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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

No supermercado

1. Limões
Veste de ganga e caminha apressada. De costas, tem o corpo e o ar de uma adolescente magra, desengonçada. Dirige-se sem desvios para a secção de frutas e hortaliças. A mercadoria que fica pelo caminho não a distrai, não sente o apelo consumista. Detém-se em frente à grade dos limões. Escolhe dois. Pousa o saco na balança e parece baralhada, não se entende com a máquina.  Vira-se para pedir ajuda — e então vemo-la, subitamente envelhecida, um rosto de anciã, desgastado, carcomido, com expressões no entanto quase juvenis. Uma impossibilidade na forma de pessoa, duas idades num mesmo corpo, num mesmo rosto. Demasiado nova para ser velha, demasiado degenerescente para continuar jovem. Feita a compra, retira-se com a mesma pressa e balanço de braços. Tem lá fora o cavalo à espera.

2. Careca
Traja com elegância irrepreensível. Careca precoce, escolheu rapar o cabelo na totalidade. O crânio é perfeito, sem uma mossa, um alto, uma ruga, um sinal. Adivinha-se uma suavidade de porcelana, embora quente. Com certa incidência da luz, dir-se-ia envernizado, tal o brilho, o aspecto de esmalte. Quando mais tarde entra no carro, reluzente na sua pintura metalizada, percebemos que trata de ambas as coisas, a careca e a chaparia, com esmero — e cera.

3. Sorriso
Tarde demais para travar na passadeira. Pede-se desculpa e o tipo devolve um ar carrancudo. Sujeito antipático. As voltas do destino (e do parque de estacionamento) põem-nos de novo em rota de colisão, mas agora com tempo para cedermos gentilmente a prioridade. Desta vez, recebemos de volta um sorriso generoso, encantador, carismático, desarmante. Uma punição pelo julgamento precipitado.
Contudo, a esposa, impaciente junto ao carro, chama-o — e volta o ar carrancudo, o sujeito desagradável que víramos antes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pena

De repente, fica suspensa da TV, o coração na boca. Apanhou a notícia no fim, e o olhar que deita ao aparelho, a um tempo intrigado e exasperado, denuncia a sua desorientação. Não tendo reposta às angústias, vira-se para os restantes comensais e indaga-os, coerciva, citando o que ainda pôde ouvir:
— Quem é que teve um «acidente aparatoso»?
— Simoncelli, motociclista, grande prémio da Malásia.
— Ah…
Descomprime. Não conhece a personagem. Simoncelli não será assunto amanhã no trabalho. Não é desta que haverá reedição do episódio Angélico. Depois do alerta, sobra no seu rosto um véu não de alívio, mas de desilusão.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Duas meninas

Talvez a mais velha tivesse confessado o sonho de ser modelo ou actriz de novelas, porventura as duas profissões mais ambicionadas pelas adolescentes de hoje. A mais nova, criança, responde-lhe, passando-lhe vagamente as mãos pelas partes do corpo que menciona: «Para isso vais ter te livrar dos espigos no cabelo, fazer dieta, ir para o ginásio, aumentar os peitos, tirar esse sinal e manter as unhas todas do mesmo tamanho». A última observação provoca-lhe uma risadinha irónica pela farpa que incluiu.
Apesar da linguagem, do conhecimento da matéria, da aparente intimidade com os detalhes que ocupam as candidatas a “estrelas”, a mais nova estava-se claramente nas tintas para o tema. Não parecia desinteressar-se pelos sonhos da irmã adolescente (ou prima, ou amiga), não era isso. Apenas a sua solidariedade, a sua cumplicidade não ia ao ponto de valorizar assim tanto o que quer que exigisse tais esmeros.
Se fosse a mais velha a falar sobre os anseios da menina (bonecas, desenhos animados, amigos imaginários, brincadeiras, corridas ao ar livre), o tom não seria mais paternalista, condescendente, duma cumplicidade carinhosa e interessada mas não totalmente empenhada.
Assistiu-se a uma inversão. As questões da beleza feminina foram naquele momento reduzidas a caprichos infantis, anelos transitórios a que a idade tira importância. A mais nova das meninas mostrava, sem a impor, a sua maturidade. Não se importava de dedicar algum tempo a um assunto pueril, mas simultaneamente percebia-se (ela deixou claro, aliás) que tinha coisas mais importantes de que se ocupar, como por exemplo correr a embrenhar-se mais no parque para aproveitar o bom tempo extra que foi concedido ao país. «O Verão não vai durar sempre!»
No entanto, como sabemos que com a idade não vem necessariamente mais juízo, é possível que daqui a um par de anos também esta menina só se preocupe ao espelho com o aspecto do cabelo e corte sempre as unhas no tamanho que as revistas aconselham. Nessa altura, um Verão que entra pelo Outono não fará parte do estreito leque de coisas que maravilham.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

