Um misantropo é capaz de compreender que não se goste de pessoas, porque ao fim e ao cabo ele próprio não as tem em grande estima. Um pessimista antropológico (ou, se quisermos, um realista que consulte as tiragens dos jornais, as audiências das televisões, as listas de livros mais vendidos e a opinião comum nas redes sociais) receia com bons motivos o advento da democracia directa e pergunta-se, como o misantropo, para quando as viagens a Marte.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
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sábado, 15 de agosto de 2020
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Ironia
Na minha vida de plumitivo, quando possuía carteira de jornalista, hesitava involuntariamente entre dois estilos: o editorialista e o ironista. Ambas as formas derivavam da indignação, mas enquanto a primeira me expunha como ser moral e senciente a segunda desvendava as escadas que conduzem ao Olimpo da fleuma (e que nunca consegui verdadeiramente subir até ao fim).
Se me tornei um admirador da ironia não foi porque via nela utilidade directa para o mundo, mas porque adivinhei benefícios para o praticante. Não podendo espadeirar a comarca como ela precisa, mais vale rirmo-nos dela salvaguardando distâncias profilácticas.
Convém todavia lembrar que a ironia anda de mãos dadas com a liberdade e a democracia. Só quando não nos levamos suficientemente a sério e sentimos um necessário desprezo pelos que o fazem estamos capazes de resistir à bestialidade.
A Inglaterra não resistiu ao nazismo por ser uma ilha, mas pela sua capacidade de escárnio. Que nas décadas seguintes cultivou, como antes, na literatura, na política e na música, até optar, em degradée, pelo género menor da caricatura, com Cameron, May e Johnson.
Em Portugal conheço dois focos historicamente activos de ironia: o Rui Reininho dos GNR (Q.E.D.) e Vilarelho de Jales, onde pela mão dos irmãos Chaves, eles próprios capazes de fina ironia, conheci uma tribo cujo lugar de pontífice era disputado por Mó, irmão de Salu. Se a imbecilidade nacional continuar a dar crédito ao rapaz do Chega, é ali que me encontram, naquela aldeia mais britânica do que gaulesa, a bebericar copinhos de poção irónica e a entronizar Reininho como monarca de direito para liderar a reconquista.
Se me tornei um admirador da ironia não foi porque via nela utilidade directa para o mundo, mas porque adivinhei benefícios para o praticante. Não podendo espadeirar a comarca como ela precisa, mais vale rirmo-nos dela salvaguardando distâncias profilácticas.
Convém todavia lembrar que a ironia anda de mãos dadas com a liberdade e a democracia. Só quando não nos levamos suficientemente a sério e sentimos um necessário desprezo pelos que o fazem estamos capazes de resistir à bestialidade.
A Inglaterra não resistiu ao nazismo por ser uma ilha, mas pela sua capacidade de escárnio. Que nas décadas seguintes cultivou, como antes, na literatura, na política e na música, até optar, em degradée, pelo género menor da caricatura, com Cameron, May e Johnson.
Em Portugal conheço dois focos historicamente activos de ironia: o Rui Reininho dos GNR (Q.E.D.) e Vilarelho de Jales, onde pela mão dos irmãos Chaves, eles próprios capazes de fina ironia, conheci uma tribo cujo lugar de pontífice era disputado por Mó, irmão de Salu. Se a imbecilidade nacional continuar a dar crédito ao rapaz do Chega, é ali que me encontram, naquela aldeia mais britânica do que gaulesa, a bebericar copinhos de poção irónica e a entronizar Reininho como monarca de direito para liderar a reconquista.
domingo, 26 de abril de 2020
Um 25 de Abril
Há muitos, muitos anos, noutra encarnação, eu era baixista numa banda que no seu derradeiro momento perdeu para os Ornatos Violeta e paralelamente fazia gigs, como agora se diz em bom português, em bares, salões de baile, comícios e cerimónias de 25 de Abril.
Bem, no 25 de Abril tocámos apenas uma vez, que me lembre.
Foi na Adega do Faustino, esse templo dionisíaco em Chaves, e como a coisa era à tarde ainda não estávamos suficientemente bêbados para eu logo ter esquecido tudo. Não é que lembre grandes detalhes (foi há muitos, muitos anos, como disse...), mas há uma parte que ficou, não sei se comovente se cómica. Já veremos.
