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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Dançando em frente à televisão

Não muito depois da tropa, há cinquenta e tal anos, e mesmo não tendo casado, adoptou para sempre os costumes e os modos de um certo tipo de homem responsável e convencional do seu tempo: a circunspecção, o pudor, a respeitabilidade. Todo o resto da sua vida passou a encarar a folia e o prazer como tolices, desvios da juventude. Olhava-os e falava deles não exactamente, ou não sempre, com censura, mas com paternalismo (nos melhores dias) ou com a condescendência que se tem com os doidos, uma condescendência por vezes contrariada, como contrariada era a sua aceitação de algumas das liberdades de Abril.
Mas como homem do seu tempo (ou como homem tout court) tinha também uma vida dupla. A pública, respeitável e austera, e a privada, onde se concedia, pelo menos ao nível do pensamento e do desejo, os direitos próprios dos machos, como ele os entendia. O tipo de pessoa que idealizava e representava em sociedade via ser-lhe aliviado um pouco o regime austero na intimidade. Ninguém diria, por exemplo, que adquiria pornografia, e no entanto adquiriu-a até à entrada da velhice. Ele, o indivíduo severo que tinha sempre uma repreensão pronta para as poucas-vergonhas na TV e para a brejeirice em certas cançonetas.

Hoje, vendo as actuações musicais de um programa da TVI, confessou para quem o ouvia que com frequência se deixa agora dançar sozinho em frente à televisão. Os que o conhecem não o imaginam a fazer tal, com os seus cem quilos, os seus movimentos lentos, paquidérmicos, os seus oitenta e muitos anos, os seus óculos e pose de Marcelo Caetano. «E correm-me lágrimas ao ouvir estas cantigas», reforça para os incrédulos.
As cantigas da televisão, com a sua monomania sexual e as suas bailarinas de coxa roliça ao léu, são do género que ele vilipendiaria na meia-idade. Têm, no entanto, a base rítmica, os acordes, a simplicidade de espírito e por vezes o fraseado na concertina de outras melodias populares na sua juventude. É decerto isto que ele ouve lá na sua televisão de velho solitário — não os sucedâneos de lupanar raiano que a TVI apresenta.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

1. Somos Portugal

Na TV, um tipo que ao que parece se distinguiu numa dupla chamada «Quim Roscas e Zeca Estacionâncio», apresenta um programa onde se sucedem cançonetistas epilépticos em ruidoso playback, assistidos por bailarinas de boîte com mamilos eriçados pelo frio Barrosão (é em Boticas). Um logótipo num dos cantos do ecrã diz que a coisa se chama «Somos Portugal».
Num primeiro momento, rebelo-me contra aquele abuso. Imagino uma certa petulância na proclamação. Depois caio em mim. Claro que aquela gente é Portugal. Eles e o povo que assiste, regalado. Os que ficamos de fora não chegamos nem para fazer uma tribo, quanto mais um país. De resto, temos sentimentos tão pouco nacionalistas que não nos devemos indignar se um destes dias nos tentarem exilar.

2. A TV do Quim Roscas

A certa altura, desfilam meia dúzia de quadrigas e uma centúria romana na TV do Quim Roscas — não me perguntem a que propósito, diria que o Carnaval ainda vem longe. Um programa com um título tão assertivo, aparentemente tão mobilizador, merecia uma Legião de garbosos guerreiros, mas o que ali se vê faz lembrar o punhado de legionários que, nas histórias do Astérix, aguarda tremendo a chegada dos gauleses. Fardas desalinhadas, capacetes à banda, uma timidez e um fascínio risonhos de indígenas perante as câmaras. São Portugal.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Mais abaixo na rua e no nevoeiro

Mais abaixo na rua e no nevoeiro um cartaz intrigante numa vitrina informa que «No jogo da vida, o casamento é o ás de copas» e, sem qualquer relação excepto um inesperado traje de boda (fato, gravata, camisa branca, nada de anoraques, sobretudos ou cachecóis numa noite de zero graus) e ar de esposo diligente, um tipo apanha do passeio com um saco plástico e raro denodo os dejectos do cão que trouxe a passear.
Se tiver de julgar por este exemplo, talvez o casamento seja mais o ás de espadas, coisa para bravos imunes ao frio e aos comentários da urbe provinciana.

Saído do nevoeiro II

Entretanto chega um outro tipo ao balcão, sem mistérios nem sugestões. Um daqueles que se limitam a pedir mais um fino e a fechar os olhos em frente a ele, cabeceando sem ambiguidades, saindo depois em ziguezagues e cantarolando baixinho uma canção pimba de desencontros amorosos ou, premonitoriamente, de tragédias na auto-estrada.

