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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Tosse e epifania na música clássica

As procrastinações de ontem alicerçaram-se em música sinfónica, depois de ver «os principais epidemiologistas da Alemanha» afirmarem que lotações completas em concertos de música clássica são seguras já que o público destes espectáculos é «disciplinado, não fala e geralmente segue as regras». Por mera irrisão, lembrei-me de um conto de Julian Barnes* onde o protagonista, assistindo a um concerto no Royal Festival Hall, concorda totalmente com o sugerido e aduz argumentos importantes:

«Como eu disse o público era normal. Oitenta por cento saíra dos hospitais da cidade com alta temporária; a bilheteira dera prioridade às alas de pneumologia e otorrinolaringologia. Reserve agora para arranjar um lugar melhor, se tiver uma tosse de 95 decibéis.»
«O allegro da abertura correu bastante bem: dois ou três espirros, um caso sério de muco compacto a meio do balcão, que quase necessitou de intervenção cirúrgica, um relógio digital e uma quantidade razoável de virar de páginas do programa.»

A tosse na música clássica é uma piada gasta, mas continua a incomodar gerações sucessivas de músicos (da secção de cordas, particularmente) e melómanos. É que, postos perante a necessidade de silêncio e atenção durante certo tempo, muitos seres humanos são impelidos por uma biologia atávica a limpar as vias respiratórias com recurso a uma «expiração brusca com convulsão ruidosa do peito ou da garganta». Ao contrário do que seria legítimo pensar, não o fazem como libertação e preparação para a música, mas antes sucessivamente, como acompanhamento percussivo não solicitado dos andamentos e com tendência para falhar o tempo.

Mas pior do que um público que tosse é uma sala sem tosse porque sem público. Talvez a pensar nisto, na mesma Londres de Julian Barnes mas no final do século XIX, levaram-se os promenades, concertos em parques com público deambulante, para teatros, onde, num ambiente informal, a audiência podia comer, beber ou fumar. E tossir, supõe-se. Isto porque um empresário achou que haveria gradualmente, a partir do relaxamento popular, de criar um público para a música clássica. (A obsessão pela criação forçosa de públicos é tão antiga como a democracia, o único sistema político que concede à plebe emancipada o direito de rejeitar e desdenhar o que antes eram privilégios invejados de ricos e poderosos.)

Os proms depois de se tornarem populares fizeram-se prestigiantes, ao construírem, via BBC, uma tradição no Royal Albert Hall. Prestigiantes não no sentido de elitistas, mas porque concederam à tentação facilitista a possibilidade de invocar, sem que sempre o perceba totalmente, um precedente nobre.

O défice de público competente (por competente não se entenda um público apto a controlar a tosse — se fosse assim, os programas do Royal Festival Hall mencionados pela personagem de Julian Barnes não precisavam de incluir uma informação, «que raia vagamente a advertência, sobre telemóveis ou o uso de lenço em caso de tosse» —, mas um público capaz de estar relativamente sossegado na cadeira por um razoável período de tempo), o défice de público competente, dizia, ou apetente, inspirou outras formas de tentar criar audiências para a música clássica. Uma delas, muito comum, gerada pela mesma vocação propedêutica e não raro equívoca para descontrair o público, é a de não tocar música clássica, mas sucedâneos. Música de grandes êxitos do cinema, peças de musicais da Broadway, tudo o que possa ser interpretado por vários naipes subaproveitados. Ou, vá lá, umas zarzuelas e umas polkas. Música para animar a audiência, enfim, como pernas síncronas na ginástica aquática.

Por isso, as hipóteses de coincidirem num mesmo espaço orquestras, público e repertório clássico são frequentemente reduzidas pela perversão do próprio desejo de ter público.

E no entanto talvez valesse a pena confiar mais no potencial da música clássica para chegar ao peito dos desafinados. O meu pessimismo antropológico é neste assunto matizado pela memória de uma epifania. Não posso subestimar a capacidade de deslumbramento e enamoramento dos ignorantes, porque isso seria negar a minha própria natureza, a minha própria história. Que é uma história de convergência dos três ingredientes atrás mencionados na província distante dos anos oitenta portugueses. Ali percebi pela primeira vez o impacto que uma orquestra, com todo o seu poder de som, em toda a sua diversidade tímbrica, com toda a complexidade de uma harmonia rigorosamente disciplinada mas leve, fluida, a tocar ao vivo música clássica pode ter no espírito em formação de um adolescente. (Pude também perceber em simultâneo a sedução que fraques e vestidos, se elegantes, podem operar num olhar juvenil.)

Não calhará a todos a felicidade de ter essa experiência inaugural num casino romântico, ainda que decadente, do início do século XX, como este adolescente teve, mas suspeito que a epifania vem mais da descoberta da música, do prazer e das sensações que ela oferece a um espírito de repente aberto, do que do local onde ela se faz ouvir.

