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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Agora a cultura será efervescente

«Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2» (DN)
Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao sonho de uma menina.

Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.

A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise», mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível, directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».

Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?


P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa» implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo segundo os padrões de um público “efervescente”.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Passarões

No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A oficialização do óbvio

No que toca ao caso Relvas, podíamos achar que o óbvio se tornara ululante mesmo para o mais distraído ou comprometido português, mas ainda carecia de oficialização. Com algum atraso devido aos seus imensos afazeres, o guru da direita, o sempre frontal, precursor e clarividente Vasco Pulido, lá pôs o carimbo na coisa — nos fundos de um artiguito que é, por assim dizer, um exemplo de prosa directa, clara e sobretudo corajosa: «não deve existir um lugar marcado para a irresponsabilidade no Conselho de Ministros»*.

É certo que não menciona o nome do ministro Relvas e evita a palavra demissão, mas isso porque os grandes educadores do povo têm horror aos «bas-fonds da política». A populaça que traduza o artigo e aplique se quiser a eufemística sabedoria ao seu vil quotidiano.

De qualquer modo, a direita pode agora ser menos contumaz que já não é vergonha nenhuma — tem o exemplo do santinho padroeiro.

*In «Mais desgraças», artigo no Público de 27/5/2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

Serviço cívico obrigatório

Imagine que é proprietário de um edifício no Porto e que um street artist dotado lhe decora aquela fachada que você ia ter de mandar pintar mais dia, menos dia. O seu entusiasmo com a obra e o alívio financeiro doravante vão durar-lhe pouco. A Câmara tem uma proposta de higiene pública que, entre outras medidas, pretende mobilizar os proprietários para um movimento cívico sem precedentes. Quando digo mobilizar não estou a falar de apelos, incentivos, sensibilizações. A coisa tem as suas reminiscências militares, é um recrutamento compulsivo, é serviço cívico obrigatório. Se a sua fachada é grafitada, logo terá um fiscal à perna a exigir-lhe uma de duas coisas: que apresente uma queixa-crime contra o vândalo ou o artista (quando identificados) ou proceda de imediato à remoção do graffito. A terceira via é pagar uma multa de 400 a mil euros.
Com Rui Rio não se brinca, ou as pessoas exercem voluntariamente, digamos assim, os seus deveres cívicos ou pagam multa. Não é chantagem — é pedagogia. Não é coerção — é um convite irrecusável ao uso do livre-arbítrio. No sentido certo.
De resto, atendendo ao historial do Presidente da Câmara, é de supor que não adianta você desculpar-se com a qualidade da obra, mesmo que se trate de um Rembrandt de aerossol: arrisca-se a que o fiscal, emulando o chefe, saque logo da pistola à simples menção da palavra arte.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Acontece

Leio a crónica da última página do jornal de hoje e estranho: o JN mudou de grafismo? Pouco provável. Coço a cabeça: o Manuel António mudou-se para o Público? Não. É o Vasco a ter razão completa. Também lhe acontece.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vasco, o retratista

Consta por aí (uma simpática leitora até me escreveu a informar disso) que em três pinceladas Vasco Pulido Valente pintou no Público o retrato certeiro e definitivo do Portugal recente — com o nobre intuito de fazer o enterro do socialismo. Um reverente blogue de direita reuniu as palavras sagradas num post que pode ser lido neste link. (A direita sempre precisou de um papa, e em Portugal a oferta aumentou exponencialmente nos últimos tempos, mas algumas almas fascinadas parecem tê-lo encontrado sobretudo na encantadora figura do decano cronista.)