Saído do nevoeiro

O termómetro ameaça com zero graus. A neblina começa por sitiar a cidade barrando os flancos poente e nascente e depois sobe dos rios e encobre as ruas. Ele entra no estabelecimento para fugir do frio nocturno — percebe-se ao cabo de uns segundos —, mas as suas roupas, as suas barbas e o seu cabelo (negros) não estão suficientemente desalinhados para que o classifiquemos sem dúvidas como um sem-abrigo. Ou, como é mais usado por aqui, um «bêbado».
Varre o interior com um olhar que não implora nem acusa e senta-se numa das duas mesas livres à entrada, debaixo do plasma que transmite o jogo da noite. De mãos nos bolsos do casaco, fixa o tampo de fórmica e recolhe-se como um monge que meditasse e aguardasse digna e pacientemente a distribuição do caldo. Por acção da temperatura agradável da sala o seu corpo amolece, inclina-se, a cabeça vai descendo de encontro à mesa. Não como se cabeceasse à lareira: é um movimento lento mas contínuo, sem recuos ou estremeções. Os taxistas e outros habitués do café vão fazendo no intervalo das jogadas apostas sobre se chegará a bater ou não com o nariz na mesa. Não lhes ocorrem outras ideias sobre a personagem que saiu do nevoeiro. Apenas a chalaça indiscreta, sobranceira, pueril. O empregado que passa dá uma palmada na mesa para o acordar e avisar que a mesa faz falta.
De súbito, um cliente avança de uma posição discreta no balcão e com modos suaves pergunta-lhe se quer uma sopa. Ele não reage com indignação ressentida, fermentada a álcool, nem fica humildemente agradecido. Estremunha um pouco e depois informa em voz baixa, neutra, que preferia um prato de batatas fritas. Os taxistas mantêm um olho indeciso no plasma e outro nas barbas do Rasputine. O cliente anui com naturalidade, batatas fritas é uma opção nutricional como outra qualquer.
Daquele momento em diante, o homem saído do nevoeiro é também um cliente, mesmo que a expensas de outrem, e o empregado age em consonância. Abandona os modos paternalistas e censórios, traz-lhe uma toalha de papel, talheres e guardanapo. Parece até afectuoso, talvez contagiado pelo gesto do cliente anónimo, que entretanto retomou sem considerandos o seu lugar na linha que do balcão assiste ao Estoril-Benfica.
Mais alguém se sentiu contagiado ou achou que faltava naquela mesa acompanhamento líquido e uma taça de vinho tinto é servida, sem gracejos nem moralismos. O das barbas come as batatas e bebe o vinho. Não procura colocar o copo a jeito de um encore, ainda que decerto lhe não caísse mal. No fim, limpa-se minuciosamente com o guardanapo e, sem palavras nem emoções aparentes, mendigo de passagem ou incógnito Rei Artur regressado da Cruzadas, volta com dorida fleuma para o nevoeiro de onde saiu.

Estranhamente, cá dentro ninguém fica a discutir a lata do indigente ou a identidade do nobre, e não sei se deva atribuir isso ao nevoeiro se a mais um golo do Benfica.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (5)

Autocarros

Na verdade, não posso censurar a senhora do casaco de peles que protagoniza a entrada anterior deste diário. O meu próprio rabo está longe de apreciar a ideia de se fazer transportar em autocarro. Desde que há vinte anos, durante quinze meses, fui cliente demasiado assíduo das rodoviárias nacionais, ganhei uma profunda aversão a essa forma de viajar, embora lhe reconheça as virtudes ecológicas. Na altura era um assalariado do Exército, e os vinte e cinco contos que recebia não davam para passagens de avião (que também não estavam disponíveis, de qualquer modo).
Quando se é militar, dorme-se em qualquer lado e em qualquer posição, diz a lenda, mas eu era um militar pouco convicto e o meu sono era demasiado leve e cheio de pesadelos. As viagens à sexta e ao domingo eram para mim horas de tortura, incluindo a tortura do sono. Tanto que ficar de serviço ao fim-de-semana significava um alívio que estupidamente não reconhecia. O Exército obrigava-me a fazer muitas coisas, mas não a ir a casa nas folgas. E até me dava de comer se eu decidisse passar o sábado e o domingo no quartel. Mas eu achava que gastar metade do tempo em viagens horríveis e à espera de ligações ferroviárias e rodoviárias que demoravam eternidades me faria esquecer as agruras da vida militar. Não fazia. Fazia-me enjoar e estourar o pré em cerveja (e bifanas, nas raras vezes que sobrava dinheiro para comida).

