Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

«Who gave you this number?»

Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas. Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado, pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive resposta.

Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente, e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster — mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.

Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?» não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso críptico para mim: Verão sem homens. Aquele homens era comigo. Eu estava impedido de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de entrar na casa do marido.

Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster, vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao telefone e já venho.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A perdulária arte de chegar tarde

Depois de quase todos o literatos do país terem dado o seu contributo para o debate facebookiano que espoletou um post de José Mário Silva sobre um comentário (crítico) de Luís Quintais a uma crítica (elogiosa) de José Mário Silva no Actual, a coisa provavelmente esmorecerá. Mais uma vez, cheguei tarde. Damn it!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Crueldade instrumental

Eis como numa frase (longa, é certo) se condena a crítica à irrelevância (implícita, mesmo que não conscientemente, fazendo o elogio do marketing):
«(…) embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (…)»*
*Maria do Rosário Pedreira, editora, referindo-se ao célebre dossier do Actual sobre autores sobrevalorizados e subvalorizados.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Más notícias


 A Piada Infinita foi de tal maneira uma leitura fascinante e lúdica que depois desse livro mal tenho conseguido pegar noutros. Acumulo uns seis ou sete na mesa-de-cabeceira, eu que não costumo ali ter mais do que dois: o que leio a cada momento e um qualquer outro que, por piedade a fingir desleixo, fica ali esquecido durante meses numa desistência camuflada de adiamento.

É injusto para os autores terem o azar de surgir na minha lista depois de Foster Wallace.

Meio enganado por uma qualquer referência que li, avancei a certa altura para Cinerama Peruana, convencido que havia ali ecos de A Piada Infinita. Como se usar notas de rodapé fosse suficiente para aproximar os dois livros. Não são próximos. Talvez haja ecos de Bolaño no livro de Rodrigo Magalhães, mas não vi nada de Wallace. E, lamento dizê-lo, a despeito do talento do autor, aborreci-me. Certamente pela enorme sombra que lhe fez a leitura anterior. Mas também um pouco pelo género: aquelas espécie de fábulas eminentemente literárias e literariamente tautológicas não me apaixonam, mesmo quando são assinadas por Borges. Foi para arquivo, a um terço do fim. Decidi ser condescendente comigo mesmo, poupar-me o esforço.

Hoje fui buscar Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer — o que me parece más notícias para os restantes autores da pilha.

sábado, 12 de outubro de 2013

Lobbies e doping na genitália alheia

O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.

Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos: 

a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.

b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.

(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Moldando o entusiasmo

Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marias como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor, servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias, mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.

Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos títulos de Marias, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marias é votada em Portugal concede-lhe aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento de união, irmana.

Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência de Mexia a Marias ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marias por Mexia seria recebida, adequadamente, com um entusiasmo de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.

Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marias, Pedro, o meu entusiasmo celebre plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas de jogador de futebol.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

José Rodrigues dos Santos ou Educação para a modéstia

Educado para a modéstia (a soberba descobri-a por mim mesmo mais tarde, junto com a ironia), fascina-me a forma despudorada como José Rodrigues dos Santos fala dos seus próprios livros. No meu quadro educacional, e se descontarmos as conversas de balneário, a hipérbole reservava-se para os feitos dos outros, se tínhamos a generosidade de os admirar; os nossos tratávamo-los com reserva, rubor e olhos baixos. Por isso, quando leio entrevistas do autor de A Mão do Diabo — presumindo sempre que são registadas fora dos locais onde tradicionalmente os rapazes cotejam as suas galgas —, uma parte antiquada de mim pensa que ele está a falar de livros escritos por outros. Depois lembro-me de certas teorias da conspiração, que metem cálculos de tempo e ghost writers, e por instantes dou-lhes crédito: se calhar está. E assim se compreenderia a enfatuação.

Mas se considerarmos que o entusiasmo de Rodrigues do Santos não resulta de ele se distrair e involuntariamente revelar o seu apreço pelo trabalho dos colaboradores (o que até seria bonito); se considerarmos que ele escreve os seus próprios livros, todos eles, temos então de perceber se a sua arrogância tem a legitimidade da de um Mourinho, por exemplo.
No caso do futebol, estamos dispostos a engolir a bazófia de Mourinho se depois ele ganhar os jogos e conquistar os títulos. Podemos achá-lo um parvalhão emproado, mas é um parvalhão emproado que no fim leva a taça e milhões de euros.
Deste ponto de vista, e embora custe equiparar a literatura a um campeonato de gajos depilados em calças curtas, Rodrigues do Santos está também autorizado a ser um parvalhão emproado — afinal, a sua equipa ganha fortunas e tem já uma série de internacionalizações. E se não conquista as taças literárias é porque elas, anacronicamente, ainda são atribuídas por críticos e júris, não pelo terceiro anel da Luz. (Eis algo que urge alterar.)
Claro que se pode dizer que José não tem um jogo bonito, o seu futebol é tosco, ganha muitos jogos recorrendo à mão de Deus, para baixo todos os santos ajudam, etc., mas no fim do mês lá está ele nos tops e as suas filas para autógrafos, di-lo ele mesmo, dobram esquinas.

