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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O meu Groundhog Day

No filme Groundhog Day (O Feitiço do Tempo), o protagonista vive todos os dias o mesmo dia, com os acontecimentos a repetirem-se sem alterações.
No meu percurso diário para o trabalho, que, quando beneficio da sorte de ter tempo, segue um traçado invariável e reiterado, há também repetições, pessoas com quem me cruzo nos mesmos lugares (uma delas cortou o bigode mas não mudou mais nada), as mesmas infracções de trânsito (com diferentes protagonistas mas nos sítios habituais) e o mesmo deslumbramento ao atravessar o parque (apesar da vaga ameaça outonal agora a insinuar-se no alongar das sombras).
Há variações de episódios sobre o mesmo cenário, variações que só o são na cadência diária, já que repetem tendências e vícios humanos intemporais e por isso não alteram o feitiço do tempo. Num dia, o restolhar das folhas para lá da sebe deixa de ser o dos melros ou dos gaios para denunciar um clássico voyeur, dos que adoptam a camuflagem e o método de David Attenborough, mas para espiar através da vegetação casais de namorados em plena urgência erótica. No dia seguinte, no mesmo local, é resgatado da folhagem contra a sua vontade um idoso que se tresmalhara do resto dos utentes do lar, ali em passeio, por vício logo censurado de querer estar sozinho. Ao terceiro dia, o que a folhagem mal oculta é uma vulgar e não muito preocupada transacção de estupefacientes, entre seres que se confundem no exotismo com criaturas mitológicas do parque. Há o tímido casal homoerótico de adolescentes a aprender tácticas de camuflagem social e noutro dia rapazes em cálculos de balística que procuram a bola pontapeada demasiado alto. Há a criançada de bonés uniformizados em correria de ATL e, num sábado, os noivos ataviados que posam bucólicos para o álbum em progresso.

No meu Groundhog Day, desfilo quotidianamente por ali em passo lento, amando a minha rotina e com um certo carinho distante pela humanidade. Não sinto o impulso de alterar nada ou de intervir, excepto quando, no regresso à noite, um ouriço-cacheiro faz a sua aparição na mesma álea e sinto então o dever de o admoestar pela insensatez de se expor assim no palco da comédia humana e o conduzo com gestos ternos de regresso ao matagal.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Território sagrado

Considerando que sou geneticamente (digamos assim, porque o advérbio se ajusta à semântica) alérgico a bairrismos e nacionalismos, desde cedo agradeço aos deuses do panteão terem-me dotado de uma timidez suficiente como alibi para escusa de comportamentos tribais. Estou porém, com a idade, sentimentalista que chegue para percorrer o bairro onde nasci e cresci com o mesmo ar de filho pródigo de regresso ao lar. Peregrino em lugar sagrado, os meus movimentos incorporam-se numa clássica coreografia de veneração. Deambulo com a mesma nostalgia dos exilados saudosos do berço, parando diante dos marcos físicos e territoriais da identidade comunitária com o mesmo ar de quem pondera os sucessos e insucessos do clã, de quem se preocupa com a herança ou os destinos da estirpe. Essas contas não estão no meu rosário, mas quando piso aquele chão noto, como os meus conterrâneos migrados, deserto o bairro que nunca teve porém tantas e tão habitáveis casas. Pessoas migram, pessoas morrem, pessoas adoecem e mudam-se para lares ou domicílios distantes de familiares há muito ausentes. Dir-se-ia que os que vêm construir novas moradias decidem não habitar nelas demasiado tempo, como se o território estivesse assombrado, fosse um velho cemitério indígena. E, considerando a multidão de fantasmas com que me cruzo na ausência de pessoas, é bem provável que em certas noites ou dias de nevoeiro se infiltre pelas frinchas que sempre têm as casas, mesmo as novas, um miasma que só aos habitantes originais não perturbará.
Ao contrário dos meus co-nostálgicos, raramente regresso ao bairro munido de máquina fotográfica, e nunca de uma de filmar. Sei o suficiente dos mecanismos da memória para reconhecer a utilidade do registo em pixéis de edifícios que em breve se sumirão, mas a minha visita procura menos a recolha de dados para ruminação futura, em natais no exílio ou jantares de conterrâneos, do que o êxtase do momento em si. A Internet, esse repositório babélico da humanidade, tem já suficiente espólio para exercícios mediúnicos afastados no espaço e no tempo, mas há ainda na visita física odores, sons, formas e texturas mais eficazes a descarregar e dispor a memorabilia. De resto, é o conjunto dos signos, a combinação dos elementos que permite a verdadeira experiência do regresso. Nenhuma fotografia ou filme permitirá uma imersão tão profunda no território sagrado quanto a dos sentidos excitados por uma brisa que agita ramagem das mesmas árvores e pêlos da mesma epiderme, a nossa, que coexistiram há trinta anos como agora.
Por isso volto e percorro o velho bairro como se degustasse a proustina madalena, mas menos para me candidatar ao Nobel do que para me encher de melancolia. É isso que o regresso me causa. Uma experiência emocional que, na aparência de uma tristeza provocada pela perda, pela saudade, me deixa, na verdade inebriado de indefinido, de mistério, de insondável. Não é o território físico ou o território histórico que me fazem regressar ao bairro, mas aqueloutro território sobretudo impalpável da infância e da adolescência, o território da inocência, da inconsciência, das encruzilhadas, das possibilidades, das emoções matriciais, dos múltiplos e imperscrutáveis eus.
Olhando o céu estrelado de Dezembro, enregelado logo ainda vivo, tirando o mesmo paradoxal prazer do frio e da taciturnidade, penso que as minhas deambulações pelo bairro são uma mistura de Tarkovsky e Melancholia, uma cinematografia interior de ponderação do tempo sob a ameaça do seu fim.
Depois penso que há menos riscos num jogo de sudoku.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Montes ígneos

Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar, víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais) na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória, simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio. Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível. Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O tee do 17

Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17 anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u) intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo — me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do lado de dentro.

E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo, tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na encosta do monte. Refiro-me ao tee dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de subir para a first shot, talvez por em Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem, felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos. Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.

P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Abduzido pela música

A música, como a literatura, transporta-nos. É um velho cliché e, como tantos velhos clichés, uma verdade. Mas em alguns momentos da minha vida a música foi para mim menos Ambrósio e mais Mr. Scott, não tanto por o meu imaginário permanecer intergaláctico mas porque a deslocação promovida pela música era do género teletransporte, sugava-me a alma e materializava-a através de um feixe numa realidade paralela. Só assim se compreende, por exemplo, que certa noite na alta adolescência eu subisse a rua e em vez de torcer o nariz ao rádio que a Maria da Luz sintonizara em volume de arraial no passeio desse por mim a dançar a “Billie Jean”, do Michael Jackson. É certo que tinha andado a tentar aprender a linha de baixo da canção, mas geralmente mantinha na intimidade esse tipo de desvio de personalidade. Era Verão e havia possivelmente lua cheia, mas não me lembro de nenhuma visão que quase me parasse o coração (caso contrário teria dançado o “Thriller”). Aquilo era abdução pura, um metafísico tabefe gaulês que de mim só deixava as sandálias em modo moonwalk no passeio. Era eu por interposta pop a convidar o Álvaro de Campos sensacionista que havia em mim a calçar os meus sapatos (sim, felizmente também me acontecia a ouvir Depeche Mode, mesmo antes de eles terem gravado a canção). Depois a música acabava — depressa demais, como sempre acontece com a pop/rock (que saudades tinha do Barroco) — e lá ficava eu aturdido a sacudir o pó da roupa como se tivesse acabado de fazer a Route 66 ou de acompanhar Bento de Góis na primeira viagem europeia terrestre da Índia para a China (e toda a gente sabe como ficamos cheios de pó se vamos a pé da Índia para a China). 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A necessidade de flanar

Algumas ruas aqui em volta fazem-me por estes dias lembrar Roma, a caminho do Trastevere. Nada nas ruas sem Tibre nem classicismo desta cidade se parece a Roma, excepto as coloridas folhas de plátano coladas ao chão pela chuva. Mas é de Roma que me lembro ao contemplar o que o Outono fez às folhas. O que me teria sucedido de interessante ali, se descontarmos estar desobrigado de horários e compromissos?
O caminhar à noite pela margem esquerda do rio, indagando abstraidamente a corrente rápida e acastanhada, o cruzar a Ponte Fabricio com vaga e preguiçosa curiosidade estética e histórica não estavam balizados por nenhum prazo ou ânsia, não tinham nenhum objectivo que não fosse descobrir algures, sem urgência, uma taberna simpática com preços módicos. E percebo que é isso o que de importante me aconteceu em Roma. Isso, essa suspensão do tempo, do trabalho, da existência social mesmo que misantropa, esse interlúdio da vida quotidiana que deambular por uma cidade estrangeira pode significar.
Há um prazer, uma leveza, um sentimento de eternidade quando se vagueia por uma cidade sem pressa nem destino nem desejos nem gente conhecida. Não é talvez de Roma que me lembro, mas de flanar por uma cidade atapetada de folhas no fim do Outono. Não é de Roma que tenho saudades (que patético seria reclamar-me saudoso de uma capital de fim-de-semana), mas daquela versão de mim que não tinha agenda.

