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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Whole of the Moon

Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.

Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott nas colunas sofríveis da Blondie, mas recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse momento, uma turba acabadinha de sair dum casting para o Thriller de Michael Jackson: trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última versão do MSDOS.

Os que tinham dançado slows retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.

Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto —, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.

Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico, ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso? Não aos rapazes do Ípsilon, decerto. Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Da democracia do gosto

É fácil invocar o chavão «gostos não se discutem» para terminar uma conversa (ou, mais rigorosamente, para fazer calar o interlocutor).
Talvez os gostos não se discutam (não se deviam impor, isso sim). Mas pode-se tentar explicar serena e sabiamente a qualidade e a singularidade de uma obra de arte, como se faz neste vídeo.
Apelar à difusão do vídeo pode contudo valer-nos a acusação de proselitismo, porque, como se sabe, o único proselitismo válido, mas não assumido, é o que praticam com denodo as televisões e a imprensa “popular”.
Claro que nunca veremos a TVI ou a CMTV a substituir um dos programas do seu circo de horrores por uma aula destas. Mas podemos sempre observar que, ao contrário do que apregoam, a sua noção de democracia está errada.
A chave da democracia não é fazer cumprir a opção da maioria (muito menos a opção previamente decidida pelos populistas de serviço). A chave da democracia é, exactamente, a possibilidade de optar. E isso só se assegura permitindo a diversidade e a singularidade. O que acontece é que demasiado frequentemente, como lembra Luís Figueiredo no final do vídeo, «as pessoas não estão a escolher». Como poderiam, não é?



segunda-feira, 6 de março de 2017

Bom gosto

Um tipo sente-se por momentos reconciliado com o país quando descobre que venceu o Festival RTP uma canção bonita.

A RTP (ou o Nuno Artur Silva por ela) teve a melhor ideia em décadas: convidar para o seu festival alguns dos mais interessantes compositores de canções da banda sonora lusa neste século. Parece-me que foi um dos primeiros gestos de coragem contra a hegemonia e o proselitismo pimba que têm dominado o panorama televisivo, RTP incluída. E só nos pode deixar felizes que o júri e uma boa parte do público tenham escolhido uma canção que despertara indignação nas redes sociais e nos tablóides por não ser “festivaleira” nem o cliché que tradicionalmente se espera. Por uma vez, foi ignorada a tirania da “opinião pública” precipitadamente deduzida das estatísticas dos likes, emoticons e verborreia de caixa de comentários. Por uma vez, o bom gosto venceu.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A ascensão germânica

Há quem diga que todas as rivalidades dos anos 80 foram redimidas com o convite de Nena a Kim Wilde em 2002 para o remake de “Irgendwie, Irgendwo, Irgendwann”, incluído no álbum que celebrava os 20 anos de carreira da cantora alemã com o título “Anyplace, Anywhere, Anytime”. Mas a exegese do vídeo que acompanhou a canção deu azo a duas teorias diferentes. A primeira toma o gesto de Nena por um acto de piedade, não de conciliação. Contudo, embora a piedade não raro envolva sobranceria ou condescendência, pode-se ainda optar por ver ali apenas nobreza. «Vamos lá tirar a Kim da sua jardinagem por um momento e lembrar ao mundo como também ela cantava bem», poderia ter pensado a simpática Nena, num arroubo de caridade.
A segunda teoria, porém, não deixa espaço a ambiguidades destas. Os seus preconizadores consideram que os 3’44’’, apesar da boa prestação vocal de Wilde, são uma orquestrada humilhação que a raça ariana, representada pela esguia, jovial e saltitante Nena, perpetra sobre a melancólica e já pesadona Inglaterra. Eram, defendem, os primeiros sinais da ambição germânica que dez anos depois transbordaria do festival da Eurovisão para a economia e a política.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dhafer Youssef ou a reconciliação da espécie


