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sábado, 11 de julho de 2020
Proust: 10/07/1871
Se a pneumonia não tivesse dado cabo dele, Marcel Proust seria hoje uma curiosidade de feira com 149 anos. Tendo morrido quando lhe competia, ficou apenas como uma curiosidade literária: o tipo que escreveu 3.500 desnecessárias páginas. (Noto que teria garantido um lugar no Guiness em qualquer dos casos.)
Só reparei na data, atrasado, porque o excelente António Gregório a referiu no Coração Acordeão*. O mesmo António, autor de duas obras imperdíveis (O Condómino e Documentário), forneceu-me também uma capa para a temporada. As leitoras e os leitores entenderão que sob esta imagem se reúnem os três tópicos que mais me ocupam desde Março, mais casaco, menos casaco.
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*https://antonio-gregorio.tumblr.com/
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Da nostalgia à alienação
Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)
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* Excepto para David Foster Wallace.
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)
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* Excepto para David Foster Wallace.
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Cocktails
Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
Sobre estátuas
Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.
De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.
De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.
domingo, 3 de maio de 2020
Ao serviço do ténis
[Pequeno ensaio sob hipnose]
Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.
Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.
Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.
A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.
A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.
No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.
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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.
Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.
Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.
Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.
A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.
A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.
No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.
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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Gira-discos
Há duas histórias que se digladiam na minha memória pelo troféu do primeiro contacto frutífero com um gira-discos. Uma delas é protagonizada por três músicas (de artistas diferentes) e a outra por todo um álbum. Falemos da primeira história (segundo a cronologia deste texto), enquanto damos tempo ao júri para tomar uma decisão.
Naqueles dias, havia alguém que arquitectava uma forma de fornecer um gira-discos para as reuniões de grupo que tínhamos ao sábado à noite em espaço abençoado pela Igreja. De toda a playlist que animava aqueles serões, e que talvez fosse vasta, duvido que alguém recorde mais do que três músicas: “Angie” (Piedras Rolantes*), “Against All Odds” (Phil Collins) e “Careless Whisper” (George Michael). Tudo começava geralmente com uns ruídos, um crepitar. Era comum: os discos tinham muito uso e não se lidava com eles com pinças. Entrava primeiro aquele som que apenas significava que havia um disco velho a rodar no prato mas que era já sugestivo, como se a música tivesse sido composta com um prelúdio misterioso. A seguir vinha a guitarra acústica, uma nota e um acorde metálicos que eram como um sinal. Os sentidos ficavam alerta e a pulsação acelerava. Depois, um Jagger da mesma idade do que vimos ontem, na era do confinamento, a cantar à guitarra numa tela quadripartida “You Can't Always Get What You Want", lamentava-se chorosamente: «Angie, Angie, when will those clouds all disappear?». Era a hora dos slows e nenhum critério estético pesava muito na selecção musical, aliás invariável. Os rapazes gostavam de “Angie” talvez pelo que ali soava aos seventies (não confessariam sucumbir às sugestões sentimentais da música) e as raparigas gostavam de George Michael. E julgo que apreciavam também a música dele, não sei. Mais tarde, por razões adicionais, talvez já só defendessem apreciar a música. Quanto a Phil Collins, permanece uma incógnita, tantas décadas passadas.
A segunda história não é mais edificante e começa numa estância termal de província no início dos anos oitenta — um melting pot frequentado por netos e netas dos tradicionais termalistas, com mais ou menos pergaminhos, emigrantes em férias (vindos de Paris no Verão e de Zurique no Natal), variegada fauna das cidades vizinhas, com rústicos e betos de várias extracções, todos dando o seu melhor a dançar nas noites da discoteca local, a mergulhar nas tardes da piscina ou a desfilar, muito século XIX mas sem charrettes, na Alameda das Nascentes — um território, em suma, pouco propício à unanimidade em questões estéticas e musicais. Em certos momentos uma corrente mais rock e máscula parecia dominar, noutros o rock fundia-se de bom grado com as mais recentes tendências da new wave, não temendo arriscar aqui e ali incursões no new romantic — e tudo era frequentemente destruído por certas preferências dançáveis da corrente menos sofisticada da pop electrónica, cujo expoente máximo viriam a ser talvez uns alemães que davam pelo nome ainda hoje nauseante de Modern Talking.
Neste caldo, um teenager em formação, instado a tomar partido, ainda que encontrasse predicados em (quase) todas as correntes, via-se por vezes obrigado à rebeldia. E, apesar de a década já estar bem entrada, deixando os setenta assentar alguma poeira, ser rebelde era por vezes tão-só depreciar (ou fingir depreciar) o bom velho rock’n’roll. Chega-se assim um ano aos Duran Duran, para gozo de muitos e embófia do próprio.
