A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
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quarta-feira, 1 de maio de 2019
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Da mediocridade
A habitual mediocridade portuguesa, que nunca acredita que o serviço público de qualidade, além de um dever, pode ser sustentável e até popular, acaba sempre por cortar as pernas a quem tem as ideias, a competência, a ousadia ou o talento para o fazer. Se não tem maneira de lhe recusar os meios (o que geralmente tem, da forma mais hipócrita), rapidamente encontra a cláusula que permite aos invejosos, incompetentes, cínicos ou simplesmente imbecis afastar os indesejados. E Portugal seguirá provavelmente, de novo, para serviços públicos que, quais comissões de festas, tratam de assegurar ao povo o seu pão e circo. O que, no caso da RTP, significará novelas, futebol e pimba.
[A propósito da saída de Nuno Artur Silva da direcção da RTP.]
https://www.publico.pt/2018/02/09/sociedade/opiniao/rtp-20152018--o-que-fizemos-1802555]
terça-feira, 18 de julho de 2017
Da democracia do gosto
É fácil invocar o chavão «gostos não se discutem» para
terminar uma conversa (ou, mais rigorosamente, para fazer calar o interlocutor).
Talvez os gostos não se discutam (não se deviam impor, isso sim).
Mas pode-se tentar explicar serena e sabiamente a qualidade e a singularidade de
uma obra de arte, como se faz neste vídeo.
Apelar à difusão do vídeo pode contudo valer-nos a acusação
de proselitismo, porque, como se sabe, o único proselitismo válido, mas não
assumido, é o que praticam com denodo as televisões e a imprensa “popular”.
Claro que nunca veremos a TVI ou a CMTV a substituir um dos
programas do seu circo de horrores por uma aula destas. Mas podemos sempre observar
que, ao contrário do que apregoam, a sua noção de democracia está errada.
A chave da democracia não é fazer cumprir a opção da maioria
(muito menos a opção previamente decidida pelos populistas de serviço). A chave
da democracia é, exactamente, a possibilidade de optar. E isso só se assegura
permitindo a diversidade e a singularidade. O que acontece é que demasiado frequentemente, como
lembra Luís Figueiredo no final do vídeo, «as pessoas não estão a escolher». Como poderiam, não é?
quarta-feira, 10 de maio de 2017
A salvação é possível, irmãos!
Apesar do nome, Salvador Sobral não vem redimir anos de
indigência televisiva. Mas, ah, sabe bem esta pausa na nacional e proverbial
pimbalhice! A estratégia de Nuno Artur Silva (de que já aqui falei) foi recompensada
e veio relembrar a condescendência, a indiferença, o niilismo ou a cobardia de
sucessivas direcções editoriais das televisões, pública e privadas. Sim, a
popularidade é possível por outras vias.
A ironia de sempre é que as televisões são por natureza máquinas de popularizar e, quando, inseguras,
incompetentes ou cínicas, baixam a sua bitola ao nível da miséria intelectual,
popularizam lixo. Décadas de irresponsabilidade institucional fizerem crer que a
única forma de comunicar esteticamente com as massas era através da mediocracia
artística. Mas eis que o país, um país maior do que as habituais bolsas de
resistência cultural, se mostra capaz de apreciar e amar uma boa canção, mais devedora
ao jazz do que à fórmula habitual de encher as insuportáveis e itinerantes chouriças
de sábados e domingos à tarde.
Ainda não será desta que as populações se revoltam contra a
imagem que a televisão faz delas, mas talvez fique um pouco mais evidente que
aquela imagem é, antes de mais, o espelho de quem faz televisão.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Bom gosto
Um tipo sente-se por momentos reconciliado com o país quando descobre que venceu o Festival RTP uma canção bonita.
A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.
A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Malícia
Descobri há pouco que o slogan
da RTP2 é “Culta e Adulta”. Nestes tempos de condescendência, há que apreciar o
mote — e sobretudo a provocação e a malícia.
Não é tanto o que o lema diz sobre o segundo canal da televisão pública,
mas o que incita a concluir sobre todos os outros.
