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sexta-feira, 8 de maio de 2020
Grotta n.º 4
Já recebi o meu exemplar da Grotta, a revista literária que se edita dos Açores para o mundo. Nela publico, a convite do director Nuno Costa Santos, uma pequena ficção intitulada «Envelhecer» e que tem como epígrafe uma canção de Bob Dylan: «The Times They Are a-Changin’». O Trump e o Boris também são mencionados.
A revista pode ser encomendada online aqui:
www.letraslavadas.pt/destaque/grotta-arquipelago-de-escritores-4/
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Grotta
Saiu o número 4 da Grotta, a revista literária que se edita dos Açores para o mundo. Nele publico, a convite de Nuno Costa Santos, uma pequena ficção que talvez seja o início de qualquer outra coisa.
A revista de momento apenas pode ser encomendada online. Aqui: https://www.letraslavadas.pt/destaque/grotta-arquipelago-de-escritores-4/
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Narciso
Estava há poucos dias no seu novo emprego de recepcionista de uma clínica dentária quando reparou no rapaz que todas as tardes passava em frente à porta envidraçada da rua e espreitava para o interior. De início foi só a curiosidade de ver quotidianamente um gajo bonito, fazer apostas consigo mesma sobre se viria hoje, sem atraso, se olharia. Depois, convenceu-se de que aquela passagem já não era uma coincidência, que havia um motivo, e que o motivo era ela. O rapaz descobrira por acaso a nova recepcionista atrás do balcão, encantara-se e, porque era tímido, não ousava entrar, limitava-se a fazer olhares, expressões subtis e gestos mais ou menos discretos no tempo que demorava a percorrer os três metros de envidraçado. Algumas semanas mais tarde, por iniciativa e manobras dela, que o foi descobrir nos locais onde ele parava à noite, ficaram de certa forma namorados. Na última vez em que estiveram juntos, ela fez um escândalo porque ele não parava de olhar por cima do ombro dela para uma rapariga noutra mesa, com aquelas expressões que conhecia bem.
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Breve história de uma carreira pop
Começou por cantar na missa levado pela mãe, uma senhora mística e sofridamente adúltera que lhe transmitiu o gosto pelo êxtase à la Teresa D’Ávila. Era famosa a sua (dele, todo rosado) boquinha de anjo. Na adolescência, nauseado por tanto apregoar sem resultados a virtude e a humildade, entrou à noite e às escondidas, de cerveja choca na mão, para uma banda de rock’n’roll. Quando começou a dominar a técnica, que, além da guitarra, implicava o lábio superior, a sobrancelha direita e um certo jogo de joelhos, chegou o punk e viu-se então obrigado a fingir que não sabia mais do que dois acordes e que desafinava por origem social. Para facilitar, fez-se baterista, posição em que lhe custava menos parecer genuinamente incapaz e onde o seu entusiasmo musical, a martelar com energia tambores e pratos, poderia facilmente confundir-se com um tique resultante de labor proletário, as contracções espasmódicas de um operário chaplinesco já fora do alcance da medicina no trabalho. Mas não chegou a aquecer o tamborete, porque logo logo se impôs o new romantic, um punk limpo e amaricado cujas cabeleiras barrocas e caras empoadas lhe lembravam, dos tempos de acólito, as gravuras que o obrigavam a ver sempre que lhe ensinavam um novo requiem ou quaisquer outras obras litúrgicas. Passou aí a ser o frontman porque, apesar de tudo, o encavalitar dos dentes após a velha e precipitada recusa revolucionária do aparelho e os inesperados e incipientes pêlos de uma barba dylanesca, bobdylanesca, não lhe perturbaram a natureza essencialmente angélica e aristocrata, o perfil quase helénico e petrificado de figura de proa de um veleiro. Ficou então famoso o seu apetite por microfones, que mordia criando uma imagem de marca (e deixando um registo odontológico) muito dirigida a teenagers leitoras da Bravo mas pouco apreciada pelos promotores de concertos e nada pelos vocalistas que, enojados, lhe sucediam no alinhamento dos festivais. Da new age à soul foi um passo natural, porque, naqueles anos, a quem não tinha atitude ou carisma suficiente não restava mais do que permanecer verdadeira e frustradamente cantor, tendo talento. Ninguém ignorava que ele teria preferido optar por uma carreira mais sexual e menos musical, mas não havia nada a fazer, só a voz lhe valia. Despediu então toda a banda, uma malta que entretanto se tinha tornado assaz competente, para contratar afro-descendentes. A soul pedia, achava ele, um balanço específico e mais fôlego, coros poderosos, predicados que o seu velho combo de não cantores movido a Super Bock e Macieira não tinha como providenciar. Foi-se ao bairro dos retornados e veio de lá com uma secção rítmica capaz e um coro de moças roliças que teria maravilhado a sua mãe, não fora o tom da pele delas não combinar com os reposteiros da família. Da velha banda que o acompanhara pela história da música sobrou, por polivalência e consequente direito próprio, o teclista, um Ray Manzarek que não raras vezes saía da madrugada do backstage, limpando os óculos de tartaruga, para a nave da sé, onde tinha a seu cargo o matutino órgão de tubos. E então a soul deu-lhe cabo da carreira. Quando se imaginava um George Michael nacional, como ele reinventado e introduzido numa respeitabilidade vocal e interpretativa a que a imprensa se haveria de render (embora no seu íntimo continuasse a lamentar-se por a voz ser o seu único predicado), começaram a acometê-lo pesadelos, terríveis pesadelos. Via-se no palco como no convés de uma nau quinhentista, uma nau negreira. O pálido Manzarek era o seu imediato e a banda mais o coro, todos negros ou mestiços, eram os escravos. Noite após noite durante a sua última digressão, baralhando épocas e tragédias históricas, não conseguia deixar de ver o baterista como o sonderkommando que marcava o ritmo nas galés e as coristas, nas suas coreografias de braços ondulantes, como os condenados remadores. Esgotado e dominado por um remorso de classe que uma carreira musical plebeia não conseguira desvanecer — ainda que aquela mesma carreira tivesse feito morrer de desgosto a mãe, já de si deprimida por haver na verdade pouco proveito prático no adultério sénior — resolveu à boa maneira maoista fazer um mea culpa público e abriu na baixa um centro de terapia com sinos tibetanos.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