Ou talvez, e aqui é que a história entronca na verdade com o mote do texto, os Duran Duram tenham vindo de certa semana de férias de mar em que o adolescente descobriu na casa que o albergava um gira-discos e esse gira-discos deu-lhe a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, sem restrições, em plena autonomia, ou quase, um álbum completo e esse álbum calhou ser Rio, dos Duran Duran. O rapaz saiu menos bronzeado desse Verão (havia que aproveitar a oportunidade, nem que fosse preciso ir menos ao mar), mas a conhecer cada letra e linha de baixo do disco.
Ainda arriscou, na rentrée, quando a estância se esvaziava e regressava à sua normalidade rural, uns adereços e uns penteados tributários dos fab five de Birmingham, mas era preciso um certo estofo, ou cheirar recorrentemente a tinta impressa da pouco acessível revista Bravo (que tinha conhecidas propriedades inebriantes, como sabe quem a cheirou à época), para se perseverar numa excentricidade estilística daquelas, por mais perfil apolíneo que se tivesse. Também era preciso dinheiro para modistas e parceiros para fundar uma tribo que desse consistência e conforto à opção — e isso não havia, pelo que a meados de Outubro tudo voltara à mesma indefinição enfadonha do costume.
* Ver post anterior.
Naqueles dias, havia alguém que arquitectava uma forma de fornecer um gira-discos para as reuniões de grupo que tínhamos ao sábado à noite em espaço abençoado pela Igreja. De toda a playlist que animava aqueles serões, e que talvez fosse vasta, duvido que alguém recorde mais do que três músicas: “Angie” (Piedras Rolantes*), “Against All Odds” (Phil Collins) e “Careless Whisper” (George Michael). Tudo começava geralmente com uns ruídos, um crepitar. Era comum: os discos tinham muito uso e não se lidava com eles com pinças. Entrava primeiro aquele som que apenas significava que havia um disco velho a rodar no prato mas que era já sugestivo, como se a música tivesse sido composta com um prelúdio misterioso. A seguir vinha a guitarra acústica, uma nota e um acorde metálicos que eram como um sinal. Os sentidos ficavam alerta e a pulsação acelerava. Depois, um Jagger da mesma idade do que vimos ontem, na era do confinamento, a cantar à guitarra numa tela quadripartida “You Can't Always Get What You Want", lamentava-se chorosamente: «Angie, Angie, when will those clouds all disappear?». Era a hora dos slows e nenhum critério estético pesava muito na selecção musical, aliás invariável. Os rapazes gostavam de “Angie” talvez pelo que ali soava aos seventies (não confessariam sucumbir às sugestões sentimentais da música) e as raparigas gostavam de George Michael. E julgo que apreciavam também a música dele, não sei. Mais tarde, por razões adicionais, talvez já só defendessem apreciar a música. Quanto a Phil Collins, permanece uma incógnita, tantas décadas passadas.
A segunda história não é mais edificante e começa numa estância termal de província no início dos anos oitenta — um melting pot frequentado por netos e netas dos tradicionais termalistas, com mais ou menos pergaminhos, emigrantes em férias (vindos de Paris no Verão e de Zurique no Natal), variegada fauna das cidades vizinhas, com rústicos e betos de várias extracções, todos dando o seu melhor a dançar nas noites da discoteca local, a mergulhar nas tardes da piscina ou a desfilar, muito século XIX mas sem charrettes, na Alameda das Nascentes — um território, em suma, pouco propício à unanimidade em questões estéticas e musicais. Em certos momentos uma corrente mais rock e máscula parecia dominar, noutros o rock fundia-se de bom grado com as mais recentes tendências da new wave, não temendo arriscar aqui e ali incursões no new romantic — e tudo era frequentemente destruído por certas preferências dançáveis da corrente menos sofisticada da pop electrónica, cujo expoente máximo viriam a ser talvez uns alemães que davam pelo nome ainda hoje nauseante de Modern Talking.
Neste caldo, um teenager em formação, instado a tomar partido, ainda que encontrasse predicados em (quase) todas as correntes, via-se por vezes obrigado à rebeldia. E, apesar de a década já estar bem entrada, deixando os setenta assentar alguma poeira, ser rebelde era por vezes tão-só depreciar (ou fingir depreciar) o bom velho rock’n’roll. Chega-se assim um ano aos Duran Duran, para gozo de muitos e embófia do próprio.
Ou talvez, e aqui é que a história entronca na verdade com o mote do texto, os Duran Duram tenham vindo de certa semana de férias de mar em que o adolescente descobriu na casa que o albergava um gira-discos e esse gira-discos deu-lhe a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, sem restrições, em plena autonomia, ou quase, um álbum completo e esse álbum calhou ser Rio, dos Duran Duran. O rapaz saiu menos bronzeado desse Verão (havia que aproveitar a oportunidade, nem que fosse preciso ir menos ao mar), mas a conhecer cada letra e linha de baixo do disco.