No final, também a RTP2 há-de ser acusada de contribuir para a
vitória de Trump, Le Pen e afins. Porque ignora as angústias do público néscio
e infantil.
domingo, 5 de junho de 2016
Avaliar pelas aparências
Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os
concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando
que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes
lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de
ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a
resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo
parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não
há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando
o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar
de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o
próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.
Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser
concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse
de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências,
este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar
as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o
apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Cortesãos de esquerda
A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da
democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de
coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às
presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez
boicote mesmo as eleições.
Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses
que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado
(entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma
candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos
compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice.
Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se
importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à
derrisão da pátria.
Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro
que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros
candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e
a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os
debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica
ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples
contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde
já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua
tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus
apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não
são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora
às vezes pareça, é certo.)
terça-feira, 7 de abril de 2015
J. Rentes de Carvalho na RTP
O documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira sobre J. Rentes de Carvalho (www.tempocontado.blogspot.pt) passa nesta terça-feira, 7 de Abril, na RTP2, às 23h25. Quem puder, veja. Quem não puder, por uma vez use as opções de gravação de programas para algo útil.
(Notícia aqui e aqui.)
(Notícia aqui e aqui.)
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Referências culturais
Notar a frequência com que os meus escritos evocam banda desenhada,
música pop, cinema ou livros pouco recomendáveis remete-me para a pergunta
certeira que Nuno Costa Santos faz no Marginal Ameno:
«como é que alguém com 40 anos pode criar hoje — nas escritas, nas representações, nas artes em geral — fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.»
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Deixem o pimba em paz? As artes e o público
À saída do espectáculo DEIXEM O PIMBA EM PAZ (uma reinvenção
brilhante de Filipe Melo e Nuno Rafael a partir do hegemónico repertório pimba)
alguém registou duas reacções dos espectadores: a dos que gostaram porque os novos arranjos eram música genial e a dos que gostaram porque dava para reconhecer as
cantigas originais.
Estas reacções do público parecem demonstrar que é possível fazer arte
consensual, ou mesmo arte de qualidade para uma imensa maioria. Dar-se-ia assim
razão a Filipe La Feria, que terá dito na noite dos Globos de Ouro que «o
segredo das casas cheias é o talento».
Mas é precipitada a conclusão sobre a consensualidade — e, claro, está
infelizmente errada a afirmação laferiana. Se voltarmos às reacções daquele
público, vemos que o que agradou aos mais exigentes (ou menos engajados no
género) foi apenas a magnificência dos arranjos, a sua qualidade de coisa nova
e boa em si mesma, e o que agradou aos fãs das canções originais foi uma certa
resiliência da coisa pimba, o conforto da sua permanência no novo objecto
artístico. Não há exactamente nisto um consenso estético.
Posição diferente, e mais perspicaz (ou honesta), da de La Feria tem um
espectador do Theatro Circo, que, indignado, se queixava há dias na página de
Facebook daquela sala que «tudo o que fuja 1 milímetro ao mainstream (quase) não tem público».
A recepção das artes, para a maioria das pessoas, tem muito menos a ver
com méritos artísticos de criadores e intérpretes do que com factores externos,
como a psicologia de massas. É muito menos uma questão artística do que
sociológica, cultural (no sentido de educação, tradições, costumes, hábitos,
rituais, valores, ideologia, preconceitos, imaginário, etc.). O espectador
português não vai em massa aos espectáculos por interesses estéticos. Ou, dito
de outro modo, a estética das multidões não é artística, mas, digamos, étnica,
identitária, gregária. O espectador que integra grandes plateias vai aos
espectáculos em busca de entretenimento, e vai também para se inscrever no
grupo, se incluir no ritual, se saber parte da encenação social da comunidade,
poder dizer também fui, também estive, também vi, também sou, faço parte. É o mesmo impulso emulador que
leva o turismo de massas ao Algarve, ao Brasil ou ao resort na República Dominicana. Não é necessariamente a qualidade
das praias que o leva ali, mas o conforto e a excitação de ir onde todos vão, de
pisar onde os outros pisaram, de não ficar para trás, de não ser excluído, de
não ser aquele que não foi, não esteve, não viu, não fez parte, aquele que não é. Um local ou um espectáculo são
declarados objectos «de excelência» para um colectivo pelo mesmo mecanismo
gregário que junta as pessoas em volta da Selecção Nacional em dia de vitória
(antigamente era também na nave da igreja em dia de terramoto), ou que as põe a
vestir em cada estação roupa igual sem lhe chamar farda ou uniforme.
