Uma agência do banco Millennium está a livrar-se do mobiliário, não sei se porque o banco faliu (não tenho visto notícias) ou se porque estão em processo de lavagem de cara, como os bancos costumam fazer com frequência. O mobiliário está em óptimo estado, e no entanto está a ser carregado para uma camioneta de caixa aberta — em dia de chuva. Não é provável, portanto, que se destine a reaproveitamento. Já se sabe: os contribuintes pagam os problemas financeiros que os bancos arranjam, pagam os salários e prémios milionários dos gestores bancários (mesmo dos que falham clamorosamente na gestão e nunca devolvem os prémios) — podem, por isso, naturalmente, pagar a redecoração dos bancos.
Imagino que os acólitos do sistema financeiro também tenham uma boa justificação para este comportamento. Têm sempre. No Titanic talvez tenha havido quem defendesse que o ângulo de inclinação do convés não era um sintoma, mas uma característica da embarcação que no final revelava os seus benefícios para todos (banho grátis, por exemplo).
A mim dava-me jeito uma daquelas cadeiras, mas suponho que qualquer lixeira a céu aberto é mais bem vista e tem mais crédito do que eu junto dos bancos.
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sexta-feira, 4 de novembro de 2016
sábado, 1 de outubro de 2016
Indignação de classe
Eu devia saber que não se podem julgar as pessoas pelo aspecto. Durante anos fui lendo artigos de Maria de Fátima Bonifácio e espreitei-lhe a fotografia tipo-passe no cimo da coluna ou vi-a de relance num qualquer canal televisivo a emitir opinião no seu casaquinho de malha sem pretensão visível. Era apresentada como historiadora e respeitei-a abstractamente por ter uma profissão diferente dos políticos de carreira, embora a sua evidente inscrição na mais assanhada das direitas fizesse lembrar um daqueles espécimes.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.
Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?
Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.
P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.
O que não me tinha ocorrido, juro, era que Maria de Fátima fosse «rica». Não só rica por ter dinheiro, mas «rica» por herança genética. Digo genética porque, percebi hoje, mais importante do que o dinheiro (que ainda assim é importante) é o grupo social — ou classe, se quiserem (e ela quer) — onde se nasce.
O artigo de Bonifácio no Observador é duma eloquência autobiográfica inesperada (para mim). O tema é Mariana Mortágua (o tema preferido da direita nos dias que correm) e é desde logo enternecedora a forma como Maria de Fátima põe a rapariga no seu lugar, que não é definitivamente o mesmo onde Fátima se encontra: «Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos.» Traduzindo: Mariana Mortágua, essa mulherzinha, não nasceu numa família de ricos, não pode, portanto, julgá-los e muito menos propor impostos sobre eles.
Mortágua, como se sabe, é o arauto do «ódio de classe». E reagir à ideia de ódio de classe com essa maravilha filosófica do «orgulho de classe», assumido belicamente por Bonifácio, é o argumento definitivo para arrumar a esquerda. O que pode ser mais racional do que ter orgulho no grupo social a que se pertence? Não é apenas na família, é no conjunto das pessoas que se nos assemelham em posses e origens. Sabem todos os doentes da bola e todos os patrioteiros que não há nada melhor e mais puro do que o nosso grémio, por idiota que ele seja.
Maria de Fátima Bonifácio, historiadora de formação e «rica» por herança e genes, aprendeu cedo «o valor supremo do trabalho e da honestidade». Julgo que ela não quer dizer que teve acesso precoce aos extractos bancários da família, mas também não sugere que a sua eventual fortuna pessoal se deve aos ovos que vendia em criança, como a filha de José Eduardo dos Santos. Terão sido a educação e a observação do intenso labor familiar que lhe forneceram essas noções sobre os benefícios do trabalho. O certo é que daí em diante aprendeu «a poupar o necessário para evitar depender de terceiros». (Devemos concluir que todos os que dependem de terceiros não sabem poupar?)
