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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Europa no divã



Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.

Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie

Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.

É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.

Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.

O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.

Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).

Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.

A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.

Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.

O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.

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Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck — Relógio d’Água, 2018
A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Maria de Fátima Bonifácio traída

Maria de Fátima Bonifácio é uma senhora assaz preconceituosa e muito ressentida da perda de privilégios familiares, de classe e raciais. Em geral, a sua prosa, mesmo quando pretensamente académica, limita-se a dissertar com vileza e fel na perspectiva do trauma pessoal. Não foi o seu mais recente artigo que desvelou isto. Para quem nunca a tenha lido ou tenha memória curta, há todo um arquivo no Público de lamentáveis redacções afins, apenas por vezes mais vestidinhas de casaco de malha, como adequado à brisa e ao pensamento solarengos. É por isso patético que João Miguel Tavares ou José Manuel Fernandes, entre outros, venham fingir aborrecer-se (mais um do que o outro) com as torpezas da amiga, que ainda assim desculpam (mais um do que o outro). Salvo distracção minha, a senhora Bonifácio não inaugurou agora uma nova linha de pensamento, ainda que possa ter-se desbocado um pouco mais. Por isso, estes senhores, que mereciam tabefes por admirarem tal musa, merecem agora chicotadas por lhe serem desleais. Podemos tolerar que a nossa direita tenha tolos e tolas como pensadores, mas é imperdoável que se revele hipócrita.
Entretanto, coitada da senhora dona Maria de Fátima: acostumada a palmadinhas nas costas, percebeu da pior maneira ter chegado à idade das velhas tias da corte, incentivadas a dizerem de tudo nos saraus de família, mas apelidadas de inconvenientes ou xexés quando dizem o mesmo perante um público menos caseiro.



domingo, 5 de maio de 2019

Venezuela

Nos dias que passam, em que sonho com um eremitério de livros, uma vida à margem, a política apenas me interessa na medida em que dela posso ser vítima — ou seja, preocupa-me, mas não sinto o ímpeto de a discutir de viva voz ou de me envolver em movimentos. Pessimismo resignado, talvez seja o diagnóstico. Não há como não ficar deprimido quando se vê o circo de políticos e comentadores, nos media ou nas redes sociais, reduzindo tudo a torneios, organizados em claques ou falanges como seitas ou quadrilhas.

Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas

Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta. Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Só tu, João Miguel Tavares

Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.

O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.

É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.

Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.

Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.

Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.

Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.

* Este «Só tu» é retórico, claro.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A percepção da imprensa

Os jornais ditos de referência são acusados por uns de alinhamento com o Governo e por outros de serem títeres da direita.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Polígrafo

Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos, corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.

sábado, 10 de março de 2018

O Professor Passos

Não assinei o Público online porque o jornal me pedia mais dados sobre a minha vida do que o que eu estava disposto a dar-lhe e por isso só consegui ler o lead e um parágrafo do artigo de Manuel Carvalho sobre a polémica do Professor Passos Coelho. Contudo, a não ser que o resto do artigo esteja em contradição com a sua introdução (o que seria absurdo), não julgo que me precipite ao dizer que discordo totalmente de Manuel Carvalho.

Leiam primeiro a sua argumentação:

«Com excepção da vergonha da Tecnoforma, nada na vida de Passos Coelho o impede de ser docente em universidades nacionais.

A polémica dos convites a Passos Coelho para dar aulas em três universidades só merece mais do que uma linha de aversão porque reflecte um preconceito aberrante e expõe à vista de todos uma atitude mesquinha e perigosa. O assunto não chegou ao grande debate nos jornais (ficou-se pela pequena conversa de café ou pelas redes sociais) porque fica mal expor ao grande público a arrogância de classe ou o sectarismo ideológico mais básico que alguns dos críticos manifestaram. Mas, mesmo na penumbra, a onda não deixa de ser reveladora e irritante. O sectarismo que empurra uma certa esquerda, faz hoje de Passos Coelho o que a direita fez com Mário Soares no Verão Quente.»

Em primeiro lugar, a própria introdução do artigo anula toda a argumentação que defenda a contratação de Passos, a não ser que a lógica para Manuel Carvalho seja uma batata. Segundo as suas próprias palavras, há pelo menos uma coisa que de facto que impede a contratação de Passos, que é, diz Manuel Carvalho, a «vergonha» da Tecnoforma. A nódoa da Tecnoforma pode ser «excepcional» na vida do ex-PM, mas existiu e até Manuel Carvalho na sua redacção a considera na verdade impeditiva da sua contratação como professor equiparado a catedrático. Se não queria dizer isto (e provavelmente não queria), Manuel Carvalho devia cuidar mais dos textos que escreve. Poderia ter dito, por exemplo, que «Passos Coelho apenas teve um erro, mas esse erro não é suficiente para impedir a sua contratação». Falando assim, MC revelaria mais condescendência com as vilezas dos nossos chico-espertos da política, mas estaria mais apto a ser literalmente coerente com a sua aceitação da contratação.

