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domingo, 5 de julho de 2020

A persistente tradição de guardar bolas para o segundo serviço

A Eurosport e eu já estamos na fase de repetir jogos, pelo que chegou a altura de acabar com a Covid-19 ou, pronto, de adquirir direitos de retransmissão de outros torneios. Wimbledon, por exemplo, nunca aparece na grelha. Consequência do Brexit? Preconceito anti-vegan?

Seja como for, nesta altura já trocava uma partida do Grand Slam por um qualquer joguito não visto, nem que fosse do Estoril Open.

A fraca consolação de rever jogos reside no ensejo de repararmos (ainda mais) em aspectos não desportivos da modalidade, alguns bem intrigantes. O vestuário, por exemplo, é no ténis tema inesgotável. Podemos ter em relação a ele, particularmente o feminino — e consoante o espectro dos nossos interesses (ou o grau da nossa depravação) —, uma abordagem apenas curiosa, fashion geek ou voyeur. No limite da perversão, a julgar por algumas pesquisas no Google e tendências pornográficas dos anos 80, um jogo de ténis feminino pode corresponder, em termos de batimentos cardíacos do espectador, a um filme erótico.

Quando tentei perceber por que não é vulgar as tenistas usarem calções com bolsos — preocupado exclusivamente com aquilo que me parecia uma dificuldade: o armazenamento de bolas suplentes na hora do serviço —, deparei-me com explicações em várias línguas sobre a forma como os vestidos justos e as saias curtas permitem às mulheres manterem a sua feminilidade enquanto disputam torneios de milhões. A conquista suada de troféus e de cheques com muitos zeros parece, segundo algumas análises, coisa intrinsecamente vil e masculina, pelo que se uma senhora tem de condescender nesse desiderato deve, pelo menos, fingir que está na praia. Na praia dos glamorosos anos 50.

Não quero que este post pareça alinhar na sugestão de que são as mulheres, as mulheres tenistas, que mais se preocupam em erotizar a sua imagem enquanto dão pancadas na bola. Nem tenho, por outro lado, ao contrário de certas organizações e tradições do ténis, nenhum dress code ou moral a recomendar a ninguém (muito menos a pessoas que jamais lerão este blogue). Mas temo que a saia curta dominante, com folhos ou sem eles, seja um compromisso entre jogadoras, instituições e expectativas sociais, um compromisso para que, focando-se o mundo nas suas coxas, elas sejam deixadas em paz e concentradas apenas nos seus jogos. Porque sempre que alguma jogadora introduziu mudanças no outfit ou simplesmente tirou e voltou a vestir a sua t-shirt num canto do court (o que até mereceu aplauso entusiástico da, neste ponto igualitária, falange voyeur), levou, como há pouco Alize Cornet, com o dedo em riste da moral tenística.

Suspeito por isso que a tradição da minissaia no ténis, como a do decote nos trajes femininos dos séculos dezoito e dezanove, permite sobretudo aos cavalheiros fingirem-se — em simultâneo ou alternadamente, como convier — sensualistas e castos.

Considerando que a anatomia feminina não difere da masculina em tal grau que obrigue a formas diferentes de armazenar bolas suplementares, e considerando também que a não abolição do hábito de se guardarem bolas para o segundo serviço (quando os apanha-bolas se tornaram tão ágeis) não trai vício masculino, não seria expectável, dada a diversidade humana, ver-se mais marcas a desenhar calções femininos com bolsos — e homens a enfiarem bolas na lycra por baixo dos calções? Ou das minissaias?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país


Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o individualismo favorecidos pelo novo medium e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate político cresceram.

Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um adolescente lado cowboy nesta direita e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas, com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição do mundo que hoje temos.

Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do armário, encontrou no Correio da Manhã o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista, um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência quotidiana — a podridão nacional, em suma.

Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que conheçamos o país para que o aceitemos como é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a imparcialidade é conveniente ao próprio statu quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral, ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade, a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas, levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista — se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais fervorosos na defesa não declarada de que é natural uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de mariquices.)

Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente «bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer coincidir com o leitor comum do Correio da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.

Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)

Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.


* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção das desigualdades.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

L'affaire «tribune Deneuve»

Como Catherine Deneuve, também «não gosto desta característica do nosso tempo em que qualquer um se sente no direito de julgar, de arbitrar, de condenar». Para reconhecermos quão grandes são as probabilidades de erramos quando julgamos pessoas de quem não somos próximos ou atitudes cujas matizes e complexidades desconhecemos não precisamos de grande intelecto ou perspicácia — mas não podemos dispensar bom senso, prudência e imparcialidade.
O movimento #metoo tem em si o potencial de se constituir uma versão contemporânea das Bruxas de Salém, sem dúvida. Como as denúncias de pedofilia em tempos recentes, o tribalismo no futebol ou alguns assuntos que se tornam «virais» na Internet: veja-se a patética reacção «transmontana» a umas frases irrelevantes de José Cid.
Na verdade, dada a sua globalização e projecção mediática, o movimento #metoo tem esse potencial bastante mais agravado, pelo que um artigo como o que Catherine Deneuve e Catherine Millet assinaram com uma centena de outras mulheres é bem-vindo, precisamente para moderar excessos e convidar à reflexão.
Mas «la tribune Deneuve» (para usar a designação do Le Monde) não deveria, não poderia ter-se escrito sob o mote «Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle».
No meu post anterior sobre este tema falava da importância da linguagem e de como o seu uso descuidado ou cínico é fonte de equívocos, involuntários ou calculados. A celebração e o aproveitamento triunfante do «artigo Deneuve» por tantos reaccionários e machistas — que a própria Catherine Deneuve teve de vir repudiar — ilustram o que pretendo dizer. Num assunto tão delicado como os relacionamentos sexuais e a liberdade individual falar de «liberdade de importunar», seja qual for a acepção que escolhamos da expressão, é, no mínimo, imprudente, mas parece ser em simultâneo um lapsus linguae ou uma opção próprios duma cultura patriarcal.

No Delito de Opinião, o seu editor Pedro Correia eleva a «comentários da semana» (imagino que com a intenção de nos mostrar a jaez dos raciocínios) dois textos que são exemplos tanto da perversidade da cultura patriarcal como do aproveitamento boçal ou sem escrúpulos favorecido pelos equívocos de linguagem. Um dos comentários reduz as simpatizantes do #metoo a «solteironas guardiãs da moral», comparando-as, com supina elegância, às beatas dos anos 70 da sua aldeia, lubricamente indeciso entre as considerar «solteironas e provavelmente inteiras» ou «devotas sim, mas do apessoado sacerdote». Repare-se que o comentador, certamente por falta de espaço, não considera a possibilidade de haver homens neste grupo de «guardiães da moral», caso contrário estou convencido de que teria arranjado estórias apropriadas para os descrever, possivelmente recolhidas nas suas tascas dos anos 70 ou de sempre.
O outro comentário é ainda mais digno de admiração. São dois pequenos parágrafos apenas, mas tiram grandes conclusões para a humanidade em geral e para as mulheres em particular. Fica aqui o primeiro:
«Ninguém pode negar que o assédio sexual e que as violações existem. É um facto. Mas também ninguém pode negar que há uma necessidade imperiosa, para a espécie humana, de que os homens assediem as mulheres. Se nunca os homens assediassem as mulheres, nunca eles se uniriam sexualmente e não haveria reprodução! O assédio é portanto fundamental. E mulher que nunca seja assediada por nenhum homem certamente que ficará profundamente infeliz!»
Devemos regozijar-nos, suponho, por o pai deste bravo pensador ter em boa hora «assediado» a esposa, caso contrário, impedida por natureza de ser ela assediadora, seria por certo mais uma «solteirona» infeliz e «inteira» (para citar o comentário anterior) e o mundo ter-se-ia privado de tão luminosa descendência.

O lado conservador mas polido do debate sobre sedução versus assédio sexual recebe por vezes estes comentários e outros mais graves com um indulgente bocejo, considerando implicitamente, não direi que por mera conveniência, tratar-se apenas de excessos próprios das malfadadas «redes sociais» e que os seus autores têm por regra um comportamento na vida real que não corresponde às alarvidades que por desenfado publicam. Olhando para as estatísticas (e olhando em volta, enfim) sinto-me tentado a duvidar. Mas sobretudo não compreendo que, na sua enorme indulgência, o lado conservador esteja menos disposto a considerar que as/os simpatizantes do #metoo sejam em geral, como as suas némesis machistas, incapazes na vida real de se transformarem em caçadores de bruxas.
A mim parecem-me ambos preocupantes, machistas e caçadores de bruxas, e por isso não vejo por que o medo dos segundos me deva levar a subestimar os primeiros. Excesso de igualitarismo da minha parte, decerto.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Notas ao correr da pena sobre feminismo e o zeitgeist

Percebe-se o receio de que o movimento descambe para oportunismos, injustiças e, no limite, linchamentos, mas «a liberdade de importunar» é uma coisa perfeitamente estúpida de se defender. A linguagem conta, e quem assinou a carta e quem com ela se regozijou devia sabê-lo. E em tantos casos sabe-o.

