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segunda-feira, 14 de abril de 2014
Revista de imprensa e blogosfera
Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias mas a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Imprudência
Com os cada vez mais evidentes sinais de regresso dos fascismos à
Europa (e ao poder; a originalidade da Hungria não durará), com um clima político
a leste cada vez mais prussiano, a
direita continua, com moral de inquisidor, obcecada em punir os países e as
pessoas que, na opinião dela, viveram acima das suas posses. A direita é muito
estúpida, conivente ou imprudente. E receio ter escrito imprudente apenas por cortesia ou fair play.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
O papel do jornalista tem dias
Nos posts anteriores defendi
o papel do jornalista no caso Rodrigues dos Santos versus Sócrates. Muita gente o tem feito, alguns com particular
ferocidade, incluindo o próprio José Rodrigues dos Santos. Contudo, não vi
muita gente defender o papel do jornalista também nos casos das partenaires inânimes de Marcelo Rebelo
de Sousa e Marques Mendes. Que de resto são comentadores há mais tempo.
É isto que me irrita ou entedia (depende das horas) na vida política
portuguesa, este clubismo sem coluna e hipócrita, incapaz de esconder o longo
rabo que deixa de fora. Onde têm estado os defensores do papel activo do
jornalista nos longos anos que Marcelo leva de missa dominical? Onde estão
quando é Marques Mendes a perorar sem particular contraditório?
Uma intervenção útil em defesa do jornalismo era terem aproveitado este
episódio para reivindicar verdadeiros jornalistas também nos programas de
Marcelo & Mendes — em vez de uma defesa de JRS que não consegue disfarçar um
imbecil ódio a Sócrates e é na verdade uma defesa acéfala do Governo.terça-feira, 25 de março de 2014
JRS x JS - 2.º round
Entretanto percebi melhor qual o formato do programa (não vejo televisão, não sabia) e porque o desvio de JRS causou indignação. Ora bem, o facto de se tratar de um programa que procura saber a opinião de José Socrates não dispensa os jornalistas de fazer o seu trabalho. Errados estão todos os outros jornalistas que fazem de naperon ou de figurantes nos programas de Marcelo e afins. Se a ideia é que os tipos falem sem contraditório, o correcto seria pô-los sozinhos em frente à câmara. Os separadores de temas poderiam ser quadros de legendas, como nos filmes mudos, ou mão-de-obra requisitada à Elite Models, não gente com carteira de jornalista. JRS pode ter mostrado um excesso de zelo direitista (uma agenda pró-governamental), mas antes isso do que um daqueles cães que antigamente se punham nos carros e se limitavam a acenar com a cabeça. O papel do jornalismo é perguntar, questionar, confrontar, e não só quando isso nos agrada.
segunda-feira, 24 de março de 2014
JRS x JS
Vai para aí celeuma por causa da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Sócrates. Não gosto de nenhum dos dois. Vi a entrevista. Rodrigues dos Santos fez bem em confrontar Sócrates com afirmações suas do passado. É para isso que servem os jornalistas, não para pés de microfone. JRS fê-lo com particular prazer? Acho que sim, mas o que importa é a utilidade da coisa, e tinha-a. Em contrapartida, Sócrates fez o seu papel, alertando para os contextos. Não o achei particularmente irritado, ao contrário do que para aí também se diz. E acho que se saiu relativamente bem na sua argumentação. Há, de facto, contextos que convém não esquecer, embora a muitos desse jeito.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Efemérides
Olhando o país e o mundo, as minhas indagações remontam a 1914 e 1939 e ao que sentiam os tipos de 45 anos que eram resgatados da reserva para um qualquer contingente activo. Ou talvez, na verdade, indague mais atrás na História, 1908 e um voluntariado na Carbonária.
sábado, 15 de março de 2014
«Os senhores professores», disse ele
Anteontem ouvi na rádio Passos Coelho acusar algumas universidades de
manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores
professores» poderem dar aulas. Não é a questão da racionalidade da oferta
universitária que aqui me interessa (sobre isso já discorri antes de
haver crise). É o tom, a forma como Coelho expeliu aquele «senhores
professores». Há expressões que dizem tudo, traem pensamentos e sentimentos. O
Primeiro-Ministro naquela frase não acusou apenas as universidades de
irrazoabilidade — achou também abusivo que os senhores professores quisessem
dar aulas. Sem o dizer, achou absurdo que os senhores professores quisessem
trabalhar.
