De resto, a própria DG Artes chumbaria com facilidade se fosse julgada pela sua perspicácia e competência planificadora e administrativa. Há dez anos que ignora a existência de uma rede de infra-estruturas teatrais no país — e ajuda assim alegremente a que uma parte delas vá deixando de ter como prioridade a arte e se dedique ao folclore revivalista e salazarista dos anos 60. Depois de ter aprovado (com excessiva magnanimidade e displicência) um conjunto de obras, o Estado foi incapaz de implementar uma rede nacional de teatros. Mas o certo é que ela existiu (com absoluta informalidade e voluntarismo autárquico, e com deficiências estratégicas e artísticas graves, claro). Contudo, a DG Artes não mudou a sua lógica de funcionamento, como se vivesse num mundo à parte (talvez viva). Quando resolveu criar há dois anos a modalidade de Apoios Tripartidos (companhias / DG Artes / administração local), numa lógica aparente de descentralização e de criação de redes regionais, fê-lo, por exemplo, sem uma palavrinha aos teatros municipais que operam no território, muitos deles substituindo-se ao Estado central na prestação de um serviço regional (supra-municipal, portanto, mas com orçamento municipal). Eu sei que é custoso um tipo levantar-se da cadeira para conhecer o território de um país, mas a Secretaria de Estado da Cultura e a DG Artes não deveriam ignorar que têm interlocutores in situ.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
A lógica mangas-de-alpaca da DG Artes
Com a sua lógica de mangas-de-alpaca, a Direcção-Geral das Artes acaba de recusar a admissão a concurso de alguns dos bons projectos artísticos portugueses e, simultaneamente, de admitir outros de interesse menor.
O rigor teutónico e kafkiano do processo administrativo foi a forma que a DG Artes encontrou de eliminar à cabeça uma boa parte dos candidatos, aproximando-se deste modo mais facilmente das suas quotas — sem ter de reflectir sobre arte ou interesse cultural. Tanto assim que a sua recusa é (ou pretende ser) definitiva, contrariando, de resto (se não ilegalmente, deselegantemente) toda a normatividade do procedimento administrativo. No stress de chegar ao fim do labirinto do Minotauro você trocou o nome de um ficheiro e fez o upload errado? Azar, a DG Artes não condescende nem lhe dá possibilidade de provar que tem o documento certo.
Seguindo os critérios da DG Artes, não é um cenário impossível ver o território português daqui a uns anos com uma razoável cobertura de experientes administrativos — e deserto de arte.
Não se veja aqui a apologia do desleixo ou da incompetência administrativa. É claro que as companhias devem prestar contas e devem gerir com rigor e parcimónia os dinheiros públicos. Mas é também evidente que devem continuar a ser… artistas. Se a arte fosse o mais importante para a DG Artes, o seu concurso dava naturalmente possibilidade de supressão de lacunas, de correcção de documentos, como qualquer repartição menor do Ministério das Finanças o faz. Aplicasse multas, por exemplo, mas não excluísse com uma frieza de autómato. O quadro técnico e político da DG Artes pode não gostar de artes — mas devia saber que está ao serviço delas.
Seguindo os critérios da DG Artes, não é um cenário impossível ver o território português daqui a uns anos com uma razoável cobertura de experientes administrativos — e deserto de arte.
Não se veja aqui a apologia do desleixo ou da incompetência administrativa. É claro que as companhias devem prestar contas e devem gerir com rigor e parcimónia os dinheiros públicos. Mas é também evidente que devem continuar a ser… artistas. Se a arte fosse o mais importante para a DG Artes, o seu concurso dava naturalmente possibilidade de supressão de lacunas, de correcção de documentos, como qualquer repartição menor do Ministério das Finanças o faz. Aplicasse multas, por exemplo, mas não excluísse com uma frieza de autómato. O quadro técnico e político da DG Artes pode não gostar de artes — mas devia saber que está ao serviço delas.
P.S.: Também há bons projectos admitidos, a frieza de autómato permite-o, ainda não chegámos à fase do cinismo.
sábado, 29 de setembro de 2012
Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão
O Secretário de Estado da Cultura tem sido
acusado de insensibilidade perante as artes. Há um ano no Governo e, tirando umas
pilhérias sobre o dinheiro, diz-se, não cunhou nada que se veja. Ora, isto é
injusto, esta percepção do SEC como emissor de moeda. Ele não está lá para
isso. O SEC não é um patrono, um mecenas. Essas eram atribuições de príncipes e
papas, e, como se sabe, o Estado além de laico é republicano. À maneira yankee, nestes dias.