Há três anos havia lua cheia e Dhafer Youssef actuava em Sines (lembras-te?). Nós estávamos no mesmo paralelo, mas não mesmo mesmo meridiano — e contudo parámos o carro na berma alentejana, saímos para o calor da noite com o rádio no máximo e dançámos no alcatrão, inquietando a bicheza que esbugalhava um olho de cada vez nos prumos das cercas ao redor. Apesar da proximidade mediterrânica e do Sete Sóis, Sete Luas, que também já visitáramos e havíamos de visitar, não nos ocorria exactamente a celebração de um melting pot musical ou cultural, pensávamos apenas no prazer de ser Verão e estarmos vivos a Sul. Mas calhava de Youssef — o tunisino, o francês, às vezes vienense, o terráqueo, em suma — ser versado na Teoria das Cordas e explicar o Universo dedilhando o seu oud ou tensionando incrivelmente as fibras da laringe. Por isso havia Harmonia e o jazz era o seu esperanto — e nós estávamos afinal sintonizados com o Cosmos, reconciliados com a espécie. Tínhamos bebido um copo ou outro, é certo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Referências culturais

Notar a frequência com que os meus escritos evocam banda desenhada, música pop, cinema ou livros pouco recomendáveis remete-me para a pergunta certeira que Nuno Costa Santos faz no Marginal Ameno
«como é que alguém com 40 anos pode criar hoje — nas escritas, nas representações, nas artes em geral — fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.»

Na verdade, e não desfazendo, não andamos assim tão longe dos helenistas e dos latinistas de gerações anteriores. Eles evocam As Metamorfoses e nós Asgard, versão Marvel. Eles falam da Odisseia de Homero e nós da saga sobre a ascensão e queda do Daredevil, por Frank Miller. Somos todos bons rapazes, amantes de seres fantásticos e aventuras. Uns, nostálgicos de canções napolitanas, outros, de 16 Lovers Lane. No fundo, ninguém sai da adolescência, tenha ela como referência a Renascença ou os eighties.

Duetos



Todas as décadas têm os seus duetos felizes. Peter Gabriel abraçou-se a Kate Bush em “Don’t give up” (1986). Nick Cave, a PJ Harvey em “Henry Lee” (1996), tendo depois Polly Jean cometido infidelidade com Thom Yorke em “This mess we’re in”(2000).

“Strange weather” (2014), original de Keren Ann que junta Anna Calvi e David Byrne, tem a felicidade de fazer uma ponte entre os sixties e o século XXI, e não é pela participação de David Byrne (aliás, da geração de 70). Anna Calvi é uma excelente criadora também pelas reminiscências velvetundergroundianas da sua voz e da sua guitarra.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Abduzido pela música

A música, como a literatura, transporta-nos. É um velho cliché e, como tantos velhos clichés, uma verdade. Mas em alguns momentos da minha vida a música foi para mim menos Ambrósio e mais Mr. Scott, não tanto por o meu imaginário permanecer intergaláctico mas porque a deslocação promovida pela música era do género teletransporte, sugava-me a alma e materializava-a através de um feixe numa realidade paralela. Só assim se compreende, por exemplo, que certa noite na alta adolescência eu subisse a rua e em vez de torcer o nariz ao rádio que a Maria da Luz sintonizara em volume de arraial no passeio desse por mim a dançar a “Billie Jean”, do Michael Jackson. É certo que tinha andado a tentar aprender a linha de baixo da canção, mas geralmente mantinha na intimidade esse tipo de desvio de personalidade. Era Verão e havia possivelmente lua cheia, mas não me lembro de nenhuma visão que quase me parasse o coração (caso contrário teria dançado o “Thriller”). Aquilo era abdução pura, um metafísico tabefe gaulês que de mim só deixava as sandálias em modo moonwalk no passeio. Era eu por interposta pop a convidar o Álvaro de Campos sensacionista que havia em mim a calçar os meus sapatos (sim, felizmente também me acontecia a ouvir Depeche Mode, mesmo antes de eles terem gravado a canção). Depois a música acabava — depressa demais, como sempre acontece com a pop/rock (que saudades tinha do Barroco) — e lá ficava eu aturdido a sacudir o pó da roupa como se tivesse acabado de fazer a Route 66 ou de acompanhar Bento de Góis na primeira viagem europeia terrestre da Índia para a China (e toda a gente sabe como ficamos cheios de pó se vamos a pé da Índia para a China). 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O regresso da cantora careca