De maneira que andei duas décadas a fugir de autocarros. (Não ganhei a mesma aversão ao comboio, talvez porque só os autocarros me davam aquele vago mas garantido enjoo, que permanecia horas depois da viagem.) Quando há três ou quatro anos uma viagem para o Vietname implicava ir na Rede de Expressos até Madrid, não fiquei triste por o motorista se ter esquecido de nós numa deserta paragem do Alentejo à meia-noite. Parecia-me até haver uma certa lógica naquilo. Eu não gostava de autocarros; eles retribuíam a animosidade deixando-me apeado. Tendo em consequência viajado de carro, com todas as despesas pagas, incluindo o parque de estacionamento durante quinze dias em Madrid-Barajas, senti-me a enganar a empresa transportadora. Não era só a estupefacção por uma empresa nacional assumir de pronto e voluntariamente um erro e decidir em tempo útil medidas práticas e compensatórias para o cliente apeado; era uma sensação de culpa, como se eu tivesse planeado aquilo tudo para conseguir fazer com que a viagem de carro fosse uma inevitabilidade paga pela Rede de Expressos.

De lá para cá, mérito da troika e do Governo, tenho recorrido ao autocarro mais vezes do que as que desejaria — terminando sempre com o mesmo velho enjoo. Animo-me contando as páginas que leio em cada viagem e que não leria se viajasse de carro. Ou pensando na investigação antropológica e literária que oito ou nove horas em autocarros permitem.
Permitem alguma, reconheço. (Mas não tão confortável quanto viajar o mesmo número de horas ou o dobro num autocarro no Vietname; ali as viaturas de longo curso possuem uma espécie de beliches que nos permitem dormir mais ou menos estendidos, se ultrapassarmos a crise claustrofóbica, e acordar com dores no pescoço ou nas pernas — em vez de embrulhados do estômago.)

Na penúltima viagem que fiz para atravessar a nossa bem-amada pátria, saiu-me um tipo que passou a primeira hora a agradecer aos estudantes universitários que connosco viajavam (e ele não conhecia pessoalmente) o sucesso da sua carreira. Devia-lhes a eles o crescente número de contratos e a recente notoriedade de que desfrutava. Vestia um fato comprado nos chineses, com uma gravata fina de cabedal, e, com os seus trinta anos e figura franzina, usava um bigodinho de actor porno. Era um cantor pimba — os estudantes sabem onde está o talento.
As restantes sete horas, o do fato passou-as a negociar sexo pelo telefone. Não me entendam mal: o engate estava consumado, percebeu-se logo na primeira chamada. O que acontecia era que a rede (dele ou dela) estava fraca e a ligação estava sempre a cair. Também tinha havido um arrufo qualquer e eles tinham de passar por todo o processo de acusações, amuos, chantagens, ameaças, declarações e beijinhos repenicados antes de tratarem do negócio pendente. Como a chamada caía sempre que as coisas pareciam avançar e eles tinham tempo (o cantor não ia a lado nenhum antes de chegar a Bragança e ela também parecia estar com tempo e disposição implicante), de cada vez que o telefone dele repetia um hit foleiro (talvez o último sucesso do dono como toque personalizado) as coisas voltavam ao início. Foi preciso chegarmos a Penacova para que o tipo começasse finalmente a soletrar o que pretendia dela. E o que pretendia era S. E. X. O. Assim mesmo, soletrado. Ésse, é, xis, ó. Cinco vezes soletrado, tantas quanto as que a chamada caiu entre Penacova e Castro D’Aire. Ou nos estava a tomar a todos que o ouvíamos ali no autocarro por parvos incapazes de decifrar o seu acrónimo ou aquilo era já uma forma de sexo tântrico à distância. Deve ter tido o seu orgasmo por alturas de Bigorne porque adormeceu como um anjo e até Vila Real não se olhe ouviu mais um pio. Finalmente. Juro que alguns de nós tinham estado a pensar fazer uma colecta para o mandar às putas numa das paragens.

Hoje a viagem começou com um rapaz de óculos e sete anos, um saco carregado de Angry Birds, um telemóvel com jogos dos mesmos bichos e som de flippers e uma inesgotável tendência para falar. Mal me sento num autocarro, enfio as trombas no jornal ou no livro para evitar pendurar numa orelha o letreiro roubado no hotel: do not disturb. Se não trago um desses comigo, escrevo numa folha A4: «Este passageiro dispensa conversas, obrigado». Por vezes basta-me mostrar a cara que Deus me deu. Com o puto nenhum dos três métodos deu resultado. Devia estar a necessitar de mais dioptrias. A minha sorte foi que a avó, do outro lado da coxia, estava profundamente empenhada no seu papel educacional e respondia por mim às indagações do puto, antes que eu tivesse de lhe mostrar uma outra espécie de angry bird. A nossa conversa resumiu-se assim ao que se segue:

Puto: — Sabes o que eu gostava de ser quando for grande?
Eu: — …
Puto: — Aposto que não sabes.
Eu: — …
Puto: — Vou-te dizer: lambe-botas.
Avó: — Não sejas tolo.
Eu: — Excelente escolha.

