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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

domingo, 31 de maio de 2020

Ténis nostálgico (e perigoso)


As noitadas de ténis no Eurosport são agora dedicadas a finais históricas. Ontem jogavam, como pela primeira vez, Andre Agassi e Jim Courier. Ganharia este último.
Segundo o comentador de serviço, Agassi estava a correr mais na fase final «apesar do equipamento espampanante». («Mas não tão espampanante quanto o ano passado, em tons de rosa.») Deduzi que, se tivesse jogado de rosa, Agassi teria perdido por maior diferença. Ou teria corrido ainda mais, não sei, não sou especialista em ténis.

A imagem quadrada e de fraca qualidade da transmissão e o equipamento «espampanante» de Agassi, somado ao seu penteado, conseguia transportar-nos para a época, ressaca dos anos oitenta, e no final do jogo desiludiu que o canal não tivesse reposto o filme A Lagoa Azul, um dos desportos favoritos dos adolescentes de então, protagonizado pela que viria a ser brevemente mulher de Agassi.

Reparei, já não me lembrava, que o juiz de rede (é assim que se chama?) estava literalmente sentado junto à rede, inclinando-se sobre ela e tocando-a para melhor a sentir nos momentos dos serviços, como o rapaz carinhoso do filme Free Willy, lançado dois anos depois desta final.

Lembrando jogos mais recentes — certas raquetadas de Nadal, por exemplo —, temo que se o lugar do juiz de rede ainda fosse aquela cadeirinha à beira da carreira de tiro alguém tinha de lhe arranjar um capacete e um colete à prova de balas, para não ser vítima de fogo cruzado quando certos serviços ou pontos são defendidos com balázios de fora para dentro do campo, contornando a rede. De início pensei que essa função tinha justamente sido alterada com a primeira baixa — a segurança no desporto, como nas casas roubadas, costuma ser melhorada após os danos colaterais —, mas depois lembrei-me que é apenas mais um caso de máquinas a substituírem a força laboral humana. Se o capitalismo filmasse hoje o Free Willy, Jesse, o rapaz sensível, seria substituído, como o juiz de rede, por um sensor electrónico.

domingo, 3 de maio de 2020

Ao serviço do ténis

[Pequeno ensaio sob hipnose]

Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.

Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.

Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.

A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.

A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.

No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.

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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Alegria primitiva

Sinto quando por acaso descubro uma capa com o logótipo da revista LER, como agora aconteceu, a mesma alegria primitiva que sentia na infância se no horizonte havia uma revista da Disney (que raramente ou nunca pude comprar) ou, mais tarde, algo da Marvel (que já comprava com alguma frequência, preferindo investir nesses álbuns o dinheiro que outros gastariam para comer).

Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.

Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.

Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.

domingo, 26 de abril de 2020

Um 25 de Abril

Há muitos, muitos anos, noutra encarnação, eu era baixista numa banda que no seu derradeiro momento perdeu para os Ornatos Violeta e paralelamente fazia gigs, como agora se diz em bom português, em bares, salões de baile, comícios e cerimónias de 25 de Abril.
Bem, no 25 de Abril tocámos apenas uma vez, que me lembre.
Foi na Adega do Faustino, esse templo dionisíaco em Chaves, e como a coisa era à tarde ainda não estávamos suficientemente bêbados para eu logo ter esquecido tudo. Não é que lembre grandes detalhes (foi há muitos, muitos anos, como disse...), mas há uma parte que ficou, não sei se comovente se cómica. Já veremos.
Éramos um trio, por vezes quarteto ou quinteto (não dependia do cachet), que levava o trabalho a sério e para aquele dia preparámos, por gosto musical e adequação temática, várias obras do Zeca Afonso. Não tínhamos ideias políticas muito definidas, acho, e na minha família recuada até havia certa admiração (felizmente retórica, sem correspondência material) por Salazar, mas o imaginário e mensagem afonsinos seduziam-nos, além de que não éramos tão estúpidos que não percebêssemos a importância do 25 de Abril até para o simples facto de podermos estar ali a desfrutar de tão faustinos prazeres.
Mas, como disse, tínhamos ido para trabalhar, em bom rigor, pelo que havíamos preparado um alinhamento que incluía, como se imagina, como se impunha, a «Grândola». Mais do que prevê-la no alinhamento, planeámos o set para que aquela música fosse o apogeu, a razão última de ali termos ido. Não sabíamos, ou quisemos ignorar, que esse era também o sentimento do público.
Ficámos por isso surpreendidos — embora tivéssemos montado todo um número em torno da «Grândola» que incluía sacar o baterista a tarola do seu tripé para fazer de caixa de rufos e alinharmos com ele as guitarras e o passo como pelotão napoleónico em marcha —, ficámos então surpreendidos (e quase, quase, envaidecidos, penhorados) por aos primeiros rufos se ter levantado toda a audiência para, numa rigidez e seriedade de hino nacional, algumas mãos no peito, aguardar que despachássemos o prelúdio e a encenação que tanto nos orgulhavam e chegássemos, como era mister, à parte cantada, em que todos podiam participar, dando finalmente como bem cumprido o seu dia cerimonioso.