Não parece haver grande mérito em poupar quando se herda, pelo menos não mérito suficiente para moralizar arrogantemente sobre o trabalhador comum, como Maria de Fátima faz com regularidade, pelo que quando fala em saber poupar talvez se refira ao dinheiro que põe de parte do seu salário de historiadora. Mas nesse caso isso poderia significar que Maria de Fátima não soube poupar a herança, o que faria dela uma vulgar estroina, ou que aquela lhe foi confiscada no pós-25 de Abril — e isso explicaria o seu ódio às classes baixas. Sim, porque nisto de ódio de classe há uma reciprocidade, como resulta evidente da leitura da prosa bonifácia.
A verdade é que cada proletário deste mundo ambiciona ser um daqueles «burgueses» de que Maria de Fátima tanto se orgulha de ser. O que acontece é que a maioria deles não nasceu numa família rica, não teve um «Pai», com ou sem maiúscula, industrioso como o dela. E não tem culpa disso, uma culpa que deva expiar pagando proporcionalmente mais impostos do que os «ricos», ou que consiga expiar apenas trabalhando «mais e melhor», como Bonifácio de algum modo sugere.
Uma crise instalou-se no país há vários anos e só por profunda falácia (ou exacerbado e patético orgulho de classe) se pode dizer que a culpa foi dos pobres ou remediados. Na última legislatura aumentou-se «brutalmente» a carga de impostos, sobretudo dos assalariados. Não chegou para resolver o problema, pelos vistos. Será então assim tão escandaloso que, antes de fragilizar ainda mais os trabalhadores por conta de outrem ou de os condenar ao desemprego (e lá se vai a teoria do «trabalhar mais e melhor»), se procure que novos impostos recaiam sobre quem, ficando um pouco menos rico, não ficará certamente pobre? O que há nisto de imoral?
Nem todos acreditamos que «em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos», já não acreditamos na pirâmide de champanhe, por gira que seja a ilustração, e parece haver um bom número de estatísticas e estudos a dizer o mesmo, incluindo um apoiado pela pouco plebeia Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Embora aborde assuntos económicos, o artigo de Maria de Fátima Bonifácio não se dá muito ao trabalho de atacar Mortágua por propor um imposto que afastará investidores, como outros fazem, talvez com mais pudor em exibir o seu orgulho de classe. Não está no artigo encenado, como é mais habitual, um confronto entre a solução dos impostos e, por exemplo, a solução do emagrecimento do Estado. É mais franco o artigo de Maria de Fátima e por isso mais esclarecedor. A sua é simplesmente ou sobretudo uma reacção alérgica, uma repulsa snob, uma mais aristocrática do que burguesa indignação de classe.
P.S. E agora, como o amigo de Rui Bebiano, vou ali aprender russo para ver se leio Marx no original.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Sanções e Sansões
Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os
portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008.
Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de
amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se
lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas.
Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco
elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que
determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que
se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu.
Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo
consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos
anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram
a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não
era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si
mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina
como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube
europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente
previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar
ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente
a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a
ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la
sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha
visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais
de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares
precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis.
Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do
país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão —
terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais
fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que
ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer
racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia
insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca,
os tecidos agarram-se à pele.
Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto
porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se
prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o
lajedo em cima.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Uma epifania todoroviana para Marco António Costa
Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes,
por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não
resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate
político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar
essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério —
talvez adulto, para usar a terminologia
do FMI — e salvífico da economia.
Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos
anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz,
precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era
preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia
ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício
simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu
um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas
linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e
vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira
universitária que então iniciou em França.
Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em
perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov
nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se
tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade
de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura
em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente
a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.