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* ”Vigilância”, em A Mesa Limão.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Marcos miliários

(™ A viver acima das possibilidades desde 1968)

Já devo ter dito isto (às vezes repito-me), que certos textos, porventura dos mais importantes, são escritos como evocação de uma experiência, que pode ou não ter acontecido. É como a fotografia de um sítio especial que se põe no blogue ou no Facebook, menos para que os outros a vejam do que para que nós próprios a voltemos a ver quando for imperativo (considerando que além de mim haja outras pessoas a fazer isto).
Gostaria que a minha vida, pelo menos a da última década, fosse contada em slides da série «™ A viver acima das possibilidades desde 1968». Não tenho na verdade publicado muitas fotos dessas, mas as poucas que publiquei permitem-me preencher os vazios entre elas e (re)construir uma boa narrativa para os meus dias idos. Se me focar suficientemente naqueles momentos em que o espaço/tempo se organizou em volta de livros, paisagem e vinho poderei considerar com propriedade e alívio ter tido uma vida feliz.
O «sítio formoso» desta foto, para roubar uma expressão que o qualificou, só levemente tangeu essa condição de marco miliário araujiano, e não é local onde muito facilmente possa demorar-me horas a ler e a bebericar. Mas tem simultaneamente a estética e a veemência de um deles e não me admirarei se, com a febre que há-de tomar-me, vier a empenhar alguma coisa, seguindo a divisa da casa, para ali virar páginas e copos. Na absoluta impossibilidade disso, posso bem, não seria a primeira vez, penhorar um enredo que me permita igualmente frequentá-lo com regularidade terapêutica, ainda que por pretensa via literária.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Marvel

Enquanto escrevia «Bruce Banner» no post anterior fui invadido por memórias e sensações que abalaram terramotamente o prédio inteiro. Só recuperei quando os vizinhos de baixo, octogenários que não via desde Março, me bateram à porta em camisa de noite e gorro com pompom a recomendar que descrevesse o fenómeno em sete volumes mas que entretanto me abrigasse debaixo de uma mesa ou de uma padieira, até cessarem as réplicas.
Estou, portanto, aqui debaixo da secretária de mogno que herdei do morgado de quem sou descendente bastardo, a lembrar, não em sete volumes, mas em sete linhas ou menos, o tempo em que a minha vida era excitada periodicamente pelas revistas da Marvel a que conseguia deitar a mão.
Conheci basto mundo depois dessa era, deixando uma pegada ecológica que não precisa de nenhum Sherlock Holmes para dela inferir incriminações. Mas, e suponho que isto seja proustiano, não houve destino ou ocasião que me devolvessem a expectativa e a felicidade iminente que ressumavam daquelas páginas — mesmo quando nelas o nosso mundo explodia.

Cólera

Venho de uma linhagem de coléricos. Pessoas boas, capazes, honestas e humildes, mas coléricas. Não sou, julgo, o praticante vivo mais destacado da estirpe, mas não me livrei da maldição, que, no meu caso, afecta por vezes mais o perpetrador do que o alvo. É que para se ser um colérico feliz tem de se reunir pelo menos uma de duas condições: a inconsciência dos brutos ou o cinismo dos poderosos. Por decisão do destino livrei-me da primeira e a segunda nunca esteve verdadeiramente no meu radar. Por isso, sofro de tremendos remorsos sempre que expludo em fúria, e nas últimas décadas evitei expor-me a ela.
Todavia, não entrei numa ordem cisterciense com voto de silêncio e, como Bruce Banner, não posso responder sempre pelos meus actos.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Profissão de fé

Não costumo, senão por raros descuidos, trazer para o blogue assuntos profissionais. Não porque menospreze o que faço para ganhar a vida ou porque me dedique com ligeireza à profissão (por atavismo, não o saberia fazer mesmo que fosse açougueiro, au pair ou pintor de marinas), mas porque aprecio que não se contaminem mutuamente um emprego apesar de tudo (e dos anos) circunstancial e uma vocação mais antiga, idiossincrática e inelutável que em parte se cumpre justamente nesta plataforma online.

Esclareço já, todavia, para poupar entusiasmos e equívocos, que a vocação que se cumpre no blogue é agora sobretudo a do disparate gratuito. Uma consulta ao índice (e aos dicionários) revelará que o que se trata aqui — não por conveniência ou decisão mas como pura fatalidade — é de procrastinar, tergiversar. Escrever espontaneamente, sem fundamento (e sem honorários!) sobre qualquer coisa excepto a que importaria. Ténis é só o exemplo mais recente.

Invocar Bartleby é coisa pedante, mas algures dentro de mim habita um tipo que, perante as inquietações e as grandes questões do nosso tempo, que deveriam ser assunto neste blogue, e perante a tentativa do novo grande romance português, está permanentemente a dizer: «I would prefer not to». E lá sai, ao invés de reflexões ponderosas ou literatura original, mais um disparate sobre homens em calções e mulheres em minissaia atrás de bolas amarelas.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da nostalgia à alienação

Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)

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* Excepto para David Foster Wallace.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Cocktails

Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Covers

Lá pelos primeiros oitenta, a adolescência da minha terra carpia amores ao som de melodias dos setenta. Não porque a década oitava do século fosse pouco baladeira ou fracassasse muito ao tentar sê-lo (os corações feridos têm, de resto, na sua ânsia por xaropes milagrentos, ouvidos generosos). Acontecia apenas que as modas (na acepção musical como nas outras) demoravam o seu tempo a chegar aos lares onde se carpia. Lá em casa, por exemplo, numa prova de que a imagem se desloca mais rápido do que o som, já andávamos todos muito new-romanticamente a descolorar de dia o cabelo com água oxigenada e ainda ouvíamos à noite “Love Hurts”, musiquinha guinchada pelos Nazareth e o seu vocalista com voz de gaita-de-foles (instrumento que ele também tocava, informa a Wikipedia). Mais tarde viríamos a descobrir, com pena, que a canção nem era deles, mas dos Everly Brothers. Digo com pena não porque tivéssemos alguma coisa de princípio contra covers, mas porque se havia música melhor para carpir amores do que a da década de setenta era a da década de sessenta: alguns traumas sentimentais poderiam ter sido evitados se em vez da versão hard rock tivéssemos ouvido a gravação rock’n’roll. Aliás, pela mesma altura já estava a ter excelentes efeitos curativos, como notório avanço medicinal do célebre método oitocentista da sangria, outra canção dos sessenta que nos arrancava com frequência lágrimas dolorosas mas necessárias, a “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers — de quem invejávamos sobretudo, do fundo do coração (e dos pulmões), o volteio que ouvíamos perto do primeiro minuto da cassete* e que mais ninguém (nem eles) conseguiu depois imitar (e foram muitos os que tentaram).
Mais tarde ainda (tipo, agora) descobrimos que também não foram os manos Righteous a escrever a “Unchained Melody”, mas um casal broa-de-mel chamado Felice and Boudleaux Bryant, cuja versão, depois de ver a fotografia dos autores, não procurei por mero preconceito já traído atrás nesta frase.

