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terça-feira, 20 de agosto de 2019

A seita

O universo da Chiado Books é como o de uma seita particularmente impudica em que todos pagam o dízimo para serem patetas felizes. O fundador da seita, ele próprio um génio ressentido que abandonou a religião ortodoxa por frustração (parece que no princípio dos tempos foi ignorado por trinta editoras), promete aos neófitos uma entrada no mundo dos autores contra a entrega de uma certa quantia. Como sói acontecer, a busca da felicidade por via de pagamento enriquece sobretudo o guru, que tipicamente se faz passear de Ferrari e, dêmos asas à imaginação, malas cheias de notas.

Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.

Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.

Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?

Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.

Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Europa no divã



Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.

Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie

Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.

É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.

Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.

O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.

Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).

Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.

A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.

Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.

O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.

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Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck — Relógio d’Água, 2018
A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Romance ou o significado das palavras

Durante muitos anos, a palavra «romance» pareceu-me inadequada para definir o género de livros que define. Isto porque, no meu mundo cultural, romance começou por significar apenas «relação amorosa», e na fase inicial de leitor interessava-me tudo menos ler histórias de amor, que imaginava sempre melosas, fúteis e cheias de clichés como as das fotonovelas. Talvez tivesse nisto um papel a imposição cultural que tradicionalmente ditava uma dupla separação por géneros: as fotonovelas e as histórias de amor eram para raparigas; os rapazes, se liam, liam histórias de cowboys e de aventuras.

Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.

E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.

Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Livros e séries televisivas

A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.

Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.

Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.

Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).

Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Eppur si muove: alguns polípticos

Apesar das negras profecias em auto-realização mencionadas no post anterior, continua a haver, por entre toda a futilidade impressa, um número muito simpático de edições que nos salvam os dias.
Ainda há pouco tempo era fácil encontrar, por exemplo, numa mesma livraria, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, na nova tradução de Pedro Tamen, e os cinco* de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, a quem chamaram o Proust escandinavo ou o Proust do século XXI.
Alguns dos profetas do fim da literatura virão naturalmente defender que é já uma infâmia mencionar aquelas duas obras numa mesma frase quanto mais falar de Proust a propósito do norueguês.
A questão sobre se é legítimo invocar o autor de Em Busca do Tempo Perdido a propósito dos livros de Knausgård é um pouco ociosa, tanto mais que, depois de Proust, todo o exercício retrospectivo em literatura se tornou de uma forma ou doutra proustiano. De resto, a legitimidade a debater em A Minha Luta é mais do domínio da ética social do que da literatura. O valor literário de Knausgård é evidente para quem o leia sem juízos prévios. Eu discutiria antes a necessidade, para mim escusada, de o seu políptico ter sido editado como puramente autobiográfico. Não pelo que o autor conta da sua vida, mas pelo que expõe da de alguns familiares ou conhecidos.
Em literatura é válida a suspeita de que todo o livro tem algo de autobiográfico. Mas a tecelagem que a ficção elabora com o material biográfico resulta numa coisa nova, que foca o interesse do leitor, em termos de narrativa, no construído e não no factual, na obra de arte como um universo próprio, singular, que não depende do nosso para ser, embora possa ter dependido dele para nascer.
Não impede isto que um livro de ficção seja em simultâneo um fresco de uma época ou de uma cultura, de uma geração ou de uma geografia. Não lemos a distopia 1984 sem pensar no estalinismo (ou nos próximos totalitarismos). Os volumes de Knausgård dispensavam o rótulo de autobiográficos-sem-filtros para serem boa literatura. Talvez vendessem menos numa primeira fase, sem a polémica (a que se somou a do título), mas não teriam menos interesse. E deixariam um leitor como eu menos constrangido.
De dois outros polípticos admiráveis que a literatura contemporânea produziu se pode igualmente dizer que são em maior ou menor grau autobiográficos, num caso com a ajuda do próprio autor, no outro apenas conjecturando isso, como quase sempre podemos fazer se não tivermos nada melhor em que ocupar a mente. Refiro-me à série sobre Patrick Melrose, de Edward St Aubyn, e à tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante.
Os livros de St Aubyn são apresentados como semi-autobiográficos e isso é suficiente para nos proteger de remorsos quanto a um voyeurismo descarado, porque é suficiente para proteger a privacidade das pessoas que se relacionaram com o autor: nada, a não ser as declarações de Edward, nos autoriza a escolher que partes são factuais e que partes são pura invenção. Na incerteza criada pelo prefixo semi acolhe-se a intimidade das pessoas que inspiraram as personagens.
No caso de Ferrante, li poucas referências a que se trate de material autobiográfico e, em todo o caso, tal é supérfluo, uma vez que a autora permanece oficialmente desconhecida. Por outro lado, as especulações mais acreditadas sobre a identidade de Ferrante referem-se a pessoas biograficamente diferentes das protagonistas da tetralogia.
Mas se falei em autobiografia a propósito de A Amiga Genial foi apenas para poder integrar a obra neste texto, porque não são o detalhe intimista e o forte carisma com que Lila e Lenù foram desenhadas que nos permitem declará-las pessoas vivas, embora nos permitam integrá-las na galeria de grandes personagens da literatura universal.
O que têm em comum estes três polípticos, oriundos de diferentes geografias e tradições, adoptando diferentes formas narrativas e estilísticas, é a qualidade literária. Nenhum deles dispensa a leitura de Proust, Waugh, Dickens ou Goethe, para citar genealogias possíveis, mas só no sentido em que é uma pena um leitor não ter uma visão alargada e retrospectiva do cânone literário, porque qualquer deles tem lugar nesse mesmo cânone por mérito próprio. 


