Não costumo, senão por raros descuidos, trazer para o blogue assuntos profissionais. Não porque menospreze o que faço para ganhar a vida ou porque me dedique com ligeireza à profissão (por atavismo, não o saberia fazer mesmo que fosse açougueiro, au pair ou pintor de marinas), mas porque aprecio que não se contaminem mutuamente um emprego apesar de tudo (e dos anos) circunstancial e uma vocação mais antiga, idiossincrática e inelutável que em parte se cumpre justamente nesta plataforma online.
Esclareço já, todavia, para poupar entusiasmos e equívocos, que a vocação que se cumpre no blogue é agora sobretudo a do disparate gratuito. Uma consulta ao índice (e aos dicionários) revelará que o que se trata aqui — não por conveniência ou decisão mas como pura fatalidade — é de procrastinar, tergiversar. Escrever espontaneamente, sem fundamento (e sem honorários!) sobre qualquer coisa excepto a que importaria. Ténis é só o exemplo mais recente.
Invocar Bartleby é coisa pedante, mas algures dentro de mim habita um tipo que, perante as inquietações e as grandes questões do nosso tempo, que deveriam ser assunto neste blogue, e perante a tentativa do novo grande romance português, está permanentemente a dizer: «I would prefer not to». E lá sai, ao invés de reflexões ponderosas ou literatura original, mais um disparate sobre homens em calções e mulheres em minissaia atrás de bolas amarelas.
Mostrar mensagens com a etiqueta Ténis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ténis. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 24 de julho de 2020
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Ténis em Tempelhof
Depois do Adria Tour, que consagrou (e internou) Djokovid, também a Alemanha teve o seu torneio de exibição, jogado em duas partes e dois pisos: relva e asfalto. A primeira parte decorreu previsivelmente no relvado de Frau Steffi Graf e a segunda, após um mal entendido que ninguém quis desfazer, teve lugar num aeroporto. Poderia ter sido nos autódromos de Nürburgring ou Hockenheimring, mas alguém interpretou de forma ainda mais particular o conceito de «piso rápido» e a escolha acabou por ser Tempelhof (Tegel e Schönefeld não estavam disponíveis).
Os jogos decorreram num hangar, é certo, porque a Alemanha é bastante chuvosa mas não tão eficiente ou perdulária que pudesse cobrir um court na pista central (mesmo que desactivada) num prazo tão curto e por motivo tão efémero.
Tratando-se de um torneio em tempo de pandemia, condicionou-se o número de espectadores e o número de juízes de linha. Dos primeiros permitiram-se duas centenas no «estádio»; dos segundos, nenhum. O árbitro de cadeira foi coadjuvado por um sistema de karaoke ou de video game, não deu para perceber bem. Talvez houvesse nos bastidores juízes de linha sentados em frente a ecrãs, com camisas e chinelas havaianas, a gritar em off para o roufenho sistema de som do hangar, mas o mais provável, num tempo de distância social e inteligência artificial, é terem encarregado um computador desse serviço, deixando-o seleccionar vozes irritantes da Play Station para os brados de «out» e «fault».
O resultado foi que se criou num hangar de Berlim o ambiente tropical do Open da Austrália, com as vocalises técnicas a lembrarem a ruidosa fauna avícola de Melbourne (como se Hitchcock estivesse responsável por assinalar cada erro, forçado ou não forçado).
Se Nadal tivesse ido a Berlim, ficaria decerto incomodado com a banda sonora (evocativa do último Grand Slam perdido) e sobretudo com a provocante ideia de dispensarem os apanha-bolas de tratar das tolhas dos tenistas. Teria, em todo o caso, um avião à porta para sair sem dar satisfações a ninguém.
Os jogos decorreram num hangar, é certo, porque a Alemanha é bastante chuvosa mas não tão eficiente ou perdulária que pudesse cobrir um court na pista central (mesmo que desactivada) num prazo tão curto e por motivo tão efémero.
Tratando-se de um torneio em tempo de pandemia, condicionou-se o número de espectadores e o número de juízes de linha. Dos primeiros permitiram-se duas centenas no «estádio»; dos segundos, nenhum. O árbitro de cadeira foi coadjuvado por um sistema de karaoke ou de video game, não deu para perceber bem. Talvez houvesse nos bastidores juízes de linha sentados em frente a ecrãs, com camisas e chinelas havaianas, a gritar em off para o roufenho sistema de som do hangar, mas o mais provável, num tempo de distância social e inteligência artificial, é terem encarregado um computador desse serviço, deixando-o seleccionar vozes irritantes da Play Station para os brados de «out» e «fault».
