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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O gosto do proletariado

Como a televisão, embora em menor medida (dada a profusão de estações), também as rádios são veículos de previsibilidade. Os “sucessos” que emitem são-no não porque a audiência tenha elevado certas músicas a essa condição, mas porque as estações apostam nalguns temas (e podemos não estar só a falar de música) para esse estatuto, passando-os até à exaustão, conseguindo que sejam de facto os mais ouvidos. Não por mérito, mas por preencherem todo o espectro sonoro disponível.

E, porque também as rádios têm pânico de emitirem para o vácuo, as suas apostas são seguras, não é ainda aqui que há riscos, novidades, surpresas. Como a televisão, as rádios são uma peça na engrenagem do ciclo vicioso.

O que espanta é que, apesar de todo o esforço e manipulação dos agentes da previsibilidade (podemos incluir aqui os jornais, os media em geral, em larga medida a própria Internet), o que espanta é que subsistam focos de originalidade criativa no mundo e espíritos curiosos que navegam nos interstícios do sistema dispostos a serem surpreendidos, enriquecidos com o diverso e o novo. O que espanta é que, apesar do empenho concertado de governos e media, não tenha ainda crescido lã nas costas de todos os cidadãos e cascos nos seus pés.

É um espanto optimista, este, um maravilhamento com a natureza humana que talvez se alimente do dia luminoso e quente que esteve hoje. Estendamo-lo, resistamos ao Outono que se aproxima, permitamo-nos por momentos aliviar o cepticismo, o pessimismo ontológico; perguntemo-nos como seria o mundo se não tivesse sido inventada esta contradição nos termos: uma ditadura do (gosto do) proletariado dirigida superiormente.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Agentes da previsibilidade

Televisões
Quando as televisões generalistas fazem referência em horário nobre à estreia de um espectáculo de teatro, esse espectáculo é uma comédia ou tem actores que a própria televisão mediatizou noutras actividades. Na maior parte das vezes verificam-se as duas situações: é uma comédia com actores mediáticos.
De resto, não é por atribuírem importâncias às artes do palco que as televisões referem os espectáculos. Fazem-no para apanhar boleia do impacto que sabem que aquelas peças (jornalísticas) vão ter. É a mediatização a alimentar-se de si mesma. É notícia aquilo que a figura pública faz quando é feito por ela, não por alguém desconhecido. O mesmo espectáculo protagonizado por actores desconhecidos (ainda que excelentes) jamais terá honras de fecho de telejornal.

A televisão teme não ser vista. Vive nesse pânico. Torna-se histérica. Patológica. Deixa de ser um veículo de imagens, janela do mundo, para se tornar espelho de si própria. Aquilo que uma vez funcionou, foi visto pelos espectadores, é tudo o que a televisão arrisca mostrar. Apressa-se a deitar fora o que quer que tenha ficado um grau abaixo das melhores expectativas. Reduz o foco da sua atenção até, no futuro, não restar mais do que um pixel no centro do ecrã. O mais mediático pixel da história da humanidade. Devemos ansiar por esse dia.

Mecenato
Algo parecido acontece com o “mecenato” em Portugal. Com a fraca excepção dos equipamentos nacionais (em Lisboa e Porto), nenhuma empresa ou instituição patrocina a sério as artes neste país. Os patrocínios vão todos para artistas ou eventos mediáticos (por definição capazes de sobreviver sem apoios). Isto porque as empresas e as instituições (mesmo que em parte do Estado) não tencionam prestar nenhum serviço público. Como as TVs, querem apenas apanhar boleia do que é mediático, promoverem-se a si mesmas. Na verdade, o que fazem é comprar espaço de publicidade nos cartazes ou nos palcos das actividades que dizem apoiar. E que, perversamente, promiscuamente, acabam por apoiar de facto, promovendo ainda mais o que já é sobejamente conhecido e não raro medíocre.