Os historiadores do futebol podem argumentar que houve noutras épocas treinadores melhores do que Mourinho e talvez a contabilidade de títulos ainda nem lhe seja inequivocamente favorável, não sei, mas isso importa pouco aos adeptos actuais se ele continuar a vencer. O mesmo se passa com os rodriguinhos de dos Santos: críticos e historiadores (como Rui Bebiano, neste post) podem defender, com razões de sobra, que a entrevista do escritor ao I no sábado foi um «vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil», mas a sua massa associativa (e mesmo hooligans de outros ramos) continuará a dedicar-lhe olas e cânticos épicos.

Para além disso, na mesma entrevista de sábado e antes que a História se pusesse com coisas, Rodrigues dos Santos tratou de a arrumar num só parágrafo. Falando de Equador como espécie de profeta que anunciou os seus livros messiânicos, o jornalista disse: «Demonstrou várias coisas. Que os portugueses tinham disposição para ler um autor português, o que até aí era como o cinema português, de que se fugia. (…) Porque não entendiam, o que era escrito, é a terrível verdade. Os nossos autores eram ilegíveis.»
Diria que nem Mourinho seria farofeiro o suficiente para defender que antes dele não havia futebol, mas talvez Rodrigues dos Santos tenha evocado na sua mente o panteão das letras portuguesas e concluído melancolicamente que não tinha de facto razões para humildade.

Espantou-me, por isso, que noutra passagem da entrevista ele concedesse, acerca de diferentes atitudes literárias, que «umas são tão válidas como as outras». Havia, afinal, uma reserva de modéstia no bravo best-seller. Ou então ocorreu-lhe que também ele poderia um dia querer levar «duas páginas a descrever um armário», como o sádico James Joyce em Ulysses, e mais valia sancionar preventivamente o recurso. Just for the record.

Ou será que temia incomodar uma importante facção dos seus leitores censurando o «exercício de masoquismo» que disse ser ler o calhamaço de Joyce?

Além disso, depois de Dan Brown, o seu catavento literário pode muito bem estar a sintonizar-se nas cinquenta sombras sadomasoquistas de E. L. James. Rodrigues dos Santos tendo prazer a infligir sofrimento literário? Não é impossível.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

3* - O fim do romance

No que se refere ao romance em geral, há ainda quem vá mais longe e vaticine a sua morte. Para já, que eu saiba, apenas um ou outro escritor geronte (Roth), um ou outro guru das novas tendências ou tecnologias. No primeiro caso é talvez uma questão de ego ou de mágoa: comigo morre o mundo ou o mundo que me sobrevive nada terá que valha. No segundo caso é só uma questão de patetice, infelizmente com o flanco coberto pelos media mais populares. Mas, de novo, há que ter em conta a indústria e a televisão. O fim do romance pode tornar-se uma militância, rapidamente apoiada pela matilha popular. Do mesmo modo que o fim da poesia foi há poucos anos decretado por alguém com meios para o ajudar a tornar-se realidade (um responsável da Porto Editora), a literatura que não inclua vampiros, bruxos ou látex pode ver-se reduzida a samizdat de 300 exemplares enquanto o Diabo (de Rodrigues dos Santos) esfrega um olho.
No mundo literário, importa não ignorar as diferenças — mas talvez convenha relativizá-las.

* Considerando que os posts anteriores foram os números 1 e 2 da série.

2* - Inimigos da literatura

Não é incomum as pessoas medirem o mundo pela sua própria bitola, também se se trata do mundo o literário. Quando os escritores se arregimentam numa escola, fazem-no quase sempre como se houvesse uma guerra e eles estivessem numa trincheira. Fora do buraco que cavaram para si próprios, tudo deve ser aniquilado, nada merece existência. Na versão benévola, tudo fora da trincheira é medíocre ou inútil.
É bom que a espaços haja destes belicismos. Do confronto é que surgem as coisas boas e novas. Almada estava provavelmente a exagerar no Manifesto Anti-Dantas, mas foi bom que o escrevesse.
Mas passados os ardores da juventude e vencido o complexo de Édipo, é um pouco estúpido permanecer entrincheirado.  A diversidade não deveria ser um termo restrito à ecologia.

