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terça-feira, 20 de agosto de 2019

A seita

O universo da Chiado Books é como o de uma seita particularmente impudica em que todos pagam o dízimo para serem patetas felizes. O fundador da seita, ele próprio um génio ressentido que abandonou a religião ortodoxa por frustração (parece que no princípio dos tempos foi ignorado por trinta editoras), promete aos neófitos uma entrada no mundo dos autores contra a entrega de uma certa quantia. Como sói acontecer, a busca da felicidade por via de pagamento enriquece sobretudo o guru, que tipicamente se faz passear de Ferrari e, dêmos asas à imaginação, malas cheias de notas.

Mas, como nas suas equivalentes evangélicas, o crescimento da seita faz-se mais pelo voluntarismo de uma turba ignorante e privada de amor-próprio do que pela falta de escrúpulos e cinismo do guru. A “máquina de fazer livros”, como justamente é chamada, recebe em média 500 propostas de edição por mês (16 livros por dia) e, com a melhor desfaçatez marcelista, declara a cada autor em potência uma rigorosa «disponibilidade para analisar a sua publicação, cuidadosamente», e responder em dez dias. Sim, dez.

Claro que quem envia livros para a Chiado não procura um editor nem tem já dúvidas quanto ao elevado valor da sua obra, aborrecer-se-ia de ter como resposta uma apreciação literária ou qualquer outra frase que não aludisse às questões práticas da impressão. E por isso a Chiado não responde com considerações literárias — que de resto não lhe interessam, não é esse o seu ramo —, mas com o valor da factura.

Na verdade, este comércio de bijutaria impressa decorre no mais rigoroso respeito pelo zeitgeist. Não estão as televisões cheias de concursos de talentos que as pessoas e as instituições não se importam de vencer apenas com os votos de familiares e amigos, incentivando-os alegremente, se necessário, a viciar os resultados telefonando ou clicando mais de uma vez?

Antigamente alguém que incluísse no currículo uma publicação na Chiado Books ou casa de traquitanas afins seria rapidamente deserdado para preservar a honra da família. A comunidade olhá-lo-ia com desdém ou comiseração, concordando pesarosamente com a justeza do exílio. Hoje, os “autores” que a Chiado produz em massa como frangos em aviários industriais saem directamente da chocadeira para organizar solenes apresentações públicas em estabelecimentos respeitáveis e gravar vídeos para o Youtube que já ninguém vê como meras e patéticas exibições de presunçosa ignorância. Os jornais da comarca dão as mais calorosas boas-vindas ao novo escritor ou escritora que tanto honram a terra, a comunidade compra exemplares às dúzias para guardar num altar de família ou distribuir como flyers de supermercado, os amigos geograficamente distantes enchem o Facebook de aplausos, corações e partilhas — e, havendo uma réstia de pudor no mundo, ninguém lê a porcaria da obra.

Mas não se pode pedir a uma época que perdeu a vergonha e a dignidade que seja capaz de repor os níveis mínimos de auto-crítica. Caso contrário Pedro Chagas Freitas, o número um no top de facturação da Chiado, voltaria a encher as suas próprias gavetas. Para gáudio nosso e das traças.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Europa no divã



Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.

Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie

Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.

É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.

Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.

O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.

Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).

Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.

A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.

Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.

O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.

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Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck — Relógio d’Água, 2018
A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019