Malgré La Feria, o talento
artístico, portanto, tem pouco a ver com a presença massiva do público nos espectáculos
— assim como a ausência do público não é geralmente uma posição estética ou crítica em relação a um espectáculo. No tempo de Shakespeare, ou na
Lisboa de Garrett, o público ia em números significativos ao teatro, mas isso
não significa que gostasse ou percebesse mais de teatro do que o público de
hoje. Significa sobretudo que isso era o que a comunidade fazia com
naturalidade naquela altura. Ia-se ao
teatro, era o rito social. (E já então as pateadas e as aclamações conseguiam
frequentemente não corresponder ao mérito das peças.)
Estas considerações não levam à conclusão de que o público é inepto,
mas à de que, aglomerado em multidões, o seu critério se dilui, se transfere da
apreciação estética para a aprovação social — e à de que é susceptível de
manipulação, mais ou menos consciente ou maquiavélica. Talvez ainda haja
encenadores ou produtores que contratam claques para aplaudir as suas peças ou
patear as dos adversários, mas o campeonato já não se joga aí. As rivalidades
entre criativos são, aliás, deste ponto de vista, ridículas: os criativos (se usarmos
o termo também para adjectivar a classe) estão infelizmente todos do mesmo lado:
o lado dos sem público (para
dramatizarmos um pouco a coisa). Clássicos ou contemporâneos, apologistas do
texto ou da performance física, indefectíveis do sentido ou niilistas
absolutos, conservadores ou ferozes experimentalistas — não depende dos
criativos ter espectadores às centenas ou moscas nas suas salas (continua a
dramatização). A afluência em massa de espectadores não se fará pelo
brilhantismo do que se apresenta no palco mas pela particularidade de o local,
o espectáculo, ou algum seu protagonista terem sido eleitos instrumentos de inscrição
social. As pessoas aparecerão numerosamente se sentirem que vão ali,
divertir-se, é certo, mas sobretudo receber a bênção da inclusão, ser ungidas
de visibilidade e aceitação, aparecerão se ali lhes for dada existência, uma existência de corpo
celeste que orbita e depende da sua estrela. Este género de espectador, o género
que pode constituir plateias numerosas, aparece num espectáculo um pouco como
um concorrente no Big Brother: à espera de ser premiado por existir ou estar. Percebe-se que um e outro mantenham uma boa relação.
Um espectáculo que tenha uma figura do tal mainstream, famosa (famosa por exemplo pela sua proverbial falta de
dons) corre muito mais o risco de esgotar do que um que tenha várias pessoas apenas talentosas. Mas isto continua a
não ser suficiente para classificar o público de inepto, porque em rigor ele
não está neste contexto a exercer função de público, não de público de artes. A
sua atenção não está virada para o objecto artístico, mas para o comércio
social. O público aparecerá para testemunhar o fenómeno, coleccionar a memória
da experiência, sentir que não ficou de fora do rito — não para fruir uma
melodia, um texto, uma interpretação.
Não sendo necessariamente inepto, o público que apenas funciona em
massa também não é, todavia, curioso. E também isso explica a sua ausência de
tantos espectáculos, como referia o espectador lá em cima. Este público não dá
o benefício da dúvida a um espectáculo que ainda não tenha sido visto e
aprovado por centenas ou não tenha em si os elementos que garantem essa
aprovação, os elementos da previsibilidade (ou seja, um cúmulo de repetições e
clichés). Este público não vai por sua iniciativa espreitar um jornal, um site, um cartaz ou um palco onde o que
esteja em causa seja um espectáculo novo e não um espectáculo aclamado. O que
naturalmente traz um problema para autores ou espectáculos ainda não sancionados
por uma multidão, mesmo que excelentes.