Certos hits são como palimpsestos ou sítios arqueológicos: mexemos neles com uma escova de dentes de dureza média ou mesmo suave e encontramos algo por baixo. A experiência pode ser frustrante se descobrimos durante a escovagem que certos deuses do nosso panteão padecem do vício ignominioso de cançonetistas como Marco Paulo ou Tony Carreira. É então que nos faz bem ouvir alguém tão velho e sapiente como Johnny Cash numa cover, por exemplo, de “Personal Jesus”, dos Depeche Mode. Se um ancião da country pode pegar numa música de uma banda industrial da Inglaterra... Esperem, chegaram mais informações: diz que os DM escreveram a canção inspirando-se em Elvis Presley. Além do mais, a música soa bastante americana...
Adiante. Se somos capazes de ouvir com gosto pessoas de gerações e tribos distintas cantar a mesma melodia, talvez a arte não resida apenas na criação mas igualmente, ou em proporção justa, na interpretação. Como não amar “Smells Like Teen Spirit” por Tori Amos? Música desses Nirvana que cantaram Bowie em “The Man Who Sold The World”. Mutatis mutandis, o que nos importava a nós, há um século, se quando a Kim Wilde cantava “You Keep Me Hangin’ On” estava a fazer uma cover das Supremes? (Ok, aqui talvez não fosse exactamente a mesma coisa. Ou só essa coisa.)

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* Por «primeiro minuto da cassete» entenda-se o primeiro minuto deste vídeo: https://youtu.be/qiiyq2xrSI0

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

domingo, 3 de maio de 2020

Ao serviço do ténis

[Pequeno ensaio sob hipnose]

Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.

Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.

Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.

A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.

A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.

No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.

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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Alegria primitiva

Sinto quando por acaso descubro uma capa com o logótipo da revista LER, como agora aconteceu, a mesma alegria primitiva que sentia na infância se no horizonte havia uma revista da Disney (que raramente ou nunca pude comprar) ou, mais tarde, algo da Marvel (que já comprava com alguma frequência, preferindo investir nesses álbuns o dinheiro que outros gastariam para comer).

Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.

Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.

Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.

domingo, 26 de abril de 2020

Um 25 de Abril

Há muitos, muitos anos, noutra encarnação, eu era baixista numa banda que no seu derradeiro momento perdeu para os Ornatos Violeta e paralelamente fazia gigs, como agora se diz em bom português, em bares, salões de baile, comícios e cerimónias de 25 de Abril.
Bem, no 25 de Abril tocámos apenas uma vez, que me lembre.
Foi na Adega do Faustino, esse templo dionisíaco em Chaves, e como a coisa era à tarde ainda não estávamos suficientemente bêbados para eu logo ter esquecido tudo. Não é que lembre grandes detalhes (foi há muitos, muitos anos, como disse...), mas há uma parte que ficou, não sei se comovente se cómica. Já veremos.
Éramos um trio, por vezes quarteto ou quinteto (não dependia do cachet), que levava o trabalho a sério e para aquele dia preparámos, por gosto musical e adequação temática, várias obras do Zeca Afonso. Não tínhamos ideias políticas muito definidas, acho, e na minha família recuada até havia certa admiração (felizmente retórica, sem correspondência material) por Salazar, mas o imaginário e mensagem afonsinos seduziam-nos, além de que não éramos tão estúpidos que não percebêssemos a importância do 25 de Abril até para o simples facto de podermos estar ali a desfrutar de tão faustinos prazeres.
Mas, como disse, tínhamos ido para trabalhar, em bom rigor, pelo que havíamos preparado um alinhamento que incluía, como se imagina, como se impunha, a «Grândola». Mais do que prevê-la no alinhamento, planeámos o set para que aquela música fosse o apogeu, a razão última de ali termos ido. Não sabíamos, ou quisemos ignorar, que esse era também o sentimento do público.
Ficámos por isso surpreendidos — embora tivéssemos montado todo um número em torno da «Grândola» que incluía sacar o baterista a tarola do seu tripé para fazer de caixa de rufos e alinharmos com ele as guitarras e o passo como pelotão napoleónico em marcha —, ficámos então surpreendidos (e quase, quase, envaidecidos, penhorados) por aos primeiros rufos se ter levantado toda a audiência para, numa rigidez e seriedade de hino nacional, algumas mãos no peito, aguardar que despachássemos o prelúdio e a encenação que tanto nos orgulhavam e chegássemos, como era mister, à parte cantada, em que todos podiam participar, dando finalmente como bem cumprido o seu dia cerimonioso.

Num outro ‘concerto’, em diferente localidade e ocasião, tínhamos conquistado a sala quando, por manifesta incapacidade de sermos artisticamente compreendidos pelo público, desistimos do repertório ensaiado e atacámos, por gozo, por revanche, por casualidade até, as notas memoráveis duma peça que dava pelo nome arcádico de «Apita o Comboio». A assembleia levantou-se com um ânimo que fazia da imagem que anteriormente tínhamos dela uma vista de lápides em campo santo, juntou-se em pares e bailou como se não houvesse amanhã. Perante aquela explosão súbita, perante aquela alegria que não queríamos ser culpados de tornar breve (ai de nós, diziam-nos alguns olhares), improvisámos mais longamente que os Pink Floyd em Pompeia, dispostos a despir a camisa (e a gravata, usávamos gravata) se necessário fosse.