Num outro ‘concerto’, em diferente localidade e ocasião, tínhamos conquistado a sala quando, por manifesta incapacidade de sermos artisticamente compreendidos pelo público, desistimos do repertório ensaiado e atacámos, por gozo, por revanche, por casualidade até, as notas memoráveis duma peça que dava pelo nome arcádico de «Apita o Comboio». A assembleia levantou-se com um ânimo que fazia da imagem que anteriormente tínhamos dela uma vista de lápides em campo santo, juntou-se em pares e bailou como se não houvesse amanhã. Perante aquela explosão súbita, perante aquela alegria que não queríamos ser culpados de tornar breve (ai de nós, diziam-nos alguns olhares), improvisámos mais longamente que os Pink Floyd em Pompeia, dispostos a despir a camisa (e a gravata, usávamos gravata) se necessário fosse.

Ora, com uma carreira que obtinha reacções assim, podíamo-nos ter interrogado (mas nunca o fizemos, claro) sobre as vantagens que um gira-discos não teria para o público, o promotor e sobretudo a nossa dignidade artística.

No 25 de Abril flaviense, com a «Grândola», nós queríamos causar aquela reacção, aquela comoção, planeáramos aquilo, mas quando aconteceu não estávamos suficientemente confiantes de sermos capazes de o obter. Podíamos então ter sido artistas realizados — se não tivéssemos percebido logo, com uma clareza que na verdade sempre fora evidente, que o empolgamento não estava na nossa prestação, mas na canção e no que ela representava. O melhor que podíamos ter feito naquele dia, do ponto de vista da originalidade artística, da capacidade de atrair atenções especificamente para o nosso trabalho, era termos destruído a música e o momento logo depois dos primeiros coros, mas não tínhamos vocação punk. E também não calculámos a tempo quantas daquelas pessoas se levantaram e cantaram apenas por tradição, por ritual, como recitavam na missa em coro o Pai-Nosso — e como no texas-bar de Cabeceiras ou o raio teriam dançado o «Apita o Comboio», com o mesmo empenho e convicção.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Bom dia, Filipina!

Por vezes é preciso recorrer ao Camilo ou a outro seu contemporâneo para com delicadeza observar num debate que certas palavras tidas como orgulhosos “regionalismos” são na verdade mais gerais arcaísmos, termos caídos em desuso na maior parte do território nacional que, por razões geográficas, culturais, económicas ou outras, se mantiveram ou mantêm na linguagem corrente de determinada parcela pátria.

O inverso também se dá, lembrarmos certas expressões da infância e quando as dizemos noutras zonas do país as tomarem por regionalismos nossos. Ontem no Proust, esse transmontano inveterado, encontrei alusão a uma delas: «Bom dia, Filipina!»
Nos magustos da minha infância (e suponho que de muitas outras), quando alguém encontrava no interior de uma mesma castanha dois pedaços autónomos, cada um envolto na sua própria pele interior, como gémeos no útero, partilhava um dos pedaços com um parceiro e ambos ficavam comprometidos num jogo que ganhava o que no dia seguinte primeiro dissesse «Bom dia, Filipino!». (Creio que dizíamos, talvez por corruptela infantil, «Filipinho». Em francês, segundo a nota do tradutor, era «Philippine», e jogava-se com amêndoas.)
"Filipina" é o gomo mais pequeno de um citrino, e isto serve de ilustração gráfica, não sei se também etimológica.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Gira-discos

Há duas histórias que se digladiam na minha memória pelo troféu do primeiro contacto frutífero com um gira-discos. Uma delas é protagonizada por três músicas (de artistas diferentes) e a outra por todo um álbum. Falemos da primeira história (segundo a cronologia deste texto), enquanto damos tempo ao júri para tomar uma decisão.

