O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Bem-aventurados os pobres de espírito
Quando pensamos que Hollywood toma o seu público por néscio, temos de nos lembrar da sofisticação das legendagens em português:
— Did she knew him?
— Probably biblically.
Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.
— Did she knew him?
— Probably biblically.
Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.
quarta-feira, 27 de maio de 2020
«Como É Que o Bicho Mexe?»
E agora para algo que não me vai tornar popular.
Só vi, e não na totalidade, o último episódio de «Como É Que o Bicho Mexe?». Perdoar-me-ão todos os meus amigos e amigas que se extasiaram com a coisa, mas fiquei pouco mais do que indiferente. Perguntei-me, e não gostei da resposta, se teria sido elevada a experiência estética uma caravana buzinante de final de taça ou campeonato, que aliás o «directo» mimetizou. Ok, concedo que talvez fosse necessário ter acompanhado a série para apreciar o seu epílogo.
Acontece que até gosto do humor de Bruno Nogueira, de uma inteligência por vezes adequadamente discreta, ainda que corrosiva, uns furos acima da média nacional de stand up comedians. A propósito deste «Bicho» (mas não só), gaba-se-lhe a criatividade «quando trabalha materiais pouco nobres, como a música pimba ou a reality TV»*, e o «profundo desejo de erguer o que está em baixo»** — e eu hesito entre concordar e lamentar. Concordo tecnicamente (o talento é notório) e lamento esteticamente.
Bem sei que a tendência crescente nalgumas artes tugas é valorizar o kitsch, o «foleiro», numa evocação ou homenagem daquilo que se toma como subcultura mas que é na verdade dominante. Por mim, prefiro um humorista sempre iconoclasta a um socialmente condescendente. A utilização de quaisquer materiais, muito ou pouco nobres, não devia fazer o humorista sentir-se penhorado em relação a eles. Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, devia proibir-se de conversar ao vivo na TV com os alvos das suas piadas, porque geralmente fracassa no exercício do humor ao subalternizá-lo à amabilidade que julga dever (e deve) aos convidados. Para conjugar os dois deveres, irrisão e gentileza, é necessário ter-se a afabilidade e o instinto assassino de um Jon Stewart, por exemplo. Não os tendo para usufruto simultâneo, convém escolher melhor o terreno do humor ou da sátira, como acabou por fazer Vasco Pulido Valente, que fracassava ao tentar transpor para a sua fraca oralidade uma arquitectura mental, ou antes, uma forma de expressão que só funcionava na escrita.
No caso de Bruno Nogueira, a delicadeza perante «o que está em baixo» não parece ser circunstancial ou idiossincrática, mero resultado de timidez de carácter, mas sim programática. O seu projecto «Deixem o Pimba em Paz» terá talvez, a esta luz, de ser analisado com certa literalidade. Nogueira quis divertir-se com as melodias ingénuas e as letras brejeiras daquele género musical, mas, a acreditar no que se diz dele, quis também que se não demonizasse o pimba.
E no entanto para mim esta intenção, dando de barato que era real, parece-me, desculpem a franqueza, fútil e fracassada, porque quase tudo o que havia para valorizar no espectáculo era o enorme talento musical, a imaginação (re)criativa dos seus compagnons de route Filipe Melo e Nuno Rafael (além da capacidade de interpretação de Manuela Azevedo). Num ensaio que escrevi há uns anos elogiei precisamente essa virtude do espectáculo e o Filipe censurou-me, porque antes de mais havia, segundo ele, que creditar Bruno Nogueira pela ideia de reinvenção do repertório. Aceitei, porque ao vivo sou também demasiado gentil, mas mantive para mim que o que havia ali de génio era eminentemente musical, coisa, parece-me, pouco creditável a Bruno Nogueira.
-----------------------------
* Vasco M. Barreto no blogue Ouriq: https://ouriquense.blogs.sapo.pt/bruno-nogueira-921322.
** João Miguel Tavares no Público: https://www.publico.pt/2020/05/19/opiniao/opiniao/venia-bruno-nogueira-1917122
Só vi, e não na totalidade, o último episódio de «Como É Que o Bicho Mexe?». Perdoar-me-ão todos os meus amigos e amigas que se extasiaram com a coisa, mas fiquei pouco mais do que indiferente. Perguntei-me, e não gostei da resposta, se teria sido elevada a experiência estética uma caravana buzinante de final de taça ou campeonato, que aliás o «directo» mimetizou. Ok, concedo que talvez fosse necessário ter acompanhado a série para apreciar o seu epílogo.
Acontece que até gosto do humor de Bruno Nogueira, de uma inteligência por vezes adequadamente discreta, ainda que corrosiva, uns furos acima da média nacional de stand up comedians. A propósito deste «Bicho» (mas não só), gaba-se-lhe a criatividade «quando trabalha materiais pouco nobres, como a música pimba ou a reality TV»*, e o «profundo desejo de erguer o que está em baixo»** — e eu hesito entre concordar e lamentar. Concordo tecnicamente (o talento é notório) e lamento esteticamente.
