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terça-feira, 2 de abril de 2013

Sinto, com certa alegria, que vamos dar um estoiro com esta austeridade

Tenho um amigo que, há um ano, para minha ilustração e conversão, me abastecia de vídeos e artigos de Medina Carreira. Chegou a oferecer-me um livro do ex-ministro, por escárnio (e mania de gastar acima das suas e, no caso, minhas necessidades). Sempre que nos encontrávamos, entre o glorioso 5 de Junho de 2011 e a evidência-até-para-totós do descalabro passista, as nossas conversas redundavam em histeria e cólera, com a parte patética deste género de debates a ser assegurada por mim (tenho um dom).
Na verdade, o meu amigo e eu concordávamos na grande maioria dos argumentos. Era aliás ele quem mais pessimista estava em relação às políticas de Passos Coelho, na medida em que é por natureza pessimista quanto ao futuro da Europa e do Ocidente. De Medina Carreira, apreciava, mais do que tudo (percebe-se porquê), o tom tremendista e apocalíptico — les beaux esprits se rencontrent.

Pelo meu lado, se via pertinência em afrontar o meu amigo e o governo PSD/CDS não era porque acreditasse sem hesitações em alternativas, ou numa solução indolor. Era também, reconheço, para me confortar, escolhendo como os religiosos o diáfano para apaziguar os dias.
Mas fosse como fosse, tinha as minhas ideias. Não acreditava que um plano de reforma radical funcionasse num prazo tão curto. Como todas as pessoas sensatas postas perante a verdadeira dimensão do problema (que curiosamente as instituições financeiras e políticas, com raras e individuais excepções, foram estimulando e ocultando nos anos anteriores), estava disponível e sabia que eram inevitáveis sacrifícios, perdas de rendimentos. Mas achava que uma reforma do Estado capaz de enfrentar eficazmente a dívida e o défice precisaria de uns dez anos e que a Europa tinha sido mesquinha e estúpida em não criar condições para isso.

Foi pois com um ar trocista e de vanglória que enviei hoje ao meu amigo a notícia que cita Medina Carreira defendendo que «o tempo de aplicação do memorando deveria ser estendido a seis anos», caso contrário vamos «dar um estoiro com esta austeridade». Digo que o meu ar era de vanglória porque conheço o meu amigo: não concederá mérito à minha antiga intuição nem acreditará numa extensão do prazo — vai é rejubilar com a expressão do jurista. «Dar um estoiro» é também uma expressão sua frequente em relação ao país, e vê-la elevada a título premonitório é algo que decerto vai excitar a sua morbidez.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Distopia, mas pouco

Entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 escrevi alguns episódios de A Vida de K., uma crónica do futuro próximo. Lembro-me de um ou outro leitor censurar o pessimismo ou o exagero das narrativas. Tolos. Ignoram que a realidade costuma ultrapassar a literatura. Quando se derem conta e eu retomar a série, perceberão que não estarei já a escrever ficção, mas a fazer a crónica dos dias presentes.

[A Vida de K.1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.]

domingo, 17 de março de 2013

O bug das finanças

Se, como parece, a política do governo assenta numas páginas de Excel, teremos de concluir, tendo em conta a forma como as suas contas falham, que não temos um ministro nas finanças — temos um dos famosos bugs da Microsoft.

Desapontamento

O ministro das finanças está desapontado. E o caso não é para menos: que desfaçatez intolerável este comportamento das coisas reais face à irrepreensível acomodação das células de Excel!

Perante os sentimentos exacerbados dos portugueses (frustração, depressão, angústia, inquietação, raiva, desespero) o nosso ministro das finanças não sente mais do que um desapontamento. Já sabíamos que era suspeita aquela maneira de falar (e de pensar), mas agora temos a certeza de que Gaspar é, ele próprio, um simples conjunto de zeros e uns, um aglomerado de bytes que fazem um belo holograma de testa enrugada.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice

«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças, ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria, se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum) justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária (a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Grândolas de manhã à noite

À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia, à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia ser a única palavra da língua portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola, Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer Grândola como quem diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes. Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Nem tudo é repetível

