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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Bancos e cadeiras

Uma agência do banco Millennium está a livrar-se do mobiliário, não sei se porque o banco faliu (não tenho visto notícias) ou se porque estão em processo de lavagem de cara, como os bancos costumam fazer com frequência. O mobiliário está em óptimo estado, e no entanto está a ser carregado para uma camioneta de caixa aberta — em dia de chuva. Não é provável, portanto, que se destine a reaproveitamento. Já se sabe: os contribuintes pagam os problemas financeiros que os bancos arranjam, pagam os salários e prémios milionários dos gestores bancários (mesmo dos que falham clamorosamente na gestão e nunca devolvem os prémios) — podem, por isso, naturalmente, pagar a redecoração dos bancos.
Imagino que os acólitos do sistema financeiro também tenham uma boa justificação para este comportamento. Têm sempre. No Titanic talvez tenha havido quem defendesse que o ângulo de inclinação do convés não era um sintoma, mas uma característica da embarcação que no final revelava os seus benefícios para todos (banho grátis, por exemplo).
A mim dava-me jeito uma daquelas cadeiras, mas suponho que qualquer lixeira a céu aberto é mais bem vista e tem mais crédito do que eu junto dos bancos.

sábado, 1 de outubro de 2016

Indignação de classe

Eu devia saber que não se podem julgar as pessoas pelo aspecto. Durante anos fui lendo artigos de Maria de Fátima Bonifácio e espreitei-lhe a fotografia tipo-passe no cimo da coluna ou vi-a de relance num qualquer canal televisivo a emitir opinião no seu casaquinho de malha sem pretensão visível. Era apresentada como historiadora e respeitei-a abstractamente por ter uma profissão diferente dos políticos de carreira, embora a sua evidente inscrição na mais assanhada das direitas fizesse lembrar um daqueles espécimes.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.

Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?

Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.

P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sanções e Sansões

Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008. Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas. Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu. Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis. Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão — terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca, os tecidos agarram-se à pele.  

Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o lajedo em cima. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma epifania todoroviana para Marco António Costa

Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes, por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério — talvez adulto, para usar a terminologia do FMI — e salvífico da economia.

Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz, precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira universitária que então iniciou em França.

Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.

Marco António e um bom lote de políticos e economistas europeus são uma espécie de semióticos da actual ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo estéril e patético.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Um café no Agueiros

Juro que queria ter ido a Felgueiras esta semana. Nem toda a gente ali tem culpa do culto fatimida que durante anos vigorou no concelho, e de resto essa é uma religião partilhada pela maioria dos compatriotas, com uma ou outra variante regional no que ao orago diz respeito. A cidade tem um teatro bonito restaurado com franco optimismo há poucos anos e há nas redondezas uns cafés simpáticos. Não tanto pela decoração, mas pelo serviço. O Agueiros, por exemplo. Ah, um cimbalino, uma água das Pedras e um boletim do Euromilhões no Agueiros, em Felgueiras. Fica-se tão bem disposto que apetece ir logo pagar 20 milhões de impostos e desaparecer por uma década ou duas no sigilo bancário. Isso e substituir a foto de perfil no Facebook por um boneco das caldas.

domingo, 6 de julho de 2014

É caro e ineficiente manter o interior: encerra-o e deita fora a chave

Vasco Pulido Valente costuma dizer que este Governo não é neoliberal, e de facto talvez Passos Coelho não tenha conseguido ir tão longe quanto a casta desejaria em algumas áreas. Mas em várias medidas já concretizadas e em muitas outras planeadas o menino-cantor, com a sua melena beta e ar de sacripanta, é merecidamente o orgulho dos thatcherianos meridionais e setentrionais. É, por exemplo, um empenhado darwinista social (sector privado contra função pública, professores contra professores, jovens contra velhos, tudo tem promovido) e só não encerrará definitivamente o interior se o interior, por vezes tão irritantemente tradicionalista e atávico, não recuperar por um dia velhos hábitos e não se munir de varapaus e chuços para o correr daqui para fora da sua zona de conforto.

A propósito disto: 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Profissão de (pouca) fé

Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal da vizinhança, propriedade privada.
Mas se o jardim se transforma em horta, por força do “ajustamento”, o que passa a ser um cristo de braços abertos ali plantado? Uma confissão de impotência ou um aggiornamento? Talvez uma resignação: na impossibilidade de expulsar os vendilhões do templo, o filho de deus gosta de se saber útil a espantar os pardais do quintal. É isso ou o desemprego.

[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Revista de imprensa e blogosfera

Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias mas a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.

sábado, 15 de março de 2014

«Os senhores professores», disse ele

Anteontem ouvi na rádio Passos Coelho acusar algumas universidades de manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores professores» poderem dar aulas. Não é a questão da racionalidade da oferta universitária que aqui me interessa (sobre isso já discorri antes de haver crise). É o tom, a forma como Coelho expeliu aquele «senhores professores». Há expressões que dizem tudo, traem pensamentos e sentimentos. O Primeiro-Ministro naquela frase não acusou apenas as universidades de irrazoabilidade — achou também abusivo que os senhores professores quisessem dar aulas. Sem o dizer, achou absurdo que os senhores professores quisessem trabalhar.