O resultado foi que se criou num hangar de Berlim o ambiente tropical do Open da Austrália, com as vocalises técnicas a lembrarem a ruidosa fauna avícola de Melbourne (como se Hitchcock estivesse responsável por assinalar cada erro, forçado ou não forçado).
Se Nadal tivesse ido a Berlim, ficaria decerto incomodado com a banda sonora (evocativa do último Grand Slam perdido) e sobretudo com a provocante ideia de dispensarem os apanha-bolas de tratar das tolhas dos tenistas. Teria, em todo o caso, um avião à porta para sair sem dar satisfações a ninguém.
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Põe mais erva nisso
Nos últimos dias transmitiram-se pela primeira vez na temporada jogos em relva, ficando assim a Eurosport livre da acusação de preconceito anti-vegan. Contudo, o piso estava tão gasto, com tão pouca relva e tanta terra à vista na zona dos serviços, junto à linha, que, num leve despertar entre sets, suspeitei por instantes estar a ver futebol e estranhei, a bola, em primeiro lugar, mas sobretudo não se lançar o guarda-redes com as mãos ambas para a apanhar.
sábado, 11 de julho de 2020
Análise da final de 2019 do Open dos Estados Unidos
Ontem repetiram a final épica do Open dos Estados Unidos entre Nadal e Medvedev. Espreitei outra vez os pontos finais só para ver a raiva e o olhar maníaco de Nadal perante a possibilidade de perder o jogo, frente a um Medvedev quase zen, por comparação.
Quando vi pela primeira vez esta final já sabia o suficiente de ténis para perceber que não tinha um favorito. O que é raro. Geralmente torço pelo mais fraco, desde que mostre talento, empenho e seja gentil. (Quando joga Federer é por ele que torço sem hesitar, ainda mais nesta fase da carreira, em que já soma frequentemente aquela primeira condição às três habituais virtudes.)
Nadal é a opção óbvia dos comentadores e dos fãs quando se perguntam entre si quem é o favorito — logo, não é a minha. Também porque me incomoda o seu ar caprichoso, de vítima, de injustiçado quando as coisas não lhe correm bem, perplexo por a realidade nem sempre obedecer ao seu reinado, para o qual o treinaram como príncipe predestinado.
Medvedev é frequentemente ainda mais parvo, talvez porque não há muito que deixou de ser adolescente, mas naquela final de 2019, durante o tempo a que assisti, estava a portar-se com uma nobreza e um estoicismo comoventes. Juro que na primeira vez em que vi o jogo quase lhe dei o meu apoio.
Federer — que foi apanha-bolas, dizem-me, e talvez por isso —, é o mais aristocrata dos jogadores, não no sentido snob e glamoroso, mas na consciência serena da sua superioridade, que lhe permite distinguir-se pela cortesia e não se deixar perturbar por ocasionais infortúnios. Se fosse personagem de Proust, era um Guermantes, pelo lado da duquesa.
Ora, neste déjà vu, os meus olhos, não por tédio, focaram-se de novo nos apanha-bolas, na sua postura à beira do court. Lembraram-me os pedintes que vi pela primeira vez em Praga há mais de uma década, ajoelhados e inclinados para a frente, apoiando-se nos cotovelos com as mãos em prece ou estendidas no solo. Uma postura de desespero ou fervor religioso que visa comover ainda mais os transeuntes, tocá-los pela mostra de abnegação, pela dimensão espiritual.
Talvez os apanha-bolas nos Estados Unidos queiram demonstrar igual fervor no exercício da suas tarefas, dar provas de total entrega. Ou talvez tenha sido só uma ideia palerma da organização, assente numa qualquer noção errada de motricidade e aerodinâmica. Se o objectivo fosse ter os apanha-bolas prontos a saltar para o court como se impulsionados por mola que se solta, talvez pudessem ter-lhes dito que bastava ou melhor se adequava um só joelho no chão e lhes pudessem instalar uns blocos de partida como os que se colocam nas pistas dos sprinters. Assim, sem rigor técnico e com alusões místicas, sugerem, mesmo que apenas por nescidade, a subalternização, a servidão a que os moços e as moças devem sujeitar-se, quais criados de quarto, como referi no primeiro post desta série.