Não estando disposto «a pagar para ver», a arriscar num espectáculo ou
artista desconhecido, não procurando realmente experiências estéticas mas
catarse social, e sendo incapaz de gerir o seu próprio cânone sem o submeter à
validação geral, este público tende a confundir critérios estéticos com atributos
não artísticos. O «renome» de um artista (cuja origem o público não investiga e
cujo prazo de validade não verifica) substitui os seus dotes vocais ou
coreográficos, a sua inspiração a cada novo trabalho; o género praticado por um par de vedetas é, por sinédoque, uma coisa
boa, mesmo que os demais praticantes sejam medíocres; a «visibilidade»
mediática é alvará superior ao diploma do conservatório, à opinião da crítica
especializada ou ao arbítrio individual, pessoal; uma grande quantidade de
visualizações ou testemunhos «promete» que a experiência será positiva e
suspende desde logo o juízo próprio, garante por isso a posterior ratificação.
O segredo das casas cheias não é, portanto, o talento, mas o ter-se bafejado
o objecto com o hálito saturado das multidões ou com o seu sucedâneo
laboriosamente preparado pelos alquimistas de serviço.
E os alquimistas de serviço não são os criativos. Quem hoje manipula o
público, para retomar a prática oitocentista referida atrás, não são os
directores ou os donos das companhias. A «inscrição social» que alguma arte
pode proporcionar e que a faz ser procurada por multidões, na sua freudiana
necessidade de unção e integração, não está nas mãos dos criadores artísticos, mas
nas dos media, sobretudo nas da TELEVISÃO. O pimba não sairia do
relativo anonimato das feiras e romarias de província, como o fandango e a
chula, se a televisão e Herman José não se tivessem apaixonado por ele. (Em
contrapartida, também Filipe Melo e Nuno Rafael não teriam tido provavelmente vontade
de aplicar o seu génio a material tão insípido e monótono se ele se tivesse
mantido circunscrito.)
A televisão não é só the drug of
the nation — é para as massas o árbitro da elegância. Ninguém pode esperar
que o público seja massivo no teatro se o teatro está ausente da televisão.
E a influência da televisão é tanto maior quanto as elites, duma
maneira ou doutra, participam dela.
Os GLOBOS DE OURO (como
noutra dimensão os Oscares) são reconhecidamente um miserável Panteão das Artes,
são uma cerimónia de pechisbeque de onde a crítica, o juízo estético e tantas
vezes o mero bom gosto estão ausentes. Contudo, uma boa parte dos que não
reconhecem autoridade à cerimónia passa a noite a acompanhá-la, pela TV, pelo
Facebook, pelo Twitter, por sms, pelas informações de amigos. Esta elite de
excluídos dos Globos (excluídos porque não foram convidados ou auto-excluídos porque
os desprezam) fica de fora a gozar ao detalhe o acontecimento ou a odiá-lo como
a um amor antigo — e participa assim do mecanismo de entrosamento ou coroamento
social que ele constitui, porque a caricatura, o insulto ou o ressabiamento mal
disfarçado entram no metabolismo do monstro, fazem-no crescer.
Os Globos de Ouro servem para ungir os premiados não necessariamente
pelo seu mérito, mas pela conveniência que o acto acarreta. Conveniência para o
canal. Alguns prémios são apenas a confirmação do critério (encontrar o
premiado que valide a ideia, o conceito que se quer valorizar). Outros, frequentemente,
são atribuições que, numa inversão de funções, procuram garantir notoriedade ao
próprio programa e ao canal, procuram inscrevê-los socialmente. O árbitro quer
definir o que é elegante — e quer que os elegantes lembrem a todos quem é o
arbitro.
