Alguns
procuram nas memórias da infância e da adolescência — quando elas têm mais de
vinte e cinco anos — alívio ou uma forma de relativizar os problemas que aí
vêm. Suponho que os afortunados de antes são os
optimistas de agora. Também tenho a minha versão de infância feliz,
pobrete mas alegrete. Escrevi episódios de uma epopeia dessas na anterior vida do
Canhões. A espaços, conto-os de novo,
quando reparto pão e vinho (mais pão do que vinho, que a generosidade tem limites) nas agora raras
despreocupadas ceias de condiscípulos.
Depois
dos factos, somos (quase) sempre capazes de assobiar e ver o lado brilhante da
vida. Se por vezes relatamos tragédias é apenas para aumentar o contraste dos
momentos bons. Como quando saímos da tropa, fanfarrões, as agruras e a humilhação
a servirem para dar o tom heróico aos quinze meses de aquartelamento.
Nas nossas narrativas, o drama é, por inversão, o palhaço rico que apenas
existe para fazer brilhar o palhaço pobre — que, naturalmente, é o mais feliz
dos dois.
Acontece
o mesmo com a evocação do mundo rural. A singeleza, os bons sentimentos, a
solidariedade, o ar puro, a honestidade, a franqueza, os dias a decorrer ao
ritmo natural, a confiança, o amanhecer e o pôr-do-sol, o sol a pino e a três
quartos, e a chuva purificadora e a neve imaculada e o murmúrio do vento nas searas de trigo ou no veludo das parras em Agosto ou nas coloridas folhas
outonais. Nunca a lama e as frieiras e o uivo sinistro e cortante da nortada
nas frinchas das paredes e do tecto e os alguidares a apanharem as pingas e os
cobertores da cama inteiriçados pela geada (e os percevejos e os ratos) e os
pés enfiados em sacos de plástico para impermeabilizar as botas furadas e as
camisolas sempre curtas ou rotas ou insuficientes, os casacos largos, feios, constrangedores,
igualmente rotos ou sujos, ferrete da condição inferior; nunca a estreiteza de
horizontes, a rédea curta da ambição, a renúncia do sonho, o atrofio da
vocação. Ou tudo isto, sim, tudo isto quando precisamos de azul para o oiro da
retórica.
O
mundo rural, se invocado de memória, é o paraíso na terra — apenas um pouco condimentado,
para lhe requintar o sabor. Não se percebe como as pessoas, aqui como ao
redor do mundo, teimam em abandoná-lo. Mesmo os que assim idílico o recordam, ameaçando
poeticamente um regresso às origens que, na verdade, não querem corporizar, a não ser no bom tempo ou num monte
alentejano com piscina, num financiado turismo rural com piscina, no velho
solar recuperado, melhorado — e dotado de piscina.
Usando
um apelo muito em voga, o mundo rural e a maior parte das infâncias precisam de um Correio da Manhã para nos revelar
que o passado, como a índole lusitana, é menos bondoso do que gostamos de crer.
É apenas lindo na nossa memória facciosa e em admiráveis páginas de literatura.
Nas melhores destas, a beleza que experimentamos é intrínseca à obra, não ao que
ela ficciona. É por isso que quando queremos mesmo sentir o passado devemos talvez ler relatórios, estatísticas,
correspondência e diários de cidadãos comuns, inventários, registos — e não
sentarmo-nos melancolicamente a recordar ou a ler romances.