O futuro lambe-botas não se coibiu, todavia, de me contar que o Natal não tinha corrido lá assim muito bem no que se referia a presentes. Tinham roubado a carteira ao pai em Espanha, com todos os cartões de crédito, e ele não conseguiu substituí-los em tempo útil. Estive para lhe perguntar, com um sadismo vingativo, se não tinha já idade para deixar de acreditar no Pai Natal e em histórias daquelas, mas depois ocorreu-me que o pai do puto tinha sido sensato ao resistir a contar a verdade sobre o Gaspar. Aos sete anos devemos ser poupados à merda do Homem-do-Saco, mesmo que sejamos uns chatos do caraças.

O resto daquela etapa da viagem foi pacífico, o puto finalmente desistiu de mim e azucrinou apenas a avó.

Puto: — Avó, viste o Star Wars?
Avó: — Não, não vi.
Puto: — Não viste A Guerra nas Estrelas?!...
Avó: — Ah, esse vi.
Puto: — E quem conheces da Guerra na Estrelas?
Avó: — O Mr. Spock.
Puto: — O Mr. Spock?!...
Avó: — Sim, um senhor com as orelhas muito grandes.
Puto: — Estás xexé?!...

***
Avó: — Quando tiveres uma namorada contas-me?
Puto: — Eu tenho uma namorada.
Avó: — Ai sim? E como se chama?
Puto: — Frankenzilla.
Avó: — Estás xexé?!...

Antes de Viseu, noite cerrada, o autocarro para subitamente junto a um café no meio de nenhures. O motorista informa, autoritário: «Dois minutos», e o passageiro começa de imediato a abrir a braguilha na sua correria para o quarto de banho. Regressa a apertar o cinto e com ar de duplo alívio. Tinha conseguido. No prazo.  
A meu lado, o passageiro que bebera uma das três cervejas que trazia no saco, com um gesto contrariado desistiu das restantes. Decerto pensou que se lhe tocasse a ele pedir uma paragem não prevista dois minutos seriam insuficientes.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (4)

São dois casais à mesa do almoço. Vão rilhando azeitonas e listando destinos de viagens. Singapura, China, Rússia, Vietname, Brasil, Dinamarca... Existe um país no mundo? Eles estiveram lá. É uma competição, mas como são amigos e o almoço é o último do ano, os ânimos estão pacificados. Contentam-se em ser montras de si mesmos, da sua vaidade, e quase não há discórdia ou contestação sobre a beleza de um destino ou a qualidade de um hotel defendidas pelo outro casal. Têm outros processos: sim, concedem que a coisa mencionada é excelente; mas, se lhes permitem, não podem deixar de assinalar uma outra excelência a poucos quarteirões dali. Ou na cidade ao lado. E aproveitam para introduzir um novo país.
Na Índia, a mulher do casaco de peles conseguiu cruzar toda a nação sem ter de usar uma casa de banho que não fosse a higienizada de um hotel ou restaurante incluídos no roteiro, tal o planeamento e a eficácia da agência de viagens. Louva tanto a empresa e insiste tanto no feito que ficamos com a ideia de que a agência de viagens lhe teria proporcionado um penico de ouro, se uma necessidade súbita a acometesse entre Varanasi e Jaipur.
Já na Finlândia, aliás um país de novos ricos, as coisas não correram tão bem. A senhora não gosta de viajar de autocarro, fica-lhe a doer horrivelmente o rabo. Por isso tinha-se mostrado um pouco horrorizada com a viagem de horas que a amiga disse ter feito entre Helsínquia e S. Petersburgo. Ela também andou de autocarro na Finlândia, mas num percurso mais pequeno, claro. O que não impediu que as coisas corressem mal. Houve uma avaria e ela e o marido ficaram duas horas inteiras à espera que a reparassem. Não enviaram um autocarro novo, fizeram-nos esperar no local, vejam lá vocês. Definitivamente, a Finlândia foi uma das piores viagens da sua vida. Paisinho cinzento e detestável. 

A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.

Diário de fim-de-ano (3)

Falando em horas extra, o mesmo monge-fantasma poderia já agora descer à Rua Infantaria 15 pelas sete da tarde que teria trabalho a fazer. As badaladas de um sino, quando coincidentes com a hora de fecho seja do que for, têm nos portugueses o mesmo efeito automático da sineta de Pavlov, e os espécimes em estudo nem sempre são aqui cães, ou sequer funcionários públicos. A mesma urgência de partir, a mesma antipatia e a mesma estupidez podem ocorrer em estabelecimentos privados. O visitante pode ser igualmente instado a despachar-se por um proprietário particular, e se quiser pagar as suas compras depois da sétima badalada pode receber como resposta a informação de que o multibanco já está desligado, sem que lhe seja proposta uma forma alternativa de pagamento. “Já fechámos, já passa das sete” (sim, já quase não se ouve o eco da última badalada), e isso justifica a expressão sobranceira, vingativa, vitoriosa da dona da loja de artesanato. Os turistas entreolham-se, desolados, intrigados, e deixam a mercadoria sobre o balcão, partindo convictos de que a senhora terá outras fontes de rendimento. De qualquer modo, como a loja até tem produtos de interesse e paira uma certa frustração no ar, os turistas partem também desejando cruzar-se com o monge que, descendo do Convento a chocalhar os ossos, virá por justiça transformar as noites da lojista num pesadelo.

