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sexta-feira, 12 de abril de 2019
'Ensaio sobre a perturbação do sono'
O blogue Aventar fez dez anos e convidou-me para escrever um texto. Saiu-me este longo 'Ensaio sobre a perturbação do sono'. (Ainda bem que o blogue não é em papel.)
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
No gueto de Varsóvia
1. Um grupo com
umas três dezenas de rapazes e raparigas, morenos na sua maioria, participa de
uma cerimónia no monumento que homenageia a revolta do gueto de Varsóvia. A
certa distância, estrategicamente colocados nas quatro esquinas de um rectângulo
imaginário, quatro jovens adultos, igualmente morenos, parecem apreciar o
cerimonial, mas percebe-se pelos movimentos de cabeça, pelos auriculares discretos
e pelo volume suspeito ao fundo das costas, sob a fralda da camisa, que montam
guarda. Armada.
Não há polícia polaca (ou loura) nas redondezas.
2. No museu contíguo,
cuja arquitectura do hall pretende
evocar a separação das águas do Mar Vermelho para a passagem franca dos judeus
perseguidos, os seguranças, mulheres e homens, são também morenos. E ríspidos,
rudes, autoritários. Deslocados, pensa-se. O bilheteiro, não divergindo do aspecto
judaico mas menos anguloso e mais bonacheirão e, ao contrário dos colegas na
entrada, simpático e afável, pede desculpa por o preço dos bilhetes não estar
visível e pede desculpa pela rudeza e antipatia da segurança. Sugere que se escreva
à direcção do Museu. Sugere sempre, as queixas são habituais. Ele próprio tem
dito aos chefes que essas coisas são pouco agradáveis.
Ficamos sem saber se ele é o judeu bom no sketch do polícia mau e do polícia bom
ou se concorda genuinamente que é um pouco perturbante (ou pelo menos irónico,
de uma ironia sem riso) que naquele museu se escondam os preços dos bilhetes e
se recebam com autoritarismo rude os visitantes.
Em todo o caso, apropriamo-nos da sugestão da separação das
águas e decidimo-nos pela visita.
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
O meu Groundhog Day
No filme Groundhog
Day (O Feitiço do Tempo),
o protagonista vive todos os dias o mesmo dia, com os acontecimentos a
repetirem-se sem alterações.
No meu percurso diário para o trabalho, que, quando beneficio
da sorte de ter tempo, segue um traçado invariável e reiterado, há também repetições,
pessoas com quem me cruzo nos mesmos lugares (uma delas cortou o bigode mas não mudou mais nada), as mesmas infracções de trânsito (com
diferentes protagonistas mas nos sítios habituais) e o mesmo deslumbramento ao
atravessar o parque (apesar da vaga ameaça outonal agora a insinuar-se no alongar das
sombras).
Há variações de episódios sobre o mesmo cenário, variações que
só o são na cadência diária, já que repetem tendências e vícios humanos
intemporais e por isso não alteram o feitiço do tempo. Num dia, o restolhar das
folhas para lá da sebe deixa de ser o dos melros ou dos gaios para denunciar um
clássico voyeur, dos que adoptam a
camuflagem e o método de David Attenborough, mas para espiar através da
vegetação casais de namorados em plena urgência erótica. No dia seguinte, no mesmo
local, é resgatado da folhagem contra a sua vontade um idoso que se tresmalhara
do resto dos utentes do lar, ali em passeio, por vício logo censurado de querer
estar sozinho. Ao terceiro dia, o que a folhagem mal oculta é uma vulgar e não
muito preocupada transacção de estupefacientes, entre seres que se confundem no
exotismo com criaturas mitológicas do parque. Há o tímido casal homoerótico de
adolescentes a aprender tácticas de camuflagem social e noutro dia rapazes em cálculos de balística que procuram a bola pontapeada demasiado alto. Há a criançada de bonés
uniformizados em correria de ATL e, num sábado, os noivos ataviados que posam bucólicos
para o álbum em progresso.
No meu Groundhog Day,
desfilo quotidianamente por ali em passo lento, amando a minha rotina e com um
certo carinho distante pela humanidade. Não sinto o impulso de alterar nada ou
de intervir, excepto quando, no regresso à noite, um ouriço-cacheiro faz a sua
aparição na mesma álea e sinto então o dever de o admoestar pela insensatez de se expor
assim no palco da comédia humana e o conduzo com gestos ternos de regresso ao
matagal.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Montes ígneos
Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite
por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as
chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que
os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a
determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar,
víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais)
na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos
como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma
milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória,
simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho
fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um
braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que
parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio.
Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda
muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico
Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que
vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que
acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia
hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma
crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais
vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível.
Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu
imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha
brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se
lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto
é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta
que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno
comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o
número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que
aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.terça-feira, 1 de março de 2016
Um drama social
A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus
hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em
gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para
nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem
prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando
estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração
do vinho se faça logo boca a boca.
São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como
alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente
a um grupo de milionários anónimos.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia
Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de
costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece
mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a
fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou
ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de
parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz
a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no
enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a
mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode
ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó
passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece
corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.
Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a
especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam
para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local
foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez
alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.
(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar
fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar
cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Golo da Costa Rica
Não foi uma excentricidade como ir ao Solar Transmontano, mas perdi a
cabeça e gastei doze euros numa churrasqueira. Por vezes, o bilhete para observar
a vida selvagem sai caro.
O empregado perguntou-me o que estava a achar do Mundial e eu não dei
parte de fraco: aqueles cinco a um da Espanha eram qualquer coisa… Passei no
teste sem ter de explicar que coisa eram os cinco a um. De seguida chamaram-no
a outra mesa e também não tive de opinar sobre o Uruguai x Costa Rica que se
disputava no plasma (cujo resultado tinha espreitado preventivamente enquanto
ele falava e sobre o qual estava a tentar pensar o que haveria de expectável a
dizer).
Os clientes também podem ser constrangedores, quando são conhecidos do
pessoal. Uma das cozinheiras passa a caminho da casa de banho mas é detida por
umas perguntas e considerações mundanas da mãe de duas crianças do outro lado
da sala. A cozinheira, não contando demorar-se, fica a três quartos, com um pé no
ar, respondendo pelo canto da boca e pronta a continuar o seu caminho. Todavia,
a cliente tem sempre mais uma coisa para dizer e a cozinheira, indecisa entre a
delicadeza e a urgência, naquela postura de quem só ouvirá mais uma frase e
continuará a andar, vai deixando os pés para trás e inclinando o corpo na
direcção que pretende seguir. Estão nisto mais um longo minuto e eu preparo-me
para amparar a cozinheira, que está mesmo no limite da sustentabilidade da sua
posição. Mais uma frase da cliente e a queda é irreversível, foi atingido o ângulo
máximo de inclinação que um corpo humano consegue atingir sem se estatelar. Por
fim ouve-se uma interjeição telepática e a cozinheira dá o seu passo em frente,
aquele passo que suspendera antes, e deixa a cliente a falar para a abertura que
dá para o hall dos lavabos. Esta resigna-se,
dá um safanão numa das crianças e comenta para o garçon que o golo da Costa Rica foi mesmo um grande golo.
Espertina
Gosto de madrugadas quentes, porque a vizinha vem para a rua
aparar as sebes e eu vou para a varanda ver a vizinha aparar as sebes.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Diagnóstico
Vi agora mesmo um cartoon que
pretendia representar o individualismo e na verdade representa o egoísmo. Dizem
que os portugueses estão mais individualistas. É mentira. Os portugueses estão é
mais egoístas. Só pensam em si, mas não pensam por si.
Os portugueses não estão (nem são) individualistas, não se afirmam senão
em grupo, não têm iniciativa própria nem reclamam liberdade individual. Os
portugueses são tão individualistas quanto carneirinhos em rebanhos. Amam o
pastor por síndroma de Estocolmo e o cajado por morbidez do espírito.
(Que o dicionário confunda individualismo com egoísmo é um arcaísmo idiota,
que ignora a Renascença e toda a filosofia subsequente.)
Profissão de (pouca) fé
Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch
na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal
da vizinhança, propriedade privada.
[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]
quarta-feira, 11 de junho de 2014
A menina de óculos
Saltitante como um cachorrito, acompanha os pais numa caminhada ao fim
da tarde. A figura de alguém que lê um livro num banco à margem do caminho prende-lhe
de súbito o olhar. Não ao ponto de a fazer perder a oportunidade de pisar
ritmadamente as pedras que enterraram no percurso a fingir de pegadas de
animais. Mas, cumprido o gostoso exercício, volta a observar o leitor enquanto passa
por ele. Uns metros depois, não resiste a virar-se para trás e dar uma última
espreitadela. Os óculos de massa apoiados no narizito parecem assegurar-lhe um perfil
de leitora precoce e cúmplice que acabou de reconhecer um par. Porém, as
aparências demasiadas vezes enganam: talvez seja apenas uma criança que acabou
de ver uma bizarria. Ou talvez o paralelo canino seja acertado e, como todas as
crias de mamíferos, está apenas a cartografar intensa e francamente o mundo,
ainda desconhecedora das convenções adultas sobre o olhar.
