Passo por ele a correr, mas a música que vai a ouvir está bem alta e percebem-se distintamente a voz e os requebros de Elvis Presley. Não tem idade para ter sido fã in illo tempore, mas parece suficientemente nostálgico para que o Rei tenha sido companhia marcante na sua juventude.
Quando regresso, encontro-o noutro sector da minha pista de jogging. Está agora sentado a uma mesa de piqueniques. Elvis canta uma daquelas que fazem chorar as pedras da calçada. Ele, de cotovelos no tampo, cabisbaixo, esfrega os olhos lacrimejantes; ouço-o fungar. Talvez a música o lembre de amores antigos. Ou então é apenas o Covid 19.
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domingo, 8 de março de 2020
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Narciso
Estava há poucos dias no seu novo emprego de recepcionista de uma clínica dentária quando reparou no rapaz que todas as tardes passava em frente à porta envidraçada da rua e espreitava para o interior. De início foi só a curiosidade de ver quotidianamente um gajo bonito, fazer apostas consigo mesma sobre se viria hoje, sem atraso, se olharia. Depois, convenceu-se de que aquela passagem já não era uma coincidência, que havia um motivo, e que o motivo era ela. O rapaz descobrira por acaso a nova recepcionista atrás do balcão, encantara-se e, porque era tímido, não ousava entrar, limitava-se a fazer olhares, expressões subtis e gestos mais ou menos discretos no tempo que demorava a percorrer os três metros de envidraçado. Algumas semanas mais tarde, por iniciativa e manobras dela, que o foi descobrir nos locais onde ele parava à noite, ficaram de certa forma namorados. Na última vez em que estiveram juntos, ela fez um escândalo porque ele não parava de olhar por cima do ombro dela para uma rapariga noutra mesa, com aquelas expressões que conhecia bem.
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
O rio da minha aldeia não transbordou
O rio da minha aldeia não transbordou. A junta fez um muro novo e parece que isso é bom. Quando eu vivia lá e a minha aldeia não era vila, o rio transbordava sempre. Todos os Invernos. Na última década raramente transbordou, acho, e não sei se isso corrobora ou desmente o aquecimento global, culpado contraditório que é de secas e tormentas. Eu gostava quando o rio da minha aldeia transbordava. Havia nesses dias, apesar da recorrência anual, um ar de novidade, de excepção, de acontecimento insólito que (como a neve) permitia acreditar que na vida não havia apenas rotina, clima moderado. Depois de uma noite de chuva intensa como a destes dias, vínhamos à única janela da nossa casa que dava para a rua (a única janela da nossa casa que não dava para partes da própria casa) e tentávamos ver, por entre as árvores de Dezembro já despidas, até onde tinha chegado a água que sobrava do caudal violento. Se amainava e a mãe andava ocupada, como andava sempre, escapávamos rua abaixo e lá íamos verificar in loco quão largo estava agora o Avelames, ali antes da ponte e a seguir à curva.
A visão de um rio largo e no seu eixo violento (as margens agora amplas eram de águas calmas e misteriosas) era a um tempo assustadora e deslumbrante. Sentíamo-nos crescer em importância e angústia com o engrossar do rio. Importância, porque tínhamos com o rio, mais do que os pacientes pescadores, uma ligação íntima, de quem nele se fundia por longas horas no Verão; sentíamos o rio como propriedade como sentimos que somos donos de cada um dos nossos braços ou pernas, nossos prolongamentos. Angústia, porque de repente já não conhecíamos o rio, estranhávamo-lo na sua largueza, e a vasta lagoa que se formava na margem esquerda, submergindo partes de amieiros e carvalhos e sei lá que outras árvores menos ribeirinhas encosta acima, tinha todo o ar ameaçador de um pântano de onde sairiam facilmente crocodilos, longas e grossas serpentes aquáticas e, quem podia negar?, piranhas ou bicho pior.
Na verdade não eram os bichos o que eu mais temia, mas, sem conhecimentos bíblicos, as consequências de um dilúvio. Temia, e com isso sonhei décadas a fio, até há pouco tempo, que a água continuasse a subir e chegasse à taberna, quase à porta da nossa casa, e que ficássemos isolados, as estradas intransitáveis para sul. (Não concebia que se pudesse evacuar a aldeia pelo norte, para mim tudo o que significava saída dali estava a sul, a sul estavam as cidades grandes e a América e as estradas de acesso à Europa, mesmo que a Europa ficasse a norte; no norte da minha infantil geografia local apenas havia versões mais isoladas da minha aldeia.)
Nos meus sonhos de então e depois, via a bacia do rio a chegar cá cima, mas a água não subia nivelada, a sua superfície acompanhava a inclinação da encosta, e na outra margem havia apenas o resultado das cheias habituais, lameiros inundados, um só metro de água acima do normal.