Despertado na minha caverna pelo correio amável que me enviaram, lá fui eu ler a trilogia pulidiana “Esquerda e direita”, prometendo a mim próprio não voltar a embirrar com o homem. Em vão.
Como retratista, Vasco não usa a paleta toda, pelo que as suas telas resultam um pouco artificiais. Aquilo é real, sabemos penosamente que sim, o autor tem talento para o desenho. Mas, como recusa uma mais plausível prolixidade cromática nos acabamentos, a obra parece velada por uma fina gaze, como se o mestre pusesse um filtro à frente do olho que deita ao modelo. Num relance, chega a parecer uma daquelas gravuras vendidas em lojas de decoração que apostam numa limitada gama de cores: uma serra em escala de azuis, o pôr-do-sol em escala de laranjas, estão a ver o género.

Sem piedade, a trilogia conclui que o socialismo (ou a social-democracia) foi responsável pela crise nacional e europeia — e o Estado Social foi o seu instrumento. Ora, os americanos, mormente a feroz percentagem republicana deles, parecem não concordar. Começam, aliás, por não concordar que exista uma crise europeia. Parece, diz-se na campanha republicana, que a pátria da liberdade (e da recusa do Estado Social) está terrivelmente endividada, tem um défice preocupante, cresce menos do que desejaria, entrará provavelmente em recessão, vê o desemprego aumentar com perigo para a estabilidade social, etc. Os sintomas, dirão eles para proteger o orgulho ianque, são “europeus”, agravados por um presidente “socialista”. Mas nós sabemos o quão socialista Obama tem podido ser, e como a economia americana divergiu profundamente da sua ortodoxia.

O retrato pulidesco tem assim, talvez, de ser retocado — antes que os óleos sequem. (Depois disso, só uma equipa de restauradores do Louvre o poderá fazer, e nós não temos assim tanto tempo para esperar.) Se eu próprio não tivesse abandonado os pincéis e o atrevimento, propunha portanto ao insigne artista que matizasse a sua tela com uma das duas seguintes cores (ou ambas):

1) Talvez não tenha sido a social-democracia a falhar, mas o próprio capitalismo, tal como posto em prática;
2) O despesismo, a corrupção, a incompetência da máquina fiscal, a mitigada redistribuição de rendimentos, a especulação financeira, etc. são em si responsáveis pela crise, independentemente do sistema em que ocorrem.

(Quando se pinta um retrato de uma entidade viva, convinha, de resto, não esquecer 2008. A elipse foi uma figura de estilo inventada por Estaline para a fotografia, não para a pintura.)

Claro que o pulido cronista, quando isso não lhe atrapalha a argumentação para uso no flagelo doméstico, estende o problema ao Ocidente inteiro, sem que então lhe interesse assim tanto distinguir sistemas. Ou seja, para ele a peçonha é, consoante os dias, uma particularidade da Europa (que tem no socialismo e em Portugal os seus mais desprezíveis cultores) ou do Ocidente inteiro (se a prosa tiver uma ambição mais universal e exacta e menos luso-moralista). De uma forma ou doutra (e aqui não se engana nada), a crise é dos países que tiveram preocupações com o bem-estar dos cidadãos. Daí alguma direita (não só ela) andar agora fascinada com a China, esse sábio sistema que aproveita o melhor do capitalismo sem se tornar sentimental. Os sentimentos sempre foram um empecilho quando se trata de criar riqueza. Para alguns. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Vasquito

Só li citações (ando a poupar nos jornais), mas parece que o camarada Vasco, escrevendo sobre cultura, ontem falou de “produção nacional”. Diria que o fez para dar razão ao seu próprio argumento: em Portugal não falta quem fale sobre o que não conhece.
Acertou, não duvido, na questão dos vereadores — quanto a mim, acerta-se sempre quando se fala mal de vereadores.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Sai mais um bagaço

«O Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência muitíssimo bem pagos. O que produziu um escândalo de certa maneira inesperado. (…) À superfície não se vê por isso o motivo por que um acto, por assim dizer normal, de Passos Coelho provocou agora tanta indignação e tanta conversa.»
Vasco Pulido Valente, «Uma velha história», Público de 14/1/2012