Marco António e um bom lote de políticos e economistas
europeus são uma espécie de semióticos da actual
ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania
todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em
comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo
estéril e patético.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Um café no Agueiros
Juro que queria ter ido a Felgueiras esta semana. Nem toda a gente ali tem culpa do culto fatimida que durante anos vigorou no concelho, e de resto essa é uma religião partilhada pela maioria dos compatriotas, com uma ou outra variante regional no que ao orago diz respeito. A cidade tem um teatro bonito restaurado com franco optimismo há poucos anos e há nas redondezas uns cafés simpáticos. Não tanto pela decoração, mas pelo serviço. O Agueiros, por exemplo. Ah, um cimbalino, uma água das Pedras e um boletim do Euromilhões no Agueiros, em Felgueiras. Fica-se tão bem disposto que apetece ir logo pagar 20 milhões de impostos e desaparecer por uma década ou duas no sigilo bancário. Isso e substituir a foto de perfil no Facebook por um boneco das caldas.
domingo, 6 de julho de 2014
É caro e ineficiente manter o interior: encerra-o e deita fora a chave
Vasco Pulido Valente costuma dizer que este Governo não é
neoliberal, e de facto talvez Passos Coelho não tenha conseguido ir tão longe
quanto a casta desejaria em algumas áreas. Mas em várias medidas já concretizadas
e em muitas outras planeadas o menino-cantor, com a sua melena beta e ar de
sacripanta, é merecidamente o orgulho dos thatcherianos meridionais e
setentrionais. É, por exemplo, um empenhado darwinista social (sector privado contra
função pública, professores contra professores, jovens contra velhos, tudo tem
promovido) e só não encerrará definitivamente o interior se o interior, por
vezes tão irritantemente tradicionalista e atávico, não recuperar por um dia
velhos hábitos e não se munir de varapaus e chuços para o correr daqui para fora
da sua zona de conforto.
A propósito disto:
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Profissão de (pouca) fé
Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch
na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal
da vizinhança, propriedade privada.
[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Revista de imprensa e blogosfera
Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias mas a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.
sábado, 15 de março de 2014
«Os senhores professores», disse ele
Anteontem ouvi na rádio Passos Coelho acusar algumas universidades de
manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores
professores» poderem dar aulas. Não é a questão da racionalidade da oferta
universitária que aqui me interessa (sobre isso já discorri antes de
haver crise). É o tom, a forma como Coelho expeliu aquele «senhores
professores». Há expressões que dizem tudo, traem pensamentos e sentimentos. O
Primeiro-Ministro naquela frase não acusou apenas as universidades de
irrazoabilidade — achou também abusivo que os senhores professores quisessem
dar aulas. Sem o dizer, achou absurdo que os senhores professores quisessem
trabalhar.
Vinda de um Primeiro-Ministro que se opôs a qualquer medida capaz de criar
emprego, vinda de um PM que favoreceu com a alegria e a jovialidade dos fanáticos
a degradação do emprego (ou quando muito o emprego com salários de insulto), esta sua
«racionalidade» na organização do Estado parece tão científica e altruísta
quanto a «medicina» de Josef Mengele.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
The show must go on
Perante um
"contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal
engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de
pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.
P.S. Visto no jas-mim.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
A (pato)lógica bravura empresarial
1. Sobre o corte nas bolsas científicas diz o Ministro da Economia que
não se pode «alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». Com Pires de Lima, suspeito,
a investigação faz-se junto às linhas de engarrafamento da Unicer, com tempo
contado para ir à casa de banho.
2. «Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real», continuou o ministro.
A solução é, portanto, cortar. Cortar nas bolsas aumentará decerto a
investigação que chega à economia real. Deve ser a isto que, na mesma notícia,
Pires de Lima chama «dar continuidade à trajectória de investimento, mas também
procurar criar um modelo de estímulos e de sinais que ligue a investigação, a
ciência, a educação à vida concreta e real das empresas». De facto, que melhor
estímulo haverá para a «vida concreta» do que bolsos vazios?
3. Creio que a notícia não apresenta a citação completa do que o
Ministro propunha. O que ele queria dizer era «ligar a investigação, a ciência,
a educação à vida concreta e real das empresas falidas». Por uma questão de equidade, não faz realmente sentido
que haja alguém a comer quando outros passam fome.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Carne para canhão
Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como
afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de
estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de
general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e
o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para
ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo
de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia
de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que
apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas
tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que
punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando
num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à
distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele
bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi
necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos
usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.
Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não
saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga
que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é
que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no
sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos
superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos
Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que
tem de haver milhões de sacrificados.
Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados
na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o
milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos
Coelho, como outros que o precederam, apenas cumpre ordens.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Menos Estado (1)
Já se percebeu que os defensores de menos Estado não têm capacidade
para pensar em mais nada. São monomaníacos. Perigosos. Porque nas actuais
circunstâncias menos Estado é apenas igual a mais desemprego e menos economia.
Uma abordagem sensata da crise pela União Europeia e pelo FMI teria implicado uma
estratégia de fortalecimento do sector privado como alavanca para o
emagrecimento do Estado. Porém, como os inconsequentes actos de contrição do
FMI provam, as instituições da troika não são constituídas por gente sensata,
mas por ideologia em estado puro. O objectivo daquelas instituições não parece
ser uma sociedade melhor — mas uma sociedade, adivinharam, com menos Estado. Para alcançar o objectivo
não se constroem estratégias razoáveis e praticáveis — avança-se a eito e à bruta,
por decreto ou ultimato.
Argumentarão que a troca das premissas não era condição para o
fracasso. Que, pelo contrário, começar por emagrecer o Estado é que era condição
para fortalecer o sector privado. Talvez uns anos antes pudesse ter sido assim.
Talvez daqui a uns anos possa ser assim.
Neste período, emagrecer o Estado implicará emagrecer uma parte substancial
da população.
Talvez em certos sistemas filosóficos ou ideológicos seja legítimo sacrificar
uma parte da sociedade para que a outra sobreviva com menos Estado. Já se sabe:
onde uns vêm distopias, outros vêem utopias. É tudo uma questão de perspectiva
— e de ter ou não ter almoçado.
terça-feira, 30 de abril de 2013
Cortinas de fumo
No que toca a direita fanática, o blogue Blasfémias, de José Manuel Fernandes, Helena Matos, Carlos Abreu Amorim e eminências afins, é outra louça. Ali, mesmo que não haja cortinas de fumo, assobia-se frequentemente para o lado. No caso Relvas, já não havia vigarista em Portugal que não se escandalizasse com o ex-ministro quando no blogue se começou, timidamente, a achar indigna a presença do homem no Governo. Agora tenho espreitado, mas ainda não vi uma pálida reacção ao affaire Rogoff. Vi, como de costume, muitas anedotas sobre o PS (e achei bem), mas isso talvez sejam afinal cortinas de fumo.
Tavares, Reinhart e Rogoff
Não voltei a ler artigos de João Miguel Tavares, essa irritante representação do neoliberalismo tuga e da direita economicamente fanática, mas tenho curiosidade. Tenho curiosidade porque entretanto Kenneth Rogoff, o ás da economia que os neoliberais elegeram como papa (ou branca cortina de fumo, não sei bem), veio dizer num artigo no The New York Times que, afinal, defende desde há muito o perdão parcial das dívidas de países da periferia. Também disse que ele e Carmen Reinhart (que co-assina o artigo) sempre aconselharam que se evitasse a retirada demasiado rápida dos estímulos orçamentais à economia. Disse isto e mais umas coisas que deitam por terra a cientificidade de Gaspar, Tavares e C.ª e provavelmente merecerão de João Miguel insultos que ele em geral reserva à esquerda.
É claro que o diz-que-sempre-disse de Rogoff é a sua tentativa de se demitir de pai de uma austeridade cega que entretanto falhou. E é um diz-que-sempre-disse carente de comprovação cronológica. Mas, ainda que estas sejam na realidade afirmações pós-fracasso, prognósticos de fim de jogo, não deixam de ser uma posição interessante que nos põe expectantes quanto à reacção de discípulos beatos como João Miguel Tavares. Será que o cronista do Público vai descobrir um tijolo ainda maior do que This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly para nos arremessar? Ou é desta que desiste do bullying e modera a ferocidade de zelota do templo?