Já eu estarei decerto a ser mesquinho com a análise semântica do artigo, mas a acusação dura de Manuel Carvalho ao «sectarismo ideológico» dos críticos, tantos deles professores universitários, exigia-lhe cuidado com a forma como se expressa. Sei que a o artigo de MC, antes de ser uma defesa de Passos, pretende ser um ataque ao tal «sectarismo ideológico» das universidades. Passos é apenas o pretexo, e MC não se importa de, usando-o, defender a honra de Passos. (Também eu, na verdade, estou a usar o excerto do artigo de MC como desculpa para falar da contratação de Passos, por isso estamos quites.)

Mas eu, ao contrário de MC, não desvalorizo «a vergonha» da Tecnoforma. Parece-me reveladora de um carácter (aliás confirmado em vários outros momentos de mentiras e hipocrisias na brilhante carreira do homem). Escrevi em tempos (aqui e aqui, por exemplo) que Passos e Sócrates eram nalguns aspectos essenciais intermutáveis. Postos nas circunstâncias do outro, cada um deles teria agido de forma basicamente semelhante. Com a conjuntura a favor, um Passos pré-Troika teria trazido para o Estado a visão empreendedora que usou na Tecnoforma, só que com maior redistribuição de dinheiro público. Já Sócrates, instigado pela mesma troika que excitou Passos, teria liderado diligentemente um período de austeridade reformadora, talvez com menos moralismo à mistura, mas com um resultado de igual desprezo pelas pessoas comuns e favorecimento de privados. Parece-me por isso natural que se o dinheiro do Estado tiver permitido a um o mestrado parisiense permita agora ao outro a cátedra na Universidade de Lisboa. Certos episódios da vida destas duas figuras nacionais são as duas caras da mesma moeda com que se vende a dignidade e compra a desfaçatez.

Em segundo lugar, não me esqueço de que ouvi Passos enquanto Primeiro-Ministro acusar algumas universidades de manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores professores» poderem dar aulas. Cito um post que sobre isto escrevi à época:


Ora, o que mudou depois da saída de Passos Coelho do Governo? As universidades públicas já não são censuradas por Coelho por quererem alargar o quadro de docentes? (Julgo que não preciso de dizer que alargar é mais grave do que manter no catecismo de moralização da função pública seguido por Passos.) Agora já podem? Em todos os casos ou só no dele?

Vejamos também a coisa por outro ângulo, não necessariamente ligado a austeridade passista: o ISCSP passou de repente a ter uma necessidade premente de professores? Já teria esta vaga antes e não a tinha conseguido preencher? O Instituto andava desesperadamente à procura de alguém com o perfil de Coelho e ainda não o tinha encontrado? O Presidente do ISCSP (Manuel Meirinho, eleito deputado nas listas do PSD no ano em que Passos ganhou o Governo) não tem nada que ver com a identificação desta súbita necessidade de um professor com as características de Passos Coelho?