Ainda arriscou, na rentrée, quando a estância se esvaziava e regressava à sua normalidade rural, uns adereços e uns penteados tributários dos fab five de Birmingham, mas era preciso um certo estofo, ou cheirar recorrentemente a tinta impressa da pouco acessível revista Bravo (que tinha conhecidas propriedades inebriantes, como sabe quem a cheirou à época), para se perseverar numa excentricidade estilística daquelas, por mais perfil apolíneo que se tivesse. Também era preciso dinheiro para modistas e parceiros para fundar uma tribo que desse consistência e conforto à opção — e isso não havia, pelo que a meados de Outubro tudo voltara à mesma indefinição enfadonha do costume.
* Ver post anterior.
sábado, 10 de agosto de 2019
Sol coado
Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.
Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).
A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.
Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.
Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.
Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)
Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.
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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
The Whole of the Moon
Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of
the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para
quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.
Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott
nas colunas sofríveis da Blondie, mas
recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse
momento, uma turba acabadinha de sair dum casting
para o Thriller de Michael Jackson:
trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos
remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e
espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última
versão do MSDOS.
Os que tinham dançado slows
retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por
vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de
volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos
escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.
Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar
para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto
—, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade
do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.
Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de
continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico,
ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso?
Não aos rapazes do Ípsilon, decerto.
Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras
Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e
não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular,
entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram
«grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do
século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a
palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente
os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como
abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e
grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras,
ocupado por crianças ou adolescentes.
Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra
«grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me
sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros
ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo»
era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como
acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol,
vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me
logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria.
De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau
— com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online
de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele
«groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a
delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».
Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto
Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos
e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que
eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente
«groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de
recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem,
portanto.
Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário
português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários
ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?
Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford,
no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando,
exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a
conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais
ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da
França?
Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX
e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a
maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e
não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter
escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou,
se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle,
chargé de faire les courses». Grumo, em suma.
Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das
termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo
que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente
para inglês que ele tinha sido um «Brumo».
Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta
concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
A insensatez da espeleologia na adolescência
Há no parque termal das Pedras Salgadas uma
mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha
adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a
solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por
curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto
filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
Logo a seguir ao portão, a mina divide-se
em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco
erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros
gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega
lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial
para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão,
também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e
álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém
entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana
naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos,
contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
Sobre o outro túnel, o da esquerda, não
havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação
histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da
entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um
buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para
demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
De Inverno, o terreno baixo por onde se
acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório
estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia
perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso
era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter
o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a
curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos
quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas
familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço
do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de
várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das
paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que
separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e
fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o
tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a
ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se
estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos
seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na
península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente
à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos
oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente
humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um
quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais
ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem
qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os
primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de
expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não
havia graffitis, beatas, garrafas,
camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que
era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.
Houve fascínio e regozijo, naturalmente,
como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto
Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim
do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada
para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por
fim adiar sine die a segunda fase da
expedição.
Havia, contudo, motivos de interesse
naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava
algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do
túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de
luz e medir assim o comprimento do túnel.
Dois de nós voltámos atrás com essa nova
missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a
parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização
do buraco.
Demos com o buraco, depois de saltar o muro
para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena
de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha
adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e
tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia,
certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras
expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que
passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas
à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da
direita.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Tílias
Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche
de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que
lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade,
quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores
que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar
(ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva.
Mas um barman que fala no cheiro das
tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável.
Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente
empatado Rússia x Bélgica.
Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos
querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes
aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas
áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato,
se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.
Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como
o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais
CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no
Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado
à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado
não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que
existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.
Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas,
com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos
espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico
algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e
regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a
copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças
de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do
que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que
fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se
preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado
a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.
O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente
a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para
quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da
história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar
o perfume das tílias.
O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo
ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente
de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a
cabeça e padecem de rinite opcional.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O tee do 17
Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras
Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam
as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez
mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia
sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17
anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha
memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e
vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u)
intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade
o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje
quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo
— me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam
ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das
Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do
lado de dentro.
E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque
de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a
minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo,
tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado
à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação
de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a
Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros
e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais
precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na
encosta do monte. Refiro-me ao tee
dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de
subir para a first shot, talvez por em
Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap
alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue
nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a
discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith
Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo
desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron
deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e
mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem,
felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só
deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao
final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos.
Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.
P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo
dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os
que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Confidências de um palhaço
Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava
a divertida campanha d’Os Idiotas,
comia com regra e medida e era regular no jogging.
