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quinta-feira, 4 de junho de 2020

A morte de um afro-americano

Uma forma sofisticada de racismo, que utiliza o álibi do combate ao «politicamente correcto», afirma que a designação «afro-americano» é segregacionista, porque divide uma população que é toda «americana». Pretende quem tal propõe que, ao auto-designarem-se de afro-americanos, os negros dos Estados Unidos cultivam a sua própria guetização.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um bocejo e um breve espevitar de orelhas

As notícias que revelam a saga familiar de dois gémeos separados à nascença — os meninos Relvas e Sócrates — foram recebidas com um longo bocejo. A previsibilidade do mundo não sói entusiasmar.

aquelas que anunciam a perda de mandato do menino Macário fizeram levantar uma ou outra orelhita. Ainda assim, nenhuma excitação que deva preocupar os cardiologistas: são notícias efémeras, que com o tempo do seu lado a Justiça se encarregará de tornar desactualizadas, desmentidas.

Ainda nada de novo na pátria da mesmice.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Justiça

A Justiça portuguesa mostrou ter algum respeito por si própria ao condenar o socialista Ricardo Rodrigues. Isto é especialmente importante quando sabemos que os partidos políticos não se dão ao respeito nem nos respeitam. Recorde-se que o mesmo sujeito que furtou dois gravadores a jornalistas integra, entre outros organismos igualmente sérios, a Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação…
Claro que ele interporá recurso e nalguma instância a Justiça encontrará forma de o ilibar, como é costume. Para alegria dos seus correligionários. E dos seus adversários, desconfio.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Da madrassa para o tribunal

Um homem agrediu a mulher com uma cadeira. Segundo o Tribunal da Relação de Évora, esta agressão não foi «suficientemente intensa» para ser qualificada como violência doméstica. Há um limite mínimo para aquilo que um homem deve fazer a uma mulher. Os islamitas sabem disso.

A notícia (que pode ser lida aqui) é rica em detalhes e citações acerca da perversidade ou da vilania da Relação de Évora. Claro que pode haver alguma descontextualização, a redução da pena pode ter sido deduzida por falta de provas, o jornalista (da Lusa, creio) pode ter “construído” um pouco a notícia, mas o que sobra é ainda assim assustador. Repare-se que um dos defeitos de que é acusada a sentença do tribunal de primeira instância (que deu como provado que as agressões vinham desde 2004) era não esclarecer «o número de ocasiões em que as agressões ocorreram, a quantidade de murros e pontapés em causa» ou não adicionar «qualquer elemento relativo à forma e intensidade como foram desferidos, ao local do corpo da ofendida atingido e suas consequências, em termos de lesões corporais». A recorrente preocupação com a intensidade das agressões é cativante. Não estamos perante um juiz da Relação, mas perante um voyeur sádico com critérios rigorosos.

Podia continuar a noite toda a expressar indignação, mas os leitores do Público já o fizeram na caixa de comentários da notícia, com louvável unanimidade, sem distinção de géneros. As caixas de comentários na maioria das vezes são repositórios de aleivosias e imbecilidades, mas neste caso aduziram interessantes reflexões sobre a sentença. Apreciei particularmente a sugestão de ser usada uma cadeira no juiz com crescente intensidade até ser feita jurisprudência sobre o grau em que a agressão passa a crime de violência doméstica.

C’os diabos, onde é que vão recrutar juízes destes? À tasca da esquina? Ao Iémen? A justiça lusa não precisa de simples reformas — precisa de uma primavera árabe.