Ontem e hoje assisti no Youtube a dois regressos: U2 e Sinéad O’Connor. Sendo um genuíno filho dos eighties, não fico indiferente a notícias que se relacionem com gente desta. Mas ouvi com total indiferença a “nova” música dos U2 (indiferença não, um tédio assassino) e com bastante curiosidade a da Sinéad. “Take Me To Church” entusiasma, raios!, apesar do final fraco e de a imagem da cantora, pareceu-me, não ter escapado ao Photoshop, ou ao equivalente em vídeo ou maquilhagem.
Nos últimos anos, sempre que calhava cruzar com Sinéad O’Connor no Youtube, assistia com certo embaraço (e desapontamento) a entrevistas um pouco constrangedoras de uma senhora de meia-idade desnecessariamente gorduchita, notoriamente aborrecida e até ressentida por estar a dar entrevistas ou a apresentar canções, quezilenta, a responder com dissertações esotéricas ou implicativas, desagradáveis, a questões banais sobre a sua música. O anjo que conhecêramos quando adolescentes lamentavelmente desaparecera sob o diagnóstico de distúrbio bipolar que Sinéad um dia revelara de si mesma. A cantora careca — pensava eu, definitivo —, envelheceu mal.
Mas o adulto que agora somos compreende na pele isso de envelhecer e aprecia novos fôlegos do talento, mesmo que breves e isolados, quando os ouve. Era este o meu espírito quando, espevitado pelo vídeo, fui espreitar o álbum completo (“I’m Not Bossy, I’m The Boss”), disposto a perdoar aquilo do Photoshop. Mas eis que, junto com várias outras canções bem inspiradas, no lugar de um anjo caído deparo com uma gloriosa Fénix. (Depenada, é certo — mas neste particular quem esperaria outra coisa?)
Os vídeos de entrevistas e concertos que agora me surgem nos lugares cimeiros do Youtube mostram uma Sinéad O’Connor coberta de hieróglifos e Cristos de Cecilia Giménez, sim, mas de novo elegante, simpática, comunicativa, assertiva, aguerrida, coerente, bem-disposta, exibindo empatia com o público e os entrevistadores. A interpretar com gosto as suas mais recentes canções e a emocionar o público e os voyeurs do tube.
A Wikipedia diz que a cantora já há uns anos tinha desmentido o seu próprio diagnóstico de distúrbio bipolar, mas isto não me parece credível. Por definição, o novo momento da cantora desmente-o, aliás. O que me parece é que, para bem de todos os fãs, finalmente alguém acertou na medicação. Passem a receita ao Bono.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O Tua e a sua canção (ou)vistos pela nova direita

Um grupo de artistas dedicou uma canção ao Tua. A Helena Matos já deverá estar a escrever no pravda da nova direita um artigo a defender que se afogue não só o vale como os artistas. Se faltavam motivos para construir a barragem, dirá ela, agora temos um. João Miguel Tavares, pelo seu lado, pessoa sensível, aumentará o caudal do Tua com uma lágrima ou duas pelo vale e pelos artistas, mas lembrar-lhes-á a sua culpa por canções e paisagens belas serem actividades condenadas num Portugal falido.
Pedro Lomba dirá num briefing falhado que os artistas deviam era estar a contribuir para a demografia fazendo filhos enquanto a água não os cobre. Poiares Maduro tentará tirar-lhes o subsídio de férias e Passos vender-lhes uma formação em aeronáutica que lhes permita emigrar a partir de qualquer aeródromo das redondezas. Que os há-de haver.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Love and War(paint)

Estas meninas já nos brindaram (à geração de 80) com uma bela versão de "Ashes to ashes" (Bowie) e agora têm o bom gosto de atacar "The Chauffeur" (Duran Duran). Conhecendo também os seus originais, só se pode amá-las. 

https://soundcloud.com/manimal-vinyl/warpaint-the-chauffeur-1/s-FYTII

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Gosto que os meus amigos bloggers ou facebookers façam de DJs. Em cada visita à internet vou coleccionando toda uma banda sonora do dia em janelas abertas à espera de serem ouvidas. Depois ouço-as, a maior parte das vezes com prazer e proveito. (Isto porque ganhei o higiénico hábito de ocultar chatos, pessoas desinteressantes e fãs do ‘Blasfémias’, que, como se sabe, têm péssimo gosto musical).

terça-feira, 10 de junho de 2014

Bombos

[Para os patriotas que se entusiasmaram com o post anterior]

Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque, não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.


P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer relevância musical.  

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Pensando bem

Pensando bem, o meu problema nunca foi a permanente hesitação entre Bowie e Morrissey (para falar de uma delas). O meu problema foi optar sempre por Araújo, esse inconseguimento.