Vinda de um Primeiro-Ministro que se opôs a qualquer medida capaz de criar
emprego, vinda de um PM que favoreceu com a alegria e a jovialidade dos fanáticos
a degradação do emprego (ou quando muito o emprego com salários de insulto), esta sua
«racionalidade» na organização do Estado parece tão científica e altruísta
quanto a «medicina» de Josef Mengele.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Congresso dos recreios
Na série “Diziam”, de Pedro Correia, no Delito de Opinião, só faltou
acrescentar que o que aconteceu contra o que "diziam" aconteceu decerto também
contra os desejos íntimos do infame Passos. A coisa mais relevante que
aconteceu de acordo com o vermículo Passos foi talvez o regresso, em seu tempo apalavrado, do sósia Relvas.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A liberdade de ser e o papel do bobo
Os pobres de espírito e de carácter (e até de inteligência, não pode
ser totalmente inteligente quem não percebe o conceito de liberdade individual)
hão-de precisar sempre de alguém a quem discriminar, sobre quem fazer recair raivas,
preconceitos, frustrações, complexos. A História ensina: mulheres, pretos,
judeus, homossexuais… Há sempre um “argumento” de ordem “natural”, “científica”
ou “cultural” para negarem ao próximo aquilo de que se consideram legítimos (alguns
por direito divino) detentores: a liberdade de ser. É da definição de liberdade
global que o direito a ser imbecil, inalienável, tem de se restringir à esfera
do próprio indivíduo. Por favor ninguém proponha, neste estádio da civilização,
um referendo sobre a possibilidade de as pessoas serem parvas para si mesmas. Direitos
humanos não se referendam — e continuamos
a precisar de cromos de quem rir. Não os deixemos é legislar, não é esse, historicamente, o papel do bobo.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Caixa de Pandora
Há uma certa ironia no facto de a Quetzal, que publicou em 2010 o livro
Mudar, o mein kampf de Passos Coelho, ser a mesma editora que lançou no final
do ano passado Austeridade – A história
de uma ideia perigosa. Se pudéssemos ver nisto um ciclo, a abertura e o
fecho de um ciclo…
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
As jotas
Uma parte da geração de direita que está hoje no poder ou o orbita teve
formação intelectual. Não aderiu a um partido apenas como quem adere a um clube
de futebol (embora muitas vezes aja como se o tivesse feito): casuisticamente,
por inércia, seguidismo ou tradição familiar. Tratou de encontrar leituras filosóficas
e políticas que fundamentassem a sua escolha ou inclinação natural.
Em muitos casos, deve dizer-se, a procura literária visou apaziguar a
suspeita instintiva e embaraçosa de que há algo de errado com o privilégio que
se tem ou ambiciona. O método consiste em soterrar a dúvida, o mal-estar, o escrúpulo
ou o remorso com umas dezenas de volumes e autores. Ao fim de uma curta
biblioteca, fica-se apto a considerar um bem universal a existência de ricos e classes
favorecidas. Faz-se até equivaler o pragmatismo capitalista (que opera no
pressuposto de que o homem é ambicioso por natureza e isso é inelutável) a uma
legitimação das castas.
Alguns dos que percorreram com empenho a biblioteca acreditam genuinamente
nela e desejam mesmo, com sinceridade e bons sentimentos, que ela funcione para
o bem geral. Outros frequentaram-na apenas o suficiente para obterem o seu
alibi. Se o ideário direitista se revelar um logro, tanto pior para a classe
média, desde que eles o possam continuar a apresentar como bibliografia
recomendada.