terça-feira, 30 de abril de 2019

Eppur si muove: alguns polípticos

Apesar das negras profecias em auto-realização mencionadas no post anterior, continua a haver, por entre toda a futilidade impressa, um número muito simpático de edições que nos salvam os dias.
Ainda há pouco tempo era fácil encontrar, por exemplo, numa mesma livraria, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, na nova tradução de Pedro Tamen, e os cinco* de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, a quem chamaram o Proust escandinavo ou o Proust do século XXI.
Alguns dos profetas do fim da literatura virão naturalmente defender que é já uma infâmia mencionar aquelas duas obras numa mesma frase quanto mais falar de Proust a propósito do norueguês.
A questão sobre se é legítimo invocar o autor de Em Busca do Tempo Perdido a propósito dos livros de Knausgård é um pouco ociosa, tanto mais que, depois de Proust, todo o exercício retrospectivo em literatura se tornou de uma forma ou doutra proustiano. De resto, a legitimidade a debater em A Minha Luta é mais do domínio da ética social do que da literatura. O valor literário de Knausgård é evidente para quem o leia sem juízos prévios. Eu discutiria antes a necessidade, para mim escusada, de o seu políptico ter sido editado como puramente autobiográfico. Não pelo que o autor conta da sua vida, mas pelo que expõe da de alguns familiares ou conhecidos.
Em literatura é válida a suspeita de que todo o livro tem algo de autobiográfico. Mas a tecelagem que a ficção elabora com o material biográfico resulta numa coisa nova, que foca o interesse do leitor, em termos de narrativa, no construído e não no factual, na obra de arte como um universo próprio, singular, que não depende do nosso para ser, embora possa ter dependido dele para nascer.
Não impede isto que um livro de ficção seja em simultâneo um fresco de uma época ou de uma cultura, de uma geração ou de uma geografia. Não lemos a distopia 1984 sem pensar no estalinismo (ou nos próximos totalitarismos). Os volumes de Knausgård dispensavam o rótulo de autobiográficos-sem-filtros para serem boa literatura. Talvez vendessem menos numa primeira fase, sem a polémica (a que se somou a do título), mas não teriam menos interesse. E deixariam um leitor como eu menos constrangido.
De dois outros polípticos admiráveis que a literatura contemporânea produziu se pode igualmente dizer que são em maior ou menor grau autobiográficos, num caso com a ajuda do próprio autor, no outro apenas conjecturando isso, como quase sempre podemos fazer se não tivermos nada melhor em que ocupar a mente. Refiro-me à série sobre Patrick Melrose, de Edward St Aubyn, e à tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante.
Os livros de St Aubyn são apresentados como semi-autobiográficos e isso é suficiente para nos proteger de remorsos quanto a um voyeurismo descarado, porque é suficiente para proteger a privacidade das pessoas que se relacionaram com o autor: nada, a não ser as declarações de Edward, nos autoriza a escolher que partes são factuais e que partes são pura invenção. Na incerteza criada pelo prefixo semi acolhe-se a intimidade das pessoas que inspiraram as personagens.
No caso de Ferrante, li poucas referências a que se trate de material autobiográfico e, em todo o caso, tal é supérfluo, uma vez que a autora permanece oficialmente desconhecida. Por outro lado, as especulações mais acreditadas sobre a identidade de Ferrante referem-se a pessoas biograficamente diferentes das protagonistas da tetralogia.
Mas se falei em autobiografia a propósito de A Amiga Genial foi apenas para poder integrar a obra neste texto, porque não são o detalhe intimista e o forte carisma com que Lila e Lenù foram desenhadas que nos permitem declará-las pessoas vivas, embora nos permitam integrá-las na galeria de grandes personagens da literatura universal.
O que têm em comum estes três polípticos, oriundos de diferentes geografias e tradições, adoptando diferentes formas narrativas e estilísticas, é a qualidade literária. Nenhum deles dispensa a leitura de Proust, Waugh, Dickens ou Goethe, para citar genealogias possíveis, mas só no sentido em que é uma pena um leitor não ter uma visão alargada e retrospectiva do cânone literário, porque qualquer deles tem lugar nesse mesmo cânone por mérito próprio. 


* Em Portugal falta editar o sexto volume.

