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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Mau augúrio

Não sou supersticioso nem iniciado em filosofias orientais como o Feng Shui, mas sempre que posso oriento as camas onde durmo para sul. O tempo cinzento afecta-me o humor, quebra-me o ânimo, e a sul há uma expectativa de sol, de bom tempo. Já aconteceu deitar-me com os pés para a cabeceira numa cama norteada apenas porque queria acordar bem-disposto. Saber-me de cara virada ao sol, ou orientado para latitudes onde a probabilidade de sol é maior, fornece-me a réstia de conforto que estar vivo exige. Por isso os quartos onde durmo, insensivelmente projectados sem orientação solar, têm por vezes aquele ar desacertado, de coisa fora do lugar (a cama).

Talvez esta fuga à mobilação prevista exerça a sua influência sobre as minhas ideias, a minha psicologia. Mas como disse, não sou supersticioso. Mesmo que tenha ficado preventivamente maldisposto quando me disseram que amanhã iria acordar com um dia de chuva. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Janela

A casa onde vivi a infância só tinha uma janela pequena para a rua. Era ali que às vezes nos juntávamos quatro ou cinco dos irmãos, alguns empoleirados numa cadeira, para observar o mundo e as estrelas. No Verão havia o fascínio dos incêndios na serra em frente, e de Inverno o exame minucioso das mesmas encostas à procura de auspícios de neve. Era uma janela paciente, estava disponível se era dia de aborrecer a olhar a cortina de chuva ou se descia a banda numa manhã de Agosto em peditório para a festa. Desenhávamos-lhe nos vidros, à noite, no vapor da respiração ou na geada de Dezembro, caveiras sorridentes cujo efeito dramatizávamos apagando a luz do quarto e deixando que o candeeiro da rua as retroiluminasse e projectasse na parede ou no soalho.
Em certa ocasião, ainda os satélites não tinham rotas que cruzassem o bairro, julgámos detectar movimento numa luz celeste. Já sabíamos distinguir pelo bruxulear estrelas de planetas, mas aquele discretíssimo avançar no firmamento era algo diferente; podia ser, porque não?, um ovni. Mas era um ovni tão lento e circunspecto que apenas sabíamos que se movia aferindo ao longo da noite a distância à linha de cume da serra. Não porque perdêssemos a paciência, mas porque havia outros afazeres, revezávamo-nos na vigilância, e quem regressava ao posto depois de ter ido à cozinha percebia melhor do que os outros o avanço da nave alienígena. Estava claramente mais distante da serra depois de cada ausência.
Hoje é difícil acreditar que coubessem naquela janela tão pequena — além das estações do ano e da fenomenologia meteoro-teratológica, além das grandes tempestades e dos monstros mais assustadores — excitantes visitantes de Vénus com a sua sofisticada tecnologia. Mas cabiam. A revolução coperniciana só tinha roubado movimento ao Sol e a mais nenhum corpo celeste, incluindo os que não identificávamos. Nenhuma lei da física nos impedia de sonhar, e a exiguidade de uma janela não tornava pequena a ambição.
Se agora não conseguimos conceber como se ajustavam e fervilhavam ali tantas cabeças não é porque a janela tenha minguado, é apenas porque as nossas cabeças cresceram na razão inversa da nossa imaginação.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Pensando bem

Pensando bem, o meu problema nunca foi a permanente hesitação entre Bowie e Morrissey (para falar de uma delas). O meu problema foi optar sempre por Araújo, esse inconseguimento.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gel, mães e filhos (2)

Como a mãe do post anterior, talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do bairro onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado. Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou — mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento se tenha usado gel. Ou por causa disso.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Escritor de levar para casa

Li que Valter Hugo Mãe esteve à conversa com leitores em Bragança ou Macedo e que a algumas pessoas no fim apetecia levá-lo para casa, por ser tão doce. Fiquei deprimido, com a inveja. Depois esbofeteei-me. Pela estupidez.
A inveja entre escritores é proverbial* — e tê-la sentido alegrou-me. Pensei que já podia pegar no telefone e dizer: «Mãe, sou escritor!», como se tivesse detectado os primeiros pêlos no buço (ou em zona mais meridional) e quisesse gritar: «Mãe, já sou homem!»
Mas de seguida fiquei deprimido, porque, embora exagere nos açúcares, jamais serei um tipo doce que as pessoas queiram ir ouvir falar — quanto mais levar para casa.
Se depois me esbofeteei é porque me lembrei que detestaria que as pessoas me quisessem levar para casa. Se por hipótese bizarra me quisessem ir ouvir falar.

* Leia-se A Informação, de Martin Amis.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Conservador

Nos anos do Independente sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas, como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente, aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada politicamente.

Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse. Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.  

[Romanas, 17.11.2013]

domingo, 25 de agosto de 2013

Baile copular

A churrasqueira no Verão põe uma esplanada e música em colunas. A música que as colunas debitam é muito obviamente destinada a atrair ouvidos emigrantes, convidando-os a gastar parte das suas economias do ano nuns grelhados à maneira. No entanto, de forma menos óbvia, a música que se ouve não está acertada com o repertório pimba actual, há uma décalage, ou talvez uma nostalgia de quem foi emigrante no seu tempo. A estética dominante é a de Linda de Suza, o nacional cançonetismo da diáspora dos setenta, uma ou outra música tradicional. A emoção em vez do trocadilho e da alusão sexual obsessiva. E isso é quase comovente, quase desclassificamos como foleira a música que da esplanada abaixo da janela vem trazer ao nosso próprio jantar pequeno-burguês memórias de romarias e bailaricos, de quando disfarçávamos de subversão a afinal indisfarçável adesão ao ímpeto bailador, o de colar ao nosso um ritmado corpo feminino, na evocação ou antecâmara dos prazeres sensuais que é na realidade o baile*.


*E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Shoplifters Of The World Unite*

Conheci-o nos anos oitenta. Tinha o queixo afiado e insolente de Morrissey e dançava como ele. A teatralidade do cantor britânico era para a terra uma estranheza — vagamente sedutora para alguns, repulsiva ou embaraçosa para os outros. Para Pierre era uma segunda pele, mexia-se nela com o à-vontade do original que emulava e a quem servia de arauto nas berças. O facto de ter estado emigrado numa grande metrópole europeia e de ser, ao contrário dos demais, ainda que circunstancialmente, de origens urbanas, facilitava-lhe, claro, a apropriação do imaginário e do guarda-roupa pop. Parecia um excêntrico, mas era apenas alguém que adoptara um estilo. De uma sofisticação vulgar noutras paragens, assaz extravagante na província.
Na pista de dança dir-se-ia exibicionista, mas só porque o resto dos noctâmbulos dançávamos como tímidos e artríticos. Ele entregava-se à música com o mesmo ar compungido ou desesperado de Morrisey, agarrando os próprios ombros, colocando dramaticamente as costas da mão na testa, virando os olhos aos céus, vivendo emocionalmente o que ouvia nas colunas da discoteca, sobretudo se o que ouvia era The Smiths.
A amizade com os autóctones teria de ocorrer, porque Pierre, agora domiciliado na terra, era ali inusitado mas não tinha perfil de solitário. Contrastava nos grupos, mas acabaria por frequentar os mesmos sítios e seguir as rotinas clássicas do burgo. Trazia hábitos de consumo de marijuana cosmopolitas, e os posteriores problemas com as drogas que partilhou com parte da juventude indígena pareciam nele mais charmosos e românticos. Quando teve de trabalhar, já numa fase descendente, parecia uma estrela de TV a cumprir uma pena de serviço cívico. Era o único servente de trolha que chegava já de manhã com os jeans arregaçados, e usava o boné com a maior pala de todo o sector local da construção civil. Era dos poucos, na altura, que tomava banho e acertava o penteado entre o final do expediente e as primeiras cervejas da noite.
Algures na viragem do século perdi-lhe o rasto. Já só o via ocasionalmente, à boleia, diziam-me que a caminho do dealer. Chegaram-me rumores, que cobardemente não refutei, que o davam como internado em centros de desintoxicação — como tantos outros, nisto não seria original.
Quando o voltei a ver, de novo magro como o Morrisey de 82, mas agora talvez mais parecido com o Michael Stipe dos anos 2000, careca e consumido como ele, a primeira coisa que notei foi a franqueza do aperto de mão. Delicado mas envolvente. Falámos de música, claro, que ele amava com a mesma intensidade mas com um gosto mais ecléctico. Tinha um programa de rádio e uma mágoa por não ter dinheiro para ir ver todos os concertos de que gostava. Disse isto sem ressentimento, com uma certa humildade, sem o ar desafiante ou provocador que ser pós-punk nos oitenta lhe dava. (Não, não era humildade, era melancolia, realismo dorido.)
Não sei se a minha amizade com Pierre poderia ser agora mais intensa e franca do que há vinte e cinco anos, mas sei que a lembrança do nosso encontro acabou de me comover. Não confundam isto com condescendência ou piedade, nem ele precisa disso nem eu estou em posição de tais sentimentos, seria pretensioso e patético. É talvez um reconhecimento, o ver nele os meus próprios sonhos irrealizados. Ou uma premonição.


* The Smiths, single de 1987

sexta-feira, 29 de março de 2013

Tropa

Há pouco mais de vinte anos, estacionado em Elvas, fui mandado com um cabo e dois soldados para o Forte da Graça. O Forte e eu estávamos sob a alçada do Regimento de Infantaria n.º 8 e havia um destacamento em permanência lá em cima. As ordens, se bem as recordo, eram proteger o sítio do assédio dos ciganos, que por compreensíveis razões o achavam perfeito para se instalarem. Corria o Verão e subir ao Monte da Graça era um bónus de ar fresco que se agradecia. Os soldados que me acompanhavam conheciam a rotina e, mal chegados, ao final da tarde, perante a minha mal disfarçada perplexidade, trataram de escolher os melhores colchões, que arrastaram da casa da guarda para o ar livre. A noite ia ser quente e suportava-se lindamente no pátio a seguir à porta de armas. Nenhum deles tinha a menor intenção de fazer uma ronda ao Forte, e eu, pobre e contrariado miliciano, não me imaginava capaz de alterar as tradições do quartel aonde fora parar.
De resto, toda a veleidade castrense que pudesse ter tido quando cheguei a Elvas se esgotara no momento em que, na primeira ronda nocturna enquanto sargento de dia, me deparei com um algarvio em alvos calções e alva camisola de alças a dormitar no seu posto, encostado à G3. Eu tinha acabado de chegar de Mafra, devidamente formatado, e senti um ligeiro escândalo com aquilo. Na Escola Prática de Infantaria — EPI, mais conhecida como “Entrada Para o Inferno” ou “O Calhau”, atendendo a toda a quantidade de pedra que ali se juntou por ordem de D. João V — tínhamos sido ensinados que jamais se pegava numa arma quando em trajes de ginástica (ou de ballet, na delicada gíria militar), pelo que antes de me interrogar porque estava uma sentinela vestida daquela maneira pensei em admoestar o soldado por ter trazido a G3. Na minha hierárquica concepção da etiqueta militar, a combinação dos adereços parecia-me mais importante do que a adequação do traje.
O militar, com sonolência de veterano, ofereceu-me uma passa do seu charro e explicou-me duas coisas, ali no jardim sob o luar e as janelas da messe de oficias: o calor alentejano não contemporizava com o código de vestuário do Exército e um pescador como ele não estava propriamente desesperado para regressar à faina, aguentava bem os meses extra que, como paga da sua conduta, lhe quisessem oferecer na paz suave das muralhas de Elvas, assegurada que estivesse a comida, a cama lavada e, claro, o comércio com Badajoz.
Na tropa aprendia-se com os mais velhos e, se não passei a fazer as minhas rondas em calção, chinelo e Walter à cinta, foi porque descobri que aquelas horas de serviço se passavam melhor a dormitar no imponente cadeirão de alto espaldar e couro, quase um trono, que havia na casa da guarda. Por outro lado, se não aprendi a apreciar as prorrogações do serviço militar tal como ele se desenrolava em Elvas foi porque era jovem e estúpido e achava que a vida tinha muito mais para me oferecer.  

quinta-feira, 21 de março de 2013

Também tu?

Houve um tempo em que a revolução me parecia acessível. Eram os anos oitenta e a professora de inglês dava-se ao trabalho de arranjar um leitor de cassetes para passar A sort of homecoming dos U2 e falar da poesia. Mais tarde nesse dia ou no fim-de-semana seguinte o DJ (era o tempo em que haviamesmo DJs nas discotecas) propunha Sunday, Bloody Sunday e não era improvável que a rádio passasse entretanto Pride (In the name of love) ou New Years DayThe Electric Co.Running to stand still. Tudo isto nas versões ao vivo, claro, a electricidade era realmente importante e despertava o epiléptico que há em mim. Depois disso a professora de inglês entrou num imerecido esquecimento, o Bono deixou de ser um rufia de Temple Bar e eu digo burguesamente que sim, li Dubliners — sem recordar uma única história.
Imaginemos agora por um momento que os quatro de Dublin não tinham as poupançazitas em offshores e se viam obrigados pela crise a fazer de novo boa música: talvez eu pudesse voltar a conspirar com eles para derrubar o governo. Nada era impossível para um proletário simplório durante os três minutos de uma música e os trinta e três centilitros de uma Super Bock.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A guitarra que falava

Por timidez, desinteresse ou incompetência, sempre fui nalguns assuntos um tipo um pouco retardado. Quando a isso se somavam as dificuldades financeiras, eu podia ser bastante neandertal em relação à restante rapaziada. E misantropo.
Um dia no intervalo das aulas um colega quis partilhar comigo a música que ouvia no seu novo walkman. Senti-me honrado, naturalmente, mas também assustado. Sabia que existiam mas nunca tinha experimentado ouvir música numa coisa daquelas. Qual seria a sensação? Como se ajustava o aparelho nas orelhas?
Acontece que o colega não queria apenas que eu ouvisse a música, queria que reparasse como o guitarrista dos Lynyrd Skynyrd fazia falar a guitarra. Eram muitas experiências novas para tão pouco tempo. Walkman. Guitarras que falam. Lynyrd Skynyrd (quem?). Ajustei os auriculares e a primeira coisa que disse ou pensei foi que a música parecia vir de todo o lado, ou estar dentro da nossa cabeça. O colega sorria. Eu ainda não tinha interiorizado a experiência e, por educação, para não abusar da generosidade, já me estava a obrigar a tentar decifrar o que queria ele dizer com uma guitarra que fala. Havia um solo, sim, mas por mais que me esforçasse não entendia nenhuma palavra — e já sabia algumas coisas de inglês. Para mim não havia nada de metafórico no que me fora pedido: eu estava mesmo a tentar ouvir uma guitarra a falar, balbucios que fossem.
Fingindo conhecimento e afectando desinteresse, acabei por dizer que sim, de facto era uma guitarra eloquente, embora não apreciasse muito a música.

(Podia ter contemporizando mais, sido menos herético, dizendo-lhe apenas que “não era sensível ao tema”— se fosse capaz de usar com rapidez a ambiguidade das palavras, de pensar a tempo na utilidade da sua amplitude semântica para uma boa convivência social.)