* Em Portugal falta editar o sexto volume.

sábado, 27 de abril de 2019

Profetas do fim do livro

De entre os vários tipos de catastrofistas em relação ao futuro dos livros, é justo destacar três. O primeiro tipo é constituído por sujeitos que, ao atingirem uma determinada idade ou por terem coleccionado um certo número de lombadas, afirmam já terem lido tudo o que de bom a literatura poderia dar à humanidade. Alguns, com maior ou menor grau de franqueza consigo próprios, sugerem que, passe a imodéstia, até contribuíram para essa dádiva. Não há já nada que se possa escrever que ainda não tenha sido escrito, asseguram, não há já nada a descobrir na literatura. O que não confessam a si mesmos, a não ser talvez se expostos aos métodos de Guantánamo, é que lançam o anátema sobre o futuro dos livros por ressentimento, por receio de sombra, porque, compreensivelmente, o mundo já não lhes interessa, ou, suponho, para cumprirem, paternalistas, o que se espera de todos nós a partir de certa altura, desdenhando os novos textos como desdenhamos a música feita pelas novas gerações.
O segundo tipo de bandarras do fim dos livros são cidadãos ou cidadãs de extracção assaz comum mas que a televisão, a propósito de nada, arvorou em vedetas e que, consequentemente, inelutavelmente, tragicamente, escrevem e publicam. Estes em geral não anunciam o fim do livro em si mesmo, porque pretendem eles próprios cometer mais algumas edições, mas o fim da literatura, essa disciplina inútil. Valem-se da estatística e de uma versão muito particular de democracia: a maior parte das pessoas, dizem, já não tem disposição para ler livros como antigamente, chatíssimos e intrincados, indecifráveis, sem propósito; o que agora interessa são as biografias e as inconfidências dos assim chamados vips, o seu pensamento, na hipótese indemonstrada de terem um. Fazem por isso do mundo editorial um circo de horrores, com o diligente contributo de supermercados e grupos de livrarias.
Um terceiro tipo de pregadores do armagedom vem geralmente da área das novas tecnologias ou das novas tendências, seja lá isso o que for. São informáticos ou designers, publicitários ou ted talkers, gurus ou por vezes meros contadores de anedotas (vulgo, stand up comedians). O problema para os que se integram neste tipo não é propriamente o livro, que não lêem, mas a velhice dele, o seu carisma démodé, o seu arcaísmo. A verdade é que, mesmo quando transposto para suportes digitais, com hiperlinks e vídeos a pular a cada linha, um livro, se lido com certa atenção do início ao fim, implica uma postura profundamente anti-moderna: estática, concentrada, silenciosa, individualista, alheia ao ruminar da manada e aos fluxos sociais. A leitura de livros, se levada a sério, utiliza ferramentas pior do que analógicas, como a memória, a imaginação, a inteligência, a sensibilidade, implicando a vontade de compreender e de visualizar autonomamente o que é sugerido pelo autor, ignorando as fotos ou vídeos auxiliares, os templates interactivos e os grafismos apelativos, e, no acto, desinteressando-se profundamente, ou rechaçando mesmo, ó desfaçatez!, as intervenções do personal coach, e dispensando o riso geral do rebanho, até porque, ó reaccionarismo!, nem sempre os livros têm como resultado gargalhadas — e as modernas profissões de visionários abominam o que não é para riso, riso fácil.
O problema dos que estimam os livros e os acham indispensáveis é que espécimes destes três tipos de nostradamus em cuecas estão nos conselhos de administração dos grupos económicos e editorais, são os CEOs, os pivots e  os bibelots mais bem pagos das televisões, estão na política, legislam, discursam na assembleia, são enviados engravatadamente para o parlamento europeu, dirigem organismos públicos, constituem a coluna dorsal das juventudes partidárias que fazem o arco e a flecha da governação, estão nas direcções escolares e académicas e não raro nas bibliotecas públicas e no Ministério da Educação, propagam-se como uma arma biológica inoculada por um poder sinistro, como o vírus da mediocridade replicando-se a si mesmo.

O fim do livro — que será também o fim da civilização, se me permitem a minha própria profecia — é assim sobretudo uma forma colectivista de wishful thinking à qual foram dados todos os meios para realizar os seus próprios desejos travestidos de previsões. Como se órgãos vitais de um organismo conspirassem alegremente para o haraquiri do portador. E não, claro, por razões de honra, mas apenas por vilania ou infantilismo de carácter.

(Eppur si muove.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor

Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o texto offline, fica como as focas no parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.

Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a escrever.