É esta espécie de tautologia que está na origem do afunilamento pimba
das televisões. (Repare-se que pimba já não é apenas aquele género musical
brejeiro e uniforme, é uma forma de estar, um amarfanhamento social que faz,
por exemplo, com que se torne difícil distinguir, pelo lado do público, um
concerto de Tony Carreira de um de Abrunhosa.) A existência de audiências
fragmentadas por gostos, interesses ou divergências estéticas seria perigosa e
dispendiosa para os canais televisivos. Perigosa porque estimularia mais o zapping, dispendiosa porque exigiria
mais conteúdos, mais formatos, mais inventividade, mais inteligência, mais
talento. O pimba não é necessariamente ou apenas uma simpatia natural dos
proprietários e directores de canais — é o fruto do seu esforço para impor pelo
facilitismo a marca e lucrar mais com menos investimento. O gosto único é,
talvez, do ponto de vista das televisões, menos uma ambição ideológica do que
um instrumento de economia. Em todo o caso, faz sempre parte de uma estratégia
de poder.
E falar de poder remete-nos para o ESTADO.
Que papel o Estado há-de reservar para si nesta relação difícil entre público e
artes?
Antes de mais, o Estado deveria definir se lhe interessa ter um papel. Atendendo a que já não há mecenas (os
mecenas, como se sabe, eram o Estado na Antiguidade Clássica e na Renascença, já que de uma forma ou de outra viviam
dos rendimentos que obtinham do povo), atendendo a estas circunstâncias, eu
diria que sim, que ao Estado interessa ter um papel, mas eu sou um antiquado,
um conservador. Tomemos o estado de direito, por exemplo. O estado de direito é
uma coisa dispendiosa, não dá lucro, mas é talvez a maior conquista
civilizacional da humanidade. Nenhum governo, por mais bruto que seja, se
atreveu (para já) a considerar o estado de direito obsoleto ou a achar que o
ministério público e os tribunais deveriam ser privatizados, financiados pelos
que os demandam, sem qualquer participação do Estado. Ora, as artes e o direito
caminharam, historicamente, ombro com ombro. Dialogam intimamente, do ponto de
vista filosófico. A capacidade de abstracção, o sentido crítico, o debate, a
independência de raciocínio e de opinião, a criatividade, a imaginação, tudo
isto que nos trouxe ao século XXI são características que a humanidade apurou
com o tempo e que de algum modo foram também estimuladas, potenciadas,
exercitadas pelas artes. Seria um pouco pretensioso (e perigoso) da nossa parte
achá-las agora dispensáveis.
O Estado, de forma activa ou por interposta legislação, com maior ou
menor convicção, é (tem de ser) o garante último da biodiversidade, da preservação
da memória, dos direitos das minorias e da alternativa democrática. Se não
tivermos outras ideias para as artes, diria que no mínimo devemos encaixá-las
nestes conceitos, tê-las em conta do ponto de vista ecológico (criando «reservas territoriais» onde elas possam
medrar), do ponto de vista social
(garantindo um rendimento de sobrevivência para intérpretes e espectadores,
podendo estes ser providos em géneros pelos primeiros), do ponto de vista histórico-patrimonial (desenvolvendo uma
política de «património vivo» para salas de espectáculos e galerias) e do ponto
de vista político-filosófico
(assegurando a possibilidade de propostas alternativas e o direito democrático à
livre escolha, à escolha livre de proselitismos televisivos).
Ironias à parte, que tipo de reflexão deve o Estado fazer sobre as artes
e o público? Perante a constatação de que não vão multidões ao teatro, uma
reflexão sobre artes não deveria concluir que o teatro deve ter menos apoios (nem
aumentar o IVA dos bilhetes). Do mesmo modo que aos governos preocupa a
abstenção (pelo menos envergonham-se de confessar que não preocupa), devia
preocupá-los a ausência de público no teatro. A qualidade de uma democracia sai talvez prejudicada se as pessoas não votarem, mas a qualidade do voto sai prejudicada
se as pessoas não tiverem uma relação íntima com as artes e o pensamento informado
e crítico que elas estimulam. Uma reflexão sobre artes, portanto, debruça-se
sobre como levar mais público ao
teatro.
Um governo não é um canal de televisão. Não pode ter como objectivo uniformizar
a sociedade para melhor a governar e para governar mais barato. Governar mais
barato pode ser uma triste necessidade, não uma aspiração. Daí que a um governo
que queira ser realmente útil não possa deixar de se colocar duas questões:
como levar mais público às artes (ou seja, ao pensamento crítico) e como (que é
quase o mesmo) contrariar o proselitismo pimba das televisões.
