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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A carranca do vizinho

Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu. Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.

O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente que neste jogging arrastado em dia de alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!

domingo, 17 de novembro de 2013

Casal a vozes

Nos sessentas, bem-parecidos, melhor vestidos, ele tem voz de castrato e ela, por um daqueles mecanismos compensatórios da natureza ou pelo espírito de contradição habitual entre alguns casais, dir-se-ia que imita Tom Waits. São por isso um par curioso mas verdadeiramente complementar. A cantar a vozes não ficariam nada mal perante a dupla Simon & Garfunkel, mas a discutir desafiam os nossos mais embaraçosos preconceitos. Sobretudo quando ele guincha que as mulheres são todas iguais e ela, com uma baforada e voz cava, lhe chama machista de merda.

Amigos

São clientes um do outro e como a jornada de trabalho se prolongasse acabaram a jantar juntos. Entre as manteiguinhas e o prato foram as juras de amizade. «Tu sabes que eu sou teu amigo.» «Fiz aquilo porque sou teu amigo.» «Com os meus amigos é assim.» «Digo-te isto porque sou teu amigo.» «Se não fossemos amigos…» À sobremesa a amizade entrara num outro nível. «Ouve, eu sou teu amigo!» «Se és meu amigo…» «Um amigo não…» «Não é por seres meu amigo que…» «Teu amigo o caralho!» Depois do café e do bagaço tiveram de ser separados pelo chefe de mesa, com a ameaça de que chamaria a polícia. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O amor em Portugal

— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.

Hermenêutica futebolística

O amigo chegou, encomendou a sandes e a mini ao balcão e virou-se para a TV, onde passava um jogo de campeonato estrangeiro. O outro, quando se deu conta, arrastou-se lá do fundo e, depois do cumprimento, atirou:
— O árbitro está a ser tendencioso a favor dos azuis.
O tom era neutro, indiferente, de quem invoca as condições climatéricas para início de conversa.
Reflectindo nas palavras, fiquei na dúvida se aquela observação de circunstância significava que:
a) É possível dedicar-se uma atenção mecânica mas minuciosa a um jogo de futebol mesmo que se desconheça os clubes ou eles não sejam suficientemente importantes para merecerem ser fixados;
b) A parcialidade da arbitragem ou a crença de que há parcialidade na arbitragem são tão inerentes aos jogos quanto a rotundidade da bola;
c) Os rituais de desculpabilização e a hermenêutica televisiva mudaram o foco do jogo para a incidentalidade.
d) O autor da observação era um irredimível benfiquista.

Mas, pensando bem, talvez fosse apenas verdade que o árbitro estava a ser tendencioso a favor dos estrunfes.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Da praxe no parque à escatologia: ensaio taxonómico sobre a academia

A propósito de uma sucessão de casos, ou antes, da cobertura jornalística de casos de francos excessos nas praxes académicas, e em sequência de uma débil pressão social ou de uma réstia de escrúpulos, algumas universidades lá assumiram que lhes cabiam desempenhar um papel, não exactamente na formação de carácter dos seus alunos (não exageremos), mas de moderação da selvajaria. Passaram a existir regras um pouco mais restritivas para a praxe em alguns campus. Como em certas cidades mais progressivas do farwest, os alunos foram convidados a deixar as armas no portão. Se querem brincar aos índios e cowboys, que o façam lá fora. A academia nada tem contra os tiroteios e a caça ao escalpe — desde que essas românticas actividades ocorram extramuros.

E também assim a academia volta as costas à comunidade, ao mesmo tempo que renega as suas incumbências fingindo que a sua jurisdição sobre o estudante é limitada pela vedação do campus.

Os grupos de praxe, aliás, parecem não caber no âmbito jurisdicional de nenhuma instituição, civil ou uniformizada. Desde que notoriamente envolvidos — quer como vítimas, quer como algozes — nessa fundamental ocupação dos vinte anos que é a praxe, é-lhes passado um livre-trânsito, uma espécie de carta de alforria para a ignomínia e o vandalismo, sem limitação de decibéis.