Bem sei que a tendência crescente nalgumas artes tugas é valorizar o kitsch, o «foleiro», numa evocação ou homenagem daquilo que se toma como subcultura mas que é na verdade dominante. Por mim, prefiro um humorista sempre iconoclasta a um socialmente condescendente. A utilização de quaisquer materiais, muito ou pouco nobres, não devia fazer o humorista sentir-se penhorado em relação a eles. Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, devia proibir-se de conversar ao vivo na TV com os alvos das suas piadas, porque geralmente fracassa no exercício do humor ao subalternizá-lo à amabilidade que julga dever (e deve) aos convidados. Para conjugar os dois deveres, irrisão e gentileza, é necessário ter-se a afabilidade e o instinto assassino de um Jon Stewart, por exemplo. Não os tendo para usufruto simultâneo, convém escolher melhor o terreno do humor ou da sátira, como acabou por fazer Vasco Pulido Valente, que fracassava ao tentar transpor para a sua fraca oralidade uma arquitectura mental, ou antes, uma forma de expressão que só funcionava na escrita.
No caso de Bruno Nogueira, a delicadeza perante «o que está em baixo» não parece ser circunstancial ou idiossincrática, mero resultado de timidez de carácter, mas sim programática. O seu projecto «Deixem o Pimba em Paz» terá talvez, a esta luz, de ser analisado com certa literalidade. Nogueira quis divertir-se com as melodias ingénuas e as letras brejeiras daquele género musical, mas, a acreditar no que se diz dele, quis também que se não demonizasse o pimba.
E no entanto para mim esta intenção, dando de barato que era real, parece-me, desculpem a franqueza, fútil e fracassada, porque quase tudo o que havia para valorizar no espectáculo era o enorme talento musical, a imaginação (re)criativa dos seus compagnons de route Filipe Melo e Nuno Rafael (além da capacidade de interpretação de Manuela Azevedo). Num ensaio que escrevi há uns anos elogiei precisamente essa virtude do espectáculo e o Filipe censurou-me, porque antes de mais havia, segundo ele, que creditar Bruno Nogueira pela ideia de reinvenção do repertório. Aceitei, porque ao vivo sou também demasiado gentil, mas mantive para mim que o que havia ali de génio era eminentemente musical, coisa, parece-me, pouco creditável a Bruno Nogueira.
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* Vasco M. Barreto no blogue Ouriq: https://ouriquense.blogs.sapo.pt/bruno-nogueira-921322.
** João Miguel Tavares no Público: https://www.publico.pt/2020/05/19/opiniao/opiniao/venia-bruno-nogueira-1917122
domingo, 3 de maio de 2020
Ao serviço do ténis
[Pequeno ensaio sob hipnose]
Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.
Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.
Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.
A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.
A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.
No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.
-------------------------------
* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.
Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.
Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.
Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.
A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.
A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.
No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.
-------------------------------
* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.
sábado, 25 de abril de 2020
O livro e a cultura
O editor e escritor Francisco José Viegas alerta há muitos anos, e com lancinante razão, para a tristeza trágica de termos um país sem uma política «favorável à criação de leitores e à circulação do livro». Fá-lo, por vezes, e é pena, opondo ao do livro outros sectores culturais onde a «incúria ou a indiferença» dos poderes será menor. Aconteceu de novo no artigo que escreveu esta quarta-feira no Público.
Defendermos que o livro e a leitura precisam de ser a grande prioridade de qualquer política cultural não nos devia tornar insensíveis a outras áreas. Por isso, a recorrente alusão de FJV ao sector do «espectáculo» com um certo tom de menosprezo compreende-se mas a generalização implícita e injusta desilude quem o lê e partilha as suas preocupações, fazendo temer uma mundividência algo truncada.
Julgo que concordamos que um dos grandes equívocos desta era, que perverte o apoio às artes, é tomar-se também como «cultura» actividades que com maior honestidade e proveito público se catalogariam de forma diferente. Manifestações, por exemplo, do domínio do mero entretenimento, em que sobretudo a moderna música popular é pródiga. Esta promiscuidade terminológica deixa sequelas legislativas e constitui a antecâmara de certa permissividade institucional na utilização discutível de dinheiros públicos, contribuindo, por isso, para a má percepção ou mesmo o antagonismo de alguma opinião pública.
E contudo uma parte do mundo do espectáculo, aquela que se refere por exemplo ao teatro e à dança e seus cruzamentos, padece de problemas análogos aos do livro. Também esta área, quando não coincide com o «espectáculo» no sentido superfluamente festivo e sobretudo decorativo a que Viegas alude, carece de uma política favorável à criação de público e à circulação de produções. Infelizmente, o sistema político e social vigente opera aqui do mesmo modo que expressa esta passagem essencial do artigo de FJV:
A cultura, do livro ao teatro, tem demasiadas vezes essa função, nem sempre involuntária, de pin de lapela e item de checklist inofensiva ou politicamente correcta. É usada por dirigentes ou entidades como berloque em eventos auto-promocionais e exibida depois, com a aposição de um diligente visto burocrático, numa lista de pequenas penitências ou obrigações a que o moderno líder político não julga poder escapar — embora também nunca lhe ocorra ter nada de importante a fazer com ela.