Descubro que sou, por aspiração (e julgo que natureza íntima), uma espécie de flâneur. Um flâneur rústico, pelo menos provinciano, mas um flâneur. Fui-o quando saía de fim-de-semana da tropa e tinha de queimar horas entre estações de Lisboa ou do Porto. Fui, então, um flâneur do Cais do Sodré a Santa Apolónia, de S. Bento a Campanhã, fazendo grandes desvios pré-baudelerianos (no sentido de inconscientes de si), preferindo calcorrear horas a fio as cidades do que passar o tempo de espera em bancos frios e sujos de apeadeiro ou em cafés para cuja cerveja não tinha dinheiro. Fui um flâneur à maneira torguiana (figura que, contudo, me não desperta interesse), pisando em todas as oportunidades o saibro dos caminhos e escalando as rochas dos montes. Fui, a espaços, com certa pretensão walterbenjaminiana, digamos, um flâneur à medida das pequenas terras onde vivi ou procurando erguer-me ao tamanho de algumas das que visitava.

Mas só hoje, ao regressar a casa e aos deveres, ao olhar com nostalgia este tapete de folhas nesta terra que não é Roma, percebo mais intensamente que a felicidade talvez seja não aceitar na vida mais do que solas de sapatos e bilhetes low cost.

Algo que na verdade já devia ter intuído quando em Bruxelas me pus, não sem embaraço, — como aqueles fãs que vão a Paris visitar o túmulo de Jim Morrison — à procura dos sítios por onde andou o narrador flanante de Cidade Aberta, de Teju Cole. Não era uma emulação ou uma excentricidade constrangedora das que por vezes me assolam — era uma acusação e um apelo dirigidos a mim mesmo. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Coisas que não anoto no moleskine (2): em Mainz

Recordo assim de repente Mainz como cidade irmã de outras imaginadas onde o adro fronteiro à gare se reveste de uma anarquia lânguida, vagamente ameaçadora ou repulsiva. Bandos esfarrapados de punks, com as suas repas coloridas e hirtas, chocalhavam quando ali desembarcámos correntes de forçados e constituíam uma pequena multidão de rebeldes ociosos, espalhados no lajeado cinzento e sujo como focas gordas ou tartarugas trazidas pela maré com o lixo a uma praia vulcânica. Sentados ou recostados como romanos em orgia, bebiam e derramavam as suas cervejas enquanto lançavam por rotina insultos aos passageiros que, como nós, ziguezaguevam por entre eles na direcção da paragem de táxis ou dos meandros do centro urbano. Não é um bom cartão-de-visita de uma cidade, mas suponho que ninguém se dá ao trabalho de ir até à Alemanha para acabar a apear-se do comboio em Mainz. O acampamento punk não se monta quotidianamente ali para assediar turistas, creio, mas para chocar os concidadãos burgueses e devotos do trabalho que usam o comboio nas suas idas e vindas diárias para Frankfurt ou para localidades próximas. De resto, a cidade, que até tem os seus encantos, não precisa da estética punk para enjoar os visitantes: tem a cozinha, com salsichas sensaboronas e puré de bata avinagrado, que se serve com um apfelwein menos entusiasmante do que um Fruto Real que tivesse sobrevivido aos anos 80 e decidíssemos por estultícia arriscar beber hoje.