National Geographic

Nalgumas terras de Portugal é costume colocar-se garrafões de água junto às portas das casas porque, crê-se, isso demove os cães de ali urinar. Contudo, não parece que tal artifício seja um inibidor eficaz para outro animal que tem por hábito mijar as portas das casas: o adolescente noctívago.
Certos bairros das cidades são, à noite, uma espécie de reserva de vida selvagem. Locais onde depois do crepúsculo se suspende a civilização, se quebra o fraco verniz que à luz do sol faz com que todos, até estes jovens, pareçam polidos. O adolescente durante o dia reconhece e sabe a que se destina a cerâmica lacada com que se mobilam as casas de banho. O mesmo lhe acontece quando iluminado pelas lâmpadas de halogéneo ou fluorescentes da sua própria casa. Mas, lançado na penumbra das ruas, o seu lado selvagem vem ao de cima, sente o apelo da natureza com uma urgência inelutável, mormente se o apelo vem das entranhas. É como se nele a bexiga se localize junto ao cérebro e, quando inchada, comprima os lóbulos ou os segmentos de massa encefálica responsáveis pela inteligência, já de si um pouco espalmados.
O adolescente é mais ávido do que um cão a marcar território, mas igualmente fascinado pelo cheiro dos seus semelhantes. Suscitado pela necessidade de se aliviar, tenderá a escolher o local inapropriado onde outros tenham feito o mesmo. Enquanto verte o seu fluído sobre o dos seus antecessores, dilatam-se-lhe as narinas num exercício de taxonomia química ou numa fruição hedonista (ainda não há uma ciência exacta sobre isto).
Porém, verifica-se um desacerto entre estes adolescentes ou jovens* e outros seres, que compartilham com eles o espaço, mas não o tempo. Quando a madrugada surge e os últimos espécimes nocturnos se recolhem à cama como vampiros exauridos ao caixão, há um ritual que se repete: baldes de água são lançados sobre as soleiras, mangueiras são apontadas às lajes dos alpendres, impropérios são dirigidos aos céus. O raiar do dia é a charneira entre estes dois mundos que convivem menos bem do que o carácter quotidiano dos rituais diria. É certo que os noctâmbulos mal dão pela existência dos seus simétricos diurnos: quando os não ignoram, desconsideram-nos, não imaginam que importância lhes hão-de dar. Mas os habitantes da parte solar sentem demasiado intensamente a existência dos outros, identificam melhor do que gostariam o seu rasto de amoníaco, vítimas que são de órgãos olfactivos excessivamente sensíveis.
A convivência pacífica é assim uma aparência, a letargia de um vulcão. Enquanto usam sonambulamente a esfregona, os que se levantam quando o Sol nasce amaldiçoam os deuses por terem dotado os adolescentes de tão fraco discernimento e tão possante jorro. No seu desespero, pedem aos céus a vingança de um mal de próstata ou o favor dos ventos: que o arco dos cretinos lhes não poupe os pés. Enquanto não são agraciados, sonham por exemplo com instalar sistemas de electrochoques accionados por jacto fisiológico. Infelizmente, não contribuem para a alegria do mundo — não concretizam a instalação.