Ora, com uma carreira que obtinha reacções assim, podíamo-nos ter interrogado (mas nunca o fizemos, claro) sobre as vantagens que um gira-discos não teria para o público, o promotor e sobretudo a nossa dignidade artística.

No 25 de Abril flaviense, com a «Grândola», nós queríamos causar aquela reacção, aquela comoção, planeáramos aquilo, mas quando aconteceu não estávamos suficientemente confiantes de sermos capazes de o obter. Podíamos então ter sido artistas realizados — se não tivéssemos percebido logo, com uma clareza que na verdade sempre fora evidente, que o empolgamento não estava na nossa prestação, mas na canção e no que ela representava. O melhor que podíamos ter feito naquele dia, do ponto de vista da originalidade artística, da capacidade de atrair atenções especificamente para o nosso trabalho, era termos destruído a música e o momento logo depois dos primeiros coros, mas não tínhamos vocação punk. E também não calculámos a tempo quantas daquelas pessoas se levantaram e cantaram apenas por tradição, por ritual, como recitavam na missa em coro o Pai-Nosso — e como no texas-bar de Cabeceiras ou o raio teriam dançado o «Apita o Comboio», com o mesmo empenho e convicção.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Gira-discos

Há duas histórias que se digladiam na minha memória pelo troféu do primeiro contacto frutífero com um gira-discos. Uma delas é protagonizada por três músicas (de artistas diferentes) e a outra por todo um álbum. Falemos da primeira história (segundo a cronologia deste texto), enquanto damos tempo ao júri para tomar uma decisão.

Naqueles dias, havia alguém que arquitectava uma forma de fornecer um gira-discos para as reuniões de grupo que tínhamos ao sábado à noite em espaço abençoado pela Igreja. De toda a playlist que animava aqueles serões, e que talvez fosse vasta, duvido que alguém recorde mais do que três músicas: “Angie” (Piedras Rolantes*), “Against All Odds” (Phil Collins) e “Careless Whisper” (George Michael). Tudo começava geralmente com uns ruídos, um crepitar. Era comum: os discos tinham muito uso e não se lidava com eles com pinças. Entrava primeiro aquele som que apenas significava que havia um disco velho a rodar no prato mas que era já sugestivo, como se a música tivesse sido composta com um prelúdio misterioso. A seguir vinha a guitarra acústica, uma nota e um acorde metálicos que eram como um sinal. Os sentidos ficavam alerta e a pulsação acelerava. Depois, um Jagger da mesma idade do que vimos ontem, na era do confinamento, a cantar à guitarra numa tela quadripartida “You Can't Always Get What You Want", lamentava-se chorosamente: «Angie, Angie, when will those clouds all disappear?». Era a hora dos slows e nenhum critério estético pesava muito na selecção musical, aliás invariável. Os rapazes gostavam de “Angie” talvez pelo que ali soava aos seventies (não confessariam sucumbir às sugestões sentimentais da música) e as raparigas gostavam de George Michael. E julgo que apreciavam também a música dele, não sei. Mais tarde, por razões adicionais, talvez já só defendessem apreciar a música. Quanto a Phil Collins, permanece uma incógnita, tantas décadas passadas.

A segunda história não é mais edificante e começa numa estância termal de província no início dos anos oitenta — um melting pot frequentado por netos e netas dos tradicionais termalistas, com mais ou menos pergaminhos, emigrantes em férias (vindos de Paris no Verão e de Zurique no Natal), variegada fauna das cidades vizinhas, com rústicos e betos de várias extracções, todos dando o seu melhor a dançar nas noites da discoteca local, a mergulhar nas tardes da piscina ou a desfilar, muito século XIX mas sem charrettes, na Alameda das Nascentes — um território, em suma, pouco propício à unanimidade em questões estéticas e musicais. Em certos momentos uma corrente mais rock e máscula parecia dominar, noutros o rock fundia-se de bom grado com as mais recentes tendências da new wave, não temendo arriscar aqui e ali incursões no new romantic — e tudo era frequentemente destruído por certas preferências dançáveis da corrente menos sofisticada da pop electrónica, cujo expoente máximo viriam a ser talvez uns alemães que davam pelo nome ainda hoje nauseante de Modern Talking.
Neste caldo, um teenager em formação, instado a tomar partido, ainda que encontrasse predicados em (quase) todas as correntes, via-se por vezes obrigado à rebeldia. E, apesar de a década já estar bem entrada, deixando os setenta assentar alguma poeira, ser rebelde era por vezes tão-só depreciar (ou fingir depreciar) o bom velho rock’n’roll. Chega-se assim um ano aos Duran Duran, para gozo de muitos e embófia do próprio.

Ou talvez, e aqui é que a história entronca na verdade com o mote do texto, os Duran Duram tenham vindo de certa semana de férias de mar em que o adolescente descobriu na casa que o albergava um gira-discos e esse gira-discos deu-lhe a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, sem restrições, em plena autonomia, ou quase, um álbum completo e esse álbum calhou ser Rio, dos Duran Duran. O rapaz saiu menos bronzeado desse Verão (havia que aproveitar a oportunidade, nem que fosse preciso ir menos ao mar), mas a conhecer cada letra e linha de baixo do disco.
Ainda arriscou, na rentrée, quando a estância se esvaziava e regressava à sua normalidade rural, uns adereços e uns penteados tributários dos fab five de Birmingham, mas era preciso um certo estofo, ou cheirar recorrentemente a tinta impressa da pouco acessível revista Bravo (que tinha conhecidas propriedades inebriantes, como sabe quem a cheirou à época), para se perseverar numa excentricidade estilística daquelas, por mais perfil apolíneo que se tivesse. Também era preciso dinheiro para modistas e parceiros para fundar uma tribo que desse consistência e conforto à opção — e isso não havia, pelo que a meados de Outubro tudo voltara à mesma indefinição enfadonha do costume.