Se contudo o viajante se dá, como nós, ao trabalho de ir até Alemanha para acabar a apear-se no comboio em Mainz, não adianta ir fazer perguntas ao estabelecimento tuga a dois passos da estação: ali deixam de falar português quando descobrem que os entendemos. A alternativa é acreditar no casal simpático que nos aborda mais tarde, vestido para ir ao teatro num fim de dia de Agosto, e que garante ter um quarto vago, se no fim da peça ainda andarmos pelas ruas de mapa na mão e falhos de abrigo. Em Mainz fica-se então a olhar para estoutro cartão-de-visita, um pequeno rectângulo de papel que assegura serem os elementos do casal cientistas numa universidade próxima, e, enquanto se continua a busca por hotel barato, entreolham-se os viajantes perguntando-se se há alemães calorosos ou se um currículo universitário distinto é atributo que os teutões julgam necessitar para seduzir swingers meridionais. Como entretanto escurece de vez naquela parte da cidade com arquitectura vagamente pré-Segunda Guerra Mundial, e como se levanta uma brisa de inquietação e preconceito, os viajantes deixam de se sentir lisonjeados com a ideia de assédio intelectualizado e passam a interrogar-se academicamente o quão sedutor poderia ser Norman Bates para copycats germânicos. A imagem hitchcockiana de uma faca no duche diverte os viajantes — e leva-os a optar por subir um bocadinho a quantia que estão dispostos a despender por um quarto em Mainz. Alojam-se naquele hotel que era antes bom de mais para portugueses temporariamente sem bússola mas permanentemente sem dinheiro, trocando uma aventura literária por um pequeno luxo capaz de aliviar o corpo e a alma. No moleskine anotei o preço do hotel.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Coisas que não anoto no moleskine

