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sábado, 16 de maio de 2020

Correr sem inalar

Nesta nova fase do desconfinamento, a turba por cuja liberdade a nossa direita proto-bolsonarista temeu já não desobedece apenas às regras de distanciamento social da DGS: ignora igualmente a mera e antiga cortesia de franquear a passagem a alguém. Tem isto como consequência, para quem não é por natureza partidário do abalroamento, ver-se um tipo obrigado a transformar a corrida de sábado numa gincana, uma prova de obstáculos ou um corta-mato, de acordo com as características do terreno e o tamanho da trupe que preenche à Lagardère o caminho. Este regresso ao anterior protocolo social luso tem a exigência de aumentar o esforço e a vantagem de ampliar o benefício cardio-vascular, ainda que por vezes irrite o maratonista e o obrigue a vocabulário menos contemporâneo, a desabafos camilianos.

Na primeira corrida pós quarentena estrita, há uma semana, chovia a cântaros e por isso os parques ribeirinhos estavam molhados mas desertos e o cidadão pôde espraiar-se convenientemente, repetindo percursos a bel-prazer e prologando a performance, digamos, atlética como há algum tempo não fazia. Hoje estava sol e as pessoas saíram em grupos, por vezes em manadas. A maioria não punha máscara ou qualquer distância entre elementos da comitiva e outros transeuntes, pelo que, se não se tratava de libertários do Michigan assumindo uma posição ideológica (não se viam armas), eram decerto coabitantes vivendo em mansões T10, em apartamentos com todas as divisões mobiladas a beliches tipo hostel ou partilhando cada meia dúzia uma cama. Ou então eram só portugueses comuns ignorando comme d’habitude as prescrições higiénicas do Estado socialista e opressor — e as premissas da gentileza.

Em certo troço do percurso, seguia um casal de caminhantes ocupando várias faixas e cumprindo o dress code que exige sapatilha colorida de marca, Lycra fluorescente ajustada às por vezes múltiplas curvas corporais e algum acessório de necessidade estética ou para transporte de gadgets. O casal exalava um perfume que na sua ignorância o maratonista considerou próprio para baile de gala mas possivelmente era prescrição aeróbica. Ignorava também, o maratonista, se era receita para mulher ou para homem e por isso, de faro susceptível, hesitou entre a ultrapassagem pela direita ou pela esquerda. O faro susceptível, que o ilibava de um dos sintomas da Covid-19, suscitou em todo o caso reflexões ociosas: era a coronavirulência uma doença airborne, como se diz em americano? E, sendo-o, o vírus viajava com as partículas agressivas de um perfume? Passavam numa ponte e ele estava a inalar alarve mas involuntariamente moléculas da fragrância, quem sabe se com vírus a cavalo. Estava na hora de considerar a necessidade de transpor a guarda da ponte e, mergulhando, escapar não tanto à infecção como a uma overdose de Chanel, Dior ou Calvin Klein.

domingo, 8 de março de 2020

Meta-embaraço

Na mesma sessão de jogging do post anterior, um casal caminhando à minha frente e dando-se as mãos de braços estendidos, como se preocupado apenas com a transmissão aérea do vírus, ocupa toda a largura do trilho e preparo-me para o ultrapassar usando a estreita faixa de erva entre o caminho e um atoleiro. A escassos metros, o elemento masculino do casal apercebe-se da minha chegada pelas suas costas e delicadamente tenciona deixar-me passagem pelo meio dos dois, largando a mão da amada e encostando-se à esquerda, para a faixa de erva que eu planeara usar. Quer porque a inércia da corrida e a má forma já não me permitem mudar radicalmente de rumo, quer porque gosto de passar pela vida discreto, sem perturbar ou partilhar o caminho dos outros, tudo o que consigo é não atropelar o tipo alargando um pouco mais o arco da ultrapassagem pela esquerda — o que me põe a chapinhar pesadamente no lamaçal durante todos os longos segundos que levo a deixá-los para trás. Sem me voltar, ouço o ohhh culpado e embaraçado do rapaz e embaraço-me eu também por ter os pés em equilíbrio precário e sujo na lama e por o ter deixado embaraçado a ele com a minha mania de contornar todas as multidões, mesmo que de dois. Embaraço-me ainda por lhe ter, provavelmente, salpicado as calças, que ele trazia tão estimadas e esticadas. Continuo, como faço sempre, olhando em frente, como se apenas tivesse olhos para a meta — mesmo não sabendo o que seja e a que distância se encontra.

