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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gel, mães e filhos (1)

Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência, está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.

A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Drink sangria in the park

Quando se pensa, à nossa maneira burguesa, num grupo de junkies a jogar à bola, imagina-se perónios pelo ar e tíbias pelo chão. Um grupo de pessoas a desconjuntar-se, a esvair-se em fluídos pouco dignos de observar. Isto se considerarmos sequer a hipótese de haver junkies com tempo de se juntarem à volta de uma bola, tão apressados e ocupados que sempre parecem, busy with dealing. Não estamos preparados é para os ver, íntegros, com risos e técnica superlativa, desfrutar. Desfrutar e reincidir nisso dia após dia. Na nossa própria alienação, andamos esquecidos de que o ócio era a aspiração da humanidade.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O pimba do Senhor

Nos meus tempos de adolescente e néscio (com os anos, abandonei a primeira condição), achei assaz progressista, apesar do traje, um franciscano que me incitou a levar o baixo eléctrico para cima de um palco onde se cantavam hinos ao Senhor. Passou-se isto no catolicismo e numa era anterior à editora Flor Caveira, do evangélico Tiago (Guilul) Cavaco. O pioneirismo católico, aliás, havia-se já manifestado quando na década de setenta a Igreja sobrepôs letras de excitação beata a canções de Bob Dylan. E o aggiornamento não mais parou. Hoje, muito modernas formações musicais louvam o Senhor como aos domingos à tarde se louva na TVI a genitália feminina: com vocalista trejeitoso e partenaires gesticulantes, comprimidas em slim jeans ou calças de lycra e t-shirts um número abaixo. (Se não tivesse visto, não seria capaz de imaginar isto.)
A estética e o sentido coreográfico pimba são tão omnipresentes em Portugal quanto Deus Ele Mesmo. E mais influentes. Não admira que a própria Igreja ache natural que, em palco, se declare amor a Cristo com os passos, os gestos, a melodia, o instrumental e os coros que geralmente se usam na TVI para, com trocadilhos e metáforas de baixa extracção, se aludir a fodas, minetes e broches.
De resto, se é popular, a Igreja procura absorver, como sempre fez com qualquer ritual pagão. Que se lixe a estética e a lógica, se isso lhe permitir recensear mais umas almas (importa-lhe mais a estatística das almas do que as suas práticas). Não se pode é a Igreja admirar que os aleluias gritados no apogeu dos cânticos passem a ter outra conotação e o êxtase deixe de ser místico.

P.S.: «E nós… pimba, Senhor», poderia ser uma resposta moderna ao «crescei e multiplicai-vos», não fosse a contracepção.

P.S.2: Já no Natal, poderiam substituir-se as estrofes gastas do «Noite Feliz» por versos mais modernos: «Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será / O pai da criança, eu sei lá, sei lá… eu sei lá, sei lá...»

Comportamentos desviantes

Reconhecemos uma alma gémea quando alguém que entra no shopping, depois de puxar para si a grande porta envidraçada, volta a fechá-la e de novo a abre apenas para confirmar que, sim, a porta faz um barulho cómico, humanóide, que apetece ouvir outra vez. Depois da breve pausa na frivolidade do mundo, ele entra e eu saio, sorrindo ambos de portas que adoptam comportamentos desviantes.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Aparências

1.
São meia dúzia em volta da mesa de pedra junto ao rio. Geralmente a mesa é usada, em tardes de furo ou gazeta escolar, para umas festas de álcool, para enrolar e partilhar uns charros. Os grupos exclusivamente femininos são talvez menos frequentes, mas lá está a atitude semiclandestina, lá estão os risinhos langorosos e cúmplices, os corpos dobrados em tenda conspirativa sobre o centro da mesa. E no entanto, quando se abre um pouco a corola de adolescentes primaveris, o que aparece a ser transaccionado ali no meio é um banal frasco de verniz de unhas, como num cliché da Ragazza.

2.
O rapaz vem de praticar desporto, calções, t-shirt suada, cabelos molhados, sweatshirt atirada sobre um ombro. As três raparigas aproximam-se entre embaraçadas e conspirativas, com segredinhos e empurrando-se umas às outras. Cortejam-no. De saia ou vestidos coquetes, alguma pintura no rosto, parecem saídas da mesma edição da Ragazza atrás referida. Ou de um quadro mais antigo, de um que tenha fixado a óleo uma tarde bucólica no parque. Porém a oralidade trá-las de volta ao futuro. Tendo talvez sido contrariada, uma delas abandona a discrição, a corte vintage, e dispara à colega um sonoro «vai-te foder, caralho», que o rio devolve em eco. O rapaz não parece sentir que se tenha desfeito o encanto, continua a atrasar o passo e a controlar a distância e os risinhos pelo canto do olho.