Dificilmente poderia viver com a humidade tropical, mas com a chuva e a monção sim. No Vietname usei o tempo todo uma echarpe feminina enrolada e empapada no pescoço e arrastava-me pelo território como um alucinado no deserto, seguro de que se parasse desfalecia ali mesmo. O meu caminhar era como o de alpinistas a 8 mil metros de altitude sem forças, oxigénio e discernimento, mas com aquela motivação ou obsessão prévias que lhes concedem um caminhar de autómato, pondo lenta e lunarmente um pé após o outro, mais como estertores em slow motion de morto do que passadas voluntárias de vivo. Era assim eu naquela latitude, a deslocar-me em linhas rectas entre duas sombras em vez de vaguear turisticamente pela paisagem; a olhar as coisas pitorescas pelo canto do olho enquanto elas iam desfilando a meu lado como noutra dimensão, sem nunca me deter para apreciar pormenores ou comentar particularidades; anunciando com desespero homicida na voz que se parasse para fazer fotos ou me desviasse do caminho da sombra fosse por que razão turístico-imperiosa fosse seria um português suado morto, e não um ocidental vivo enriquecido pela viagem. Descobri que nos trópicos tenho espírito de mula atrelada à nora: caminho porque tenho de caminhar, remoendo pensamentos asininos, obstinados, sem nexo nem finalidade, incapaz de parar depois de me pôr em marcha e impedido pelo jugo tropical de gestos de revolta, de qualquer gesto, aliás, que não seja descolar um pouco a t-shirt do corpo. Mudava de trajectória de vez em quando, é verdade que mudava, se a companhia me reorientava os passos segurando-me pelos ombros como se faz a um bebé ou ao tal autómato com pilhas Duracell e uma versão muito beta de GPS. Por vezes também chocava com postes e paredes, e conseguia inflectir ou contornar o obstáculo com a mesma destreza convulsiva das sondas robóticas em Marte. As primeiras e mais primitivas, que se atolavam à terceira tentativa — não sem o alívio que devem sentir os moribundos finalmente autorizados a fenecer.
Mas é da chuva que queria falar, não de como viro zombie em atmosferas de 30 ou mais graus e 100% de humidade.
Já fui feliz à chuva no Inverno, fazendo jogging ensopado como um náufrago escocês emerso do Loch Ness (e portanto com razões para correr), fazendo trekking com botas encharcadas que emitem barulhinhos ora constrangedores ora estupidamente cómicos como dobragens de filmes porno (mas não suficientemente sugestivos para um escroto alojado em boxers impregnados de chuva e frio), e, se recuar um pouco mais na biografia, também já fui feliz no Inverno chegando como um pito a casa vindo da escola com os pés enfiados em sacos plásticos dentro dos sapatos e pronto para café com leite, torradas, luz de velas e livros de Júlio Verne.
Gosto de apanhar molhas, como se vê, mas como não sou um masoquista indefectível, as minhas melhores molhas são as de Verão. Chuva quente é a minha ideia de Paraíso. Debaixo de borrascas estivais tenho reminiscências do Éden, como se cada cromossoma do meu ADN estremecesse de um prazer herdado de quando a humanidade tinha guelras e dava as primeiras braçadas no aquaworld primordial. Debaixo da chuva de Verão, de virilhas ensopadas, sinto-me feliz, purificado e nu como Adão e Eva. (Não duvidemos que estas figuras bíblicas existiram, só que, ao contrário do que pensa a religião, eram batráquios ou girinos sem nada pudendo a esconder.)
Mas se invoquei o tema chuva foi porque hoje me lembrei, não sei bem porquê, que uma das vezes em que fui feliz estava encharcado até aos ossos na Alemanha. Não encharcado e tremelicante como trabalhador meridional na suja neve teutónica, mas encharcado e esfusiante como vagamundo munido de moleskine e optimismo. Tínhamos descido do castelo de Stahleck, transformado em pousada da juventude e sobranceiro à pitoresca aldeia de Bacharach, por sua vez ancorada à margem do Reno. O Reno é ali o Douro da Alemanha, com os seus curiosos vinhedos de bardos perpendiculares às curvas de nível, mas inebria um pouco mais. Não porque os seus famosos brancos tenham mais teor de álcool, mas porque as suas paisagens urbanas têm menor teor de mau gosto. Fosse como fosse, talvez viéssemos um pouco tocados de Stahleck — tínhamos bebido um copo ou dois enquanto assistíamos a um ensaio da banda da juventude ali hospedada e não nos pareceu loucura caminhar os três ou quatro quilómetros para montante (até ao ancoradouro de onde partia o barco que fazia a travessia para a estação na margem oposta a tempo de apanharmos o nosso comboio para Coblença), mesmo que a chuva começasse a cair com intensidade e os nossos impermeáveis tivessem sido comprados na loja dos chineses que ficava no rés-do-chão do meu prédio em Portugal. Subimos o Reno encharcados e eu feliz, de calções e a chinelar como se a Alemanha ficasse abaixo do Trópico de Câncer, indiferente à distância e à chuva. Recordo-me que fiquei ligeiramente aborrecido quando parou de chover e o barco partiu a horas e vi que o nosso plano se iria cumprir, o que era bom, mas já não, o que era mau, sob uma chuva que aspergia como se os deuses, de luvas e galochas no seu jardim, se entretivessem a irrigar a felicidade dos homens.
Depois disso, fui então feliz à chuva nos arredores de Hué, viajando na traseira de uma motoreta e agarrado ao meu oriental como Leonardo DiCaprio a Kate Winslet (só que ele, o meu oriental, felizmente não largava as mãos do guiador para abrir os braços à proa e era eu quem tirava os chinelos dos apoios e levantava as pernas como se estivesse a vogar cinematicamente num Titanic meridional). Nessa tarde tínhamos ido ver templos funerários e no caminho de regresso havia ao longo da estrada telas de artistas plásticos, uma exposição de arte contemporânea a céu aberto que se afogava por uma hora ou duas e depois secava num instantinho, como tudo ali secava num instantinho excepto o meu suor.
Mais tarde fui ainda feliz à chuva em Roma, a correr para o metro acima da Piazza di Spagna e a ter tempo de achar afinal pequena e banal a Via dei Condotti que o guia dizia ser «a busy and fashionable street».
Em Paris não choveu, e eu que levava um kispo novo à espera de o estrear com o mesmo ânimo pueril e inconfessável de quando, adolescente, vesti em Agosto um kispo em segunda mão — herdado de um primo afastado e a cheirar a essências que não eram o sabão rosa lá de casa —, pela primeira (e última) vez impaciente pelo Inverno, só porque tinha caído uma chuvita de Verão antes da missa.

Levava também, em Paris, o moleskine que me foi oferecido como ferramenta de escritor mas que uso apenas para anotar despesas e coisas práticas.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Deserção à hora do chá*

«Os escritores ingleses são todos snobs
«Pois eu queria ser um escritor inglês. Nem precisava, aliás, ser escritor. Inglês snob era suficiente. Ou apenas snob. Um snob convicto, sem escrúpulos nem clemência, em vez de português suave com filtro. Da próxima vez que der por mim com rosadas pretensões tugas, faço-me um ultimato britânico, juro. Antes a cor do sangue que o apelo do sangue, if you know what I mean


* Diálogo de uma novela por escrever.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Considerações sobre o bacalhau