Não se julgue, contudo, que ao SEC a arte
passa ao lado. Não. No último ano ele tem-se preocupado bastante com a área.
Sobretudo depois das cinco da tarde, depois de ter largado o serviço e as
mangas de alpaca. Quem o acusa de não ter obra devia ler a edição de 31 de Agosto do oficioso Correio da Manhã. Há
obra. Ela chama-se O Coleccionador de Erva
e foi prometida ao editor José Alberto Valente até 15 de Setembro, para ser apresentada
ao público em Novembro.
Talvez não fosse bem isto que os amantes das
artes esperavam, mas cada um faz o que pode. E Deus sabe como tem sido difícil
o ano para o SEC. Ponham-se no lugar dele. Um novo emprego, cheio de
responsabilidades, numa época terrível para o sector, um emprego que, agora
mais do que nunca, exigiu empenho, entrega, imaginação, criatividade, liderança,
visão. Um homem comum nestas circunstâncias chega a casa derreado, não consegue
pensar noutra coisa. Talvez beba um whisky
ou dois, mas de certeza que sonha à mesma com as mil e uma diligências que tem
de fazer no dia seguinte para salvar o barco, de certeza que ocupa a inescapável
insónia a cismar nos dramas que testemunhou ou nos projectos que tem em mãos.
Um homem comum nestas circunstâncias não conseguiria escrever uma linha depois
do emprego, se lograsse ter um «depois do emprego».
Mas o SEC não é um homem comum. O SEC é, antes
de mais, um Escritor. E não se pede a um Escritor que interrompa a prosápia
só porque mudou de emprego, só porque lhe confiaram mais responsabilidades, só porque tem uma pasta melindrosa nas mãos. Um Escritor escreve, é tudo o que ele faz.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.
***
O novo livro do Secretário de Estado da
Cultura será muito popular. E sê-lo-á por um golpe de génio. O volume estava
para se chamar apenas O Coleccionador,
mas um dos spin doctors do Governo
previu o escândalo, a inoportunidade da edição, e sugeriu que se acrescentasse erva à obra. A ideia era apaziguar a
esquerdalhada das artes dando-lhe algo com que se identificar. O problema vai
ser convencê-la a enrolar as páginas antes de as queimar.
sábado, 23 de junho de 2012
Parabéns
António Pinto Ribeiro faz hoje no Ípsilon
o seu balanço de um ano de Secretaria de Estado da Cultura. Voltarei ao
texto mais tarde. Por agora fico-me por algumas observações avulsas.
APR lembra duas iniciativas fantásticas do SEC: a «criação de uma rede
de património do judaísmo» e a programação de uma «tournée de Verão a ser realizada por uma orquestra». A primeira
proposta tem o seu interesse, sejamos magnânimos, mas faz-nos perguntar, por
exemplo, que iniciativas teria Viegas se fosse um apaixonado pela cultura
muçulmana, um pouco mais visível no património.
A segunda seria só ridícula se não fosse sintomática (a primeira também
o é, aliás): de facto, o que fazia falta em Portugal era uma estrutura do Estado central que se dedicasse à programação.
Deve ser a este paternalismo que Viegas chama liberalismo. À moda antiga, pois claro.
Depois da famosa entrevista de FJV ao I em Maio de 2011, é bom fazer notar que em Portugal as apresentações
de dança, teatro e música (excepto pop/rock) diminuíram drasticamente (há salas
que simplesmente já não programam teatro), mas, hélas!, um ano de SEC depois a música pimba e manifestações conexas não retrocederam.
Pelo contrário: procuram ocupar o vazio da restante programação.
Se quisermos ser simplórios, podemos atribuir à falta de dinheiro ou à
desistência de algumas câmaras municipais o recuo na programação de qualidade,
mas também não custa perguntar à SEC por onde tem andado.
Uma resposta possível é esta: ocupada a telefonar ao maestro Vitorino d’Almeida a propor-lhe o projecto do «Festival Grande Orquestra de Verão» que, pasme-se, vai levar concertos promenade a
várias cidades do país, cousa nunca vista nem sonhada.
O país pode portanto dormir descansado: desaparecem o teatro, a dança e a música
menos óbvia, mas uma vez no ano vai ter o senhor maestro e uma orquestra expressamente providenciados pela SEC. Uma
barrigada.
