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sábado, 10 de agosto de 2019
Sol coado
Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.
Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).
A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.
Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.
Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.
Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)
Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.
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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas
Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma
crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu
tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações
climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não
ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta.
Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado
por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no
horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os
outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um mergulho ao crepúsculo
Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho
ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se
pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três
compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para
voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção
burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida
quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água,
pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se
regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como
fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente
se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse,
exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado
pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo
sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo,
sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois
de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez
mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe
de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto
ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha
ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha
sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via
ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de
banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o
fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na
pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos
tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só
passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais
activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e
entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…
No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com
companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita
a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e
rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho
ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Tílias
Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche
de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que
lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade,
quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores
que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar
(ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva.
Mas um barman que fala no cheiro das
tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável.
Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente
empatado Rússia x Bélgica.
Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos
querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes
aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas
áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato,
se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.
Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como
o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais
CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no
Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado
à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado
não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que
existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.
Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas,
com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos
espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico
algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e
regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a
copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças
de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do
que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que
fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se
preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado
a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.
O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente
a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para
quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da
história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar
o perfume das tílias.
O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo
ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente
de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a
cabeça e padecem de rinite opcional.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Montes ígneos
Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite
por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as
chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que
os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a
determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar,
víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais)
na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos
como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma
milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória,
simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho
fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um
braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que
parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio.
Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda
muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico
Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que
vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que
acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia
hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma
crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais
vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível.
Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu
imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha
brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se
lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto
é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta
que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno
comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o
número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que
aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.quarta-feira, 1 de abril de 2015
O tee do 17
Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras
Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam
as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez
mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia
sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17
anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha
memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e
vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u)
intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade
o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje
quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo
— me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam
ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das
Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do
lado de dentro.
E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque
de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a
minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo,
tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado
à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação
de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a
Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros
e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais
precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na
encosta do monte. Refiro-me ao tee
dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de
subir para a first shot, talvez por em
Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap
alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue
nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a
discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith
Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo
desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron
deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e
mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem,
felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só
deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao
final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos.
Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.
P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo
dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os
que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Pássaro na gaiola
Está um frio de rachar e, submerso em camadas de vestuário de acordo
com os receituários meteorológicos, ouço pássaros em plenos fôlego e inspiração
melódica. Não duvido da minha sanidade, mas pelo sim pelo não encosto os phones à orelha para checkar: no meio de
tantas páginas abertas para os trabalhos de hoje alguma terá talvez música de
fundo ornitológica. Porém, não. Os pássaros não esperam por padecer da
nostalgia de ar livre (mesmo que siberiano) e do consequente impulso que senti
há pouco quando me permiti espreitar a janela por segundos. Os pássaros
recusam-se à ladainha humana de ser domingo e ter de trabalhar e ficar meses
sem passear pelos montes. Os pássaros voam assobiando ou assobiam voando, e que
se foda a vidinha responsável e burguesa! Onde raios pus as minhas asas e o
diapasão?
sexta-feira, 20 de junho de 2014
O Tua e a sua canção (ou)vistos pela nova direita
Um grupo de artistas dedicou uma canção ao Tua. A Helena Matos já deverá estar a escrever no pravda da nova direita um artigo a defender que se afogue não só o vale como os artistas. Se faltavam motivos para construir a barragem, dirá ela, agora temos um. João Miguel Tavares, pelo seu lado, pessoa sensível, aumentará o caudal do Tua com uma lágrima ou duas pelo vale e pelos artistas, mas lembrar-lhes-á a sua culpa por canções e paisagens belas serem actividades condenadas num Portugal falido.
Pedro Lomba dirá num briefing falhado que os artistas deviam era estar a contribuir para a demografia fazendo filhos enquanto a água não os cobre. Poiares Maduro tentará tirar-lhes o subsídio de férias e Passos vender-lhes uma formação em aeronáutica que lhes permita emigrar a partir de qualquer aeródromo das redondezas. Que os há-de haver.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Tirania e despotismo
De que serve ter-se arquitectado dois posts e um trabalho académico se ao pôr-se o sol na varanda a
sensação é a de que se perdeu um dia de vida? Pelo menos um dia de Primavera,
desses raros ensolarados e amenos. Não, a literatura só é útil quando podemos
dela desfrutar encostados a uma árvore ou rocha, respirando o ar puro dos
montes nordestinos ou da falsa planície alentejana, ouvindo o murmúrio de um
ribeiro ou o incessante restolhar de uma cascata, a conversa cíclica da
beira-mar. É-se escritor de Inverno, por necessidade, ausência de sol e
alternativas. Mas o que se deseja é o Verão interminável e a possibilidade de se
ser apenas leitor. Tirania é ter de trabalhar seja de que forma for quando
chega Maio. E despotismo é que depois de Setembro nos imponham Outubro e os
meses tenebrosos.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Conservador
Nos anos do Independente
sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente
conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do
lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas,
como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente,
aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados
assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E
a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às
artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um
decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se
mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada
politicamente.
Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um
conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que
eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse.
Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.
[Romanas, 17.11.2013]
sábado, 28 de setembro de 2013
O civismo e a caça ao Raposo
«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in "Uma cidade sem cães, s.f.f.", Expresso)
Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal,
intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias
semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox
(ele há-de gostar da versão british
do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode
estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um
sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o
puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto
assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são
excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a
beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros
nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de
cidades sem teenagers e
universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como
quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos
comuns e aceites pela civitas, a
mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda
os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete,
a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e
desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir
e que eles não merecem nem em bebés.
Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de
civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já
não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a
mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos
pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até
são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição,
são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus
bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias
neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na
verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon
Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas
canelas do Raposo.)
Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o
civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de
um povo». Não de todos os homens, não
por certo de todo o povo. O próprio Estado
de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque
houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um
acaso na história da humanidade, sensíveis
e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha
acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência,
os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins
ou siameses, não estão para aturar homens destes.
Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em
certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais
na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas,
mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social
a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao
Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Não acabem com a crise
Os meus domingos, sempre que possível dias de retiro, de devaneios
bucólicos, são frequentemente assolados pela perplexidade. Não é apenas o ciclo
da Natureza, o seu definhamento belo no Outono, ou o milagre biológico e estético
da renovação primaveril. Surpreendem-me sempre o amarelo e o lilás de hectares
de giestas e urzes floridas, e nunca fico imune a um bosque renovado de verde.
Mas a verdadeira perplexidade vem quando me encontro sozinho no meio de certa propriedade
onde a beleza outonal ou primaveril dos bosques ocorre como num privativo jardim
edénico. A verdadeira perplexidade e a verdadeira alegria.
Em tempos usada para lazer da classe alta, esta propriedade, privada
mas de (potencial) uso público, foi abandonada devido à mudança dos hábitos de
ócio, à substituição dos destinos turísticos. Na minha infância e adolescência,
o sítio era usado por alguns autóctones para piqueniques, para tardes de lazer.
Hoje, salvo raras e fugazes visitas de um ou outro nostálgico que vem num relance
conferir o estado das coisas, não se vê por ali vivalma, e eu e os meus livros agradecemos.
Faz-lhe uma tangente um rio, com a sua ponte românica e os seus moinhos
em ruínas, invadidos pela vegetação. Tem no perímetro e nas imediações pinhais e
carvalhais. Dentro de muros há uma grande variedade de árvores que para minha vergonha
não sei nomear. Tem diferentes zonas de sombra (densa ou apenas de sol coado) e
prados onde estender largamente o corpo ao sol. Tem memórias em velhas paredes
e telhados abaulados. Não tem gente. Porque, dir-se-ia, este género de
bucolismo já não faz a alegria das pessoas.
Enquanto eu por ali sonho com uma herança que me permita tomar posse daquele
território e proteger o paraíso, outros em gabinetes municipais sonham com
revitalizar a propriedade. Um dos poucos visitantes com quem me cruzo um dia,
informa-me que a Câmara local ficou com a concessão do sítio e pretende resgatá-lo
para uso turístico, construir um restaurante, coisas dessas. Como que a
adivinhar os meus pensamentos (os meus receios, o meu justificado preconceito
em relação aos poderes municipais), a pessoa informa-me também que o primeiro
passo daquela “revitalização”, segundo fonte oficiosa, poderá ser o abate de
pinheiros. Até já estarão marcados. Despeço-me com um nó na garganta a fingir
deambulação sem norte, mas com o pânico instalado de ver com os meus olhos as famigeradas
marcações. Não as vi, mas não fiquei descansado. A ideia, infelizmente, não é
absurda.