A rapidez dos apanha-bolas é importante para não interromper o ritmo do jogo, defende-se. Mas talvez, nesse caso, e para evitar más interpretações, devessem contratar galgos, e juntarem aos habituais gritos dos juízes de linha a vocalização «busca, busca». Havia mais vezes bolas novas, é provável, mas isso os jogadores se calhar até agradeciam.
De resto, a excessiva disponibilidade sugerida pela forma como se apresentam ou são apresentados os apanha-bolas pode levar à rudeza dos jogadores, como no célebre episódio de Fernando Verdasco, que pôs em debate a continuação dos apanha-bolas também como porta-toalhas (toalheiros vitesse, charriots de competição).
Aqui convém esclarecer que, quando Federer se manifestou contra a proposta de os apanha-bolas deixarem de entregar toalhas aos jogadores, não estava a ser snob ou desleal, mas a ser cortês — com Nadal. «A ideia de os apanha-bolas nos ajudarem com essa função da toalha», disse Federer, «é tornar o jogo mais rápido. Se eles deixarem de nos dar as toalhas vai perder-se muito tempo. Há jogadores que suam mais e assim vão perder mais tempo.» Ou seja, há jogadores que vão ter ainda mais penalizações nos serviços, não é Nadal?
Quando vi pela primeira vez esta final já sabia o suficiente de ténis para perceber que não tinha um favorito. O que é raro. Geralmente torço pelo mais fraco, desde que mostre talento, empenho e seja gentil. (Quando joga Federer é por ele que torço sem hesitar, ainda mais nesta fase da carreira, em que já soma frequentemente aquela primeira condição às três habituais virtudes.)
Nadal é a opção óbvia dos comentadores e dos fãs quando se perguntam entre si quem é o favorito — logo, não é a minha. Também porque me incomoda o seu ar caprichoso, de vítima, de injustiçado quando as coisas não lhe correm bem, perplexo por a realidade nem sempre obedecer ao seu reinado, para o qual o treinaram como príncipe predestinado.
Medvedev é frequentemente ainda mais parvo, talvez porque não há muito que deixou de ser adolescente, mas naquela final de 2019, durante o tempo a que assisti, estava a portar-se com uma nobreza e um estoicismo comoventes. Juro que na primeira vez em que vi o jogo quase lhe dei o meu apoio.
Federer — que foi apanha-bolas, dizem-me, e talvez por isso —, é o mais aristocrata dos jogadores, não no sentido snob e glamoroso, mas na consciência serena da sua superioridade, que lhe permite distinguir-se pela cortesia e não se deixar perturbar por ocasionais infortúnios. Se fosse personagem de Proust, era um Guermantes, pelo lado da duquesa.
Ora, neste déjà vu, os meus olhos, não por tédio, focaram-se de novo nos apanha-bolas, na sua postura à beira do court. Lembraram-me os pedintes que vi pela primeira vez em Praga há mais de uma década, ajoelhados e inclinados para a frente, apoiando-se nos cotovelos com as mãos em prece ou estendidas no solo. Uma postura de desespero ou fervor religioso que visa comover ainda mais os transeuntes, tocá-los pela mostra de abnegação, pela dimensão espiritual.
Talvez os apanha-bolas nos Estados Unidos queiram demonstrar igual fervor no exercício da suas tarefas, dar provas de total entrega. Ou talvez tenha sido só uma ideia palerma da organização, assente numa qualquer noção errada de motricidade e aerodinâmica. Se o objectivo fosse ter os apanha-bolas prontos a saltar para o court como se impulsionados por mola que se solta, talvez pudessem ter-lhes dito que bastava ou melhor se adequava um só joelho no chão e lhes pudessem instalar uns blocos de partida como os que se colocam nas pistas dos sprinters. Assim, sem rigor técnico e com alusões místicas, sugerem, mesmo que apenas por nescidade, a subalternização, a servidão a que os moços e as moças devem sujeitar-se, quais criados de quarto, como referi no primeiro post desta série.
A rapidez dos apanha-bolas é importante para não interromper o ritmo do jogo, defende-se. Mas talvez, nesse caso, e para evitar más interpretações, devessem contratar galgos, e juntarem aos habituais gritos dos juízes de linha a vocalização «busca, busca». Havia mais vezes bolas novas, é provável, mas isso os jogadores se calhar até agradeciam.