As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns que de facto reflictam o mundo actual.

sábado, 16 de junho de 2018

[Work in progress]

«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»


quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pianista

Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:


«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais; agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na plataforma junto ao lago, estendido na chaise longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite, que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas. 
Digo que a sua indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras. Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado, permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas, e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da terra.
Num dos verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas. Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei, influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio. O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago como o protagonista de A Morte em Veneza, ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era suficiente, e exacto, para o definir.»

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Caderneta de cromos


[de um trabalho em curso]

«Suponho que toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que, assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar. Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção oculta, a big picture, o verdadeiro retrato ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los, colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês, seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o bouquet.
Acresce que também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes, escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto. Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta, um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra Talhada.»

sábado, 24 de março de 2018

a violenta e cruel natureza da sobrevivência


[de um trabalho em curso]

«Aos domingos, a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras, de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas, não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos, eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos, uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria fisicalidade.
E contudo esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela. Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da sobrevivência.»

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Ave-Rara

Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.

[work in progress]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O arcanjo Gabriel

Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

26 de Dezembro ou um post sem sentido

Há dez anos comprei uma biografia de Mao Tsé-tung (escrita por Jung Chang e Jon Halliday). Fazia parte do meu plano de conhecer melhor as grandes bestas do século XX. Li biografias de Hitler, Himmler e Estaline, mas por alguma razão a de Mao foi sendo adiada, ao ponto de ter passado anos a servir de plataforma elevatória do ecrã do computador, junto com um volume sobre castelos e uma escalfeta avariada. Há uns meses arranjei no IKEA uma solução melhor para assegurar a altitude ergonomicamente favorável do ecrã, mas nem assim me ocorreu começar a leitura, e o livro foi para a estante. O melhor que consegui fazer por ele foi pô-lo na posição de não lido.

Hoje, a meio de uma página do terço final de Os Loucos da Rua Mazur, aborrecido sem razão (não poderia culpar o romance), senti o súbito impulso de pegar na biografia e lancei-me a ela. Logo no início li que Mao Tsé-tung nasceu a 26 de Dezembro. Fiquei algum tempo a reflectir nesta coincidência, mas não concluí absolutamente nada.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Saiu a LER

Apesar das secções iniciais, onde Francisco José Viegas Pai e Bruno Vieira Amaral Filho se entretêm, por mera travessura, a assinar os textos um do outro (ninguém os distingue, de qualquer modo), gosto da LER. Hoje surpreendeu-me que houvesse gente que já tivesse lido artigos inteiros de um número que eu nem sonhava que estava para sair. E deitei-me a reflectir. É reconfortante que exista e sobreviva em Portugal uma revista com um marketing tão inexistente, com uma tal falta de publicidade.
A página de Facebook da LER tem uma foto de capa de Junho de 2016 e o último post é de 29 de Março deste ano. No blogue, a última entrada é igualmente de 29 de Março e a capa é a da edição do Inverno de 2016/2017 (a antepenúltima).
Não se confundam com o tom irónico: fico mesmo contente que a revista singre deste modo, alheia às «redes sociais» e, de resto, aos media em geral. A não ser que alguém ande a lavar dinheiro com literatura, isto significa que há no país um conjunto suficiente de amantes de livros que não precisa de ser bojardado com publicidade para manter o interesse, pagar e garantir a sobrevivência de uma publicação dedicada ao tema.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»

Li este título do Público e achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes, dificilmente chegarão para um único Inverno.

Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de uma iniciativa para a promoção da leitura.

Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e nem sequer toda a música.)

É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa, escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social ou anti-moderna que ler é.

O Público dá esta notícia pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas como a noticiada pelo Público. Mas não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência ou vocação pessoal — e apesar do país em que vivem.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Zona de Interesse


A Zona de Interesse, de Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal, onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade — e isso, que tem em si algo de Amis way, não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro. Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e morte, crimes e violações são décor. Não. Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre o enredo.)
Há o risco de leitores menos familiarizados com a História ficarem a achar que as atrocidades nazis não passam de ficção, cenário para romances e filmes, no máximo uns contratempos aborrecidos para personagens secundárias, contribuindo assim o livro para banalizar o Mal e relativizar os crimes nazis? Não. Primeiro porque Hollywood já se encarregou disso há muito tempo. Segundo porque leitores menos familiarizados com a História dificilmente lerão Martin Amis. Terceiro porque esses leitores, na eventualidade de lerem o livro, teriam de ser também insensíveis, incapazes de empatia e sobretudo pouco familiarizados com a inteligência (pelo menos pouco treinados nela). Há leitores assim, que devamos proteger do terrível Amis? Há. Chamam-se geralmente adolescentes (mesmo que alguns tenham passado a idade púbere) e são já várias as gerações deles que têm vindo a ser poupadas a conhecer a História. Há leitores assim, mas não os devemos proteger de Amis. Devemos protegê-los das televisões, dos Ministérios da Educação, da robotização neoliberal em curso — e dar-lhes muitos, muitos livros de História para ler. E depois dar-lhes também o livro de Amis para ler.