Lá em casa levávamos broncas se numa visita curta a um compartimento ou na passagem por um corredor acendíamos lâmpadas fluorescentes em vez de incandescentes. Estávamos avisados e informados: as lâmpadas incandescentes consumiam mais quando acesas em permanência; as fluorescentes, mais baratas em utilizações prolongadas, custavam caro a acender. Se apenas estávamos de passagem ou íamos entrar e sair, não havia nenhuma boa desculpa para acender lâmpadas fluorescentes. Esse erro agastava sobremaneira o nosso pai, provocando-lhe em certas alturas uma irascibilidade que só viemos a percebemos de todo quando soubemos o que era viver com um ordenado que demasiadas vezes não chegava ao fim do mês.
Hoje, num reflexo daqueles tempos, desloco-me pela casa apagando a luz dos compartimentos atrás de mim, mesmo que tencione voltar, enquanto acendo a dos que me ficam no caminho. Por vezes fico às escuras alguns metros, se os interruptores não estão próximos e acho supérfluo iluminar uns poucos passos. Não me perturba este jogo. Como não me perturba ir a pé para o trabalho. O ambiente ganha com isso. Eu gasto menos com isso. Perturba-me que venha a precisar de uma mercearia que venda fiado e não a encontre. Não encontre mercearias de espécie nenhuma. Nem tudo do passado é repetível. No portugalzinho provinciano e comunitário de Salazar era possível levar uma grande lista de compras e dinheiro nenhum na carteira. Os franchises de hoje, mesmo quando apresentam rostos mais simpáticos por detrás da registadora, não têm a mesma confiança na palavra dada. Além de que, suspeito, a companhia da electricidade é hoje mais despida de escrúpulos na hora de definir tarifários.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A partir de “Portugal, finis terrae”, de Pedro Rosa Mendes

A Ler tem um novo número nas bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de Janeiro. Por causa de “Portugal, finis terrae”, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume: dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência, tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.  
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um reset, de se reinventar politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua, igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a «Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções, mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias contados, que mereça ter os dias contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos. Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado, caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna. Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e votar diferente)?

  
* Quem não conseguir comprar a Ler de Janeiro, pode encontrar aqui o ensaio de Pedro Rosa Mendes: http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B05DAEA92-2ABB-42ED-89ED-7F3F0B378A5D%7D

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sentenças de um nouveau gauchiste

A crise encostou muita gente à esquerda. Uns porque, como crianças, procuram as saias de uma mãe menos severa, mesmo que tonta ou de pouca valia. Outros porque sofreram na pele o receituário que imaginavam apenas ser destinado a terceiros e agora estão ressentidos, clamam vingança. Outros ainda por orfandade, porque perderam ilusões quanto à bondade da direita e do sistema que ela preconiza.
Um destes nouveaux gauchistes apontou hoje aquilo que para ele é a falta de seriedade ou de competência da direita. No início da crise determinava-se que havia que despedir 120 mil funcionários públicos ou baixar salários. Dois anos depois, baixados drasticamente os salários, insiste-se via FMI que é preciso despedir 120 mil funcionários públicos. Falhou a matemática ou caiu a máscara?
Eu até acho que o Estado precisa de, a médio prazo, dispensar funcionários públicos, mas concordo que falta seriedade ou competência a esta direita.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Extravagância

No sábado passado fiz uma extravagância: comprei o Expresso. Comprar o Expresso é sempre uma extravagância, que evito, mas fazê-lo apenas com o propósito de ler a recensão de Os Enamoramentos* escrita por Pedro Mexia é uma daquelas loucuras que condenam um agregado ou um país à miséria.

*Javier Marías

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O relatório do FMI e o (fim do) Estado português

A propósito do relatório do FMI, o agora menos moderado Pedro Lomba conclui o seu artigo no Público com uma evidência: «…este Estado tem de mudar. Se não mudar, implode.» Faltou-lhe foi acrescentar que, não implodindo, há alguém que vai tratar de o fazer explodir. Para todos os efeitos o Estado português será demolido. Resta saber se pelos seus próprios vícios se por alguém ter interesse nisso. Talvez nunca o venhamos a saber, tal a mistificação e o sucesso do discurso da austeridade.