Comovente

Morrissey em concerto apertando sucessivamente as mesmas mãos (a boca de cena não é assim tão larga) mas dizendo «they’re so many». A espaços, sobem fãs ao palco, e comovente é ver os enormes seguranças caírem sobre elas como armários num terramoto e numa súbita contenção pegarem-lhes com pinças, levando-as dali com delicadeza, lembrando-se talvez que não se maltrata mulheres.

sábado, 12 de abril de 2014

De olho no céu

Na página Humans of New York leio que, de acordo com um mito nativo americano, cães com olhos de cores diferentes podem ver simultaneamente a terra e o céu (no sentido mítico, ou religioso). E isto para mim explica o génio de David Bowie.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O pimba do Senhor

Nos meus tempos de adolescente e néscio (com os anos, abandonei a primeira condição), achei assaz progressista, apesar do traje, um franciscano que me incitou a levar o baixo eléctrico para cima de um palco onde se cantavam hinos ao Senhor. Passou-se isto no catolicismo e numa era anterior à editora Flor Caveira, do evangélico Tiago (Guilul) Cavaco. O pioneirismo católico, aliás, havia-se já manifestado quando na década de setenta a Igreja sobrepôs letras de excitação beata a canções de Bob Dylan. E o aggiornamento não mais parou. Hoje, muito modernas formações musicais louvam o Senhor como aos domingos à tarde se louva na TVI a genitália feminina: com vocalista trejeitoso e partenaires gesticulantes, comprimidas em slim jeans ou calças de lycra e t-shirts um número abaixo. (Se não tivesse visto, não seria capaz de imaginar isto.)
A estética e o sentido coreográfico pimba são tão omnipresentes em Portugal quanto Deus Ele Mesmo. E mais influentes. Não admira que a própria Igreja ache natural que, em palco, se declare amor a Cristo com os passos, os gestos, a melodia, o instrumental e os coros que geralmente se usam na TVI para, com trocadilhos e metáforas de baixa extracção, se aludir a fodas, minetes e broches.
De resto, se é popular, a Igreja procura absorver, como sempre fez com qualquer ritual pagão. Que se lixe a estética e a lógica, se isso lhe permitir recensear mais umas almas (importa-lhe mais a estatística das almas do que as suas práticas). Não se pode é a Igreja admirar que os aleluias gritados no apogeu dos cânticos passem a ter outra conotação e o êxtase deixe de ser místico.

P.S.: «E nós… pimba, Senhor», poderia ser uma resposta moderna ao «crescei e multiplicai-vos», não fosse a contracepção.

P.S.2: Já no Natal, poderiam substituir-se as estrofes gastas do «Noite Feliz» por versos mais modernos: «Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será / O pai da criança, eu sei lá, sei lá… eu sei lá, sei lá...»

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Melancolia

Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parece repulsiva quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário. Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena. Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer arrebatado?

A única parte triste da melancolia é termos de desligar a música, fechar os livros e ir picar o ponto nessa coisa a que chamamos vida adulta e responsável.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Talvez coisar

Ouço no programa do provedor de uma rádio que ouvintes se queixam de passarem ali músicas com palavrões. (Um dos exemplos é “Anos de bailado e natação”, o belíssimo tema dos Mundo Cão com letra feliz de Valter Hugo Mãe de que já aqui falei.) Isto no mesmo santo dia em que a televisão dedica todo o período da tarde a fazer desfilar um inesgotável repertório de grosseria e brejeirice.
Pergunto-me se os provedores das TVs (existem?) recebem queixas de badalhoquices verbais no pequeno ecrã, mas suspeito que não. A cultura pimba é ali hegemónica ou exclusiva. E, mesmo que não primem pela subtileza ou pela elegância, os letristas pimba conseguem nos seus trocadilhos soezes evitar nomear as coisas de que obsessivamente se ocupam. Ora, a hipocrisia nacional tolera o mau-gosto, o machismo, a misoginia, a homofobia, o kitsch mais obsceno e a mais estridente ausência de talento — mas nunca o vernáculo radiotransmitido.

Se não tivesse há muito sido banida qualquer forma de arte da TV lusa, os Mundo Cão teriam na conjugação do verbo foder, ainda que poética, a razão do seu ostracismo hertziano.