Éramos um trio, por vezes quarteto ou quinteto (não dependia do cachet), que levava o trabalho a sério e para aquele dia preparámos, por gosto musical e adequação temática, várias obras do Zeca Afonso. Não tínhamos ideias políticas muito definidas, acho, e na minha família recuada até havia certa admiração (felizmente retórica, sem correspondência material) por Salazar, mas o imaginário e mensagem afonsinos seduziam-nos, além de que não éramos tão estúpidos que não percebêssemos a importância do 25 de Abril até para o simples facto de podermos estar ali a desfrutar de tão faustinos prazeres.
Mas, como disse, tínhamos ido para trabalhar, em bom rigor, pelo que havíamos preparado um alinhamento que incluía, como se imagina, como se impunha, a «Grândola». Mais do que prevê-la no alinhamento, planeámos o set para que aquela música fosse o apogeu, a razão última de ali termos ido. Não sabíamos, ou quisemos ignorar, que esse era também o sentimento do público.
Ficámos por isso surpreendidos — embora tivéssemos montado todo um número em torno da «Grândola» que incluía sacar o baterista a tarola do seu tripé para fazer de caixa de rufos e alinharmos com ele as guitarras e o passo como pelotão napoleónico em marcha —, ficámos então surpreendidos (e quase, quase, envaidecidos, penhorados) por aos primeiros rufos se ter levantado toda a audiência para, numa rigidez e seriedade de hino nacional, algumas mãos no peito, aguardar que despachássemos o prelúdio e a encenação que tanto nos orgulhavam e chegássemos, como era mister, à parte cantada, em que todos podiam participar, dando finalmente como bem cumprido o seu dia cerimonioso.
Num outro ‘concerto’, em diferente localidade e ocasião, tínhamos conquistado a sala quando, por manifesta incapacidade de sermos artisticamente compreendidos pelo público, desistimos do repertório ensaiado e atacámos, por gozo, por revanche, por casualidade até, as notas memoráveis duma peça que dava pelo nome arcádico de «Apita o Comboio». A assembleia levantou-se com um ânimo que fazia da imagem que anteriormente tínhamos dela uma vista de lápides em campo santo, juntou-se em pares e bailou como se não houvesse amanhã. Perante aquela explosão súbita, perante aquela alegria que não queríamos ser culpados de tornar breve (ai de nós, diziam-nos alguns olhares), improvisámos mais longamente que os Pink Floyd em Pompeia, dispostos a despir a camisa (e a gravata, usávamos gravata) se necessário fosse.
Ora, com uma carreira que obtinha reacções assim, podíamo-nos ter interrogado (mas nunca o fizemos, claro) sobre as vantagens que um gira-discos não teria para o público, o promotor e sobretudo a nossa dignidade artística.
No 25 de Abril flaviense, com a «Grândola», nós queríamos causar aquela reacção, aquela comoção, planeáramos aquilo, mas quando aconteceu não estávamos suficientemente confiantes de sermos capazes de o obter. Podíamos então ter sido artistas realizados — se não tivéssemos percebido logo, com uma clareza que na verdade sempre fora evidente, que o empolgamento não estava na nossa prestação, mas na canção e no que ela representava. O melhor que podíamos ter feito naquele dia, do ponto de vista da originalidade artística, da capacidade de atrair atenções especificamente para o nosso trabalho, era termos destruído a música e o momento logo depois dos primeiros coros, mas não tínhamos vocação punk. E também não calculámos a tempo quantas daquelas pessoas se levantaram e cantaram apenas por tradição, por ritual, como recitavam na missa em coro o Pai-Nosso — e como no texas-bar de Cabeceiras ou o raio teriam dançado o «Apita o Comboio», com o mesmo empenho e convicção.
Bem, no 25 de Abril tocámos apenas uma vez, que me lembre.
Foi na Adega do Faustino, esse templo dionisíaco em Chaves, e como a coisa era à tarde ainda não estávamos suficientemente bêbados para eu logo ter esquecido tudo. Não é que lembre grandes detalhes (foi há muitos, muitos anos, como disse...), mas há uma parte que ficou, não sei se comovente se cómica. Já veremos.