De resto, a excessiva disponibilidade sugerida pela forma como se apresentam ou são apresentados os apanha-bolas pode levar à rudeza dos jogadores, como no célebre episódio de Fernando Verdasco, que pôs em debate a continuação dos apanha-bolas também como porta-toalhas (toalheiros vitesse, charriots de competição).
Aqui convém esclarecer que, quando Federer se manifestou contra a proposta de os apanha-bolas deixarem de entregar toalhas aos jogadores, não estava a ser snob ou desleal, mas a ser cortês — com Nadal. «A ideia de os apanha-bolas nos ajudarem com essa função da toalha», disse Federer, «é tornar o jogo mais rápido. Se eles deixarem de nos dar as toalhas vai perder-se muito tempo. Há jogadores que suam mais e assim vão perder mais tempo.» Ou seja, há jogadores que vão ter ainda mais penalizações nos serviços, não é Nadal?
Proust: 10/07/1871
Se a pneumonia não tivesse dado cabo dele, Marcel Proust seria hoje uma curiosidade de feira com 149 anos. Tendo morrido quando lhe competia, ficou apenas como uma curiosidade literária: o tipo que escreveu 3.500 desnecessárias páginas. (Noto que teria garantido um lugar no Guiness em qualquer dos casos.)
Só reparei na data, atrasado, porque o excelente António Gregório a referiu no Coração Acordeão*. O mesmo António, autor de duas obras imperdíveis (O Condómino e Documentário), forneceu-me também uma capa para a temporada. As leitoras e os leitores entenderão que sob esta imagem se reúnem os três tópicos que mais me ocupam desde Março, mais casaco, menos casaco.
-----------
*https://antonio-gregorio.tumblr.com/
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Da nostalgia à alienação
Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)
-------
* Excepto para David Foster Wallace.
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)
-------
* Excepto para David Foster Wallace.
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Ténis e tontarias
Isto da pandemia tem as suas vantagens. Ao diminuir-nos as distracções fora de casa, aumenta as possibilidades de ler, escrever e desenvolver obsessões patetas. Noto que tenho cumprido com certo denodo estas três premissas: teimo no Proust, escrevi posts numa cadência que há muito não tinha — e boa parte deles foi uma abordagem insistente e tonta a algo que nunca me tinha interessado muito, o ténis.
Se alguém por hipótese improvável e insanidade temporária quiser ler o conjunto de enfiada, basta descer a coluna da direita e clicar na etiqueta «Ténis». (Não clique na etiqueta «Tontarias», porque lhe aparecem demasiados posts. «Tontarias» é, literalmente e por larga maioria, a etiqueta que mais classifica o que escrevo no blogue, não sei se por uma soma patológica de momentos de modéstia excessiva se por inescapável honestidade.)
Se alguém por hipótese improvável e insanidade temporária quiser ler o conjunto de enfiada, basta descer a coluna da direita e clicar na etiqueta «Ténis». (Não clique na etiqueta «Tontarias», porque lhe aparecem demasiados posts. «Tontarias» é, literalmente e por larga maioria, a etiqueta que mais classifica o que escrevo no blogue, não sei se por uma soma patológica de momentos de modéstia excessiva se por inescapável honestidade.)
domingo, 5 de julho de 2020
A persistente tradição de guardar bolas para o segundo serviço
A Eurosport e eu já estamos na fase de repetir jogos, pelo que chegou a altura de acabar com a Covid-19 ou, pronto, de adquirir direitos de retransmissão de outros torneios. Wimbledon, por exemplo, nunca aparece na grelha. Consequência do Brexit? Preconceito anti-vegan?
Seja como for, nesta altura já trocava uma partida do Grand Slam por um qualquer joguito não visto, nem que fosse do Estoril Open.
A fraca consolação de rever jogos reside no ensejo de repararmos (ainda mais) em aspectos não desportivos da modalidade, alguns bem intrigantes. O vestuário, por exemplo, é no ténis tema inesgotável. Podemos ter em relação a ele, particularmente o feminino — e consoante o espectro dos nossos interesses (ou o grau da nossa depravação) —, uma abordagem apenas curiosa, fashion geek ou voyeur. No limite da perversão, a julgar por algumas pesquisas no Google e tendências pornográficas dos anos 80, um jogo de ténis feminino pode corresponder, em termos de batimentos cardíacos do espectador, a um filme erótico.