E o que eu temia mais era afinal que o recuo das águas, quando dias depois elas recuavam, fosse apenas aparente, que debaixo dos paralelos da estrada permanecesse um rio subterrâneo e que ao pisá-los eles cedessem e de repente a estrada era como um puzzle a que faltavam peças, grupos de paralelos isolados uns dos outros, mantidos à superfície sabe-se lá por que fenómeno alheio à física. E de novo a aldeia, a nossa parte da aldeia, inacessível, todos receosos de pisar e afundar mais paralelos e já nem uma memória de estrada pavimentada e transitável nos sobrava.
Mas só nos sonhos as cheias tinham este lado assustador, esta ameaça quântica, alheia à física tradicional. Na vigília, quando o rio transbordava, o meu espírito transbordava com ele de felicidade com as coisas raras. O único lado mau do Avelames engrossado era a gente, fascinada, querer chegar-se-lhe a fímbria e enterrarem-se-nos subitamente as pernas na terra agora lamacenta que nos separava dele. Esse era o acontecimento inesperado que não desejávamos e contra o qual as nossas mães nos preveniam — ou ameaçavam, cansadas de nos lavar a roupa.
A visão de um rio largo e no seu eixo violento (as margens agora amplas eram de águas calmas e misteriosas) era a um tempo assustadora e deslumbrante. Sentíamo-nos crescer em importância e angústia com o engrossar do rio. Importância, porque tínhamos com o rio, mais do que os pacientes pescadores, uma ligação íntima, de quem nele se fundia por longas horas no Verão; sentíamos o rio como propriedade como sentimos que somos donos de cada um dos nossos braços ou pernas, nossos prolongamentos. Angústia, porque de repente já não conhecíamos o rio, estranhávamo-lo na sua largueza, e a vasta lagoa que se formava na margem esquerda, submergindo partes de amieiros e carvalhos e sei lá que outras árvores menos ribeirinhas encosta acima, tinha todo o ar ameaçador de um pântano de onde sairiam facilmente crocodilos, longas e grossas serpentes aquáticas e, quem podia negar?, piranhas ou bicho pior.
Na verdade não eram os bichos o que eu mais temia, mas, sem conhecimentos bíblicos, as consequências de um dilúvio. Temia, e com isso sonhei décadas a fio, até há pouco tempo, que a água continuasse a subir e chegasse à taberna, quase à porta da nossa casa, e que ficássemos isolados, as estradas intransitáveis para sul. (Não concebia que se pudesse evacuar a aldeia pelo norte, para mim tudo o que significava saída dali estava a sul, a sul estavam as cidades grandes e a América e as estradas de acesso à Europa, mesmo que a Europa ficasse a norte; no norte da minha infantil geografia local apenas havia versões mais isoladas da minha aldeia.)
Nos meus sonhos de então e depois, via a bacia do rio a chegar cá cima, mas a água não subia nivelada, a sua superfície acompanhava a inclinação da encosta, e na outra margem havia apenas o resultado das cheias habituais, lameiros inundados, um só metro de água acima do normal.
E o que eu temia mais era afinal que o recuo das águas, quando dias depois elas recuavam, fosse apenas aparente, que debaixo dos paralelos da estrada permanecesse um rio subterrâneo e que ao pisá-los eles cedessem e de repente a estrada era como um puzzle a que faltavam peças, grupos de paralelos isolados uns dos outros, mantidos à superfície sabe-se lá por que fenómeno alheio à física. E de novo a aldeia, a nossa parte da aldeia, inacessível, todos receosos de pisar e afundar mais paralelos e já nem uma memória de estrada pavimentada e transitável nos sobrava.