É muito destes equívocos de linguagem que se alimenta a reacção às tentativas de mudança do paradigma patriarcal. Não admira os grunhos, mas quando pessoas cultas e inteligentes se escandalizam ou riem com o «fim do direito ao piropo», ignoram alegre e deliberadamente que não é bem essa a proposta ou abdicam de pedir aos proponentes definições e linguagem precisas — porque o equívoco é conveniente a uma agenda conservadora. A agenda conservadora, confortável no seu privilégio, prefere as injustiças conhecidas ao risco de mudar.

Do mesmo modo, esta intelligentsia conservadora prefere sempre manter o debate com as falanges mais extremadas do lado a que se opõem, para que o que se proponha de menos radical não se note, não exista e não singre. Nas suas intervenções, não parece notar que há grandes inconvenientes — digamos assim, eufemisticamente — para as mulheres no regime patriarcal vigente; está demasiado ocupada a agitar os fantasmas do fascismo feminista. Não gasta mais de um mililitro de tinta com a ascensão da extrema-direita e o seu histórico real de fascismo; mas verte baldes dela a inflamar «o povo» contra o «fascismo» do «politicamente correcto».

Esquecendo que o estado de direito (a pedra de toque da civilização) se funda para defender os fracos — contra a lei do mais forte ou a lei da espada —, considera, para que não haja legislação «extremista», que todas as mulheres são tão fortes e imunes à «importunação» masculina como as «peixeiras do Bolhão» (sem ofensa para as verdadeiras) ou como réplicas fatais e de cigarrilha nos dedos enluvados de uma romanesca Mata Hari de revólver na liga.

E agora o choque: sou contra o acordo ortográfico, não por ele significar uma mudança na escrita como a conheço, mas por ser equívoco, incongruente, errado, intrinsecamente estúpido; já a chamada «linguagem inclusiva», vilipendiada automaticamente à esquerda e à direita, parece-me um bom início de conversa para uma mudança de paradigma que em nada me assusta.

Gosto de snobes (estou a ler um deles, Evelyn Waugh), mas só na forma, na estética. Neste debate, os snobes são não raro cínicos ou machistas a tentarem esconder-se de si mesmos com a peneira lassa dos costumes.

sábado, 5 de novembro de 2016

O candidato da infâmia

Não vejo nenhuma razão objectiva para achar que o género de suspeitas, indícios, argumentos ou raciocínios que aparentemente concluem pela índole corrompida de Hillary Clinton não se aplicam do mesmo modo a Trump. Acontece que o que sobra para fazer a diferença entre os dois é tão, tão óbvio e extenso que resulta patético alguém acreditar que se mantém decente defendendo a hipótese Trump.
Aos americanos na terça-feira até pode não restar mais do que escolher o mal menor, mas desta vez ter dúvidas sobre qual é o mal menor é sintoma de muita confusão mental ou genuína imbecilidade.
Há os que, na América e na Europa, não têm dúvidas e votam (ou votariam) Trump simplesmente porque têm o mesmo carácter doentio do candidato republicano. São um lastro que a humanidade sempre arrastará, não haja ilusões.
Mas dentro dos convictos há ainda os que escolhem Trump por capricho ou mero e abjecto calculismo, ideológico ou outro. São os mesmos que, em nome de uma bandeira, de uma birra, de um ressentimento ou de um interesse, não se importam de experimentar hipóteses trágicas porque pressentem que o resultado não os incomoda pessoalmente. E, como a história da infâmia nos ensina, nisto têm demasiadas vezes razão.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Asco

Há muito tempo que não visitava o Blasfémias. Há dias caí nisto:


Achei que, mesmo para alguém com o historial deste Vítor Cunha, era um pouco patético um tipo deixar-se chegar a este ponto de irritação, desespero ideológico e niilismo argumentativo.

Hoje saiu-me este outro post na rifa


digno de um verme que já não disfarça a sua condição. Fui espreitar o tom geral do blogue. Um pouco mais de verniz, mas não muito.