* O comportamento também é verificável em espécimes adultos menos desenvolvidos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A inescapável influência dos signos

Para disfarçar, dizia não acreditar nas previsões do horóscopo que vinham nas revistas, não era «assim tão estúpida». Mas via-se forçada a admitir que havia «sem dúvida muito de acertado» no carácter que o zodíaco atribuía aos nativos de cada signo. Era impossível não identificar a persistência nos Touro, a instabilidade nos Gémeos, o equilíbrio nos Balança, a preguiça nos Caranguejo. E, de qualquer modo, «mal não fazia», ler o horóscopo semanalmente, o que na verdade a ocupava desde muito nova.
Quando a mãe já velhinha teve coragem para lhe revelar que a registaram meses depois do nascimento (25 de Agosto em vez de 20 de Novembro), começou por ficar um pouco desnorteada, abalada nas suas certezas. Sentiu-se envelhecer em segundos os nove meses que tinha a mais. Depois foi tomada por um ressentimento feroz contra a mãe. Não exactamente pela ocultação da verdadeira data de aniversário, mas porque percebia agora que não precisava de ter acatado tão servilmente as suas absurdas exigências de arrumação. Não era afinal uma Virgem, não precisava de ter sido tão colaborante e sofrido uma adolescência orientada para a perfeição. Olhou o rosto da mãe e, para vencer, o rancor, entreteve-se a fazer contas, repassando mentalmente o calendário. Quando chegou a Novembro, censurou-se por, Escorpião que de facto era, nunca ter desconfiado de nada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Passadeiras

Atravessar uma passadeira não é só o modo correcto e (eventualmente) mais seguro de cruzar uma rua. É também uma forma de exposição, uma submissão aos olhares críticos dos automobilistas, ao seu escrutínio indiscreto.

Em certa óptica, uma passadeira é uma passerelle, com a diferença de que nesta só desfila quem o deseja, muitas vezes concretizando um sonho de vida. Na passadeira, o que os tímidos ambicionam é ser invisíveis, porque receiam os longos segundos em que o olhar dos condutores pousa sobre eles, avaliando, procurando os defeitos, as excentricidades, tudo aquilo que lhes permita (aos automobilistas) desdenhar para si mesmos do peão que os fez usar os travões.

Enquanto os inseguros sempre que podem escolhem uma pausa no fluxo de veículos — não raro aguardando a uma distância que não traia a intenção de atravessar, ou, se descobertos, concedendo prioridade aos carros com um gesto de falsa indulgência com a pressa alheia —, outro género de pessoas aprecia a sensação de fazer parar o trânsito. Os seguros de si revelam-se até ousados, por vezes temerários. Põem o pé na estrada num confronto claro, num desafio aos condutores — ou às leis da inércia e do atrito, em certas alturas. A devassa dos olhares alheios não os incomoda, sentem-na como uma carícia, gostam de ser apreciados.

Uma estatística que incluísse elementos psicológicos das vítimas diria que os tímidos são mais propensos a atropelamentos na passadeira: não têm uma aura que desperte os olhares, que convide os automobilistas a pararem para observar. São, ironicamente (quando não fatalmente), mais invisíveis do que julgam ser.

Por outro lado, os extravagantes, ou sobretudo as mulheres vistosas, num mundo que tudo escrutinasse e anotasse figurariam nos relatórios das companhias de seguros como “causa” vulgar de batidas pela retaguarda. Alguns automobilistas, na sua exposição à seguradora, diriam, sem mentir totalmente, que foram forçados a parar. Mas seria fraco álibi: o perito sagaz que quisesse poupar despesas à sua empresa escreveria um parecer de moralidade irrefutável: «O segurado deve assumir a culpa no sinistro, já que a sua paragem na passadeira não se deveu ao respeito pelas regras (e pelo peão) mas a um impulso de macho voyeurista que não soube reprimir como lhe competia.»