Mas só nos sonhos as cheias tinham este lado assustador, esta ameaça quântica, alheia à física tradicional. Na vigília, quando o rio transbordava, o meu espírito transbordava com ele de felicidade com as coisas raras. O único lado mau do Avelames engrossado era a gente, fascinada, querer chegar-se-lhe a fímbria e enterrarem-se-nos subitamente as pernas na terra agora lamacenta que nos separava dele. Esse era o acontecimento inesperado que não desejávamos e contra o qual as nossas mães nos preveniam — ou ameaçavam, cansadas de nos lavar a roupa.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Breve história de uma carreira pop
Começou por cantar na missa levado pela mãe, uma senhora mística e sofridamente adúltera que lhe transmitiu o gosto pelo êxtase à la Teresa D’Ávila. Era famosa a sua (dele, todo rosado) boquinha de anjo. Na adolescência, nauseado por tanto apregoar sem resultados a virtude e a humildade, entrou à noite e às escondidas, de cerveja choca na mão, para uma banda de rock’n’roll. Quando começou a dominar a técnica, que, além da guitarra, implicava o lábio superior, a sobrancelha direita e um certo jogo de joelhos, chegou o punk e viu-se então obrigado a fingir que não sabia mais do que dois acordes e que desafinava por origem social. Para facilitar, fez-se baterista, posição em que lhe custava menos parecer genuinamente incapaz e onde o seu entusiasmo musical, a martelar com energia tambores e pratos, poderia facilmente confundir-se com um tique resultante de labor proletário, as contracções espasmódicas de um operário chaplinesco já fora do alcance da medicina no trabalho. Mas não chegou a aquecer o tamborete, porque logo logo se impôs o new romantic, um punk limpo e amaricado cujas cabeleiras barrocas e caras empoadas lhe lembravam, dos tempos de acólito, as gravuras que o obrigavam a ver sempre que lhe ensinavam um novo requiem ou quaisquer outras obras litúrgicas. Passou aí a ser o frontman porque, apesar de tudo, o encavalitar dos dentes após a velha e precipitada recusa revolucionária do aparelho e os inesperados e incipientes pêlos de uma barba dylanesca, bobdylanesca, não lhe perturbaram a natureza essencialmente angélica e aristocrata, o perfil quase helénico e petrificado de figura de proa de um veleiro. Ficou então famoso o seu apetite por microfones, que mordia criando uma imagem de marca (e deixando um registo odontológico) muito dirigida a teenagers leitoras da Bravo mas pouco apreciada pelos promotores de concertos e nada pelos vocalistas que, enojados, lhe sucediam no alinhamento dos festivais. Da new age à soul foi um passo natural, porque, naqueles anos, a quem não tinha atitude ou carisma suficiente não restava mais do que permanecer verdadeira e frustradamente cantor, tendo talento. Ninguém ignorava que ele teria preferido optar por uma carreira mais sexual e menos musical, mas não havia nada a fazer, só a voz lhe valia. Despediu então toda a banda, uma malta que entretanto se tinha tornado assaz competente, para contratar afro-descendentes. A soul pedia, achava ele, um balanço específico e mais fôlego, coros poderosos, predicados que o seu velho combo de não cantores movido a Super Bock e Macieira não tinha como providenciar. Foi-se ao bairro dos retornados e veio de lá com uma secção rítmica capaz e um coro de moças roliças que teria maravilhado a sua mãe, não fora o tom da pele delas não combinar com os reposteiros da família. Da velha banda que o acompanhara pela história da música sobrou, por polivalência e consequente direito próprio, o teclista, um Ray Manzarek que não raras vezes saía da madrugada do backstage, limpando os óculos de tartaruga, para a nave da sé, onde tinha a seu cargo o matutino órgão de tubos. E então a soul deu-lhe cabo da carreira. Quando se imaginava um George Michael nacional, como ele reinventado e introduzido numa respeitabilidade vocal e interpretativa a que a imprensa se haveria de render (embora no seu íntimo continuasse a lamentar-se por a voz ser o seu único predicado), começaram a acometê-lo pesadelos, terríveis pesadelos. Via-se no palco como no convés de uma nau quinhentista, uma nau negreira. O pálido Manzarek era o seu imediato e a banda mais o coro, todos negros ou mestiços, eram os escravos. Noite após noite durante a sua última digressão, baralhando épocas e tragédias históricas, não conseguia deixar de ver o baterista como o sonderkommando que marcava o ritmo nas galés e as coristas, nas suas coreografias de braços ondulantes, como os condenados remadores. Esgotado e dominado por um remorso de classe que uma carreira musical plebeia não conseguira desvanecer — ainda que aquela mesma carreira tivesse feito morrer de desgosto a mãe, já de si deprimida por haver na verdade pouco proveito prático no adultério sénior — resolveu à boa maneira maoista fazer um mea culpa público e abriu na baixa um centro de terapia com sinos tibetanos.
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Quando eu morava ali
«Quando eu morava
ali não sentia grande curiosidade por aves (e suponho que seriam então mais
abundantes), mas não julgo que recebêssemos com frequência visitas de
garças-reais, se as recebíamos de todo. Aquele mundo era mais campestre do que
o que o veio substituir, mas era paradoxalmente mais habitado, com bulício humano
junto ao lago, mesmo num crepúsculo cinzento e chuvoso de Dezembro como o que
acolheu o meu regresso. Eu era agora outra mulher, capaz de me deter a olhar
uma paisagem e de reparar no que nela havia de raro ou peculiar, e uma
garça-real de pé junto à água, iluminada por um candeeiro muito mais antigo na
terra do que a sua espécie, parecia-me algo de inusitado em qualquer sítio que
a visse — ali adquiria foros de aparição. Ela deu pela minha presença quando
cheguei a uns trinta metros de distância da margem e pôs-se de lado, a
espreitar-me os movimentos pelo canto do olho, com o pescoço desenhando aquela
silhueta característica em ponto de interrogação. Pareceu-me adequada a sua
postura: assinalava graficamente as suas dúvidas quanto às minhas intenções e,
num sentido mais lato, as minhas próprias dúvidas quanto aos meus objectivos.
Não fugiu quando, num gesto de mecânica contemporaneidade, tirei o telemóvel da
bolsa para a fotografar. O flash
iluminou impotentemente a noite que se instalara e eu percebi que era inútil, estava demasiado longe e não
havia luz suficiente para a câmara, apenas os arbustos perto de mim sairiam visíveis na foto.