O pianista
Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:
«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas
mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma
mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema
fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais;
agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido
dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e
flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver
através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os
comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o
caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon
ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes
numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes
espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés
históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração
barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de
reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas
e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de
que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista
para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na
plataforma junto ao lago, estendido na chaise
longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não
tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem
hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não
era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um
músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em
relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de
um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite,
que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas.
Digo que a sua
indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos
observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos
demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas
imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os
olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por
cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido
descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras
intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre
absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa
jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras.
Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado,
permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas,
e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou
magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da
terra.
Num dos
verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos
que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas
nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas
chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele
vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a
interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos
comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a
literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do
assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas.
Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador
e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e
roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua
espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira
vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a
sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume
vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que
era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei,
influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era
algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos
ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa
provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos
mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio.
O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de
imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente
visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido
nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só
depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe
em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que
nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um
gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse
momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe
do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua
maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão
desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o
pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago
como o protagonista de A Morte em Veneza,
ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma
reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive
a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era
suficiente, e exacto, para o definir.»
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Caderneta de cromos
[de um trabalho em curso]
«Suponho que
toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever
dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para
isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro
da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que,
assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que
escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é
apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou
aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não
subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar
a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar
cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel
secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar.
Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção
oculta, a big picture, o verdadeiro retrato
ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos
dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los,
colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os
agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É
também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês,
seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam
negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o
bouquet.