A “análise” de que extraí o pedaço acima não se distingue, a não ser pelo acabamento da prosa, daquilo que produziriam habituados comentadores de tasca, exímios a concluir serem os políticos todos iguais e a defender ser profundamente estúpido considerar a mudança. Fecha a porta ao debate da mesma forma (embora com outra conveniência, mas não é esse o ponto que agora me interessa).
Por vezes espanta que as redacções de VPV, com frequência pouco mais do que fúteis, façam dele o cronista-mor do reino. Mas a explicação é simples: também a intelectualidade portuguesa não se distingue geralmente do auditório de taberna — excepto por uma mais aguda sensibilidade à gramática e à retórica. Se estivéssemos no século XIX, o corte da jaqueta seria igualmente considerado. E aí o escriba teria talvez de mudar de alfaiate.

sábado, 17 de dezembro de 2011

A relíquia

O Público tem na sua última página dois colunistas e uma relíquia. Infelizmente, não segue a política dos museus nacionais de fechar a página ao fim-de-semana. Mas devia. Se a ideia é ter naquele espaço representantes da direita e da esquerda, o Pedro Lomba e o Rui Tavares cumprem-na com distinção. O tipo que que entra de serviço à sexta desequilibra o arranjo. Mas não exactamente por favorecer um dos pratos da balança: antes porque acrescenta uma dimensão bizarra às coisas. No Público, há a realidade, há as interpretações da esquerda e da direita e há a visão do Vasco. É um pouco como se diz dos ingleses: bem comportadinhos nos dias úteis e bêbados ao fim-de-semana. É divertido, claro, ler-se a última página do Público de sexta a domingo, mas, como a cerveja, não traz proveito à vidinha que nos espera na segunda. Só que, instituído como está o Vasquito ao fim-de-semana, prescindir agora o Público da sua prosa seria como a New Yorker abdicar do flâneur e da borboleta. (Ou só da borboleta, pronto.)

Tendo em conta a crise da imprensa, talvez o Público pudesse proletarizar-se um pouco e ir buscar ao JN o Manuel António Pina. Ganhava-se a classe média e ganhava-se em pontaria, é certo, mas prejudicava-se a decoração da casa. Os dois são escribas sucintos, mas têm utilidades diferentes: Manuel António escreve pouco e acerta muito; os textitos do Vasco vão bem com o grafismo e as cortinas da Redacção. No dia em que acabem com ele (salvo seja) repetir-se-á o avassalador drama ocorrido quando o Público mudou de logótipo: lágrimas e ranho por uma ou duas infindáveis semanas.

Claro que se o Público dispensasse o Vasco a ERC poderia intervir. Quer dizer, talvez não a ERC — o Instituto dos Museus e da Conservação. Ou o Instituto de Arqueologia*. Uma dessas entidades tão absolutamente caras ao novo poder decerto sairia em defesa da sua relíquia queirosiana.


* Como é evidente, o Governo decidiu fundir o IMC e o IGESPAR apenas para estragar a piada.


[Nota: texto revisto e com pequenos acrescentos.]