As cretinices do Blasfémias, mesmo nesta fase de puro fel, estribeiras perdidas e alma penada à vista, ficam com quem as escreve. Tenho é pena de amigos que ainda consideram inteligente ou decente contemporizar com a "direita" de Helena Matos, José Manuel Fernandes & abjecta Companhia. Muita pena, mesmo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A timidez e o ‘piropo’

Numa conversa alheia a que assisto no Facebook como numa esplanada de café, com a mesma indiscrição semi-involuntária, alguém, uma mulher, diz de si mesma:
«Eu sou um típico caso de pessoa tímida, não gosto muito que olhem para mim, mas sei que isso é um defeito (…)»
Esta confissão e autocrítica associam-se a um conjunto de argumentos contra a penalização das propostas importunas de teor sexual (por preguiça designadas como ‘piropos’), um processo que a mesma mulher, jovem e com formação, considera promovido por «feminazis» (fêmeas ao que parece com vontade de controlar os homens).
É sintomático que alguém venha criticar este aditamento legislativo ao artigo 170.º do Código Penal considerando um defeito a sua própria timidez (ou seja, o seu mal-estar com a importunação). É sintomático porque, apesar do tom de bravata no resto do discurso, denuncia uma cultura de submissão, afinal o terreno fértil onde o comportamento intrusivo tradicional, sem respeito pela individualidade e pela sensibilidade do outro, se permite dominar, com direitos de cidade superiores, por supostamente a extroversão, incluindo este tipo de extroversão opressor, ser a condição ‘normal’, a condição das pessoas sem defeitos.

Não, cara facebookiana desconhecida, a sua timidez não é um defeito, é uma característica, aliás comum, que cabe a todas as outras pessoas respeitar. Defeito é a incontinência do ‘piropo’ importuno. Defeituoso é o caracter de todos aqueles que acham legítimo importunar outras pessoas com seja que tipo de pensamento ou desejo lhe vai na cabeça ou nas partes.

Teria sido necessário legislar sobre isto? Eventualmente não. Se os tímidos não achassem defeituosa a sua timidez e os importunadores tivessem suficiente educação e carácter para controlar a sua líbido excessiva. Mas se as vítimas nunca tivessem de recalcar a sua condição e os opressores jamais oprimissem, todo o Estado de Direito, com todos os seus códigos, toda a sua artilharia legislativa, seria pouco mais do que uma redundância, não?

Existem várias formas de uma sociedade prevenir comportamentos perturbadores da integridade alheia sem necessidade de recorrer ao braço pesado da Lei. A censura familiar e social pode ser uma delas. Quando esta falha, talvez devêssemos apreciar haver no país capacidade legislativa independente da vox populi. Se a vox populi prefere defender o direito de alguém a ser grunho (ou pior do que isso) contra a liberdade do outro, talvez aqueles que elegemos, numa democracia representativa, tenham o dever de se elevar acima da miséria moral e aprovar leis que defendam os tímidos do despotismo da ‘normalidade’.

segunda-feira, 9 de março de 2015

100 Homens, 100 Preconceitos

A campanha "100 Homens, Sem Preconceitos – Um Passo pela Igualdade" (que fotografou cem homens em saltos altos) é decerto bem-intencionada, mas é simultaneamente estúpida, porque assenta num estereótipo — ou seja, num preconceito, dos tais que tenciona combater.
Imaginem que a Máxima, a revista promotora da campanha, convidava cem homens a experimentarem enfaixar as suas extremidades inferiores como durante dez séculos muitas chinesas tiveram de fazer em nome da “beleza”. Com “pés de lótus”, como com saltos altos, a revista haveria de registar o mesmo género imbecil de comentários masculinos — «isto é muito difícil!» ou «agora damos ainda mais valor às mulheres!» — e as mulheres estariam igualmente mal defendidas. E mal definidas.
A maior dificuldade das mulheres não é caminhar em stilettos; já insistir em definir a feminilidade pela forma aguda do tamanco não facilita certamente, quotidianamente, a vida a muitas delas.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O apêndice marital

É tristemente irónico que Siri Hustvedt, escritora de talento, erudição e densidade intelectual, com obra e reflexão sobre preconceito de género, seja apresentada em Portugal como esposa de Paul Auster. Percebo o atractivo comercial da informação, mas, quatro livros depois — o penúltimo intitulado “Verão Sem Homens” e o último versando sobre «os preconceitos que imperam no mundo da arte» — quatro livros depois, perturba que a D. Quixote continue a incluir nas badanas o apêndice marital. Quantos escritores masculinos são apresentados como maridos de não sei quem? Eu, se fosse a Siri Hustvedt, mandava passear a D. Quixote no próximo livro. Se a editora não consegue vender-lhe as obras pelo mérito ou se os portugueses não as compram senão pelo popular marido, não a merecem. E, claro, não a entendem.