3.
Pequeno gangue, vêm subindo a rua. Cortes de cabelo, roupas, calçado, balanço do corpo, tudo de acordo com o modelo rebelde sem causa, vulgo arruaceiro. Param de súbito a conversar animadamente, ruidosamente, belicamente, ocupando metade da via de trânsito e todo o passeio. Os carros ultrapassam-nos em pequeno e conformado slalom. Os peões contornam-nos por fora, como vítimas de bullying fugindo à palmada nas costas. A descer a rua, avanço a direito com a inércia e uma vaga intenção de reivindicar o meu direito a um vector no passeio. Estendo o braço para abrir alas e o distraído rapaz à minha frente estremece de susto, como se acabasse de ser abordado por um assaltante. Desvia-se, cordial, e eu continuo caminho, a rir-me do ridículo. Do meu ridículo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Vizinhas novas no prédio

Perante uma berraria prolongada de três moças universitárias em frente ao prédio (na verdade, uma só magricela, bebida e histérica, tenta à força de decibéis obsessiva e compulsivamente pôr «de quatro» uma caloira mais cheiinha e musculada, inamovível e paciente como um santo de altar), perante aquela berraria, alguma vizinhança assoma à varanda. No bairro, o alvoroço estudantil é rotina que entorpece: só é hábito chamar a polícia quando a coisa redunda em pancadaria a que não se vê fim breve. Talvez por haver gente nova no prédio, de uma das varandas ouvem-se uns «shiu!» e uns «então?!». O trio praxista, pouco habituado a que a vizinhança dê sinais de vida, olha em redor, estupefacto. Para minha surpresa, enfia a viola na bolsa coquete e retira, ordeiramente, como adolescentes a caminho da catequese (um dos bares das imediações).

Estou eu a fruir o momento quando as moças da varanda (também são moças, certamente novas no bairro) resolvem cantar vitória e lançam lá para baixo: «Andor! Tá andar, caralho!»

Ora, desfez-se o feitiço. As teenagers temporariamente bem-comportadas apontam como podem os queixos à varanda, reconhecem como iguais as oponentes e soltam as peixeiras que há dentro delas (o sotaque é do Porto, mas duvido que algum dia tenham vendido peixe no Bolhão, pelo que retiro a ofensa àquelas profissionais). «Como?!», retorquem apontando a pélvis como forcados amadores. «Vamos a calar!» ordenam as de cima, por alguma disfunção cognitiva ou erupção de jactância tendo ignorado que caladas tinham ficado as outras ao primeiro «shiu». «Estás-me a mandar calar?» «Estou, pois!» «Anda cá em baixo então, caralho!»

Pronto, suspiro, eis como se desbarata uma vitória. Agora a berraria passa a ter dois focos e não tarda há paralelepípedos arremessados às vidraças e sempre será precisa a polícia.

Mas a noite reserva mais surpresas. As de cima retiram-se da varanda e, ao contrário do que se suspeitaria, aparecem passado pouco tempo no passeio. A coisa pode redundar em maior alvoroço do que o que havia, mas há que louvar às moças da varanda a coerência. E a coragem: a caloira musculosa pôs-se entretanto do lado das dótoras, talvez em defesa do direito a ser humilhada.

Da minha própria varanda — comummente tomada neste blogue por bancada de circo ou balaustrada de zoológico, com certa pretensão literária —, solto outro suspiro. Novamente desajustado: as cinco moças ficam a trocar argumentos, mas, ou as de cima têm um forte carisma, ou a magricela danificou as cordas vocais na meia hora anterior: a altercação parece quase cordata. Podemos facilmente imaginá-las daqui a pouco a trocar números de telefone ou endereços de e-mail.