Tudo o que colheria daquele primeiro momento era uma impressão que não poderia
provar, a somar-se às outras que transportava comigo em igual condição havia três
décadas.
Depois de alguns
minutos a olharmo-nos, senti-me autorizada a avançar, confiante em que a garça
teria decifrado as minhas intenções pacíficas. Estava enganada. A bicha abriu
lentamente as asas, segura no seu cálculo das distâncias (não a alcançaria nem
que corresse), deu um passo gracioso em frente e elevou-se nos ares com uma
pequena rabanada de vento.
Ocupei o seu
lugar na beira da água, tentando ver o lago e as redondezas pelos olhos de um
frequentador recente, mas faltava ao meu olhar virgindade: tudo ali, o que
havia e o que já não estava, tinha impressionado a minha retina há muito, como a
luz que fixamos demasiado tempo e continuamos a ver mesmo depois de fecharmos
os olhos. Os candeeiros públicos poderiam desligar-se — como tantas vezes
acontecia nos Invernos da adolescência — que eu continuaria a poder ver através
da escuridão, nem que fossem os espectros a cujo apelo acorrera.
Passaram mais
alguns minutos e a garça regressou, sobrevoando com um gazear irritado a
pequena enseada. O seu jantar ficara decerto a meio e queria por isso que eu
fosse embora, lhe devolvesse o território de caça. Não lhe disputei o direito a
estar ali, já não era uma prerrogativa minha. Afastei-me a deambular,
voltando-me de vez em quando com um desejo melancólico de beleza selvagem e
inconsciente, talvez tentando aprender com ela como reocupar um terreno de onde
fomos desalojados.»
[Início de uma novela ou romance em gestação lenta, lentíssima]
sábado, 16 de junho de 2018
[Work in progress]
«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»
«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»
quarta-feira, 13 de junho de 2018
O pianista
Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:
«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas
mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma
mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema
fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais;
agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido
dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e
flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver
através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os
comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o
caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon
ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes
numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes
espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés
históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração
barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de
reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas
e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de
que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista
para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na
plataforma junto ao lago, estendido na chaise
longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não
tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem
hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não
era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um
músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em
relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de
um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite,
que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas.
Digo que a sua
indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos
observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos
demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas
imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os
olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por
cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido
descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras
intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre
absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa
jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras.
Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado,
permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas,
e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou
magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da
terra.
Num dos
verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos
que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas
nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas
chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele
vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a
interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos
comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a
literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do
assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas.
Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador
e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e
roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua
espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira
vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a
sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume
vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que
era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei,
influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era
algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos
ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa
provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos
mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio.
O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de
imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente
visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido
nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só
depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe
em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que
nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um
gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse
momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe
do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua
maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão
desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o
pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago
como o protagonista de A Morte em Veneza,
ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma
reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive
a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era
suficiente, e exacto, para o definir.»
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Caderneta de cromos
[de um trabalho em curso]
«Suponho que
toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever
dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para
isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro
da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que,
assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que
escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é
apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou
aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não
subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar
a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar
cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel
secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar.
Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção
oculta, a big picture, o verdadeiro retrato
ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos
dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los,
colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os
agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É
também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês,
seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam
negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o
bouquet.
Acresce que
também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando
parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes,
escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das
nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de
pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para
nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar
um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais
comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de
prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma
prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser
o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade
temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na
hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de
aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós
usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o
exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para
aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto.
Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos
de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que
correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a
revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente
encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou
com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta,
um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra
Talhada.»
sábado, 24 de março de 2018
a violenta e cruel natureza da sobrevivência
[de um trabalho em curso]
«Aos domingos,
a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de
poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um
coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras,
de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em
cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o
animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as
debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de
modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à
morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles
episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de
sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das
penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a
morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava
passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas,
não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As
crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e
ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos,
eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham
um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas
coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a
iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não
percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou
indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente
entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de
choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela
era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho
estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e
convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas
simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se
assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de
comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias
antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos,
uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo
pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia
puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela
cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos
a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado
mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria
fisicalidade.
E contudo
esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com
uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela.
Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela
não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais
tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer
carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país
evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram
conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias
da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas
excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha
mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da
sobrevivência.»
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
O Ave-Rara
O Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.
[work in progress]
sexta-feira, 10 de julho de 2015
«A vida militar»
«Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas
frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram
absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no
mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com
um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem
loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados.
Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam
de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se
eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me
mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar
seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do
ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada
os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os
cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do
seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser
perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura
do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem
bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado
onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à
hierarquia.