Éramos um trio, por vezes quarteto ou quinteto (não dependia do cachet), que levava o trabalho a sério e para aquele dia preparámos, por gosto musical e adequação temática, várias obras do Zeca Afonso. Não tínhamos ideias políticas muito definidas, acho, e na minha família recuada até havia certa admiração (felizmente retórica, sem correspondência material) por Salazar, mas o imaginário e mensagem afonsinos seduziam-nos, além de que não éramos tão estúpidos que não percebêssemos a importância do 25 de Abril até para o simples facto de podermos estar ali a desfrutar de tão faustinos prazeres.
Mas, como disse, tínhamos ido para trabalhar, em bom rigor, pelo que havíamos preparado um alinhamento que incluía, como se imagina, como se impunha, a «Grândola». Mais do que prevê-la no alinhamento, planeámos o set para que aquela música fosse o apogeu, a razão última de ali termos ido. Não sabíamos, ou quisemos ignorar, que esse era também o sentimento do público.
Ficámos por isso surpreendidos — embora tivéssemos montado todo um número em torno da «Grândola» que incluía sacar o baterista a tarola do seu tripé para fazer de caixa de rufos e alinharmos com ele as guitarras e o passo como pelotão napoleónico em marcha —, ficámos então surpreendidos (e quase, quase, envaidecidos, penhorados) por aos primeiros rufos se ter levantado toda a audiência para, numa rigidez e seriedade de hino nacional, algumas mãos no peito, aguardar que despachássemos o prelúdio e a encenação que tanto nos orgulhavam e chegássemos, como era mister, à parte cantada, em que todos podiam participar, dando finalmente como bem cumprido o seu dia cerimonioso.
Num outro ‘concerto’, em diferente localidade e ocasião, tínhamos conquistado a sala quando, por manifesta incapacidade de sermos artisticamente compreendidos pelo público, desistimos do repertório ensaiado e atacámos, por gozo, por revanche, por casualidade até, as notas memoráveis duma peça que dava pelo nome arcádico de «Apita o Comboio». A assembleia levantou-se com um ânimo que fazia da imagem que anteriormente tínhamos dela uma vista de lápides em campo santo, juntou-se em pares e bailou como se não houvesse amanhã. Perante aquela explosão súbita, perante aquela alegria que não queríamos ser culpados de tornar breve (ai de nós, diziam-nos alguns olhares), improvisámos mais longamente que os Pink Floyd em Pompeia, dispostos a despir a camisa (e a gravata, usávamos gravata) se necessário fosse.
Ora, com uma carreira que obtinha reacções assim, podíamo-nos ter interrogado (mas nunca o fizemos, claro) sobre as vantagens que um gira-discos não teria para o público, o promotor e sobretudo a nossa dignidade artística.
No 25 de Abril flaviense, com a «Grândola», nós queríamos causar aquela reacção, aquela comoção, planeáramos aquilo, mas quando aconteceu não estávamos suficientemente confiantes de sermos capazes de o obter. Podíamos então ter sido artistas realizados — se não tivéssemos percebido logo, com uma clareza que na verdade sempre fora evidente, que o empolgamento não estava na nossa prestação, mas na canção e no que ela representava. O melhor que podíamos ter feito naquele dia, do ponto de vista da originalidade artística, da capacidade de atrair atenções especificamente para o nosso trabalho, era termos destruído a música e o momento logo depois dos primeiros coros, mas não tínhamos vocação punk. E também não calculámos a tempo quantas daquelas pessoas se levantaram e cantaram apenas por tradição, por ritual, como recitavam na missa em coro o Pai-Nosso — e como no texas-bar de Cabeceiras ou o raio teriam dançado o «Apita o Comboio», com o mesmo empenho e convicção.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
sábado, 16 de junho de 2018
[Work in progress]
«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»
«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país
Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício
público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o
individualismo favorecidos pelo novo medium
e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo
estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta
direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade
estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com
ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do
armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai
pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que
realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou
desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram
positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem
receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate
político cresceram.
Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida
e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo
pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata
neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um
adolescente lado cowboy nesta direita
e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas,
com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso
apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de
ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e
bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias
figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam
incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição
do mundo que hoje temos.
Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do
armário, encontrou no Correio da Manhã
o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita
intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista,
um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão
que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela
o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência
quotidiana — a podridão nacional, em suma.
Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o
desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de
um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de
esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio
da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos
envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que
conheçamos o país para que o aceitemos como
é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a
imparcialidade é conveniente ao próprio statu
quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou
veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral,
ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade,
a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes
mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude
do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas,
levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação
inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista
— se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como
alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos
para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais
fervorosos na defesa não declarada de que é natural
uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de
mariquices.)
Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente
«bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer
coincidir com o leitor comum do Correio
da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns
quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição
que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa
sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que
importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o
país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está
em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes
históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor
delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor
ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.
Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística
da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais
que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é
caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a
premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual
do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e
demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)
Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de
ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos
perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos
revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e
impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece
é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta
feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.
* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais
do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção
das desigualdades.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Da democracia do gosto
É fácil invocar o chavão «gostos não se discutem» para
terminar uma conversa (ou, mais rigorosamente, para fazer calar o interlocutor).
Talvez os gostos não se discutam (não se deviam impor, isso sim).
Mas pode-se tentar explicar serena e sabiamente a qualidade e a singularidade de
uma obra de arte, como se faz neste vídeo.
Apelar à difusão do vídeo pode contudo valer-nos a acusação
de proselitismo, porque, como se sabe, o único proselitismo válido, mas não
assumido, é o que praticam com denodo as televisões e a imprensa “popular”.
Claro que nunca veremos a TVI ou a CMTV a substituir um dos
programas do seu circo de horrores por uma aula destas. Mas podemos sempre observar
que, ao contrário do que apregoam, a sua noção de democracia está errada.
A chave da democracia não é fazer cumprir a opção da maioria
(muito menos a opção previamente decidida pelos populistas de serviço). A chave
da democracia é, exactamente, a possibilidade de optar. E isso só se assegura
permitindo a diversidade e a singularidade. O que acontece é que demasiado frequentemente, como
lembra Luís Figueiredo no final do vídeo, «as pessoas não estão a escolher». Como poderiam, não é?
sábado, 5 de novembro de 2016
O candidato da infâmia
Não vejo nenhuma razão objectiva para achar que o género de suspeitas, indícios, argumentos ou raciocínios que aparentemente concluem pela índole corrompida de Hillary Clinton não se aplicam do mesmo modo a Trump. Acontece que o que sobra para fazer a diferença entre os dois é tão, tão óbvio e extenso que resulta patético alguém acreditar que se mantém decente defendendo a hipótese Trump.
Aos americanos na terça-feira até pode não restar mais do que escolher o mal menor, mas desta vez ter dúvidas sobre qual é o mal menor é sintoma de muita confusão mental ou genuína imbecilidade.
Há os que, na América e na Europa, não têm dúvidas e votam (ou votariam) Trump simplesmente porque têm o mesmo carácter doentio do candidato republicano. São um lastro que a humanidade sempre arrastará, não haja ilusões.
Mas dentro dos convictos há ainda os que escolhem Trump por capricho ou mero e abjecto calculismo, ideológico ou outro. São os mesmos que, em nome de uma bandeira, de uma birra, de um ressentimento ou de um interesse, não se importam de experimentar hipóteses trágicas porque pressentem que o resultado não os incomoda pessoalmente. E, como a história da infâmia nos ensina, nisto têm demasiadas vezes razão.
Aos americanos na terça-feira até pode não restar mais do que escolher o mal menor, mas desta vez ter dúvidas sobre qual é o mal menor é sintoma de muita confusão mental ou genuína imbecilidade.
Há os que, na América e na Europa, não têm dúvidas e votam (ou votariam) Trump simplesmente porque têm o mesmo carácter doentio do candidato republicano. São um lastro que a humanidade sempre arrastará, não haja ilusões.