As jotas partidárias, contudo, funcionam numa lógica ainda mais
mesquinha, mesmo quando se servem — geralmente em segunda mão — da mesma biblioteca.
É por isso que a JS se pode equivaler, não só operacionalmente, à JSD e à JP: pela
lógica da seita que acomoda os movimentos, as estratégias, as tácticas e os
objectivos dos grupos. Aqui já não se trata de grupos ou classes socais tomados
intemporal e universalmente, mas de um conjunto delimitado e identificado de
elementos que se visa proteger e favorecer. A equivalência entre as jotas e as
claques de futebol, no estilo, nos valores e nos métodos, não é fútil.
Quando Hugo Soares e os cinco anónimos deputados da JSD propõem um
referendo sobre a co-adopção não estão a tentar ser irreverentes e ousados de
uma forma moderna (na sociedade actual, o conservadorismo é mais irreverente do
que o esquerdismo clássico e por isso alguns o adoptaram) — estão a ser
solidários e a agir em articulação com os seus irmãos jotas hoje no poder. É
uma espécie de maçonaria ou Opus Dei, ainda que sem transversalidade partidária,
com circunscrição clubística. Os seus elementos devem mais lealdade à seita do
que ao partido, e muito mais do que à sociedade.
Que a recusa da co-adopção seja também uma das bandeiras conservadoras
é apenas uma coincidência feliz. O mais importante era a manobra dilatória — e
captar as atenções, obter protagonismo. Os valores ou princípios são instrumentos,
caprichos, ferramentas levantadas mais ou menos ao acaso do armário disponível
na sede partidária. Exceptuando um punhado de idealistas geralmente sem
expressão, os jotas apenas visam obter poder e privilégios dentro do sistema,
contra o resto da comunidade — esta é a triste realidade.
domingo, 19 de janeiro de 2014
1. JSD
Nos dias que correm
custa-me citar alguém de direita, mas a carta de Carlos Reis dos Santos,
ex-dirigente da JSD, no Público
merece ser lida. Talvez sair da juventude partidária e, enfim, crescer torne as
pessoas melhores, mesmo as da JSD. Enquanto Hugo Soares, a anémona do momento,
não tiver cumprido o seu processo de crescimento (se algum dia o tiver), só
podemos lamentar que os calduços do veterano Carlos Santos não tenham sido
dados fisicamente na pessoa do imberbe deputado e com a violência, digamos, de
uma praxe extrema do Colégio Militar, para invocar uma instituição do agrado da
seita.
2. Democracia
Mas chamei para aqui o
artigo de Carlos Reis do Santos (referido no post anterior) para destacar isto:
«(…) [a democracia] não se pode confundir com o absolutismo das maiorias. Porque a linha que separa a democracia do totalitarismo é ténue – é por isso que a democracia não dispensa a mediação dos seus representantes – e é por isso que historicamente as leis que garantem direitos, liberdade e garantias andam à frente da sociedade.»
3. Da necessidade do carácter e das lições de história
Já esta noite tinha lido outra frase fundamental, que diz
mais ou menos isto: a democracia não é
sobre o poder das maiorias, mas sobre a protecção das minorias.
Convinha que os eleitos democraticamente, da câmara municipal
ao governo da nação, tivessem o carácter, a grandeza (e umas quantas lições de
história) para compreender isto.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
A (pato)lógica bravura empresarial
1. Sobre o corte nas bolsas científicas diz o Ministro da Economia que
não se pode «alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». Com Pires de Lima, suspeito,
a investigação faz-se junto às linhas de engarrafamento da Unicer, com tempo
contado para ir à casa de banho.
2. «Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real», continuou o ministro.