Naqueles dias, havia alguém que arquitectava uma forma de fornecer um gira-discos para as reuniões de grupo que tínhamos ao sábado à noite em espaço abençoado pela Igreja. De toda a playlist que animava aqueles serões, e que talvez fosse vasta, duvido que alguém recorde mais do que três músicas: “Angie” (Piedras Rolantes*), “Against All Odds” (Phil Collins) e “Careless Whisper” (George Michael). Tudo começava geralmente com uns ruídos, um crepitar. Era comum: os discos tinham muito uso e não se lidava com eles com pinças. Entrava primeiro aquele som que apenas significava que havia um disco velho a rodar no prato mas que era já sugestivo, como se a música tivesse sido composta com um prelúdio misterioso. A seguir vinha a guitarra acústica, uma nota e um acorde metálicos que eram como um sinal. Os sentidos ficavam alerta e a pulsação acelerava. Depois, um Jagger da mesma idade do que vimos ontem, na era do confinamento, a cantar à guitarra numa tela quadripartida “You Can't Always Get What You Want", lamentava-se chorosamente: «Angie, Angie, when will those clouds all disappear?». Era a hora dos slows e nenhum critério estético pesava muito na selecção musical, aliás invariável. Os rapazes gostavam de “Angie” talvez pelo que ali soava aos seventies (não confessariam sucumbir às sugestões sentimentais da música) e as raparigas gostavam de George Michael. E julgo que apreciavam também a música dele, não sei. Mais tarde, por razões adicionais, talvez já só defendessem apreciar a música. Quanto a Phil Collins, permanece uma incógnita, tantas décadas passadas.

A segunda história não é mais edificante e começa numa estância termal de província no início dos anos oitenta — um melting pot frequentado por netos e netas dos tradicionais termalistas, com mais ou menos pergaminhos, emigrantes em férias (vindos de Paris no Verão e de Zurique no Natal), variegada fauna das cidades vizinhas, com rústicos e betos de várias extracções, todos dando o seu melhor a dançar nas noites da discoteca local, a mergulhar nas tardes da piscina ou a desfilar, muito século XIX mas sem charrettes, na Alameda das Nascentes — um território, em suma, pouco propício à unanimidade em questões estéticas e musicais. Em certos momentos uma corrente mais rock e máscula parecia dominar, noutros o rock fundia-se de bom grado com as mais recentes tendências da new wave, não temendo arriscar aqui e ali incursões no new romantic — e tudo era frequentemente destruído por certas preferências dançáveis da corrente menos sofisticada da pop electrónica, cujo expoente máximo viriam a ser talvez uns alemães que davam pelo nome ainda hoje nauseante de Modern Talking.
Neste caldo, um teenager em formação, instado a tomar partido, ainda que encontrasse predicados em (quase) todas as correntes, via-se por vezes obrigado à rebeldia. E, apesar de a década já estar bem entrada, deixando os setenta assentar alguma poeira, ser rebelde era por vezes tão-só depreciar (ou fingir depreciar) o bom velho rock’n’roll. Chega-se assim um ano aos Duran Duran, para gozo de muitos e embófia do próprio.