Se você, caro cidadão, dando-lhe na veneta, resolvesse, como por aqui se faz, chafurdar ou fazer bodyboard na relva húmida de um parque até transformar o círculo do seu enchafurdamento num lamaçal, ou arrancar, com sequelas para o futuro botânico do sítio, qualquer vestígio de relva no percurso do seu reiterado deslizamento, provavelmente teria um funcionário municipal ou um agente da autoridade a censurar-lhe o comportamento (por mais genuinamente divertido que você estivesse) e a sacar do bloco de multas para lhe pedir contas. Tratando-se de grupos de praxe, as instituições do Estado quando muito abanam a cabeça com aquela indulgência que se oferece às crianças e aos malucos da terra.

Tempos houve em que as cidades médias viam no estudante universitário a galinha-dos-ovos-de-ouro e temiam incomodar a debicante espécie com os seus escrúpulos e as suas preocupações cívicas (se as tinham). Galinhas desta estirpe, achava a mentalidade mercantil dos burgos, deviam ser deixadas a cacarejar estridentemente antes de cada postura. A caca de galinha com que revestiam abundantemente as calçadas da urbe não devia ser censurada, pois saía do mesmo sítio de onde saíam os áureos ovos. A escatologia era assim preocupação dominante nestas pequenas ou médias comunidades, quer na sua acepção científica (relacionando a merda estudantil com a saúde económica do condado), quer na sua dimensão filosófica (o fim dos universitários era o fim do mundo).

Claro que da ignara e vil burguesia mercantil e das instituições dos burgos, constituídas tantas vezes por meros perus emproados ou galináceos da mesma cepa estudantil, não se esperariam conhecimentos zootécnicos. Era natural que desconhecessem serem inúteis as asas das aves poedeiras e, por isso, desadequado o temor melodramático quanto à fuga das galinhas. Seria talvez uma iconoclastia humilhante e traumática alguém informar as comunidades que os Gallus gallus aureos, vulgo estudantes universitários, arrendariam igualmente casas, se alimentariam quotidianamente e quotidianamente apanhariam pifos mesmo que algumas regras da civitas lhes fossem impostas.

Deve ter sido por isso, para não ferir o frágil amor-próprio e os doces sentimentos das forças vivas das terras universitárias, que a academia se demitiu de lançar luz sobre o assunto. (Talvez também para não melindrar o orgulho arrivista e vindicativo dos progenitores no entremez académico das suas crias.) Ou isso ou as reitorias, em vez de faróis, confundem os seus gabinetes insonorizados e de vistas bucólicas com torres de marfim.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»

Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo, possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara (chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado, que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui, entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor».

Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe operária?

Depois voltam à questão mamária, com gargalhadinhas e apalpões (agora em directo), e o escriba, de educação antiga, tenta ainda com mais denodo (mas não com melhores resultados) concentrar-se na leitura.

domingo, 25 de agosto de 2013

Baile copular

A churrasqueira no Verão põe uma esplanada e música em colunas. A música que as colunas debitam é muito obviamente destinada a atrair ouvidos emigrantes, convidando-os a gastar parte das suas economias do ano nuns grelhados à maneira. No entanto, de forma menos óbvia, a música que se ouve não está acertada com o repertório pimba actual, há uma décalage, ou talvez uma nostalgia de quem foi emigrante no seu tempo. A estética dominante é a de Linda de Suza, o nacional cançonetismo da diáspora dos setenta, uma ou outra música tradicional. A emoção em vez do trocadilho e da alusão sexual obsessiva. E isso é quase comovente, quase desclassificamos como foleira a música que da esplanada abaixo da janela vem trazer ao nosso próprio jantar pequeno-burguês memórias de romarias e bailaricos, de quando disfarçávamos de subversão a afinal indisfarçável adesão ao ímpeto bailador, o de colar ao nosso um ritmado corpo feminino, na evocação ou antecâmara dos prazeres sensuais que é na realidade o baile*.


*E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.

Titanic

Há uma nuvem de fuligem a cobrir tudo, encostas e aldeias. Cinzas caem do céu. A lua vê-se cor-de-laranja, cor-de-fogo, através deste nevoeiro febril, lúgubre. Ouvem-se sons de romaria feroz de onde sopra o vento e vem o fumo e ardem os montes — e algo nisso lembra a orquestra do Titanic.