Quando tentei perceber por que não é vulgar as tenistas usarem calções com bolsos — preocupado exclusivamente com aquilo que me parecia uma dificuldade: o armazenamento de bolas suplentes na hora do serviço —, deparei-me com explicações em várias línguas sobre a forma como os vestidos justos e as saias curtas permitem às mulheres manterem a sua feminilidade enquanto disputam torneios de milhões. A conquista suada de troféus e de cheques com muitos zeros parece, segundo algumas análises, coisa intrinsecamente vil e masculina, pelo que se uma senhora tem de condescender nesse desiderato deve, pelo menos, fingir que está na praia. Na praia dos glamorosos anos 50.
Não quero que este post pareça alinhar na sugestão de que são as mulheres, as mulheres tenistas, que mais se preocupam em erotizar a sua imagem enquanto dão pancadas na bola. Nem tenho, por outro lado, ao contrário de certas organizações e tradições do ténis, nenhum dress code ou moral a recomendar a ninguém (muito menos a pessoas que jamais lerão este blogue). Mas temo que a saia curta dominante, com folhos ou sem eles, seja um compromisso entre jogadoras, instituições e expectativas sociais, um compromisso para que, focando-se o mundo nas suas coxas, elas sejam deixadas em paz e concentradas apenas nos seus jogos. Porque sempre que alguma jogadora introduziu mudanças no outfit ou simplesmente tirou e voltou a vestir a sua t-shirt num canto do court (o que até mereceu aplauso entusiástico da, neste ponto igualitária, falange voyeur), levou, como há pouco Alize Cornet, com o dedo em riste da moral tenística.
Suspeito por isso que a tradição da minissaia no ténis, como a do decote nos trajes femininos dos séculos dezoito e dezanove, permite sobretudo aos cavalheiros fingirem-se — em simultâneo ou alternadamente, como convier — sensualistas e castos.
Considerando que a anatomia feminina não difere da masculina em tal grau que obrigue a formas diferentes de armazenar bolas suplementares, e considerando também que a não abolição do hábito de se guardarem bolas para o segundo serviço (quando os apanha-bolas se tornaram tão ágeis) não trai vício masculino, não seria expectável, dada a diversidade humana, ver-se mais marcas a desenhar calções femininos com bolsos — e homens a enfiarem bolas na lycra por baixo dos calções? Ou das minissaias?
Seja como for, nesta altura já trocava uma partida do Grand Slam por um qualquer joguito não visto, nem que fosse do Estoril Open.
A fraca consolação de rever jogos reside no ensejo de repararmos (ainda mais) em aspectos não desportivos da modalidade, alguns bem intrigantes. O vestuário, por exemplo, é no ténis tema inesgotável. Podemos ter em relação a ele, particularmente o feminino — e consoante o espectro dos nossos interesses (ou o grau da nossa depravação) —, uma abordagem apenas curiosa, fashion geek ou voyeur. No limite da perversão, a julgar por algumas pesquisas no Google e tendências pornográficas dos anos 80, um jogo de ténis feminino pode corresponder, em termos de batimentos cardíacos do espectador, a um filme erótico.
Quando tentei perceber por que não é vulgar as tenistas usarem calções com bolsos — preocupado exclusivamente com aquilo que me parecia uma dificuldade: o armazenamento de bolas suplentes na hora do serviço —, deparei-me com explicações em várias línguas sobre a forma como os vestidos justos e as saias curtas permitem às mulheres manterem a sua feminilidade enquanto disputam torneios de milhões. A conquista suada de troféus e de cheques com muitos zeros parece, segundo algumas análises, coisa intrinsecamente vil e masculina, pelo que se uma senhora tem de condescender nesse desiderato deve, pelo menos, fingir que está na praia. Na praia dos glamorosos anos 50.