O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores.
Daí a pouco começava o meu annus
horribilis, com ataques em várias frentes, directos
e sobre interposta família, uns manufacturados
outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem,
uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque
todos os palhaços sabem que the show must
go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da
minha consciência.
Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à
frente. Mesmo que um annus tenha 365
dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de
todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências,
dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o
pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um
assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Pedras Salgadas: futuro e memória
As ecohouses de Pedras
Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas,
inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam
irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como
eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei
se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se…
ao arvoredo do parque.
As ecohouses precisam de um
cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a
maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar
com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações
3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era
bonito antes de as casas existirem.
Na verdade, o sucesso das ecohouses das
Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser
plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente
protegidos.
Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou
adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses.
Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de
algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal
e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso.
Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo
realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou
antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por
isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram
construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente
desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente
importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as
duas actividades são incompatíveis.
Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas
das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam
obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos
realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os
hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista,
se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago
Palace Hotel, ali ao lado.
No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule
suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que
a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um
futuro digno da sua antiga glória, é proteger
o património, como fez com as ecohouses
(e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua
enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas
ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e
edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido
paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória.
Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e
eventualmente lucrativos.
Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar
Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha
sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de
descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo,
revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e
o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na
Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra,
ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o
abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as
demolições.
O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do
que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um
“turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora,
estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir,
como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro
pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los,
dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são
o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se
deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar
para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas
conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma
sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.
Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e
ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro
lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso
património — e do
nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma
torneira em frente à entrada.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Regressar a casa
(clique)
Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros
(como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados,
regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a
pretender que Os Idiotas se traduza
para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha
cartografia geográfica.
Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de
época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por
exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As
primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro,
mas por ter criado o Bairro Amélia a
partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada,
naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia
e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e
mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como
fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor
não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer
provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que
o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais
devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física
de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Conservador
Nos anos do Independente
sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente
conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do
lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas,
como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente,
aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados
assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E
a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às
artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um
decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se
mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada
politicamente.
Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um
conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que
eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse.
Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.
[Romanas, 17.11.2013]
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Visitando buracos nas Pedras Salgadas
Enquanto no Palace Hotel de Vidago os velhos hóspedes ou os seus
descendentes podem matar saudades fazendo à grande um check-in no novo velho
Palace, nas Pedras Salgadas têm de se converter a um estilo mais moderno,
minimalista e nórdico de veraneio, adaptando o velho esqueleto aristocrata a
uma versão luxuosa do estilo Ikea: os bungalows ou eco houses que a Unicer providenciou para ali.
Não havia nas Pedras, dir-se-á, hotéis com o arcaboiço monumental do
Palace de Vidago e as casas que a Unicer instalou são um exemplo de bom
gosto e respeito pelo património ambiental. (Se não tivesse nascido a cinquenta
metros do parque e ali não almoçasse aos domingos, decerto as minhas fantasias
apocalípticas teriam já passado por fins-de-semana ecológicos acima das minhas posses no Nature Park
das Pedras Salgadas.) Mas não se deve esconder que o saudosismo ou o ímpeto
arqueológico de antigos hóspedes é ludibriado nas Pedras como o não é em
Vidago.
O Universal, belíssimo exemplar, podia ser uma das jóias da coroa de
qualquer empresa, mas definha, em parte irreversivelmente. O Grande Hotel está
entaipado. O Avelames deu lugar a um embaraçoso morro de relva sob o qual se
albergam os serviços de apoio às eco
houses. No lugar do Hotel do Norte, onde havia até há pouco uma inverosímil
clareira, há agora um court de ténis que Pires de Lima mandou concluir à pressa
para Passos Coelho inaugurar. A Pensão do Parque desapareceu. O Bazar Fotográfico idem. Ali perto nas Romanas foi a Casa do Chá que se vaporizou
subitamente (um domingo estava lá, no seguinte não estava).
O turismo de nostalgia nas Pedras faz-se, portanto, apontando buracos,
clareiras, ocos. Como vi o neto de um velho hóspede, com uma criança pela mão,
fazer há dias. «O bisavô dormiu ali em cima [Avelames] e o papá nos últimos
anos dormiu aqui [Pensão do Parque]». “Aqui” é agora um parque infantil e a
menina espreitou com suspeita ou ressentimento o pai: que direito tivera ele de
pernoitar num baloiço que agora negava à filha?
O turista avisado mune-se de máquina fotográfica e acorre célere às
Pedras. Quando volta, ou se se atrasa, já não encontra edifícios que antes
pareciam fazer parte do ADN da terra, mesmo que em ruínas. Nem edifícios nem
fundações, apenas vazios onde rapidamente cresce a erva.
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