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um par de cabeças garrafas vazias

Na esplanada, como se a avisar que o bom tempo não é para levar demasiado a sério, sopra uma súbita rajada de vento. Da mesa de duas mulheres caem duas garrafas de plástico. Elas ficam a vê-las rebolar. Não têm um gesto instintivo para deter a queda, não se levantam depois. Viram sem sobressalto as cabeças e ficam, estáticas, a observar o percurso imprevisível das garrafas até o atrito vencer a inércia. Não mexem ou pestanejam. Dir-se-ia que calculam, ou aguardam para ver, o sítio exacto onde se hão-de dirigir para as apanhar. As garrafas detêm-se. As duas mulheres voltam-se uma para a outra e recomeçam a conversa onde a tinham interrompido. Aquele hiato não serviu afinal para traçarem a rota mais directa para as garrafas, a forma mais cómoda e discreta de as apanharem.

O tempo suspendeu-se ali na esplanada. Tudo esteve de alguma forma pendente da trajectória seguida pelas garrafas de água. Não saberemos que pensamentos as mulheres tiveram. Talvez tenham avaliado a sua amizade ou tomado decisões sobre certos aspectos das suas vidas. Não é crível que, como o tempo, se tenha também suspendido o fluxo de consciência delas e a única coisa a acontecer no mundo, registada pelos olhos mas não pelo cérebro, tenha sido um par de garrafas a rolarem vazias e sem objectivo pelo passeio de cimento.

O vento incidiu de determinada forma e com energia potencialmente mensurável. Podemos considerar que houve uma relação directa entre o trajecto e o tempo que as garrafas demoraram a deter-se e aos pensamentos que tiveram lugar? Se houve conclusões, poderão elas ter sido influenciadas por aquela rajada de vento? Seriam outras se as garrafas tivessem descrito outro percurso, rolado mais ou menos algumas vezes?

Quase certo é que o inverso não se verificou. O olhar das mulheres não influenciou o movimento das garrafas, a não ser que queiramos dar crédito à telecinética. Caso o tivesse feito, caso elas tivessem decidido onde e quando paravam as garrafas, tinha sido uma intervenção inconsequente: não aconteceu nada depois disso.

Na verdade, nem tudo foi mistério ali na esplanada. Sabemos que a pausa das mulheres não representou uma tentativa frustrada de vencer a preguiça ou a indiferença. Sabemos também que elas não gastaram aqueles segundos com a metafísica do civismo, a ponderar quanta solidariedade lhes merecia o empregado de mesa. Ou então foi exactamente isso que fizeram — e concluíram que o pobre não lhes merecia nenhuma solidariedade. Tinha mais era de apanhar o lixo delas, ora essa.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

No videoclube I

Com frequência talvez patológica, mas também com um certo desespero probabilístico, o artilheiro arrisca escolher filmes de aspecto e sinopse mais do que duvidosos. Em certos dias maus apetece um pouco de aventura, um thriller, suspense, ficção científica. E os períodos de crise económica têm muito dias maus. O organismo reage à depressão convocando o adolescente que ficou cá dentro, como um alter-ego, como o super-ego que combate o mal.

Um filme é uma porta aberta para um outro mundo. Ou deveria ser. Na esmagadora maioria dos casos, um filme é uma porta aberta para um território que já visitámos, para um lugar-comum, é um déjà vu, um plágio, em suma.

Está errada a ideia de que um argumentista é um criador. Não é. Ocupa na actualidade o lugar que os monges copistas ocupavam na Idade Média. Ei-los ali, pachorrentos, alinhados num claustro, a copiarem pacientemente o modelo que lhes foi facultado, com melhor ou pior letra, consoante a habilidade de cada um (quase sempre escassa — são pouco mais do que ignorantes, iluminados apenas por uma vela, ou uma tocha).

Talvez os argumentistas, inspirados um dia pela obra, seja ela qual for, tenham achado que era sua função propagá-la, como os seus ancestrais faziam com a Bíblia. Não se trata, afinal, de conceber produtos originais, de trazer novidade ao mundo, estimular a imaginação dos clientes dos clubes de vídeo, ou dos assinantes da TV Cabo, do Meo. Trata-se de proselitismo. A obra revelou-se aos argumentistas e eles querem que nos convertamos a ela. À força.