* Ver post anterior.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O rádio

Havia em casa, e julgo que ainda por lá anda, num dos estratos geológicos da cave, um rádio preto com grelha do altifalante e sintonizadores cinzentos que acompanhou a fase final da minha infância e toda a adolescência. Nele ouvi anunciar-se a morte de John Lennon, instalando-se em mim e na atmosfera da casa uma gravidade que não compreendi de imediato e que, percebi-o depois, marcava o fim de uma época e o início de outra. Nele ouvi também, pela primeira vez, algumas músicas de que há pouco me lembrei (curiosamente todas do mesmo ano, 1984), que ainda hoje, mesmo que as julgue esteticamente com outra severidade, despertam em mim sentimentos agradáveis: Pride (In the Name of Love), Dancing With Tears In My Eyes e Terra Titanic (sim, notam bem uma certa inclinação juvenil para o épico).

Sendo o único objecto capaz de receber e traduzir ondas hertzianas lá em casa, era, não direi disputado, porque ninguém supunha poder disputar-se nada à autoridade paterna, mas partilhado e, sobretudo, usado em diferentes fases do dia por diferentes tendências e gerações da família. Dali saíam os noticiários a horas certas, o Despertar do António Sala, o terço ao final da tarde e missas ao domingo de manhã, os relatos de futebol nas tardes entediantes de domingo, ainda alguma, já desusada, peça de teatro radiofónico à hora de jantar, ou austeros e nasalados programas de debate político, e, em alguns serões, finalmente, em volume comedido, o rock e a pop de “vanguarda”, segundo os critérios do pequeno burgo.

Quando a televisão começou a ganhar primazia lá em casa, o rádio tornou-se menos procurado, e podíamos então, os mais novos, não só sintonizá-lo na nossa onda em horas antes inviáveis, como deslocá-lo da sua prateleira elevada e presidencial na cozinha para recantos menos altaneiros da casa, consentâneos com o estado de espírito que nos dominasse. Podia ser para ouvir os hits do momento ou as novidades possíveis ou para rituais de catarse de diversa índole, artística ou outra.

Não havia na casa do rádio preto um gira-discos nem dinheiro para vinil, pelo que nos formámos, com certas reservas porém, numa cultura musical de singles radiofónicos, estudando listas de tops e peneirando compêndios de êxitos. A ideia de álbum como um conjunto de ideias esteticamente relacionadas, mesmo quando isso fazia particular sentido e era conceptual, era por nós simplesmente deduzida a partir da literatura musical a que conseguíamos aceder. O contacto real com esse tipo de produção, já que as rádios que nos chegavam eram avaras nisso, dar-se-ia com um certo delay quando os primeiros amigos do liceu nos davam a ouvir nos seus walkmans cassetes integrais de um artista ou banda. A certa altura começaram também a aparecer lá por casa, trazidos pelos mais velhos, leitores de cassetes em segunda mão e meio partidos, mas porque nem para cassetes virgens tínhamos dinheiro ou porque nunca chegámos a adquirir o hábito de comprar ou gravar música, durante algum tempo a base da nossa cultura musical continuou a ser providenciada sobretudo por programas de rádio (a televisão oferecia neste campo oportunidades ainda mais limitadas).

Frequentemente tínhamos ao sintonizar as rádios então disponíveis a mesma dificuldade que nos dava a televisão — os retransmissores rareavam, e na minha zona montanhosa desfaleciam muito com as trovoadas, que na altura não tinham nomes mas eram medonhas. Por isso, as novidades chegavam-nos muitas vezes de Espanha, de onde afinal sopravam melhores ventos, pelo menos para as ondas de rádio. A cultura musical de singles era também assim uma cultura raiana, hilariamente traduzida (Piedras Rolantes por Rollig Stones era um clássico), cheia de bandas e tendências espanholas que o adolescente médio português desconhecia ou desvalorizava, o que fazia de nós ainda um pouco mais “raros” quando nos deslocávamos a burgos maiores.

A partir do ano mágico de 1984, o rádio para além de fornecer música providenciava consolo. Servia, posto à cabeceira da cama pela calada da noite, para afogar terríveis mágoas amorosas no profundo Oceano Pacífico de João Chaves ou para antecipar em sonhos nocturnos, também na toada suave, propícia e prónuba daquele programa, o que a luz do dia ainda não conseguira inexplicavelmente proporcionar-nos.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Ioga para seniores ou do terço à saudação ao sol

Nesta quarentena ainda não corri uma maratona na varanda, como fez Elisha Nochomovitz, mas, porque nas saídas profissionais vou geralmente fechado no carro como num escafandro e, cidadão exemplar, evitei até agora correr no parque com receio de incentivar outros, tenho vindo a submeter-me todos os dias a vinte minutos de ioga para tot…, perdão, para seniores, instado por quem comigo partilha a cela.
Não vou cometer publicamente a desfaçatez de dizer que não aprecio a modalidade (sobretudo porque já o fiz em privado) e na verdade, depois da tortura inicial, a sessão tem vindo a ser suportável, mesmo proveitosa, e abriu-me a mente para outras práticas e horizontes que até há pouco não imaginava possíveis (comecei também, por exemplo, a preparar-me para a Volta à França numa bicicleta estática). No entanto, a súbita constatação, ao acordar todas as manhãs, de que depois das abluções me irei voluntariar sorrindo para a aula online da Miss Cole Chance ainda me deprime mais do que a ideia, também subitamente concretizada, de ser agora uma personagem distópica dum filme série Z.