A propósito: António Pinto Ribeiro também refere «a dimensão kitsh da aplicação obrigatória da menção
‘Governo de Portugal’ em todo material de comunicação de todas as acções que
tenham um mínimo de apoio do Estado». Esqueceu-se de referir que na cultura a
menção inclui ainda «Secretário de Estado
da Cultura». Secretário, não Secretaria…
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O cantinho do hooligan (II)
Sou desde há muito admirador de Francisco José Viegas. Não
me custa o termo. Dos livros e sobretudo das revistas e da editora que dirigiu.
Mas, pôrra, se ele não queria ser ministro, podia ter deixado ir alguém no lugar
dele. Escusava de ter pedido um downgrade
como quem pede ostras. (Parece contraditório, mas o serviço era à la carte.)
A vantagem de termos um escritor em vez de um contabilista
na SEC foi aprendermos a soletrar correctamente «não-há-di-nhei-ro» — com sílabas,
em vez algarismos.
Fora isso, que diferença teria feito se um qualquer corta-relvas
tivesse assumido o cargo?
Antes das eleições, FJV queixava-se ao “I” do financiamento
municipal à música pimba. Pois tenho boas notícias para ele: a curto prazo, o
financiamento da cultura pimba será todo
o investimento que as câmaras farão na cultura. Não porque sejam
particularmente inclinadas para isso (são-no), mas porque cessou nesta legislatura
qualquer estímulo que pudesse haver em sentido contrário. E quando falo em
estímulo não me refiro ao dinheiro do Estado (que, de resto, não existia nas
legislaturas anteriores). Estou a pensar num discurso favorável à cultura em
vez de um que a estigmatiza e torna (mais) impopular. Estou a pensar no QREN, numa
ínfima parcela dele.
Bem sei que a audiência de FJV é uma meia dúzia de blogues
conservadores e francamente relutantes no que toca a tirar o cu do sofá, mas há
um país para lá deles. Ok, um país que na sua maioria fica satisfeito com uma
ocupação pimba dos equipamentos municipais. Mas, pôrra outra vez, se a ideia era
desistir do interior talvez pudessem ter evitado um gajo do Pocinho, não?
Estrangeiro próximo ou vá para fora cá dentro
Claro que podemos ser optimistas e imaginativos. A DG Artes
anunciou recentemente um programa de apoio à internacionalização das artes.
Talvez aqui no interior possamos contar com a solidariedade da SEC numa candidatura para acolhimento
de projectos artísticos ao abrigo daquele programa.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
A Cultura, no imediato
João Carvalho, no Delito de Opinião, tem ideias sobre Cultura. A mais esclarecedora diz que «a Cultura
não dá de comer no imediato a quem tem fome». É todo um programa.
Nesta, como noutras matérias, o blogger
é feroz apoiante do Governo. Por alguma acção em concreto? Não. «A Cultura
institucional está entregue a um homem de cultura que nada tem a provar para
fazer currículo. Chega-me.»
O Secretário de Estado nada tem a provar, portanto. Em caso de dúvidas,
basta-lhe abanar o currículo nas ventas dos críticos. (O que, sendo Verão, até
ajudava a poupar no ar condicionado). Mas já que Carvalho se satisfaz com pouco
(é mais um adepto da frugalidade) e chegando-lhe o perfil do Secretário de Estado,
não estaria disposto a aceitar uma silhueta recortada em cartão? Ainda seria
mais económico.
João Carvalho não apoia veleidades na área da Cultura porque, enquanto apreciador
do Secretário de Estado, quer protegê-lo duma doença que afecta «a mais distinta
intelectualidade da nossa praça». Parece que «os mais iluminados, quando se
vêem a decidir, perdem depressa a imaginação criadora e a acção raramente
ultrapassa a simples distribuição de verbas». Pelo sim, pelo não, abstenha-se a
Secretaria de «ideias geniais». Talvez um diploma emoldurado na parede chegasse
para o serviço que é necessário.
Mas será o cheque em branco de Carvalho uma apologia da inércia? Não,
nada disso. Na verdade, há acções da Secretaria de Estado da Cultura que João
Carvalho aplaude vigorosamente. O seu post,
de resto, é espoletado por uma dessas acções: o despedimento de Diogo Infante. Claro
que, em rigor, decisões do género (mesmo que correctas) não são exactamente
medidas culturais, mas actos administrativos. Ora aqui é que bate o ponto: depois
de um currículo, a opção de João Carvalho
para a Secretaria era talvez um mangas-de-alpaca, alguém com jeito para subtracções e sem o perigo das ideias.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Interessante
O Secretário de Estado da Cultura terá dito que as autarquias «asseguram já 60% da produção cultural». A notícia não desenvolve, mas seria interessante perceber como se relaciona esta afirmação com aqueloutra de tempos eleitorais em que Viegas dizia ser preciso acabar com o financiamento das autarquias à música pimba.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Vale mais um ministro ou um secretário?