sábado, 27 de abril de 2019

Profetas do fim do livro

De entre os vários tipos de catastrofistas em relação ao futuro dos livros, é justo destacar três. O primeiro tipo é constituído por sujeitos que, ao atingirem uma determinada idade ou por terem coleccionado um certo número de lombadas, afirmam já terem lido tudo o que de bom a literatura poderia dar à humanidade. Alguns, com maior ou menor grau de franqueza consigo próprios, sugerem que, passe a imodéstia, até contribuíram para essa dádiva. Não há já nada que se possa escrever que ainda não tenha sido escrito, asseguram, não há já nada a descobrir na literatura. O que não confessam a si mesmos, a não ser talvez se expostos aos métodos de Guantánamo, é que lançam o anátema sobre o futuro dos livros por ressentimento, por receio de sombra, porque, compreensivelmente, o mundo já não lhes interessa, ou, suponho, para cumprirem, paternalistas, o que se espera de todos nós a partir de certa altura, desdenhando os novos textos como desdenhamos a música feita pelas novas gerações.
O segundo tipo de bandarras do fim dos livros são cidadãos ou cidadãs de extracção assaz comum mas que a televisão, a propósito de nada, arvorou em vedetas e que, consequentemente, inelutavelmente, tragicamente, escrevem e publicam. Estes em geral não anunciam o fim do livro em si mesmo, porque pretendem eles próprios cometer mais algumas edições, mas o fim da literatura, essa disciplina inútil. Valem-se da estatística e de uma versão muito particular de democracia: a maior parte das pessoas, dizem, já não tem disposição para ler livros como antigamente, chatíssimos e intrincados, indecifráveis, sem propósito; o que agora interessa são as biografias e as inconfidências dos assim chamados vips, o seu pensamento, na hipótese indemonstrada de terem um. Fazem por isso do mundo editorial um circo de horrores, com o diligente contributo de supermercados e grupos de livrarias.
Um terceiro tipo de pregadores do armagedom vem geralmente da área das novas tecnologias ou das novas tendências, seja lá isso o que for. São informáticos ou designers, publicitários ou ted talkers, gurus ou por vezes meros contadores de anedotas (vulgo, stand up comedians). O problema para os que se integram neste tipo não é propriamente o livro, que não lêem, mas a velhice dele, o seu carisma démodé, o seu arcaísmo. A verdade é que, mesmo quando transposto para suportes digitais, com hiperlinks e vídeos a pular a cada linha, um livro, se lido com certa atenção do início ao fim, implica uma postura profundamente anti-moderna: estática, concentrada, silenciosa, individualista, alheia ao ruminar da manada e aos fluxos sociais. A leitura de livros, se levada a sério, utiliza ferramentas pior do que analógicas, como a memória, a imaginação, a inteligência, a sensibilidade, implicando a vontade de compreender e de visualizar autonomamente o que é sugerido pelo autor, ignorando as fotos ou vídeos auxiliares, os templates interactivos e os grafismos apelativos, e, no acto, desinteressando-se profundamente, ou rechaçando mesmo, ó desfaçatez!, as intervenções do personal coach, e dispensando o riso geral do rebanho, até porque, ó reaccionarismo!, nem sempre os livros têm como resultado gargalhadas — e as modernas profissões de visionários abominam o que não é para riso, riso fácil.
O problema dos que estimam os livros e os acham indispensáveis é que espécimes destes três tipos de nostradamus em cuecas estão nos conselhos de administração dos grupos económicos e editorais, são os CEOs, os pivots e  os bibelots mais bem pagos das televisões, estão na política, legislam, discursam na assembleia, são enviados engravatadamente para o parlamento europeu, dirigem organismos públicos, constituem a coluna dorsal das juventudes partidárias que fazem o arco e a flecha da governação, estão nas direcções escolares e académicas e não raro nas bibliotecas públicas e no Ministério da Educação, propagam-se como uma arma biológica inoculada por um poder sinistro, como o vírus da mediocridade replicando-se a si mesmo.

O fim do livro — que será também o fim da civilização, se me permitem a minha própria profecia — é assim sobretudo uma forma colectivista de wishful thinking à qual foram dados todos os meios para realizar os seus próprios desejos travestidos de previsões. Como se órgãos vitais de um organismo conspirassem alegremente para o haraquiri do portador. E não, claro, por razões de honra, mas apenas por vilania ou infantilismo de carácter.

(Eppur si muove.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor

Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o texto offline, fica como as focas no parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.

Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a escrever.

As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns que de facto reflictam o mundo actual.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Zona de Interesse


A Zona de Interesse, de Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal, onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade — e isso, que tem em si algo de Amis way, não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro. Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e morte, crimes e violações são décor. Não. Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre o enredo.)
Há o risco de leitores menos familiarizados com a História ficarem a achar que as atrocidades nazis não passam de ficção, cenário para romances e filmes, no máximo uns contratempos aborrecidos para personagens secundárias, contribuindo assim o livro para banalizar o Mal e relativizar os crimes nazis? Não. Primeiro porque Hollywood já se encarregou disso há muito tempo. Segundo porque leitores menos familiarizados com a História dificilmente lerão Martin Amis. Terceiro porque esses leitores, na eventualidade de lerem o livro, teriam de ser também insensíveis, incapazes de empatia e sobretudo pouco familiarizados com a inteligência (pelo menos pouco treinados nela). Há leitores assim, que devamos proteger do terrível Amis? Há. Chamam-se geralmente adolescentes (mesmo que alguns tenham passado a idade púbere) e são já várias as gerações deles que têm vindo a ser poupadas a conhecer a História. Há leitores assim, mas não os devemos proteger de Amis. Devemos protegê-los das televisões, dos Ministérios da Educação, da robotização neoliberal em curso — e dar-lhes muitos, muitos livros de História para ler. E depois dar-lhes também o livro de Amis para ler.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mil poetas