Ou talvez, e aqui é que a história entronca na verdade com o mote do texto, os Duran Duram tenham vindo de certa semana de férias de mar em que o adolescente descobriu na casa que o albergava um gira-discos e esse gira-discos deu-lhe a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, sem restrições, em plena autonomia, ou quase, um álbum completo e esse álbum calhou ser Rio, dos Duran Duran. O rapaz saiu menos bronzeado desse Verão (havia que aproveitar a oportunidade, nem que fosse preciso ir menos ao mar), mas a conhecer cada letra e linha de baixo do disco.
Ainda arriscou, na rentrée, quando a estância se esvaziava e regressava à sua normalidade rural, uns adereços e uns penteados tributários dos fab five de Birmingham, mas era preciso um certo estofo, ou cheirar recorrentemente a tinta impressa da pouco acessível revista Bravo (que tinha conhecidas propriedades inebriantes, como sabe quem a cheirou à época), para se perseverar numa excentricidade estilística daquelas, por mais perfil apolíneo que se tivesse. Também era preciso dinheiro para modistas e parceiros para fundar uma tribo que desse consistência e conforto à opção — e isso não havia, pelo que a meados de Outubro tudo voltara à mesma indefinição enfadonha do costume.

* Ver post anterior.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O rádio

Havia em casa, e julgo que ainda por lá anda, num dos estratos geológicos da cave, um rádio preto com grelha do altifalante e sintonizadores cinzentos que acompanhou a fase final da minha infância e toda a adolescência. Nele ouvi anunciar-se a morte de John Lennon, instalando-se em mim e na atmosfera da casa uma gravidade que não compreendi de imediato e que, percebi-o depois, marcava o fim de uma época e o início de outra. Nele ouvi também, pela primeira vez, algumas músicas de que há pouco me lembrei (curiosamente todas do mesmo ano, 1984), que ainda hoje, mesmo que as julgue esteticamente com outra severidade, despertam em mim sentimentos agradáveis: Pride (In the Name of Love), Dancing With Tears In My Eyes e Terra Titanic (sim, notam bem uma certa inclinação juvenil para o épico).

Sendo o único objecto capaz de receber e traduzir ondas hertzianas lá em casa, era, não direi disputado, porque ninguém supunha poder disputar-se nada à autoridade paterna, mas partilhado e, sobretudo, usado em diferentes fases do dia por diferentes tendências e gerações da família. Dali saíam os noticiários a horas certas, o Despertar do António Sala, o terço ao final da tarde e missas ao domingo de manhã, os relatos de futebol nas tardes entediantes de domingo, ainda alguma, já desusada, peça de teatro radiofónico à hora de jantar, ou austeros e nasalados programas de debate político, e, em alguns serões, finalmente, em volume comedido, o rock e a pop de “vanguarda”, segundo os critérios do pequeno burgo.

Quando a televisão começou a ganhar primazia lá em casa, o rádio tornou-se menos procurado, e podíamos então, os mais novos, não só sintonizá-lo na nossa onda em horas antes inviáveis, como deslocá-lo da sua prateleira elevada e presidencial na cozinha para recantos menos altaneiros da casa, consentâneos com o estado de espírito que nos dominasse. Podia ser para ouvir os hits do momento ou as novidades possíveis ou para rituais de catarse de diversa índole, artística ou outra.

Não havia na casa do rádio preto um gira-discos nem dinheiro para vinil, pelo que nos formámos, com certas reservas porém, numa cultura musical de singles radiofónicos, estudando listas de tops e peneirando compêndios de êxitos. A ideia de álbum como um conjunto de ideias esteticamente relacionadas, mesmo quando isso fazia particular sentido e era conceptual, era por nós simplesmente deduzida a partir da literatura musical a que conseguíamos aceder. O contacto real com esse tipo de produção, já que as rádios que nos chegavam eram avaras nisso, dar-se-ia com um certo delay quando os primeiros amigos do liceu nos davam a ouvir nos seus walkmans cassetes integrais de um artista ou banda. A certa altura começaram também a aparecer lá por casa, trazidos pelos mais velhos, leitores de cassetes em segunda mão e meio partidos, mas porque nem para cassetes virgens tínhamos dinheiro ou porque nunca chegámos a adquirir o hábito de comprar ou gravar música, durante algum tempo a base da nossa cultura musical continuou a ser providenciada sobretudo por programas de rádio (a televisão oferecia neste campo oportunidades ainda mais limitadas).