*Inspirado por C. Chaves 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara ou A curiosidade no processo evolutivo

Depois dos casais vice-versa (registados aqui), temos os casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara. O seu amor e a sua identificação cumprem-se na forma como se inclinam para as mesmas curiosidades, soprados pela mesma brisa. Como olham levando a cabeça, o pescoço e os ombros atrás do olhar. Como parecem atravessar o vidro da montra que espreitam, esticar a cabeça e o corpo para entrar nas portas dos estabelecimentos que cruzam sem no entanto abandonar o passeio diletante pelas ruas da cidade. São a versão transeunte do fab four homem-elástico, a sua versão casal-em-passeio-nocturno-pós-prandial. Vemo-los esticar o pescoço para os pratos e os menus de quem ainda come nas esplanadas que eles cruzam; virar em sincronia aquática as cabeças para a gente que passa.

Dir-se-ia que a característica que os define e une mais enquanto casal é a elasticidade, síncrona e por vezes quase frenética, que exibem do torso para cima, mas há quem defenda que é apenas a curiosidade. A curiosidade moldando o corpo. Os seus descendentes, se eles legarem também o gene indiscreto per saecula, serão como pequenas girafas balanceando na ponta de um longo pescoço uma pequena cabeça de olhos protuberantes que não perdem pitada da vida na savana.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Visitando buracos nas Pedras Salgadas


Enquanto no Palace Hotel de Vidago os velhos hóspedes ou os seus descendentes podem matar saudades fazendo à grande um check-in no novo velho Palace, nas Pedras Salgadas têm de se converter a um estilo mais moderno, minimalista e nórdico de veraneio, adaptando o velho esqueleto aristocrata a uma versão luxuosa do estilo Ikea: os bungalows ou eco houses que a Unicer providenciou para ali.
Não havia nas Pedras, dir-se-á, hotéis com o arcaboiço monumental do Palace de Vidago e as casas que a Unicer instalou são um exemplo de bom gosto e respeito pelo património ambiental. (Se não tivesse nascido a cinquenta metros do parque e ali não almoçasse aos domingos, decerto as minhas fantasias apocalípticas teriam já passado por fins-de-semana ecológicos acima das minhas posses no Nature Park das Pedras Salgadas.) Mas não se deve esconder que o saudosismo ou o ímpeto arqueológico de antigos hóspedes é ludibriado nas Pedras como o não é em Vidago.
O Universal, belíssimo exemplar, podia ser uma das jóias da coroa de qualquer empresa, mas definha, em parte irreversivelmente. O Grande Hotel está entaipado. O Avelames deu lugar a um embaraçoso morro de relva sob o qual se albergam os serviços de apoio às eco houses. No lugar do Hotel do Norte, onde havia até há pouco uma inverosímil clareira, há agora um court de ténis que Pires de Lima mandou concluir à pressa para Passos Coelho inaugurar. A Pensão do Parque desapareceu. O Bazar Fotográfico idem. Ali perto nas Romanas foi a Casa do Chá que se vaporizou subitamente (um domingo estava lá, no seguinte não estava).
O turismo de nostalgia nas Pedras faz-se, portanto, apontando buracos, clareiras, ocos. Como vi o neto de um velho hóspede, com uma criança pela mão, fazer há dias. «O bisavô dormiu ali em cima [Avelames] e o papá nos últimos anos dormiu aqui [Pensão do Parque]». “Aqui” é agora um parque infantil e a menina espreitou com suspeita ou ressentimento o pai: que direito tivera ele de pernoitar num baloiço que agora negava à filha?

O turista avisado mune-se de máquina fotográfica e acorre célere às Pedras. Quando volta, ou se se atrasa, já não encontra edifícios que antes pareciam fazer parte do ADN da terra, mesmo que em ruínas. Nem edifícios nem fundações, apenas vazios onde rapidamente cresce a erva.

A mim este confronto com inesperada arqueologia forneceu já matéria para um romance e em parte para outro. Mas o mundo passava melhor sem os meus livros do que sem as termas das Pedras Salgadas.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Episódios televisivos (2)

No telejornal da RTP, a repórter consegue aguentar sem se rir (e sem se suicidar) durante todos os longos minutos que dura a premente reportagem sobre uma “praga” de mosquitos no Algarve. Entrevista barmen, clientes, transeuntes e banhistas com a mesma expressão severa dos colegas que são vistos à porta de ministérios ou de sedes de partidos tentando criar uma reportagem sem assunto sobre pessoas ausentes. Não se desfez nem quando pediu a um rapaz que exibisse perante a câmara o vermelhão de uma terrível e decerto fatal picadela de melga.
Se aos repórteres não lhes fixam os músculos faciais com um veneno paralisante antes de irem para o ar, é porque há nas televisões cursos sobre controlo do riso — e obliteração da auto-estima.