Eu próprio transgressor, pisquei-lhe — e ela sorriu. Não digam a
ninguém.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Bombos
[Para os patriotas que se
entusiasmaram com o post anterior]
Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos
forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente
as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do
globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas
por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos
melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade
rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza
física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque,
não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são
a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar
talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos
nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo
de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.
P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente
ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o
triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer
relevância musical.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Freud, Pavlov e Green Peace na fila do supermercado
Baixote mas entroncado, vermelhusco, segurando o telemóvel com aparente
mau jeito, espera na fila enquanto fala com o que se suspeita ser uma esposa provisoriamente
desavinda, talvez uma ex-mulher com esperanças ou contas a ajustar. Longos
silêncios significam que escuta. Ou finge escutar, já que quando fala retoma
exactamente ao ponto anterior da conversa, como se do lado de lá não tivessem
dito nada, acrescentado nenhum argumento ou informação nova. A espaços, bufa e
solta pequenas interjeições, faz comentários para o lado, como se os clientes
do supermercado fossem a sua plateia e ele tivesse apartes a cumprir no texto
que o autor escreveu para si na peça. Pede a nossa simpatia para a maçada que
enfrenta pacientemente, a nossa cumplicidade com a sua condescendência, o nosso
sorriso para as suas piadolas paternalistas, o nosso aplauso para os súbitos rasgos
de autoridade, à homem. Machistas.
Quando chega a vez dele na caixa, rejeita o saco plástico e desdobra o
seu próprio saco reutilizável, gesto inesperado para figura tão claramente desinteressada
do conceito de sustentabilidade ambiental. O que devia desiludir quem acredita
na adesão consciente, não-pavloviana, do povo a campanhas de sensibilização. Ou
dar um pequeno gosto de vingança à ex-cônjuge do indivíduo em estudo:
certamente foi ela quem lhe incutiu o hábito económico ou ecológico que ele
ternamente perpetua.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Metáforas estafadas
Chegam ruidosos, em modo botellón,
com bebidas enfiadas em sacos e empurrões amistosos de gorilas na tundra. Argumentam,
discordam, objectam, como costumam fazer nas pausas de ulular hinos
futebolísticos ou apor letras obscenas a repertório tunante. Mas, surpresa!, a
discussão é sobre figuras de estilo. Não sobre figuras estilosas do futebol ou
da música. O tom e o vernáculo são os mesmos, mas o assunto é gramática. Defendem,
uns, e contestam, outros, a ocorrência do advérbio metaforicamente.
— Metáforas existem, é óbvio, mas metaforicamente
não se diz.
— Diz, claro que diz. Então se se diz anaforicamente, que vem de outra figura de estilo, porque não se
havia de dizer metaforicamente?
Eu, que sempre demoro uns segundos a distinguir anáforas de ânforas, espanto-me e alimento
a esperança de estar perante uma tertúlia literária. (Elas dão-se onde menos se
espera, anelo.) Mas depois os tertulianos iniciam uma guerra convencional disparando
cubos de gelo em todas as direcções, incluindo na dos carros estacionados, e um
proprietário vem prevenir possíveis danos no seu Mitsubishi exibindo um martelo
na mão («porque eram muitos», dirá mais tarde) e verifico com fadiga que não foi
esta noite que o mundo saiu do seu eixo.quarta-feira, 16 de abril de 2014
O meu prédio é uma metáfora nacional
O meu prédio é uma metáfora nacional. Durante anos apenas nos mijavam diária e copiosamente a entrada principal. Os excessos da boémia académica são o tributo que a terra aceita pagar pelos benefícios de ser uma cidade universitária. Pode dizer-se que Vila Real contribuiu activamente para hoje termos a geração mais indiscutivelmente bem formada da história lusa.
Como o progresso é imparável, no último ano temos também diariamente mijada a porta das traseiras. Já não pelos frequentadores das tascas do bairro, mas por adolescentes do prédio que se acoitam à noite, com as suas playstations, primeiros cigarros e cervejas clandestinos, numa das garagens familiares convertida em sala de jogos.
Lamentavelmente, dentre as benfeitorias levadas a cabo na garagem não parece constar nenhum WC, penico ou algália. Os papás proprietários da garagem não devem ter sentido necessidade disso porque confiam demasiado na elasticidade das bexigas juvenis, ou, mais certamente, porque não utilizam a nossa porta das traseiras, a mais discreta da fachada.