P.S. Sobre este assunto, leia-se este texto de um blogue da New Yorker.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
3. (Ainda o João Miguel Tavares)
Afinal a saída de Pedro Lomba da última página do Público não devolveu um moderado de direita àquela secção do jornal, oportunidade que referi há dias por ironia descrente ou cinismo. Pelo contrário. Desconfio que a mudança até fará empalidecer Vasco Pulido Valente (colunista que, embora por conveniência a uma velha historiografia in progress, até já aceita haver no aprofundar da crise europeia um dedo ou pelo menos uma alegria alemães; que talvez a Deutschland não seja sempre apenas um território de dignos e inquestionáveis credores).
2. Prestidigitadores
O post anterior não rouba toda a razão a João Miguel Tavares na sua defesa da
austeridade. Não é essa a questão. Contesta é o seu precipitado argumento de
autoridade.
No que toca à austeridade, não adianta muito estar contra ou a favor: ela
impõe-se se o dinheiro escasseia. E ninguém em rigor pode negar pertinência a
Tavares quando afirma que «sim, foi a imprudência em tempos de vacas
gordas […] que nos trouxe até aqui». De resto, outra sua afirmação no mesmo
artigo é também verdadeira, embora no seu facciosismo ele restrinja um defeito
nacional apenas à esquerda: «Boa parte da nossa esquerda ainda acredita que o
verdadeiro líder político é aquele que consegue dobrar a matemática e a
economia com a força da sua vontade.» Infelizmente, esta é uma característica
geral lusitana, entre outras coisas responsável por termos Passos Coelho como
primeiro-ministro — e Vítor Gaspar como ministro das finanças. A promessa do
prestidigitador é o salvo-conduto para ganhar eleições (vide Junho de 2011),
mas é igualmente o que tem sido vendido para sair da crise. A matemática e a
economia não se têm mostrado mais dúcteis perante os passes de Gaspar do que
perante os truques da esquerda antes dele. Isto e o erro de Reinhart &
Rogoff deveriam ser suficientes para um pouco mais de humildade da direita
ultramontana. Antes de nos prescreverem os calhamaços e as sangrias desatadas
deviam talvez ir rever contas e conclusões. É que aqueles de nós que não são da
esquerda esbanjadora nem da direita impiedosa gostariam de cair no abismo
sabendo que tal não aconteceu apenas porque alguém no poder ou nos jornais
achou aceitável o sacrifício e desnecessário rever dogmas.
1. O argumento do tijolo
João Miguel Tavares é um conhecido e enérgico defensor da austeridade. No
seu artigo desta terça-feira no Público
pretendeu arrefecer os ânimos dos que se alegraram por ter sido descoberto um
erro no célebre ficheiro Excel de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff,
frequentemente citado pelos promotores da austeridade. E que argumentação usou
Tavares? Uma de peso. Ou de volume. De número de páginas. É que, diz o
jornalista, ao contrário do que pensa a massa ignara, aquela dupla de economistas
não se tornou famosa pelas «26 páginas de Growth
in a Time of Debt», o artigo que continha o erro, mas sim pelas 512 páginas
de This Time Is Different — Eight
Centuries of Financial Folly, «um tijolo que se distingue precisamente pela
avassaladora quantidade de dados que os autores foram capazes de coligir».
Ora, isto parece mais bullying
do que argumentação. Como se alguém dissesse: «Não levam a sério as minhas
palavras? Experimentem o meu peso», sentando de seguida os seus 120 quilos de hambúrgueres
sobre o adversário para o calar.
A lógica de João Miguel Tavares pretende que o leitor, conhecido o erro
de um artigo, ceda com alegria ao argumento da quantidade de informação em vez
de, preventivamente, precavidamente, alertado pelo exemplo, se perguntar como e que informação foi coligida, e que influência isso teve nas conclusões
alcançadas pelo cartapácio. Como se um erro em 26 páginas, e a interpretação
fragilizada dele resultante, fosse mais improvável em meio milhar delas.
João Miguel Tavares quer enfim que nos verguemos perante a autoridade
do calhamaço. É muito comum nos dogmáticos. Tome-se a Bíblia, por exemplo.
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