De resto, a própria DG Artes chumbaria com facilidade se fosse julgada pela sua perspicácia e competência planificadora e administrativa. Há dez anos que ignora a existência de uma rede de infra-estruturas teatrais no país — e ajuda assim alegremente a que uma parte delas vá deixando de ter como prioridade a arte e se dedique ao folclore revivalista e salazarista dos anos 60. Depois de ter aprovado (com excessiva magnanimidade e displicência) um conjunto de obras, o Estado foi incapaz de implementar uma rede nacional de teatros. Mas o certo é que ela existiu (com absoluta informalidade e voluntarismo autárquico, e com deficiências estratégicas e artísticas graves, claro). Contudo, a DG Artes não mudou a sua lógica de funcionamento, como se vivesse num mundo à parte (talvez viva). Quando resolveu criar há dois anos a modalidade de Apoios Tripartidos (companhias / DG Artes / administração local), numa lógica aparente de descentralização e de criação de redes regionais, fê-lo, por exemplo, sem uma palavrinha aos teatros municipais que operam no território, muitos deles substituindo-se ao Estado central na prestação de um serviço regional (supra-municipal, portanto, mas com orçamento municipal). Eu sei que é custoso um tipo levantar-se da cadeira para conhecer o território de um país, mas a Secretaria de Estado da Cultura e a DG Artes não deveriam ignorar que têm interlocutores in situ.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
terça-feira, 10 de junho de 2014
Bombos
[Para os patriotas que se
entusiasmaram com o post anterior]
Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos
forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente
as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do
globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas
por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos
melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade
rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza
física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque,
não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são
a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar
talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos
nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo
de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.
P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente
ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o
triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer
relevância musical.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Mau augúrio
Não sou supersticioso nem iniciado em filosofias orientais como o Feng
Shui, mas sempre que posso oriento as camas onde durmo para sul. O tempo
cinzento afecta-me o humor, quebra-me o ânimo, e a sul há uma expectativa de
sol, de bom tempo. Já aconteceu deitar-me com os pés para a cabeceira numa cama
norteada apenas porque queria acordar bem-disposto. Saber-me de cara virada ao
sol, ou orientado para latitudes onde a probabilidade de sol é maior, fornece-me
a réstia de conforto que estar vivo exige. Por isso os quartos onde durmo, insensivelmente
projectados sem orientação solar, têm por vezes aquele ar desacertado, de coisa
fora do lugar (a cama).
Talvez esta fuga à mobilação prevista exerça a sua influência sobre as
minhas ideias, a minha psicologia. Mas como disse, não sou supersticioso. Mesmo
que tenha ficado preventivamente maldisposto quando me disseram que amanhã iria
acordar com um dia de chuva.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Ideologia e competências autárquicas
Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora
a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou
timidez juvenil?) apresenta neste post:
«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»
É generoso da parte do blogger
blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo
acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a
programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E
a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda
acha que os mercados devem ser regulados.
* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de
construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia
— raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.
sábado, 28 de setembro de 2013
Dia de reflexão
1. Muitos acham ridícula a lei que impõe um dia de reflexão antes das eleições. Eu acho ridículo que a lei não imponha 15 dias de reflexão antes das eleições — incluindo o mesmo silêncio e pacatez dos sábados de véspera de urnas.
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
sábado, 31 de agosto de 2013
«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»
Num episódio do Bartoon, a
tira do Público, lê-se: «As pegadas
de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha
feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que
sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que
tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao
admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que
os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a
crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa
também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos
locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates
pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da
conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império
Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Um país às direitas
Certos comentadores de direita, apesar de quotidianamente afirmarem que
este Governo é incompetente, de passarem o tempo a irritar-se com este Governo,
de não hesitarem em chamar “socialistas” a ministros deste Governo, não cessam
de o apoiar. E porquê? Porque na verdade o Governo expira o mesmo ar pesado desta
direita mais ideológica e contamina com ele a atmosfera geral — e isso é a única
coisa que importa. Não importa que o Governo não tenha mudado nada do que
estava realmente mal em Portugal. Boys? Aumentaram. Favorecimentos? Mantiveram-se.
Instituições e gestores incompetentes? Certamente aquelas não diminuíram ou
diminuíram por acaso, apanhadas na avalanche demolidora, e poucos destes foram
demitidos (sendo, aliás, logo compensados com outros de igual calibre mas da ideologia
certa). Pelo caminho foi dispensada gente competente, mas que vota mal, e
destruídas instituições que não envergonhavam o Estado.
Importa é que de dia para dia se abre o caminho à Besta de certa direita
(ou ao Caos, logo veremos).