Decisores
Isto não acontece porque o panorama artístico nacional, aquele que resiste apesar de tudo, seja miserável. Não é. Acontece porque a sofisticação cultural da maioria dos empresários e responsáveis deste país é nula*. Televisões, instituições e empresas estão-se nas tintas para a arte. São apenas agentes da previsibilidade, elemento e alimento do ciclo vicioso.

Público
O grande público é apanhado nas voltas deste ciclo vicioso, verdadeiro rolo compressor de mentalidades. Tudo o que lhe é dado a ver, tudo o que levam até ele, é aquilo que ele conhece. Não o questionam, não lhe pedem a opinião. Não o tratam democraticamente, apresentando-lhe em pé de igualdade um leque de alternativas para que ele possa escolher, em liberdade. Não o respeitam, portanto. Não o deixam ser livre. Não arriscam.

* Um estudo interessante e esclarecedor seria aquele que divulgasse a quantidade de vezes que, nos últimos anos, entraram num teatro, e para ver que espectáculos, os responsáveis por empresas e instituições e opinion makers nacionais. E, já agora, também o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da Cultura. 

Agentes da previsibilidade II

Não raro, em defesa da feira de vaidades instituída, é dito que a mediatização de intérpretes concedida pelas televisões é benéfica para o teatro. Que de alguma forma essa mediatização foi responsável por devolver público ao teatro. Mas a questão é esta: de que teatro falam? Salvo honrosas excepções, as vedetas de televisão sobem aos palcos para compor o orçamento (ou o ego) com umas comediazinhas ligeiras, muito vezes verdadeiramente execráveis. Que de quando em quando são apresentadas como exemplos de produção verdadeiramente “independente”. E rentável, claro: apostam sempre no número (de circo) vencedor.
A não ser se pretenda que teatro passe a ser sinónimo de comédia, que se pretenda reduzir, digamos, dramaticamente a amplitude da disciplina, amputá-la dos seus múltiplos ramos, purgá-la de géneros, correntes, autores, a não ser que o objectivo seja esta simplificação extrema (ideia que certamente excita muitas cabecinhas), a mediatização não tem servido de muito ao teatro. Quantos dos “famosos” aproveitam a sua fama para dar visibilidade a alguma forma de teatro que não seja a esperada pela TV? O métier português não é como o londrino, pois não.

sábado, 20 de agosto de 2011

Os talibãs da ocidental praia

Nos restaurantes, as mulheres sentam-se de costas para a televisão. É esta a norma não escrita do machismo luso. Em Portugal, uma televisão acesa tem, se não garantia, elevadas probabilidades de estar sintonizada num dos canais da Sport TV. “Sport” ali significa futebol, como se sabe. Os casais entram e, por um acordo tácito, aviltante para ambos, ela senta-se de costas, ele sintoniza-se com o canal. Ela mantém a ilusão de uma conversa, ele vai respondendo por monossílabos ou gestos enfadados nas pausas das jogadas. Ela, de classe baixa, média ou alta, teenager ou matrona, não consegue (ou não tenta) a sua rebelião. Ele, sem classe, demasiado bruto para a equidade ou o pundonor, retouça na sua condição de talibã da ocidental praia. E não há quem lhe ponha uma albarda.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A arte de demolir

Talvez não seja culpa dele (não é certamente), mas pelo que se vai lendo na imprensa o Secretário de Estado da Cultura parece mais um liquidatário, alguém contratado pelo Governo para conduzir o processo de falência de uma pasta. Começou pela auto-despromoção: Viegas deve ser o único convidado para um cargo que impôs como condição prévia a imediata regressão na carreira. Nos últimos dias, a imprensa citou-o a determinar que Portugal tem equipamentos culturais a mais. Deverá seguir-se, naturalmente, o anúncio de que a SEC cabimentou uma verba para explosivos.


Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.

Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.

Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.

Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.

Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?

A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)

A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.

Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.

Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.

Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.

Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?