Ou talvez não seja nada disto. Talvez as companhias cinematográficas tenham feito estudos de mercado. Avaliado as capacidades mentais do espectador médio, do cidadão médio, bitola por que o mundo se rege — e se dana. Como pode comprovar qualquer pessoa que já tenha ido a um cinema popular, o espectador médio perante um filme novo, com argumento original, perde-se, não consegue seguir a história, aborrece-se, fica como um boi a olhar para um palácio. O boi quer erva igual e abundante, um pasto a perder de vista com milhões de pezinhos de erva replicando-se exactamente uns aos outros. Porque haveria o espectador médio de ser diferente? Porque haveria de desejar mais do que a enésima repetição do mesmo argumento?

Daí que as novas gerações de argumentistas já não frequentem cursos de escrita criativa. Vestem hábitos de serapilheira e passam temporadas em mosteiros a aprimorar as iluminuras.

No videoclube II

Casal, por volta dos trinta. Ambos arejados, bem-dispostos. Entram com à-vontade na secção porno. Talvez em busca de um estímulo extra para o serão. Devem diverti-los as possibilidades de escolha porque cá fora ouvem-se com frequência gargalhadas. Também se ouve quando ela diz: «Esse não, um que tenha alguma história.»

São, afinal, como os casais que vasculham secções, digamos, mais ordinárias (banais, pronto). Acção, policial, terror, suspense, drama, ficção histórica, ficção científica, comédia, pornografia, you name it: eles apenas e sempre interessados na acção — elas a reclamar um pouco de narrativa.

(O mesmo perante os cartazes do cinema. O mesmo perante a vida. O cromossoma y não determina apenas o sexo: determina igualmente o lugar na escala evolutiva.)

Fast forward

No tempo da minha adolescência, eram os rapazes que associavam narrativa a pornografia. Não todos. Aqueles educados no pudor ou na vergonha das coisas do sexo. No pânico dos adultos. Se tínhamos de falar da nossa “vida sexual”, corávamos e dizíamos: sim, gostamos de pornografia, mas com história. Como se, para o caso de aquilo chegar aos ouvidos dos adultos, deixássemos implícita a indignação: somos por acaso alguns animais, coelhos? Éramos, claro. Ou desejávamos ser. Urgentemente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Terras pequenas

O fenómeno repete-se de norte a sul. Há terras que se rejeitam a si próprias. Terras que se desprezam por serem pequenas, por serem peculiares. Que se envergonham de estarem onde estão e passam o tempo a olhar para lá das colinas, para os subúrbios da cidade. Que não querem ser acolhedoras ou simpáticas ou bonitas ou ter qualidade de vida. Terras que apenas querem ser grandes e indistintas. Terras que não querem ser amadas por quem esteja disposto a isso.

O forasteiro chega sinceramente disposto a gostar da terra. Percorre a paisagem em volta e apenas repara onde ela é bonita, como um convidado educado. Nas ruelas, ignora os atentados urbanísticos, os edifícios incaracterísticos, devolutos, as ruínas sem história. Só lhe interessam esta fachada, aquela varanda, a inesperada beleza de um portal, a rua inteligentemente preservada, quando ela existe. Os seus olhos filtram a feiura, programados para descobrirem o que a terra tem de melhor.

A memória do forasteiro está habitualmente solidária com o seu desejo de se encantar. É uma memória amestrada e grata, apenas pretende coisas boas para o portador. Se não houver percalços, se a terra se deixar abraçar e desfrutar com prazer, como os gatos quando se lhes passa a mão pelo dorso, o forasteiro ficará rendido e a sua memória escolherá as imagens para guardar como quem selecciona as melhores fotografias, as que vai de certeza desejar-se ver mais tarde. Uma terra assim será sempre uma localidade bonita e simpática. Recomendada. A que apetece voltar. Onde apetece viver.

Mas se a terra não fizer a sua parte, se não acrescentar algo de imaterial aos seus dotes, o forasteiro experiente não volta — sabe que a beleza passiva desmorona à segunda visita. Nenhum olhar é virgem duas vezes. No segundo momento, o feio insinua-se — e vence, se a terra não tiver outras armas, outras formas de seduzir. Sobretudo se, conquistado pela natureza, pela pedra, pela cal, pela arquitectura, pela história, o forasteiro não for embalado do mesmo modo pelas gentes da terra.