Em muitos aspectos, o Estado português não merece que o defendamos. Os próprios portugueses tornaram a sua defesa uma tarefa um pouco suja. Até certo ponto, pode-se dizer que, como país, temos o que merecemos.
Durante décadas, a sociedade portuguesa foi cúmplice do nepotismo, da cunha, dos favores, da troca de empregos por um punhado de votos, da corrupção, do caciquismo, do despesismo, do oportunismo, do chico-espertismo e de uma boa dúzia mais de ismos perniciosos. Os portugueses pugnaram sempre por eleger os políticos que os tratavam como crianças ou imbecis. Era esta a sua opção firme. O tipo que mais banha-da-cobra vendesse era o que levava os votos. Para o eleitorado, as boas ou más medidas políticas não eram as que tinham o bom governo do país como objectivo ou falhavam nisso — eram as que iam ou não ao encontro das mais altas expectativas do português, geralmente em domínios espúrios. E as medidas não dependiam do PIB ou duma qualquer estratégia governativa. Dependiam da boa ou má vontade do líder; do seu bom ou mau carácter; do amor ou do ódio que este tinha aos portugueses. Se um líder propunha apertos de cinto ou moderação de despesas públicas, não era alguém sensato a tentar ter mão na economia — era um malvado que só nos queria prejudicar. Se, pelo contrário, propunha baixar os impostos e investimentos a rodos, não era um irresponsável ou um lunático — era um grande político.

Não admira que em plena crise haja quem pense que o Governo é mau simplesmente porque corta salários e aumenta impostos, em vez de mandar imprimir mais dinheiro. O Governo é de facto mau, mas não nesta acepção infantil, de vilão, de figura cruel e caprichosa de desenhos animados. Muitos portugueses, se perguntados sobre o que acham do Governo, dirão «é mau!» com a clarividência, o tom, a expressão, a lagrimita e o polegar na boca de uma ressentida criança de seis anos.

Paradoxalmente, os políticos foram sempre tidos numa péssima conta pelos portugueses. Ladrões, oportunistas, mentirosos, gente sem escrúpulos nem interesse pelo bem comum. Estavam lá, no poder, apenas para se servirem. Depois, eleição após eleição, estes ladrões angariavam a maioria dos votos. É que, nas pausas de serem crianças, no meio da sua esquizofrenia, os portugueses sabiam que os políticos não eram diferentes deles próprios. Eram seus iguais. Tinham saído do seu seio. Que cidadão não aproveitava ou traficava uma cunha, não fazia ou pedia o seu favorzito? Que cidadão não enganava o fisco, se pudesse? Que cidadão não encarava o Estado como uma entidade opressora ou um tesouro a saquear, se tivesse a oportunidade? A má opinião sobre a classe política era apenas o exercício quotidiano da hipocrisia, a receita a horas certas para recalcar os próprios defeitos.

O Estado desbaratou os fundos europeus. E quantas empresas e cidadãos o não fizeram? Quantas empresas e cidadãos não usaram o crédito e os incentivos financeiros como meio para obter brindes de vaidade em vez de melhorias na produção? Quantos portugueses não frequentaram sonambulamente cursos de formação apenas pelo dinheirito ao fim do mês enquanto aquilo durava? Quando o Estado desbaratou fundos não o fez, aliás, para agradar ao portuguesinho na sua necessidade de ornamento, de festarola? (Ou de lucro fácil para alguns…) Quantos portugueses pensaram que os estádios do Euro eram uma insanidade? Quantos portugueses não julgaram os presidentes de câmara pela obra feita, mesmo que essa obra fosse frequentemente inútil e desmedida?

Muitos sabiam, muitos diziam que ainda um dia haveríamos de pagar. Esse dia é hoje.

Mas se tudo o que disse atrás é verdade, nada autoriza o Governo a solicitar ou aceitar relatórios conducentes à explosão do país. Uma coisa é mudar o estado das coisas, outra é acabar com o Estado. É que, paradoxalmente, o Estado português melhorou e muito nos últimos vinte anos. Em muitas áreas tornou-se mais eficaz, mais presente no território, mais próximo do cidadão. Descentralizou-se e melhorou, na saúde, na educação, na cultura. Diminuiu a pobreza. Protegeu. Só quem não tem memória ignorará como se vivia melhor em 2010 do que em 1980.