Nas
primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de
sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda
mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila
para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona,
incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o
equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de
suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao
contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que
éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de
os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas
ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que,
numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se
ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa,
tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para
conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada
a atmosfera já de si empestada da caserna.
O
pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de
Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e
mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do
Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a
perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era
de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na
parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os
gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do
alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho
ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com
a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se
pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica,
como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um
tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em
que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma
num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número
três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros,
quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral
verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt
de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta
e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente
penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os
cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no
desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço,
ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro
que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me
entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de
ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em
metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da
manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade
da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista
de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e
na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram
infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»
* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem
sofística do Exército.
P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Coisas que não anoto no moleskine (2): em Mainz
Recordo assim de repente Mainz como cidade irmã de outras imaginadas onde
o adro fronteiro à gare se reveste de uma anarquia lânguida, vagamente
ameaçadora ou repulsiva. Bandos esfarrapados de punks, com as suas repas coloridas
e hirtas, chocalhavam quando ali desembarcámos correntes de forçados e constituíam
uma pequena multidão de rebeldes ociosos, espalhados no lajeado cinzento e sujo
como focas gordas ou tartarugas trazidas pela maré com o lixo a uma praia
vulcânica. Sentados ou recostados como romanos em orgia, bebiam e derramavam as
suas cervejas enquanto lançavam por rotina insultos aos passageiros que, como nós,
ziguezaguevam por entre eles na direcção da paragem de táxis ou dos meandros do
centro urbano. Não é um bom cartão-de-visita de uma cidade, mas suponho que
ninguém se dá ao trabalho de ir até à Alemanha para acabar a apear-se do
comboio em Mainz. O acampamento punk não se monta quotidianamente ali para
assediar turistas, creio, mas para chocar os concidadãos burgueses e devotos do
trabalho que usam o comboio nas suas idas e vindas diárias para Frankfurt ou
para localidades próximas. De resto, a cidade, que até tem os seus encantos,
não precisa da estética punk para enjoar os visitantes: tem a cozinha, com salsichas
sensaboronas e puré de bata avinagrado, que se serve com um apfelwein menos entusiasmante do que um Fruto
Real que tivesse sobrevivido aos anos 80 e decidíssemos por estultícia arriscar
beber hoje.
Se contudo o viajante se dá, como nós, ao trabalho de ir até Alemanha
para acabar a apear-se no comboio em Mainz, não adianta ir fazer perguntas ao estabelecimento
tuga a dois passos da estação: ali deixam de falar português quando descobrem que
os entendemos. A alternativa é acreditar no casal simpático que nos aborda mais
tarde, vestido para ir ao teatro num fim de dia de Agosto, e que garante ter um
quarto vago, se no fim da peça ainda andarmos pelas ruas de mapa na mão e falhos
de abrigo. Em Mainz fica-se então a olhar para estoutro cartão-de-visita, um
pequeno rectângulo de papel que assegura serem os elementos do casal cientistas
numa universidade próxima, e, enquanto se continua a busca por hotel barato, entreolham-se
os viajantes perguntando-se se há alemães calorosos ou se um currículo
universitário distinto é atributo que os teutões julgam necessitar para seduzir
swingers meridionais. Como entretanto
escurece de vez naquela parte da cidade com arquitectura vagamente pré-Segunda Guerra Mundial, e como se levanta uma brisa de inquietação e preconceito, os viajantes
deixam de se sentir lisonjeados com a ideia de assédio intelectualizado e
passam a interrogar-se academicamente o quão sedutor poderia ser Norman Bates
para copycats germânicos. A imagem hitchcockiana
de uma faca no duche diverte os viajantes — e leva-os a optar por subir um
bocadinho a quantia que estão dispostos a despender por um quarto em Mainz. Alojam-se
naquele hotel que era antes bom de mais para portugueses temporariamente sem bússola
mas permanentemente sem dinheiro, trocando uma aventura literária por um
pequeno luxo capaz de aliviar o corpo e a alma. No moleskine anotei o
preço do hotel.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Coisas que não anoto no moleskine
Dificilmente poderia viver com a humidade tropical, mas com a chuva e a
monção sim. No Vietname usei o tempo todo uma echarpe feminina enrolada e
empapada no pescoço e arrastava-me pelo território como um alucinado no deserto,
seguro de que se parasse desfalecia ali mesmo. O meu caminhar era como o de alpinistas
a 8 mil metros de altitude sem forças, oxigénio e discernimento, mas com aquela
motivação ou obsessão prévias que lhes concedem um caminhar de autómato, pondo
lenta e lunarmente um pé após o outro, mais como estertores em slow motion de morto do que passadas voluntárias
de vivo. Era assim eu naquela latitude, a deslocar-me em linhas rectas entre
duas sombras em vez de vaguear turisticamente pela paisagem; a olhar as coisas
pitorescas pelo canto do olho enquanto elas iam desfilando a meu lado como
noutra dimensão, sem nunca me deter para apreciar pormenores ou comentar particularidades;
anunciando com desespero homicida na voz que se parasse para fazer fotos ou me desviasse
do caminho da sombra fosse por que razão turístico-imperiosa fosse seria um
português suado morto, e não um ocidental vivo enriquecido pela viagem. Descobri
que nos trópicos tenho espírito de mula atrelada à nora: caminho porque tenho
de caminhar, remoendo pensamentos asininos, obstinados, sem nexo nem
finalidade, incapaz de parar depois de me pôr em marcha e impedido pelo jugo tropical
de gestos de revolta, de qualquer gesto, aliás, que não seja descolar um pouco
a t-shirt do corpo. Mudava de trajectória de vez em quando, é verdade que mudava,
se a companhia me reorientava os passos segurando-me pelos ombros como se faz a
um bebé ou ao tal autómato com pilhas Duracell e uma versão muito beta de GPS.