São as gentes que tornam as terras feias, não a pobreza, não a distância, não a natureza agreste. São as gentes que desfazem o encanto das terras pequenas; elas por si só, entregues ao tempo e à erosão, mantêm-se encantadas, por vezes reforçam o encantamento na proporção inversa dos telhados abaulados, das paredes que caem. O forasteiro não diz que ruínas tão feias, mas é natural que às vezes lhe sai-a com um suspiro que terra tão mal habitada. As ruínas permitem-nos imaginar vidas diferentes de outrora, povos amáveis, empreendedores, comunidades acolhedoras, em paz com a sua terra natal, a darem o melhor dos seus braços e da sua inteligência por ela, mesmo que depois um destino ingrato lhes troque as voltas. Uma terra habitada não pode disfarçar a sua hostilidade, a sua inércia, a sua amargura, a sua auto-complacência, a sua vontade de ir embora. Uma terra habitada vai ser cada vez mais deserta se não aprender a ver-se pelos olhos dos forasteiros. A tomar os forasteiros como os seus próprios olhos, os olhos da terra. Um forasteiro é um vizinho em devir — ou alguém que inconscientemente decide não voltar para não quebrar o encantamento que lhe ficou de algum momento em que as ruas estavam desertas de gente.

Terras pequenas II

Os habitantes de certas terras pequenas gastam o seu tempo de vida a suspirar pela grande cidade. Por vezes sabem que jamais se mudarão para a grande cidade. Alguns até suspeitam que há algo de bom em morar numa terra pequena, falta só um clique para o bom ser perfeito. Mas, no seu complexo auto-sustentado de morador em terra pequena, acreditam que o clique em falta só está ao alcance dos moradores em cidade grande.

Então o cidadão entedia, ressente, projecta no exterior, no forasteiro, as suas frustrações. Não cuida do que a terra tem de bom. Não alimenta o seu amor pela terra (embora alimente o seu bairrismo). Deixa de acreditar na terra. Deixa de acreditar em si, ele que já acreditava tão pouco.

Este tipo de morador de terra pequena não imagina que a sua profissão pode ser um contributo para a qualidade de vida da terra. Trabalha por necessidade, o menos possível, aborrecido, de trombas. Fica à espera de um forasteiro que possa hostilizar. É nisto que ele se realiza; aqui encontra algum ânimo. Alguém que visita a terra ou que nela vem viver pela primeira vez tem de deixar às portas da povoação toda a veleidade, como às do Inferno se deixa a esperança.

São os regulamentos da terra, que o forasteiro desconhece, mas cuja aplicação, por mais desactualizados que estejam, por mais absurdos que sejam, se torna de repente essencial. O próprio morador não percebe a utilidade do regulamento, a sua finalidade, provavelmente não o leu nem o cumpre, mas sabe que existe, sempre foi assim e assim será. Quem está mal muda-se — mesmo que tenha acabado de se mudar.

As instituições e as repartições da terra, geridos com enfado e parados no tempo, são barreiras que se levantam contra o forasteiro. Não há cá disso, vão avisando mal dispostos os mangas-de-alpaca da terra sempre que o forasteiro pretende determinado documento ou serviço ou informação. Isso pode ser algo que a Constituição da República consagra, algo que a repartição em causa está obrigada a fazer, algo que é trivial noutras paragens. Mas não aqui. Aqui é uma terra pequena, desgraçada, não temos tempo nem meios para nos actualizarmos, talvez não tenhamos mesmo todas faculdades humanas quiçá mentais necessárias aos tempos modernos, coitados de nós. Se queria modernices, comodidades, ficasse lá pelo sítio de onde veio. Quem lhe pediu para vir? Que raio de ideia foi a sua? A terra está a desertificar não há gente para fazer as coisas. Como? Que estou cá eu para fazer este serviço que foi o que me pediu? O que quer dizer com isso?