Para além disso, os tempos não estão para guerras do alecrim e da manjerona. Se no início do século XX toda a batalha se travava entre artistas e escritores de diferentes facções ou gerações era porque eles tinham basicamente o monopólio das artes; no início deste século há que considerar as massas, a indústria e as TVs. Se se distraem muito, não tarda as lutas fratricidas serão travadas na clandestinidade ou num reduzido, irrelevante, inútil anonimato. Talvez o inimigo da literatura não seja o tipo que gosta de coisas diferentes de nós. Esse ao menos ainda gosta de literatura.


* Considerando que o post anterior foi o número da série.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O romance convencional (Liberdade x A Piada Infinita)

Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à categoria recorrente de o (novo) grande romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido fosse Correcções. Ou antes: competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado fosse este último. Contudo, Liberdade continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.

Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional” parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos, por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase sempre evitado "eu" — um "eu" que não é o ego tout court, é um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição. Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional tem tido os seus momentos de aggiornamento, de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assumpção do «eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas, num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).

Tendo-me divertido mais com A Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões para desconsiderar Liberdade ou temer que o “romance convencional” já não sirva. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A perversão secreta de um inspector da ASAE

Não li e, por falta de tempo, não tenciono ler as sequelas d’Os Maias publicadas pelo Expresso (excepto a de Rentes de Carvalho, por interesse particular). Mas li com um sorrisito a crítica de sábado de Vasco Pulido Valente. O cronista do Público até pode ter razão na análise e na substância da sua crítica à iniciativa estival do semanário de Balsemão, mas tem forçosamente de se lhe notar um ânimo de virgem ofendida: tocaram no seu Eça e na sua História de Portugal: aqui d’El Rei!
Desconfio, com suficientes motivos, que VPV escreveria catilinária semelhante mesmo que os livrinhos do Expresso fossem todos de inequívoco acerto e interesse.

De resto, quando VPV se mostra tão possessivo em relação a Eça de Queirós está a cometer o pecado da soberba. Ao contrário do que lhe dizem e ele na sua ilusão acredita, Valente não é Eça reincarnado. Desde logo porque não há uma linhagem tibetana do escritor do monóculo que permita reivindicações do género guru alfacinha. Mas sobretudo porque, ainda que VPV tenha um bom domínio da língua e da verrina, falta-lhe humor.
Eça não era talvez menos corrosivo e maldoso do que VPV, mas era mais alegre. Quando embarcava numa prosa demolidora fazia-o com o espírito jovial de quem sai de casa para se divertir. VPV derrama a sua verve como a agoniada criatura da série Alien (que derretia muito metal mas não parecia nada divertida ao fazê-lo).
A verdade é que onde Eça usava a ironia VPV usa o sarcasmo, ou, como reza o dicionário, a ironia acerba, amarga, azeda. Quando lemos Eça de Queirós damos por nós a olhar em volta à procura de quem soltou as gargalhadas que ouvimos (é o nosso momento, breve, de acreditarmos em encarnações), mas depois percebemos que elas emanam do próprio texto, são manifestações do autor, metempsicose entre um espírito oitocentista e o chumbo da mesa de composição na tipografia. Já a última página do Público ao fim-de-semana induz outra mística: lemo-la com o embaraço de quem dá por si a espreitar pela janela a perversão secreta de um feroz inspector da ASAE.

Eça não deixava que a necessidade de arrasar perturbasse a ocasião de rir — VPV age com a incumbência e o humor de um mangas-de-alpaca da corrosão. Eça ria-se como um diabrete — Vasco, se é que ri, ri como um velho diabo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

15 de Agosto do ano em que Portugal saiu da recessão (ou notas sobre A Piada Infinita)

Depois de por três vezes tergiversar (aqui, aqui e aqui) sobre A Piada Infinita, de David Foster Wallace, esperar-se-ia que agora dissesse alguma coisa sobre o livro. Bem, eu esperaria.