A contrariedade (já um pouco escusada) que se instala no meu corpo e no meu espírito recém-levantados da cama é semelhante à que me oprimia nos jantares de Maio da década de setenta, quando antecipava os quinze minutos de tortura que me eram servidos como sobremesa durante todo o tempo que durava o «mês de Maria». Consta que a Nossa Senhora, quando apareceu na trip bucólica e famélica dos três pastorinhos, penteando o cabelo e colorida como um arco-íris jaggeriano, lhes pediu «insistentemente» que rezassem o terço todos os dias. O povo português, que tem uma tara por tradições instantâneas, logo instituiu que dali em diante em Maio, mês da primeira aparição, se rezaria diariamente o terço em todas as casas católicas. Nos anos setenta a minha ainda era uma casa católica e eu uma criança a quem o 25 de Abril não trouxera a liberdade prometida. Sentava-me com os meus irmãos e irmãs numa roda ao lado da mesa da cozinha, a ver os dedos da minha mãe, que liderava a sessão, devorarem com uma lentidão desesperante as contas do terço (como um Pacman sádico ou instalado numa máquina com um processador fraquito), ganhando um pouquinho de ânimo de cada vez que ela chegava àquelas contas maiores que, como metas volantes, marcavam etapas no mantra interminável das Avé-Marias e introduziam, como falsas pausas, a variante nada refrescante do Glória-a-Deus seguido do Pai-Nosso, ansiando então pela terceira meta volante, que nos permitia iniciar com olhos silenciosos (os lábios sempre em ladainha) a contagem decrescente para a meta final, representada pela cruz como num Calvário e na verdade adiada por umas Salve-Rainhas e uns Credos também eles repetidos interminavelmente e ainda intercalados por mais três Avé-Marias (não eram consideradas suficientes as cinquenta anteriores) e — por que não? — um Pai-Nosso, até que, finalmente, com as seis crianças quase desfalecidas e a implorarem progressistas por uma lei da eutanásia infantil, mais pálidas do que as da família Adams, finalmente, dizia eu, a minha mãe enrolava o terço numa das mãos e com um sorriso talvez beatífico dava por concluída a sessão.
Não demorávamos a amar de novo a minha mãe (as crianças esquecem rápido), mas não me recordo de as agruras do terço me terem aberto o espírito como as do ioga me abrem o peito na «saudação ao Sol» que, de estores abertos, ofereço gratuitamente como artista-em-casa aos vizinhos do prédio fronteiro.

domingo, 8 de março de 2020

Meta-embaraço

Na mesma sessão de jogging do post anterior, um casal caminhando à minha frente e dando-se as mãos de braços estendidos, como se preocupado apenas com a transmissão aérea do vírus, ocupa toda a largura do trilho e preparo-me para o ultrapassar usando a estreita faixa de erva entre o caminho e um atoleiro. A escassos metros, o elemento masculino do casal apercebe-se da minha chegada pelas suas costas e delicadamente tenciona deixar-me passagem pelo meio dos dois, largando a mão da amada e encostando-se à esquerda, para a faixa de erva que eu planeara usar. Quer porque a inércia da corrida e a má forma já não me permitem mudar radicalmente de rumo, quer porque gosto de passar pela vida discreto, sem perturbar ou partilhar o caminho dos outros, tudo o que consigo é não atropelar o tipo alargando um pouco mais o arco da ultrapassagem pela esquerda — o que me põe a chapinhar pesadamente no lamaçal durante todos os longos segundos que levo a deixá-los para trás. Sem me voltar, ouço o ohhh culpado e embaraçado do rapaz e embaraço-me eu também por ter os pés em equilíbrio precário e sujo na lama e por o ter deixado embaraçado a ele com a minha mania de contornar todas as multidões, mesmo que de dois. Embaraço-me ainda por lhe ter, provavelmente, salpicado as calças, que ele trazia tão estimadas e esticadas. Continuo, como faço sempre, olhando em frente, como se apenas tivesse olhos para a meta — mesmo não sabendo o que seja e a que distância se encontra.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Ler à mesa


Para mal de quem me estima, escolho os restaurantes não pela comida ou pela popularidade mas em parte pelo abandono. Um restaurante sempre cheio dificilmente me terá como cliente e a excelência da comida não é a minha principal preocupação quando almoço ou janto fora. Sobretudo se o faço sozinho, altura em que aproveito para ler.

Gosto de passear pelas cidades de livro debaixo do braço, experimentar-lhes a ler as esplanadas ou os cafés históricos e, como corolário raramente intencional, testar-lhes a tolerância à leitura. Quando chega a fome, espreito-lhes a restauração em busca de um sítio pouco popular mas ainda suficientemente simpático para ser confortável, que não cheire a detergentes e sirva de modo satisfatório um qualquer prato convencional.