Por vezes também chocava com postes e paredes, e conseguia inflectir ou
contornar o obstáculo com a mesma destreza convulsiva das sondas robóticas em
Marte. As primeiras e mais primitivas, que se atolavam à terceira tentativa —
não sem o alívio que devem sentir os moribundos finalmente autorizados a fenecer.
Mas é da chuva que queria falar, não de como viro zombie em atmosferas de
30 ou mais graus e 100% de humidade.
Já fui feliz à chuva no Inverno, fazendo jogging ensopado como um náufrago escocês emerso do Loch Ness (e
portanto com razões para correr), fazendo trekking
com botas encharcadas que emitem barulhinhos ora constrangedores ora estupidamente
cómicos como dobragens de filmes porno (mas não suficientemente sugestivos para
um escroto alojado em boxers impregnados de chuva e frio), e, se recuar um pouco
mais na biografia, também já fui feliz no Inverno chegando como um pito a casa
vindo da escola com os pés enfiados em sacos plásticos dentro dos sapatos e pronto
para café com leite, torradas, luz de velas e livros de Júlio Verne.
Gosto de apanhar molhas, como se vê, mas como não sou um masoquista
indefectível, as minhas melhores molhas são as de Verão. Chuva quente é a minha
ideia de Paraíso. Debaixo de borrascas estivais tenho reminiscências do Éden,
como se cada cromossoma do meu ADN estremecesse de um prazer herdado de quando
a humanidade tinha guelras e dava as primeiras braçadas no aquaworld primordial. Debaixo da chuva de Verão, de virilhas
ensopadas, sinto-me feliz, purificado e nu como Adão e Eva. (Não duvidemos que
estas figuras bíblicas existiram, só que, ao contrário do que pensa a religião,
eram batráquios ou girinos sem nada pudendo a esconder.)
Mas se invoquei o tema chuva foi porque hoje me lembrei, não sei bem porquê, que uma das
vezes em que fui feliz estava encharcado até aos ossos na Alemanha. Não
encharcado e tremelicante como trabalhador meridional na suja neve teutónica,
mas encharcado e esfusiante como vagamundo munido de moleskine e optimismo.
Tínhamos descido do castelo de Stahleck, transformado em pousada da juventude e
sobranceiro à pitoresca aldeia de Bacharach, por sua vez ancorada à margem do
Reno. O Reno é ali o Douro da Alemanha, com os seus curiosos vinhedos de bardos
perpendiculares às curvas de nível, mas inebria um pouco mais. Não porque os
seus famosos brancos tenham mais teor de álcool, mas porque as suas paisagens
urbanas têm menor teor de mau gosto. Fosse como fosse, talvez viéssemos um
pouco tocados de Stahleck — tínhamos bebido um copo ou dois enquanto
assistíamos a um ensaio da banda da juventude ali hospedada e não nos pareceu
loucura caminhar os três ou quatro quilómetros para montante (até ao
ancoradouro de onde partia o barco que fazia a travessia para a estação na
margem oposta a tempo de apanharmos o nosso comboio para Coblença), mesmo que a
chuva começasse a cair com intensidade e os nossos impermeáveis tivessem sido
comprados na loja dos chineses que ficava no rés-do-chão do meu prédio em
Portugal. Subimos o Reno encharcados e eu feliz, de calções e a chinelar como
se a Alemanha ficasse abaixo do Trópico de Câncer, indiferente à distância e à
chuva. Recordo-me que fiquei ligeiramente aborrecido quando parou de chover e o
barco partiu a horas e vi que o nosso plano se iria cumprir, o que era bom, mas
já não, o que era mau, sob uma chuva que aspergia como se os deuses, de luvas e
galochas no seu jardim, se entretivessem a irrigar a felicidade dos homens.
