Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
Mostrar mensagens com a etiqueta Falhanços. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Falhanços. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 20 de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
«A vida militar»
«Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas
frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram
absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no
mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com
um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem
loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados.
Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam
de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se
eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me
mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar
seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do
ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada
os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os
cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do
seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser
perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura
do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem
bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado
onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à
hierarquia.
Nas
primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de
sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda
mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila
para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona,
incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o
equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de
suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao
contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que
éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de
os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas
ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que,
numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se
ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa,
tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para
conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada
a atmosfera já de si empestada da caserna.
O
pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de
Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e
mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do
Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a
perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era
de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na
parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os
gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do
alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho
ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com
a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se
pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica,
como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um
tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em
que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma
num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número
três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros,
quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral
verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt
de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta
e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente
penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os
cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no
desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço,
ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro
que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me
entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de
ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em
metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da
manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade
da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista
de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e
na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram
infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»
* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem
sofística do Exército.
P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html
sexta-feira, 27 de março de 2015
Benefícios do agendamento de posts
Uma das vantagens de ter escrito livros que permanecem inéditos é esta possibilidade de ir publicando excertos no defeso, alimentando com eles o
blogue, agendando posts como se o
escritor ainda estivesse vivo (quem o garante?). Além disso, o leitor pode
encontrar certo prazer lúdico em coleccionar os excertos e tentar uma
reconstrução da obra, a ver se lhe encontra sentido. Etiquetas como Aranda ou Hotel do Norte, havendo paciência, podem encher-se de um número
suficiente de excertos para que, montando-os laboriosamente como bobinas de
película, o leitor logre ufano a sua reader’s
cut.
Claro, há também a possibilidade de, no termo da montagem ou cansado de
tentativas, o leitor descobrir que a obra não tem afinal, digamos, ponta por
onde se lhe pegue. Mas nessa altura não é certo que o autor ainda esteja aí para sofrer o
choque.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Existencialismo automóvel
Estou a envelhecer. Antes acordava a meio da noite a questionar-me se chegara a estacionar o carro ou se simplesmente o parara no meio da rua e subira assobiando as escadas de casa. Hoje espreito frequentes noites da varanda se o carro ficou estacionado numa perpendicular perfeita ao lancil e com distâncias cívicas aos automóveis dos vizinhos.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Mademoiselle Marcelle La Pompe, aliás, Renée Dunan
A realidade pode ser ainda mais truculenta e divertida do que já
achávamos. Alertam-me que o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle La Pompe», que me serviu há dias para prosa a armar, é na
verdade obra de Renée Dunan, escritora, crítica, poeta, anarquista, dadaísta e
feminista francesa que provavelmente emparelhou com alguma da clientela
surrealista do café La Fleur en Papier Doré. Marcelle La Pompe era apenas um
dos seus vários pseudónimos.
(Devia saber que os meus dois vagos anos lectivos de francês não me
autorizavam hermenêutica deste calibre.)
Alguns links úteis:
http://lenaweb.voila.net/Dunan/Reneee_Dunan01.jpgsegunda-feira, 15 de dezembro de 2014
E-musas
Uma vez escrevi em directo no blogue, durante semanas, um conto longo que
em boa parte se inspirava na persona de PJ Harvey de alguns vídeos e tinha como
banda sonora obsessiva um outro vídeo com uma música igualmente obsessiva de
Radiohead — “Street Spirit (Fade Out)”. Lembrei-me disto enquanto imaginava a
vida de escritor na Antiguidade Clássica: uma actividade dura, sem o YouTube e sem
essa invenção fundamental que é o loop.