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Irritações 2

Ignoro como seja Vasco Pulido Valente na sua existência real. Apenas conheço a persona que se projecta a partir dos textos que ele escreve. E esta por vezes* faz-me pensar em certos escritores que deixam de se interessar pelo seu tempo, pelo menos enquanto intervenientes, já só vivem para a posteridade. Perguntam-lhes por autores vivos que eles admirem e eles têm um gesto de enfado. Todos os que são dignos de louvor estão mortos e enterrados, não pertencem a esta época. Jovens promessas das letras? Não lêem, não acreditam, não têm tempo nem paciência. Quando não estão a escrever, relêem os mestres. De resto, já não crêem na literatura, os livros vão desaparecer. Talvez alguns grandes vultos sobrevivam. E, sim, admitem se instados, modestos, ficariam contentes se uma ou outra obra sua se incluísse no panteão.
Esta não é uma arrogância nova, repete-se a cada geração ao longo da história. Em certos espécimes envelhecidos, a falta de generosidade e o egotismo vencem o sentimento de pertença e a curiosidade. A urbe é a certa altura para estes pessimistas como as trezentas concubinas para o geronte Salomão de A Cidade e As Serras: um serralho «ridiculamente supérfluo». Mas, como diz Jacinto, não são exactamente as concubinas que se tornam imprestáveis.
Talvez a literatura acabe, mas será por falta de leitores, não de escritores. Se estes Schopenhauers (para nos mantermos na perspectiva do Jacinto queirosiano) não estivessem publicados, se não tivessem sido lidos, se mantivessem um mínimo de abertura e curiosidade em relação ao que se produz no seu tempo, talvez vissem o problema pelo lado certo. A época não tem falta de génio criativo — tem falta de público. Décadas antes, as pessoas eram postas no caminho das obras, literárias ou outras. Agora, com conivência geral, as obras são afastadas do caminho das pessoas, como obstáculos que impedem o avanço da carroça.
Estes jubilados podem já não ter ânimo para ir admirar ou agitar as artes — mas escusavam de ser tão prestimosos a promover o enterro delas. Escusavam de pôr o seu prestígio ao serviço da actividade funerária.

*Ver Público de sexta-feira.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Irritações 1

Para Vasco Pulido Valente não há nada no país que valha realmente a pena. E nem vale realmente a pena tentar promover seja o que for. Por ele, o país fechava e deitava-se a chave fora. Vasco Pulido Valente é um velho resmungão, possivelmente misantropo. Escreve livros que a esmagadora maioria das pessoas ignora. No entanto, ninguém questiona o seu direito a escrevê-los e publicá-los. Durante anos, ninguém questionou o seu direito a investigar ao seu ritmo e ser pago para isso. Se aplicássemos à sua obra os critérios demagógicos que hoje vigoram e que ele aplaude, talvez lhe estivéssemos a pedir indeminizações.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Favoritos?

Uma lista de blogues não é uma declaração de amor. Há sítios onde vou apenas para cumprir a prescrição diária de irritação.

domingo, 30 de outubro de 2011

O fim do mundo fica a nordeste

Certo lisboeta sabe como apanhar o metro, mas tem dificuldades em deslocar-se para lá das Linhas de Torres. Se obrigado a cruzá-las, prepara-se como para um safari — e não raro precisa de guia. Não admira que, como Vasco Pulido Valente no Público de ontem, Bragança lhe pareça o «fim do mundo».

O cliché cumpre ainda a sua função em alguma prosa com vago desempenho queirosiano. É uma muleta útil, quando a prosa se debruça mais sobre si própria do que sobre o assunto de que trata. Repare-se como no mesmo artigo, dedicado a Duarte Lima, Vasco Pulido Valente refere que «um pobre de Bragança não podia transitar suavemente para uma companhia, um banco ou um escritório de advogados». A realidade há décadas desmente a afirmação (entre abundantes exemplos, só nos governos mais recentes, lembremo-nos desse outro nobre brigantino, Armando Vara), mas que importa isso se o efeito da frase é sonoro, requintado? Como a propósito de Martin Amis defendeu Rogério Casanova, não é o que o autor diz que interessa, mas como diz. Se por vezes o escriba parece perder discernimento, não devemos censura-lo — mas admirar-lhe a frase. Que interessa a realidade para um escriba superior?

Claro que muitos transmontanos concordam com Vasco Pulido Valente. Também eles, coitados, lamentam os quinhentos quilómetros que os separam do Gambrinus. Ou quiçá do Colombo e do Estádio da Luz. Na verdade, talvez só os americanos discordem da ideia de Bragança ser o fim do mundo — por lhes parecer que o fim do mundo há-de ter pelo menos o tamanho de toda a província de Espanha que Portugal é.