Nunca, na minha vida civil, estou preparado para um aperto de mão. Quando se vive uma existência ensimesmada, o exuberante comércio social que é o aperto de mão surge inesperadamente, de súbito, como uma bala no campo de batalha (nunca estamos preparados para uma bala, nem num campo de batalha, há toneladas de bibliografia a asseverá-lo).
Resulta que a extremidade que estendo em reacção a um cumprimento, mesmo quando o faço de bom-grado, se apresenta geralmente frouxa, é apertada sem chegar a apertar. Nos melhores momentos, naqueles em que não dou choques eléctricos e consigo tempo para invocar o conceito de aperto de mão, estalam-me as falanges e os ossos do pulso no exercício de tentar que o destreinado conjunto se configure na posição correcta. Num ápice a minha mão direita é esmagada sem oposição (quando do outro lado está um culturista ou um operário) ou humilhada (quando acomodada num cumprimento competente, franco). Conheço pessoas assim, cujos bacalhaus me embaraçam, pela assertividade férrea ou pela afabilidade uterina com que acolhem os meus metacarpos. E invejo-as, sobretudo as segundas. Sim, invejo as afáveis. Um cumprimento triturador pode ser involuntário (num madeireiro habituado ao machado), mas é frequentemente exibicionista, uma pueril forma de cotejamento, não raro uma pré-declaração de guerra. Pelo contrário, um aperto de mão afável, acomodatício, ergonómico, envolvente e restaurador como uma massagem é gesto de quem vive em estado de graça. Ou é como a ironia em quem a sabe usar. Um gesto de verdadeira superioridade.
Ah, não ser um desses que levitam enquanto dão apertos de mão; dar mais cinco como quem unge Lázaro ou administra a extrema-unção. Ah, não ter sido bafejado com uma anatomia sociável, mãos como berços em vez de apêndices desajeitados, misantropos. Antes mãos de tesoura — e podia ganhar sossegadamente a vida a podar sebes. Afinal, ninguém estranha a soturnidade num jardineiro.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo

No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:

«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*

Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência, mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo inteligente».

Descontada a boutade pateta, há decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas. A Europa devia lembrar-se.  

* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Janela

A casa onde vivi a infância só tinha uma janela pequena para a rua. Era ali que às vezes nos juntávamos quatro ou cinco dos irmãos, alguns empoleirados numa cadeira, para observar o mundo e as estrelas. No Verão havia o fascínio dos incêndios na serra em frente, e de Inverno o exame minucioso das mesmas encostas à procura de auspícios de neve. Era uma janela paciente, estava disponível se era dia de aborrecer a olhar a cortina de chuva ou se descia a banda numa manhã de Agosto em peditório para a festa. Desenhávamos-lhe nos vidros, à noite, no vapor da respiração ou na geada de Dezembro, caveiras sorridentes cujo efeito dramatizávamos apagando a luz do quarto e deixando que o candeeiro da rua as retroiluminasse e projectasse na parede ou no soalho.
Em certa ocasião, ainda os satélites não tinham rotas que cruzassem o bairro, julgámos detectar movimento numa luz celeste. Já sabíamos distinguir pelo bruxulear estrelas de planetas, mas aquele discretíssimo avançar no firmamento era algo diferente; podia ser, porque não?, um ovni. Mas era um ovni tão lento e circunspecto que apenas sabíamos que se movia aferindo ao longo da noite a distância à linha de cume da serra. Não porque perdêssemos a paciência, mas porque havia outros afazeres, revezávamo-nos na vigilância, e quem regressava ao posto depois de ter ido à cozinha percebia melhor do que os outros o avanço da nave alienígena. Estava claramente mais distante da serra depois de cada ausência.
Hoje é difícil acreditar que coubessem naquela janela tão pequena — além das estações do ano e da fenomenologia meteoro-teratológica, além das grandes tempestades e dos monstros mais assustadores — excitantes visitantes de Vénus com a sua sofisticada tecnologia. Mas cabiam. A revolução coperniciana só tinha roubado movimento ao Sol e a mais nenhum corpo celeste, incluindo os que não identificávamos. Nenhuma lei da física nos impedia de sonhar, e a exiguidade de uma janela não tornava pequena a ambição.
Se agora não conseguimos conceber como se ajustavam e fervilhavam ali tantas cabeças não é porque a janela tenha minguado, é apenas porque as nossas cabeças cresceram na razão inversa da nossa imaginação.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Pensando bem

Pensando bem, o meu problema nunca foi a permanente hesitação entre Bowie e Morrissey (para falar de uma delas). O meu problema foi optar sempre por Araújo, esse inconseguimento.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tirania e despotismo

