O Secretário de Estado da Cultura terá dito que as autarquias «asseguram já 60% da produção cultural». A notícia não desenvolve, mas seria interessante perceber como se relaciona esta afirmação com aqueloutra de tempos eleitorais em que Viegas dizia ser preciso acabar com o financiamento das autarquias à música pimba.
Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Vale mais um ministro ou um secretário?
A percentagem das receitas dos jogos da Santa Casa anteriormente atribuídas
à cultura passam para as mãos de Miguel Relvas, a eminência parda do Governo. Um
escritor devia saber que a semântica conta. (E sabe, claro que sabe. É isso que perturba.)
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Boas intenções e desastres conexos
Se aplicadas em laboratório, nenhuma
das ideias da Secretaria de Estado da Cultura seria absurda, e nesse mesmo
ambiente as suas seriam as melhores intenções. Não temos como não concordar com
a disciplina na utilização dos apoios públicos, com a necessidade de aumento de
receitas e, em abstracto, com a valorização das bilheteiras como instrumento de
avaliação de resultados. Acontece que Portugal não vive numa redoma asséptica,
num clima ideal, pelo que algumas das melhores intenções conduzirão a pequenos
desastres.
O que acontecerá quando as medidas para
o aumento da receita a fizerem diminuir? Que resultado terá o IVA a 23% na «valorização»
das bilheteiras? Se não acreditássemos nas boas intenções da SEC, diríamos que
ela tem um plano pérfido. Apresenta os requisitos para a viabilidade das
instituições — e simultaneamente cria as condições para que eles não sejam
cumpridos.
De resto, a SEC é a primeira a
contribuir para a desvalorização das bilheteiras, com aquela sua forma de falar
das coisas pela negativa. Para a SEC a cultura não é um bem, um direito, um benefício,
um privilégio que devemos agarrar — mas um frete que temos de ir alijando.
Talvez não seja exactamente isto que lhe passa pela cabeça, mas é decerto isto
que lhe passa pela boca. E que o povo ouve, pronto a concordar.
Vem de trás, do debate nos blogues e
nos jornais. Um conjunto de dandies
conservadores — e provavelmente pouco frequentadores de algo mais do que livros
— fez o diagnóstico e formatou o discurso da SEC. Punir a cultura, eis tudo o que
havia a fazer. Nenhuma palavra, nenhuma ideia sobre serviço público. Nem que fosse o assumir que nenhum serviço público é necessário. Que o fim do teatro, da dança, da música não é mal nenhum. Este tipo de honestidade.
O regresso da paisagem
Nos últimos dez anos, a cultura
democratizou-se e descentralizou-se, fruto de vários equipamentos que foram
construídos ou reconstruídos um pouco por todo o território. Num dado momento, o
viajante que seguiu o conselho «vá para fora cá dentro» e se aventurou para
além do termo de Lisboa deixou de deparar com um deserto. Por um lapso de tempo,
de norte a sul, a província foi menos provinciana. Podiam fazer-se roteiros que
aliassem património e artes. Era até concebível imaginar um pequeno êxodo
urbano, a vida nas berças começava a ter alguns dos atractivos culturais das
metrópoles. A deslitoralização do país, a existir algum dia, passava também por
esta “revolução”.
Depois veio a crise e o movimento
abrandou e a seguir retraiu-se. Agora galopa desesperadamente em direcção ao
passado, a um passado triste, enfadonho, de gente com os olhos postos na saída.
Enquanto a SEC procura purgar os grandes equipamentos nacionais, a breve lufada
de ar fresco que soprou no interior ameaça tornar-se de novo cheiro a bafio e a
desolação. Os pequenos equipamentos do Algarve, do Alentejo, das Beiras, de Trás-os-Montes
provavelmente não sobreviverão à onda de «racionalização» e à «análise do
custo/benefício» que necessariamente ocorrerão à escala regional, como
corolário da política nacional. A ponderação das bilheteiras determinará o
regresso ao folclore e à ocasional revista à portuguesa ou congénere em
digressão. A SEC tem um plano para Lisboa e Porto que apesar de tudo não parece equacionar o encerramento das principais infra-estruturas
ou o fim da sua missão — o resto do país não entra nas contas. O resto do país
é paisagem. E talvez «património». Para lisboeta ver.