A resposta à segunda questão passaria por açaimar ligeiramente,
legislativamente, as TVs, mas isso é certamente pouco democrático e pouco
liberal.
A resposta à primeira questão, que a prazo também responderia à
segunda, reside em grande parte no ensino, essa instituição que o Estado (para
já) ainda controla.
Com a entrada do ministro Crato, um intelectual que quase toda a gente
estimava, o ENSINO ficou ainda mais
de costas voltadas para as artes. (Foi assim com este governo, transformou
desde o início pessoas interessantes em factótuns da política bulldozer.) Mas em rigor não é o actual
ministro que deve ser culpado por o ensino não educar as crianças para as
artes, para a estética, para a literatura, para o pensamento crítico. O mal é
antigo. Na ausência de uma boa política institucional, as escolas foram
deixadas à livre iniciativa (o que só por si não é um mal e em muitos casos
teve resultados positivos) e essa ausência de enquadramento conduziu geralmente
ao voluntarismo. A ênfase passou em poucas décadas de levar acriticamente os
miúdos ao teatro, por exemplo, de os deixar enfiados e contrariados durante uma
hora numa plateia a ver o que quer que fosse, para a originalidade de os levar
directamente para o palco, ainda mais acriticamente e com frequência sem
qualquer relação com a sua vocação. Há hoje no país centenas ou milhares de
crianças que estiveram mais vezes num palco (calorosamente ovacionadas, e por
isso induzidas em erro, pela família e os amigos) do que numa plateia, e em
tantas das ocasiões em que estiveram na plateia estiveram a ver e a aplaudir sem
critério crianças como elas. O equívoco tem as suas raízes antigas no
pensamento muito esquerdista e igualitarista de que todos temos talento, todos
temos criatividade, todos temos um poeta ou um bailarino dentro de nós. Depois
foi continuado pela bigbrotheriana ideologia, ainda mais «democrática», de que
todos temos direito à fama, mesmo que não façamos absolutamente nada para a
merecer. A televisão, claro, contribui fortemente para isto, com as suas chuvas
de estrelas, os seus inesgotáveis programas de talentos, e, não raro, os seus shows para macaquinhos de imitação.
Como resultado desta soma de equívocos — nem todos conscientes ou
mal-intencionados, conceda-se — temos hoje grandes fragmentos geracionais que
não sabem distinguir o mérito, o talento, a criatividade, a originalidade. Que
não conhecem a história das artes nem têm com elas qualquer relação intelectual
ou de afecto. Que «detestam» figadalmente o que não conhecem (e é quase tudo) e
idolatram qualquer frivolidade que se pareça longinquamente com o «talento» e o
gosto promovido pelas TVs.
Há muitas excepções a este cenário miserável, mas o ensino não devia
viver apenas de iniciativas individuais (e difíceis, desprezadas) de
professores esclarecidos e esforçados.
As artes no ensino não são importantes porque, na tal perspectiva
laferiana, podem assegurar «casas cheias» no futuro (as estatísticas são outro
equívoco), não é esse o ponto. A formação artística que o ensino pode e deve
proporcionar não deve estar necessariamente focada em criar «públicos» (isso
será um resultado natural) nem em criar artistas (a vocação não se incute). Prioritárias
a isso tudo são a sensibilidade, o espírito crítico, a capacidade de
abstracção, a autonomia de pensamento e o conhecimento, para os quais as artes
são um veículo útil.
As artes não se fruem sem uma boa parte de individualidade, de
concentração, de existência intelectual própria e capaz de se alhear dentro de
si mesma pelo período de um andamento musical, de um monólogo, de uma sequência
coreográfica, de um capítulo de um livro. Infelizmente as escolas não favorecem
isto (que por natureza não é fácil) e o resultado é termos já hoje uma ou duas
gerações que não se imaginam fechadas numa sala por uma hora sem poder
conversar e gritar, sem trocar sms, sem fumar um cigarro ou beber um copo. As
salas de cinema renderam-se a esta forma de estar e a própria Hollywood produz
há muito filmes que não exigem atenção permanente ou perspicácia. Nos teatros,
os espectáculos de massas são geralmente as comédias, os musicais ou os
concertos, produções, que, se não dão para o cigarrito e a mini, sempre permitem
a interacção na plateia e com o telemóvel durante
as representações.