No fundo precisamos de CEOs e de líderes e representantes políticos (no caso não demasiado provável de ainda termos onde os escolher) capazes de darem o exemplo a partir «de cima», capazes de adoptarem como lema para si mesmos e para as instituições que dirigem (a começar pelas televisões de sinal aberto e pelas grandes editoras) o slogan da RTP2: «Culta e adulta». Culta no sentido antigo de se ter mundo e leituras e adulta não no sentido de liberdade para a pornografia mas de fim da idade parva.
Defendermos que o livro e a leitura precisam de ser a grande prioridade de qualquer política cultural não nos devia tornar insensíveis a outras áreas. Por isso, a recorrente alusão de FJV ao sector do «espectáculo» com um certo tom de menosprezo compreende-se mas a generalização implícita e injusta desilude quem o lê e partilha as suas preocupações, fazendo temer uma mundividência algo truncada.
Julgo que concordamos que um dos grandes equívocos desta era, que perverte o apoio às artes, é tomar-se também como «cultura» actividades que com maior honestidade e proveito público se catalogariam de forma diferente. Manifestações, por exemplo, do domínio do mero entretenimento, em que sobretudo a moderna música popular é pródiga. Esta promiscuidade terminológica deixa sequelas legislativas e constitui a antecâmara de certa permissividade institucional na utilização discutível de dinheiros públicos, contribuindo, por isso, para a má percepção ou mesmo o antagonismo de alguma opinião pública.
E contudo uma parte do mundo do espectáculo, aquela que se refere por exemplo ao teatro e à dança e seus cruzamentos, padece de problemas análogos aos do livro. Também esta área, quando não coincide com o «espectáculo» no sentido superfluamente festivo e sobretudo decorativo a que Viegas alude, carece de uma política favorável à criação de público e à circulação de produções. Infelizmente, o sistema político e social vigente opera aqui do mesmo modo que expressa esta passagem essencial do artigo de FJV:
«“de cima” […] nunca vem um exemplo capaz de levar mais pessoas a ler, a querer ler ou a sentirem que a leitura é um importante instrumento de conhecimento e de diálogo com o passado e com o futuro, e também de elevação individual e participação na vida comunitária».Experimente-se substituir na frase anterior, para alargamento da ideia e não como oposição a ela, o campo semântico da «leitura» pelo do «teatro» e compreenderemos como um dos problemas estruturais da cultura no país é, de facto, «a indiferença e a incúria», mas também o desdém ou mesmo a hostilidade, de diferentes poderes políticos e económicos.
A cultura, do livro ao teatro, tem demasiadas vezes essa função, nem sempre involuntária, de pin de lapela e item de checklist inofensiva ou politicamente correcta. É usada por dirigentes ou entidades como berloque em eventos auto-promocionais e exibida depois, com a aposição de um diligente visto burocrático, numa lista de pequenas penitências ou obrigações a que o moderno líder político não julga poder escapar — embora também nunca lhe ocorra ter nada de importante a fazer com ela.
No fundo precisamos de CEOs e de líderes e representantes políticos (no caso não demasiado provável de ainda termos onde os escolher) capazes de darem o exemplo a partir «de cima», capazes de adoptarem como lema para si mesmos e para as instituições que dirigem (a começar pelas televisões de sinal aberto e pelas grandes editoras) o slogan da RTP2: «Culta e adulta». Culta no sentido antigo de se ter mundo e leituras e adulta não no sentido de liberdade para a pornografia mas de fim da idade parva.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Micção e valores
Uma e vinte da noite. A CMTV, no estrito cumprimento do seu dever moral, passa repetidamente um vídeo em que um alemão tatuado de trinta anos, como diz a legenda, urina num carro da PSP e ri. André Ventura e dois outros tipos comentam, graves. No tasco onde me retiro para ler e observar a vida selvagem, os poucos clientes e os funcionários, habitantes de madrugadas consecutivas de televisão daquela, indignam-se num coro mecânico, esperado. Lá fora, ignorando a pequena crise hertziana, as primeiras vagas de banais estudantes da universidade local começam a migração entre um bar e outro. Se a natureza apertar, como sói apertar, chegar-se-ão a uma esquina, a um poste, à penumbra azarada da entrada de um prédio, a uma árvore sobrante, ao pneu de um carro — da PSP, se tiver de ser — e urinarão, rindo, injustamente ignorados pelo televangelismo nacional.
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Livros e séries televisivas
A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.
Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.
Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.
Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).
Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Da mediocridade
A habitual mediocridade portuguesa, que nunca acredita que o serviço público de qualidade, além de um dever, pode ser sustentável e até popular, acaba sempre por cortar as pernas a quem tem as ideias, a competência, a ousadia ou o talento para o fazer. Se não tem maneira de lhe recusar os meios (o que geralmente tem, da forma mais hipócrita), rapidamente encontra a cláusula que permite aos invejosos, incompetentes, cínicos ou simplesmente imbecis afastar os indesejados. E Portugal seguirá provavelmente, de novo, para serviços públicos que, quais comissões de festas, tratam de assegurar ao povo o seu pão e circo. O que, no caso da RTP, significará novelas, futebol e pimba.
[A propósito da saída de Nuno Artur Silva da direcção da RTP.]
https://www.publico.pt/2018/02/09/sociedade/opiniao/rtp-20152018--o-que-fizemos-1802555]
terça-feira, 18 de julho de 2017
Da democracia do gosto
É fácil invocar o chavão «gostos não se discutem» para
terminar uma conversa (ou, mais rigorosamente, para fazer calar o interlocutor).
