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sábado, 27 de abril de 2019

Profetas do fim do livro

De entre os vários tipos de catastrofistas em relação ao futuro dos livros, é justo destacar três. O primeiro tipo é constituído por sujeitos que, ao atingirem uma determinada idade ou por terem coleccionado um certo número de lombadas, afirmam já terem lido tudo o que de bom a literatura poderia dar à humanidade. Alguns, com maior ou menor grau de franqueza consigo próprios, sugerem que, passe a imodéstia, até contribuíram para essa dádiva. Não há já nada que se possa escrever que ainda não tenha sido escrito, asseguram, não há já nada a descobrir na literatura. O que não confessam a si mesmos, a não ser talvez se expostos aos métodos de Guantánamo, é que lançam o anátema sobre o futuro dos livros por ressentimento, por receio de sombra, porque, compreensivelmente, o mundo já não lhes interessa, ou, suponho, para cumprirem, paternalistas, o que se espera de todos nós a partir de certa altura, desdenhando os novos textos como desdenhamos a música feita pelas novas gerações.
O segundo tipo de bandarras do fim dos livros são cidadãos ou cidadãs de extracção assaz comum mas que a televisão, a propósito de nada, arvorou em vedetas e que, consequentemente, inelutavelmente, tragicamente, escrevem e publicam. Estes em geral não anunciam o fim do livro em si mesmo, porque pretendem eles próprios cometer mais algumas edições, mas o fim da literatura, essa disciplina inútil. Valem-se da estatística e de uma versão muito particular de democracia: a maior parte das pessoas, dizem, já não tem disposição para ler livros como antigamente, chatíssimos e intrincados, indecifráveis, sem propósito; o que agora interessa são as biografias e as inconfidências dos assim chamados vips, o seu pensamento, na hipótese indemonstrada de terem um. Fazem por isso do mundo editorial um circo de horrores, com o diligente contributo de supermercados e grupos de livrarias.
Um terceiro tipo de pregadores do armagedom vem geralmente da área das novas tecnologias ou das novas tendências, seja lá isso o que for. São informáticos ou designers, publicitários ou ted talkers, gurus ou por vezes meros contadores de anedotas (vulgo, stand up comedians). O problema para os que se integram neste tipo não é propriamente o livro, que não lêem, mas a velhice dele, o seu carisma démodé, o seu arcaísmo. A verdade é que, mesmo quando transposto para suportes digitais, com hiperlinks e vídeos a pular a cada linha, um livro, se lido com certa atenção do início ao fim, implica uma postura profundamente anti-moderna: estática, concentrada, silenciosa, individualista, alheia ao ruminar da manada e aos fluxos sociais. A leitura de livros, se levada a sério, utiliza ferramentas pior do que analógicas, como a memória, a imaginação, a inteligência, a sensibilidade, implicando a vontade de compreender e de visualizar autonomamente o que é sugerido pelo autor, ignorando as fotos ou vídeos auxiliares, os templates interactivos e os grafismos apelativos, e, no acto, desinteressando-se profundamente, ou rechaçando mesmo, ó desfaçatez!, as intervenções do personal coach, e dispensando o riso geral do rebanho, até porque, ó reaccionarismo!, nem sempre os livros têm como resultado gargalhadas — e as modernas profissões de visionários abominam o que não é para riso, riso fácil.
O problema dos que estimam os livros e os acham indispensáveis é que espécimes destes três tipos de nostradamus em cuecas estão nos conselhos de administração dos grupos económicos e editorais, são os CEOs, os pivots e  os bibelots mais bem pagos das televisões, estão na política, legislam, discursam na assembleia, são enviados engravatadamente para o parlamento europeu, dirigem organismos públicos, constituem a coluna dorsal das juventudes partidárias que fazem o arco e a flecha da governação, estão nas direcções escolares e académicas e não raro nas bibliotecas públicas e no Ministério da Educação, propagam-se como uma arma biológica inoculada por um poder sinistro, como o vírus da mediocridade replicando-se a si mesmo.

O fim do livro — que será também o fim da civilização, se me permitem a minha própria profecia — é assim sobretudo uma forma colectivista de wishful thinking à qual foram dados todos os meios para realizar os seus próprios desejos travestidos de previsões. Como se órgãos vitais de um organismo conspirassem alegremente para o haraquiri do portador. E não, claro, por razões de honra, mas apenas por vilania ou infantilismo de carácter.

(Eppur si muove.)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas

Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta. Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.  

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor

Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o texto offline, fica como as focas no parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.

Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a escrever.

As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns que de facto reflictam o mundo actual.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tílias

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável. Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente empatado Rússia x Bélgica.

Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato, se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.

Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.

Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas, com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.

O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar o perfume das tílias.

O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a cabeça e padecem de rinite opcional.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sanções e Sansões

Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008. Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas. Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu. Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis. Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão — terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca, os tecidos agarram-se à pele.  

Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o lajedo em cima. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A constante da equação


Entre uma foto e outra passaram dois anos. Na primeira, de 2012, o livro era A Informação, de Martin Amis. Na segunda, actual, o livro é Os Velhos Diabos, de Kingsley Amis.
Há duas ordens de leitura possíveis para estes livros — por data de edição ou por idade dos autores e dos protagonistas —, mas só uma é cronologicamente correcta.
Há também inúmeras formas de os ler, mas só uma nos salva deles. É que ambos são divertidos, mas a matéria de que fazem uso (a vida) não o é assim tanto, se levada a sério. Não caia na asneira de os ler na cama ou no sofá lá de casa. É necessário descer ao sol promissor do Alentejo e enfiarmo-nos em calções curtos numa piscina infantil, se quisermos sair verdadeiramente risonhos de ler os Amis.

Publicado originalmente em 1995, quando Martin tinha 46 anos, A Informação trata de gente na casa dos quarenta. Os Velhos Diabos saiu antes, em 1986, tinha Kingsley 64, e fala de sexagenários. Martin, que tem agora 65 anos, há-de andar desesperado para não escrever um romance demasiado parecido a Os Velhos Diabos. Ser-lhe-á difícil. Não porque esteja condenado a imitar o estilo do pai — mas porque a vida (a tal matéria literária) não muda, verdadeiramente. Da minha relativa juventude, prevejo que não difere muito ser-se sexagenário em 1986, 2014 ou 2034. Daqui a vinte anos eu próprio estarei a ter as minhas dificuldades para não publicar uma imitação de Os Velhos Diabos.

domingo, 6 de julho de 2014

É caro e ineficiente manter o interior: encerra-o e deita fora a chave

Vasco Pulido Valente costuma dizer que este Governo não é neoliberal, e de facto talvez Passos Coelho não tenha conseguido ir tão longe quanto a casta desejaria em algumas áreas. Mas em várias medidas já concretizadas e em muitas outras planeadas o menino-cantor, com a sua melena beta e ar de sacripanta, é merecidamente o orgulho dos thatcherianos meridionais e setentrionais. É, por exemplo, um empenhado darwinista social (sector privado contra função pública, professores contra professores, jovens contra velhos, tudo tem promovido) e só não encerrará definitivamente o interior se o interior, por vezes tão irritantemente tradicionalista e atávico, não recuperar por um dia velhos hábitos e não se munir de varapaus e chuços para o correr daqui para fora da sua zona de conforto.

A propósito disto: 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo

No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:

«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*

Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência, mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo inteligente».

Descontada a boutade pateta, há decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas. A Europa devia lembrar-se.  

* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.

Profissão de (pouca) fé

Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal da vizinhança, propriedade privada.
Mas se o jardim se transforma em horta, por força do “ajustamento”, o que passa a ser um cristo de braços abertos ali plantado? Uma confissão de impotência ou um aggiornamento? Talvez uma resignação: na impossibilidade de expulsar os vendilhões do templo, o filho de deus gosta de se saber útil a espantar os pardais do quintal. É isso ou o desemprego.

[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Mau augúrio

Não sou supersticioso nem iniciado em filosofias orientais como o Feng Shui, mas sempre que posso oriento as camas onde durmo para sul. O tempo cinzento afecta-me o humor, quebra-me o ânimo, e a sul há uma expectativa de sol, de bom tempo. Já aconteceu deitar-me com os pés para a cabeceira numa cama norteada apenas porque queria acordar bem-disposto. Saber-me de cara virada ao sol, ou orientado para latitudes onde a probabilidade de sol é maior, fornece-me a réstia de conforto que estar vivo exige. Por isso os quartos onde durmo, insensivelmente projectados sem orientação solar, têm por vezes aquele ar desacertado, de coisa fora do lugar (a cama).

Talvez esta fuga à mobilação prevista exerça a sua influência sobre as minhas ideias, a minha psicologia. Mas como disse, não sou supersticioso. Mesmo que tenha ficado preventivamente maldisposto quando me disseram que amanhã iria acordar com um dia de chuva. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gel, mães e filhos (2)

Como a mãe do post anterior, talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do bairro onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado. Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou — mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento se tenha usado gel. Ou por causa disso.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cansado da guerra

Furtei-me ao dever (as Metamorfoses de Ovídio) para ler o artigo sobre Brideshead Revisited numa LER emprestada. Soube que Evelyn Waugh pediu uma licença da guerra para escrever o romance. Eu já revisitei a minha Brideshead em dois livros— mas, ah!, de bom-grado metia uma licença para tentar de novo, falhar melhor.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A última dança

