Vi esta citação de Bruno Vieira Amaral e preparei-me para sacar a pistola porque, depois de tanto ler livros e entrevistas de autores, a mim parecem-me é simplesmente estúpidas todas as afirmações prescritivas ou restritivas sobre a artesania da escrita.
Mas depois, caros facebookianos, porque não se deve reagir apenas a títulos, fui ler a frase no seu contexto e percebi que aquilo era o autor a falar sobre si mesmo e não uma daquelas regras «universais» em que muitos escritores são useiros e vezeiros a extrair do próprio umbigo.
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(Entrevista aqui: https://oquedizestu.blog/2020/06/03/bruno-vieira-amaral-comecar-um-livro-pelo-titulo-parece-me-simplesmente-estupido/)
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quarta-feira, 10 de junho de 2020
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
O Brecht dos bons observadores
O Observador é uma bela ideia
na imprensa portuguesa: junta num mesmo antro uma quantidade jeitosa de situacionistas.
Torna-se mais fácil evitar a seita quando sabemos onde ela se acoita e é também
mais simples mantermo-nos actualizados (basta um clique) quando, enquanto
verdadeiros democratas, procuramos a nossa dose higiénica de contraditório. (Na
verdade, não é bem isso que ali se procura, não vale a pena sermos generosos — nem
escondermos a nossa compulsão pornógrafa.)
Numa das produções recentes
daquela folha online lemos de um tal Mário Amorim Lopes:
«Quando financiamos uma peça de Brecht de um qualquer encenador que jura que a cultura deve ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. E sacrificar a vida de uma criança é um preço demasiado elevado a pagar.»*
O parágrafo é todo um programa
— e de uma subtileza antológica. Imagine-se que o rapaz escolhia outro dramaturgo;
por exemplo, um daqueles gregos um pouco menos odiados pela direita Observadora:
Sófocles, Eurípedes. Ou o inglês Shakespeare. O sofisma teria um impacto diferente.
Aqui e ali, um ou outro velho conservador torceria a sua penca, sentado em
frente às prateleiras de bom carvalho da biblioteca do solar. Um clássico grego é um clássico, raios, e Stratford-upon-Avon não é assim tão
longe de Oxford. Há sempre uma criança que se pode sacrificar para salvar os
clássicos, como sabia Churchill. Com dramaturgo de outra família literária, o
voluntarismo do neófito seria remetido para a gaveta das inanidades próprias da
juventude. Mas ele soube jogar em terreno seguro e lá colheu as suas palmaditas
nas costas.
Jogou aliás tão pelo seguro
que usou para sofismar esse democraticamente odiado universo da performance
teatral. Imagine-se que ele tinha dito, por exemplo, quando financiamos uma apresentação
da 9.ª Sinfonia de um qualquer maestro
que jura que Beethoven é património da humanidade e a sua interpretação deve
ser financiada por todos nós, podemos estar a reduzir os recursos disponíveis
para mais um tratamento que possa salvar mais uma vida. Haveria por certo chatice da próxima vez que o avô descesse à capital para a sua ida sazonal ao S. Carlos.
Ou imagine-se que Amorim se atrevia ainda
mais, num acto de verdadeira rebeldia juvenil (hipótese meramente académica, já se sabe), e saía para outros campos semânticos: quando financiamos uma empresa que paga
impostos na Holanda, podemos estar
a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais
uma vida. Ou, já num assomo de loucura: quando financiamos pornograficamente
prémios a gestores, podemos estar
a reduzir os recursos disponíveis para mais um tratamento que possa salvar mais
uma vida. E sacrificar a vida de uma criança para enriquecer uma classe não raro incompetente e criminosa que se
julga incensada e merecedora de todo o dinheiro que nega aos outros é um preço
demasiado elevado a pagar.
Mas não. Quem escreve no Observador não se atreve a boutades divertidas como estas. Os bons
conservadores preferem piadas onde se bate sempre no ceguinho do Brecht (aliás felizmente
já tão pouco habitual nos teatros quanto decerto o próprio Amorim Lopes).
*A
prosa tem um contexto alegadamente racional que pode ser livremente aferido
aqui: http://observador.pt/opiniao/quanto-vale-uma-vida/
João Miguel Tavares segrega pessoas de estatura mediana
Aborrecido com o hábito de ainda se confundir a direita com os ricos e a
esquerda com os pobres (a quem ocorre tal coisa?), João Miguel Tavares resolveu
introduzir um novo «eixo político» para separar as águas de forma mais democrática,
digamos. Esse novo eixo dividiria o espectro político em «alto/baixo».