Não quero que este post pareça alinhar na sugestão de que são as mulheres, as mulheres tenistas, que mais se preocupam em erotizar a sua imagem enquanto dão pancadas na bola. Nem tenho, por outro lado, ao contrário de certas organizações e tradições do ténis, nenhum dress code ou moral a recomendar a ninguém (muito menos a pessoas que jamais lerão este blogue). Mas temo que a saia curta dominante, com folhos ou sem eles, seja um compromisso entre jogadoras, instituições e expectativas sociais, um compromisso para que, focando-se o mundo nas suas coxas, elas sejam deixadas em paz e concentradas apenas nos seus jogos. Porque sempre que alguma jogadora introduziu mudanças no outfit ou simplesmente tirou e voltou a vestir a sua t-shirt num canto do court (o que até mereceu aplauso entusiástico da, neste ponto igualitária, falange voyeur), levou, como há pouco Alize Cornet, com o dedo em riste da moral tenística.
Suspeito por isso que a tradição da minissaia no ténis, como a do decote nos trajes femininos dos séculos dezoito e dezanove, permite sobretudo aos cavalheiros fingirem-se — em simultâneo ou alternadamente, como convier — sensualistas e castos.
Considerando que a anatomia feminina não difere da masculina em tal grau que obrigue a formas diferentes de armazenar bolas suplementares, e considerando também que a não abolição do hábito de se guardarem bolas para o segundo serviço (quando os apanha-bolas se tornaram tão ágeis) não trai vício masculino, não seria expectável, dada a diversidade humana, ver-se mais marcas a desenhar calções femininos com bolsos — e homens a enfiarem bolas na lycra por baixo dos calções? Ou das minissaias?
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Cocktails
Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.
sexta-feira, 26 de junho de 2020
Ténis: a jornada de ontem
A jornada de ontem, em Melbourne, incluiu um jogo entre Wawrinka e Zverev e outro com Nadal e Thiem. No primeiro, um Wawrinka a perder por 2 sets a 1 e em perigosa desvantagem no quarto set reserva ainda uma parte da sua energia para pedir desculpa a um apanha-bolas por lhe ter enviado deficientemente uma bola perdida e para, a meio da preparação de um serviço, responder com simpatia «it’s not gonna be easy…» ao público que lhe diz «you can do it».
No ténis, não há como não gostar dos suíços, mesmo quando perdem.
No seu jogo, Nadal irrita-se, como de costume, com uma advertência do árbitro por exceder o tempo do serviço, faz gestos e caretas à multidão que não se cala imediatamente quando vai servir e, ficamos de repente à espera, prepara-se para mandar vir com os pássaros que sobrevoam estridentemente o estádio.
No ténis, não há como não gostar dos suíços, mesmo quando perdem.
No seu jogo, Nadal irrita-se, como de costume, com uma advertência do árbitro por exceder o tempo do serviço, faz gestos e caretas à multidão que não se cala imediatamente quando vai servir e, ficamos de repente à espera, prepara-se para mandar vir com os pássaros que sobrevoam estridentemente o estádio.
(Vou agora ver o resto do jogo esperando que perca.)
Talvez para desanuviar o ambiente, ou para dar provas de uma atenção especial ao pormenor, o comentador desta partida faz erudita e inesperadamente notar que o DJ em funções é um verdadeiro patriota: só passa Men at Work, INXS, AC/DC e Bee Gees. (Fui ver, os Gibbs viveram parte dos anos sessenta na Austrália, quem diria.)
Talvez para desanuviar o ambiente, ou para dar provas de uma atenção especial ao pormenor, o comentador desta partida faz erudita e inesperadamente notar que o DJ em funções é um verdadeiro patriota: só passa Men at Work, INXS, AC/DC e Bee Gees. (Fui ver, os Gibbs viveram parte dos anos sessenta na Austrália, quem diria.)
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Os três tês de um prelúdio para a crise: ténis, tempo (perdido) e Titanic
Os meses de quarentena e desconfinamento, que afortunadamente, ao contrário de muitos, vivo como uma espécie de prelúdio para a crise, têm-me servido sobretudo para ler o Proust que com método vinha adiando para a reforma e para ver ténis como nunca imaginei ver desporto nenhum, acumulando quantidades insensatas de partidas, glossário e bisbilhotice temática.
Se sobreviver para resumir este período e este estado de espírito, talvez possa invocar retrospectivamente uma entrada de diário não escrita que imite, na sua aparente inconsciência ou indiferença, a de Kafka a 2 de Agosto de 1914: «Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar.»
Mas, na verdade, tendo em conta o ambiente glamoroso e festivo por onde se passeia o narrador da Recherche e em que disputam os jogos as maiores vedetas do ténis, o meu estado de espírito, não substancialmente diferente, é mais bem descrito como o de um passageiro do Titanic que, informado do iceberg mas resignado ao embate, procura não desperdiçar nenhuma dança e certamente nenhum cocktail.