Acresce que
também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando
parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes,
escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das
nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de
pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para
nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar
um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais
comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de
prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma
prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser
o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade
temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na
hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de
aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós
usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o
exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para
aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto.
Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos
de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que
correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a
revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente
encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou
com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta,
um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra
Talhada.»
sábado, 24 de março de 2018
a violenta e cruel natureza da sobrevivência
[de um trabalho em curso]
«Aos domingos,
a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de
poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um
coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras,
de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em
cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o
animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as
debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de
modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à
morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles
episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de
sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das
penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a
morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava
passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas,
não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As
crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e
ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos,
eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham
um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas
coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a
iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não
percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou
indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente
entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de
choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela
era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho
estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e
convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas
simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se
assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de
comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias
antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos,
uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo
pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia
puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela
cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos
a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado
mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria
fisicalidade.
E contudo
esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com
uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela.
Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela
não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais
tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer
carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país
evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram
conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias
da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas
excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha
mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da
sobrevivência.»
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
O Ave-Rara
O Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.
[work in progress]
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Fim da linhagem
«Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição de que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora devida a uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite. Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição de que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora devida a uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite. Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»
Novembro de 2008
(Publicado em 27 acrobacias sobre (quase) a mesma coisa – Igualdade de género contada e ilustrada, Esdime: 2014)
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Vanitas
Só para lembrar que a Granta Portugal n.º 5 chegou às livrarias e traz um conto meu. Bem sei, não é a mesma coisa que pertencer à elite dos mil poetas da Chiado Editora, mas figurar ao lado de Jonathan Franzen e Gore Vidal sempre dá uma certa vaidade.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Granta
Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica
uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta,
e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o
limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e
colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós
conhecia muito bem a Granta, o
Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new
writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa
e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica
um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o
mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
O último acto
[Já agora, que diabos, fica aqui em nova versão o contito referido no post anterior.]
Mudara-se para as montanhas no
início da semana com o objectivo de passar o Verão. Não tinha exactamente um
projecto a que se entregar, nada mais do que uma mala cheia de livros e a
necessidade absoluta de não ver ninguém, ninguém conhecido, pelo menos.
Escolheu uma vila pequena sem outros
atractivos além de uma paisagem discreta e um festivalzinho de música clássica
num fim-de-semana de Agosto (reparar no festival fora uma cedência de que
esperava não se vir a arrepender). Alugou por oito semanas o bungalow com uma lareira e um
alpendre virado para um vale profundo. Ficava nos arredores da povoação e fora
o único a ser erigido de um complexo turístico falhado.
A cabana não estava nas melhores
condições, era frágil, em madeira, mas tinha conforto suficiente, mais do que muitas casas
nas redondezas. Usaria o alpendre tanto quanto possível. Quando não estivesse ali
sentada a ler os seus livros andaria a tentar perder-se pelos montes ou teria
ido fazer as refeições à vila, guardando-se de fazer amizades. Por uma vez na
vida, estava-se nas tintas para a educação ou para a cordialidade. Seria a
velha antipática e egoísta que tinha o direito de ser.
Bem, talvez não tivesse esse
direito. Não tinha sido exactamente o melhor dos seres humanos. Mas, que diabo,
quem poderia atirar a primeira pedra? Não havia seres humanos bons e ela queria
mesmo que se fodessem todos (estava velha e com um diagnóstico de senilidade
galopante, podia, finalmente, usar o verbo foder).
No terceiro dia começou a nevar.
Estava a tarde a meio e ela apenas se deu ao trabalho de achar ridículo nevar
em pleno Verão, com aquele calor. De todo o modo, era-lhe indiferente. A
lareira estava funcional, caso a temperatura baixasse, e havia lenha nas
traseiras do bungalow. Além do mais,
teria a sua desculpa: escusava de se censurar por ficar em casa em vez de ir caminhar
pelas redondezas. Gostava do exercício físico — tivera sempre o culto do corpo,
do movimento, fora bailarina —, mas agora já não via o mesmo interesse nisso.