domingo, 16 de outubro de 2011
O IVA, os livros e as corporações
Álvaro Covões, conhecido promotor de concertos pop/rock,
queixa-se na rádio da subida do IVA dos bilhetes para espectáculos. Na peça que
ouvi, a sua indignação ia a par com a inveja corporativa, como é bom costume
português. Covões lamentava tanto o contratempo para o seu negócio como a
manutenção do IVA a 5% para os livros. Uma injustiça clamorosa que nas suas
palavras só se explica porque, claro, o Secretário de Estado da Cultura é na
vida civil escritor e editor.
Os corporativistas têm dificuldade em ver as acções dos
outros sob uma luz diferente da que ilumina as suas. Para Covões, Francisco
José Viegas decidiu assim para benefício do seu mester — não porque tenha uma
estratégia cultural.
Eu próprio tenho muitas dúvidas sobre qual seja a estratégia
cultural desta Secretaria de Estado
(sobre a sua estratégia económica
estou esclarecido), mas não vejo razões sérias para discordar de que o livro
deve ser uma prioridade. Deste e de qualquer governo, em qualquer época e circunstância.
Se há margem para manter o IVA no escalão mais baixo apenas para um sector, ele
que seja evidentemente o do livro. Um país pode ficar mais triste sem os
concertos que Álvaro Covões promove — mas sem livros fica por certo mais
estúpido.
Monocultura
Mas a indignação de Álvaro Covões na peça radiofónica abrangia
ainda outras áreas. Na sua opinião, se o Governo precisava de arrecadar mais
dinheiro, podia ir mais longe nos cortes orçamentais de instituições como a
Casa da Música, o São Carlos e congéneres. Que, aliás, ao serem subsidiadas
pelo Estado fazem «concorrência desleal» à empresa do senhor Covões.
Temos, portanto, o Portugal umbiguista no seu melhor. Não há
nada mais importante que o nosso quintalejo — e a monocultura que nele
praticamos. Se podemos sobreviver só do que dá o nabal, porque havemos de
plantar outras hortaliças?
Concorrência desleal, eis a questão
A «concorrência desleal» das instituições culturais
financiadas pelo Estado é a espaços referida por produtores ou empresários do
ramo, geralmente empresários que se orgulham da sua «independência» e da
popularidade do seu produto, da «importância» que o público lhe dá. Este
discurso enferma de dois equívocos, nem sempre inconscientes. Em primeiro lugar,
a verificação de tal «concorrência» pressupunha, por exemplo, que o cidadão
hesitasse entre assistir a uma peça de Harold Pinter ou a uma comédia ligeira com
vedetas televisivas. Hesitasse entre assistir ao último espectáculo da C de la
B ou à última produção de La Féria. Hesitasse entre a nona sinfonia de Bethoven
e a nova edição do Super Bock Super Rock. Ora, todos sabemos como estas
hesitações são vulgares em Portugal.
Nem Hamlet padeceu de mais frequentes e dilacerantes dúvidas do que as que
assolam os portugueses na hora de escolher o espectáculo.
Rock, pop ou pimba
O segundo equívoco assenta na ideia de que a fórmula de
sucesso dos produtos populares pode ser aplicada às instituições do Estado,
libertando-as assim da sua subsídio-dependência. Bem, na verdade, pode — se
enquanto nação estivermos dispostos a aceitar que o musical à la Broadway elimine a ópera, que todo o teatro seja comédia brejeira e toda a música rock, pop ou pimba. (Já
estivemos mais longe.) Esta resignação teria a vantagem de tornar óbvia a
escolha para dirigir o São Carlos. Já para a Casa da Música a hesitação
resolver-se-ia com um regime dinástico: depois do pai Carreira, dirigiria o equipamento o filho Mickael.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Público-alvar
Nos “extras” de um DVD, os actores e o realizador falam da
sua ambição para o filme. Todos esperam que seja um «bom entretenimento», que
os espectadores desfrutem da acção,
dos efeitos especiais. Conseguido
isso, seria maravilhoso se o público gostasse da história, por exemplo, se se
emocionasse com as personagens, apreciasse a evolução da narrativa, a sua
estrutura, e, oh felicidade, se sentisse estimulado com o suspense e o «paradoxo» do final. O realizador espera que as
pessoas pelo menos não se aborreçam
se não perceberem tudo. Tem confiança que não, porque a acção e os efeitos
especiais, talvez a história de amor, hão-de ser suficientes para a maior parte
das pessoas apreciar o trabalho.