Frequentemente tínhamos ao sintonizar as rádios então disponíveis a mesma dificuldade que nos dava a televisão — os retransmissores rareavam, e na minha zona montanhosa desfaleciam muito com as trovoadas, que na altura não tinham nomes mas eram medonhas. Por isso, as novidades chegavam-nos muitas vezes de Espanha, de onde afinal sopravam melhores ventos, pelo menos para as ondas de rádio. A cultura musical de singles era também assim uma cultura raiana, hilariamente traduzida (Piedras Rolantes por Rollig Stones era um clássico), cheia de bandas e tendências espanholas que o adolescente médio português desconhecia ou desvalorizava, o que fazia de nós ainda um pouco mais “raros” quando nos deslocávamos a burgos maiores.

A partir do ano mágico de 1984, o rádio para além de fornecer música providenciava consolo. Servia, posto à cabeceira da cama pela calada da noite, para afogar terríveis mágoas amorosas no profundo Oceano Pacífico de João Chaves ou para antecipar em sonhos nocturnos, também na toada suave, propícia e prónuba daquele programa, o que a luz do dia ainda não conseguira inexplicavelmente proporcionar-nos.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Paisagem com Proust

Detenho-me agora, ao olhar pela varanda, em pormenores da paisagem em que até há pouco não me demorava ou ignorava. Acontece isto não exactamente por haver mais vagar para a contemplação (ainda não encontrei essa benesse na quarentena), mas por se ter insinuado no meu espírito por instantes um sentimento de reclusão, com uma nota ou outra de ameaçada irreversibilidade, imaginários corvos pousando a sua negrura nos ramos em frente. Penso, entre o extasiado e o taciturno, que há ainda um privilégio em ter vistas tão desafogadas e amplas no lado poente da casa; que são piores as janelas que esbarram em feia arquitectura ou frontarias intrusivas (como as minhas do lado nascente) ou em cercas de prisão e piores ainda mais as vistas sem sequer janelas, como as dos condenados na solitária. Olho por isso a serra e o céu acima dela com avidez — como em certa ocasião, também num Março, deitado a espreitá-los numa viagem de ambulância, me imaginei fazendo-o pela última vez, com o mesmo grau de exagerada dramatização que me encorajava a rir de mim próprio a disfarçar o mesmo grau de plausibilidade.

Hoje, talvez por ser domingo e estar a ler Proust e as suas esperadas longas referências a paisagens, flores e sentimentos pastoris, os meus pensamentos andam muito pelos campos da minha adolescência. Na estrada que descubro para os lados de Lordelo e que nunca tinha dado conta de existir para esta varanda (também porque dantes havia mais árvores entre mim e as faldas da serra) vejo um caminho que evoca outros que em algum momento percorri ladeados de flores ou de uma paleta de verdes frescos, feliz como se pode ser na Arcádia.
É a Primavera a insinuar-se, com as suas promessas de alegria, desta vez menos verosímeis, e é o manto de benfazeja irrealidade que, na nossa memória, cobre quase tudo o que alguma vez vimos e vivemos.
Ao contrário do adolescente Proust, os rapazinhos da minha aldeia não davam passeios pós-prandiais em família; não hesitavam depois do pernil, consoante a meteorologia, entre o lado de Swann e o lado de Guermantes, excepto num raro domingo de festa ou feriado, mas então com planos menos bucólicos e certamente menos literários. Sobretudo não estavam os rapazinhos da minha aldeia, mesmo os que como eu tinham o privilégio de vaguear pelos campos, educados por um acumular de leituras e observação de telas para apreciar uma explosão de flores ou um entardecer — o pôr-do-sol, que os apanhava geralmente desprevenidos, uns a trabalhar, outros em actividades de gang inofensivo, se tinham liberdade para isso, era pouco mais do que a hora a que regressavam para o descanso os primeiros ou a que tinham de decidir os segundos se havia ou não proveito em desafiar a autoridade materna (o domínio paterno, e a consequente fúria, estava reservado para insolências mais severas).
Contudo diria que recordo os rapazinhos da minha aldeia, alguns deles, pelo menos, igualmente propensos a estacarem perante Gilberte, se o acaso os pusesse em presença dela. Imagino-os depois parados num campo (numa pausa da sementeira, uns, apoiados na enxada; numa interrupção do jogo da bola, outros, os mais privilegiados) à espera que o vento que faz ondular a vegetação lhes traga uma mensagem de Gilberte. Vejo-os sobretudo, eles que como o jovem Proust a acharam bela e não suportam a humilhação de serem ignorados ou rejeitados, capazes de facto de a ofenderem ou dela escarnecerem para que lhes dê atenção — não porque tenham mais tempo ou inspiração do que teve o narrador de Do Lado de Swann, mas porque há de todo o modo o hábito desse comportamento na genética de grupo, a que até os mais sensíveis demoram a escapar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