Mas dentro dos convictos há ainda os que escolhem Trump por capricho ou mero e abjecto calculismo, ideológico ou outro. São os mesmos que, em nome de uma bandeira, de uma birra, de um ressentimento ou de um interesse, não se importam de experimentar hipóteses trágicas porque pressentem que o resultado não os incomoda pessoalmente. E, como a história da infâmia nos ensina, nisto têm demasiadas vezes razão.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Considerações sobre a intifada
1. Há anos um jornalista espanhol em viagem que atravessou Portugal de
norte a sul escreveu um livro com as suas impressões e calhou de considerar
horrível a capela que, na sua de facto pouca lindeza, vigia do alto uma das
terras onde vivi. Não era ainda o tempo das redes sociais, mas já havia
indignação na paróquia contra o espanhol, e se ele tivesse a má ideia de voltar
ali, dificilmente passaria sem uma reprimenda.
Em Portugal as pessoas orgulham-se de tudo e sobretudo de nada, e a
circunstância, para a qual por definição nada contribuíram, de terem nascido em
determinada província ou país, que com frequência execram ou desonram, consegue
por vezes transformá-las em espantosos chauvinistas. Raramente ou nunca se unem
para salvar um monumento, reconstruir uma escola ou homenagear quem realmente sobressaia
da mediania, mas entrelaçam de imediato os braços numa frente tribal contra o
infeliz que se dê ao trabalho de achar menos perfeito o habitat delas.
2. O cronista Henrique Raposo escreveu um livro onde decidiu separar-se
da sua terra natal, o Alentejo. (Ninguém se devia admirar que Raposo mais cedo
ou mais tarde levantasse um idiossincrático e repreensor dedo ao velho Alentejo
vermelho. O complexo de Édipo que a todos nos pisca o olho não poderia deixar
de ter nele e na sua ideológica condição uma particular influência.)
Henrique falou do livro numa entrevista, onde expôs mágoas, desilusões
e ressentimentos que o livro desenvolve. Foi duro e teve reacções, como é
natural. Só que as reacções, neste país de facções e claques e raciocínio hooligan que o futebol moldou,
rapidamente se transformaram em urros, vontade de linchamento e desfalecimentos
pirómanos. O autor foi ameaçado e o livro alvo de petições incineradoras. O direito
e a civilização a ele associada, se tivessem de ser inventados agora e em Portugal,
jamais veriam a existência, mas Fahrenheit
451 ou qualquer distopia que envolva fascistóides massas acéfalas e
enfileiradas são ficção apenas por acaso e provisoriamente.
P.S.: Intifada à parte, parece-me compreensível mas noutro contexto
deslocada a generosidade de evocar Com Os
Holandeses, de Rentes de Carvalho, a propósito do livro de Henrique Raposo,
como fez Bruno Vieira Amaral: há um tom irritante de cátedra e ciência ou moral
certa em Raposo que não me lembro de ter notado em Rentes.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Cortesãos de esquerda
A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da
democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de
coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às
presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez
boicote mesmo as eleições.
Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses
que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado
(entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma
candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos
compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice.
Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se
importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à
derrisão da pátria.
Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro
que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros
candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e
a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os
debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica
ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples
contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde
já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua
tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus
apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não
são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora
às vezes pareça, é certo.)
terça-feira, 14 de julho de 2015
Um Pirandello para Coelho
Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um
papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos
Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia
mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido
precocemente actividades.
Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha»
Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou
porque é mais exigente um casting para
musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia
portuguesa.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Tolentino
Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público na Madeira, quotidiano ilustrador do boçal caciquismo jardinista, era um exemplo do que é ser jornalista.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo
No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina
procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco
Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:
«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*
Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa
similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento
de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas
para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou
lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência,
mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo
inteligente».
Descontada a boutade pateta, há
decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas.