Depois os funcionários das repartições e os gerentes das instituições ficam sentados lado a lado no alpendre ao pôr-do-sol a ver o forasteiro arrastar as malas pelo pó, a regressar pisando as suas próprias pegadas, ainda frescas. Lá vai o esquisito, dizem entre gargalhadas que se perdem no vazio da paisagem. Estes tipos de fora é só manias. A noite cai, as gentes recolhem-se, não tarda as ruas ficam desertas. Alguns moradores passam na tasca a confirmar como a terra está sem vida, sem ânimo, já não há parceiros para a bisca lambida, e vão para casa, afundam-se no sofá, em frente à televisão, a imaginar o que será viver na cidade.
De manhã o galo canta e o censo conta menos umas almas.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Horóscopo

A senhora chega afogueada ao supermercado e sem mais demoras ataca o escaparate das revistas. Escolhe uma, segura. Não a folheia com diletância, a ver como vai o mundo cor-de-rosa. Tem um objectivo. E conhecimento. Hábito. Urgência. Molha o indicador e, em três ou quatro movimentos, chega onde quer. Antes de ler, respira fundo, preparando-se para a sentença.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os homens — cenas da vida matrimonial

1. A linguagem
A maneira como um homem se refere aos trabalhos que faz em casa define a sua relação com o conceito de igualdade de géneros. Se disser que «ajuda» a companheira, mesmo que de facto ajude muito e tenha nisso sincero orgulho, chumbou o teste. A linguagem trai. O homem equânime não ajuda — faz a sua parte, o que é necessário, o que se impõe; age de moto próprio num sistema sem privilégios nem subordinações.

A emancipação das mulheres é imensamente mais difícil e demorada, mas, para um mundo mais justo, o homem também precisa de se emancipar. Desde logo de uma cultura que deixa no seu subconsciente falsas prerrogativas de superioridade. Que lhe formata o pensamento fazendo-o achar que o seu desempenho na cozinha ou com os filhos é ajuda — quando não favor ou piedade.

2. Happy end
Na mesa ao lado, alguns casais partilham entre si a sobremesa e, com o resto da sala, a vida íntima. A morena avisa, ainda com ar jovial, que está cheia do comportamento dos homens. Só têm tempo para os amigos, nunca para a casa ou a família. Se calha de virem cedo, é para se deixarem cair no sofá, anunciado exaustão ou dores de cabeça. Ajudar (a morena não é totalmente emancipada, embora neste momento pareça a um passo de o estar) nas lidas domésticas, não é com eles, que, marrados na TV, exibem a expressão de quem não tem força para erguer os membros. Nenhum dos cinco. (No subtexto do rol de queixas da morena parece incluir-se a não consumação do matrimónio.)
As duas louras e a ruiva concordam, com acenos e monossílabos enfáticos, fornecendo o apoio de que a morena sente falta. De vez em quando dão os seus próprios exemplos. Os homens, pelo seu lado, tentam brincar, obstar, boicotar. Inesperadamente, cruzam os braços, entregam-se à evidência, esperam que o tempo (e aquela conversa) passe.
A voz da morena sobe de tom, as faces coram-lhe, parece querer pôr-se de pé na cadeira. Em crescendo, manda calar o homem, adiciona pormenores cada vez mais elucidativos, dá ao seu aviso inicial ares de ultimato. O que começou como um cliché, considerações genéricas, conversa gasta de encontro de casais, transformou-se — por força da própria retórica, do apoio do lado feminino da mesa e talvez do vinho — numa espécie de pré-anúncio de divórcio unilateral.
O resto da sala, pendente, troca olhares. Prepara-se para ouvir a morena informar o marido de que a partir de hoje e até haver decisão judicial dorme no sofá. Mas ela faz uma pausa, bebe um golo de água e, com um sorriso apaziguador, diz para o marido: «Bem, hoje deixo-te pagar a conta.»
O resto da sala pousa os talheres — quer de volta o dinheiro dos bilhetes.

3. Dores de cabeça
No drama do fastio matrimonial, se não se sabia antes sabe-se agora, as dores de cabeça não são um argumento exclusivamente feminino.