Claro que se pode dizer que o dinheiro da Europa foi tanto que deu para desbaratar e fazer boas coisas. Deu para as grandes negociatas e para as boas obras. Ou, se quiserem, que o endividamento foi tanto que permitiu dar crédito e lucros milionários aos barões dos negócios e umas belas férias ao cidadão anónimo.

O Estado precisaria então de ser reformado? Certamente. Era preciso eliminar a corrupção, o despesismo, o tráfico de favores, o saque, a cultura de indolência e de irresponsabilidade. É isto que o Governo está a tentar fazer? Nem em sonhos. Nada de verdadeiramente estrutural está a ser mudado na sociedade portuguesa para este fim. Desde logo porque o Governo é demasiado representativo do que há de podre na sociedade portuguesa. A inefável dupla Dupont e Dupond, ou Passos & Relvas, não mexerá, não saberia ou quereria mexer uma palha nesse domínio. Tirando umas generalidades — como eliminar freguesias e acabar a eito com empresas municipais ou fundações, que se convencionou serem todas antros de compadrio ou esbanjamento e por isso dão para fingir que se combate esses males — os homens não querem ir ao cerne das questões. Preferem derrubar a floresta a ter de identificar as árvores apodrecidas e lidar com elas.
Tudo o que se está a tentar fazer em Portugal é avançar com bulldozers, terraplanar sem observar o território. Um governo que põe capacete e se senta aos comandos duma retroescavadora pode parecer aos olhos duma qualquer troika ou duns falcões estrangeiros um Governo laborioso, cheio de energia e vontade de começar de novo. Mas na verdade o Governo é uma espécie de homem do fraque, ocupado apenas em cobranças coercivas à classe média. Decidiu-se que há uma factura a pagar já, e o Governo encarregar-se-á disso. Sem argumentar. Sem pedir tempo. Sem ligar às baixas. Fingindo que a Grécia é longe.
É que o Governo também tem uma costelita ideológica. Identifica-se com um certo liberalismo avançado e a alta finança. A sua fidelidade não vai para o povo português — vai para a doutrina e para os gurus internacionais. O Governo não se preocupa se ninguém consegue ver a economia a criar empregos nos próximos anos. Não o preocupa o desemprego — preocupa-o o custo do trabalho. O seu ponto de vista é, por defeito de formação, o da empresa, da grande empresa — exclui o do trabalhador. As empresas têm de dar lucros, eis o ponto. O problema do desemprego resolve-se com fé numa página de Excel (em papel Bíblia claro) ou diminuído o período de vigência do fundo de desemprego. É que o problema do desemprego só existe enquanto isso significar encargos para o Estado. Se a economia criar empregos, diminui-se a despesa do Estado. Se as pessoas forem perdendo o direito ao fundo de desemprego, diminui a despesa do Estado. Diminuir a despesa do Estado é tudo o que importa. E isso é cumprido de duas maneiras: em resultando a estratégia (mais conhecida por wishfull thinking) do ministro das finanças ou pela via da demolição das funções do Estado.   
Lá fora são solidários com este objectivo. Muito solidários, mesmo. O FMI, que já percebeu como falham as suas previsões e as suas estratégias, tratou agora de forçar o plano B. Que na verdade sempre foi o plano A. O seu relatório parece, e de certa forma é, uma confissão de culpa e falhanço da troika e do Governo, mas é apresentado como uma incriminação dos portugueses. Porque o que querem fazer em Portugal necessita que os portugueses se sintam demasiado envergonhados e culpados para se defenderem ou procurarem alternativas.
Como diz Luís M. Jorge neste post, o relatório do FMI é uma «posição negocial». Tão dura que qualquer concessão nos parecerá uma amostra de paraíso. Preparam-se para nos bombardear e ameaçam com a bomba atómica. De seguida enviam “apenas” uns misseis convencionais que poucas paredes deixam de pé e nós agradeceremos como se tivéssemos sido aspergidos com rosas.