Talvez os gostos não se discutam (não se deviam impor, isso sim).
Mas pode-se tentar explicar serena e sabiamente a qualidade e a singularidade de
uma obra de arte, como se faz neste vídeo.
Apelar à difusão do vídeo pode contudo valer-nos a acusação
de proselitismo, porque, como se sabe, o único proselitismo válido, mas não
assumido, é o que praticam com denodo as televisões e a imprensa “popular”.
Claro que nunca veremos a TVI ou a CMTV a substituir um dos
programas do seu circo de horrores por uma aula destas. Mas podemos sempre observar
que, ao contrário do que apregoam, a sua noção de democracia está errada.
A chave da democracia não é fazer cumprir a opção da maioria
(muito menos a opção previamente decidida pelos populistas de serviço). A chave
da democracia é, exactamente, a possibilidade de optar. E isso só se assegura
permitindo a diversidade e a singularidade. O que acontece é que demasiado frequentemente, como
lembra Luís Figueiredo no final do vídeo, «as pessoas não estão a escolher». Como poderiam, não é?
quarta-feira, 10 de maio de 2017
A salvação é possível, irmãos!
Apesar do nome, Salvador Sobral não vem redimir anos de
indigência televisiva. Mas, ah, sabe bem esta pausa na nacional e proverbial
pimbalhice! A estratégia de Nuno Artur Silva (de que já aqui falei) foi recompensada
e veio relembrar a condescendência, a indiferença, o niilismo ou a cobardia de
sucessivas direcções editoriais das televisões, pública e privadas. Sim, a
popularidade é possível por outras vias.
A ironia de sempre é que as televisões são por natureza máquinas de popularizar e, quando, inseguras,
incompetentes ou cínicas, baixam a sua bitola ao nível da miséria intelectual,
popularizam lixo. Décadas de irresponsabilidade institucional fizerem crer que a
única forma de comunicar esteticamente com as massas era através da mediocracia
artística. Mas eis que o país, um país maior do que as habituais bolsas de
resistência cultural, se mostra capaz de apreciar e amar uma boa canção, mais devedora
ao jazz do que à fórmula habitual de encher as insuportáveis e itinerantes chouriças
de sábados e domingos à tarde.
Ainda não será desta que as populações se revoltam contra a
imagem que a televisão faz delas, mas talvez fique um pouco mais evidente que
aquela imagem é, antes de mais, o espelho de quem faz televisão.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Bom gosto
Um tipo sente-se por momentos reconciliado com o país quando descobre que venceu o Festival RTP uma canção bonita.
A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.
A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Malícia
Descobri há pouco que o slogan
da RTP2 é “Culta e Adulta”. Nestes tempos de condescendência, há que apreciar o
mote — e sobretudo a provocação e a malícia.
Não é tanto o que o lema diz sobre o segundo canal da televisão pública,
mas o que incita a concluir sobre todos os outros.
No final, também a RTP2 há-de ser acusada de contribuir para a
vitória de Trump, Le Pen e afins. Porque ignora as angústias do público néscio
e infantil.
domingo, 5 de junho de 2016
Avaliar pelas aparências
Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os
concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando
que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes
lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de
ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a
resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo
parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não
há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando
o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar
de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o
próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.
Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser
concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse
de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências,
este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar
as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o
apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Cortesãos de esquerda
A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da
democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de
coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às
presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez
boicote mesmo as eleições.
Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses
que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado
(entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma
candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos
compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice.
Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se
importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à
derrisão da pátria.
Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro
que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros
candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e
a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os
debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica
ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples
contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde
já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua
tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus
apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não
são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora
às vezes pareça, é certo.)
terça-feira, 7 de abril de 2015
J. Rentes de Carvalho na RTP
O documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira sobre J. Rentes de Carvalho (www.tempocontado.blogspot.pt) passa nesta terça-feira, 7 de Abril, na RTP2, às 23h25. Quem puder, veja. Quem não puder, por uma vez use as opções de gravação de programas para algo útil.
(Notícia aqui e aqui.)
(Notícia aqui e aqui.)
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Referências culturais
Notar a frequência com que os meus escritos evocam banda desenhada,
música pop, cinema ou livros pouco recomendáveis remete-me para a pergunta
certeira que Nuno Costa Santos faz no Marginal Ameno:
«como é que alguém com 40 anos pode criar hoje — nas escritas, nas representações, nas artes em geral — fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.»
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Deixem o pimba em paz? As artes e o público
À saída do espectáculo DEIXEM O PIMBA EM PAZ (uma reinvenção
brilhante de Filipe Melo e Nuno Rafael a partir do hegemónico repertório pimba)
alguém registou duas reacções dos espectadores: a dos que gostaram porque os novos arranjos eram música genial e a dos que gostaram porque dava para reconhecer as
cantigas originais.
Estas reacções do público parecem demonstrar que é possível fazer arte
consensual, ou mesmo arte de qualidade para uma imensa maioria. Dar-se-ia assim
razão a Filipe La Feria, que terá dito na noite dos Globos de Ouro que «o
segredo das casas cheias é o talento».