Diário de fim-de-ano (2)

Já em Tomar conseguimos chegar ao centro histórico e ao Convento de Cristo sem necessidade de tomar grande contacto com a boçalidade urbanística do século XX. Ela existe, acompanha-nos ao longo das estradas, pressentimo-la a sitiar a cidade velha, na outra margem do Nabão, como uma horda de bárbaros às portas da urbe; vemo-la das muralhas do castelo, se por má sorte o nevoeiro levanta um pouco do véu.  Mas por enquanto, neste lado do rio, parece existir uma relativamente sã convivência entre os velhos muros e os modernas aspirações plebeias. Ao contrário de outras cidades portuguesas, o centro histórico de Tomar, tanto quanto se pode concluir numa visita curta, está razoavelmente vivo, tem comércio, serviços, gente.
Talvez esse espírito de convivência esteja exemplarmente expresso no centenário Paraíso, um desses históricos cafés centrais de amplo pé-direito e decoração imperial que certas terras deixam ruir e outras transformam em alguma coisa completamente diferente e em geral mais imbecil. O Café Paraíso tem de manhã as senhoras da sociedade a tomar o seu café ou chá, com os cônjuges mergulhados no Expresso ou no Diário de Notícias. Ao final da tarde, chegam para aperitivos e finos — com um livro ou um jornal aberto sobre a mesa, se não houver companhia para o debate — os últimos intelectuais do burgo. À noite, até às duas da manhã, juntam-se os pós-adolescentes noctívagos, uma rapaziada abundante que preenche toda a lotação e a certa altura transborda para a rua, engrossando à porta do Paraíso o botellón local.
Claro que Tomar não escapa incólume à fatalidade de ser portuguesa. Também o seu magnífico Convento precisa de ser assombrado; no caso, por algum monge que não esteja possuído por um espirito de funcionário público. Um que entre uivos e gemidos tenebrosos pudesse explicar ao staff do monumento que se o horário de fecho de um espaço é às cinco e meia não se tenta pôr os turistas na rua toda uma meia hora antes, não se eles já estão nos troços finais do percurso de visita. As diligências pós-fecho são para serem realizadas após o fecho. Se precisarem de renegociar o seu horário com a entidade patronal, façam-no. O turista paga pelo horário dele

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (1)

Assombrações

Não sei se D. Afonso, Conde de Ourém, era um desses nobres que juraram manter-se devotos dos costumes e das tradições até à morte ou se tinha ambição maior e tencionava depois do decesso permanecer em espirito a assombrar os vindouros, como é apanágio dos seus primos escoceses. Se teve isto na ideia, falhou: não consta nem no Correio da Manhã que Ourém seja uma terra assombrada. Não por antepassados tão distantes, pelo menos.
Ourém, ou antes, a Vila Nova de Ourém é uma terra feia que deve causar lancinantes dores de alma a um espírito vaidoso como o de D. Afonso. Alguém que em vida construiu um paço tão elegante e distinto como aquele que (ainda) se ergue na colina, com vistas bucólicas sobre a Serra de Aire e envolvência, deve certamente sofrer horrores com aquilo que no século XX fizeram com o vale e com a paisagem que podia admirar da sua moradia.
Um tipo até pode achar ridícula essa coisa de morrer e transformar-se numa alma penada que passa o resto da eternidade em camisa de dormir a arrastar correntes pelas assoalhadas do castelo, mas quando em vida se constroem umas torres catitas como as do Paço de Ourém dificilmente se resiste à tradição de infernizar a posteridade, se a posteridade tratou de conspurcar o território que um dia foi o nosso condado.
Não simpatizo com a monarquia, mas simpatizo com nobres suficientemente snobs e rabugentos para se darem ao trabalho de permanecer uns séculos por perto da coutada a zelar por ela — ou a assombrá-la em havendo boas razões para isso.
Vila Nova de Ourém — que ao deixar cair em 1991 o “Vila Nova” na verdade usurpou o nome da medieval e bonita povoação na colina do castelo — é uma daquelas cidades onde de bom grado deixaria à solta o meu amigo Dinamite com umas dúzias de velas do explosivo homónimo. Mas como a actividade bombista é injustamente proibida em Portugal, deveria a junta de turismo da região mandar construir uma variante rodoviária que levasse os visitantes ao castelo e ao paço sem cruzar a cidade no vale. Toda a sinaléctica deveria ignorar a existência da Vila Nova. Os próprios mapas nacionais, se o país se estimasse, não teriam qualquer referência à Vila Nova de Ourém. Da existência de Vila Nova de Ourém saberiam os seus impotentes ou cúmplices habitantes e mais ninguém. O mundo deveria ser poupado a uma terra que prefere hastear a bandeira do município na assustadora sede nova que recentemente construiu em vez da restaurar a antiga e simpática que lhe fica ao lado. Vila Nova de Ourém não merece o património da colina nem o nome que indevidamente usa. Merece que algum herdeiro de bom gosto e honra invoque numa noite de lua cheia o vaidoso Conde D. Afonso e que este desça do castelo ao vale com fúria demolidora, cuspindo napalm pelas ventas.
E quem diz Ourém diz meio país.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")

Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô, que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita gente no shopping à espera de falar com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando ela vai lá.) Os pais se calhar ainda estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como acontece sempre que vão os dois ao shopping. Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?