O filme chama-se “Código Base” e é bonzito — apesar da
audiência imbecil para quem, a julgar pelos testemunhos dos protagonistas,
parece ter sido feito.
P.S. Não sei se isto é exactamente uma qualidade do filme, mas podem todos ficar
descansados: o público-alvo consegue decerto percebê-lo e desfrutar — embora,
claro, talvez se sinta defraudado no que toca a acção e a piadas de taberna. Por mais que tivesse, nunca seriam demais, dirá.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O gosto do proletariado
Como a televisão, embora em menor medida (dada a profusão de estações), também as rádios são veículos de previsibilidade. Os “sucessos” que emitem são-no não porque a audiência tenha elevado certas músicas a essa condição, mas porque as estações apostam nalguns temas (e podemos não estar só a falar de música) para esse estatuto, passando-os até à exaustão, conseguindo que sejam de facto os mais ouvidos. Não por mérito, mas por preencherem todo o espectro sonoro disponível.
E, porque também as rádios têm pânico de emitirem para o vácuo, as suas apostas são seguras, não é ainda aqui que há riscos, novidades, surpresas. Como a televisão, as rádios são uma peça na engrenagem do ciclo vicioso.
O que espanta é que, apesar de todo o esforço e manipulação dos agentes da previsibilidade (podemos incluir aqui os jornais, os media em geral, em larga medida a própria Internet), o que espanta é que subsistam focos de originalidade criativa no mundo e espíritos curiosos que navegam nos interstícios do sistema dispostos a serem surpreendidos, enriquecidos com o diverso e o novo. O que espanta é que, apesar do empenho concertado de governos e media, não tenha ainda crescido lã nas costas de todos os cidadãos e cascos nos seus pés.
É um espanto optimista, este, um maravilhamento com a natureza humana que talvez se alimente do dia luminoso e quente que esteve hoje. Estendamo-lo, resistamos ao Outono que se aproxima, permitamo-nos por momentos aliviar o cepticismo, o pessimismo ontológico; perguntemo-nos como seria o mundo se não tivesse sido inventada esta contradição nos termos: uma ditadura do (gosto do) proletariado dirigida superiormente.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
A ilusão do ecrã (ou o elogio do livro impresso)
Por outro lado, ainda há quem reconheça utilidade ao velho
livro. Ou descubra o quanto um ecrã pode ludibriar:
(O elogio do livro neste caso não coincidiu com uma boa crítica
à obra: quatro pontos e meio em dez. Confira.)
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Agentes da previsibilidade
Televisões
Quando as televisões generalistas fazem referência em
horário nobre à estreia de um espectáculo de teatro, esse espectáculo é uma
comédia ou tem actores que a própria televisão mediatizou noutras actividades. Na
maior parte das vezes verificam-se as duas situações: é uma comédia com actores mediáticos.
De resto, não é por atribuírem importâncias às artes do
palco que as televisões referem os espectáculos. Fazem-no para apanhar boleia
do impacto que sabem que aquelas peças (jornalísticas) vão ter. É a
mediatização a alimentar-se de si mesma. É notícia aquilo que a figura pública
faz quando é feito por ela, não por
alguém desconhecido. O mesmo espectáculo protagonizado por actores
desconhecidos (ainda que excelentes) jamais terá honras de fecho de telejornal.
A televisão teme não ser vista. Vive nesse pânico. Torna-se
histérica. Patológica. Deixa de ser um veículo de imagens, janela do mundo,
para se tornar espelho de si própria. Aquilo que uma vez funcionou, foi visto
pelos espectadores, é tudo o que a televisão arrisca mostrar. Apressa-se a
deitar fora o que quer que tenha ficado um grau abaixo das melhores
expectativas. Reduz o foco da sua atenção até, no futuro, não restar mais do
que um pixel no centro do ecrã. O mais mediático pixel da história da
humanidade. Devemos ansiar por esse dia.