Mas é precipitada a conclusão sobre a consensualidade — e, claro, está
infelizmente errada a afirmação laferiana. Se voltarmos às reacções daquele
público, vemos que o que agradou aos mais exigentes (ou menos engajados no
género) foi apenas a magnificência dos arranjos, a sua qualidade de coisa nova
e boa em si mesma, e o que agradou aos fãs das canções originais foi uma certa
resiliência da coisa pimba, o conforto da sua permanência no novo objecto
artístico. Não há exactamente nisto um consenso estético.
Posição diferente, e mais perspicaz (ou honesta), da de La Feria tem um
espectador do Theatro Circo, que, indignado, se queixava há dias na página de
Facebook daquela sala que «tudo o que fuja 1 milímetro ao mainstream (quase) não tem público».
A recepção das artes, para a maioria das pessoas, tem muito menos a ver
com méritos artísticos de criadores e intérpretes do que com factores externos,
como a psicologia de massas. É muito menos uma questão artística do que
sociológica, cultural (no sentido de educação, tradições, costumes, hábitos,
rituais, valores, ideologia, preconceitos, imaginário, etc.). O espectador
português não vai em massa aos espectáculos por interesses estéticos. Ou, dito
de outro modo, a estética das multidões não é artística, mas, digamos, étnica,
identitária, gregária. O espectador que integra grandes plateias vai aos
espectáculos em busca de entretenimento, e vai também para se inscrever no
grupo, se incluir no ritual, se saber parte da encenação social da comunidade,
poder dizer também fui, também estive, também vi, também sou, faço parte. É o mesmo impulso emulador que
leva o turismo de massas ao Algarve, ao Brasil ou ao resort na República Dominicana. Não é necessariamente a qualidade
das praias que o leva ali, mas o conforto e a excitação de ir onde todos vão, de
pisar onde os outros pisaram, de não ficar para trás, de não ser excluído, de
não ser aquele que não foi, não esteve, não viu, não fez parte, aquele que não é. Um local ou um espectáculo são
declarados objectos «de excelência» para um colectivo pelo mesmo mecanismo
gregário que junta as pessoas em volta da Selecção Nacional em dia de vitória
(antigamente era também na nave da igreja em dia de terramoto), ou que as põe a
vestir em cada estação roupa igual sem lhe chamar farda ou uniforme.
Malgré La Feria, o talento
artístico, portanto, tem pouco a ver com a presença massiva do público nos espectáculos
— assim como a ausência do público não é geralmente uma posição estética ou crítica em relação a um espectáculo. No tempo de Shakespeare, ou na
Lisboa de Garrett, o público ia em números significativos ao teatro, mas isso
não significa que gostasse ou percebesse mais de teatro do que o público de
hoje. Significa sobretudo que isso era o que a comunidade fazia com
naturalidade naquela altura. Ia-se ao
teatro, era o rito social. (E já então as pateadas e as aclamações conseguiam
frequentemente não corresponder ao mérito das peças.)
Estas considerações não levam à conclusão de que o público é inepto,
mas à de que, aglomerado em multidões, o seu critério se dilui, se transfere da
apreciação estética para a aprovação social — e à de que é susceptível de
manipulação, mais ou menos consciente ou maquiavélica. Talvez ainda haja
encenadores ou produtores que contratam claques para aplaudir as suas peças ou
patear as dos adversários, mas o campeonato já não se joga aí. As rivalidades
entre criativos são, aliás, deste ponto de vista, ridículas: os criativos (se usarmos
o termo também para adjectivar a classe) estão infelizmente todos do mesmo lado:
o lado dos sem público (para
dramatizarmos um pouco a coisa). Clássicos ou contemporâneos, apologistas do
texto ou da performance física, indefectíveis do sentido ou niilistas
absolutos, conservadores ou ferozes experimentalistas — não depende dos
criativos ter espectadores às centenas ou moscas nas suas salas (continua a
dramatização). A afluência em massa de espectadores não se fará pelo
brilhantismo do que se apresenta no palco mas pela particularidade de o local,
o espectáculo, ou algum seu protagonista terem sido eleitos instrumentos de inscrição
social. As pessoas aparecerão numerosamente se sentirem que vão ali,
divertir-se, é certo, mas sobretudo receber a bênção da inclusão, ser ungidas
de visibilidade e aceitação, aparecerão se ali lhes for dada existência, uma existência de corpo
celeste que orbita e depende da sua estrela. Este género de espectador, o género
que pode constituir plateias numerosas, aparece num espectáculo um pouco como
um concorrente no Big Brother: à espera de ser premiado por existir ou estar. Percebe-se que um e outro mantenham uma boa relação.
Um espectáculo que tenha uma figura do tal mainstream, famosa (famosa por exemplo pela sua proverbial falta de
dons) corre muito mais o risco de esgotar do que um que tenha várias pessoas apenas talentosas. Mas isto continua a
não ser suficiente para classificar o público de inepto, porque em rigor ele
não está neste contexto a exercer função de público, não de público de artes. A
sua atenção não está virada para o objecto artístico, mas para o comércio
social. O público aparecerá para testemunhar o fenómeno, coleccionar a memória
da experiência, sentir que não ficou de fora do rito — não para fruir uma
melodia, um texto, uma interpretação.