A percentagem das receitas dos jogos da Santa Casa anteriormente atribuídas
à cultura passam para as mãos de Miguel Relvas, a eminência parda do Governo. Um
escritor devia saber que a semântica conta. (E sabe, claro que sabe. É isso que perturba.)
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Boas intenções e desastres conexos
Se aplicadas em laboratório, nenhuma
das ideias da Secretaria de Estado da Cultura seria absurda, e nesse mesmo
ambiente as suas seriam as melhores intenções. Não temos como não concordar com
a disciplina na utilização dos apoios públicos, com a necessidade de aumento de
receitas e, em abstracto, com a valorização das bilheteiras como instrumento de
avaliação de resultados. Acontece que Portugal não vive numa redoma asséptica,
num clima ideal, pelo que algumas das melhores intenções conduzirão a pequenos
desastres.
O que acontecerá quando as medidas para
o aumento da receita a fizerem diminuir? Que resultado terá o IVA a 23% na «valorização»
das bilheteiras? Se não acreditássemos nas boas intenções da SEC, diríamos que
ela tem um plano pérfido. Apresenta os requisitos para a viabilidade das
instituições — e simultaneamente cria as condições para que eles não sejam
cumpridos.
De resto, a SEC é a primeira a
contribuir para a desvalorização das bilheteiras, com aquela sua forma de falar
das coisas pela negativa. Para a SEC a cultura não é um bem, um direito, um benefício,
um privilégio que devemos agarrar — mas um frete que temos de ir alijando.
Talvez não seja exactamente isto que lhe passa pela cabeça, mas é decerto isto
que lhe passa pela boca. E que o povo ouve, pronto a concordar.
Vem de trás, do debate nos blogues e
nos jornais. Um conjunto de dandies
conservadores — e provavelmente pouco frequentadores de algo mais do que livros
— fez o diagnóstico e formatou o discurso da SEC. Punir a cultura, eis tudo o que
havia a fazer. Nenhuma palavra, nenhuma ideia sobre serviço público. Nem que fosse o assumir que nenhum serviço público é necessário. Que o fim do teatro, da dança, da música não é mal nenhum. Este tipo de honestidade.
O regresso da paisagem
Nos últimos dez anos, a cultura
democratizou-se e descentralizou-se, fruto de vários equipamentos que foram
construídos ou reconstruídos um pouco por todo o território. Num dado momento, o
viajante que seguiu o conselho «vá para fora cá dentro» e se aventurou para
além do termo de Lisboa deixou de deparar com um deserto. Por um lapso de tempo,
de norte a sul, a província foi menos provinciana. Podiam fazer-se roteiros que
aliassem património e artes. Era até concebível imaginar um pequeno êxodo
urbano, a vida nas berças começava a ter alguns dos atractivos culturais das
metrópoles. A deslitoralização do país, a existir algum dia, passava também por
esta “revolução”.
Depois veio a crise e o movimento
abrandou e a seguir retraiu-se. Agora galopa desesperadamente em direcção ao
passado, a um passado triste, enfadonho, de gente com os olhos postos na saída.
Enquanto a SEC procura purgar os grandes equipamentos nacionais, a breve lufada
de ar fresco que soprou no interior ameaça tornar-se de novo cheiro a bafio e a
desolação. Os pequenos equipamentos do Algarve, do Alentejo, das Beiras, de Trás-os-Montes
provavelmente não sobreviverão à onda de «racionalização» e à «análise do
custo/benefício» que necessariamente ocorrerão à escala regional, como
corolário da política nacional. A ponderação das bilheteiras determinará o
regresso ao folclore e à ocasional revista à portuguesa ou congénere em
digressão. A SEC tem um plano para Lisboa e Porto que apesar de tudo não parece equacionar o encerramento das principais infra-estruturas
ou o fim da sua missão — o resto do país não entra nas contas. O resto do país
é paisagem. E talvez «património». Para lisboeta ver.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Qual o rating da naftalina?
«A secretaria de Estado [da Cultura] tem um papel na discussão
do que deve ser o repertório de um teatro nacional.»
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Os homens da limpeza
O Ministério da Cultura não deveria ter terminado para dar lugar a uma secretaria de estado da cultura. A questão, sabe-se agora, não era um emagrecimento estrutural — era uma mudança de ramo. Do mesmo modo, a Direcção-Geral das Artes deveria ter mudado de nome — por que também mudou de ramo.