Post scriptum: O grande Filipe Melo diz-me que o mérito de ‘Deixem o pimba em paz’* é
de Bruno Nogueira, que teve a ideia e orientou os músicos na reinvenção do
repertório. E já que estamos numa de distribuir créditos, há que referir
também Nelson Cascais, multifacetado contrabaixista, e Manuela Azevedo, capaz
de ressuscitar músicas que na verdade nunca estiveram vivas e de nos emocionar
com a mais insípida ou parva das letras pimba.
terça-feira, 25 de março de 2014
JRS x JS - 2.º round
Entretanto percebi melhor qual o formato do programa (não vejo televisão, não sabia) e porque o desvio de JRS causou indignação. Ora bem, o facto de se tratar de um programa que procura saber a opinião de José Socrates não dispensa os jornalistas de fazer o seu trabalho. Errados estão todos os outros jornalistas que fazem de naperon ou de figurantes nos programas de Marcelo e afins. Se a ideia é que os tipos falem sem contraditório, o correcto seria pô-los sozinhos em frente à câmara. Os separadores de temas poderiam ser quadros de legendas, como nos filmes mudos, ou mão-de-obra requisitada à Elite Models, não gente com carteira de jornalista. JRS pode ter mostrado um excesso de zelo direitista (uma agenda pró-governamental), mas antes isso do que um daqueles cães que antigamente se punham nos carros e se limitavam a acenar com a cabeça. O papel do jornalismo é perguntar, questionar, confrontar, e não só quando isso nos agrada.
segunda-feira, 24 de março de 2014
JRS x JS
Vai para aí celeuma por causa da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Sócrates. Não gosto de nenhum dos dois. Vi a entrevista. Rodrigues dos Santos fez bem em confrontar Sócrates com afirmações suas do passado. É para isso que servem os jornalistas, não para pés de microfone. JRS fê-lo com particular prazer? Acho que sim, mas o que importa é a utilidade da coisa, e tinha-a. Em contrapartida, Sócrates fez o seu papel, alertando para os contextos. Não o achei particularmente irritado, ao contrário do que para aí também se diz. E acho que se saiu relativamente bem na sua argumentação. Há, de facto, contextos que convém não esquecer, embora a muitos desse jeito.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Redireccionando a bigorna
«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se
o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares
(que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos:
o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de
comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e
consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais:
este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do
Correio da Manhã, esse órgão onde
parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e
sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas
não leiam jornais, nem sequer o CM. A
Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)
O Facebook é também por certo
uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora,
reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem,
que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor:
reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é
ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.
Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência
do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta
de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O
problema é a subserviência. A
idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a
idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do
que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de
sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)
sábado, 28 de dezembro de 2013
Quim Roscas e Zeca Estacionâncio
A dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio parece provar que a ascensão
social é possível nesta egrégia nação. Dois moços dados às anedotas, aparentemente
condenados, como noutros tempos, a animarem os serões de tascas de província,
conseguem um programa de televisão em horário nobre — o “Telerural”, emitido a partir
de Curral das Moinas. Um deles vai mais longe e, qual sapo beijado por princesa
do Lumiar (ou de lá onde a RTP tem os estúdios), não tarda é transformado em
apresentador de concursos. Num terceiro momento da sua ascensão, ambos têm o venerável
Nicolau Breyner a fazê-los protagonistas de “7 pecados rurais”, um filme
seminal (eles haveriam de apreciar o potencial javardo desta qualificação).