De resto, o relato no diário, se o puder escrever ainda que postumamente, acabará por ser o mesmo. Porque, mais tarde, na falta de um deus ex-machina, o passageiro, do Titanic ou do Lusitânia (perdão, é forçoso distinguir as guerras: da Lusitânia), vai sem dúvida nadar. Isto na melhor das hipóteses. Ió.
-----------------
* Se preferirem uma versão menos sombria e houellebecquiana deste 2020, aproveitem a Mínima Luz e mantenham-se à tona com outros três tês, Três Tristes Tigres: https://youtu.be/XL4i9X0wC18
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Os tiques de Nadal
Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
domingo, 31 de maio de 2020
Ténis nostálgico (e perigoso)
As noitadas de ténis no Eurosport são agora dedicadas a finais históricas. Ontem jogavam, como pela primeira vez, Andre Agassi e Jim Courier. Ganharia este último.
Segundo o comentador de serviço, Agassi estava a correr mais na fase final «apesar do equipamento espampanante». («Mas não tão espampanante quanto o ano passado, em tons de rosa.») Deduzi que, se tivesse jogado de rosa, Agassi teria perdido por maior diferença. Ou teria corrido ainda mais, não sei, não sou especialista em ténis.
A imagem quadrada e de fraca qualidade da transmissão e o equipamento «espampanante» de Agassi, somado ao seu penteado, conseguia transportar-nos para a época, ressaca dos anos oitenta, e no final do jogo desiludiu que o canal não tivesse reposto o filme A Lagoa Azul, um dos desportos favoritos dos adolescentes de então, protagonizado pela que viria a ser brevemente mulher de Agassi.
Reparei, já não me lembrava, que o juiz de rede (é assim que se chama?) estava literalmente sentado junto à rede, inclinando-se sobre ela e tocando-a para melhor a sentir nos momentos dos serviços, como o rapaz carinhoso do filme Free Willy, lançado dois anos depois desta final.
Lembrando jogos mais recentes — certas raquetadas de Nadal, por exemplo —, temo que se o lugar do juiz de rede ainda fosse aquela cadeirinha à beira da carreira de tiro alguém tinha de lhe arranjar um capacete e um colete à prova de balas, para não ser vítima de fogo cruzado quando certos serviços ou pontos são defendidos com balázios de fora para dentro do campo, contornando a rede. De início pensei que essa função tinha justamente sido alterada com a primeira baixa — a segurança no desporto, como nas casas roubadas, costuma ser melhorada após os danos colaterais —, mas depois lembrei-me que é apenas mais um caso de máquinas a substituírem a força laboral humana. Se o capitalismo filmasse hoje o Free Willy, Jesse, o rapaz sensível, seria substituído, como o juiz de rede, por um sensor electrónico.
quinta-feira, 28 de maio de 2020
À luz antiga dos raios catóditos
As distopias em cinema sobre o fim (provisório, I must say) da humanidade partem muitas vezes da premissa de uma guerra ou acidente nucleares, um fim prático e bombástico. Mais silenciosos no início, mas igualmente frequentes, e mais tarde preenchidos de chinfrineira zombie são os filmes em que a humanidade é dizimada por vírus. Por isso acredito que nesta quarentena, entre melancólicas noitadas de ténis, à luz antiga dos raios catóditos, muita gente se tenha posto a questão de como seria o mundo se o novo vírus coroado limpasse a área sobrando apenas aquele ou aquela que punham ociosa, ansiosa, misantrópica ou esperançosamente a hipótese. A minha resposta a esta questão está dada há muito: na altura em que vi o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, perguntei-me se era mesmo necessário ter sobrevivido também o cão.