As notícias que vêm a público sobre estes organismos não são sobre cultura, são sobre outra coisa qualquer. Por exemplo, a DGArtes «passou a disponibilizar [online] todos os apoios concedidos às entidades financiadas pela Secretaria de Estado da Cultura»*. O objectivo é «implementar uma política de transparência entendível a todos os cidadãos». Além disso, a DGArtes «anunciou ainda que pretende iniciar um processo de monitorização e avaliação do trabalho efectuado pelas entidades beneficiárias, cujo resultado final esteja acessível de forma “clara e transparente a todos os cidadãos, sem filtros nem obstáculos”».
Não são estas notícias que estão mal, ou as iniciativas de que elas falam. Isso está muito bem, aplaude-se, é o que se espera de todos os organismos públicos. O problema é a total ausência de notícias sobre o que pretendem fazer as duas instituições em relação ao seu principal mister, a (com licença da palavra) cultura. Se vieram só para desratizar, deveriam ter tido a franqueza de se apresentar com as credenciais certas: Secretaria de Estado da Higienização. Direcção-Geral da Desparasitagem. (Talvez também Ministério do Fomento dos Tribunais Populares.)
Caso alguém, por distracção, lhes venha a perguntar se consideram importante para um país ter teatro, dança, artes, os homens da limpeza, naturalmente dirão: Isso não é da nossa alçada. E com razão.
A dúvida agora é saber se o Executivo tem em mente, para o futuro, a criação de estruturas na área da cultura ou se apenas reformulará o organigrama governamental, como é forçoso, transferindo as duas instituições acima referidas para o ministério que tutela o Ambiente.
* Não é medida nova, mas parece que os almeidas não conseguiam ler o PDF que anteriormente se publicava.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Panem et circenses
«Há muito tempo que o Estado tomou sobre si o extraordinário encargo de animar a populaça», escreve Vasco Pulido Valente e tem razão. Nos factos e na crítica que o adjectivo deixa implícita. É, de resto, uma crítica partilhada por uma parte dos comentadores de direita e pelo Secretário de Estado da Cultura. Acabar com o circo parece e é uma campanha urgente. Num país a sério não se usam as instituições do Estado como comissões de festas. O papel de mordomos de romaria ou anfitrião de circo cabe à sociedade civil — e a palhaços encartados.
Acontece que a sanha da direita agora no poder mais do que se arrisca a deitar fora o menino com a água do banho.
A obscena promiscuidade entre o que é animação e cultura tem dois sentidos: algumas das instituições que providenciam o disparatado entretenimento vão sendo também responsáveis pelo pouquinho que resta de cultura na lusa pátria. Acabar com elas sem mais é pintar de cinzento o país, de um velho e estupidificante cinzento.
Ou a direita deseja isto ou não conhece o país que habita.
Uma das razões nem sempre mencionada quando se apela à extinção das estruturas culturais do país é o incómodo da direita com a arte contemporânea. A EGEAC, um dos alvos do artigo de VPV, é, entre outras coisas, também promotora de acções neste âmbito. Para a direita que temos no poder, animação e arte contemporânea são a mesma e desprezível coisa. Mas talvez a direita, se frequentasse mais o país real, soubesse que onde lê arte contemporânea poderia ler arte clássica. A realidade é esta: tirando a animação, tudo está no mesmo triste bote neste rectângulo que se afunda. Julga a direita que a música clássica se salva sem a subvenção e as instituições do Estado? O bailado? A ópera? A literatura? O teatro clássico? O teatro, tout court? Que os cidadãos correm a ver o que se lhes ofereça nesta área? Que pagam um tostão que seja se por azar passarem à porta? Em que planeta vive esta direita?
sexta-feira, 29 de julho de 2011
A arte de demolir
Talvez não seja culpa dele (não é certamente), mas pelo que se vai lendo na imprensa o Secretário de Estado da Cultura parece mais um liquidatário, alguém contratado pelo Governo para conduzir o processo de falência de uma pasta. Começou pela auto-despromoção: Viegas deve ser o único convidado para um cargo que impôs como condição prévia a imediata regressão na carreira. Nos últimos dias, a imprensa citou-o a determinar que Portugal tem equipamentos culturais a mais. Deverá seguir-se, naturalmente, o anúncio de que a SEC cabimentou uma verba para explosivos.
Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.
Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.
Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.
Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.
Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?
A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)
A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.
Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.
Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.
Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.
Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?
Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.
Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.
Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.
Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.
Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?
A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)
A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.
Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.
Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.
Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.
Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?
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