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sábado, 10 de agosto de 2019

Sol coado


Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.

Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).

A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.

Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como  imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.

Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.

Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)

Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.


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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Whole of the Moon

Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.

Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott nas colunas sofríveis da Blondie, mas recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse momento, uma turba acabadinha de sair dum casting para o Thriller de Michael Jackson: trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última versão do MSDOS.

Os que tinham dançado slows retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.

Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto —, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.

Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico, ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso? Não aos rapazes do Ípsilon, decerto. Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Um mergulho ao crepúsculo


Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água, pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse, exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo, sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…

No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras


Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular, entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram «grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras, ocupado por crianças ou adolescentes.

Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra «grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo» era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol, vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria. De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau — com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele «groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».

Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente «groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem, portanto.

Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?

Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford, no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando, exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da França?

Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou, se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle, chargé de faire les courses». Grumo, em suma.

Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente para inglês que ele tinha sido um «Brumo».

Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A insensatez da espeleologia na adolescência

Há no parque termal das Pedras Salgadas uma mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
 Logo a seguir ao portão, a mina divide-se em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão, também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos, contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
 Sobre o outro túnel, o da esquerda, não havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
 De Inverno, o terreno baixo por onde se acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não havia graffitis, beatas, garrafas, camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.   
 Houve fascínio e regozijo, naturalmente, como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por fim adiar sine die a segunda fase da expedição.
 Havia, contudo, motivos de interesse naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de luz e medir assim o comprimento do túnel.
 Dois de nós voltámos atrás com essa nova missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização do buraco.
 Demos com o buraco, depois de saltar o muro para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia, certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da direita.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tílias

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável. Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente empatado Rússia x Bélgica.

Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato, se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.

Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.

Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas, com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.

O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar o perfume das tílias.

O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a cabeça e padecem de rinite opcional.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O tee do 17

Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17 anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u) intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo — me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do lado de dentro.

E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo, tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na encosta do monte. Refiro-me ao tee dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de subir para a first shot, talvez por em Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem, felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos. Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.

P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pedras Salgadas: futuro e memória


As ecohouses de Pedras Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas, inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se… ao arvoredo do parque.

As ecohouses precisam de um cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações 3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era bonito antes de as casas existirem. Na verdade, o sucesso das ecohouses das Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente protegidos.

Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses. Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso. Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as duas actividades são incompatíveis.

Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista, se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago Palace Hotel, ali ao lado.

No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um futuro digno da sua antiga glória, é proteger o património, como fez com as ecohouses (e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória. Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e eventualmente lucrativos.

Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo, revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra, ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as demolições.

O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um “turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora, estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir, como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los, dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.

Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso património e do nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma torneira em frente à entrada.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Regressar a casa

(clique)

Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros (como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados, regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a pretender que Os Idiotas se traduza para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha cartografia geográfica.

Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro, mas por ter criado o Bairro Amélia a partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada, naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.

Se me encomendassem (como aliás deviam) uma monografia sobre Pedras Salgadas, a “rainha das termas”, temo que seria desonesto da minha parte aceitar o serviço. É que não há uma correspondência absoluta entre aquele pedaço de território e o que eu frequento nas minhas visitas à terra. Por vezes julgo, ao passear no parque, que me passeio entre fantasmas, tal a quantidade de imagens e silhuetas que cada recanto, cada edifício, cada árvore espoleta. Mas depois de pensar no assunto, descubro, como no filme The others, que o fantasma sou eu. Não precisava de haver nevoeiro como havia para que o meu vulto no crepúsculo de hoje fosse espectral, deambulando solitário por entre o que resta ali de passado e o que se construiu de futuro. O hóspede de uma das eco houses que veio fumar para o alpendre não deu pela minha presença na vereda senão por um leve arrepio na espinha. Ele não estava a invadir mais o meu território do que eu o dele. Ou vice-versa. Na verdade, coexistimos em universos paralelos. Tal como é um universo paralelo aquele onde eu entro quando desço à cave da velha casa da família (e aos níveis mais subterrâneos do meu ser) e descubro os objectos familiares com que ficciono aquilo que antes confundia com recordações. Se me perguntarem onde eu estava em determinado dia de há trinta anos, talvez eu tenha um álibi convincente, mas ele é necessariamente forjado. Literariamente forjado.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Conservador

Nos anos do Independente sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas, como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente, aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada politicamente.

Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse. Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.  

[Romanas, 17.11.2013]

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Visitando buracos nas Pedras Salgadas


Enquanto no Palace Hotel de Vidago os velhos hóspedes ou os seus descendentes podem matar saudades fazendo à grande um check-in no novo velho Palace, nas Pedras Salgadas têm de se converter a um estilo mais moderno, minimalista e nórdico de veraneio, adaptando o velho esqueleto aristocrata a uma versão luxuosa do estilo Ikea: os bungalows ou eco houses que a Unicer providenciou para ali.
Não havia nas Pedras, dir-se-á, hotéis com o arcaboiço monumental do Palace de Vidago e as casas que a Unicer instalou são um exemplo de bom gosto e respeito pelo património ambiental. (Se não tivesse nascido a cinquenta metros do parque e ali não almoçasse aos domingos, decerto as minhas fantasias apocalípticas teriam já passado por fins-de-semana ecológicos acima das minhas posses no Nature Park das Pedras Salgadas.) Mas não se deve esconder que o saudosismo ou o ímpeto arqueológico de antigos hóspedes é ludibriado nas Pedras como o não é em Vidago.
O Universal, belíssimo exemplar, podia ser uma das jóias da coroa de qualquer empresa, mas definha, em parte irreversivelmente. O Grande Hotel está entaipado. O Avelames deu lugar a um embaraçoso morro de relva sob o qual se albergam os serviços de apoio às eco houses. No lugar do Hotel do Norte, onde havia até há pouco uma inverosímil clareira, há agora um court de ténis que Pires de Lima mandou concluir à pressa para Passos Coelho inaugurar. A Pensão do Parque desapareceu. O Bazar Fotográfico idem. Ali perto nas Romanas foi a Casa do Chá que se vaporizou subitamente (um domingo estava lá, no seguinte não estava).
O turismo de nostalgia nas Pedras faz-se, portanto, apontando buracos, clareiras, ocos. Como vi o neto de um velho hóspede, com uma criança pela mão, fazer há dias. «O bisavô dormiu ali em cima [Avelames] e o papá nos últimos anos dormiu aqui [Pensão do Parque]». “Aqui” é agora um parque infantil e a menina espreitou com suspeita ou ressentimento o pai: que direito tivera ele de pernoitar num baloiço que agora negava à filha?

O turista avisado mune-se de máquina fotográfica e acorre célere às Pedras. Quando volta, ou se se atrasa, já não encontra edifícios que antes pareciam fazer parte do ADN da terra, mesmo que em ruínas. Nem edifícios nem fundações, apenas vazios onde rapidamente cresce a erva.

A mim este confronto com inesperada arqueologia forneceu já matéria para um romance e em parte para outro. Mas o mundo passava melhor sem os meus livros do que sem as termas das Pedras Salgadas.