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)
terça-feira, 26 de maio de 2020
Mais ténis em noites de pandemia
Numa noite de pandemia que dediquemos ao ténis, como as que tenho dedicado, podemos, se não fomos antes assíduos na modalidade, assistir como se em vivo directo a jogos tão excitantes quando a histórica final de 2019 do Open dos Estados Unidos entre Nadal e Medvedev. Também podemos aprender, ouvindo os comentadores durante trocas de bolas mais aborrecidas, mesmo sem querermos saber e menos ainda visualizar, que Nadal teve até 2009 uma tara por calções compridos («à pirata»), que deixou de usar quando se sentiu demasiado adulto para isso, e que o tenista foi então diminuindo o tamanho dos calções até, felizmente, ter parado também esse ímpeto. Ou que Simona Halep se submeteu a certa altura a uma intervenção m-mamária para reduzir o volume de… das... Aqui sentimos o comentador à procura da palavra certa para usar cavalheirescamente em televisão, mas, como jogador já sem recursos ao final de três longos sets, a única coisa que lhe sai é um, digamos, balão (termo possivelmente ausente do glossário do ténis), e sabemos aí que a intervenção de Halep serviu para lhe reduzir o volume das… m-mamas.
quarta-feira, 13 de maio de 2020
A tennis tale
Nos meus serões hipnóticos de ténis (ainda faço alguns, sim) passei neste fim-de-semana pelo jogo em que Serena Williams achou mal as decisões do árbitro Carlos Ramos. No torneio verbal e comportamental que se seguiu, em que os serviços estiveram todos do lado dela e o árbitro se limitou a receber a bola na raquete, ripostando porém penalmente, vi eu, em absoluto embrenhado no meu Proust e ainda ponderando as questões sociais do post que antes dediquei à modalidade, uma metáfora das disputas na alta sociedade fin-de-siècle entre aristocracia e burguesia, ambas poderosas, mas com diferentes pedigree, meios e métodos.
Serena, que equiparei em novo delírio, pelos títulos acumulados, a velha condessa, indignou-se a certa altura, levemente, com a intromissão de alguém com um cargo sobretudo técnico — portanto burguês — nos seus affaires. De início foi apenas um arrufo de nobreza antiga, um abanar de leque para delimitar territórios, traçar linhas no court. Quando porém notou que o contabilista, alcandorando-se na sua alta cadeira em juiz moral, no fim de contas mantivera nos livros a falta que ela, ao penhorar a sua nobre palavra, achara ter já liquidado, fez o que teria feito qualquer duquesa no seu lugar: chamou-lhe ladrão (termo aliás de forte pendor técnico). Tendo o burguês insistido nas coimas, assim pondo a cobrança materialista própria da sua classe acima das etéreas prerrogativas do sangue, aconteceu a Williams o que aconteceria até à princesa ou ao príncipe mais bastardos: saltou-lhe a real tampa e daí em diante toda a indignação avulsa a que pudesse recorrer, de indicador em riste e lágrima de cristal pendente, seria uma boa indignação.
Um ano depois, já recomposta e de novo rainha dos seus pergaminhos, a tenista, palpando o tutu do traje de serviço, deitava água na fervura à boa maneira fidalga, com a adequada altivez que os assuntos materiais nos exigem: «Carlos Ramos? Não sei quem é.»
Serena, que equiparei em novo delírio, pelos títulos acumulados, a velha condessa, indignou-se a certa altura, levemente, com a intromissão de alguém com um cargo sobretudo técnico — portanto burguês — nos seus affaires. De início foi apenas um arrufo de nobreza antiga, um abanar de leque para delimitar territórios, traçar linhas no court. Quando porém notou que o contabilista, alcandorando-se na sua alta cadeira em juiz moral, no fim de contas mantivera nos livros a falta que ela, ao penhorar a sua nobre palavra, achara ter já liquidado, fez o que teria feito qualquer duquesa no seu lugar: chamou-lhe ladrão (termo aliás de forte pendor técnico). Tendo o burguês insistido nas coimas, assim pondo a cobrança materialista própria da sua classe acima das etéreas prerrogativas do sangue, aconteceu a Williams o que aconteceria até à princesa ou ao príncipe mais bastardos: saltou-lhe a real tampa e daí em diante toda a indignação avulsa a que pudesse recorrer, de indicador em riste e lágrima de cristal pendente, seria uma boa indignação.
Um ano depois, já recomposta e de novo rainha dos seus pergaminhos, a tenista, palpando o tutu do traje de serviço, deitava água na fervura à boa maneira fidalga, com a adequada altivez que os assuntos materiais nos exigem: «Carlos Ramos? Não sei quem é.»
domingo, 3 de maio de 2020
Ao serviço do ténis
[Pequeno ensaio sob hipnose]
Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.
Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.
Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.
A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.
A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.
No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.
-------------------------------
* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.
Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.
Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.
Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.
A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.
A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.
No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.
-------------------------------
* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
