerótico de adolescentes a aprender tácticas de camuflagem social e noutro dia rapazes em cálculos de balística que procuram a bola pontapeada demasiado alto. Há a criançada de bonés uniformizados em correria de ATL e, num sábado, os noivos ataviados que posam bucólicos para o álbum em progresso.

No meu Groundhog Day, desfilo quotidianamente por ali em passo lento, amando a minha rotina e com um certo carinho distante pela humanidade. Não sinto o impulso de alterar nada ou de intervir, excepto quando, no regresso à noite, um ouriço-cacheiro faz a sua aparição na mesma álea e sinto então o dever de o admoestar pela insensatez de se expor assim no palco da comédia humana e o conduzo com gestos ternos de regresso ao matagal.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Mosquito

Descobri hoje que o zumbido que há dois dias me trazia a suspeitar de um curto-circuito em qualquer ligação da parafernália electrónica da sala era, afinal, o insecto que a meio da semana tinha resolvido aborrecer-me marrando contra o ecrã e fazendo-me tangentes às orelhas. Fui encontrá-lo num recanto, rodopiando de pernas para o ar, versão minúscula, capotada e igualmente pertinaz de um nazi atolado na estepe. Ao contrário do que aconteceu no nosso primeiro encontro, em que sem sucesso fiz das mãos raquetes, agora ajudei-o a pôr de novo os seis pés na terra, como, humanamente, teria feito com Gregor Samsa. Daqui a pouco, se entretanto recobrar energias, há-de vir de novo ao encontro da luz e de encontro a mim. Não faz mal. Prefiro a dignidade e o risco de um combate corpo-a-corpo do que a crueldade de deixar sem auxílio um ferido de guerra. Ele certamente ter-me-ia deixado morrer de fome e sede, se calhasse ter sido eu a ficar esperneando de costas depois do match de quarta-feira. É isto que nos separa, ao mosquito e a mim, esta réstia de humanidade que me faz ter pena até de um empedernido votante de Trump ou de um colunista do Correio da Manhã.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Desvio de direita

Se vivêssemos num regime comunista, eu, que até aplaudo o novo imposto da gerigonça, seria irremediavelmente acusado de “desvio de direita”, e não apenas na forma tentada. A somar ao vital impulso que me afasta das multidões e não raro atira comigo para remotas paragens do Portugal profundo — onde, no leito seco de ribeiros ignotos, armo a cadeira de praia verde-fluorescente comprada nos chineses (nisso sou ortodoxo) e abro um livro pouco do agrado das massas — tenho também a desfaçatez de, em alternância, me instalar em esplanadas de velhos hotéis aristocratas (onde não armo a cadeira verde, tanto porque não preciso como porque não tenho coragem) a bebericar copos de vinho 4 ou 5 euros acima das minhas possibilidades. Individualista e ocasional burguês, eis o libelo fácil que contra mim se poderia levantar.

E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.

Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.

Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Agosto

O mês de Agosto de 2016 difere do mês de Agosto de 1986 e do de 1996 em não haver diferenças entre a música aos berros de carros de emigrantes e a música aos berros de carros de residentes. Prova, talvez, de que a União Europeia funcionou.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Punk is dead

Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer coisa sentida. 
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.

Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.

Quando voltei a vê-lo, ao longe, cumprimentado na esplanada como uma veneranda figura, com uma mistura de solenidade de igreja, fila de autógrafos e trégua de velório (nem todos são alheios ao seu legado político), já havia vários passeios entre nós. A preguiça e uma vocação para sentir piedade e perdoar a quem nos tem ofendido pouparam-nos a ambos às consequências de uma súbita fúria punk. Isso e a canícula, que seca as glândulas salivares.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Being a hooligan

Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson (em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética. Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros. Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».

Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais profundas do rizoma. 

domingo, 5 de junho de 2016

Avaliar pelas aparências

Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.

Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências, este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Enologia da arte

A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.

Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.

terça-feira, 1 de março de 2016

Um drama social

A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração do vinho se faça logo boca a boca.

São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente a um grupo de milionários anónimos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crise da imprensa: os meus contributos

A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante). A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e transformasse em caderno diário o Ípsilon, o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional.