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sábado, 10 de agosto de 2019
Sol coado
Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.
Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).
A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.
Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.
Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.
Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)
Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.
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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Romance ou o significado das palavras
Durante muitos anos, a palavra «romance» pareceu-me inadequada para definir o género de livros que define. Isto porque, no meu mundo cultural, romance começou por significar apenas «relação amorosa», e na fase inicial de leitor interessava-me tudo menos ler histórias de amor, que imaginava sempre melosas, fúteis e cheias de clichés como as das fotonovelas. Talvez tivesse nisto um papel a imposição cultural que tradicionalmente ditava uma dupla separação por géneros: as fotonovelas e as histórias de amor eram para raparigas; os rapazes, se liam, liam histórias de cowboys e de aventuras.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.
E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.
Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.
sexta-feira, 12 de abril de 2019
'Ensaio sobre a perturbação do sono'
O blogue Aventar fez dez anos e convidou-me para escrever um texto. Saiu-me este longo 'Ensaio sobre a perturbação do sono'. (Ainda bem que o blogue não é em papel.)
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
S.T.T.L.
Os
anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado,
cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não
voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que
ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos
sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para
o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou
no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza.
Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a
família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos
se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas
namoradas.
O
tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a
partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta,
ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas
de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à
taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas
de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores
tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o
recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata
de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas.
Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos
para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o
bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na
barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia
esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas
prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos
ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No
Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o
impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na
maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis
sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a
cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se
encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza
uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer
assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não
apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou
subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem
caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha
pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que
gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam
estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no
meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições
(estava, avidamente).
A
sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais
intrincados quanto para lobrigar as rocas
mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para
os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por
preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem
onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos.
De
resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o
descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida
mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por
interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria
apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e
do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda
era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia
quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados
do Sporting.
Nos
anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os
seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos,
que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de
cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo
de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os
sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe
tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A
paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira
que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou
um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se
para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou
passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações
eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio
adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que
havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com
queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então
afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá
entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta
de lhe termos descoberto o fingimento.
Com
o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em
determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma
pessoa difícil.
Mas
os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de
sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava
ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava
o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar
tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para
escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o
tio era então o meu segundo pai.
Sit tibi terra levis.
Sit tibi terra levis.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
A insensatez da espeleologia na adolescência
Há no parque termal das Pedras Salgadas uma
mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha
adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a
solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por
curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto
filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
Logo a seguir ao portão, a mina divide-se
em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco
erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros
gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega
lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial
para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão,
também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e
álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém
entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana
naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos,
contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
Sobre o outro túnel, o da esquerda, não
havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação
histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da
entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um
buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para
demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
De Inverno, o terreno baixo por onde se
acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório
estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia
perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso
era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter
o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a
curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos
quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas
familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço
do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de
várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das
paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que
separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e
fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o
tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a
ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se
estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos
seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na
península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente
à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos
oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente
humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um
quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais
ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem
qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os
primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de
expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não
havia graffitis, beatas, garrafas,
camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que
era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.
Houve fascínio e regozijo, naturalmente,
como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto
Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim
do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada
para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por
fim adiar sine die a segunda fase da
expedição.
Havia, contudo, motivos de interesse
naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava
algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do
túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de
luz e medir assim o comprimento do túnel.
Dois de nós voltámos atrás com essa nova
missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a
parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização
do buraco.
Demos com o buraco, depois de saltar o muro
para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena
de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha
adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e
tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia,
certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras
expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que
passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas
à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da
direita.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
A minha carreira musical
Um dia fui tocar para um conjunto de baile. O baixista titular fora requisitado pela tropa, a temporada de festas aproximava-se e alguém fez espalhar o boato de que eu sabia tocar o instrumento. Fui convocado. No primeiro ensaio, entusiasmados com a aquisição, os chefes da banda espetaram-me também com um microfone à frente e disseram-me para cantar. Era evidente que o nefando boateiro, por pura maldade, escondera a minha incapacidade biológica para o canto. Ok, talvez não a tivesse escondido em absoluto, já que era uma música dos Sétima Legião o que queriam que eu cantasse. (Convém dizer que naquela altura os grupos de baile eram organizações eclécticas com um repertório que ia sem hesitações nem mudanças de figurinos do samba aos Doors.) Como em tantas fases da minha vida, o simples facto de me pedirem uma coisa activou o bloqueio mental que em momentos-chave me impede de dizer o imperativo «não». (Bloqueio esse que, entre outras coisas dolorosamente inesquecíveis, fez de mim em tempos signatário cumpridor de um contrato para adquirir a prestações uma imprescindível bíblia de luxo). Cantei, portanto. Ou tentei. Foram na verdade horas de tortura (para todos, mas sobretudo para os restantes músicos): qual Rambo nas mãos do Vietcong, eu estava naquela época, ainda mais do que hoje, programado para nunca soçobrar perante o ridículo.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
Na verdade, a minha carreira musical iniciara-se anos antes, invejando o talento musical de um irmão e observando, especado em frente ao palco, o conjunto de serviço nos bailes de domingo à tarde, em particular o seu baixista, com bigodito de actor porno dos anos 70, que, se não recordo mal, usava apenas um dedo da mão direita e dois da esquerda. Aprendi a tocar guitarra fazendo sangrar os meus próprios dedos com um entusiasmo totalmente excessivo e desajustado e assumi a carreira de baixista anos antes de pegar num baixo, escondendo de mim mesmo que as duas cordas a menos não tinham nada que ver com a escolha. Para provar a vocação, estava sempre pronto a chamar de ignorante quem repetia o dito então em voga que dizia serem os baixistas guitarristas frustrados. Não era frustração, era sensibilidade.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
Nostalgia da prosa inútil
Nos últimos três anos, tirando a inesperada interrupção para escrever e publicar A Origem do Ódio, a minha relação com a escrita tem sido distante ou indiferente. A vida prosaica impôs-se-me, para regozijo da troika, e o tempo não me chegou para muito mais do que fracassar a gerir o equilíbrio entre frustrações e realizações profissionais (como acontece com provavelmente a maioria das pessoas que não ganham o euromilhões nem um lugar de CEO).
Não é esta a única, mas é uma das razões porque se editará em finais de Setembro, não havendo contratempos, o Hotel do Norte, romance que já por aqui foi várias vezes mencionado e que, passe a publicidade, sucederá Os Idiotas e a atrás referida novela.
Talvez ter um novo manuscrito impresso e encadernado seja o estímulo necessário para tentar combater o vício do trabalho e o que ele tem de amanuense. É que, apesar de tudo, sabia melhor varar as noites a tentar compor frases sem qualquer utilidade prática.
Não é esta a única, mas é uma das razões porque se editará em finais de Setembro, não havendo contratempos, o Hotel do Norte, romance que já por aqui foi várias vezes mencionado e que, passe a publicidade, sucederá Os Idiotas e a atrás referida novela.
Talvez ter um novo manuscrito impresso e encadernado seja o estímulo necessário para tentar combater o vício do trabalho e o que ele tem de amanuense. É que, apesar de tudo, sabia melhor varar as noites a tentar compor frases sem qualquer utilidade prática.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Desvio de direita
Se vivêssemos num regime comunista, eu, que até aplaudo o novo imposto da gerigonça, seria irremediavelmente acusado de “desvio de direita”, e não apenas na forma tentada. A somar ao vital impulso que me afasta das multidões e não raro atira comigo para remotas paragens do Portugal profundo — onde, no leito seco de ribeiros ignotos, armo a cadeira de praia verde-fluorescente comprada nos chineses (nisso sou ortodoxo) e abro um livro pouco do agrado das massas — tenho também a desfaçatez de, em alternância, me instalar em esplanadas de velhos hotéis aristocratas (onde não armo a cadeira verde, tanto porque não preciso como porque não tenho coragem) a bebericar copos de vinho 4 ou 5 euros acima das minhas possibilidades. Individualista e ocasional burguês, eis o libelo fácil que contra mim se poderia levantar.
E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.
Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.
Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.
E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.
Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.
Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Montes ígneos
Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite
por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as
chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que
os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a
determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar,
víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais)
na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos
como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma
milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória,
simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho
fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um
braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que
parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio.
Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda
muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico
Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que
vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que
acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia
hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma
crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais
vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível.
Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu
imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha
brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se
lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto
é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta
que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno
comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o
número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que
aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.segunda-feira, 20 de julho de 2015
Bastardia
Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Granta
Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica
uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta,
e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o
limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e
colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós
conhecia muito bem a Granta, o
Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new
writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa
e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica
um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o
mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O tee do 17
Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras
Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam
as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez
mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia
sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17
anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha
memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e
vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u)
intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade
o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje
quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo
— me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam
ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das
Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do
lado de dentro.
E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque
de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a
minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo,
tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado
à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação
de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a
Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros
e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais
precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na
encosta do monte. Refiro-me ao tee
dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de
subir para a first shot, talvez por em
Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap
alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue
nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a
discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith
Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo
desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron
deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e
mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem,
felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só
deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao
final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos.
Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.
P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo
dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os
que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Existencialismo automóvel
Estou a envelhecer. Antes acordava a meio da noite a questionar-me se chegara a estacionar o carro ou se simplesmente o parara no meio da rua e subira assobiando as escadas de casa. Hoje espreito frequentes noites da varanda se o carro ficou estacionado numa perpendicular perfeita ao lancil e com distâncias cívicas aos automóveis dos vizinhos.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Uma semana de férias
Sempre gostei de gente encurralada. Assim de repente lembro-me de um
pelotão americano no Estreito de Bering à espera dos russos num filme sobre a terceira
guerra mundial, Tex Willer numa colina à espera dos índios, uma multidão
sozinha em casa à espera de zombies em ene variações cinemáticas sobre o mesmo
tema e um escritor de asa ferida atolado numa cabana setentrional à espera do
degelo da Primavera. Fascina-me a tensão da espera. Ou talvez me fascine a
sensação de isolamento, de solidão extrema, tipo último homem na terra face ao seu destino. Eis porque gostei de Eu Sou a Lenda (até aparecerem outros humanos).
A neve é um bom contexto para histórias de encurralados e/ou solitários.
Eu, que me vejo com frequência masoquista na posição de encurralado, odeio que
não neve neste país de brando clima. Abasteci a despensa de conservas para o
dia em que nevasse para uma semana e de cada vez que recorro a elas é apenas porque
há uma crise económica, forma pífia de encurralamento.
Um dos males de se ser adulto fora da ficção é estar-se encurralado e
não se poder simplesmente ficar em casa à espera dos zombies, como Penélope à
espera de Ulisses mas com menos carinho e mais zagalotes. Quando se é adulto e não se é
personagem de um filme ou de um livro, como é minha triste condição, um
tipo tem de sair para conviver com os zombies, fingir-se um deles, agir como
eles, com o mesmo tipo de prazeres e ambições.
Por isso quando, a propósito de férias, me perguntaram qual o meu local
de sonho para uma semana em Portugal eu respondi sem hesitar: «a Herdade da
Coitadinha, Barrancos».
Que era um fim-de-mundo, disseram com pasmo depois de eu explicar onde
ficava. Exactamente. Se o limite é o território nacional, não vejo onde possa
desejar mais estar do que naquele belíssimo cu de judas.
Não falo de cor. Já lá estive e sei bem o quão isolado e desejavelmente
pouco frequentado é o sítio. Estudei-lhe a geologia e parece-me solo pouco
consistente. O castelo de Noudar ali perto já viu algumas das suas fundações cederem
com inveja da Torre de Pisa. Tenho esperança de que quando lá me conseguir
hospedar por uma semana se abram entre mim e a civilização barrancos como
fossos de profundidade Senhor dos Anéis
(não aquelas valazitas que hoje dão nome ao sítio) e que a assim a minha semana
se torne residência definitiva. Confio na bondade humana para me fazer descer
víveres em pára-quedas, mas estou disposto a enganar-me nesse item e a viver de
raízes.
Ah, ir uma semana para a Herdade da Coitadinha e já não sair. Livros e
uma carabina, eis a minha bagagem. Livros para as necessidades básicas da vida
e a carabina para a eventualidade de apodrecidas visitas indesejadas. Isso e
uma nevada canadiana em Barrancos. Mas canadiana de Grise Fiord, não de
Toronto. Nos terraços da Herdade da Coitadinha, que já experimentei, está-se
como nos terraços de Davos (e o tempo é igualmente relativo).
Não peço muito mais para as minhas férias. Talvez uma mantinha a cobrir
as pernas, se realmente nevar.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Abduzido pela música
A música, como a literatura, transporta-nos. É um velho cliché e, como
tantos velhos clichés, uma verdade. Mas em alguns momentos da minha vida a
música foi para mim menos Ambrósio e
mais Mr. Scott, não tanto por o meu imaginário
permanecer intergaláctico mas porque a deslocação promovida pela música era do
género teletransporte, sugava-me a alma e materializava-a através de um feixe numa
realidade paralela. Só assim se compreende, por exemplo, que certa noite na alta
adolescência eu subisse a rua e em vez de torcer o nariz ao rádio que a Maria
da Luz sintonizara em volume de arraial no passeio desse por mim a dançar a “Billie
Jean”, do Michael Jackson. É certo que tinha andado a tentar aprender a linha
de baixo da canção, mas geralmente mantinha na intimidade esse tipo de desvio
de personalidade. Era Verão e havia possivelmente lua cheia, mas não me lembro
de nenhuma visão que quase me parasse o coração (caso contrário teria dançado o
“Thriller”). Aquilo era abdução pura, um metafísico tabefe gaulês que de mim só
deixava as sandálias em modo moonwalk
no passeio. Era eu por interposta pop a convidar o Álvaro de Campos sensacionista
que havia em mim a calçar os meus sapatos (sim, felizmente também me acontecia
a ouvir Depeche Mode, mesmo antes de eles terem gravado a canção). Depois a
música acabava — depressa demais, como sempre acontece com a pop/rock (que
saudades tinha do Barroco) — e lá ficava eu aturdido a sacudir o pó da roupa
como se tivesse acabado de fazer a Route 66 ou de acompanhar Bento de Góis na
primeira viagem europeia terrestre da Índia para a China (e toda a gente sabe
como ficamos cheios de pó se vamos a pé da Índia para a China).
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Objectos inúteis
Para elevar o ecrã do portátil ao nível dos olhos e tentar contrariar a
marreca de horas a mais ao teclado, uso uma biografia de Mao Tsé-Tung, um
volume sobre castelos e uma escalfeta velha. São três objectos que não me fazem
falta. De crápulas sei já o suficiente. Para castelos deixei de ter posses.
Contra o frio rasteiro calço uns eficazes peúgos de lã grossa e áspera. Este é,
contudo, um pragmatismo diferente daquele que com alegria incauta erigiu a
babélica torre sobre a secretária.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Não, não sou Charlie Hebdo
Durante uma boa parte da minha vida adulta escrevi textos críticos e
satíricos de pendor social ou político. Antes tinha feito cartoon (é verdade), primeiro como argumentista, depois, por desistência
do parceiro, também como desenhador. Não eram grande coisa, os meus cartoons, tanto no traço como no humor.
Embora aquilo me desse bastante gozo, não sei se haverá algum por que possa
sentir qualquer ponta de orgulho. Guardo parte deles na garagem, mas há mais de
uma dúzia de anos que não lhes toco. Quando o fizer, provavelmente o papel de
jornal desfaz-se-me nas mãos e não me parece triste nem injusto que isso
aconteça. Inicialmente assinava-os com pseudónimo, mais por timidez e insegurança
(ou por consciência não assumida da sua mediocridade) do que por receio de
represálias. Mas em algum momento devo ter percebido (finalmente) que,
medíocres ou não, era cobardia não assinar os desenhecos e passei a fazê-lo. O
mundo, acertadamente, não se comoveu com o gesto, a Terra não alterou a sua
órbita.
Quando passei para as colunas de opinião, em publicações próprias ou alheias, a ironia e a irrisão acentuaram-se. Ganhei os meus primeiros
inimigos para a vida, mas quase todos inimigos cordiais e até afáveis, devo
dizê-lo.