Mecenato
Algo parecido acontece com o “mecenato” em Portugal. Com a
fraca excepção dos equipamentos nacionais (em Lisboa e Porto), nenhuma empresa
ou instituição patrocina a sério as artes neste país. Os patrocínios vão todos
para artistas ou eventos mediáticos (por definição capazes de sobreviver sem
apoios). Isto porque as empresas e as instituições (mesmo que em parte do
Estado) não tencionam prestar nenhum serviço público. Como as TVs, querem apenas
apanhar boleia do que é mediático, promoverem-se a si mesmas. Na verdade, o que
fazem é comprar espaço de publicidade nos cartazes ou nos palcos das
actividades que dizem apoiar. E que, perversamente, promiscuamente, acabam por
apoiar de facto, promovendo ainda mais o que já é sobejamente conhecido e não
raro medíocre.
Decisores
Isto não acontece porque o panorama artístico nacional,
aquele que resiste apesar de tudo, seja miserável. Não é. Acontece porque a
sofisticação cultural da maioria dos empresários e responsáveis deste país é
nula*. Televisões, instituições e empresas estão-se nas tintas para a arte. São
apenas agentes da previsibilidade, elemento e alimento do ciclo vicioso.
Público
O grande público é apanhado nas voltas deste ciclo vicioso,
verdadeiro rolo compressor de mentalidades. Tudo o que lhe é dado a ver, tudo o
que levam até ele, é aquilo que ele conhece. Não o questionam, não lhe pedem a
opinião. Não o tratam democraticamente, apresentando-lhe em pé de igualdade um
leque de alternativas para que ele possa escolher, em liberdade. Não o
respeitam, portanto. Não o deixam ser livre. Não arriscam.
* Um estudo interessante e
esclarecedor seria aquele que divulgasse a quantidade de vezes que, nos últimos
anos, entraram num teatro, e para ver que espectáculos, os responsáveis por
empresas e instituições e opinion
makers nacionais. E, já agora, também o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da
Cultura.
Agentes da previsibilidade II
Não raro, em defesa da feira de vaidades instituída, é dito
que a mediatização de intérpretes concedida pelas televisões é benéfica para o
teatro. Que de alguma forma essa mediatização foi responsável por devolver
público ao teatro. Mas a questão é esta: de que teatro falam? Salvo honrosas
excepções, as vedetas de televisão sobem aos palcos para compor o orçamento (ou
o ego) com umas comediazinhas ligeiras, muito vezes verdadeiramente execráveis.
Que de quando em quando são apresentadas como exemplos de produção
verdadeiramente “independente”. E rentável, claro: apostam sempre no número (de
circo) vencedor.
A não ser se pretenda que teatro passe a ser sinónimo de
comédia, que se pretenda reduzir, digamos, dramaticamente
a amplitude da disciplina, amputá-la dos seus múltiplos ramos, purgá-la de géneros,
correntes, autores, a não ser que o objectivo seja esta simplificação extrema
(ideia que certamente excita muitas cabecinhas), a mediatização não tem servido
de muito ao teatro. Quantos dos “famosos” aproveitam a sua fama para dar
visibilidade a alguma forma de teatro que não seja a esperada pela TV? O métier português não é como o londrino,
pois não.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Qual o rating da naftalina?
«A secretaria de Estado [da Cultura] tem um papel na discussão
do que deve ser o repertório de um teatro nacional.»
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Os homens da limpeza
O Ministério da Cultura não deveria ter terminado para dar lugar a uma secretaria de estado da cultura. A questão, sabe-se agora, não era um emagrecimento estrutural — era uma mudança de ramo. Do mesmo modo, a Direcção-Geral das Artes deveria ter mudado de nome — por que também mudou de ramo.
As notícias que vêm a público sobre estes organismos não são sobre cultura, são sobre outra coisa qualquer. Por exemplo, a DGArtes «passou a disponibilizar [online] todos os apoios concedidos às entidades financiadas pela Secretaria de Estado da Cultura»*. O objectivo é «implementar uma política de transparência entendível a todos os cidadãos». Além disso, a DGArtes «anunciou ainda que pretende iniciar um processo de monitorização e avaliação do trabalho efectuado pelas entidades beneficiárias, cujo resultado final esteja acessível de forma “clara e transparente a todos os cidadãos, sem filtros nem obstáculos”».