Não sendo necessariamente inepto, o público que apenas funciona em
massa também não é, todavia, curioso. E também isso explica a sua ausência de
tantos espectáculos, como referia o espectador lá em cima. Este público não dá
o benefício da dúvida a um espectáculo que ainda não tenha sido visto e
aprovado por centenas ou não tenha em si os elementos que garantem essa
aprovação, os elementos da previsibilidade (ou seja, um cúmulo de repetições e
clichés). Este público não vai por sua iniciativa espreitar um jornal, um site, um cartaz ou um palco onde o que
esteja em causa seja um espectáculo novo e não um espectáculo aclamado. O que
naturalmente traz um problema para autores ou espectáculos ainda não sancionados
por uma multidão, mesmo que excelentes.
Não estando disposto «a pagar para ver», a arriscar num espectáculo ou
artista desconhecido, não procurando realmente experiências estéticas mas
catarse social, e sendo incapaz de gerir o seu próprio cânone sem o submeter à
validação geral, este público tende a confundir critérios estéticos com atributos
não artísticos. O «renome» de um artista (cuja origem o público não investiga e
cujo prazo de validade não verifica) substitui os seus dotes vocais ou
coreográficos, a sua inspiração a cada novo trabalho; o género praticado por um par de vedetas é, por sinédoque, uma coisa
boa, mesmo que os demais praticantes sejam medíocres; a «visibilidade»
mediática é alvará superior ao diploma do conservatório, à opinião da crítica
especializada ou ao arbítrio individual, pessoal; uma grande quantidade de
visualizações ou testemunhos «promete» que a experiência será positiva e
suspende desde logo o juízo próprio, garante por isso a posterior ratificação.
O segredo das casas cheias não é, portanto, o talento, mas o ter-se bafejado
o objecto com o hálito saturado das multidões ou com o seu sucedâneo
laboriosamente preparado pelos alquimistas de serviço.
E os alquimistas de serviço não são os criativos. Quem hoje manipula o
público, para retomar a prática oitocentista referida atrás, não são os
directores ou os donos das companhias. A «inscrição social» que alguma arte
pode proporcionar e que a faz ser procurada por multidões, na sua freudiana
necessidade de unção e integração, não está nas mãos dos criadores artísticos, mas
nas dos media, sobretudo nas da TELEVISÃO. O pimba não sairia do
relativo anonimato das feiras e romarias de província, como o fandango e a
chula, se a televisão e Herman José não se tivessem apaixonado por ele. (Em
contrapartida, também Filipe Melo e Nuno Rafael não teriam tido provavelmente vontade
de aplicar o seu génio a material tão insípido e monótono se ele se tivesse
mantido circunscrito.)
A televisão não é só the drug of
the nation — é para as massas o árbitro da elegância. Ninguém pode esperar
que o público seja massivo no teatro se o teatro está ausente da televisão.
E a influência da televisão é tanto maior quanto as elites, duma
maneira ou doutra, participam dela.
Os GLOBOS DE OURO (como
noutra dimensão os Oscares) são reconhecidamente um miserável Panteão das Artes,
são uma cerimónia de pechisbeque de onde a crítica, o juízo estético e tantas
vezes o mero bom gosto estão ausentes. Contudo, uma boa parte dos que não
reconhecem autoridade à cerimónia passa a noite a acompanhá-la, pela TV, pelo
Facebook, pelo Twitter, por sms, pelas informações de amigos. Esta elite de
excluídos dos Globos (excluídos porque não foram convidados ou auto-excluídos porque
os desprezam) fica de fora a gozar ao detalhe o acontecimento ou a odiá-lo como
a um amor antigo — e participa assim do mecanismo de entrosamento ou coroamento
social que ele constitui, porque a caricatura, o insulto ou o ressabiamento mal
disfarçado entram no metabolismo do monstro, fazem-no crescer.
Os Globos de Ouro servem para ungir os premiados não necessariamente
pelo seu mérito, mas pela conveniência que o acto acarreta. Conveniência para o
canal. Alguns prémios são apenas a confirmação do critério (encontrar o
premiado que valide a ideia, o conceito que se quer valorizar). Outros, frequentemente,
são atribuições que, numa inversão de funções, procuram garantir notoriedade ao
próprio programa e ao canal, procuram inscrevê-los socialmente. O árbitro quer
definir o que é elegante — e quer que os elegantes lembrem a todos quem é o
arbitro.
É esta espécie de tautologia que está na origem do afunilamento pimba
das televisões. (Repare-se que pimba já não é apenas aquele género musical
brejeiro e uniforme, é uma forma de estar, um amarfanhamento social que faz,
por exemplo, com que se torne difícil distinguir, pelo lado do público, um
concerto de Tony Carreira de um de Abrunhosa.) A existência de audiências
fragmentadas por gostos, interesses ou divergências estéticas seria perigosa e
dispendiosa para os canais televisivos. Perigosa porque estimularia mais o zapping, dispendiosa porque exigiria
mais conteúdos, mais formatos, mais inventividade, mais inteligência, mais
talento. O pimba não é necessariamente ou apenas uma simpatia natural dos
proprietários e directores de canais — é o fruto do seu esforço para impor pelo
facilitismo a marca e lucrar mais com menos investimento. O gosto único é,
talvez, do ponto de vista das televisões, menos uma ambição ideológica do que
um instrumento de economia. Em todo o caso, faz sempre parte de uma estratégia
de poder.