Vinda de um Primeiro-Ministro que se opôs a qualquer medida capaz de criar emprego, vinda de um PM que favoreceu com a alegria e a jovialidade dos fanáticos a degradação do emprego (ou quando muito o emprego com salários de insulto), esta sua «racionalidade» na organização do Estado parece tão científica e altruísta quanto a «medicina» de Josef Mengele.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um "contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.


P.S. Visto no jas-mim.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A (pato)lógica bravura empresarial

1. Sobre o corte nas bolsas científicas diz o Ministro da Economia que não se pode «alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». Com Pires de Lima, suspeito, a investigação faz-se junto às linhas de engarrafamento da Unicer, com tempo contado para ir à casa de banho.

A solução é, portanto, cortar. Cortar nas bolsas aumentará decerto a investigação que chega à economia real. Deve ser a isto que, na mesma notícia, Pires de Lima chama «dar continuidade à trajectória de investimento, mas também procurar criar um modelo de estímulos e de sinais que ligue a investigação, a ciência, a educação à vida concreta e real das empresas». De facto, que melhor estímulo haverá para a «vida concreta» do que bolsos vazios?

3. Creio que a notícia não apresenta a citação completa do que o Ministro propunha. O que ele queria dizer era «ligar a investigação, a ciência, a educação à vida concreta e real das empresas falidas». Por uma questão de equidade, não faz realmente sentido que haja alguém a comer quando outros passam fome.

4. Quando esta rapaziada do PP e do PSD acabar de “salvar” o país, a única coisa que haverá para investigar, para além de algumas contas bancárias, é como tantos anos de história ficaram reduzidos a tão escassas cinzas. É sempre assim nos incêndios.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carne para canhão

Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.
Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que tem de haver milhões de sacrificados.

Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos Coelho, como outros que o precederam, apenas cumpre ordens. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Menos Estado (1)

Já se percebeu que os defensores de menos Estado não têm capacidade para pensar em mais nada. São monomaníacos. Perigosos. Porque nas actuais circunstâncias menos Estado é apenas igual a mais desemprego e menos economia. Uma abordagem sensata da crise pela União Europeia e pelo FMI teria implicado uma estratégia de fortalecimento do sector privado como alavanca para o emagrecimento do Estado. Porém, como os inconsequentes actos de contrição do FMI provam, as instituições da troika não são constituídas por gente sensata, mas por ideologia em estado puro. O objectivo daquelas instituições não parece ser uma sociedade melhor — mas uma sociedade, adivinharam, com menos Estado. Para alcançar o objectivo não se constroem estratégias razoáveis e praticáveis — avança-se a eito e à bruta, por decreto ou ultimato.
Argumentarão que a troca das premissas não era condição para o fracasso. Que, pelo contrário, começar por emagrecer o Estado é que era condição para fortalecer o sector privado. Talvez uns anos antes pudesse ter sido assim. Talvez daqui a uns anos possa ser assim.
Neste período, emagrecer o Estado implicará emagrecer uma parte substancial da população.

Talvez em certos sistemas filosóficos ou ideológicos seja legítimo sacrificar uma parte da sociedade para que a outra sobreviva com menos Estado. Já se sabe: onde uns vêm distopias, outros vêem utopias. É tudo uma questão de perspectiva — e de ter ou não ter almoçado. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cortinas de fumo

No que toca a direita fanática, o blogue Blasfémias, de José Manuel Fernandes, Helena Matos, Carlos Abreu Amorim e eminências afins, é outra louça. Ali, mesmo que não haja cortinas de fumo, assobia-se frequentemente para o lado. No caso Relvas, já não havia vigarista em Portugal que não se escandalizasse com o ex-ministro quando no blogue se começou, timidamente, a achar indigna a presença do homem no Governo.  Agora tenho espreitado, mas ainda não vi uma pálida reacção ao affaire Rogoff. Vi, como de costume, muitas anedotas sobre o PS (e achei bem), mas isso talvez sejam afinal cortinas de fumo.

Tavares, Reinhart e Rogoff

Não voltei a ler artigos de João Miguel Tavares, essa irritante representação do neoliberalismo tuga e da direita economicamente fanática, mas tenho curiosidade. Tenho curiosidade porque entretanto Kenneth Rogoff, o ás da economia que os neoliberais elegeram como papa (ou branca cortina de fumo, não sei bem), veio dizer num artigo no The New York Times que, afinal, defende desde há muito o perdão parcial das dívidas de países da periferia. Também disse que ele e Carmen Reinhart (que co-assina o artigo) sempre aconselharam que se evitasse a retirada demasiado rápida dos estímulos orçamentais à economia. Disse isto e mais umas coisas que deitam por terra a cientificidade de Gaspar, Tavares e C.ª e provavelmente merecerão de João Miguel insultos que ele em geral reserva à esquerda.