Ouçamo-lo:
«Neste novo “alto” poderíamos incluir tanto a habitual casta económica e política, como os detentores de privilégios corporativos, os burocratas que dificultam a livre iniciativa ou os especialistas na arte de fugir aos impostos; enquanto no novo “baixo” poderíamos colocar não só os pobres, mas também os reformados que se sentem espoliados, os jovens que nunca conseguiram um emprego, e todos aqueles que vêem a sua ascensão social dificultada pelas mais variadas redes de interesses que dominam os estados contemporâneos.»
Ora, a não ser que JMT reconheça que todas as pessoas honestas e boas
são pobres (o que se diria uma surpresa na sua mundividência), esta nova divisão acrescenta
a um novo maniqueísmo uma omissão ou um estigma. Um tipo que mantenha um emprego
conseguido por mérito e não passe fome ou não existe no Portugal tavaresco ou é detentor de um privilégio corporativo, um burocrata que dificulta a livre
iniciativa, enfim, um especialista na arte de fugir aos impostos.
Acreditando que JMT não se vê a si mesmo como uma destas pessoas, temos de
concluir que faz parte da habitual casta económica e política. Ou então é um pobre,
já que não parece um dos reformados que se sentem espoliados nem um dos jovens
que nunca conseguiram um emprego. A não ser, claro, que Tavares se sinta como
um daqueles que vêem a sua ascensão social dificultada pelas mais variadas
redes de interesses que dominam os estados contemporâneos e aí está tudo explicado,
incluindo a sua divertida proposta taxonómica.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
O direito à poligamia
Decerto com razoável ironia, o escritor Nick Hornby propôs algures que se
devia queimar os livros «complicados». Esta é daquelas frases que dão jeito a um
provocador e está de acordo com o zeitgeist
comercial, numa altura em que há empresas que não se importam de lançar e
depois retirar compungidas do mercado produtos politicamente incorrectos porque
sabem que a visibilidade concedida pelo “escândalo” lhes acabará por trazer
lucros. Ainda que aqui não haja necessidade de Hornby se vir a queixar de citação
fora de contexto: a sua afirmação tem tanto de provocador como de banal. Muitos
disseram o mesmo, por aquelas ou outras palavras, e vários deles eram também
escritores, ou coisa aproximada.
O El País, que traz a notícia e fala da repercussão que terá tido aquele fait
divers literário, dá-se contudo ao trabalho de coligir uma lista de 10 livros que «carregam o estigma (muitas vezes injusto) de serem inacabáveis»,
por gigantismo ou ilegibilidade. Vai de O Arco-Íris da Gravidade a A
Piada Infinita, mas passa por Crime e
Castigo e Guerra e Paz. Isto é ir
um bocadinho mais longe do que se atreveria José Rodrigues dos Santos, e o
artigo mistura, com certa tontice, a suposta complexidade com o tamanho dos
livros.
Teremos, portanto, duas razões, nem sempre acumuláveis, para queimar
livros: a dificuldade de leitura que eles oferecem ou o número de páginas que
os constitui.
Reparem que nenhum dos escritores citados na peça, Nick Hornby ou Kingsley
Amis, teve a franqueza de Fernando Pessoa, nenhum defende que pura e
simplesmente se não leia. Não. São (ou eram) escritores: naturalmente não
querem afastar a clientela (pelo contrário, como se verá adiante). Consideram a
leitura importante, claro, ou uma interessante «actividade hedonista».
No que toca ao tamanho dos livros, a estigmatização dos grandes é
estulta, se tivermos precisamente em conta o prazer da leitura: o que importa
ler dez novelas ou um só calhamaço, dez autores ou um só escritor, se o objectivo
é o prazer que tiramos do exercício de ler? Eu, por exemplo, e pensando só no
prazer, trocaria de bom grado uma dezena de livros menores que li por um novo
tomo de A Piada Infinita. Ganharia,
entre outras coisas, novidade e variedade, tudo num só livro, vejam só.
De resto, para escritor, aquele Hornby parece ter um medíocre
conhecimento da natureza humana. Ignora que, nos prazeres literários como,
digamos, na culinária, os seres humanos são diferentes?