Quando me retiro para a sala, tenho a certeza de que as da varanda vão subir a buscar os casacos para se juntarem numa ida aos bares com as de baixo. E talvez depois venham as cinco ali para o passeio muito amistosamente debater aos berros quaisquer insignificantes diferenças de opinião, como sói fazer-se por aqui na hora em que os bares fecham. Um céptico não acredita em milagres que sempre durem.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Orgulho e preconceito

No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, um rapaz estudante de Jornalismo tinha de escolher, entre quatro possibilidades, o nome do autor de Frankenstein. Minutos antes, amigas na plateia diziam apostar nele pela sua cultura geral. Ele definia-se como pessoa que lê.
As opções eram Arthur C. Clarke, Bram Stoker, Mary Shelley e H. G. Wells. O rapaz não teve a tradicional hesitação entre Shelley e Stoker — rejeitou de imediato a escritora porque, palavras suas, não lhe parecia que uma mulher pudesse escrever um livro daqueles.
Depois de ter recorrido a uma ajuda que reduziu as escolhas a dois nomes (precisamente Shelley e Stoker), manteve-se na rejeição de Mary, ainda que não fizesse ideia de quem era o outro.

Dir-se-ia que o concorrente seguiu uma intuição legitimada histórica e/ou estatisticamente, mas não é certo que ele conhecesse a história ou a estatística. As amigas na plateia abanavam a cabeça, desoladas com a escolha dele. Infelizmente, abanavam a cabeça porque sabiam que ele ia perder — não porque se sentissem ofendidas com a forma como rejeitou a opção feminina. É pena. Eu teria gostado de as ver mandá-lo bugiar quando ele regressasse entristecido com a sua má-sorte.

sábado, 28 de dezembro de 2013

No cinema 2: M’espanto às vezes

Antes de iniciar o filme, a ZON oferece-nos um sketch ou um trailer ou uma coisa qualquer com a dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio. Ao contrário do que eu esperava, a audiência não reage entusiasticamente. Não reage, sequer. Espreito a sala para ver se atrás de mim está toda a gente distraída com o iPhone ou a lamber no escurinho, à moda antiga, o parceiro do lado, mas na verdade cerca de dois quintos do público olha para a tela, sorumbaticamente.
Não sei que ilações tirar disto. As probabilidades de se encontrar numa sala da ZON trinta pessoas com bom gosto e sentido de humor sofisticado não são grandes. São maiores as de encontrar trinta pessoas que compraram um bilhete por recomendação clínica, para subirem o astral com um pouco de entretenimento. Mas, por outro lado, e atendendo ao efeito que o sketch tem no meu próprio estado de espírito, sei que não é preciso ter-se um diagnóstico médico de depressão para se desejar cortar os pulsos logo ali nos preliminares da noite.

Ponderando a apatia da audiência hesito assim entre sentir alegria por aquela putativa amostra de um país de gosto exigente ou chamar por prevenção três ou quatro equipas do INEM.

No cinema 1: Panem et circenses

Atento à arena, no filme The Hunger Games o público do pós-apocalíptico Capitólio espelha o povo de Roma na sua infantil necessidade de entretenimento e sede de sangue. Entre o passado e o futuro, a civilizada plateia de um cinema mastiga furiosamente pipocas e aborrece-se enquanto o enredo atrasa o ambicionado início da acção. Ao som de «let the games begin» a massa no ecrã parece ulular por ventriloquismo o alívio e o entusiasmo da audiência do filme. A quem escapa que The Hunger Games é talvez mais um momento tautológico da indústria do entretenimento do que um filme sobre a insubmissão.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O fosso entre o cais e a viagem

1. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. Uma lê, a outra lê-se. A primeira segura um espelho, a segunda, um livro. É legítima a confusão sobre quem faz o quê.

2. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. Um espelho e um livro. Ambas lêem, mas só uma avança para lá do frontispício, e não é seguro afirmar qual delas o faz.

3. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. A do espelho reforça o rouge, a outra enrubesce numa passagem de As Cinquenta Sombras de Grey.

4. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. O espelho e o livro são arrumados em bolsas idênticas quando por fim a composição chega e uma voz avisa para o fosso entre o cais e a viagem.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A carranca do vizinho

Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu. Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.

O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente que neste jogging arrastado em dia de alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!

domingo, 17 de novembro de 2013

Casal a vozes

Nos sessentas, bem-parecidos, melhor vestidos, ele tem voz de castrato e ela, por um daqueles mecanismos compensatórios da natureza ou pelo espírito de contradição habitual entre alguns casais, dir-se-ia que imita Tom Waits. São por isso um par curioso mas verdadeiramente complementar. A cantar a vozes não ficariam nada mal perante a dupla Simon & Garfunkel, mas a discutir desafiam os nossos mais embaraçosos preconceitos. Sobretudo quando ele guincha que as mulheres são todas iguais e ela, com uma baforada e voz cava, lhe chama machista de merda.