De que serve ter-se arquitectado dois posts e um trabalho académico se ao pôr-se o sol na varanda a sensação é a de que se perdeu um dia de vida? Pelo menos um dia de Primavera, desses raros ensolarados e amenos. Não, a literatura só é útil quando podemos dela desfrutar encostados a uma árvore ou rocha, respirando o ar puro dos montes nordestinos ou da falsa planície alentejana, ouvindo o murmúrio de um ribeiro ou o incessante restolhar de uma cascata, a conversa cíclica da beira-mar. É-se escritor de Inverno, por necessidade, ausência de sol e alternativas. Mas o que se deseja é o Verão interminável e a possibilidade de se ser apenas leitor. Tirania é ter de trabalhar seja de que forma for quando chega Maio. E despotismo é que depois de Setembro nos imponham Outubro e os meses tenebrosos.

terça-feira, 15 de abril de 2014

GPS

Os movimentos parecem indicar tratar-se de mais um yogi, dos que por vezes aparecem no parque, mas a orientação precisa e constante, aquela maneira de encarar um ponto (para mim) indefinido a sudeste, revela outra intenção, outra atitude. Num primeiro impulso, com certa presunção de geógrafo ou de nativo íntimo do curso do Sol em Trás-os-Montes, estou tentando a corrigir-lhe a direcção do olhar, o azimute para onde aponta o rosto. Mas depois reconheço que preciso de consultar outra vez o mapa para localizar Meca, que, na verdade, eu próprio nos últimos tempos ignoro o norte.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gel, mães e filhos (2)

Como a mãe do post anterior, talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do bairro onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado. Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou — mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento se tenha usado gel. Ou por causa disso.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Comportamentos desviantes

Reconhecemos uma alma gémea quando alguém que entra no shopping, depois de puxar para si a grande porta envidraçada, volta a fechá-la e de novo a abre apenas para confirmar que, sim, a porta faz um barulho cómico, humanóide, que apetece ouvir outra vez. Depois da breve pausa na frivolidade do mundo, ele entra e eu saio, sorrindo ambos de portas que adoptam comportamentos desviantes.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Aparências

1.
São meia dúzia em volta da mesa de pedra junto ao rio. Geralmente a mesa é usada, em tardes de furo ou gazeta escolar, para umas festas de álcool, para enrolar e partilhar uns charros. Os grupos exclusivamente femininos são talvez menos frequentes, mas lá está a atitude semiclandestina, lá estão os risinhos langorosos e cúmplices, os corpos dobrados em tenda conspirativa sobre o centro da mesa. E no entanto, quando se abre um pouco a corola de adolescentes primaveris, o que aparece a ser transaccionado ali no meio é um banal frasco de verniz de unhas, como num cliché da Ragazza.

2.
O rapaz vem de praticar desporto, calções, t-shirt suada, cabelos molhados, sweatshirt atirada sobre um ombro. As três raparigas aproximam-se entre embaraçadas e conspirativas, com segredinhos e empurrando-se umas às outras. Cortejam-no. De saia ou vestidos coquetes, alguma pintura no rosto, parecem saídas da mesma edição da Ragazza atrás referida. Ou de um quadro mais antigo, de um que tenha fixado a óleo uma tarde bucólica no parque. Porém a oralidade trá-las de volta ao futuro. Tendo talvez sido contrariada, uma delas abandona a discrição, a corte vintage, e dispara à colega um sonoro «vai-te foder, caralho», que o rio devolve em eco. O rapaz não parece sentir que se tenha desfeito o encanto, continua a atrasar o passo e a controlar a distância e os risinhos pelo canto do olho.

3.
Pequeno gangue, vêm subindo a rua. Cortes de cabelo, roupas, calçado, balanço do corpo, tudo de acordo com o modelo rebelde sem causa, vulgo arruaceiro. Param de súbito a conversar animadamente, ruidosamente, belicamente, ocupando metade da via de trânsito e todo o passeio. Os carros ultrapassam-nos em pequeno e conformado slalom. Os peões contornam-nos por fora, como vítimas de bullying fugindo à palmada nas costas. A descer a rua, avanço a direito com a inércia e uma vaga intenção de reivindicar o meu direito a um vector no passeio. Estendo o braço para abrir alas e o distraído rapaz à minha frente estremece de susto, como se acabasse de ser abordado por um assaltante. Desvia-se, cordial, e eu continuo caminho, a rir-me do ridículo. Do meu ridículo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Notas de viagem

