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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Diário de uma boina Basca

Quando soube que Vasco Pulido Valente regressara aos jornais com um diário publicado semanalmente no Público, não saquei logo a pistola porque não uso, mas pensei de imediato no prazer de me lançar na escrita contrapontística de um diário anti-Vasco. Saiu-me na hora um título e tudo: Diário de uma boina basca. Durante uma semana diverti-me com a ideia e sobretudo com o título — mas não me sentei ao computador. Quando finalmente o fiz, senti desolação: eu não ia querer obrigar-me semanalmente a ler aquela prosa sádica que, sob o argumento altruísta de nos mostrar o mundo como ele é, dedica fervor e fel à defesa de um péssimo mundo possível mas não inevitável.

Para alguns bem-intencionados, a escrita alegadamente irónica de Vasco cumpre hoje o papel das farpas de Eça de Queirós. Tem o mesmo espírito endiabrado, o gosto de fustigar a nação. É certo que, como Eça, Vasco procura o efeito e pretende ver o país por uma luneta. Mas o sátiro Eça elevava-se. O sarcástico Vasco entrincheira-se. As suas frases têm o resultado, por vezes implícito mas dificilmente involuntário, de defender posições conservadoras e cínicas.

Outros dizem que em certos aspectos a escrita de Vasco ressuma anacronia como a de Eça. Talvez apenas porque Vasco, historiador, engalana frequentemente a sua prosa punitiva com as casacas e as polainas da época. Mas na verdade, apesar das recorrentes alusões a figuras e factos do século XIX, nem o próprio Vasco pretende confundir-se com Eça, salvo na inconfessada ambição estética de ser o irónico-mor da pátria. E de facto os dois autores não se confundem: a décalage de Eça, morto de um século, não nos tolda o riso; já a pátina reaccionária do plumitivo Vasco, agora redivivo, mendiga pena.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Punk is dead

Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer coisa sentida. 
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.

Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.

Quando voltei a vê-lo, ao longe, cumprimentado na esplanada como uma veneranda figura, com uma mistura de solenidade de igreja, fila de autógrafos e trégua de velório (nem todos são alheios ao seu legado político), já havia vários passeios entre nós. A preguiça e uma vocação para sentir piedade e perdoar a quem nos tem ofendido pouparam-nos a ambos às consequências de uma súbita fúria punk. Isso e a canícula, que seca as glândulas salivares.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Being a hooligan

Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson (em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética. Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros. Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».

Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais profundas do rizoma. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A luta de Churchill e a luta de Hitler

Nos tempos que correm, parece boa ideia revisitar as Memórias da II Guerra Mundial, de Winston Churchill. A direita, porém, que costumava andar de boca cheia com citações ou episódios churchillianos, parece não achar o mesmo. Veja-se que simpatias tem a direita, que líderes e discursos aplaude, que condescendência selectiva pratica, que cinismo cultiva — da Alemanha à Inglaterra, da América ao Brasil, passando pelas colunas do Observador. Se não houvesse hoje razões ideológicas para rejeitar a direita, haveria as companhias que ela escolhe.

Em 2016 cessaram os direitos autorais sobre Mein Kampf — que a Baviera assumira depois do final da guerra e da morte de Hitler — e o Instituto de História Contemporânea de Munique-Berlim editou uma versão crítica com 3.500 notas que é já um best-seller. Inúmeros países querem os direitos de tradução (para já negados).
Segundo os editores, o perfil do comprador é de pesquisadores e pessoas interessadas em História. Talvez seja assim, mas não custa imaginar a direita a contribuir para o sucesso de vendas do calhamaço apenas para questionar o rigor das notas. É, desconfio, uma ocupação intelectual que muitos preferirão a, por exemplo, reflexões sobre a mestria na descrição histórica e biográfica e sobre a brilhante oratória na defesa de elevados valores humanos que o comité do Nobel viu nos escritos de Churchill.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Malefícios da idade?

Vasco Pulido Valente, vetusto comentador da imprensa, escreve isto:
«(…) neste tempo de euforia da esquerda, que a televisão e os jornais servilmente reflectem (…)».
E nesse ínterim nós lemos os jornais todos do país, que andam a levar nas palmas Marcelo Rebelo de Sousa, partilharem, por exemplo, esta “notícia”, por estas ou outras palavras:
«Centeno gastou "integralmente" a "almofada" financeira»
Como qualquer pessoa minimamente atenta sabe, nenhuma das afirmações acima é verdadeira.

Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Lição n.º 1

Muitas pessoas (e tantas delas são gente da informática ou das novas tecnologias) pensam que regras e convenções da escrita são uma espécie de capricho de gente conservadora, quando não uma demonstração de intolerância ou fascismo em relação a quem tem uma atitude mais «descontraída» com a língua e a escrita. Suponho que essas pessoas lêem pouco, ou apenas lêem o que escrevem. Ou ignoram regras e convenções quando escrevem porque na verdade se estão nas tintas para quem as vai ler.
O problema é quando algumas destas pessoas escrevem textos que, por uma razão ou outra, nos vemos forçados a ler. A sua forma «descontraída» de escrever geralmente significa que nós não vamos ter uma leitura descontraída, mas trabalhosa, aborrecida, tentando decifrar a sintaxe para conseguir chegar à semântica. Irrita-me quando antes de perceber a ideia ou argumento tenho de parar para perceber a frase. E irrito-me mais quando, depois de finalmente perceber a frase, descubro que não há uma ideia ou argumento (o que também é frequente).
Os praticantes desta «escrita descontraída», mesmo que pensem o contrário, são meros principiantes das letras e da comunicação. Não se relacionam suficientemente com a língua e a linguagem para perceber duas coisas:
1) Que as frases que escrevemos saíram da nossa cabeça e, por isso, somos capazes de entender facilmente um texto nosso, mesmo que ele esteja descuidado, mal pontuado, sem acentos e que ao escrevê-lo lhe tenhamos comido uma parte das palavras. Quem alguma vez se deu ao trabalho de rever a sério o que escreve sabe que é assim.
2) Aquilo a que noutros escritores chamamos de «escrita simples» é geralmente uma escrita bastante trabalhada — e que não ignora regras e convenções. Este tipo de «escritores simples» trabalha arduamente os textos para que a comunicação resulte límpida, transparente, sem dar trabalho desnecessário ao leitor (a não ser o que resulta da compreensão das ideias expressas).
Meus amigos: aspas, acentuação, vírgulas, pontos, travessões, itálicos (em estrangeirismos e títulos, por exemplo), concordância em género e número, correcta conjugação e aplicação de verbos, escolha rigorosa de adjectivos, etc. não são coisas antiquadas, desnecessárias, descartáveis. Não são, sequer, caprichos estilísticos de escritor. São a essência formal da comunicação escrita. Se não têm nada a dizer, não escrevam. Se acham que têm alguma coisa a dizer, lembrem-se que estão a escrever para seres que não convivem intimamente com os macaquinhos que vocês têm no sótão.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Gosto que os meus amigos bloggers ou facebookers façam de DJs. Em cada visita à internet vou coleccionando toda uma banda sonora do dia em janelas abertas à espera de serem ouvidas. Depois ouço-as, a maior parte das vezes com prazer e proveito. (Isto porque ganhei o higiénico hábito de ocultar chatos, pessoas desinteressantes e fãs do ‘Blasfémias’, que, como se sabe, têm péssimo gosto musical).

sábado, 31 de maio de 2014

Chicote

O inefável jornal do Blasfémias, que José Manuel Fernandes finge não dirigir, apresentou esta noite uma citação que resultaria irónica se não fosse cínica: «A função do jornal é confortar os atacados e atacar os confortáveis.*»

Depois de passar três anos a atacar os portugueses por terem «vivido acima das suas posses», depois de defender mais e mais cortes salariais (ainda hoje, aliás), depois de três anos sempre do lado dos bancos e das empresas que pagam impostos no estrangeiro, aquela gentinha resolveu vestir agora os collants de Robin Wood — não se percebe se para que ríssemos, se para açular o sádico que há em nós.


* Finley Peter Dunne

domingo, 25 de maio de 2014

Deus, diz-me onde construo a Arca.

Um agressor e assassino de mulheres é mascote de foto-piadolas na internet e é aplaudido na sua entrada em tribunal. Duas faces do mesmo país boçal. É perante quadros destes que acho a crise leve, enquanto nação merecemos mais, uma purga a sério, uma das pragas da Bíblia, pelo menos. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Pequenos retratos infames (3): Henrique ‘Santa Comba’ Raposo

É ilegítimo e vil usar aspectos físicos das pessoas para atacar as suas ideias ou posições políticas. Ou para as defender. Na minha pós-adolescência ocorreu acusarem-me de Júlio Isidro e simultaneamente piropearem-me de James Dean. (Hoje fariam pior.) Mas isso aconteceu, tanto para o mal como para o bem, porque na verdade ninguém, eu incluído, sabia ou se interessava pelo que eu pensava. Apenas estava toda a gente, de novo eu incluído, fascinada (como no circo) pelos diferentes ângulos da minha fotogenia: de frente para o James; de lado para o Júlio (nunca subestimem o poder afrodisíaco de um nariz).