Por ocasião do III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, se não
estou em erro, escrevi para o extinto Semanário
Transmontano, onde era na altura cronista regular, um texto a ridicularizar
sarcasticamente o evento e as suas pretensões e o director resolveu publicá-lo em
letra gorda na primeira página. O jornal foi distribuído no Congresso e eu
resolvi aparecer no local, com suposta heroicidade, para dar a cara pelas
minhas palavras (ou talvez deva dizer honestamente, para recolher os louros pela boutade). De novo com justiça, a nata
transmontana ali reunida não deu pela minha presença: não houve vaias,
assobios, ameaças à integridade do escriba petulante e traidor. Só o meu
ego saiu ferido.
De resto, tirando ocasionais reacções frouxas, a minha intervenção
cívica através da crítica e da sátira pareceu-se demasiado a um passeio bucólico
pelos bosques. Só a espaços senti ter despertado algum ódio atávico, geralmente
vertido em colunitas azedas, algumas convenientemente anónimas, e apenas em
duas ocasiões as reacções ao que escrevi traziam implícitas ameaças de consequências.
Numa noite de vitória eleitoral de uma facção que eu satirizara nas minhas crónicas,
um militante mais eufórico ofereceu-me o seu olhar de pura raiva hooligan e perdigotou palavras de exemplares democraticidade e fair play (confirmando,
aliás, involuntariamente, o que eu escrevera sobre a seita, mas isso ele jamais
poderia perceber). Pela mesma época, certo figurão resolveu informar uma
audiência (não apenas privada, infelizmente para a sua honra) que os meus
escritos eram razões suficientes para ele mexer cordelinhos e conduzir-me ao desemprego.
Deve ter-se sobrestimado ou arrependido, porque continuei empregado.
É por este triste currículo que me sinto obrigado a confessar ter
sentido uma certa vergonha a acompanhar a minha comoção com a morte dos
cartoonistas e jornalistas do Charlie
Hebdo. A afirmação Je Suis Charlie
que pus como foto de perfil no Facebook é sincera na sua solidariedade, mas é
simultaneamente cabotina, equívoca. Não, não sou Charlie. Eu não tenho a bravura, a grandeza daqueles homens. Eu não
escrevo textos nem faço desenhos corajosos como os daquelas pessoas que
morreram em Paris. Eu não vivo a um passo da ameaça terrorista. As minhas actividades
e as minhas opiniões não me expõem a perigos quotidianos potencialmente fatais.
Poderia passar os dias, aqui neste canto da periferia europeia, a republicar cartoons sobre cretinos e fanáticos muçulmanos,
católicos, judeus, hindus e nacionalistas e provavelmente morrer de velhice, cirrose ou de um
AVC — não com balas ou bombas.
Mas sobretudo não sou Charlie porque com os anos tenho demasiadas vezes
cedido à inércia e à preguiça e deixado de me rir — rir ironicamente, sarcasticamente, ferozmente, acintosamente, publicamente — das pequenas iniquidades
e dos pequenos ayatollahs que neste
país também frutificam. A minha resolução de ano novo deveria ser a de voltar a
rir às gargalhadas com certa regularidade. Enquanto isso não acontecer, vou ali
trocar a foto do Facebook por uma igualmente solidária mas menos pretensiosa.sexta-feira, 10 de outubro de 2014
A insustentável leveza da pubescência
Talvez houvesse também razões musicais, mas parece-me que na disputa
entre Spandau Ballet e Duran Duran eu preteria os primeiros porque pareciam demasiadas
vezes vestidos para casar (ou ser padrinhos de casamento), enquanto a mistura de
farrapada punk e marinheiro russo que frequentemente cobria os segundos os
tornava românticos aos meus olhos adolescentes. Mas românticos de aventuras,
não do coração. Afinal, na altura eu também preferia a Rama de Arthur C. Clarke
à Praga de Milan Kundera. E ainda revirava os olhos nas cenas de beijo dos
filmes, fazendo mentalmente zapping
para Mad Max.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo
No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina
procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco
Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:
«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*
Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa
similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento
de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas
para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou
lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência,
mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo
inteligente».
Descontada a boutade pateta, há
decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas.
A Europa devia lembrar-se.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
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