Depois disso, fui então feliz à chuva nos arredores de Hué, viajando na
traseira de uma motoreta e agarrado ao meu oriental como Leonardo DiCaprio a
Kate Winslet (só que ele, o meu oriental, felizmente não largava as mãos do
guiador para abrir os braços à proa e era eu quem tirava os chinelos dos apoios
e levantava as pernas como se estivesse a vogar cinematicamente num Titanic meridional).
Nessa tarde tínhamos ido ver templos funerários e no caminho de regresso havia
ao longo da estrada telas de artistas plásticos, uma exposição de arte
contemporânea a céu aberto que se afogava por uma hora ou duas e depois secava
num instantinho, como tudo ali secava num instantinho excepto o meu suor.
Mais tarde fui ainda feliz à chuva em Roma, a correr para o metro acima
da Piazza di Spagna e a ter tempo de achar afinal pequena e banal a Via dei
Condotti que o guia dizia ser «a busy and fashionable street».
Em Paris não choveu, e eu que levava um kispo novo à espera de o
estrear com o mesmo ânimo pueril e inconfessável de quando, adolescente, vesti em
Agosto um kispo em segunda mão — herdado de um primo afastado e a cheirar a
essências que não eram o sabão rosa lá de casa —, pela primeira (e última) vez
impaciente pelo Inverno, só porque tinha caído uma chuvita de Verão antes da
missa.
Levava também, em Paris, o moleskine que me foi oferecido como ferramenta
de escritor mas que uso apenas para anotar despesas e coisas práticas.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Velas benzidas
[Eis o conto a que se referia o post anterior:]
Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz
falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum
modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos
obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
De donde és?
Aquelas duas aldeias eram conhecidas pelo afinco que os habitantes
tinham à terra, particularmente a rapaziada mais nova. Numa altura em que a
juventude estava toda a emigrar, os moços e as moças dali permaneciam,
raramente se afastando das povoações, aliás. Também eram conhecidos pela
timidez, mas nunca ninguém ligou muito as duas coisas. Ou se ligavam era com um
raciocínio incompleto: imaginavam que a timidez se devia a nunca terem saído, a isso lhes ter gravado no carácter um proverbial acanhamento provinciano. A verdade era um
pouco diferente. Não saíam porque tinham vergonha de responder se alguém nos
longes onde fossem parar lhes perguntasse de onde eles eram — e eles eram, sem
culpa disso mas embaraçados por isso, do Monte das Pitas e do Sítio da Éguas.
(Ideia de e dedicado a A. P.)
terça-feira, 20 de agosto de 2013
A ler
...os belíssimos textos que a Maria Filomena, amiga e colega no Iniciação ao Tédio, tem publicado naquele nosso blogue colectivo e no seu Ferramentas e Espelhos.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Shoplifters Of The World Unite*
Conheci-o nos anos oitenta. Tinha o queixo afiado e insolente de Morrissey
e dançava como ele. A teatralidade do cantor britânico era para a terra uma estranheza
— vagamente sedutora para alguns, repulsiva ou embaraçosa para os outros. Para
Pierre era uma segunda pele, mexia-se nela com o à-vontade do original que
emulava e a quem servia de arauto nas berças. O facto de ter estado emigrado
numa grande metrópole europeia e de ser, ao contrário dos demais, ainda que
circunstancialmente, de origens urbanas, facilitava-lhe, claro, a apropriação
do imaginário e do guarda-roupa pop. Parecia um excêntrico, mas era apenas
alguém que adoptara um estilo. De uma sofisticação vulgar noutras paragens, assaz
extravagante na província.
Na pista de dança dir-se-ia exibicionista, mas só porque o resto dos noctâmbulos
dançávamos como tímidos e artríticos. Ele entregava-se à música com o mesmo ar
compungido ou desesperado de Morrisey, agarrando os próprios ombros, colocando dramaticamente
as costas da mão na testa, virando os olhos aos céus, vivendo emocionalmente o
que ouvia nas colunas da discoteca, sobretudo se o que ouvia era The Smiths.
A amizade com os autóctones teria de ocorrer, porque Pierre, agora
domiciliado na terra, era ali inusitado mas não tinha perfil de solitário.
Contrastava nos grupos, mas acabaria por frequentar os mesmos sítios e seguir as
rotinas clássicas do burgo. Trazia hábitos de consumo de marijuana cosmopolitas,
e os posteriores problemas com as drogas que partilhou com parte da juventude
indígena pareciam nele mais charmosos e românticos. Quando teve de trabalhar,
já numa fase descendente, parecia uma estrela de TV a cumprir uma pena de serviço
cívico. Era o único servente de trolha que chegava já de manhã com os jeans arregaçados, e usava o boné com a
maior pala de todo o sector local da construção civil. Era dos poucos, na
altura, que tomava banho e acertava o penteado entre o final do expediente e as
primeiras cervejas da noite.
Algures na viragem do século perdi-lhe o rasto. Já só o via
ocasionalmente, à boleia, diziam-me que a caminho do dealer. Chegaram-me rumores, que cobardemente
não refutei, que o davam como internado em centros de desintoxicação — como
tantos outros, nisto não seria original.