É claro que o diz-que-sempre-disse de Rogoff é a sua tentativa de se demitir de pai de uma austeridade cega que entretanto falhou. E é um diz-que-sempre-disse carente de comprovação cronológica.  Mas, ainda que estas sejam na realidade afirmações pós-fracasso, prognósticos de fim de jogo, não deixam de ser uma posição interessante que nos põe expectantes quanto à reacção de discípulos beatos como João Miguel Tavares. Será que o cronista do Público vai descobrir um tijolo ainda maior do que This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly para nos arremessar? Ou é desta que desiste do bullying e modera a ferocidade de zelota do templo? 


P.S. Sobre este assunto, leia-se este texto de um blogue da New Yorker.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

3. (Ainda o João Miguel Tavares)

Afinal a saída de Pedro Lomba da última página do Público não devolveu um moderado de direita àquela secção do jornal, oportunidade que referi há dias por ironia descrente ou cinismo. Pelo contrário. Desconfio que a mudança até fará empalidecer Vasco Pulido Valente (colunista que, embora por conveniência a uma velha historiografia in progress, até já aceita haver no aprofundar da crise europeia um dedo ou pelo menos uma alegria alemães; que talvez a Deutschland não seja sempre apenas um território de dignos e inquestionáveis credores).

2. Prestidigitadores

O post anterior não rouba toda a razão a João Miguel Tavares na sua defesa da austeridade. Não é essa a questão. Contesta é o seu precipitado argumento de autoridade.
No que toca à austeridade, não adianta muito estar contra ou a favor: ela impõe-se se o dinheiro escasseia. E ninguém em rigor pode negar pertinência a Tavares quando afirma que «sim, foi a imprudência em tempos de vacas gordas […] que nos trouxe até aqui». De resto, outra sua afirmação no mesmo artigo é também verdadeira, embora no seu facciosismo ele restrinja um defeito nacional apenas à esquerda: «Boa parte da nossa esquerda ainda acredita que o verdadeiro líder político é aquele que consegue dobrar a matemática e a economia com a força da sua vontade.» Infelizmente, esta é uma característica geral lusitana, entre outras coisas responsável por termos Passos Coelho como primeiro-ministro — e Vítor Gaspar como ministro das finanças. A promessa do prestidigitador é o salvo-conduto para ganhar eleições (vide Junho de 2011), mas é igualmente o que tem sido vendido para sair da crise. A matemática e a economia não se têm mostrado mais dúcteis perante os passes de Gaspar do que perante os truques da esquerda antes dele. Isto e o erro de Reinhart & Rogoff deveriam ser suficientes para um pouco mais de humildade da direita ultramontana. Antes de nos prescreverem os calhamaços e as sangrias desatadas deviam talvez ir rever contas e conclusões. É que aqueles de nós que não são da esquerda esbanjadora nem da direita impiedosa gostariam de cair no abismo sabendo que tal não aconteceu apenas porque alguém no poder ou nos jornais achou aceitável o sacrifício e desnecessário rever dogmas.

1. O argumento do tijolo

João Miguel Tavares é um conhecido e enérgico defensor da austeridade. No seu artigo desta terça-feira no Público pretendeu arrefecer os ânimos dos que se alegraram por ter sido descoberto um erro no célebre ficheiro Excel de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, frequentemente citado pelos promotores da austeridade. E que argumentação usou Tavares? Uma de peso. Ou de volume. De número de páginas. É que, diz o jornalista, ao contrário do que pensa a massa ignara, aquela dupla de economistas não se tornou famosa pelas «26 páginas de Growth in a Time of Debt», o artigo que continha o erro, mas sim pelas 512 páginas de This Time Is Different — Eight Centuries of Financial Folly, «um tijolo que se distingue precisamente pela avassaladora quantidade de dados que os autores foram capazes de coligir».

Ora, isto parece mais bullying do que argumentação. Como se alguém dissesse: «Não levam a sério as minhas palavras? Experimentem o meu peso», sentando de seguida os seus 120 quilos de hambúrgueres sobre o adversário para o calar.

A lógica de João Miguel Tavares pretende que o leitor, conhecido o erro de um artigo, ceda com alegria ao argumento da quantidade de informação em vez de, preventivamente, precavidamente, alertado pelo exemplo, se perguntar como e que informação foi coligida, e que influência isso teve nas conclusões alcançadas pelo cartapácio. Como se um erro em 26 páginas, e a interpretação fragilizada dele resultante, fosse mais improvável em meio milhar delas.

João Miguel Tavares quer enfim que nos verguemos perante a autoridade do calhamaço. É muito comum nos dogmáticos. Tome-se a Bíblia, por exemplo.