Se a troika e a Europa estivessem interessadas em resolver o problema de Portugal também para os portugueses, davam-nos tempo e condições para isso. Exigiam que o Governo fizesse de facto reformas, não demolições. Mostravam um pouco mais de solidariedade. De resto, a Europa, que não foi inocente na desmontagem da nossa economia, já foi solidária com povos com culpas maiores do que as portuguesas. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Detalhar o futuro II

Isto porque parece mais ou menos evidente que a economia portuguesa não vai criar empregos nos próximos anos, nem com a ajuda extra do novo relatório do FMI. A célebre “competitividade” que o Governo e a troika andam a promover de mãos dadas, se tiver resultados positivos na criação de emprego massivo, é coisa para se ver daqui a uma década, talvez. Entretanto, se não houver nas entrelinhas do memorando também um nobre objectivo demográfico e ecológico (reduzir a mole tuga de 10 para 8 milhões, pela emigração ou pela fome), conviria lembrar a biologia: as pessoas precisam de comer, mesmo os preguiçosos, desqualificados e excedentes portugueses.
Assim, ou esta gente que veste Chanel e faz o Reveillon no Rio aceita que talvez a dívida e o memorando sejam de renegociar, nos seus termos e sobretudo no seu prazo, ou terá de começar a preparar com denodo e cinismo nazi os seus relatórios de baixas. O que não lhe deve ser difícil, aliás.
Que sejam o passado, as circunstâncias e a dura realidade a lançar-nos no desemprego e na fome, não a teimosia, a estratégia ou a ideologia actuais.

Detalhar o futuro

O relatório do FMI diz muita coisa, mas não diz o que fazer com os novos milhares de pessoas que vão ficar sem emprego e, pior, sem subsídio de desemprego. Um pouco de minúcia neste assunto precisava-se: Fuzilamento em massa? Gaseamento seguido de incineração? Detalhe, senhores, detalhe.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O fim da fé

Costumava acreditar no capitalismo e na automatização e informatização dos sistemas de produção. O capitalismo assegurava o crescimento geral e estimulava o desenvolvimento da democracia. A automatização libertava o homem para o ócio.
Entretanto perdi a fé.
Não me confundam: a automatização e a informatização são em si excelentes, mas não me parecesse nada evidente que hoje estejam ao serviço da humanidade. O capitalismo continua interessado em garantir a máxima produção com o menor custo, mas já não há ninguém (com poder) interessado em garantir emprego para os humanos. E, paradoxalmente, a aspiração ao ócio passou a ser uma vergonha, um pecado.
Já não temos como acreditar que os processos e os mecanismos do capitalismo e da investigação tecnológica garantem a renovação dos empregos. O crescimento global permanente é uma impossibilidade e a inovação tecnológica não está a assegurar suficientes novos empregos. O rácio entre chips e humanos é-nos simplesmente desfavorável.
Não havendo epidemias e cataclismos que dizimem suficiente população, o mínimo bem-estar geral só pode ser assegurado por uma diferente redistribuição da riqueza. Mas também isso é algo que o capitalismo não parece nada interessado em providenciar. O capitalismo, tal como praticado nos dias que correm, é uma bela ideia que nos condena.

À falta de outra inspiração, hoje no supermercado evito as caixas automáticas; procuro um funcionário de carne e osso, mesmo que isso signifique estar alguns minutos numa fila.
É uma espécie de luta. Uma luta que perderei, claro: no final, os custos da mão-de-obra extra serão acrescentados às minhas despesas e não deduzidos aos dividendos dos accionistas.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cretinos ideológicos

O fim do Câmara Clara é um exemplo de como a crise tem as costas largas. É a prova de que estes tipos que nos governam são, entre outras coisas, gente tosca ou cretinos ideológicos. Quer dizer, era aquele programa uma das «gorduras do Estado»?
Seremos um país pobre por erros nossos e fado, fatalidade. Mas seremos um país espiritualmente pobre porque somos governados por pobres de espírito, apoiados por outro género de cretinos (de carreira ou opção) que não tiram o cu do sofá para ver um espectáculo e quando nele instalados não lêem um livro*.