Em consequência da boçalidade adulta e da imbecilidade infanto-juvenil, do desleixo duns e da má-educação doutros, no meu prédio entra-se hoje sempre de mão no nariz e a descolar os sapatos depois de cada passo dado. O exercício é particularmente divertido e peganhento nos dias em que, como agora, há pó verde de pinheiros também nas entradas dos edifícios.
terça-feira, 15 de abril de 2014
GPS
Os movimentos parecem indicar tratar-se de mais um yogi, dos que por vezes aparecem no parque, mas a orientação precisa e constante, aquela maneira de encarar um ponto (para mim) indefinido a sudeste, revela outra intenção, outra atitude. Num primeiro impulso, com certa presunção de geógrafo ou de nativo íntimo do curso do Sol em Trás-os-Montes, estou tentando a corrigir-lhe a direcção do olhar, o azimute para onde aponta o rosto. Mas depois reconheço que preciso de consultar outra vez o mapa para localizar Meca, que, na verdade, eu próprio nos últimos tempos ignoro o norte.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Gel, mães e filhos (1)
Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel
na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência,
está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação
normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é
difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve
ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às
lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais
próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como
bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas
vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um
diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com
maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja
atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.
A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente
a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se
na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência
que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.segunda-feira, 24 de março de 2014
Drink sangria in the park
Quando se pensa, à nossa maneira burguesa, num grupo de junkies a jogar à bola, imagina-se perónios
pelo ar e tíbias pelo chão. Um grupo de pessoas a desconjuntar-se, a esvair-se
em fluídos pouco dignos de observar. Isto se considerarmos sequer a hipótese de
haver junkies com tempo de se juntarem
à volta de uma bola, tão apressados e ocupados que sempre parecem, busy with dealing. Não estamos
preparados é para os ver, íntegros, com risos e técnica superlativa, desfrutar.
Desfrutar e reincidir nisso dia após dia. Na nossa própria alienação, andamos
esquecidos de que o ócio era a aspiração da humanidade.
sexta-feira, 14 de março de 2014
O pimba do Senhor
Nos meus tempos de adolescente e néscio (com os anos, abandonei a
primeira condição), achei assaz progressista, apesar do traje, um franciscano
que me incitou a levar o baixo eléctrico para cima de um palco onde se cantavam
hinos ao Senhor. Passou-se isto no catolicismo e numa era anterior à editora
Flor Caveira, do evangélico Tiago (Guilul) Cavaco. O pioneirismo católico,
aliás, havia-se já manifestado quando na década de setenta a Igreja sobrepôs
letras de excitação beata a canções de Bob Dylan. E o aggiornamento não mais parou. Hoje, muito modernas formações musicais
louvam o Senhor como aos domingos à tarde se louva na TVI a genitália feminina:
com vocalista trejeitoso e partenaires gesticulantes, comprimidas em slim jeans ou calças de lycra e t-shirts
um número abaixo. (Se não tivesse visto, não seria capaz de imaginar isto.)
A estética e o sentido coreográfico pimba são tão omnipresentes em
Portugal quanto Deus Ele Mesmo. E mais influentes. Não admira que a própria
Igreja ache natural que, em palco, se declare amor a Cristo com os passos, os
gestos, a melodia, o instrumental e os coros que geralmente se usam na TVI para,
com trocadilhos e metáforas de baixa extracção, se aludir a fodas, minetes e
broches.
De resto, se é popular, a Igreja procura absorver, como sempre fez com qualquer
ritual pagão. Que se lixe a estética e a lógica, se isso lhe permitir recensear
mais umas almas (importa-lhe mais a estatística das almas do que as suas práticas).
Não se pode é a Igreja admirar que os aleluias gritados no apogeu dos cânticos
passem a ter outra conotação e o êxtase deixe de ser místico.
P.S.: «E nós… pimba, Senhor», poderia ser uma resposta moderna ao «crescei
e multiplicai-vos», não fosse a contracepção.
P.S.2: Já no Natal, poderiam substituir-se as estrofes gastas do «Noite
Feliz» por versos mais modernos: «Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será /
O pai da criança, eu sei lá, sei lá… eu sei lá, sei lá...»
Comportamentos desviantes
Reconhecemos uma alma gémea quando alguém que entra no shopping, depois de puxar para si a grande porta envidraçada,
volta a fechá-la e de novo a abre apenas para confirmar que, sim, a porta faz
um barulho cómico, humanóide, que apetece ouvir outra vez. Depois da breve pausa
na frivolidade do mundo, ele entra e eu saio, sorrindo ambos de portas que
adoptam comportamentos desviantes.
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