A estatuária grega, falando de musas, tinha a vantagem (também táctil) dos
volumes, uma tridimensionalidade que o YouTube ainda não tem, mas faltava-lhe o
movimento, e seria necessária uma sucessão de estátuas para cobrir toda a
expressividade do rosto de PJ: a inocência e a perversidade, a candura e a dureza,
a melancolia e a violência. Retratá-la seria trabalho para toda uma guilda
medieval. Já manter uma trupe dias a fio a tocar a mesma música sairia caro em
broa e vinho, algo que a electrónica nos poupa.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A necessidade de flanar
Algumas ruas aqui em volta fazem-me por estes dias lembrar Roma, a
caminho do Trastevere. Nada nas ruas sem Tibre nem classicismo desta cidade se
parece a Roma, excepto as coloridas folhas de plátano coladas ao chão pela
chuva. Mas é de Roma que me lembro ao contemplar o que o Outono fez às folhas. O
que me teria sucedido de interessante ali, se descontarmos estar desobrigado de
horários e compromissos?
O caminhar à noite pela margem esquerda do rio, indagando abstraidamente
a corrente rápida e acastanhada, o cruzar a Ponte Fabricio com vaga e preguiçosa
curiosidade estética e histórica não estavam balizados por nenhum prazo ou
ânsia, não tinham nenhum objectivo que não fosse descobrir algures, sem
urgência, uma taberna simpática com preços módicos. E percebo que é isso o que de importante me aconteceu em
Roma. Isso, essa suspensão do tempo, do trabalho, da existência social mesmo
que misantropa, esse interlúdio da vida quotidiana que deambular por uma cidade
estrangeira pode significar.
Há um prazer, uma leveza, um sentimento de eternidade quando se vagueia
por uma cidade sem pressa nem destino nem desejos nem gente conhecida. Não é talvez
de Roma que me lembro, mas de flanar
por uma cidade atapetada de folhas no fim do Outono. Não é de Roma que tenho
saudades (que patético seria reclamar-me saudoso de uma capital de fim-de-semana),
mas daquela versão de mim que não tinha agenda.
Descubro que sou, por aspiração (e julgo que natureza íntima), uma
espécie de flâneur. Um flâneur rústico, pelo menos provinciano,
mas um flâneur. Fui-o quando saía de
fim-de-semana da tropa e tinha de queimar horas entre estações de Lisboa ou do
Porto. Fui, então, um flâneur do Cais
do Sodré a Santa Apolónia, de S. Bento a Campanhã, fazendo grandes desvios pré-baudelerianos
(no sentido de inconscientes de si), preferindo calcorrear horas a fio as
cidades do que passar o tempo de espera em bancos frios e sujos de apeadeiro ou
em cafés para cuja cerveja não tinha dinheiro. Fui um flâneur à maneira torguiana (figura que, contudo, me não desperta interesse),
pisando em todas as oportunidades o saibro dos caminhos e escalando as rochas
dos montes. Fui, a espaços, com certa pretensão walterbenjaminiana, digamos, um
flâneur à medida das pequenas terras
onde vivi ou procurando erguer-me ao tamanho de algumas das que visitava.
Mas só hoje, ao regressar a casa e aos deveres, ao olhar com nostalgia este
tapete de folhas nesta terra que não é Roma, percebo mais intensamente que a
felicidade talvez seja não aceitar na vida mais do que solas de sapatos e
bilhetes low cost.
Algo que na verdade já devia ter intuído quando em Bruxelas me pus, não
sem embaraço, — como aqueles fãs que vão a Paris visitar o túmulo de Jim
Morrison — à procura dos sítios por onde andou o narrador flanante de Cidade Aberta, de Teju Cole. Não era uma
emulação ou uma excentricidade constrangedora das que por vezes me assolam —
era uma acusação e um apelo dirigidos a mim mesmo.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
13/9 ou a arte de procrastinar resolvendo sudokus
Gostaria de poder dizer que sou um daqueles procrastinadores que o
filósofo John Perry considerou “produtivos”, aqueles que enquanto adiam
indefinidamente uma tarefa realizam muitas outras igualmente importantes. Não
sou. A não ser que se considere importante resolver sucessivas colectâneas de
Sudoku Master.
A minha pilha de livros para ler só não aumentou porque desde que há
crise quase não tenho comprado livros. Em contrapartida, a minha pilha de
livros por escrever aumentou consideravelmente. Não porque ande a coleccionar apontamentos
de ideias para romances ou ensaios (o sudoku não me deixa tempo para isso), é
só a idade a acumular-se sem que daí resulte obra.