Mas deixemos Narciso no seu lago. Se tivermos nobreza de princípios e intenções, será deveras impróprio e torpe lembrar o quanto Henrique Raposo, naquela sua foto de míope, se parece com um oficial das SS ou com um agente da Gestapo. O exercício é contudo legítimo se reconhecermos ao alvo dos nossos insultos uma inteligência capaz. Precisamente porque sabemos que Raposo não ignora as circunstâncias, as conotações e a vanidade de muitos dos seus artigozinhos irreverentes e caprichosos do Expresso, podemos, se formos igualmente mesquinhos, responder-lhe com um «Heil Hitler para ti também». Ou, pronto, não exageremos, o caso não é assim tão teutónico. Raposo talvez apenas se pareça com um mangas-de-alpaca doutrinário, uma espécie de primito lisboeta e envernizado do homem de Santa Comba, para quem basta um simples e nacional manguito das caldas. E se o caso for menos grave ainda — Raposo enquanto mero delfim de César das Neves, invejoso do sucesso daquele no anedotário luso (que não da avença, imagino que o Expresso pague mais) , até podemos achar o Henrique boa companhia para um copo. Quem não gosta de partilhar a mesa com um tipo mesmo de direita? Eu gosto, e o único amigo que tinha capaz de achar que a culpa da crise era dos gajos do rendimento mínimo vacilou nas convicções quando o Governo lhe foi ao bolso e o deixou mal equilibrado às portas do desemprego. Sinto por isso falta de alguém a quem possa pagar com gosto umas rodadas enquanto digo: o que bebes, nazi do caralho?

sábado, 1 de março de 2014

Pequenos retratos infames (2)

Helena Matos

Há uns anos entrevistei Helena Matos numa esplanada da Gulbenkian e, mesmo que a incompetente entrevista que publiquei não dê disso conta, fiquei com a sensação perturbadora de que em alguns momentos estava na presença de um espírito fanático. Por certos assomos de cólera, certas obsessões, certa impiedade. Sacudi a ideia da cabeça mas a passagem do tempo, receio, viria a dar razão ao pressentimento. Na altura fui ter com ela porque gostava da sua iconoclastia no Público, mas hoje verifico com desolação que aquilo que eu achava ser rebeldia tinha muito de facciosismo à espera de vez. Assim que a direita neocon (muitos não gostam do termo, mas desconfio que ela não se importa), na sua versão lusa, subiu ao poder, o que era nela desalinhamento, pensamento politicamente incorrecto, revelou-se engajamento, zelo, farisaísmo. Não necessariamente por fidelidade a um partido ou a um governo, mas a um ideal, ao ideal. A investigadora parecia um ser livre, contestatário, questionador, mas era sobretudo uma opositora (muitíssimas vezes com razão) de quem governava à época. O tempo, que tudo apura, agiu nela empedernindo-lhe (ainda mais) o coração e barricando-lhe as ideias na viela mais obscurantista por onde às vezes andava. Lê-la sobre homossexualidade, arte, direitos dos cidadãos e não a imaginar com bigode e pêra de inquisidor do Santo Ofício, como um ayatollah de calças, é um feito de que já não sou capaz, lamento. O seu retrato grava-no-lo ela a fogo, diligentemente, com requintes e provavelmente orações fervorosas, artigo após artigo, post atrás post.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pequenos retratos infames (1)

José Manuel Fernandes

Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto editorial, o Observador, que certamente não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos, uma espécie de Bonnie and Clyde com um gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo director do Público. Anos atrás, ele escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de “criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem. É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco grande de os portugueses confundirem o Observador com o Diário da República, quando notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício em assinar o Observador, onde as (más) novas legislativas aparecerão primeiro. O DR deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Ideologia e competências autárquicas

Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou timidez juvenil?) apresenta neste post:
«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»
É generoso da parte do blogger blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda acha que os mercados devem ser regulados.

* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia — raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A fé nunca morre

No Blasfémias aproveitaram o rescaldo das eleições para verter mais cera na hagiografia de Vítor Gaspar (1 e 2). Já se sabe, os santos morrem para que a fé possa sobreviver.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Tea Party Portugal

Um dos colaboradores do Blasfémias reclama um «Tea Party Brasil». Faz sentido. Poderia aproveitar e pedir a mudança do nome do blogue onde escreve. Tea Party Portugal assentava melhor e era mais honesto para um sítio como aquele.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Thin tank

No meu rotineiro exercício de masoquismo (a versão oficial defende que é abertura de espírito), passo os olhos pelo Blasfémias e, atendendo à assertividade do sítio, frequentemente me pergunto se não deveríamos entregar o governo do país à direita de Vítor Cunha, João Miranda, Rui A. e Gabriel Silva. Mas depois uma voz me diz: «Mas essa direita está no Governo e tem dado no que se vê!» E logo outra voz corrige: «Essa direita, ponto e vírgula: os rapazes não se entendem o suficiente entre si para que se possa dizer que há uma solução de direita para a crise ou para o que quer que seja.» O que não impede nenhum deles de ser 100% categórico, de estar 100% cheio de razão, 100% discordante de qualquer ideia de esquerda ou meramente dubitativa. Some-se a isso o histerismo fóbico de Helena Matos, a contribuição zelota de José Manuel Fernandes e a pegada deixada pelo hilário (e muito sintomático) Carlos Abreu Amorim* e temos ali um think tank de luxo.

* Estarão à espera de quê para contratar o ex-ministro e dr. Relvas para o lugar deixado vago na chafarica? 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Agora a cultura será efervescente

«Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2» (DN)
Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao sonho de uma menina.

Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.

A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise», mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível, directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».

Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?


P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa» implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo segundo os padrões de um público “efervescente”.