*Alguns lêem-nos, mas como se sabe a literatura não evitou os nazis, como evitaria estes pequenos preconceituosos?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Salários e responsabilidades

Lembro-me que, anos atrás, fiquei contente quando descobri que certos pedreiros ganhavam o dobro de mim. Não era exactamente o meu gene comunista a manifestar-se, era a ideia de que se algo corresse menos bem, se tivesse de sacrificar-me e ir trabalhar ao ar livre na intempérie, no inferno do Verão ou no gelo do Inverno, pelo menos teria o consolo de saber que poderia ganhar bom dinheiro, se trabalhasse mesmo muito.
Parecia-me uma correcta organização do mundo, o capitalismo a funcionar da forma certa. Maior produtividade, maior vencimento. Boa remuneração para trabalhos difíceis, mas necessários, que a generalidade dos homens de bom grado recusaria.
Mas cedo descobri que aqueles casos eram excepções no tempo e no espaço. O capitalismo, pelo menos na versão portuguesa, não premiava o esforço, não tinha incentivos para as profissões duras. A pessoa tinha sorte ou azar, era tudo. Ter uma profissão dura não era uma opção com um bom salário em vista, era uma desgraça, algo em que se caía por falta de alternativas. As tabelas salariais das profissões e das empresas não estavam feitas a pensar na dificuldade do serviço. Na verdade, quanto mais sorte se tinha maior era o vencimento. Quanto mais limpa e menos custosa fosse a função, mais bem paga ela era. Supostamente porque a função mais limpa e mais confortável era também a que tinha mais responsabilidade.
Só que responsabilidade não é um conceito lusitano. A palavra existe no nosso dicionário, mas com outra semântica.

Para muita gente, conquistar uma posição mais alta na hierarquia de uma empresa ou instituição é obter um privilégio, ascender a uma espécie de estado de nobreza medieval. A sociedade portuguesa está cheia de viscondes e duques, gente cujo vencimento superior ao dos seus subordinados não se destina a pagar a responsabilidade, a liderança que devem assumir com dedicação. Um salário alto é um dote, um tributo, algo que cai na conta ao fim do mês como a renda devida ao sangue fidalgo. Um direito natural que não precisa de mais justificação do que titulo outorgado ou herdado. Ser chefe de secção ou director de serviços não significa que se tenha de chefiar ou dirigir coisa alguma. Significa apenas que se tem uma comenda, que se conquistou o direito a receber mais do que o comum dos mortais e a trabalhar menos do que eles.
Este tipo de viscondes tem aversão a ser incomodado com as questões do serviço. É um ultraje que os subordinados lhes peçam uma orientação ou uma decisão. Suas altezas não podem ser aborrecidas com matéria tão vil. Se ascenderam ao estado ducal não foi para sujarem as mãos ou matarem a cabeça. «Eu não posso ser incomodado com estas coisas», ouve-se-lhes com frequência, em tom enojado ou escandalizado, sendo «estas coisas» o serviço por que são responsáveis. O seu trabalho quotidiano, que lhes toma geralmente um décimo do dia, segue uma vetusta tradição lusa: tratar do despacho. E o despacho, como o próprio nome indica, consiste em despachar para os funcionários menores toda a documentação e assunto que careça de resolução, sem mais nenhuma directriz do que um seco «resolva» e a respectiva assinatura e carimbo. Caso o funcionário pretenda manifestar dúvidas ou solicitar instruções deve preparar-se para lidar com a impaciência ou a ira do superior — e para não obter nada do que necessite. Se tiver a veleidade de insistir, talvez perceba de uma vez por todas o que significa liderar ou dirigir, o que significa a responsabilidade: «O amigo trate de resolver o assunto como bem entender e sem demoras», é a resposta que obtém. «E fique sabendo que se isto der para o torto não vou ser eu a cair». E o chefe tem razão, porque em Portugal aos chefes não se lhes exige mais do que o pleno usufruto dos seus privilégios. Jamais ocorre em nenhuma instância da hierarquia a peregrina ideia de pedir responsabilidades aos… responsáveis. Mesmo as inspecções ou os tribunais, nas raras vezes em que são chamados a pronunciar-se, desconhecem o conceito de responsabilização, a não ser que ele se possa aplicar a um qualquer lacaio sem perigo para a nobreza.
Portugal não chegou aqui vindo do nada.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Esperar o fim no Solar Bragançano