1. O saca-rolhas

De trás do balcão, o cozinheiro assiste ao programa, divertido, enquanto deita um olho aos grelhados. Restam dois clientes nas mesas e um deles assiste ao mesmo programa. Trocam episódicas observações e piadas sobre o que vêem.
Na televisão aparece Manuel Luís Goucha. Riem mais um pouco. O cozinheiro insinua a dado passo que aquele apresentador também precisava de «um saca-rolhas», e ri-se da espirituosidade do seu dito. O cliente também ri, mas depois recompõe-se. Quer dizer, o crime foi uma brutalidade, mas, bem, o colunista era uma pessoa detestável. O tipo passou-se e vai apanhar uns anos, claro, aquilo não se faz, mas olhe que o outro era mesmo…
O cliente, habituée da casa, é uma pessoa assertiva, informada, cheia de opiniões e certezas sobre tudo e uns trocos. Com frequência atinge um certo grau de empolgamento e utiliza argumentos veementes, de autoridade. O cozinheiro costuma ficar a ouvi-lo, pendente da sua sabedoria. Desta vez também tomou um tempo a avaliar-lhe as palavras. Depois decidiu que aquilo era sanção. Voltou-se de novo para a TV, chocarreiro: «Gouchita, Gouchita...»

2. Cantado ao vivo

Num outro programa, de cantorias, duas figuras públicas mostram os seus dotes. Em rodapé a legenda: «Cantado ao vivo.» O que pretendem com aquilo? Que nos espantemos com o talento da dupla? Ou que desculpemos a sofrível qualidade do que se ouve? «Ao vivo», neste caso, é a informação que pede palmas redobradas ou que evoca as limitações da tecnologia? Alguém na régie daquele canal está entusiasmado com as vedetas e espera que leiamos o ponto de exclamação que se esqueceu de colocar no final da legenda ou aquilo é apenas o realizador a informar que não pode fazer nada quanto à desgraça que ouvimos? Talvez seja alguém suficientemente irónico e confiante na capacidade dos espectadores para decifrarem a sua pequena boutade. Não é impossível que haja alguma vida inteligente na TV generalista.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Do râguebi à Casa dos Segredos

Fruto de um desses equívocos que, repetidos displicentemente, se transformam em mitos, imaginava o râguebi como um desporto de cavalheiros, um reduto onde a força bruta andava a par das boas maneiras. O râguebi ilustrava mais do que outro desporto ou ofício a hipótese de a sensibilidade e a robustez coincidirem num mesmo corpo macho. No campo era preciso aguentar placagens violentas, mas também observar de bom ânimo as regras. Havia a dureza do embate físico e a compreensão do regulamento. Era uma luta primitiva conduzida com as rédeas do sangue-frio. Os jogadores de râguebi, habituei-me a pensar, eram super-homens, mais pelo autocontrolo emocional do que pelo poder muscular.

Ilusão minha. Hoje, na mesa ao lado, trataram de fazer ruir o mito. Falavam de uma equipa universitária de râguebi, mas podiam estar a falar de uma quadrilha de rufias. Os jogadores ali mencionados eram tipos que, se não estivessem bêbados, estavam a andar à porrada. Geralmente acumulavam. Se saíam em viagem, faziam questão de aterrorizar os empregados de estações de serviço e partir algum mobiliário, como as mais aplicadas claques de futebol. Não concebiam estar em público sem demonstrar de alguma forma violenta o seu poder, como machos alfa de um grupo de símios. De alguns dos espécimes descritos pareceu-me difícil assegurar se tinham sido recrutados numa universidade ou num asilo de doidos furiosos. Não ouvia suficientemente bem a conversa para ter a certeza.

De tudo isto os comensais, três machos e uma fêmea, riam, divertidos, sem espanto, conhecedores e apreciadores da fauna. Ninguém naquela mesa deve ter crescido na mesma ingenuidade que eu.
Havia, contudo, alguma inexactidão nos relatos, porque quando um deles mencionava certos jogadores célebres havia quem dissesse que a esse a idade tirara o ímpeto, enquanto outros diziam que, pelo contrário, estava mais combativo do que nunca. E retorquiam que o façanhoso antes referido pela outra parte é que estava já numa pré-reforma de chá e rotary club.