A Europa devia lembrar-se.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Os heróis e os cabos de João Miguel Tavares
A direita tem com o 25 de Abril uma relação difícil: ou o odeia ou o desvaloriza. Por vezes surge uma inesperada e comovente apropriação, como a do secretário de estado Pedro Lomba. No Público de terça-feira, João Miguel Tavares, outro jovem turco da direita, foi mais fiel à ortodoxia da tribo, mas nem por isso foi menos enternecedor. Munindo-se das ferramentas da condescendência e do lugar-comum, temperadas com uma pitada humorada de literatura, Tavares informou-nos que o 25 de Abril, ao invés de uma Revolução, foi um caso de não-acção típico dos portugueses. Para esta sua tese, elegeu como episódio central e representativo do movimento das forças armadas o do cabo-apontador Alves Costa — que se fechou no tanque para não ser obrigado a disparar, tal como conta o livro Os Rapazes dos Tanques. João Miguel reproduz o episódio, relaciona-o com a idiossincrasia lusa e culmina aquela secção do artigo com um lapidar «E assim se fez Abril».
Percebo que a vivacidade de algumas fotos do 25 de Abril seja perturbadora, e que certas pessoas, arrebatadas pela tensão das imagens, se sintam tentadas a refugiar-se num tanque. Mas isso não deveria servir para ignorar que naquele mesmo dia houve quem se posicionasse em frente ao canhão, de peito aberto. Quem, ao contrário de João Miguel Tavares hoje, não sabia que os tanques não iam disparar.
O cabo-apontador da história que encantou Tavares pode ser representativo de uma certa portugalidade. Portugal inteiro pode hoje ser fielmente representado pela personagem de Herman Melville, aquele Bartleby paradigma da passividade, divertidamente invocado por João Miguel. Não discuto isso. Mas só uma hermenêutica muito irreverente ousaria considerar que «Preferiria não o fazer», o mantra de Bartleby, é o slogan adequado ao 25 de Abril.
Por mais que custe ou não convenha à narrativa actual, a Revolução foi feita pelos tipos que se dispuseram a sair de Santarém e a enfrentar um regime, amolecido, é certo, mas que continuava a prender, a punir e a torturar. Um regime que tinha do seu lado gente que não hesitaria, como não hesitou, em disparar ou mandar disparar.
Enfatizar o papel do cabo-apontador Alves Costa em detrimento do de Salgueiro Maia é escolher a caricatura da pequena história em vez da dignidade do retrato, igualmente disponível.
O cabo-apontador, no artigo de João Miguel Tavares, teve o mérito de impedir «que a revolução se tornasse num banho de sangue», mas a coragem dos capitães que se dispuseram a fornecer sangue para esse «banho» parece ser menos relevante para a narrativa.
«Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons», diz Tavares, «é a criar heróis e memoriais». E conclui: «(…) nós não temos essa cultura em Portugal.» Pois não. E João Miguel empenhou-se em provar que não a temos — preterindo heróis inconvenientes a cabos de anedota.
Concluo com uma interpretação talvez também ousada (preferiria não o fazer, mas detestaria mais passar por bartlebyano): desvalorizar a coragem dos outros à distância de décadas e no conforto de uma boutade de jornal é, parece-me, uma cobardia.
Percebo que a vivacidade de algumas fotos do 25 de Abril seja perturbadora, e que certas pessoas, arrebatadas pela tensão das imagens, se sintam tentadas a refugiar-se num tanque. Mas isso não deveria servir para ignorar que naquele mesmo dia houve quem se posicionasse em frente ao canhão, de peito aberto. Quem, ao contrário de João Miguel Tavares hoje, não sabia que os tanques não iam disparar.
O cabo-apontador da história que encantou Tavares pode ser representativo de uma certa portugalidade. Portugal inteiro pode hoje ser fielmente representado pela personagem de Herman Melville, aquele Bartleby paradigma da passividade, divertidamente invocado por João Miguel. Não discuto isso. Mas só uma hermenêutica muito irreverente ousaria considerar que «Preferiria não o fazer», o mantra de Bartleby, é o slogan adequado ao 25 de Abril.
Por mais que custe ou não convenha à narrativa actual, a Revolução foi feita pelos tipos que se dispuseram a sair de Santarém e a enfrentar um regime, amolecido, é certo, mas que continuava a prender, a punir e a torturar. Um regime que tinha do seu lado gente que não hesitaria, como não hesitou, em disparar ou mandar disparar.
Enfatizar o papel do cabo-apontador Alves Costa em detrimento do de Salgueiro Maia é escolher a caricatura da pequena história em vez da dignidade do retrato, igualmente disponível.