Todo este sucesso parece provar, dizia, que Portugal não tem o ascensor
social avariado. Os pobres e os indigentes, sobretudo estes, conseguem chegar
ao topo. Mas se analisarmos bem o fenómeno percebemos que é tudo um problema de
fundações: o duo não saiu do rés-do-chão: o edifício nacional é que se afundou
mais no solo em algumas décadas do que a Torre de Pisa em séculos.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Talvez coisar
Ouço no programa do provedor de uma rádio que ouvintes se queixam de
passarem ali músicas com palavrões. (Um dos exemplos é “Anos de bailado e
natação”, o belíssimo tema dos Mundo Cão com letra feliz de Valter Hugo Mãe de
que já aqui falei.) Isto no mesmo santo
dia em que a televisão dedica todo o período da tarde a fazer desfilar um
inesgotável repertório de grosseria e brejeirice.
Pergunto-me se os provedores das TVs (existem?) recebem queixas de
badalhoquices verbais no pequeno ecrã, mas suspeito que não. A cultura pimba é
ali hegemónica ou exclusiva. E, mesmo que não primem pela subtileza ou pela
elegância, os letristas pimba conseguem nos seus trocadilhos soezes evitar nomear
as coisas de que obsessivamente se ocupam. Ora, a hipocrisia nacional tolera o
mau-gosto, o machismo, a misoginia, a homofobia, o kitsch mais obsceno e a mais estridente ausência de talento — mas
nunca o vernáculo radiotransmitido.
Se não tivesse há muito sido banida qualquer forma de arte da TV lusa,
os Mundo Cão teriam na conjugação do verbo foder, ainda que poética, a razão do
seu ostracismo hertziano.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Episódios televisivos (2)
No telejornal da RTP, a repórter consegue aguentar sem se rir (e sem
se suicidar) durante todos os longos minutos que dura a premente reportagem
sobre uma “praga” de mosquitos no Algarve. Entrevista barmen, clientes, transeuntes e banhistas com a mesma expressão severa dos
colegas que são vistos à porta de ministérios ou de sedes de partidos tentando criar
uma reportagem sem assunto sobre pessoas ausentes. Não se desfez nem quando
pediu a um rapaz que exibisse perante a câmara o vermelhão de uma terrível e
decerto fatal picadela de melga.
Se aos repórteres não lhes fixam os músculos faciais com um veneno
paralisante antes de irem para o ar, é porque há nas televisões cursos sobre
controlo do riso — e obliteração da auto-estima.
No estúdio, José Rodrigues dos Santos e os seus pavilhões auriculares lideravam
a notícia com o entusiasmo do costume, mas dele sabemos ser capaz de
transformar qualquer crepuscular e estival invasão de pernilongos numa ribombante
Tempestade no Deserto. É do género emotivo e facilmente impressionável. Tome-se
a forma como olha a sua obra literária.
Episódios televisivos (1)
Na TVI, uma apresentadora de ar jovial e atitude picaresca, falando rápido
demais e muito divertida com o seu trabalho numa qualquer feira ou romaria do
país profundo, descobre com gritinhos histéricos que a vaca no curral por trás
de si resolveu aliviar a bexiga. Tomando aquilo por um fenómeno do
Entroncamento, a urbana e excitável menina resolve estar perante um momento
alto televisivo e insiste no assunto, aos pulinhos e aos risinhos, mantendo o
nível de histeria, chamando a atenção dos espectadores, puxando o braço do cameraman. Mais tarde no mesmo programa sobre
os portugueses como eles são, a mesma extrovertida e agora ainda mais descontrolada
rapariga fará semelhante cobertura televisiva do momento em que aquela ou outra
vaca cumpre os seus ciclos biológicos aliviando em directo desta vez o intestino.
Sendo a vaca o único ser vivo com aspecto respeitável no recinto, suspeito que o olhar lacónico do animal escondia um espírito sarcástico,
corrosivo, com talento para a metáfora endereçada — e sem receio da escatologia. Claro que a rapariga-apresentadora não estava familiarizada com tais subtilezas do intelecto, havia outro DNA nos seus cromossomas, estava noutro nível da evolução.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Agora a cultura será efervescente
«Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2» (DN)
Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma
de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao
sonho de uma menina.
Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser
apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a
estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem
imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.
A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos
os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é
aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos
de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A
apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise»,
mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos
que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível,
directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não
acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».
Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no
fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece
um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora
que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa
que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto
púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?
P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a
cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa»
implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo
segundo os padrões de um público “efervescente”.
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