Talvez porque tivesse havido algum exagero nas façanhas descritas e percebessem que com os celerados do râguebi o sangue na mesa diminuiria (a não ser que eles próprios o fizessem derramar insistindo nas divergências), os comensais passaram logo que puderam para o estudante universitário comum, esse vândalo sem prática desportiva obrigatória cuja selvageria era mais consensualmente reconhecida e admirada.
Ouvi-lhes que, a propósito da prática frequente de atirar copos de vinho tinto à alvura do tecto, houve um restaurante cansado de manchas rubras que passou a servir apenas vinho branco em jantares universitários. E isso levantou na mesa a difícil questão de saber se a culpa da excitação púbere é da permissividade dos estalajadeiros se da zurrapa que dão a beber aos discentes. Outro assunto em debate era se os proprietários de restaurantes teriam meios de, por si sós, impedir os grupos universitários de sair sem pagar quando isso lhes apetecia ou se teriam sempre de recorrer à polícia. Apresentavam exemplos, referiam casos de sucesso, de jantares por cobrar.

Não era preciso olhar-lhes os rostos para perceber que os meus co-comensais não tinham abandonado a universidade assim há tantos anos: havia naquela mesa semi-domesticada certas saudades da selva.

Mas os feitos académicos já não me interessavam. Deixei de ligar à conversa, matutando na possibilidade de a equipa de râguebi daquela mesa não ser representativa do râguebi em geral — não desistimos facilmente das nossas ilusões, da nossa candidez.

Voltei a reparar neles quando ouvi que de novo litigavam em matérias candentes. Sexo em público? Todos tinham testemunhado, claro. No Brasil, dizia um. Naquela ilha espanhola (como se chama?, Palma de Maiorca), gabava-se outro. Na Madeira, subiu a parada a moça, dentro de água. Isso era vulgar, desvalorizou um terceiro, admiração seria na areia. Está bem, insistiu ela, mas viam-se mesmo os movimentos.
Isto, percebi depois, vinha a propósito da Gabriela e da importância de perceber se na telenovela original «elas» andavam assim tão descascadas e, presumo, se se viam mesmo os movimentos. A mãe de um assegurava que sim; a mãe de outro que não. A do terceiro dizia que era possível, porque lá no Brasil as coisas sempre tinham sido assim mais…

Como na Casa do Segredos, aliás. Tinham visto aquela parola? Não, a outra, a que se gabava de ser formada e dar aulas e mais não sei o quê e num concurso tinha falhado ao apontar no mapa Vila Real. Quer dizer, como pode alguém não saber onde fica Vila Real, admirou-se o geógrafo que um dia tinha visto sexo na ilha de «Palma de» Maiorca.

Os parolos sempre acham que a suprema ignorância é alguém não saber onde fica a nossa terra. 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Such a lovely day (jogging no parque)

Quilómetro 2
O miúdo gostava do pai e da mãe. Eles não gostavam um do outro. Quando finalmente deram o passo certo, o miúdo ficou triste como se diz da noite. Nos dias de custódia do pai, ele informava-o de tudo ao contrário, ao falar de casa. No regresso, fazia o mesmo ao apresentar o relatório do dia à mãe. Imaginava-se capaz de, mentindo quanto ao que diziam os pais um do outro pelas costas, voltar a uni-los. Depois pensou melhor. Quando eram uma família, o pai nunca o levava a passear no parque, nunca jogava à bola com ele nem lhe comprava gelado. Não o levava ao cinema nem se ria das piadas e das tropelias. Talvez aquele divórcio não tivesse sido má ideia. Ao contrário do que diziam na escola, agora é que ele tinha pai, mesmo que só de quinze em quinze dias.

Quilómetro 4
Duas miúdas ainda com cara de anjos e roupas de marca macaqueiam sem inocência o andar e as expressões de membros de um gangue. Detêm-se num cruzamento. Hesitam quanto ao caminho a seguir. Uma delas sugere a esquerda, tem menos gente e mais árvores. Vão de certeza fumar às escondidas.

Quilómetro 6
São um casal, pouco mais do que adolescentes, fotografam-se e fotografam o parque inteiro. Fazem poses. Escolhem ângulos. Demoram-se. Parecem sensíveis à beleza outonal.

Quilómetro 8
Um homem pára o carro. Dir-se-ia saído de uma máquina de envernizar e de engomar. Os sapatos pretos brilham, têm reflexos prateados, de tão novos. As calças, com um vinco como um fio-de-prumo, e o blusão anguloso, de corte impecável, parecem adereços de uma produção de moda. O bigode foi acabado de aparar, milimetricamente. O cabelo, branco como farinha, ainda molhado do duche ou embebido em gel, tem desenhados os riscos do pente, paralelos e direitos como carris na estepe russa. O carro é um BMW e, apesar da propensão do dono para os alinhamentos perfeitos, foi estacionado numa diagonal negligente, ignorando as marcas no pavimento, ocupando dois lugares. À patrão, diz o povo.