Os homens sobre as mulheres

Noto como intelectuais, escritores e homens afins se assemelham ao cidadão comum no que se refere a considerarem as mulheres uma coisa à parte (ainda que não exactamente, ou não sempre, com um intuito discriminatório).
Quando denunciam a seu espanto, a sua estranheza, a sua admiração, a sua permanente perplexidade com as mulheres parece-me que estão, com frequência, a revelar o quão pouco ou distantemente convivem com a variedade feminina.
Não há isso de as mulheres serem assim ou pensarem assado. As mulheres não são um grupo homogéneo, como os homens o não são. Não são mais agrupáveis entre si do que com homens. É possível agregar pessoas por graus de afinidade psicológica, mas disso não resulta que tenhamos mulheres aqui e homens ali.
Quando Pedro Mexia escreve que «o gosto das mulheres nem sempre é compreensível, mas raramente é infundado» não está (e ele sabe disso) a falar das mulheres, mas de algumas mulheres, daquelas que lhe são próximas, física, intelectual, ou, diria, oniricamente.
Quase tudo o que os escritos masculinos sobre mulheres dizem pode ser aplicado com propriedade — e não necessariamente com promiscuidade — a uma quantidade não desprezível de homens. As mulheres são apenas, tradicionalmente, convencionalmente, o outro mais confortável para a discorrência masculina. (Não raro são o biombo de outro outro, mas isto já é derivar.)
Séculos de confessionalismo masculino sobre as mulheres resultaram nisso a que também se chama poesia, uma espécie de obscurantismo de divã que, em obediência a uma teoria institucional da arte (masculina, naturalmente), foi como arte validado.

domingo, 25 de maio de 2014

Deus, diz-me onde construo a Arca.

Um agressor e assassino de mulheres é mascote de foto-piadolas na internet e é aplaudido na sua entrada em tribunal. Duas faces do mesmo país boçal. É perante quadros destes que acho a crise leve, enquanto nação merecemos mais, uma purga a sério, uma das pragas da Bíblia, pelo menos. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Comovente

Morrissey em concerto apertando sucessivamente as mesmas mãos (a boca de cena não é assim tão larga) mas dizendo «they’re so many». A espaços, sobem fãs ao palco, e comovente é ver os enormes seguranças caírem sobre elas como armários num terramoto e numa súbita contenção pegarem-lhes com pinças, levando-as dali com delicadeza, lembrando-se talvez que não se maltrata mulheres.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Orgulho e preconceito

No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, um rapaz estudante de Jornalismo tinha de escolher, entre quatro possibilidades, o nome do autor de Frankenstein. Minutos antes, amigas na plateia diziam apostar nele pela sua cultura geral. Ele definia-se como pessoa que lê.
As opções eram Arthur C. Clarke, Bram Stoker, Mary Shelley e H. G. Wells. O rapaz não teve a tradicional hesitação entre Shelley e Stoker — rejeitou de imediato a escritora porque, palavras suas, não lhe parecia que uma mulher pudesse escrever um livro daqueles.
Depois de ter recorrido a uma ajuda que reduziu as escolhas a dois nomes (precisamente Shelley e Stoker), manteve-se na rejeição de Mary, ainda que não fizesse ideia de quem era o outro.

Dir-se-ia que o concorrente seguiu uma intuição legitimada histórica e/ou estatisticamente, mas não é certo que ele conhecesse a história ou a estatística. As amigas na plateia abanavam a cabeça, desoladas com a escolha dele. Infelizmente, abanavam a cabeça porque sabiam que ele ia perder — não porque se sentissem ofendidas com a forma como rejeitou a opção feminina. É pena. Eu teria gostado de as ver mandá-lo bugiar quando ele regressasse entristecido com a sua má-sorte.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Blasfemando no fim do jogging

No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego) termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim, mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina, que a boa acção me garantia uns pontos no ranking celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.

Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado que ando delas. Saravá.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O amor em Portugal

— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.