Não são estas notícias que estão mal, ou as iniciativas de que elas falam. Isso está muito bem, aplaude-se, é o que se espera de todos os organismos públicos. O problema é a total ausência de notícias sobre o que pretendem fazer as duas instituições em relação ao seu principal mister, a (com licença da palavra) cultura. Se vieram só para desratizar, deveriam ter tido a franqueza de se apresentar com as credenciais certas: Secretaria de Estado da Higienização. Direcção-Geral da Desparasitagem. (Talvez também Ministério do Fomento dos Tribunais Populares.)
Caso alguém, por distracção, lhes venha a perguntar se consideram importante para um país ter teatro, dança, artes, os homens da limpeza, naturalmente dirão: Isso não é da nossa alçada. E com razão.
A dúvida agora é saber se o Executivo tem em mente, para o futuro, a criação de estruturas na área da cultura ou se apenas reformulará o organigrama governamental, como é forçoso, transferindo as duas instituições acima referidas para o ministério que tutela o Ambiente.
* Não é medida nova, mas parece que os almeidas não conseguiam ler o PDF que anteriormente se publicava.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Panem et circenses
«Há muito tempo que o Estado tomou sobre si o extraordinário encargo de animar a populaça», escreve Vasco Pulido Valente e tem razão. Nos factos e na crítica que o adjectivo deixa implícita. É, de resto, uma crítica partilhada por uma parte dos comentadores de direita e pelo Secretário de Estado da Cultura. Acabar com o circo parece e é uma campanha urgente. Num país a sério não se usam as instituições do Estado como comissões de festas. O papel de mordomos de romaria ou anfitrião de circo cabe à sociedade civil — e a palhaços encartados.
Acontece que a sanha da direita agora no poder mais do que se arrisca a deitar fora o menino com a água do banho.
A obscena promiscuidade entre o que é animação e cultura tem dois sentidos: algumas das instituições que providenciam o disparatado entretenimento vão sendo também responsáveis pelo pouquinho que resta de cultura na lusa pátria. Acabar com elas sem mais é pintar de cinzento o país, de um velho e estupidificante cinzento.
Ou a direita deseja isto ou não conhece o país que habita.
Uma das razões nem sempre mencionada quando se apela à extinção das estruturas culturais do país é o incómodo da direita com a arte contemporânea. A EGEAC, um dos alvos do artigo de VPV, é, entre outras coisas, também promotora de acções neste âmbito. Para a direita que temos no poder, animação e arte contemporânea são a mesma e desprezível coisa. Mas talvez a direita, se frequentasse mais o país real, soubesse que onde lê arte contemporânea poderia ler arte clássica. A realidade é esta: tirando a animação, tudo está no mesmo triste bote neste rectângulo que se afunda. Julga a direita que a música clássica se salva sem a subvenção e as instituições do Estado? O bailado? A ópera? A literatura? O teatro clássico? O teatro, tout court? Que os cidadãos correm a ver o que se lhes ofereça nesta área? Que pagam um tostão que seja se por azar passarem à porta? Em que planeta vive esta direita?
sexta-feira, 29 de julho de 2011
A arte de demolir
Talvez não seja culpa dele (não é certamente), mas pelo que se vai lendo na imprensa o Secretário de Estado da Cultura parece mais um liquidatário, alguém contratado pelo Governo para conduzir o processo de falência de uma pasta. Começou pela auto-despromoção: Viegas deve ser o único convidado para um cargo que impôs como condição prévia a imediata regressão na carreira. Nos últimos dias, a imprensa citou-o a determinar que Portugal tem equipamentos culturais a mais. Deverá seguir-se, naturalmente, o anúncio de que a SEC cabimentou uma verba para explosivos.
Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.
Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.
Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.
Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.
Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?
A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)
A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.
Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.
Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.
Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.
Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?
Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.
Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.
Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.
Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.
Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?
A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)
A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.
Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.
Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.
Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.
Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?
sábado, 7 de maio de 2011
Notícias da trincheira
Escritores a falar de livros, encenadores a falar de teatro, coreógrafos a falar de dança.
Subscrever:
Mensagens (Atom)