E falar de poder remete-nos para o ESTADO.
Que papel o Estado há-de reservar para si nesta relação difícil entre público e
artes?
Antes de mais, o Estado deveria definir se lhe interessa ter um papel. Atendendo a que já não há mecenas (os
mecenas, como se sabe, eram o Estado na Antiguidade Clássica e na Renascença, já que de uma forma ou de outra viviam
dos rendimentos que obtinham do povo), atendendo a estas circunstâncias, eu
diria que sim, que ao Estado interessa ter um papel, mas eu sou um antiquado,
um conservador. Tomemos o estado de direito, por exemplo. O estado de direito é
uma coisa dispendiosa, não dá lucro, mas é talvez a maior conquista
civilizacional da humanidade. Nenhum governo, por mais bruto que seja, se
atreveu (para já) a considerar o estado de direito obsoleto ou a achar que o
ministério público e os tribunais deveriam ser privatizados, financiados pelos
que os demandam, sem qualquer participação do Estado. Ora, as artes e o direito
caminharam, historicamente, ombro com ombro. Dialogam intimamente, do ponto de
vista filosófico. A capacidade de abstracção, o sentido crítico, o debate, a
independência de raciocínio e de opinião, a criatividade, a imaginação, tudo
isto que nos trouxe ao século XXI são características que a humanidade apurou
com o tempo e que de algum modo foram também estimuladas, potenciadas,
exercitadas pelas artes. Seria um pouco pretensioso (e perigoso) da nossa parte
achá-las agora dispensáveis.
O Estado, de forma activa ou por interposta legislação, com maior ou
menor convicção, é (tem de ser) o garante último da biodiversidade, da preservação
da memória, dos direitos das minorias e da alternativa democrática. Se não
tivermos outras ideias para as artes, diria que no mínimo devemos encaixá-las
nestes conceitos, tê-las em conta do ponto de vista ecológico (criando «reservas territoriais» onde elas possam
medrar), do ponto de vista social
(garantindo um rendimento de sobrevivência para intérpretes e espectadores,
podendo estes ser providos em géneros pelos primeiros), do ponto de vista histórico-patrimonial (desenvolvendo uma
política de «património vivo» para salas de espectáculos e galerias) e do ponto
de vista político-filosófico
(assegurando a possibilidade de propostas alternativas e o direito democrático à
livre escolha, à escolha livre de proselitismos televisivos).
Ironias à parte, que tipo de reflexão deve o Estado fazer sobre as artes
e o público? Perante a constatação de que não vão multidões ao teatro, uma
reflexão sobre artes não deveria concluir que o teatro deve ter menos apoios (nem
aumentar o IVA dos bilhetes). Do mesmo modo que aos governos preocupa a
abstenção (pelo menos envergonham-se de confessar que não preocupa), devia
preocupá-los a ausência de público no teatro. A qualidade de uma democracia sai talvez prejudicada se as pessoas não votarem, mas a qualidade do voto sai prejudicada
se as pessoas não tiverem uma relação íntima com as artes e o pensamento informado
e crítico que elas estimulam. Uma reflexão sobre artes, portanto, debruça-se
sobre como levar mais público ao
teatro.
Um governo não é um canal de televisão. Não pode ter como objectivo uniformizar
a sociedade para melhor a governar e para governar mais barato. Governar mais
barato pode ser uma triste necessidade, não uma aspiração. Daí que a um governo
que queira ser realmente útil não possa deixar de se colocar duas questões:
como levar mais público às artes (ou seja, ao pensamento crítico) e como (que é
quase o mesmo) contrariar o proselitismo pimba das televisões.
A resposta à segunda questão passaria por açaimar ligeiramente,
legislativamente, as TVs, mas isso é certamente pouco democrático e pouco
liberal.
A resposta à primeira questão, que a prazo também responderia à
segunda, reside em grande parte no ensino, essa instituição que o Estado (para
já) ainda controla.
Com a entrada do ministro Crato, um intelectual que quase toda a gente
estimava, o ENSINO ficou ainda mais
de costas voltadas para as artes. (Foi assim com este governo, transformou
desde o início pessoas interessantes em factótuns da política bulldozer.) Mas em rigor não é o actual
ministro que deve ser culpado por o ensino não educar as crianças para as
artes, para a estética, para a literatura, para o pensamento crítico. O mal é
antigo. Na ausência de uma boa política institucional, as escolas foram
deixadas à livre iniciativa (o que só por si não é um mal e em muitos casos
teve resultados positivos) e essa ausência de enquadramento conduziu geralmente
ao voluntarismo. A ênfase passou em poucas décadas de levar acriticamente os
miúdos ao teatro, por exemplo, de os deixar enfiados e contrariados durante uma
hora numa plateia a ver o que quer que fosse, para a originalidade de os levar
directamente para o palco, ainda mais acriticamente e com frequência sem
qualquer relação com a sua vocação. Há hoje no país centenas ou milhares de
crianças que estiveram mais vezes num palco (calorosamente ovacionadas, e por
isso induzidas em erro, pela família e os amigos) do que numa plateia, e em
tantas das ocasiões em que estiveram na plateia estiveram a ver e a aplaudir sem
critério crianças como elas. O equívoco tem as suas raízes antigas no
pensamento muito esquerdista e igualitarista de que todos temos talento, todos
temos criatividade, todos temos um poeta ou um bailarino dentro de nós. Depois
foi continuado pela bigbrotheriana ideologia, ainda mais «democrática», de que
todos temos direito à fama, mesmo que não façamos absolutamente nada para a
merecer. A televisão, claro, contribui fortemente para isto, com as suas chuvas
de estrelas, os seus inesgotáveis programas de talentos, e, não raro, os seus shows para macaquinhos de imitação.