O crepúsculo foi belo, teve de
admitir. Duas forças em oposição: a noite que caía e a neve que teimava em
manter os campos e os montes iluminados. Assistiu ao combate de rosto colado na
janela e livro esquecido nas mãos. A noite ganhou, naturalmente, mas não foi
uma vitória completa: não havia trevas, apenas uma penumbra que permitia ver
muito mais do que os contornos das coisas. Ao redor da cabana estava até bem
claro, como uma noite de filme. O branco da neve reflectia a luz eléctrica e a
luz das estrelas, transformando a envolvência num décor de estúdio.
Então eles chegaram. Não se
moviam como pessoas normais. Vinham acometidos de convulsões, como que afectados por danos
neurológicos, tropeçando, caindo e levantando-se quais robots inadaptados ao terreno. Na aparência eram humanos, mas
diferenciavam-se pelos movimentos, pela postura estranha do corpo, pela maneira
impossível como mexiam e dispunham os membros.
Marionetas animadas, deu consigo
a pensar. Alguns pareciam querer aproveitar a neve para deslizar. Outros
simplesmente tombavam a cada dois passos, com violência. Levantavam-se de
imediato, dir-se-ia que impulsionados por molas, para voltarem a cair no passo seguinte.
Depois já nem tinham o trabalho de se levantarem, simplesmente saltavam no chão
com o corpo na horizontal, em estertores de gatos atropelados, acrobáticos, conseguindo
progredir no terreno desta forma.
Não era absurdo ver uma intenção
coreográfica naquilo tudo. Pelo menos ela achava que era esse o espírito que
animava os visitantes. Talvez porque não estava disposta a ceder ao pânico
fácil e estereotipado de se imaginar na presença de uma dúzia de mortos-vivos.
No momento seguinte eles
levantaram-se e juntaram-se em círculo, com os braços nos ombros uns dos
outros, como uma equipa de râguebi disforme. Segredavam e parecia ouvir-se uma
música alusiva à conspiração (de certeza o vento, que entretanto chegara). Fechou
o livro e apagou a luz. Apetecia-lhe desfrutar aquilo intensamente — e ao mesmo
tempo sentiu que era esse o gesto que se esperava dela, como se tudo naquela
noite obedecesse a um guião.
E agora parecia que uma bomba
rebentara no meio do conciliábulo lá fora: cada corpo foi projectado para um
lado e os primeiros a conseguirem levantar-se tiveram uma reacção estranha:
correram a atirar-se repetidamente contra a cabana.
Achou que devia abrir a
porta — aquelas pessoas procuravam desesperadamente abrigo, por certo —, mas
alguma coisa a fez permanecer à janela, a espreitar. Talvez eles desejassem, na
verdade, derrubar-lhe a casa, fazê-la cair sobre a inquilina, sepultando-a
viva. Era uma ideia terrível. Contudo, estava a ter prazer em observar a
violência com que os visitantes se atiravam contra a casa, a forma coordenada,
bela e perturbante como o faziam. Eram impactos de uma bizarria que assentava
na violência e na invulnerabilidade de que pareciam beneficiar os atacantes.
Daquele assalto não resultavam danos físicos para eles. Era possível sentir a
força a que era submetida a estrutura de madeira da cabana a cada investida,
mas não havia lesões ou queixumes.
O ataque obedecia a um padrão que
ela esteve quase a decifrar, só que acabou por perder o fio ao raciocínio.
Acontecia-lhe com crescente frequência. Estava velha, talvez com Alzheimer, não
havia nada a fazer.