A Chiado Editora tem uma Antologia de Poesia Contemporânea que reúne cerca de mil autores. Sim, apenas mil. Julgávamos nós que Portugal era um país de poetas e a Chiado, propondo-se antologiar a raça, não encontra mais de mil. Que ineficiência. Que preguiça. Que falta de respeito pela veia pátria. 
Há quem defenda a editora dizendo que o magro número de antologiados se deve ao apertado crivo do antologiador, receoso de deixar a impressão de que ali entrava qualquer transeunte capaz de assinar o próprio nome, mesmo que com erros ortográficos. Receio absurdo, bem se vê, que na verdade conduziu à publicação de uma obra incompleta, pouco representativa da vivacidade lírica nacional.
É certo que o excesso de escrúpulo teve as suas vantagens: não há na antologia senão Homeros. O escasso número de autores assegura ao leitor o mesmo conforto que teve o organizador: em colectânea peneirada com tal minúcia é virtualmente impossível encontrar um poema mau.
A opção elitista da editora tem naturalmente desvantagens comerciais (o que dá uma certa nobreza abnegada à empresa, é de reconhecer). Sabendo-se que os leitores portugueses, na hora de comprar, são movidos sobretudo pela cumplicidade estética, pela afectividade intelectual e pelos laços literários que mantêm com os autores, está bom de ver que se venderão uns meros seis ou sete milhares de exemplares da antologia quando se poderiam vender pelo menos sessenta mil, se se multiplicasse por dez o número de antologiados. Reflectindo, aliás, mais verosimilmente a contemporânea arcádia lusitana. Dez mil poetas lusos* é o mínimo que uma antologia que se preze deve às letras portuguesas.

* De longas barbas e de braço dado a cantar eurovisivamente, à grega, “Good bye, my love, good bye”.

P.S.: Entre o Sono e o Sonho é o título da antologia da Chiado Editora. Entre o sono dos leitores e o sonho delirante dos autores, presumo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

«António Lobo Antunes. Ascensão e queda do ‘enfant terrible’ da literatura portuguesa»

Não me chateia nada que a reportagem do Observador com o título acima possa regozijar-se com a “queda” de Lobo Antunes. É apenas ridículo que, apesar de ter em si mesma, e com certo mérito jornalístico, suficientes elementos para perceber que passar de 100 mil exemplares vendidos para poucos milhares não é uma “queda” literária (nem o é aos olhos dos leitores), a reportagem não deixe de insinuar esse sabor de derrota (desde logo no título).
A única coisa estranha em relação a Lobo Antunes era precisamente a venda de milhares de exemplares. Alguém que viva neste país, que saia à sua rua neste país e que conheça os seus conterrâneos terá em algum momento achado possível haver em Portugal dezenas de milhares de pessoas a ler Lobo Antunes?
É certo que o próprio escritor, que neste particular do ego se aproximou muitas vezes do inefável Rodrigues dos Santos, acreditou ou pareceu acreditar nessa possibilidade de ter um estádio-da-luz-com-terceiro-anel a lê-lo. Mas não, não há nem nunca houve em Portugal essa multidão furiosamente interessada em ler Lobo Antunes — nem, de resto, em ler regularmente seja o que for de literatura (ou ensaio ou história ou o que quer que não seja lixo).
Por outro lado, percebo as saudades de um tempo em que escritores como Lobo Antunes podiam ser best-sellers em Portugal. Isso impunha um certo respeito, balizava as coisas, ajudava a manter a bicheza literateira à distância, higienizava o ambiente. Hoje, a literatura de cordel — muita dela em regime de franchising, como a ancestral —, tomou conta do mercado e da sociedade como nunca na História — mas perdeu os velhos, tradicionais e sobretudo justos, adequados, complexos de inferioridade. Também porque já ninguém tem vergonha de se confessar leitor-não-praticante ou mesmo acérrimo analfabeto. E esta "emancipação" popular não é um progresso. Nem democrático nem de espécie alguma.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Mademoiselle Marcelle La Pompe, aliás, Renée Dunan

A realidade pode ser ainda mais truculenta e divertida do que já achávamos. Alertam-me que o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle La Pompe», que me serviu há dias para prosa a armar, é na verdade obra de Renée Dunan, escritora, crítica, poeta, anarquista, dadaísta e feminista francesa que provavelmente emparelhou com alguma da clientela surrealista do café La Fleur en Papier Doré. Marcelle La Pompe era apenas um dos seus vários pseudónimos.
(Devia saber que os meus dois vagos anos lectivos de francês não me autorizavam hermenêutica deste calibre.)