Quilómetro 9
Lá estão de novo as miúdas clandestinas, casacos pendurados na cerca de madeira, os braços nus em Dezembro para reforçar o desafio façanhoso com que nos olham. Batem os maços de tabaco na mão como vêem fazer aos mais velhos, forçando a saída de mais um cigarro. Mal podiam esperar para o fazer. Mas, olhemos melhor: não é um maço de tabaco. É o telemóvel. Talvez tenham vindo só passar a tarde no parque, raios.

Quilómetro 10
O casal de fotógrafos está agora à saída da última ponte pedonal a sul. Ele de joelho no chão, ágil, ela a sorrir para ele, tímida e encantadoramente, nas suas calças sexy e inesperado casaco comprido. São amorosos e sensuais. Mas depois ele fala, com voz grossa, grosseira, sotaque de guna, «Tá quéta, caralho! Foda-se, tá quéta!», e o (meu) idílio acaba-se, não importa como lhe responde ela.

Quilómetro 12
Último cruzamento. O percurso transforma-se numa rampa em paralelos. Na esquina, duas figuras, versões femininas de Dom Quixote e Sancho Pança. Cada uma delas tem a sua própria preocupação. A da frente, alta, magra, calções curtos sobre meias pretas, pernas torneadas, camisola de gola alta realçando estrategicamente o peito, diz que o problema são os saltos, que se enfiam nas juntas da calçada. A outra, baixita e redondita, sapatos rasos, tentando acompanhar, diz que o problema é a subida. E eu, esbaforido, concordo com ela.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mulheres a fumar

Vejo-as com alguma frequência ao domingo, duas tipas sentadas no lancil baixo do passeio a fumarem. É uma rua com uma certa constância de tráfego, e do outro lado há edifícios com arcadas e um ou outro café. Daquele lado, um passeio mais estreito, árvores e uma ravina para um nível mais baixo da cidade.
Porque escolhem sentar-se ali, num lugar de estacionamento vago, mesmo numa noite fria como a de ontem? Que fascínio pelo lugar improvável, segurando os cigarros com sorrisos mútuos, sorvendo o fumo com evidente prazer? Não são adolescentes que necessitem de sair de casa para esconder o vício recente ou que sintam a ânsia de o exibir ao trânsito, em desafio. Embora haja algo de desafio nelas, uma certa cumplicidade que nos deixa ostensivamente de fora enquanto estacionamos o carro.
Vestem roupas do género das que se podem encontrar na Sport Zone, na secção de ar livre (montanha, trekking, essas coisas). Talvez tenham acabado de chegar de uma caminhada e fumem um cigarro revigorador antes de subirem para jantar. Talvez uma delas esteja de partida para uma semana de trabalho fora e o cigarro seja a forma de se despedirem. Ou terá chegado e aquilo é o reencontro? Riem por terem os maridos em cima, na cozinha, a prepararem o jantar? Ou são elas um casal e esta é apenas uma das muitas formas que têm de estarem bem uma com a outra?
Não lhes vou perguntar — mas não porque o pudor se imponha. É que não preciso de respostas. Preciso de cenas daquelas, portas abertas à indagação e ao devaneio. À intrusão. É esse o meu vício.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Porque reza?


É alto e tem um porte altivo, quase militar. A mão esquerda agarra o pulso direito, à altura da genitália. Veste como um bancário ou director de serviços em dia de folga, blusão de pele sobre pullover, camisa e gravata. Rosto barbeado e bom corte de cabelo. Está parado em frente ao pequeno santuário à margem da estrada, num rectângulo de relva. Poderia estar a fazer horas, à espera de alguém para almoçar, um cliente ou um colega. Poderia ser um turista a apreciar a etnografia ou a religiosidade locais, curioso, divertido ou encantado com o pitoresco. O seu é um ar de quem estacionou ali perto um mercedes ou um jipe, tem uma vivenda e um T2 no Algarve com uma nesga de mar, filhos na universidade e alguns cartões de crédito. Mas a pose estática, prolongada, o olhar fixo nos olhos da santa, como nos de um interlocutor de carne e osso, sugere que reza.
Será adequado perguntarmo-nos que espécie de tragédia interior se oculta por trás da figura elegante e serena? Que doenças ou que azares? Que consequências da crise? Quantos meses para a bancarrota? Ou acabámos de invadir a privacidade de alguém que tranquilamente veio agradecer a dádiva da vida (e talvez mais uma ou outra benesse)?
A santa, arrumada numa jaula de vidro como um bonsai, de estatura e expressão humildes, como os seus habituais fregueses, parece intimidada por aquela presença. Ou intrigada, como nós, com a mesma incapacidade para sondagens telepáticas (apesar da fama), com a mesma pergunta bailando-lhe nos olhos: porque rezam os ricos?