Um dos visitantes começou a
mexer-se freneticamente, possuído por um demónio ou tomado por um feroz ataque
epiléptico. Pareceram-lhe familiares, a pessoa e os movimentos. Era um homem
jovem, de etnia oriental, e fazia coisas assombrosas com o corpo. Tinha a
capacidade de o metamorfosear, dava-lhe novas formas e dimensões. Esticava-se e
parecia uma pessoa alta, de longos membros, ou encolhia-se até ao chão e não
era mais do que um pequeno monte de roupa enrugada sem nada dentro. Erguia-se
de novo como uma pessoa franzina, pouco mais do que um cadáver emagrecido, e no
momento seguinte ficava largo de ombros, os músculos recortados e imponentes. Dir-se-ia
um daqueles bailarinos acrobáticos de que em tempos gostara tanto.
De súbito, o oriental esmagou o
rosto contra a vidraça (sem a partir) e ela, com um susto, julgou reconhecer-lhe
a cara. Não lhe faltaria mais nada, pensou, tanto trabalho para conseguir um
Verão só para si e agora ter conhecidos a tentarem derrubar-lhe a cabana...
Seria patética, se não fosse trágica, a ameaça de companhia.
Estava a tentar concentrar-se nas
razões que levariam um grupo de desconhecidos (insistia em considerar que o eram)
a encetar um ataque daquele género quando todos lá fora se imobilizaram,
fixando um ponto qualquer para lá do círculo da luz branca artificial que rodeava o bungalow. Não falavam, mas o seu olhar
dizia tudo: o inominável, nada menos
do que isso. Ouviam-se passos pesados e uma música tensa.
Após alguns instantes fustigados
pelo vento, um velho, mais aturdido do que ameaçador, atravessou a neve pisada
do quintal. Passou em silêncio pelo grupo petrificado e veio postar-se de
joelhos à frente da janela,
no rosto uma expressão de súplica. Parecia-se de forma assombrosa com alguém
que ela conhecera intimamente, amorosamente. E se era quem parecia, esta era então
uma visita do além.
Aquele homem já não existia.
Tanto quanto ela conseguia raciocinar, não devia estar ali, não podia estar ali. Teve um suspiro de
enfado e deixou-se cair no sofá. Pior do que a visita de conhecidos era a
visita de conhecidos mortos.
Olhou à sua volta, incomodada com
a farsa. A cabana parecia parte de um cenário, as estrelas projectores num
palco.
Uma voz sussurrou-lhe no interior
da cabeça, como um ponto a segredar-lhe as deixas, e ela sobressaltou-se. A voz
dizia-lhe: «Maria, agora sais da cabana e abraça-lo.»
Que demónios significava isto?
Que epifania absurda era esta? Quem lhe falava? Que divindade não invocada lhe
dava ordens? Tentou abafar aqueles murmúrios tapando os ouvidos com as mãos e
nesse momento percebeu que tinha um auricular enfiado numa das orelhas.
[Inspirado em "32 Rue
Vandenbranden", de Peeping Tom]
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
E-musas
Uma vez escrevi em directo no blogue, durante semanas, um conto longo que
em boa parte se inspirava na persona de PJ Harvey de alguns vídeos e tinha como
banda sonora obsessiva um outro vídeo com uma música igualmente obsessiva de
Radiohead — “Street Spirit (Fade Out)”. Lembrei-me disto enquanto imaginava a
vida de escritor na Antiguidade Clássica: uma actividade dura, sem o YouTube e sem
essa invenção fundamental que é o loop.
A estatuária grega, falando de musas, tinha a vantagem (também táctil) dos
volumes, uma tridimensionalidade que o YouTube ainda não tem, mas faltava-lhe o
movimento, e seria necessária uma sucessão de estátuas para cobrir toda a
expressividade do rosto de PJ: a inocência e a perversidade, a candura e a dureza,
a melancolia e a violência. Retratá-la seria trabalho para toda uma guilda
medieval. Já manter uma trupe dias a fio a tocar a mesma música sairia caro em
broa e vinho, algo que a electrónica nos poupa.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Velas benzidas
[Eis o conto a que se referia o post anterior:]
Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz
falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum
modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos
obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
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