Alguns links úteis:
http://lenaweb.voila.net/Dunan/Reneee_Dunan01.jpg

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O direito à poligamia

Decerto com razoável ironia, o escritor Nick Hornby propôs algures que se devia queimar os livros «complicados». Esta é daquelas frases que dão jeito a um provocador e está de acordo com o zeitgeist comercial, numa altura em que há empresas que não se importam de lançar e depois retirar compungidas do mercado produtos politicamente incorrectos porque sabem que a visibilidade concedida pelo “escândalo” lhes acabará por trazer lucros. Ainda que aqui não haja necessidade de Hornby se vir a queixar de citação fora de contexto: a sua afirmação tem tanto de provocador como de banal. Muitos disseram o mesmo, por aquelas ou outras palavras, e vários deles eram também escritores, ou coisa aproximada.
O El País, que traz a notícia e fala da repercussão que terá tido aquele fait divers literário, dá-se contudo ao trabalho de coligir uma lista de 10 livros que «carregam o estigma (muitas vezes injusto) de serem inacabáveis», por gigantismo ou ilegibilidade. Vai de O Arco-Íris da Gravidade a A Piada Infinita, mas passa por Crime e Castigo e Guerra e Paz. Isto é ir um bocadinho mais longe do que se atreveria José Rodrigues dos Santos, e o artigo mistura, com certa tontice, a suposta complexidade com o tamanho dos livros.
Teremos, portanto, duas razões, nem sempre acumuláveis, para queimar livros: a dificuldade de leitura que eles oferecem ou o número de páginas que os constitui.
Reparem que nenhum dos escritores citados na peça, Nick Hornby ou Kingsley Amis, teve a franqueza de Fernando Pessoa, nenhum defende que pura e simplesmente se não leia. Não. São (ou eram) escritores: naturalmente não querem afastar a clientela (pelo contrário, como se verá adiante). Consideram a leitura importante, claro, ou uma interessante «actividade hedonista».
No que toca ao tamanho dos livros, a estigmatização dos grandes é estulta, se tivermos precisamente em conta o prazer da leitura: o que importa ler dez novelas ou um só calhamaço, dez autores ou um só escritor, se o objectivo é o prazer que tiramos do exercício de ler? Eu, por exemplo, e pensando só no prazer, trocaria de bom grado uma dezena de livros menores que li por um novo tomo de A Piada Infinita. Ganharia, entre outras coisas, novidade e variedade, tudo num só livro, vejam só.
De resto, para escritor, aquele Hornby parece ter um medíocre conhecimento da natureza humana. Ignora que, nos prazeres literários como, digamos, na culinária, os seres humanos são diferentes?
E vamos ao argumento da complexidade. É claro que há gente que lê ou diz ler destas obras «estigmatizadas» para poder fazer alarde de superioridade intelectual ou para seguir, por pretensão, o mais exigente cânone. Eu li o Ulisses em bicos de pés e pouco percebi dele na altura, mas não me arrependo de ter seguido a via pedante (se quiserem) em vez da via pirómana. Acredito que, neurologicamente, duas pessoas diferentes possam sentir o mesmo grau de prazer a ler o supra-referido dos Santos, por exemplo, ou o falecido Wallace, mas desconfio que o cérebro do leitor que lesse o segundo sairia bastante mais colorido e refulgente de uma ressonância magnética. E eu não vejo, com franqueza, razões para se preferir levar para casa imagens de um blackout quando se faz uma IRM.
Tirando Philip Roth — que chegou ao ponto de desaconselhar a leitura tout court mas porque, bem sabemos, decidiu deixar de escrever —, o aprendiz de Torquemada que manda queimar livros alheios está, geralmente, com consciência disso ou não, a ser juiz em causa própria, a autojustificar as suas opções enquanto escritor, a puxar a brasa à sua sardinha literária, a defendera a sua bancazinha no mercado livreiro. Adicionalmente, mostra que, por infelicidade, o ter-se tornado escritor não preservou o leitor que eventualmente havia nele. É que nenhum leitor verdadeiramente interessado na leitura (ou viciado na leitura, se quisermos continuar nas metáforas hedónicas) escolherá ou rejeitará um livro pelo seu tamanho, ainda que possa ter o seu próprio calendário de leituras e tendência a postergar indefinidamente luxações nos pulsos.
Nick Hornby diz, e nisto tem razão, que «de cada vez que continuamos a ler sem vontade reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver TV um prazer». Mas um escritor com alguns conhecimentos de sociologia, psicologia, neurologia ou o diabo a quatro e que apreciasse a diversidade humana talvez não devesse ignorar que se pode não ter a menor vontade de ler o mais fininho dos livros de JMS (J), se ele algum dia escrever um à sua imagem, e encontrar em cada magra página um trabalho de Hércules. Num mundo em que o cânone excluísse livros complicados e/ou grossos (e esse mundo já está aí), haveria sempre gente a reconhecer que prazer é ver TV.