O vídeo da companhia Rubberbandance que inspirou o post anterior não é necessariamente o mais representativo. Sê-lo-iam mais estes espectáculos da companhia Peeping Tom: http://youtu.be/KlrXPVZG5Ho(“32 rue Vandenbranden”); http://youtu.be/NwACVrZIuVg (“Les Sous Sol”); ou este, da C de la B: http://youtu.be/pyQrK_Q2HOo (“Ashes”), vistos em Guimarães e no Porto. Por outro lado, várias companhias ou coreógrafos portugueses poderiam também elucidar o que disse no post. Neste campo, como de resto nos mais variados géneros musicais e no teatro, o país não padece de talento e profissionalismo como padece por exemplo na política e na gestão. A juntar-se a ex-elementos do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado, há uma nova geração de intérpretes (e coreógrafos) com formação sólida, experiência (tantas vezes internacional) e talento que infelizmente terá agora menos oportunidades de desenvolver o seu trabalho. O Portugal dos últimos anos — «europeu» no sentido civilizado, culto, sofisticado, cosmopolita, democrático e descentralizado que se costuma utilizar para falar da Europa central —, o país onde as pessoas podiam fruir o seu gosto pela dança contemporânea sem precisarem de se deslocar com demasiada frequência a Lisboa, muitas vezes sem precisarem sequer de sair da sua cidade ou da cidade de província que por algum acaso estavam a visitar, está a terminar. A troika, o governo e o statu quo encarregar-se-ão de devolver o país à condição de provinciano e de gosto único.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pedras Salgadas: futuro e memória


As ecohouses de Pedras Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas, inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se… ao arvoredo do parque.

As ecohouses precisam de um cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações 3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era bonito antes de as casas existirem. Na verdade, o sucesso das ecohouses das Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente protegidos.

Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses. Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso. Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as duas actividades são incompatíveis.

Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista, se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago Palace Hotel, ali ao lado.

No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um futuro digno da sua antiga glória, é proteger o património, como fez com as ecohouses (e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória. Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e eventualmente lucrativos.

Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo, revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra, ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as demolições.

O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um “turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora, estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir, como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los, dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.

Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso património e do nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma torneira em frente à entrada.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Caixa de Pandora

Há uma certa ironia no facto de a Quetzal, que publicou em 2010 o livro Mudar, o mein kampf de Passos Coelho, ser a mesma editora que lançou no final do ano passado Austeridade – A história de uma ideia perigosa. Se pudéssemos ver nisto um ciclo, a abertura e o fecho de um ciclo… 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carne para canhão

Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.
Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que tem de haver milhões de sacrificados.

Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos Coelho, como outros que o precederam, apenas cumpre ordens. 

sábado, 31 de agosto de 2013

«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»

Num episódio do Bartoon, a tira do Público, lê-se: «As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.

De resto, o Governo não imita menos o passado nem é mais isento no que se refere a alimentar o clã laranja. Nisto, como em quase tudo, Passos Coelho faz exactamente o oposto do que disse. E mesmo assim consegue enganar os ingénuos Lombas desta vida, rapazolas de fortes convicções ideológicas que não conseguem reconhecer um charlatão ou um freteiro a um palmo do nariz se ele lhes sussurrar ao ouvido passagens mansas da cartilha. Para estes nerds doutrinários — como, ironicamente, para as claques partidárias que eles desprezam —, um cacique não é um cacique se for o nosso cacique ou falar com certa assiduidade das coisas que achamos certas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Menos Estado (2)

Se a transacção para uma sociedade com menos Estado feita à maneira da troika é dolorosa em todo o lado, para muitas localidades do interior do país ela será fatal. Há concelhos inteiros que não sobreviverão sem função pública. Toda a sua economia está centrada nas instituições públicas e no emprego público. É isto saudável? Provavelmente não. Mas conviria que o Governo e os seus arautos se detivessem um minuto no assunto. Que assumissem publicamente que um brutal aceleramento da desertificação do interior é um dano colateral aceitável na demanda da sociedade perfeita. Porque é isso que vai acontecer. Um cenário de western com ossadas a assomar do pó. Só que as ossadas não serão de búfalos, mas as dos velhos e de todos os que não terão como cumprir o êxodo rural ou a proverbial emigração lusa.

Menos Estado (1)

Já se percebeu que os defensores de menos Estado não têm capacidade para pensar em mais nada. São monomaníacos. Perigosos. Porque nas actuais circunstâncias menos Estado é apenas igual a mais desemprego e menos economia. Uma abordagem sensata da crise pela União Europeia e pelo FMI teria implicado uma estratégia de fortalecimento do sector privado como alavanca para o emagrecimento do Estado. Porém, como os inconsequentes actos de contrição do FMI provam, as instituições da troika não são constituídas por gente sensata, mas por ideologia em estado puro. O objectivo daquelas instituições não parece ser uma sociedade melhor — mas uma sociedade, adivinharam, com menos Estado. Para alcançar o objectivo não se constroem estratégias razoáveis e praticáveis — avança-se a eito e à bruta, por decreto ou ultimato.
Argumentarão que a troca das premissas não era condição para o fracasso. Que, pelo contrário, começar por emagrecer o Estado é que era condição para fortalecer o sector privado. Talvez uns anos antes pudesse ter sido assim. Talvez daqui a uns anos possa ser assim.
Neste período, emagrecer o Estado implicará emagrecer uma parte substancial da população.

Talvez em certos sistemas filosóficos ou ideológicos seja legítimo sacrificar uma parte da sociedade para que a outra sobreviva com menos Estado. Já se sabe: onde uns vêm distopias, outros vêem utopias. É tudo uma questão de perspectiva — e de ter ou não ter almoçado.