Nos cafés, por ainda haver nos mármores lembrança de tradições e tertúlias e por serem sítios de passagem, mais habituados por isso a um certo cosmopolitismo, um livro aberto sobre a mesa não causa geralmente espanto, não demasiado. Nos restaurantes, pelo contrário, é comum travar-se uma guerra surda ou declarada com o empregado de mesa. Alguns começam por informar, parecendo cómodos com a ideia de um cliente a ler, que de boa vontade pousam as entradas a um lado enquanto não vem o prato. Há já naquilo um aviso. Quando trazem o vinho, com a desculpa de que é preciso prová-lo, mesmo sendo colheita da casa servida em jarro esbotenado, sentem-se autorizados a virar o copo que ali jaz baço há dois ou três dias e a pousá-lo resvés ao livro que lemos, com a ameaça de uma pinga tinta em página branca a assomar no gesto largo e escusado de servir sidra à asturiana. Ao chegar depois com a comida, se ainda estão com delicadezas, aguardam de rosto severo e travessa a fumegar que retiremos voluntariamente o fólio. Se nos demoramos, avançam de perfil, à egípcio antigo, com a travessa em equilíbrio na mão esquerda e usando a direita para, num golpe de rins, puxar para cima do livro o prato que aguardava à distância. Alguns mais afoitos ou impacientes, prevenindo ainda oposição, sentenciam, com a autoridade das maiorias ruidosas e voz de madrasta, que à mesa não se lê.

Há porém casos (ou casas) em que o advento de um cliente é tão celebrado que quem serve deixa de lado a bibliofobia e só tem mesuras para oferecer. A leitura nestes sítios é interrompida já não pela vontade de normalizar o cliente mas de o bem servir. Ignora o empregado (ou dono, muitos dos sítios que escolho não ganham para empregados) que bem servir este tipo de clientes é deixá-los em paz, não aparecer de três em três minutos a perguntar se está tudo a gosto, e muito menos vir meter conversa para amenizar a solidão — de quem serve.

O cúmulo, recorrente, é ter o cliente-leitor escolhido o estabelecimento por, entre outros méritos, este ter desligada a televisão e vir alguém à mesa, cinco ou seis sossegadas páginas depois, perguntar se não quer talvez o cliente que se lhe ligue a televisãozinha.
Quiçá não o faça por estupidez, mas por remorso. A falta de clientela impõe poupanças no ar condicionado e desleixo na lida da casa. Já nem se acende a televisão da sala quando não se espera ninguém, e a consciência súbita, ainda que retardada, de que há alguém na sala, oblitera a ponderação. Isso, e a certeza geral de que a humanidade não passa sem futebol na hora de comer, impede o pobre empresário ou garçom de reconhecer um cliente satisfeito quando finalmente tem um.

P.S.: Na cidade onde vivo conheço mais dois ou três leitores de mesa e sempre que os vejo penso (como um inimigo de classe, na verdade) que devíamos fundar um grémio: a união faz a força e precisamos dela para resistir aos muitos e multitudinários grémios idiotas que nos rodeiam. Teríamos, de resto, os jantares associativos mais tranquilos do burgo — mas suponho que isso não entusiasme a contemporânea guilda da restauração.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O rio da minha aldeia não transbordou

O rio da minha aldeia não transbordou. A junta fez um muro novo e parece que isso é bom. Quando eu vivia lá e a minha aldeia não era vila, o rio transbordava sempre. Todos os Invernos. Na última década raramente transbordou, acho, e não sei se isso corrobora ou desmente o aquecimento global, culpado contraditório que é de secas e tormentas. Eu gostava quando o rio da minha aldeia transbordava. Havia nesses dias, apesar da recorrência anual, um ar de novidade, de excepção, de acontecimento insólito que (como a neve) permitia acreditar que na vida não havia apenas rotina, clima moderado. Depois de uma noite de chuva intensa como a destes dias, vínhamos à única janela da nossa casa que dava para a rua (a única janela da nossa casa que não dava para partes da própria casa) e tentávamos ver, por entre as árvores de Dezembro já despidas, até onde tinha chegado a água que sobrava do caudal violento. Se amainava e a mãe andava ocupada, como andava sempre, escapávamos rua abaixo e lá íamos verificar in loco quão largo estava agora o Avelames, ali antes da ponte e a seguir à curva.

A visão de um rio largo e no seu eixo violento (as margens agora amplas eram de águas calmas e misteriosas) era a um tempo assustadora e deslumbrante. Sentíamo-nos crescer em importância e angústia com o engrossar do rio. Importância, porque tínhamos com o rio, mais do que os pacientes pescadores, uma ligação íntima, de quem nele se fundia por longas horas no Verão; sentíamos o rio como propriedade como sentimos que somos donos de cada um dos nossos braços ou pernas, nossos prolongamentos. Angústia, porque de repente já não conhecíamos o rio, estranhávamo-lo na sua largueza, e a vasta lagoa que se formava na margem esquerda, submergindo partes de amieiros e carvalhos e sei lá que outras árvores menos ribeirinhas encosta acima, tinha todo o ar ameaçador de um pântano de onde sairiam facilmente crocodilos, longas e grossas serpentes aquáticas e, quem podia negar?, piranhas ou bicho pior.

Na verdade não eram os bichos o que eu mais temia, mas, sem conhecimentos bíblicos, as consequências de um dilúvio. Temia, e com isso sonhei décadas a fio, até há pouco tempo, que a água continuasse a subir e chegasse à taberna, quase à porta da nossa casa, e que ficássemos isolados, as estradas intransitáveis para sul. (Não concebia que se pudesse evacuar a aldeia pelo norte, para mim tudo o que significava saída dali estava a sul, a sul estavam as cidades grandes e a América e as estradas de acesso à Europa, mesmo que a Europa ficasse a norte; no norte da minha infantil geografia local apenas havia versões mais isoladas da minha aldeia.)

Nos meus sonhos de então e depois, via a bacia do rio a chegar cá cima, mas a água não subia nivelada, a sua superfície acompanhava a inclinação da encosta, e na outra margem havia apenas o resultado das cheias habituais, lameiros inundados, um só metro de água acima do normal.