E vamos ao argumento da complexidade. É claro que há gente que lê ou
diz ler destas obras «estigmatizadas» para poder fazer alarde de superioridade intelectual
ou para seguir, por pretensão, o mais exigente cânone. Eu li o Ulisses em bicos de pés e pouco percebi
dele na altura, mas não me arrependo de ter seguido a via pedante (se quiserem)
em vez da via pirómana. Acredito que, neurologicamente, duas pessoas diferentes
possam sentir o mesmo grau de prazer a ler o supra-referido dos Santos, por
exemplo, ou o falecido Wallace, mas desconfio que o cérebro do leitor que lesse
o segundo sairia bastante mais colorido e refulgente de uma ressonância magnética.
E eu não vejo, com franqueza, razões para se preferir levar para casa imagens
de um blackout quando se faz uma IRM.
Tirando Philip Roth — que chegou ao ponto de desaconselhar a leitura tout court mas porque, bem sabemos,
decidiu deixar de escrever —, o aprendiz de Torquemada que manda queimar livros
alheios está, geralmente, com consciência disso ou não, a ser juiz em causa própria,
a autojustificar as suas opções enquanto escritor, a puxar a brasa à sua
sardinha literária, a defendera a sua bancazinha no mercado livreiro.
Adicionalmente, mostra que, por infelicidade, o ter-se tornado escritor não
preservou o leitor que eventualmente havia nele. É que nenhum leitor
verdadeiramente interessado na leitura (ou viciado
na leitura, se quisermos continuar nas metáforas hedónicas) escolherá ou
rejeitará um livro pelo seu tamanho, ainda que possa ter o seu próprio
calendário de leituras e tendência a postergar indefinidamente luxações nos
pulsos.
Nick Hornby diz, e nisto tem razão, que «de cada vez que continuamos a
ler sem vontade reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver TV um
prazer». Mas um escritor com alguns conhecimentos de sociologia, psicologia,
neurologia ou o diabo a quatro e que apreciasse a diversidade humana talvez não
devesse ignorar que se pode não ter a menor vontade de ler o mais fininho dos
livros de JMS (J),
se ele algum dia escrever um à sua imagem, e encontrar em cada magra página um
trabalho de Hércules. Num mundo em que o cânone excluísse livros complicados e/ou
grossos (e esse mundo já está aí), haveria sempre gente a reconhecer que prazer
é ver TV.
A redutora imagem da humanidade implícita numa condenação dos livros «excessivamente
complicados» é, insisto, apologia de uma escola ou da obra própria. Infelizmente,
uma parte dos escritores não resiste a esta tendência, e é por isso que tantas
vezes ler-lhes as entrevistas se torna penoso. Detesto escritores possessivos,
que me queiram só para si. Enquanto leitor, reclamo o meu direito à
biodiversidade — ou à poligamia, para regressarmos ao prazer.
sábado, 12 de abril de 2014
De olho no céu
Na página Humans of New York leio que, de acordo com um mito nativo americano, cães com olhos de cores diferentes podem ver simultaneamente a terra e o céu (no sentido mítico, ou religioso). E isto para mim explica o génio de David Bowie.
sábado, 28 de setembro de 2013
O civismo e a caça ao Raposo
«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in "Uma cidade sem cães, s.f.f.", Expresso)
Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal,
intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias
semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox
(ele há-de gostar da versão british
do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode
estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um
sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o
puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto
assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são
excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a
beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros
nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de
cidades sem teenagers e
universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como
quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos
comuns e aceites pela civitas, a
mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda
os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete,
a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e
desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir
e que eles não merecem nem em bebés.
Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de
civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já
não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a
mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos
pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até
são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição,
são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus
bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias
neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na
verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon
Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas
canelas do Raposo.)
Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o
civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de
um povo». Não de todos os homens, não
por certo de todo o povo. O próprio Estado
de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque
houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um
acaso na história da humanidade, sensíveis
e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha
acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência,
os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins
ou siameses, não estão para aturar homens destes.
Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em
certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais
na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas,
mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social
a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao
Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.
domingo, 27 de novembro de 2011
Sobre a inutilidade do debate online
Who
cares, idiots arguing on the internet. What’s the worst you can do? CAPS LOCK
EACH OTHER TO DEATH?
Freqeist, no
Youtube, comentando uma discussão sobre a cover
dos Radiohead do tema “Wonderwall” (Oasis).
Escroques
Se os escroques permanecem, porque passou a palavra
de moda?
Fernando Gouveia,
algures em Portugal
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