Para bem da minha sobrevivência física, sou tecnicamente incapaz de
procrastinar no emprego (qualquer coisa genética, herdei do meu pai isso e a rabugice).
É só ao chegar a casa que adopto o hedonismo pessoano de ter um livro para ler
(ou escrever) e procrastinar. A coisa está tão grave que já não compro o Público ao fim-de-semana, como antes, por
causa do Ípsilon, da Fugas ou da 2, mas porque é nesses dias que saem os sudokus de maior grau de
dificuldade (que naturalmente me farão perder mais tempo).
Nem me posso defender dizendo que a ginástica dos números me foi
prescrita pelo meu intelectual trainer:
passar a noite naquilo não me põe mais ágil na tabuada (continuo bastante dependente
da calculadora) e definitivamente não acordo com a mente mais preparada para as
obrigações do dia. Procrastinar por interpostos sudokus é antes um vício tão
alienante como a coca. O hábito poderia ter-me sido prescrito, isso sim, pelo
meu psicanalista, com o intuito de me fazer limpar a mente depois de dias
intensos de trabalho (como faz o resto dos portugueses, submetendo-se ao brainwashing da TV). Ou melhor: a
sudokumania é coisa que recomendariam no Conde Ferreira ou no Magalhães Lemos:
terapia ocupacional para distrair os malucos de fazerem maluquices. Sim, que disparates
não teria eu escrito se não tivesse passado o Verão a preencher números em linhas
e colunas?
Quando terminei de escrever Os
Idiotas (que, a propósito, fez sexta-feira um ano e é a única razão para
ter escrito este post), senti que
tinha finalmente atingido a maturidade, estava pronto para ser o Wallace
português (ou o Franzen, pronto*). Mas senti também que a probabilidade de
falhar nisso era muito, muito grande. O sudoku, temo bem, é apenas um dos meus álibis
para não arriscar falhar.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Profissão de (pouca) fé
Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch
na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal
da vizinhança, propriedade privada.
[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]
sábado, 13 de julho de 2013
Remexer no lixo
[Outros parágrafos de um falhanço dos idos de Março. Os primeiros estão aqui.]
«Decerto
alguns de vocês pensaram que é preciso um tipo descer muito na vida para se
passear pelas ruas nu e com a barba por fazer, os ossos mal seguros por umas
pelicas de frango depenado. Outros, pelo contrário, ficaram encantados com a
publicidade que eu tive, aquilo era uma coisa que vocês podiam fazer. Afinal, toda a gente anda a tentar dar nas
vistas, a desenvolver uma nova metafísica da existência: apareço, logo existo.
Mas não escondo que tinha descido na vida. Tinha descido às profundezas do
Inferno e não foi porque me enganasse no caminho quando tentava vernianamente descobrir
o centro da Terra — não tenho a sorte nem o espírito aventureiro, ou a astúcia,
de um Pedro Álvares Cabral. Se fui parar ao Inferno foi porque meti no GPS
essas exactas coordenadas e obedeci com satisfação a cada directiva dada pela
menina concupiscente do TomTom.
Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me entre o divertido e o entediado, mas frequentemente
estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às
seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos
lavatórios dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela
altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava
invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu
não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde apetecia assentar a
mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem
contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me um calduço.
Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana
mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba,
porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia
levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos
metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu
próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido
pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura. Depois de
finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos
naquela sua cabeça e naquele seu mundinho onde só havia lugar para a obsessão
com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Depois de sermos
admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente
o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber
o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa
interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que
era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como
pneus novos de chaimite parafinados). Ao contrário da maioria das lojas, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora
os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as
peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava:
as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor
militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas
semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos
os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas
para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera empestada da
caserna.
(...)
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora disso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de
trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se
fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca
se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica (como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3). Enfim, um rol de limitações e exigências que poderia baralhar
um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes
em que apareci na parada, com o atraso do costume, embrulhado em branco-noiva quando todos estavam de verde-oliva ou vestido para ir às putas
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana.»
Subscrever:
Mensagens (Atom)