Um destes dias o inimigo chega às portas do burgo — já se ouve o ribombar da artilharia, ao longe, quando o vento está favorável; de noite vêem-se os clarões —, e nesse dia tenciono estar calmamente a jantar no Solar Bragançano. Não conheço muitos sítios onde seja tão agradável esperar o momento da rendição, com uma playlist que inclui Brahms e Mozart, bebendo vinho por um copo onde cabe uma garrafa de 0,75l e nos sugere que afogarmo-nos ali pode ser uma alternativa.
Quer dizer, um tipo deve morrer como viveu, não é?, acima das suas posses.
Há outros sítios elegantes e luxuosos, mas nenhum nos faz sentir em casa como aquele, e a ideia é pensarmos em nós como o senhor no seu castelo. O Solar Bragançano podia ser a casa que herdámos de uma bisavó nascida no dia em que o Eça publicou Os Maias. A casa para onde depois nos mudámos e vivemos uma vida improdutiva e devassa, estourando a parte pecuniária da herança e contraindo dívidas impagáveis. Alguns de nós não têm outra maneira de se sentirem estroinas e decadentes senão fingindo habitar ancestrais solares em vez de apartamentos alugados e escassamente mobilados na Moviflor, com o mapa-mundo pendurado no lugar do Rembrandt.
Quando o inimigo estiver às portas mudo-me para lá, portanto, encomendando uma das várias iguarias não assim tão caras, mas demasiado caras para mim, aceitando ser servido pelos proprietários — um casal suave, encanecido e discreto — como se fossem os meus mordomos com salários em atraso, espraiando os olhos pela decoração genuinamente antiga e fingindo pensar como vai ser duro perder tudo aquilo, mastigando por uma vez sem pressas mas não porque o gastroenterologista o aconselhou, variando de vinho com cada prato, experimentando uma segunda sobremesa, bebericando a aguardente mais velha da casa, aspirando o odor secular das madeiras abauladas com o último oxigénio...

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Há tempos fiz parte disto como treino. Jantei no Solar Bragançano gastando o que tinha sobrado do salário do mês. No dia seguinte jantei conservas com cebola — mas não me arrependi, que diabo!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

IV Reich?


A imagem acima, com que tropecei no Facebook, é de um texto de Vasco Pulido Valente. Prosa de Outubro de 1989, no Independente.
Lembro-me deste artigo (ou de outros no mesmo sentido). O historiador conhecia a matéria e os seus cenários parecem assustadoramente certos, se entendermos a actualidade naquele sentido meio «bélico». Mas é curioso recordar que na altura VPV designava isto como «o problema alemão», quando hoje lhe parece conceder uma certa legitimidade, justeza. Como se o domínio da Alemanha, mais do que inevitável (pela sua pujança económica e pelos erros dos outros países) fosse uma questão de justiça, deixasse de ser um «problema» para ser a recompensa certa e até «moral» pelo seu mérito. Restando-nos, aos outros países, assumir a condição de vermes submissos.
Mas talvez não haja motivos para tanto fatalismo. A Alemanha certamente não se revê no retrato pulidiano de 1989, e talvez no final do dia, fruto de outro «problema» chamado «globalização», precise tanto da UE como a UE dela. Bolas, alguém tem de ser optimista — para pessimista (ou «realista», diria ele) basta o Vasco. De resto, não consta que as suas piores previsões tenham acertado. Por enquanto, pelo menos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Manifestações

Para alguns comentadores, as greves e as manifestações são apenas folclore e uma maçada. Desvalorizam-nas, negam-lhes pertinência e genuinidade. Recusam aceitar que elas representem comunidade alguma. Defendem que nelas só participam grupos ociosos e/ou radicais, grunhos engajados com o PCP e o BE. Gente à procura de sarilhos e indiferente aos transtornos e aos prejuízos que causam. Os mais extremistas dos comentadores, se pudessem, claro, proibiam as manifestações.

Muitos destes críticos já estavam no activo em 2003, quando por toda a Europa as pessoas se manifestavam contra a guerra no Iraque. Então como agora, vituperavam ou despejavam sarcasmo nas manifestações e nos manifestantes. O argumentário usado não diferia muito do de hoje. Soletrava da mesma cartilha.