Padecimento

Passo por ele a correr, mas a música que vai a ouvir está bem alta e percebem-se distintamente a voz e os requebros de Elvis Presley. Não tem idade para ter sido fã in illo tempore, mas parece suficientemente nostálgico para que o Rei tenha sido companhia marcante na sua juventude.
Quando regresso, encontro-o noutro sector da minha pista de jogging. Está agora sentado a uma mesa de piqueniques. Elvis canta uma daquelas que fazem chorar as pedras da calçada. Ele, de cotovelos no tampo, cabisbaixo, esfrega os olhos lacrimejantes; ouço-o fungar. Talvez a música o lembre de amores antigos. Ou então é apenas o Covid 19.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia

Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.

Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.

(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Blasfemando no fim do jogging

No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego) termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim, mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina, que a boa acção me garantia uns pontos no ranking celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.

Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado que ando delas. Saravá.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A carranca do vizinho

Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu. Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.

O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente que neste jogging arrastado em dia de alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Primeira Lei de Newton

O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras. Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume, ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo, garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira Lei de Newton.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")

Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô, que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita gente no shopping à espera de falar com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando ela vai lá.) Os pais se calhar ainda estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como acontece sempre que vão os dois ao shopping. Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

1. Correr à noite

Gosto de correr com a noite instalada. Bem, gosto de correr sempre, mas de uma forma particular quando, no Inverno, as trevas já desceram sobre a cidade. Uma parte do percurso que faço, no vale estreito do rio, não tem iluminação pública, e em noites sem nuvens e sem Lua é uma insensatez correr ali, no breu profundo. Insensatez que cometo repetidamente, sem hesitações, com uma alegria intransmissível. Por (raras) vezes encontro outras pessoas (quase vou de encontro a outras pessoas), e nessas ocasiões pigarreamos um aviso mútuo no derradeiro instante ou rimos uns para os outros da iminência de chocarmos, cúmplices anónimos, sombras sem rosto, felizes debaixo dos nossos capuzes ou dentro dos nossos gorros e da nossa insânia.
Nas noites nubladas, em particular naquelas de nuvens baixas, quase névoa, o percurso fica razoavelmente alumiado, efeito do reflexo da iluminação da cidade nas nuvens. E a noite é então ali um mundo levemente estranho, com uma luzência avermelhada, como um dia de eclipse solar, uma insónia no Árctico ou em Marte, assim surreal e acolhedor.
De todas as noites, a mais fascinante para a corrida nocturna é a de Consoada, na hora em que as pessoas se estão a instalar para a ceia e deixam as ruas desertas excepto nos largos onde ardem madeiros. Na Consoada, não se imagina que andemos na rua, que desçamos ao parque. A margem do rio é o último sítio onde somos esperados. Correr ali nessa hora é o mais próximo que se pode estar da solidão adâmica ou do isolamento pós-apocalíptico. Quem quereria isso, não é? Quem quereria experimentar uma ausência primitiva ou pós-civilizacional de seres humanos?
Na noite de Consoada, a vontade de correr lado a lado com o rio (e só com ele) digladia-se em mim com os sentimentos filiais e fraternais que a quadra me exige. E perde quase sempre — tenho isso a favor da minha humanidade. 

2. Correr na quarta dimensão

Sítios acolhedores para correr não são apenas o Éden e o the day after, esses lugares de ausência. Mantendo isto num registo de sci-fi, a quarta dimensão também se revela assaz recomendável. Ambos os mundos oferecem possibilidades excitantes. Calcorrear a solidão ou cruzar a urbe paralelo como um fantasma — capaz de ver, ouvir e cheirar mas invisível, silencioso e inodoro, um ectoplasma de Reebok, sweatshirt e curiosidade impertinente —, eis as duas faces da minha moeda. Na primeira, sou apenas eu e o mundo não-humano: o ímpeto ruidoso e instigador do rio nas represas e nos rápidos e o seu balsâmico murmúrio nas zonas de abrandamento, o canto livre de rouxinóis ou melros insones, salamandras em vagares de lesma, com sorte a minha garça-real a patinhar num baixio, como há três noites. Na outra face da moeda é todo o mundo — e eu ausente dele, interceptando-o apenas com o olhar e com o vício de efabular, coexistindo sem conviver.