Quando o voltei a ver, de novo magro como o Morrisey de 82, mas agora talvez
mais parecido com o Michael Stipe dos anos 2000, careca e consumido como ele, a
primeira coisa que notei foi a franqueza do aperto de mão. Delicado mas
envolvente. Falámos de música, claro, que ele amava com a mesma intensidade mas
com um gosto mais ecléctico. Tinha um programa de rádio e uma mágoa por não ter
dinheiro para ir ver todos os concertos de que gostava. Disse isto sem
ressentimento, com uma certa humildade, sem o ar desafiante ou provocador que
ser pós-punk nos oitenta lhe dava. (Não, não era humildade, era melancolia,
realismo dorido.)
Não sei se a minha amizade com Pierre poderia ser agora mais intensa e
franca do que há vinte e cinco anos, mas sei que a lembrança do nosso encontro
acabou de me comover. Não confundam isto com condescendência ou piedade, nem
ele precisa disso nem eu estou em posição de tais sentimentos, seria pretensioso
e patético. É talvez um reconhecimento, o ver nele os meus próprios sonhos
irrealizados. Ou uma premonição.
* The Smiths, single de 1987
quarta-feira, 27 de março de 2013
Fim da linhagem
«Ele punha-se a dizer que não
havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele
se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero
mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar
para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e
independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um
problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse
assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem
as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em
cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho,
insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua
deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava
matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e
o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa
latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de
um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para
coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado,
onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas
folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão
de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me
ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos
para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas
metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no
filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um
minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da
vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo,
via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido
em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça
sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E
a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a
vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes
torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente
irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de
delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois
arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a
mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas.
Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de
tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para
mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou
uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que
fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim
para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque
não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe
tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha.
Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa
cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das
bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal
que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me
por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida
que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres
que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira
pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua
mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver
e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis
haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos
que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da
fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe
que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me
deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na
realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações
para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um
gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada
de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma
sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto,
que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes,
vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida
por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas
deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um
dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se
perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma
das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava
muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que
havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar,
lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa
cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar
de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer
fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e
quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me
tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria
evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam
ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de
membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de
terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao
sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo
no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse
numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a
certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu
piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento
e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos
de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de
vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não
nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma
benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender
dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me
tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse
regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer
subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa
uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha
docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a
contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não
me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto,
vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase
tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele,
abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte,
recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para
o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me
parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era
passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de
abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar.
Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era
verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou
não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que
fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução,
a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado
no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu
apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me
parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós,
os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem
tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o
último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do
futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com
vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança,
em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de
parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com
a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que
naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por
mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso
é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda,
retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes
que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele
dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a
atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro
era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na
verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na
minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos
que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me
pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo
não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era
uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo
com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes
de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia
tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua
mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar
no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu
a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer
companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade
dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os
fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se
com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que
ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua
deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o
encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe
emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava
disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se
propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo
estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de
todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo
lograria conceber naquela noite.
Havia ainda, talvez, outras
razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela
e não pensar no assunto.»
Vila Real, Novembro de 2008
segunda-feira, 11 de março de 2013
Primeiros parágrafos
Roubando a rubrica de José Mário Silva: primeiros parágrafos. Neste caso,
da minha opus IV.
(Talvez seja melhor
dizer, preparando já um alibi para mais do que certas mudanças de opinião ou
para assegurar a indulgência do juiz, primeiros parágrafos na forma tentada. Na verdade, é a descrição mais justa, já que falhei este trabalhinho encomendado a mim próprio.)
«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era
eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era
eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me,
voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias,
os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o
chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu.
Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela
altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos.
Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo.
Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno,
teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo.
Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando
olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a
derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a
medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De
resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e
dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o
impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No
início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em
certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia
desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma
parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede
depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os
equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas
sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há
os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas
não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade.
O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem
de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não
precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando
se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres.
Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios,
arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um
corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns
pontos de apoio para as mãos.»
quarta-feira, 6 de março de 2013
Terceira Lei de Newton
Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma
multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes
e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela
massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal,
e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de
partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e
outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua
primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante,
treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais
resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão
menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se
nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem
antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência
natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista,
que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao
desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de
atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos
destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do
município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o
derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada
para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela
entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto
de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não
avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois
alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de
profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou
caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos,
vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque,
contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o
desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros
(pelo menos entre as primeiras). É a
única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr.
Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço
de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na
praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos,
curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não
muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu
escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas
batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe
palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente
orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com
o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação
de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua
felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a
meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da
terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.
P.S. Terceira parte de uma
narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar
“Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.
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