Não sendo, nem em sonhos, um viajante imparável, tenho ainda assim no cadastro um número simpático de milhas aéreas e muitos quilómetros de alcatrão peninsular.
E contudo são insuficientes. Não me arrependo da eventualidade de ter vivido nos últimos anos acima das minhas possibilidades, mas arrependo-me (um pouco retoricamente, concedo) de não ter tentado poupar para estourar em mais viagens.
Até há um mês arrependia-me também de não ter levado um Moleskine nas expedições que fiz. Achava que as notas me seriam úteis nos posts e livros que ambicionava escrever.
Estava errado. As viagens são úteis — as notas não.
Em primeiro lugar, o mesmo carácter pudendo que me impede de sociabilizar com facilidade inibe-me de escrever sobre as minhas viagens. Pelo menos de escrever textos especificamente sobre as viagens.
O único Moleskine que tive (e tenho) foi-me oferecido há mais de três anos e tem três quartos das páginas intactas. Recentemente levei-o para Paris, mas foi inútil. Em nenhum momento dos dias que entretanto passaram senti qualquer vontade (ou senti o à-vontade) de o abrir para escrever fosse que género de texto fosse.
Em todo o caso, não seria de muita utilidade: apontei escassas observações e mesmo essas me parecem fúteis.
Na verdade, o que aproveito literariamente das viagens não surge por invocação e não poderia ficaria registado no período em que acontece. A identificação (e gradação) da importância das coisas é um exercício posterior. É mais tarde, por vezes bastante mais tarde — e involuntariamente, quase inconscientemente —, que as experiências das viagens surgem e se revelam úteis.
É como a vida: não sabemos que parte dela pode mais tarde ser romanceada, caso contrário vivê-la-íamos como uma ficção vigiada e seria portanto depois inverosímil, inutilizável, falsa, rebuscada, artificial, sem proveito. Não é durante a viagem que detecto o material literário (ou apenas com interesse narrativo): ele atropela-me um dia, no jogging, na caixa do supermercado, no trânsito, no duche. E então, sim, deveria correr para o Moleskine, para que à noite, iluminado pelo ecrã, não perdesse nada da ideia.

Creio que as notas tomadas durante uma viagem me seriam úteis se as pudesse tomar em modo inspirado, se pudesse viajar como um paciente Cézanne em frente a uma paisagem. Infelizmente, as minhas excursões são demasiado curtas (orçamento oblige) para que me possa dar ao luxo de agir como um escritor em viagem, sorvendo demoradamente. A única coisa que posso fazer — e isso é mais útil do que notas — é manter olhos e ouvidos bem abertos o tempo todo. Passar pelos sítios e pelas pessoas como um aspirador diligente, com grande poder de sucção. Um Hoover topo de gama ao serviço do detalhe e das sensações. E depois confiar na memória, esse departamento de arquivo e síntese de fábulas do cérebro humano.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Regressar a casa

(clique)

Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros (como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados, regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a pretender que Os Idiotas se traduza para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha cartografia geográfica.

Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro, mas por ter criado o Bairro Amélia a partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada, naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.

Se me encomendassem (como aliás deviam) uma monografia sobre Pedras Salgadas, a “rainha das termas”, temo que seria desonesto da minha parte aceitar o serviço. É que não há uma correspondência absoluta entre aquele pedaço de território e o que eu frequento nas minhas visitas à terra. Por vezes julgo, ao passear no parque, que me passeio entre fantasmas, tal a quantidade de imagens e silhuetas que cada recanto, cada edifício, cada árvore espoleta. Mas depois de pensar no assunto, descubro, como no filme The others, que o fantasma sou eu. Não precisava de haver nevoeiro como havia para que o meu vulto no crepúsculo de hoje fosse espectral, deambulando solitário por entre o que resta ali de passado e o que se construiu de futuro. O hóspede de uma das eco houses que veio fumar para o alpendre não deu pela minha presença na vereda senão por um leve arrepio na espinha. Ele não estava a invadir mais o meu território do que eu o dele. Ou vice-versa. Na verdade, coexistimos em universos paralelos. Tal como é um universo paralelo aquele onde eu entro quando desço à cave da velha casa da família (e aos níveis mais subterrâneos do meu ser) e descubro os objectos familiares com que ficciono aquilo que antes confundia com recordações. Se me perguntarem onde eu estava em determinado dia de há trinta anos, talvez eu tenha um álibi convincente, mas ele é necessariamente forjado. Literariamente forjado.