Ler também: «No fim do mundo», no Tempo Contado.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Vasco Pulido Valente e o equívoco*

«Durante trinta anos, Portugal gastou bastante mais do que ganhou» e agora tem de pagar os desvarios. Num ano ou dois.
Aquele é o diagnóstico (de resto acertado), e esta é a sentença, pronunciada com um sadismo de velho mestre-escola.
Percebo o furor. A um queirosiano não são permitidas meiguices. Depois de Uma Campanha Alegre, malho que hesite não conta. No entanto, a venerável retórica de Vasco Pulido Valente, se serve para nos divertir, não serve a verdade.
O endividamento de Estado não foi uma originalidade nacional, mesmo tendo em conta os níveis absurdos que atingiu com Sócrates. Durante as últimas décadas, esta foi uma praxis ocidental, aliás incentivada pelo sistema económico internacional vigente, com manifesto regozijo dos mercados. Um estado que resolvesse seguir um caminho diferente ou era nórdico ou era estúpido. Ora, não consta que haja fiordes em Portugal e desde 1986 que a Europa não nos deixa ser (demasiado) estúpidos. Pelo contrário: de alguma forma, a Europa indicou-nos este caminho, ao “sugerir-nos” que não havia necessidade de produzirmos tanto em áreas como a agricultura e as pescas, por exemplo.
O descalabro poderia ser evitado? Claro. Aqui como na Espanha ou em Itália. Ou nos Estados Unidos. Mas, de certeza que cinco anos atrás havia assim tanta gente favorável a uma mudança de paradigma económico (que é aquilo que está em cima da mesa)?
Um destes dias, a Europa e os EUA vão descobrir que não se resolve em 24 meses um erro colectivo velho de trinta anos. Isto muito antes de descobrirem que a premissa de crescimento permanente em que assenta o capitalismo também terá de ser revista.

*Público de hoje.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Divertimento nocturno

Gonçalo Portocarrero de Almada é um padre que escreve de vez em quando no Público. O jornal deve ter ido buscá-lo ao fundo do gavetão de uma sacristia húmida e bolorenta, uma daquelas onde fantasmas de abades medievais guardam os paramentos que usam à noite para assombrar velhas ruínas de conventos ou mosteiros convertidos em pousadas de charme. (Todas têm o seu fantasma, como os mais genuínos castelos escoceses.) Foi lá buscá-lo, com aquele cheiro a parafina, porque um jornal precisa de ser pluralista, apartidário, representativo de toda a sociedade civil (múmias em sarcófago incluídas).
As questões “fracturantes” têm vários paladinos do lado apologista de quebrar a louça (no Bloco, na JS, até na JSD, em certos dias de maluqueira). O lado, digamos, conservador também tem alguns (Assunção Cristas, antes de ser ministra), mas Portocarrero assegura a representação da ala botina-de-elástico. É um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer.
Acresce que, para maior felicidade dos leitores, o escriba não só defende posições (sobre o aborto, a eutanásia, o casamento entre homossexuais, a identidade de género, todo o ramalhete) já de si cómicas como o faz com apreciável humor. Ou com apreciável tentativa disso, como na crónica de hoje.
Para sublinhar (ia dizer sublimar, Deus me perdoe) essa faceta das crónicas, e porque o jornal, avaro, lhe não disponibiliza um ilustrador, até se deixou fotografar com um sorriso de seminarista malandreco. Ei-lo ali, sarcástico, de negras vestes, pousado como um corvo (ou gralha? a “gralha” de estimação dos tipógrafos do Público) em cima das letras do próprio nome, em foto tipo passe com as cores um pouco saturadas (vermelhusco nas fauces, partida marota do jornal, certamente). O leitor vê a foto e sabe, é avisado que pode começar a rir. Se, por distracção, atravessar todo o texto com azedume, ferido no seu liberalismo, nas suas luzes, na sua inteligência; se, coisa pouco provável, o leitor chegar ao fim da prosa sem que a boa disposição o tome, o nosso presbítero, que está aqui para nos divertir, com cabeção e tudo, deixa-lhe uma derradeira possibilidade, a punch line infalível, as duas últimas linhas: «Licenciado em Filosofia e vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família.» De família