Amigos

São clientes um do outro e como a jornada de trabalho se prolongasse acabaram a jantar juntos. Entre as manteiguinhas e o prato foram as juras de amizade. «Tu sabes que eu sou teu amigo.» «Fiz aquilo porque sou teu amigo.» «Com os meus amigos é assim.» «Digo-te isto porque sou teu amigo.» «Se não fossemos amigos…» À sobremesa a amizade entrara num outro nível. «Ouve, eu sou teu amigo!» «Se és meu amigo…» «Um amigo não…» «Não é por seres meu amigo que…» «Teu amigo o caralho!» Depois do café e do bagaço tiveram de ser separados pelo chefe de mesa, com a ameaça de que chamaria a polícia. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O amor em Portugal

— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.

Hermenêutica futebolística

O amigo chegou, encomendou a sandes e a mini ao balcão e virou-se para a TV, onde passava um jogo de campeonato estrangeiro. O outro, quando se deu conta, arrastou-se lá do fundo e, depois do cumprimento, atirou:
— O árbitro está a ser tendencioso a favor dos azuis.
O tom era neutro, indiferente, de quem invoca as condições climatéricas para início de conversa.
Reflectindo nas palavras, fiquei na dúvida se aquela observação de circunstância significava que:
a) É possível dedicar-se uma atenção mecânica mas minuciosa a um jogo de futebol mesmo que se desconheça os clubes ou eles não sejam suficientemente importantes para merecerem ser fixados;
b) A parcialidade da arbitragem ou a crença de que há parcialidade na arbitragem são tão inerentes aos jogos quanto a rotundidade da bola;
c) Os rituais de desculpabilização e a hermenêutica televisiva mudaram o foco do jogo para a incidentalidade.
d) O autor da observação era um irredimível benfiquista.

Mas, pensando bem, talvez fosse apenas verdade que o árbitro estava a ser tendencioso a favor dos estrunfes.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Da praxe no parque à escatologia: ensaio taxonómico sobre a academia

A propósito de uma sucessão de casos, ou antes, da cobertura jornalística de casos de francos excessos nas praxes académicas, e em sequência de uma débil pressão social ou de uma réstia de escrúpulos, algumas universidades lá assumiram que lhes cabiam desempenhar um papel, não exactamente na formação de carácter dos seus alunos (não exageremos), mas de moderação da selvajaria. Passaram a existir regras um pouco mais restritivas para a praxe em alguns campus. Como em certas cidades mais progressivas do farwest, os alunos foram convidados a deixar as armas no portão. Se querem brincar aos índios e cowboys, que o façam lá fora. A academia nada tem contra os tiroteios e a caça ao escalpe — desde que essas românticas actividades ocorram extramuros.

E também assim a academia volta as costas à comunidade, ao mesmo tempo que renega as suas incumbências fingindo que a sua jurisdição sobre o estudante é limitada pela vedação do campus.

Os grupos de praxe, aliás, parecem não caber no âmbito jurisdicional de nenhuma instituição, civil ou uniformizada. Desde que notoriamente envolvidos — quer como vítimas, quer como algozes — nessa fundamental ocupação dos vinte anos que é a praxe, é-lhes passado um livre-trânsito, uma espécie de carta de alforria para a ignomínia e o vandalismo, sem limitação de decibéis.

Se você, caro cidadão, dando-lhe na veneta, resolvesse, como por aqui se faz, chafurdar ou fazer bodyboard na relva húmida de um parque até transformar o círculo do seu enchafurdamento num lamaçal, ou arrancar, com sequelas para o futuro botânico do sítio, qualquer vestígio de relva no percurso do seu reiterado deslizamento, provavelmente teria um funcionário municipal ou um agente da autoridade a censurar-lhe o comportamento (por mais genuinamente divertido que você estivesse) e a sacar do bloco de multas para lhe pedir contas. Tratando-se de grupos de praxe, as instituições do Estado quando muito abanam a cabeça com aquela indulgência que se oferece às crianças e aos malucos da terra.

Tempos houve em que as cidades médias viam no estudante universitário a galinha-dos-ovos-de-ouro e temiam incomodar a debicante espécie com os seus escrúpulos e as suas preocupações cívicas (se as tinham). Galinhas desta estirpe, achava a mentalidade mercantil dos burgos, deviam ser deixadas a cacarejar estridentemente antes de cada postura. A caca de galinha com que revestiam abundantemente as calçadas da urbe não devia ser censurada, pois saía do mesmo sítio de onde saíam os áureos ovos. A escatologia era assim preocupação dominante nestas pequenas ou médias comunidades, quer na sua acepção científica (relacionando a merda estudantil com a saúde económica do condado), quer na sua dimensão filosófica (o fim dos universitários era o fim do mundo).