Obrigo-me agora portanto a adicionar ao meu sonho de herdeiro um que
prolongue a crise, que inclua o fim do QREN, o fim das ajudas comunitárias a
projectos de revitalização. Um sobre bancarrotas municipais que durem até uma geração
mais verde tomar o poder. (Sim, bem sei que faria melhor em apostar apenas na
quimérica herança ou no desconchavar europeu.)
domingo, 13 de janeiro de 2013
Abateram as mimosas II
Em pequenos, fazíamos cavalos das mimosas, ramos
compridos que montávamos garbosamente com as folhas e as flores a varrer o chão
e o tronco seguro nas mãos por duas tiras da casca fibrosa e húmida a fazer de
rédeas. Já na altura se as acusava de serem uma praga e eu, fascinado, ficava à
espera de as ver invadir toda a quinta onde elas existiam.
Não aconteceu tal coisa. A quinta foi loteada e não
creio que tenha sobrado uma mimosa entre as vivendas.
Mas é verdade que ainda não passaram cinquenta anos
e que aquele solo pode estar pejadinho de sementes. (Eu a esfregar as mãos.)
Abateram as mimosas
Gosto de mimosas, aquela explosão de amarelo em
Fevereiro. Gosto da forma como a cor nos surpreende depois de uma curva no
caminho ou a seguir a uma colina. E gosto do perfume doce que viaja com o vento,
anunciando-as mesmo quando não as vemos.
Nos manuais de botânica e na internet chamam-lhe Acacia Dealbata, mas parece-me que é só
para a insultarem e poderem dizer coisas como «é provavelmente a espécie
invasora mais agressiva em sistemas terrestres em Portugal Continental». Foi
importada da Tasmânia para nobres fins ornamentais e agora querem que seja o
equivalente botânico do Diabo-da-Tasmânia, pelo menos que soe tão assustadoramente.
Aqui no parque havia dois núcleos de mimosas. Um
deles, entre outros benefícios, protegia-nos da presença incómoda da cidade, como
o fazem noutras faixas pinheiros, carvalhos e algumas espécies ripícolas.
A extensão norte do parque (um excelente resultado
do Polis, programa tantas vezes injustiçado) é na verdade um troço de caminho
que acompanha o rio por cerca de um quilómetro. É a parte mais interessante do percurso,
porque nos permite caminhar na cidade quase sem lhe dar pela presença. O rio
ali corre num vale estreito e fundo o suficiente para que as casas e os prédios
sejam esquecidos, e a sensação de afastamento é ajudada pelas vertentes arborizadas.
No entanto, paira uma ameaça sobre este retiro.
Apesar da crise, o urbanismo (a verdadeira espécie invasora do continente e ilhas)
reclama território virgem e abate arbóreo, como sempre faz. E se isso não fosse
suficiente, a limpeza e a desmatação rotineiras que as margens vão merecendo parecem
padecer de excesso de zelo. Não raro notamos uma árvore em falta, apercebemos o
desaparecimento de um ou outro conjunto arbustivo que não parecia fazer mal a
ninguém, descobrimos aqui e ali pequenos troncos decepados que a olho nu não
revelam doença ou velhice.
Agora foi a vez das mimosas. Ali, onde elas se
preparavam como todos os anos para colorir de amarelo-canário uma vertente
particularmente assombrada pelo mau-gosto urbano, existe agora um vazio, e por detrás
dele construções feíssimas.
Um dia, temo, deixará de fazer sentido correr ou
passear no parque, porque sem vegetação será como passear nos quintais das
traseiras de desconhecidos. Sem folhedo e mimosas a florir será como permanecer
num despido Inverno de subúrbio à portuguesa, desordenado e feio como sempre
são.
Aquele troço do rio, em ambas as margens, merecia
regras de protecção e alguma reflorestação. Como isto parece pouco provável,
resta esperar que o pior que dizem das mimosas seja afinal correcto:
«A mimosa tem a capacidade (…) de se multiplicar vegetativamente a partir de caules recentemente cortados (rebentação de toiça) ou da formação de lançamentos aéreos a partir das raízes laterais, originando novos indivíduos a certa distância da planta-mãe. Produz um elevado número de sementes, facilmente dispersas por animais (p. ex. pássaros e formigas), por vezes pelo vento e pelo próprio homem; a maioria acumula-se debaixo da árvore, e mantém-se viável no solo por muitos anos (50 anos, ou mais), aguardando pelo ciclo seguinte de perturbação e regeneração.»
Perturbação
e regeneração — parece-me uma boa maneira de pôr as coisas. Cumpra-se o ciclo.
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