S.T.T.L.

Os anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado, cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza. Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas namoradas.
O tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta, ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas. Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições (estava, avidamente).
A sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais intrincados quanto para lobrigar as rocas mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos. 
De resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados do Sporting.
Nos anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos, que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta de lhe termos descoberto o fingimento.
Com o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma pessoa difícil.
Mas os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o tio era então o meu segundo pai.
   Sit tibi terra levis.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Whole of the Moon

Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.

Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott nas colunas sofríveis da Blondie, mas recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse momento, uma turba acabadinha de sair dum casting para o Thriller de Michael Jackson: trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última versão do MSDOS.

Os que tinham dançado slows retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.

Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto —, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.

Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico, ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso? Não aos rapazes do Ípsilon, decerto. Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Um mergulho ao crepúsculo


Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água, pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse, exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo, sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…

No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras


Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular, entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram «grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras, ocupado por crianças ou adolescentes.

Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra «grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo» era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol, vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria. De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau — com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele «groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».

Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente «groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem, portanto.

Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?

Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford, no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando, exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da França?

Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou, se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle, chargé de faire les courses». Grumo, em suma.

Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente para inglês que ele tinha sido um «Brumo».

Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A insensatez da espeleologia na adolescência

Há no parque termal das Pedras Salgadas uma mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
 Logo a seguir ao portão, a mina divide-se em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão, também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos, contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
 Sobre o outro túnel, o da esquerda, não havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
 De Inverno, o terreno baixo por onde se acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não havia graffitis, beatas, garrafas, camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.   
 Houve fascínio e regozijo, naturalmente, como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por fim adiar sine die a segunda fase da expedição.
 Havia, contudo, motivos de interesse naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de luz e medir assim o comprimento do túnel.
 Dois de nós voltámos atrás com essa nova missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização do buraco.
 Demos com o buraco, depois de saltar o muro para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia, certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da direita.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tílias

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável. Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente empatado Rússia x Bélgica.

Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato, se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.

Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.

Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas, com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.

O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar o perfume das tílias.

O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a cabeça e padecem de rinite opcional.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O regresso aos Jedis

Há duas maneiras de evitar que O Despertar da Força atraiçoe a boa memória que Guerra das Estrelas deixou. Não ver o novo filme é naturalmente uma delas. A outra é rever antes os três episódios dos anos 70 e 80: eles se encarregarão de destruir a sua própria aura.

Fiz isso, como bom geek (ou talvez como traidor geek, não sei bem qual é o protocolo para estas situações). Por isso saí hoje apaziguado do cinema: as expectativas já tinham sido devidamente postas no lugar, a decepção tinha ocorrido dias antes, ao rever Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Regresso de Jedi.
O que estimulava a imaginação há trinta anos e a fazia viajar sem limites é bastante diferente daquilo que hoje poderia fazer o mesmo com a pessoa que sou. E a culpa não é dos filmes*, temo bem.

Contudo, acredito que Star Wars permanecerá como um dado feliz na minha vida. Isso não depende dos filmes, e de mim depende pouco, do eu consciente. Deixada sozinha consigo mesma, a memória voltará ao seu trabalho de mitificação e a adolescência voltará a ser aquele lugar feliz que não depende de eu ter ou não sido feliz nele ou de serem bons os filmes que nele passavam ou as sequelas que deles se fazem. Que a Força, essa Força que nos permite ver com o passado como o paraíso (não totalmente) perdido, esteja com ela. 

*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.