Claro que da ignara e vil burguesia mercantil e das instituições dos burgos, constituídas tantas vezes por meros perus emproados ou galináceos da mesma cepa estudantil, não se esperariam conhecimentos zootécnicos. Era natural que desconhecessem serem inúteis as asas das aves poedeiras e, por isso, desadequado o temor melodramático quanto à fuga das galinhas. Seria talvez uma iconoclastia humilhante e traumática alguém informar as comunidades que os Gallus gallus aureos, vulgo estudantes universitários, arrendariam igualmente casas, se alimentariam quotidianamente e quotidianamente apanhariam pifos mesmo que algumas regras da civitas lhes fossem impostas.

Deve ter sido por isso, para não ferir o frágil amor-próprio e os doces sentimentos das forças vivas das terras universitárias, que a academia se demitiu de lançar luz sobre o assunto. (Talvez também para não melindrar o orgulho arrivista e vindicativo dos progenitores no entremez académico das suas crias.) Ou isso ou as reitorias, em vez de faróis, confundem os seus gabinetes insonorizados e de vistas bucólicas com torres de marfim.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»

Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo, possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara (chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado, que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui, entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor».

Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe operária?

Depois voltam à questão mamária, com gargalhadinhas e apalpões (agora em directo), e o escriba, de educação antiga, tenta ainda com mais denodo (mas não com melhores resultados) concentrar-se na leitura.

domingo, 25 de agosto de 2013

Baile copular

A churrasqueira no Verão põe uma esplanada e música em colunas. A música que as colunas debitam é muito obviamente destinada a atrair ouvidos emigrantes, convidando-os a gastar parte das suas economias do ano nuns grelhados à maneira. No entanto, de forma menos óbvia, a música que se ouve não está acertada com o repertório pimba actual, há uma décalage, ou talvez uma nostalgia de quem foi emigrante no seu tempo. A estética dominante é a de Linda de Suza, o nacional cançonetismo da diáspora dos setenta, uma ou outra música tradicional. A emoção em vez do trocadilho e da alusão sexual obsessiva. E isso é quase comovente, quase desclassificamos como foleira a música que da esplanada abaixo da janela vem trazer ao nosso próprio jantar pequeno-burguês memórias de romarias e bailaricos, de quando disfarçávamos de subversão a afinal indisfarçável adesão ao ímpeto bailador, o de colar ao nosso um ritmado corpo feminino, na evocação ou antecâmara dos prazeres sensuais que é na realidade o baile*.


*E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.

Titanic

Há uma nuvem de fuligem a cobrir tudo, encostas e aldeias. Cinzas caem do céu. A lua vê-se cor-de-laranja, cor-de-fogo, através deste nevoeiro febril, lúgubre. Ouvem-se sons de romaria feroz de onde sopra o vento e vem o fumo e ardem os montes — e algo nisso lembra a orquestra do Titanic.


*Inspirado por C. Chaves 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara ou A curiosidade no processo evolutivo

Depois dos casais vice-versa (registados aqui), temos os casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara. O seu amor e a sua identificação cumprem-se na forma como se inclinam para as mesmas curiosidades, soprados pela mesma brisa. Como olham levando a cabeça, o pescoço e os ombros atrás do olhar. Como parecem atravessar o vidro da montra que espreitam, esticar a cabeça e o corpo para entrar nas portas dos estabelecimentos que cruzam sem no entanto abandonar o passeio diletante pelas ruas da cidade. São a versão transeunte do fab four homem-elástico, a sua versão casal-em-passeio-nocturno-pós-prandial. Vemo-los esticar o pescoço para os pratos e os menus de quem ainda come nas esplanadas que eles cruzam; virar em sincronia aquática as cabeças para a gente que passa.

Dir-se-ia que a característica que os define e une mais enquanto casal é a elasticidade, síncrona e por vezes quase frenética, que exibem do torso para cima, mas há quem defenda que é apenas a curiosidade. A curiosidade moldando o corpo. Os seus descendentes, se eles legarem também o gene indiscreto per saecula, serão como pequenas girafas balanceando na ponta de um longo pescoço uma pequena cabeça de olhos protuberantes que não perdem pitada da vida na savana.