Como a História o comprovou, os manifestantes estavam então certos e os comentadores redondamente enganados. Muitos deles não passavam de rapazes iludidos com um ideário, prontos para acreditar em qualquer patranha envernizada da forma certa. As equipas de Bush e Blair confiaram nisso, conheciam o género.
A partir de uma mentira aceite com uma candidez e um voluntarismo surpreendentes, a guerra fez-se, e o prejuízo para o mundo foi tremendo, as ondas de choque ainda hoje se sentem. No entanto, esta rapaziada crítica de manifestações nunca deu o braço a torcer. O problema foi a mentira dos outros, não a sua credulidade pateta. Não ruborizaram quando caiu a máscara. Não sentem remorsos agora.

Contudo, o embaraço de 2003 devia inibir um pouco a seita, fazê-la pensar duas vezes sempre que dispara contra as manifestações. É bem verdade que existem manifestantes profissionais e gente à procura de sarilhos. Não se pode negar que muitos dos que engrossam as filas não têm nenhuma ideia do que estão a defender ou a atacar, muito menos têm qualquer contributo fundamentado para o debate. Mas, porra, quem são estes comentadores cadastrados para, por assim dizer, atirar a primeira pedra da calçada?

Não digo que as receitas da troika incluam mentiras conscientes sobre algo equivalente a armas de destruição massiva. (Também não digo o contrário.) Não digo que todos os manifestantes sejam de uma lisura inatacável. Mas não se deve ignorar que, ao contrário da «maioria silenciosa» supostamente prejudicada na sua inocência com as greves e as manifestações, muitos dos manifestantes, os mais assíduos, são pessoas que não votaram nos governos PS e PSD — o que talvez os alivie um pouco da culpa de termos vivido os últimos tempos acima das nossas posses. E, voltando a 2003, é bom lembrar que a intuição que leva um número crescente de pessoas a manifestar-se nem sempre deve ser menosprezada. Nunca se sabe se não está certa. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Determinismo a la carte

«Que parte não perceberam: não há dinheiro!» Esta é uma forma estúpida de expressar as coisas, dotada do carisma e do potencial mobilizador de um preguiça pendurado pelas unhas, mas é possível que esteja certa. As reivindicações sectoriais, no seu egoísmo cego, conseguem aqui e ali um alívio para as suas particulares dores (quanto mais acima estiverem na hierarquia do capitalismo mais o conseguem), mas não resolverão nada de geral e fundamental. Provavelmente a crise é de tal forma que não nos vai restar alternativa ao empobrecimento e ao desemprego, ao desemprego desamparado. A distopia deixou de ser um género literário ou cinematográfico para ser o degrau seguinte da evolução. Talvez regressem a fome, a guerra, as deambulações fantasmais de massas esfaimadas. O fluxo urbano será no futuro constituído por hordas cambaleantes de novos caçadores-recolectores, antecedidas de breves incursões iradas de gangues apocalípticos à procura do último supermercado, da última mercearia, da última lata de conservas. Antes disso, um bife, quando aparecer, há-de novamente ter de chegar para uma família, e a semana de trabalho, para os que o tiverem, deixará de ser inglesa para ser neo-helénica (seis dias, não é?) e depois asiática (full time). Regressaremos às hortas, à pesca à linha, à economia baseada na troca de artigos, e um dia a população na Terra começara finalmente, naturalmente, a regredir.
Talvez os crentes na austeridade estejam certos e não mais possa haver classe média, assistência social, solidariedade de estado. Talvez seja até justo irmos ao encontro do nosso lugar no Terceiro Mundo, o destino a cobrar-nos a arrogância e o egoísmo de séculos, a cobrar-nos a imprevidência de cigarras patetas e eleitores imbecis. Sim, talvez não haja alternativa ao castigo.
Mas em que momento começarão o Governo e os poderes na Europa a testar outras vias? Em que momento concederão que por este caminho o desemprego não vai diminuir nunca? Quando estarão dispostos a aceitar que, com o empobrecimento geral da sociedade, era natural, expectável, que houvesse um empobrecimento proporcional dos ricos?
Que constatação determinista, fria, escolheram os líderes europeus: que tem de haver pobres ou que tem de haver ricos? Dito de outra maneira: para a gente que nos governa, a pobreza generalizada é inevitável ou é a riqueza de uns poucos que é em qualquer circunstância inegociável?