No estúdio, José Rodrigues dos Santos e os seus pavilhões auriculares lideravam a notícia com o entusiasmo do costume, mas dele sabemos ser capaz de transformar qualquer crepuscular e estival invasão de pernilongos numa ribombante Tempestade no Deserto. É do género emotivo e facilmente impressionável. Tome-se a forma como olha a sua obra literária. 

Episódios televisivos (1)

Na TVI, uma apresentadora de ar jovial e atitude picaresca, falando rápido demais e muito divertida com o seu trabalho numa qualquer feira ou romaria do país profundo, descobre com gritinhos histéricos que a vaca no curral por trás de si resolveu aliviar a bexiga. Tomando aquilo por um fenómeno do Entroncamento, a urbana e excitável menina resolve estar perante um momento alto televisivo e insiste no assunto, aos pulinhos e aos risinhos, mantendo o nível de histeria, chamando a atenção dos espectadores, puxando o braço do cameraman. Mais tarde no mesmo programa sobre os portugueses como eles são, a mesma extrovertida e agora ainda mais descontrolada rapariga fará semelhante cobertura televisiva do momento em que aquela ou outra vaca cumpre os seus ciclos biológicos aliviando em directo desta vez o intestino.

Sendo a vaca o único ser vivo com aspecto respeitável no recinto, suspeito que o olhar lacónico do animal escondia um espírito sarcástico, corrosivo, com talento para a metáfora endereçada — e sem receio da escatologia. Claro que a rapariga-apresentadora não estava familiarizada com tais subtilezas do intelecto, havia outro DNA nos seus cromossomas, estava noutro nível da evolução.


sábado, 27 de julho de 2013

Lyre Bird

Os vizinhos da esquerda e da direita têm as televisões sintonizadas no mesmo canal merdoso que entretém e lava o cérebro dos reformados deste país, um dos três canais merdosos que Rangel, Moniz & C. Lda. nos legaram. Como são bastante surdos (os vizinhos), têm geralmente o volume dos aparelhos no vermelho, e a essa circunstância irritante junta-se o delay, o atraso na recepção do sinal entre a TV à esquerda e a TV à direita. Resulta que se não me distraio o suficiente ouço a Júlia Pinheiro, a Fátima Lopes e as novelas em cânone, estão a imaginar o pesadelo.
Hoje apenas uma das televisões estava ligada e, talvez resultado da boa combinação entre Foster Wallace e um tinto carregado alentejano, de repente pareceu-me que o vizinho sul (o outro dormia a sesta) ouvia ‘Elephant’, das Warpaint.  Apurei o ouvido e foi difícil convencerem-me que era apenas mais uma pimbalhice que o vento distorcia ao ponto de fazer parecer música o que era apenas gargarejos de um cérebro aditivado com botox.

Liguei o portátil para vos dar conta deste fenómeno alentejano e acabei a pôr as meninas de Los Angeles a cantar. Para meu espanto, o vizinho acordado (o outro ressonava), que eu julgava surdo como um portão de quinta, no final da música continuou com o assobio do outro lado do muro a melodia principal de ‘Elephant’, como se fosse um conhecedor profundo da obra das Warpaint. Repeti a experiência com o mesmo resultado e concluí que, ao contrário do propagado por Moniz, Rangel & Sons, o povo não têm necessariamente mau gosto — ou que o vizinho tem alma de Lyre Bird.  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Insuficiências da juventude