Como resultado desta soma de equívocos — nem todos conscientes ou
mal-intencionados, conceda-se — temos hoje grandes fragmentos geracionais que
não sabem distinguir o mérito, o talento, a criatividade, a originalidade. Que
não conhecem a história das artes nem têm com elas qualquer relação intelectual
ou de afecto. Que «detestam» figadalmente o que não conhecem (e é quase tudo) e
idolatram qualquer frivolidade que se pareça longinquamente com o «talento» e o
gosto promovido pelas TVs.
Há muitas excepções a este cenário miserável, mas o ensino não devia
viver apenas de iniciativas individuais (e difíceis, desprezadas) de
professores esclarecidos e esforçados.
As artes no ensino não são importantes porque, na tal perspectiva
laferiana, podem assegurar «casas cheias» no futuro (as estatísticas são outro
equívoco), não é esse o ponto. A formação artística que o ensino pode e deve
proporcionar não deve estar necessariamente focada em criar «públicos» (isso
será um resultado natural) nem em criar artistas (a vocação não se incute). Prioritárias
a isso tudo são a sensibilidade, o espírito crítico, a capacidade de
abstracção, a autonomia de pensamento e o conhecimento, para os quais as artes
são um veículo útil.
As artes não se fruem sem uma boa parte de individualidade, de
concentração, de existência intelectual própria e capaz de se alhear dentro de
si mesma pelo período de um andamento musical, de um monólogo, de uma sequência
coreográfica, de um capítulo de um livro. Infelizmente as escolas não favorecem
isto (que por natureza não é fácil) e o resultado é termos já hoje uma ou duas
gerações que não se imaginam fechadas numa sala por uma hora sem poder
conversar e gritar, sem trocar sms, sem fumar um cigarro ou beber um copo. As
salas de cinema renderam-se a esta forma de estar e a própria Hollywood produz
há muito filmes que não exigem atenção permanente ou perspicácia. Nos teatros,
os espectáculos de massas são geralmente as comédias, os musicais ou os
concertos, produções, que, se não dão para o cigarrito e a mini, sempre permitem
a interacção na plateia e com o telemóvel durante
as representações.
Post scriptum: O grande Filipe Melo diz-me que o mérito de ‘Deixem o pimba em paz’* é
de Bruno Nogueira, que teve a ideia e orientou os músicos na reinvenção do
repertório. E já que estamos numa de distribuir créditos, há que referir
também Nelson Cascais, multifacetado contrabaixista, e Manuela Azevedo, capaz
de ressuscitar músicas que na verdade nunca estiveram vivas e de nos emocionar
com a mais insípida ou parva das letras pimba.
terça-feira, 25 de março de 2014
JRS x JS - 2.º round
Entretanto percebi melhor qual o formato do programa (não vejo televisão, não sabia) e porque o desvio de JRS causou indignação. Ora bem, o facto de se tratar de um programa que procura saber a opinião de José Socrates não dispensa os jornalistas de fazer o seu trabalho. Errados estão todos os outros jornalistas que fazem de naperon ou de figurantes nos programas de Marcelo e afins. Se a ideia é que os tipos falem sem contraditório, o correcto seria pô-los sozinhos em frente à câmara. Os separadores de temas poderiam ser quadros de legendas, como nos filmes mudos, ou mão-de-obra requisitada à Elite Models, não gente com carteira de jornalista. JRS pode ter mostrado um excesso de zelo direitista (uma agenda pró-governamental), mas antes isso do que um daqueles cães que antigamente se punham nos carros e se limitavam a acenar com a cabeça. O papel do jornalismo é perguntar, questionar, confrontar, e não só quando isso nos agrada.
segunda-feira, 24 de março de 2014
JRS x JS
Vai para aí celeuma por causa da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Sócrates. Não gosto de nenhum dos dois. Vi a entrevista. Rodrigues dos Santos fez bem em confrontar Sócrates com afirmações suas do passado. É para isso que servem os jornalistas, não para pés de microfone. JRS fê-lo com particular prazer? Acho que sim, mas o que importa é a utilidade da coisa, e tinha-a. Em contrapartida, Sócrates fez o seu papel, alertando para os contextos. Não o achei particularmente irritado, ao contrário do que para aí também se diz. E acho que se saiu relativamente bem na sua argumentação. Há, de facto, contextos que convém não esquecer, embora a muitos desse jeito.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
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