A solução é, portanto, cortar. Cortar nas bolsas aumentará decerto a
investigação que chega à economia real. Deve ser a isto que, na mesma notícia,
Pires de Lima chama «dar continuidade à trajectória de investimento, mas também
procurar criar um modelo de estímulos e de sinais que ligue a investigação, a
ciência, a educação à vida concreta e real das empresas». De facto, que melhor
estímulo haverá para a «vida concreta» do que bolsos vazios?
3. Creio que a notícia não apresenta a citação completa do que o
Ministro propunha. O que ele queria dizer era «ligar a investigação, a ciência,
a educação à vida concreta e real das empresas falidas». Por uma questão de equidade, não faz realmente sentido
que haja alguém a comer quando outros passam fome.
Esperar sentado no Banco de Portugal
O post que publiquei anteontem lembrou-me porque é que o Banco de Portugal não tem
condições para funcionar bem: o seu quadro de pessoal nunca está completo. Há
ali sempre uma vaga a precisar de ser preenchida por ex-governantes.
Creio que seria muito mais simples para a instituição
e para o país se o BdP, em vez de estar sempre à espera que mais alguém se
demita ou seja demitido, pusesse anúncios de emprego.
A não ser, claro, que aquelas vagas sejam
apenas para os estagiários de São Bento que aguardam entrada na Goldman Sachs ou
filiais. É justo que o Banco tenha permanentemente no orçamento uma verba para
entreter a espera de Suas tirocinantes Excelências.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Dos honorários do políticos
As opiniões que se lamentam sobre os parcos vencimentos dos políticos dividem-se em pouco mais de três géneros: as hipócritas (ou cínicas), as ingénuas (mas cultíssimas e seguríssimas da verdade) e as simplesmente patetas, de adolescentes esperançosos e ambiciosos que ensaiam todos os dias ao espelho a célebre proclamação «mãe, sou ministro!».
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
domingo, 24 de novembro de 2013
«A esquerda sem povo»
A propósito deste pragmático artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, recordei uma passagem do meu ainda inédito Aranda, escrita há três anos:
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Ideologia e competências autárquicas
Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora
a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou
timidez juvenil?) apresenta neste post:
«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»
É generoso da parte do blogger
blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo
acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a
programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E
a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda
acha que os mercados devem ser regulados.
* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de
construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia
— raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.
sábado, 5 de outubro de 2013
Machetada
Provavelmente — e decerto com particular incidência nas últimas
legislaturas —, sempre houve gente nos governos com alguma incapacidade para
defender os seus currículos. Quer porque eles (os currículos) eram má ficção, quer
porque eram facilmente confundidos com cadastros. Mas no governo de Passos
Coelho isso parece uma especialidade, uma cláusula.
Um tipo põe-se a pensar que, se os lugares de ministro e secretário de estado
(ou assessor) fossem a concurso, Coelho mandaria lavrar anúncio no Diário da República com a alínea: «Dá-se
preferência a quem tenha rabos-de-palha; da sua elisão trata-se a seguir, com
corrector Bic ou Pelikan, depende de quem patrocinar.»
Os currículos de Gaspar e Santos Pereira, bons rapazes e sem mácula no carácter,
pertenciam ao lote da ficção, poderiam ter sido escritos por José Rodrigues dos
Santos num dia inspirado. O de Relvas também, mas acumulava vilanias. Agora, a
ministra das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros são o topo hierárquico de
uma lista de governantes cujos currículos os habilitam com distinção ao governo
passista mas logo depois têm de passar pela lavandaria para serem apresentáveis
ao resto do país.
Desde Junho de 2011 há um campeonato para ver quem mente-mais-e-pior e,
em simultâneo, tem o raio-de-uma-lata. Os melhores nestas duas disciplinas
mantêm-se no governo ad nauseam, até
aparecerem cartazes no tour de França
e na Estação Espacial Internacional. Só saem quando a sua reputação não se distingue
da lama onde nadam.
«Machete: s. m. sabre de artilheiro com dois gumes, faca de mato, viola pequena, cavaquinho.»
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