O cabo-apontador, no artigo de João Miguel Tavares, teve o mérito de impedir «que a revolução se tornasse num banho de sangue», mas a coragem dos capitães que se dispuseram a fornecer sangue para esse «banho» parece ser menos relevante para a narrativa.
«Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons», diz Tavares, «é a criar heróis e memoriais». E conclui: «(…) nós não temos essa cultura em Portugal.» Pois não. E João Miguel empenhou-se em provar que não a temos — preterindo heróis inconvenientes a cabos de anedota.
Concluo com uma interpretação talvez também ousada (preferiria não o fazer, mas detestaria mais passar por bartlebyano): desvalorizar a coragem dos outros à distância de décadas e no conforto de uma boutade de jornal é, parece-me, uma cobardia.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Imprudência
Com os cada vez mais evidentes sinais de regresso dos fascismos à
Europa (e ao poder; a originalidade da Hungria não durará), com um clima político
a leste cada vez mais prussiano, a
direita continua, com moral de inquisidor, obcecada em punir os países e as
pessoas que, na opinião dela, viveram acima das suas posses. A direita é muito
estúpida, conivente ou imprudente. E receio ter escrito imprudente apenas por cortesia ou fair play.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria
O El Mundo trouxe à luz do
dia os casos Bárcenas (financiamento
ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente,
afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor,
que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em
projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o
dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico
ou cultural (as do Público Mais). São
interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores,
jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da
investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de
El Mundo, os leitores do jornal
deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais
difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das
democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em
Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia
por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes
ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo
a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A liberdade de ser e o papel do bobo
Os pobres de espírito e de carácter (e até de inteligência, não pode
ser totalmente inteligente quem não percebe o conceito de liberdade individual)
hão-de precisar sempre de alguém a quem discriminar, sobre quem fazer recair raivas,
preconceitos, frustrações, complexos. A História ensina: mulheres, pretos,
judeus, homossexuais… Há sempre um “argumento” de ordem “natural”, “científica”
ou “cultural” para negarem ao próximo aquilo de que se consideram legítimos (alguns
por direito divino) detentores: a liberdade de ser. É da definição de liberdade
global que o direito a ser imbecil, inalienável, tem de se restringir à esfera
do próprio indivíduo. Por favor ninguém proponha, neste estádio da civilização,
um referendo sobre a possibilidade de as pessoas serem parvas para si mesmas. Direitos
humanos não se referendam — e continuamos
a precisar de cromos de quem rir. Não os deixemos é legislar, não é esse, historicamente, o papel do bobo.
domingo, 19 de janeiro de 2014
1. JSD
Nos dias que correm
custa-me citar alguém de direita, mas a carta de Carlos Reis dos Santos,
ex-dirigente da JSD, no Público
merece ser lida. Talvez sair da juventude partidária e, enfim, crescer torne as
pessoas melhores, mesmo as da JSD. Enquanto Hugo Soares, a anémona do momento,
não tiver cumprido o seu processo de crescimento (se algum dia o tiver), só
podemos lamentar que os calduços do veterano Carlos Santos não tenham sido
dados fisicamente na pessoa do imberbe deputado e com a violência, digamos, de
uma praxe extrema do Colégio Militar, para invocar uma instituição do agrado da
seita.
2. Democracia
Mas chamei para aqui o
artigo de Carlos Reis do Santos (referido no post anterior) para destacar isto:
«(…) [a democracia] não se pode confundir com o absolutismo das maiorias. Porque a linha que separa a democracia do totalitarismo é ténue – é por isso que a democracia não dispensa a mediação dos seus representantes – e é por isso que historicamente as leis que garantem direitos, liberdade e garantias andam à frente da sociedade.»
3. Da necessidade do carácter e das lições de história
Já esta noite tinha lido outra frase fundamental, que diz
mais ou menos isto: a democracia não é
sobre o poder das maiorias, mas sobre a protecção das minorias.
Convinha que os eleitos democraticamente, da câmara municipal
ao governo da nação, tivessem o carácter, a grandeza (e umas quantas lições de
história) para compreender isto.
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