E o que eu temia mais era afinal que o recuo das águas, quando dias depois elas recuavam, fosse apenas aparente, que debaixo dos paralelos da estrada permanecesse um rio subterrâneo e que ao pisá-los eles cedessem e de repente a estrada era como um puzzle a que faltavam peças, grupos de paralelos isolados uns dos outros, mantidos à superfície sabe-se lá por que fenómeno alheio à física. E de novo a aldeia, a nossa parte da aldeia, inacessível, todos receosos de pisar e afundar mais paralelos e já nem uma memória de estrada pavimentada e transitável nos sobrava.

Mas só nos sonhos as cheias tinham este lado assustador, esta ameaça quântica, alheia à física tradicional. Na vigília, quando o rio transbordava, o meu espírito transbordava com ele de felicidade com as coisas raras. O único lado mau do Avelames engrossado era a gente, fascinada, querer chegar-se-lhe a fímbria e enterrarem-se-nos subitamente as pernas na terra agora lamacenta que nos separava dele. Esse era o acontecimento inesperado que não desejávamos e contra o qual as nossas mães nos preveniam — ou ameaçavam, cansadas de nos lavar a roupa.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

As leituras das vizinhas

Há perto de trinta anos descobri, envergonhado, que as minhas vizinhas liam Vergílio Ferreira. Envergonhado por mim, que ignorava o que escrevia Vergílio Ferreira e pensava que no bairro as senhoras só liam romances cor-de-rosa. Havia um livro esquecido numa mesinha, julgo que o Em Nome da Terra, ou talvez o Para Sempre, e enquanto me pus a folheá-lo, intrigado com a presença daquele objecto naquela casa, entrei num estado de espanto e êxtase que só terminou meses mais tarde, depois de ter aviado mais ou menos de enfiada aquele par e Até ao Fim, Uma Esplanada Sobre o Mar, Na Tua Face, Cartas a Sandra, uns contos do autor e, já esmorecendo, Aparição.

Hoje descubro, desolado, que as minhas vizinhas lêem muito José Rodrigues dos Santos — e romances cor-de-rosa. Temo que já não leiam nada que se pareça com Vergílio Ferreira.

Não é o envelhecimento delas, suspeito, mas uma consequência e metáfora dos tempos.



quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Livros que brilham como se tivessem luz própria*


Já contei algures que li a novela Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, na noite que sucedeu uma exaustiva e fatigante limpeza do apartamento onde então vivia. Estávamos na Primavera, talvez véspera da Páscoa. Os bons católicos da minha terra recordarão que a casa se limpa profundamente na Páscoa; eu não esperava e menos desejava a visita de um padre, mas não estava decerto imune à sugestão de renovação que a Primavera traz.

À noite estendi-me nos lençóis lavados, a cheirar a fresco (ou ao sucedâneo de frescura deixado pelo detergente da máquina), agradavelmente cansado, satisfeito, com uma vaga sensação de vitória, e aquele livrinho pareceu-me brilhar como a superfície dos raros móveis onde aplicara o Pronto ou dos mosaicos onde, talvez desajustadamente, vertera e esfregara o Cif. O dia tinha sido de sol e, se isso inicialmente me enevoara o espírito, quando, auto-enclausurado, me obriguei a limpezas, deixou, por outro lado, uma encantadora memória de luminosidade geométrica no parquet descolado, de janelas trespassadas pela luz declinante, que perdurou à noite.

A leitura da novela foi quase extática, epifânica, como se o próprio Espírito Santo tivesse resolvido, com jovialidade de cordeiro primaveril antes de pressentido o sacrifício, derramar-se nas páginas daquele exemplar da colecção «Ficção Universal» das Publicações Dom Quixote. Tudo naquele livro de capas brancas, o que dele emanava para mim, era luz, luz meridional, luz quente, e bem-estar, joie de vivre, Riviera Maya sem sargaço. Bem sei: alguém ia declaradamente morrer e as causas e os métodos da morte não eram bonitos nem radiantes. Mas havia a prosa, a narração. Dormi como um anjo e guardei essa memória de felicidade até hoje.

Bruno Vieira Amaral, logo na terceira página de Hoje Estarás Comigo no Paraíso, evoca e cita Crónica de Uma Morte Anunciada. Se o não fizesse ele, qualquer crítico do livro teria de o fazer. Não tanto pelos pontos de contacto circunstanciais que possam existir entre as histórias narradas pelos dois livros, mas pela luz que ambos reflectem. Ou emanam. O romance de BVA é, para mim, meridional como alguma literatura da América Latina. As páginas do livro iluminam-se da mesma maneira, até quando tratam, de igual modo, de misérias e tristezas humanas. Não falo exactamente de brilhantismo da prosa no sentido de mestria, mas de uma luminosidade óptica, palpável, de uma luz de trópicos que nos entre pelos olhos com as formas negras dos caracteres («da famíla Caslon, inspirados na tradição barroca holandesa do séc. XVII») que compõem as palavras impressas. A Baixa da Banheira de Bruno Vieira Amaral, já o tinha pensado na parte que li de As Primeiras Coisas (hei-de terminá-lo), podia bem localizar-se em Medelín ou lá onde a luz é muita e benfazeja, apesar dos esfaqueamentos.

O título Hoje Estarás Comigo no Paraíso não é, portanto, só bíblico — dirige-se directamente ao leitor com uma promessa que este pode bem dar por cumprida durante as horas de leitura (o Paraíso é eterno enquanto dura). Mesmo que não seja Primavera nem tenha havido barrela à tarde.


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* Abaixo de 451 Fahrenheit.