A redutora imagem da humanidade implícita numa condenação dos livros «excessivamente complicados» é, insisto, apologia de uma escola ou da obra própria. Infelizmente, uma parte dos escritores não resiste a esta tendência, e é por isso que tantas vezes ler-lhes as entrevistas se torna penoso. Detesto escritores possessivos, que me queiram só para si. Enquanto leitor, reclamo o meu direito à biodiversidade — ou à poligamia, para regressarmos ao prazer.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O apêndice marital

É tristemente irónico que Siri Hustvedt, escritora de talento, erudição e densidade intelectual, com obra e reflexão sobre preconceito de género, seja apresentada em Portugal como esposa de Paul Auster. Percebo o atractivo comercial da informação, mas, quatro livros depois — o penúltimo intitulado “Verão Sem Homens” e o último versando sobre «os preconceitos que imperam no mundo da arte» — quatro livros depois, perturba que a D. Quixote continue a incluir nas badanas o apêndice marital. Quantos escritores masculinos são apresentados como maridos de não sei quem? Eu, se fosse a Siri Hustvedt, mandava passear a D. Quixote no próximo livro. Se a editora não consegue vender-lhe as obras pelo mérito ou se os portugueses não as compram senão pelo popular marido, não a merecem. E, claro, não a entendem.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A constante da equação


Entre uma foto e outra passaram dois anos. Na primeira, de 2012, o livro era A Informação, de Martin Amis. Na segunda, actual, o livro é Os Velhos Diabos, de Kingsley Amis.
Há duas ordens de leitura possíveis para estes livros — por data de edição ou por idade dos autores e dos protagonistas —, mas só uma é cronologicamente correcta.
Há também inúmeras formas de os ler, mas só uma nos salva deles. É que ambos são divertidos, mas a matéria de que fazem uso (a vida) não o é assim tanto, se levada a sério. Não caia na asneira de os ler na cama ou no sofá lá de casa. É necessário descer ao sol promissor do Alentejo e enfiarmo-nos em calções curtos numa piscina infantil, se quisermos sair verdadeiramente risonhos de ler os Amis.

Publicado originalmente em 1995, quando Martin tinha 46 anos, A Informação trata de gente na casa dos quarenta. Os Velhos Diabos saiu antes, em 1986, tinha Kingsley 64, e fala de sexagenários. Martin, que tem agora 65 anos, há-de andar desesperado para não escrever um romance demasiado parecido a Os Velhos Diabos. Ser-lhe-á difícil. Não porque esteja condenado a imitar o estilo do pai — mas porque a vida (a tal matéria literária) não muda, verdadeiramente. Da minha relativa juventude, prevejo que não difere muito ser-se sexagenário em 1986, 2014 ou 2034. Daqui a vinte anos eu próprio estarei a ter as minhas dificuldades para não publicar uma imitação de Os Velhos Diabos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Rule, Britannia!


Ordenar cavaleiro um escritor era matá-lo. Aos meus olhos.
Sir Kingsley Amis soou-me sempre demasiado pomposo e isso manteve-me à distância. Não admira que os livros do filho tivessem degenerado, imaginava eu. Quem suporta um pai hierático, com assento no panteão? Um tipo torna-se pornógrafo ou bombista, algo que ofenda a moral paterna, se tem de viver à sombra de um pai destes.
Entretanto, deu-me para ler Os Velhos Diabos do Amis sénior e tive de reconsiderar. A luta de Martin com o pai, percebo agora, foi de outro cariz. Não teve de o afrontar — teve de o suplantar. Na prosa e na corrosão. Amis pai é Amis filho adiantado umas décadas e um pouco menos à-vontade com palavrões.
Kingsley Amis, descobri com espanto e embaraço, de sir (na acepção palaciana) só tinha o título, no resto era um de nós, disfuncionais e reles humanos. Alguém que vale a pena ler, portanto.

Ordenar cavaleiro um escritor é dar-lhe um lustro despropositado, afastar leitores avessos a salamaleques. Em alguns casos é mesmo ridículo. Ou então, ordenar cavaleiro um escritor é um gesto de uma civilização superior. Se calhar é isto e eu é que estou demasiado habituado a ser tuga.

P.S.: Sim, talvez haja algo a dizer sobre esta estranha propensão para ler os Amis numa piscina infantil.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Lição n.º 1