O que o Governo fez foi munir-se de bulldozers para derrubar todo o
bosque onde supostamente estavam as árvores más — e nós sabemos como a direita thatcheriana
adora bulldozers. Entrar simplesmente nos antros de incompetência e nepotismo e
identificar os elementos podres, como faziam os regedores florestais, nem
sequer passou pela cabeça destes bacharéis. Cria-se o estigma, prepara-se a
opinião pública (e há uma quantidade incrível de tipos auto-iludidos com o seu
suposto conhecimento do país prontos a segurar este tipo de bandeiras) e
leva-se tudo à frente. Para fazer o que tem feito, o Governo não precisava de
contratar assessores nem de encomendar estudos (e no entanto contratou e
encomendou sem constrangimentos). Bastava-lhe deitar sortes, com dados ou outro
instrumento do mesmo rigor e critério. O resultado não teria sido diferente.
Haverá alguém no meio deste excitadiço circo neoliberal que acredite ter-se
melhorado o que quer que fosse no que se refere a corrupção, oportunismo,
nepotismo, má gestão e incompetência em geral? Que isso foi sequer preocupação
do Governo? Se não abundassem respostas a estas perguntas, bastaria olhar para
a forma como os partidos da maioria estão a lidar com as autárquicas — que
decorrerão como se não houvesse crise e como se Portugal não tivesse nada a
aprender com as últimas décadas. Vários dos mesmos comentadores de direita que
enchem as bochechas de moral e ética contra o Estado estão no terreno a
posicionar-se ou a posicionar os seus peões, as suas brigadas jotas e os seus
dinossauros escleróticos para o grande banquete da cacicagem.
A única coisa que mudará em Portugal depois deste Governo será o número
de desempregados e de instituições entaipadas.*
*E a posição relativa do Borda d´Água em relação ao Excel no ranking.
sábado, 8 de junho de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Não acabem com a crise
Os meus domingos, sempre que possível dias de retiro, de devaneios
bucólicos, são frequentemente assolados pela perplexidade. Não é apenas o ciclo
da Natureza, o seu definhamento belo no Outono, ou o milagre biológico e estético
da renovação primaveril. Surpreendem-me sempre o amarelo e o lilás de hectares
de giestas e urzes floridas, e nunca fico imune a um bosque renovado de verde.
Mas a verdadeira perplexidade vem quando me encontro sozinho no meio de certa propriedade
onde a beleza outonal ou primaveril dos bosques ocorre como num privativo jardim
edénico. A verdadeira perplexidade e a verdadeira alegria.
Em tempos usada para lazer da classe alta, esta propriedade, privada
mas de (potencial) uso público, foi abandonada devido à mudança dos hábitos de
ócio, à substituição dos destinos turísticos. Na minha infância e adolescência,
o sítio era usado por alguns autóctones para piqueniques, para tardes de lazer.
Hoje, salvo raras e fugazes visitas de um ou outro nostálgico que vem num relance
conferir o estado das coisas, não se vê por ali vivalma, e eu e os meus livros agradecemos.
Faz-lhe uma tangente um rio, com a sua ponte românica e os seus moinhos
em ruínas, invadidos pela vegetação. Tem no perímetro e nas imediações pinhais e
carvalhais. Dentro de muros há uma grande variedade de árvores que para minha vergonha
não sei nomear. Tem diferentes zonas de sombra (densa ou apenas de sol coado) e
prados onde estender largamente o corpo ao sol. Tem memórias em velhas paredes
e telhados abaulados. Não tem gente. Porque, dir-se-ia, este género de
bucolismo já não faz a alegria das pessoas.
Enquanto eu por ali sonho com uma herança que me permita tomar posse daquele
território e proteger o paraíso, outros em gabinetes municipais sonham com
revitalizar a propriedade. Um dos poucos visitantes com quem me cruzo um dia,
informa-me que a Câmara local ficou com a concessão do sítio e pretende resgatá-lo
para uso turístico, construir um restaurante, coisas dessas. Como que a
adivinhar os meus pensamentos (os meus receios, o meu justificado preconceito
em relação aos poderes municipais), a pessoa informa-me também que o primeiro
passo daquela “revitalização”, segundo fonte oficiosa, poderá ser o abate de
pinheiros. Até já estarão marcados. Despeço-me com um nó na garganta a fingir
deambulação sem norte, mas com o pânico instalado de ver com os meus olhos as famigeradas
marcações. Não as vi, mas não fiquei descansado. A ideia, infelizmente, não é
absurda.
Obrigo-me agora portanto a adicionar ao meu sonho de herdeiro um que
prolongue a crise, que inclua o fim do QREN, o fim das ajudas comunitárias a
projectos de revitalização. Um sobre bancarrotas municipais que durem até uma geração
mais verde tomar o poder. (Sim, bem sei que faria melhor em apostar apenas na
quimérica herança ou no desconchavar europeu.)
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