Lido no Verão e em férias, os problemas de pulsos e as ameaças à cana do nariz são bastante minimizados. Logo, estamos disponíveis para voltarmos aos prazeres infinitos (lá está) da adolescência. A Piada Infinita (API) tem um pouco de Júlio Verne e um pouco de Tarantino. O espírito do primeiro não está tanto na obra em si, mas na mesma sensação algo transgressora de termos, paradoxalmente, legais, autorizadas e estimuladas tardes intermináveis de ócio ao nosso dispor. Um livro como este ressuma o seu próprio respeito, tanto pelo volume como pela fama: quem se dedica a uma obra assim tem de ser admirado e deixado em paz no seu labor solitário e na sua dedicação metafísica. E a gente ri puberemente cá por dentro como se nos estivessem a dizer que Jules Verne é bom para o nosso desenvolvimento e sempre é melhor do que andar a jogar à bola com a canalhada vadia1.
Na verdade, embora tratados com reverência2 por transportarmos um volume destes, e este volume em particular, cá por dentro estamos a rebentar de prazer pueril, porque API é um livro para nerds, a sua inteligência, o seu carácter cerebral, intelectual, a sua complexidade enciclopédica estão orientados para o mesmo tipo de emoções que sente um adulto que recusa amadurecer e ainda alimenta a esperança de ser raptado por alienígenas. Ouçam, não lemos este tratado sobre a América e sobre a sociedade contemporânea com severidade filosófica ou académica, mas a rebentar de gozo e com a ironia traquinas de diabretes num panteão luciferino. Se um livro costuma fornecer a suave luz coada com que observamos o mundo vil dos humanos, um livro desta espessura (agora falo metaforicamente) é o filtro por excelência.
Acresce que lemos partes de API como a mesma incredulidade divertida e sentindo o mesmo desafio infantil com que abordámos As 20.000 Léguas Submarinas: o tio Júlio não ia parar nunca de nomear e descrever espécies oceânicas? Peixes? Quantas mais páginas ia ele continuar naquilo e quantas resistiríamos nós sem passar à frente? Para compreender a analogia, troque-se aqui a fauna atlântica por um catálogo de indústria farmacêutica legal e ilegal mas mantenha-se a mesma aderência assassina e apaixonada do leitor a uma obra literária.
E depois Tarantino, outro indivíduo adulto apenas no BI. A Piada Infinita é um compêndio de malformações (de corpo e carácter) resultantes do abuso de substâncias legais e ilegais e do abuso que é tentar viver nos dias que correm3. Tal como Tarantino, DFW diverte-se a fazer desfilar personagens de um circo de horrores, diverte-se a compor uma montra de freaks, e diverte-se a arranjar deixas e cenas e histórias para eles com o mesmo entusiasmo que o Quentin põe nos seus filmes marados. Talvez a grande diferença seja que Tarantino se descontrola e fica fascinado4 a ver o sangue a correr e Wallace talvez nos forneça a composição química desse sangue5.

NOTAS:
1 Bem, hoje a maioria dos pais não pensa assim, eles mesmos malformados e desejosos de ter uma caixa registadora CR7 em casa.
2 Não somos olhados com reverência, isto é uma liberdade literária; poética, mesmo. Somos é olhados com um certo nojo, com a condescendência que a aldeia dedica ao tolo (quando se permite dedicar-lhe tal coisa), com a jocosidade que a comunidade atira a um casal gay que passa de mão dada pela rua.
3 O mundo não mudou assim tanto de 1996 para hoje.
4 Deixando a câmara ligada.
5 Não necessariamente na secção reservada às notasi.
i A importância das notas em API não é reflectida por esta observação tautológica e pretensamente engraçadinha; o mesmo não se pode dizer sobre o quão é ridícula a nossa resistência ao ímpeto copycat depois de ler a obra, aqui total e vergonhosamente exposta.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Este livro não é para si, não compre

«Mansfield Park é seguramente a obra mais controversa e menos amada pelos apreciadores da escrita de Jane Austen. (…) Por estas e outras razões, Mansfield Park (…) é um romance complexo e de alguma forma estranho para os leitores assíduos de Jane Austen.»

As frases anteriores abrem e fecham, respectivamente, a sinopse da edição de Mansfield Park pela Book.it. Quando a editora do grupo Sonae decidiu publicar o livro, fê-lo naturalmente achando que «Jane Austen permanece até hoje como uma das mais lidas e amadas romancistas de língua inglesa de sempre», como afirma na badana. Mas na hora de escolher uma sinopse para a contracapa, uma de duas coisas aconteceu:
i) o editor foi a net e traduziu sem ler ou perceber o primeiro trecho que encontrou a falar sobre o livro;
ii) o editor estava chateado com a ideias de Belmiro de Azevedo quanto ao que é um ordenado e resolveu, por vingança, espantar os leitores previsíveis do romance. É bom ver um indignado em acção onde menos se espera.

Claro que o textito pode atrair um outro tipo de clientela. Gente que não aprecia Jane Austen. Ou gente que, distraída, se entusiasme com a possibilidade de aquele ser um romance complexo. Mas desconfio que, para os padrões de Belmiro, estas vendas não chegarão para eleger o editor como funcionário do mês na Sonae.

Também não é seguro que a exportação seja uma saída. Afirmar na ficha técnica que «Este livro foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico» dificilmente convencerá o público brasileiro de que Jane Austen é um potencial novo Prémio Portugal Telecom.

Talvez por isso os meus amigos o tenham comprado por um euro.