Muitas pessoas (e tantas delas são gente da informática ou das novas tecnologias) pensam que regras e convenções da escrita são uma espécie de capricho de gente conservadora, quando não uma demonstração de intolerância ou fascismo em relação a quem tem uma atitude mais «descontraída» com a língua e a escrita. Suponho que essas pessoas lêem pouco, ou apenas lêem o que escrevem. Ou ignoram regras e convenções quando escrevem porque na verdade se estão nas tintas para quem as vai ler.
O problema é quando algumas destas pessoas escrevem textos que, por uma razão ou outra, nos vemos forçados a ler. A sua forma «descontraída» de escrever geralmente significa que nós não vamos ter uma leitura descontraída, mas trabalhosa, aborrecida, tentando decifrar a sintaxe para conseguir chegar à semântica. Irrita-me quando antes de perceber a ideia ou argumento tenho de parar para perceber a frase. E irrito-me mais quando, depois de finalmente perceber a frase, descubro que não há uma ideia ou argumento (o que também é frequente).
Os praticantes desta «escrita descontraída», mesmo que pensem o contrário, são meros principiantes das letras e da comunicação. Não se relacionam suficientemente com a língua e a linguagem para perceber duas coisas:
1) Que as frases que escrevemos saíram da nossa cabeça e, por isso, somos capazes de entender facilmente um texto nosso, mesmo que ele esteja descuidado, mal pontuado, sem acentos e que ao escrevê-lo lhe tenhamos comido uma parte das palavras. Quem alguma vez se deu ao trabalho de rever a sério o que escreve sabe que é assim.
2) Aquilo a que noutros escritores chamamos de «escrita simples» é geralmente uma escrita bastante trabalhada — e que não ignora regras e convenções. Este tipo de «escritores simples» trabalha arduamente os textos para que a comunicação resulte límpida, transparente, sem dar trabalho desnecessário ao leitor (a não ser o que resulta da compreensão das ideias expressas).
Meus amigos: aspas, acentuação, vírgulas, pontos, travessões, itálicos (em estrangeirismos e títulos, por exemplo), concordância em género e número, correcta conjugação e aplicação de verbos, escolha rigorosa de adjectivos, etc. não são coisas antiquadas, desnecessárias, descartáveis. Não são, sequer, caprichos estilísticos de escritor. São a essência formal da comunicação escrita. Se não têm nada a dizer, não escrevam. Se acham que têm alguma coisa a dizer, lembrem-se que estão a escrever para seres que não convivem intimamente com os macaquinhos que vocês têm no sótão.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O retrato do escritor

Já escrevi sobre isto algumas vezes: é um erro que manuais escolares, jornais, revistas literárias, contracapas e badanas ou separadores televisivos (estes já só em dias de centenário) passem o tempo a mostrar imagens dos escritores clássicos enquanto velhos. A escrita literária não dispensa, geralmente, maturidade e sapiência, mas não é uma actividade reservada a anciãos, como a iconografia editorial sugere. Pedagogicamente, esta tradição ou inércia tem sido catastrófica. A juventude está por vezes disponível para a literatura, mas é sempre avessa a projectar-se a si própria na terceira idade. E o que a imagética institucional tem feito é dar à juventude a desculpa de que ela precisa para remeter os clássicos para a cave bafienta da paleontologia (sem que Hollywood tenha feito com os escribas jurássicos o mesmo marketing que fez com os dinossauros).
Somado o fosso geracional ao fosso histórico — tão fundamente cavados pela passagem do tempo, a invenção da cor, a evolução do trajar e do pentear, e pelas escolhas preguiçosas dos responsáveis gráficos —, é uma verdadeira surpresa que hoje alguém com menos de trinta anos se interesse por literatura com mais de vinte anos (quando já tão dificilmente se interessa por literatura tout court).
É certo que em alguns dos casos mais antigos não há retratos disponíveis do escritor enquanto jovem. Sobram uma estatuária amputada, umas gravuras que parecem de santinhos da igreja, de duvidosa correspondência ao modelo biológico. Mas, havendo pudor de fazer passar esta iconografia por um processo inverso ao da Maddie (um rejuvenescimento especulativo computadorizado), restavam duas soluções: assegurar-se que de autores mais recentes se publicavam sobretudo as fotos menos envelhecidas, para contrabalançar, ou optar-se por biografias em vez de imagens, biografias que insistissem particularmente no facto de os autores terem sido jovens e humanos como todas as outras pessoas.
Porque a verdade é que a maioria dos escritores e pensadores não teve de esperar pelos sessenta ou setenta anos para escrever as suas melhores obras — e é isso que a juventude em formação precisaria imediatamente de saber, se não por imagens, por palavras. Que, tirando José Rodrigues dos Santos, a literatura é coisa de gente interessante ou normal, viva ela em que século viva.
Para ser verdadeiramente pedagógico, um livro ou manual escolar deveria apresentar a imagem do escritor à época que escreveu o texto. Junto com o cadastro policial e político, testes de alcoolémia, testemunhos de rivais, resultados de análises às DST e cartas de ex-amantes ressentidos/as.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cansado da guerra