Eles estão nos quarentas. Duas delas andam pelos trinta e a outra ainda não sabe o que é isso. As despesas da conversa correm sobretudo por conta deles e abordam dois tópicos: desporto e saúde. Eles fazem jogging, vão ao ginásio. Estão elegantes, planeiam maratonas. Já pesaram mais do que deviam e tiveram a respectiva ameaça de remédios para o colesterol. Agora fazem desporto e tomam atenção ao que comem. Falam durante um bocado de hambúrgueres, mas só pejorativamente, com detalhe de antigo agarrado. Comparam dietas de diferentes países, concluindo que por aqui se come mal (não exactamente do ponto de vista do paladar). Um deles exibe, como bilhete de lotaria premiado, o ticket de uma daquelas máquinas que medem tudo: massa corporal, peso, altura, pulsação, tensão arterial. Trocam informações sobre os últimos valores do colesterol. Falam de dores nos joelhos e nos tornozelos. E de exames, feitos e agendados. Banais TACs, mas também endoscopias e colonoscopias. Aqui começa a ser difícil distingui-los de reformados na sala de espera do centro de saúde. Discutem se dói, se não dói. Se a anestesia, que se paga à parte, mesmo estando isento, é uma necessidade ou uma mariquice. Falam da impressão ou emoção (nisto divergem) de ver no ecrã o interior das próprias entranhas, da dificuldade e do suor da médica nas manobras de aproximação ao intestino delgado, da limpeza que o exame revelou (resultado de uma preparação bem feita).

Os elementos femininos vão intervindo a espaços, tentando fazer humor, aduzindo testemunhos de pais ou tios, experiências de que ouviram falar. A mulher mais nova há muito que mudou de cadeira e se recostou à sombra de uma sebe, com ar melancólico, observando o voo dos insectos à luz dos candeeiros. Quando finalmente dão por isso, as outras metem-se com ela, perguntam-lhe o que se passa. Ela sai do silêncio e do torpor com ânsia de palrar: está farta desta conversa, só falam de coisas de que ela não sabe, de que não percebe nada. Di-lo com uma expressão sinceramente desolada, de quem queria participar no convívio e se sente frustrado por não ter as ferramentas, os argumentos — e não, como podia, a vangloriar-se da sua juventude.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A hora dos papagaios

Três mulheres, um petiz. Chegam e a mais velha instala-se com o rapaz num dos bancos de balouço. A mulher tem um ar apatetado e o timbre instável de um adolescente na mudança de voz. O miúdo utiliza frequentemente a expressão «credo» com uma entoação e uns trejeitos que parecem trair
a) excesso de convívio com a mulher mais velha (a quem a expressão assenta perfeitamente)
b) uma precoce postura irónica, zombeteira.
Olhamos-lhe para a cara, da mesma linhagem da dela, e inclinamo-nos para a hipótese do convívio, o puto como papagaio inconsciente e sem dolo da tia ou avó.
Depois as outras duas mulheres sentam-se nas imediações e ela, dando às pernas no balouço, enche o peito de ar a despropósito:
— Se fosse eu, punha os desempregados a semear batatas ali naquele campo. Se recusassem, não recebiam um tostão. Os desempregados e os do rendimento mínimo. Haviam de ver.
As correntes gemem com o vaivém e a sua voz concorre com elas na mesma frequência de agudos oxidados.
— Se fosse eu que mandasse, era assim. Eles não iam gostar, pois está claro, mas comigo trabalhavam, se queriam.
As outras, como se a levassem a sério, falam entre si de agricultura, naquele tom vago e ocioso de domingo à tarde. Fazem cálculos por alto a despesas e lucros com certa hipótese de lavoura e parecem concluir pela inutilidade da empreitada.
Ela não as ouve ou não desarma.
— Eu dava-lhes o desemprego! Se fosse eu que mandasse?
O miúdo tornou-se irrequieto e exigiu atenção. A diatribe da mulher interrompeu-se quando ela se ia referir aos funcionários públicos. Não pudemos ouvir que impropérios teria no seu repertório para esta outra espécie.
Podemos conjecturar que se tratava de uma seguidora atenta do Governo, possivelmente uma empreendedora de sucesso, ou alguém cujo mérito no trabalho deixa longe o espectro do desemprego.
Ou podemos correr o risco do preconceito (quem vê caras não vê corações?) e não pôr de parte a possibilidade de se tratar de uma reformada, quiçá da função pública, fascinada pela retórica tribal e o olhito azul de Passos Coelho. As mentes simples tendem a papaguear o que ouvem. Não é, rapaz?
— Credo!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Passarões

No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.

domingo, 10 de março de 2013

Lugares-comuns da nacionalidade

À entrada do supermercado, um junkie que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental, substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos, masculinos: os croissants como jóia possível para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente e futura.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Tomando nota

Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta, porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde toma nota dos negócios da marijuana e do resto.

Os corredores e os melancólicos

Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram. Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre que posso acumulo em mim os dois.