Já li por aí que houve antes casos similares (dizem que o de Vítor Constâncio é um deles) e, acusam os defensores de Passos, as pessoas não se queixaram como agora. Este é o habitual argumento idiota que exige igualdade permanente nas reacções e críticas, como se o mal de uma coisa dependesse de ele ter sido identificado e criticado em igual medida noutra. Como se fosse desculpável o erro de alguém por não se ter denunciado um erro semelhante de outra pessoa. A lógica deste género de pseudo-argumentação (e o prefixo pseudo é usado aqui adequadamente, porque só em mentes infantis ou perturbadas por cegueira ideológica ou clubística aquela espécie de relativização constitui um argumento) é a mesma que poderemos aplicar, cinicamente, às vítimas da estatística que não tenham tido a sua parte do frango na célebre enunciação: se em cada duas pessoas uma comer um frango, em média cada pessoa come meio frango. Ou, melhor ainda, no poema de Cesariny: «Que afinal o que importa não é haver gente com fome / porque assim como assim ainda há muita gente que come».
Estes invocadores dos «casos passados» querem, num primeiro momento, fazer-nos crer que se um pecado é comum talvez ele não seja na verdade pecado, estamos enganados no juízo que fazemos sobre a pessoa que defendem. Mas logo a seguir censuram-nos ferozmente por não termos sido lestos a denunciar o erro anterior que lhes serve de relativização, num crescendo que termina invertendo as coisas: o verdadeiro erro a merecer punição foi o anterior, o do elemento do clube contrário, que passou incólume porque as pessoas então se distraíram ou não acharam mal por serem do mesmo clube. Não é só proporem que se cumpra uma cronologia para a crítica e a punição (que as coisas se façam pela ordem dos acontecimentos), ou defenderem uma interdependência de penas (pune-se o último se se punir o primeiro): é tentar que percebamos que o erro cometido pelo seu correligionário não é um erro, porque, ao contrário dos adversários, este e o seu alvo cu excluem-se por unção divina da natureza fisiológica descrita no «Soneto Ascoroso» de Bocage. E terminam com frequência já só violentamente indignados pelo erro anterior, acreditando genuinamente, no seu fanatismo, que não houve o erro actual.
Alternativamente, esta gente que lembra os casos passados foca-se em nós próprios para nos denunciar por termos estado calados e agora falarmos. De repente, mais uma vez, o problema não é Passos ter a magna impudência de aceitar um tacho numa universidade pública, é nós não termos constância na atenção e na crítica, é não sermos polícias de plantão permanente, desde o nascimento até à cova, termos a insolência de nos levantarmos só ocasionalmente e logo por azar quando o erro é cometido por um camarada de quem nos denuncia. Esqueçam ter havido um pecado: o que verdadeiramente abala as fundações da nação é a nossa indolência (e de certo modo é, mas não pelas razões que nos acusam). Esqueçam Passos, o problema somos nós.
Vasco Pulido Valente, que era acusado pelos seus detractores de não ser exaustivo na crítica, de haver partes do país e dos seus oito séculos de história que ele, cronista parcial, estrategicamente poupara (o que é aliás improvável), tinha um manguito retórico sempre pronto como resposta, e algumas vezes li o seu rosnado: fossem chatear o Camões, que ele escrevia sobre quem queria e quando queria, não era obrigado a cumprir quotas.
Um resumo para os utentes do argumento idiota: a desfaçatez de Passos Coelho (é deste caso que agora tratamos) não depende da desfaçatez de todos os outros que aceitaram prebendas semelhantes e muito menos depende da actividade e da coerência daqueles que o criticaram. De resto, a coerência não se mede contabilisticamente nem tem por base a estatística. E uma maçã não deixa de ser uma maçã por não termos dado uma dentada nas outras todas.

Em terceiro e último lugar, Passos foi o responsável por, entre outras bondades, uma lei que determinou a extinção de um conjunto de empresas municipais, com o consequente despedimento dos seus trabalhadores, sem se preocupar se o trabalho que eles faziam era necessário ou não. Tendo-se verificado que, em tantos casos, o trabalho era necessário, e após pressão sindical e de um ou outro partido, lá concedeu que se acrescentasse à lei um artigo que permitia às Câmaras abrirem concurso (na primeira fase limitado à função pública) para esses postos de trabalho e, numa demonstração de impressionante generosidade, fossem considerados elegíveis para se candidatarem os antigos trabalhadores das empresas municipais, muitos com dez anos de serviço. Mas a generosidade do então Primeiro-Ministro não foi ao ponto de permitir que esses trabalhadores mantivessem a categoria e a posição remuneratória anteriores: havia moralização a fazer no país e por isso os trabalhadores que quisessem continuar nos seus postos haviam de passar pela humilhação do concurso e, caso vencessem, a de serem integrados na posição mais baixa da carreira, não servindo de modo algum o conhecimento, a experiência adquirida e a avaliação de dez anos de trabalho para assegurar a manutenção do lugar, da categoria e da remuneração.

Perguntam-me se há algum problema na contratação do Professor Passos com vencimento equiparável ao de professor catedrático? Problema nenhum, por que havia de haver?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país


Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o individualismo favorecidos pelo novo medium e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate político cresceram.

Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um adolescente lado cowboy nesta direita e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas, com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição do mundo que hoje temos.

Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do armário, encontrou no Correio da Manhã o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista, um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência quotidiana — a podridão nacional, em suma.

Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que conheçamos o país para que o aceitemos como é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a imparcialidade é conveniente ao próprio statu quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral, ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade, a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas, levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista — se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais fervorosos na defesa não declarada de que é natural uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de mariquices.)

Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente «bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer coincidir com o leitor comum do Correio da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.

Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)

Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.


* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção das desigualdades.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O arcanjo Gabriel

Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

sábado, 1 de outubro de 2016

Indignação de classe

Eu devia saber que não se podem julgar as pessoas pelo aspecto. Durante anos fui lendo artigos de Maria de Fátima Bonifácio e espreitei-lhe a fotografia tipo-passe no cimo da coluna ou vi-a de relance num qualquer canal televisivo a emitir opinião no seu casaquinho de malha sem pretensão visível. Era apresentada como historiadora e respeitei-a abstractamente por ter uma profissão diferente dos políticos de carreira, embora a sua evidente inscrição na mais assanhada das direitas fizesse lembrar um daqueles espécimes.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.

Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?

Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.

P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Asco

Há muito tempo que não visitava o Blasfémias. Há dias caí nisto:


Achei que, mesmo para alguém com o historial deste Vítor Cunha, era um pouco patético um tipo deixar-se chegar a este ponto de irritação, desespero ideológico e niilismo argumentativo.

Hoje saiu-me este outro post na rifa


digno de um verme que já não disfarça a sua condição. Fui espreitar o tom geral do blogue. Um pouco mais de verniz, mas não muito.

As cretinices do Blasfémias, mesmo nesta fase de puro fel, estribeiras perdidas e alma penada à vista, ficam com quem as escreve. Tenho é pena de amigos que ainda consideram inteligente ou decente contemporizar com a "direita" de Helena Matos, José Manuel Fernandes & abjecta Companhia. Muita pena, mesmo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Dirty, dirty Harry

Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção. Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo mal. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Punk is dead

Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer coisa sentida. 
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.

Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.

Quando voltei a vê-lo, ao longe, cumprimentado na esplanada como uma veneranda figura, com uma mistura de solenidade de igreja, fila de autógrafos e trégua de velório (nem todos são alheios ao seu legado político), já havia vários passeios entre nós. A preguiça e uma vocação para sentir piedade e perdoar a quem nos tem ofendido pouparam-nos a ambos às consequências de uma súbita fúria punk. Isso e a canícula, que seca as glândulas salivares.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sanções e Sansões

Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008. Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas. Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu. Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis. Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão — terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca, os tecidos agarram-se à pele.  

Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o lajedo em cima. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cortesãos de esquerda

A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez boicote mesmo as eleições.

Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado (entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice. Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à derrisão da pátria.

Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora às vezes pareça, é certo.)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cinismo à portuguesa

Duas afirmações colhidas na Internet sobre o candidato à presidência da República Paulo Morais:
«Tudo o que é demais enjoa, e ainda mais quando se faz vida disso. Se ninguém [o] refuta é precisamente porque o cromo se tornou inofensivo por ridículo.»
«Paulo Morais (…) exibe a sua mania da corrupção, de uma maneira insultuosa e quase alucinada.»
A primeira afirmação é de um cidadão qualquer, a segunda é de Vasco Pulido Valente. É destas duas espécies de cinismo que o país sofre, o cinismo do eleitorado comum e o cinismo dos fazedores de opinião. Ao longo de anos, Morais indicou números e nomes para a história da nossa desgraça. A imprensa e a justiça pouco exploraram as pistas, e o aproveitamento privado do erário público continuou — como de resto todos testemunhámos, de forma mais empírica ou mais esclarecida.
Contudo, não ter o denunciador sido amordaçado, torturado ou preso faz dele um cromo, um personagem ridículo. E a insistência na denúncia é, para o comentador emérito da direita portuguesa, uma forma de insulto (insulto decerto para os benfeitores da economia nacional).

Para ser tido como um candidato respeitável neste país, Paulo Morais tinha de ser morto ou fazer-se matar pelas suas acusações.
A alternativa era ser um betinho palavroso e igualmente inofensivo para o statu quo como Marcelo Rebelo de Sousa — e nesse caso não só o bom povo o elegeria como teria a enternecedora preocupação de VPV com a forma como uma eleição presidencial como esta pode ser aviltante para um cliente do Gambrinus.

Cromo por cromo, o povo português prefere os de pedigree. E para Valente toda a gente é estúpida, mas há os estúpidos comuns e os nossos (dele) estúpidos. 

Um só país, duas manifestações do mesmo cinismo. Não foi à toa que Cavaco existiu. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crise da imprensa: os meus contributos

A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante). A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e transformasse em caderno diário o Ípsilon, o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O pessimismo antropológico revisitado

É irónico que o reforço da minha sensibilidade de esquerda tenha sido obtido observando os próceres e os pregoeiros das instituições capitalistas com a lupa de uma inata característica de direita: o pessimismo antropológico.

Todos os homens são maus e naturalmente egoístas, só que alguns são-no mais do que os outros — é com esta espécie de paráfrase orwelliana que o que resta de direita inocente se devia hoje confrontar.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma epifania todoroviana para Marco António Costa

Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes, por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério — talvez adulto, para usar a terminologia do FMI — e salvífico da economia.

Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz, precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira universitária que então iniciou em França.

Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.

Marco António e um bom lote de políticos e economistas europeus são uma espécie de semióticos da actual ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo estéril e patético.