Furtei-me ao dever (as Metamorfoses de Ovídio) para ler o artigo sobre Brideshead Revisited numa LER emprestada. Soube que Evelyn Waugh pediu uma licença da guerra para escrever o romance. Eu já revisitei a minha Brideshead em dois livros— mas, ah!, de bom-grado metia uma licença para tentar de novo, falhar melhor.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Escritor de levar para casa

Li que Valter Hugo Mãe esteve à conversa com leitores em Bragança ou Macedo e que a algumas pessoas no fim apetecia levá-lo para casa, por ser tão doce. Fiquei deprimido, com a inveja. Depois esbofeteei-me. Pela estupidez.
A inveja entre escritores é proverbial* — e tê-la sentido alegrou-me. Pensei que já podia pegar no telefone e dizer: «Mãe, sou escritor!», como se tivesse detectado os primeiros pêlos no buço (ou em zona mais meridional) e quisesse gritar: «Mãe, já sou homem!»
Mas de seguida fiquei deprimido, porque, embora exagere nos açúcares, jamais serei um tipo doce que as pessoas queiram ir ouvir falar — quanto mais levar para casa.
Se depois me esbofeteei é porque me lembrei que detestaria que as pessoas me quisessem levar para casa. Se por hipótese bizarra me quisessem ir ouvir falar.

* Leia-se A Informação, de Martin Amis.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rodrigues dos Santos* ou uma coboiada?

«Se as pessoas vão gastar dinheiro num livro têm de ter a garantia de que gostarão de o ler.» [diz José Rodrigues dos Santos, insinuando sem qualquer subtileza que as pessoas compram os seus livros porque garantidamente vão gostar. E decerto tem razão.]
Do mesmo modo que sou com demasiada frequência um consumidor de (mau) entretenimento cinematográfico, não me repugnaria, se tivesse o tempo e a vontade, ler um livro de José Rodrigues do Santos. Não tenho contra o entretenimento nada além do remorso de saber que poderia quase sempre utilizar melhor o tempo.
Se nunca senti esse impulso é porque se perde mais tempo com um (mau) livro do que com um (mau) filme e porque o entertainer das letras faz questão de me repelir. Uma coisa é sentirmos a nossa inteligência insultada nas duas horas de um blockbuster para lerdos (passe o pleonasmo), outra é sermos injuriados pelo realizador à entrada do cinema e mesmo assim entrarmos. Há limites.
As entrevistas a escritores, tal como as recensões, são o átrio dos livros. Ali decidimos se compramos ou não o bilhete para a leitura. O que Rodrigues dos Santos nos diz nas suas entrevistas é que, se não formos estúpidos que chegue para o admirar incondicionalmente, não devemos comprar um livro seu. Ora, isso já nós sabemos, mas, tal como no cinema, se não no-lo lembrarem, não é raro que o compremos à mesma.
Na mais recente edição do Jornal de Letras o escritor insiste no argumento habitual: a garantia da qualidade da sua obra é dada pela quantidade de exemplares vendidos. E, como de costume, essa vanglória, que Toni Carreira, um génio da música, usa com mais modéstia e discrição, não lhe chega. Alegando que a crítica o renega por não ser um “autor da linguagem”, acaba, na sua suprema vaidade, a qualificar de ineptos os “autores da linguagem” e na prática qualquer autor e qualquer género literário que não o seu. Por extensão, qualifica também de néscio todo o leitor que ouse apreciar livros diferentes dos que ele escreve.
Ora, que os seus leitores não se sintam insultados por isto significa que de facto só o lêem a ele (e não podem portanto ser garantia de qualidade, por falta de termo de comparação) ou que não têm amor-próprio (dificilmente tendo, pois, espírito crítico). (A hipótese de haver quem o leia descomplexadamente e se estar apenas nas tintas para a boçalidade que ele debita nas entrevistas não é para aqui chamada.)
Eu, que gostaria de ler mais um ou dois autores diferentes do José sem ser insultado por isso e que alimento a esperança de ter ainda um pouco de amor-próprio, decido, não exactamente sentir-me insultado de cada vez que o homem dá uma entrevista, mas sentir-me dispensado de o ler. E a seguir até vejo uma coboiada com menos remorsos.

* O autor é facultativo. Pode ler-se este texto substituindo o nome por Miguel Sousa Tavares ou mesmo Margarida Rebelo Pinto — Portugal é pródigo em autores que por despeito negam direito de cidade ao resto dos escribas.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

«Who gave you this number?»

Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas. Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado, pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive resposta.

Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente, e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster — mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.

Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?» não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso críptico para mim: Verão sem homens. Aquele homens era comigo. Eu estava impedido de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de entrar na casa do marido.

Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster, vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao telefone e já venho.