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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Do estado das artes

«(…) durante 30 anos de absoluta liberdade não apareceram “actividades culturais” de qualidade e consequência: em 2012 continua a não haver teatro, dança, ballet e tudo o resto.» Vasco Pulido Valente, in Público de 23/12/2012

No mesmo artigo em que reconhece que a cultura sempre viveu financeiramente mal neste país, Vasco Pulido Valente é capaz de cometer a frase tremendista acima e de afirmar que os produtores (culturais) «mais do que merecem» a ausência de público. Público que, aliás, tem um manifesto «desinteresse ou repugnância» pela «presença ou só o cheiro da Cultura».
Ora, é curioso que o anacoreta Valente, que reconhece a atávica alergia tuga à cultura e o subfinanciamento da dita, não hesite, como sempre faz, em culpar os produtores culturais pelo (suposto) fracasso das artes em Portugal.
Se não soubéssemos que a especialidade pulidiana são os raciocínios mancos servidos com prosa gourmet, talvez estranhássemos. Ou se não conhecêssemos a necessidade patológica que o arquétipo do velho rezingão tem de considerar Portugal um esgoto.

Curiosamente, nem estou de acordo com a premissa de que a cultura tem sido subfinanciada. Ou por outra: nos últimos dez anos houve orçamentos simpáticos para a cultura, o que acontece é que, como aliás VPV também refere, em Portugal a cultura é um chapéu de abas muito amplas. Tão amplas que tem sido possível acolher na sua sombra com uma regularidade e um cachet impressionantes o cançonetista Tony Carreira e uma miríade de epifenómenos.

Se não há público em Portugal para a cultura é porque aos portugueses têm sido servidas doses maciças de imbecilização nas TVs, nas rádios e nas escolas. Quase todo o espaço público português, incluindo a RTP e os artigos do triste Vasco, está ao serviço da estigmatização das artes. Para os media nacionais, teatro em Portugal são as comédias do sr. José Pedro Gomes. As comédias de J. P. Gomes (por vezes hilariantes) já eram quase tudo o que a maioria dos portugueses suportava e quase tudo a que a maioria dos portugueses assistia, mas a crise veio trazer uma súbita necessidade de humor ao país. Os nossos concidadãos, néscios e carentes como crianças órfãs, nunca foram encarados como seres inteligentes e interessados em alguma coisa diferente da anedota, mas agora a anedota é também caridosa e salvífica. Ainda ontem na Prova Oral da Antena 3, do sintomático Alvim, se reforçava esta crença, à sua maneira, natalícia.
Pelo seu lado, as escolas, na senda dos programas televisivos de talentos anónimos, estão mais apostadas em levar os meninos ao palco do que em sentá-los na plateia. As escolas, corpos docentes inteiros, como as TVs, seguem a ideia de que quem é capaz de gorjear uma cançoneta sem cair do palco é um portento das artes. E estão igualmente disponíveis para incensar o talento mimético e acéfalo. Na mesma medida em que, com honrosas excepções, estão indisponíveis para fazer qualquer pedagogia ou ilustração, aliás o seu mester.
(As universidades não contam para a educação nacional; são geralmente inúteis nesta equação das artes.)

E entretanto, ao contrário do que é apregoado no espaço mediático da paróquia, as artes lusas recomendam-se vivamente. (Posso sustentá-lo com uma lista, se alguém o desejar.) Concedo que seja necessário ir aos teatros e aos museus para saber disso — mas as televisões, as escolas e a opinião pública, incluindo a última página do Público ao fim-de-semana, não sabem como se sentar calma, anónima, regular e atentamente numa plateia. É este, e não outro, o drama das artes em Portugal.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Expectativas

Faz mais de 10 meses que, por razões financeiras, deixei o luxo de comprar a Ler. Hoje não resisti, tive uma recaída, interrompi o processo de recuperação da frugalidade. Confio que os avalistas da minha transformação num homem parcimonioso aceitem que a tentação era demasiado grande, mesmo para um cristão-novo como eu: entrevistas a Philip Roth e Vítor Silva Tavares, Rogério Casanova sobre David Foster Wallace…
Infelizmente a aquisição da revista implicou a queda noutro vício em remição: leitura em espaço público com copo de vinho à frente. Não são os malefícios mais previsíveis da exposição e do álcool que temo, mas a frustração que posteriormente me toma. Enquanto leio a revista em ambiente de fumo e copos, encho-me de um espírito de tertúlia, mesmo que à mesa não haja mais ninguém. Registo mentalmente tantos comentários e considerações sobre os textos que leio, acometem-me tantas ideias que temo precisar de fundar hoje mesmo uma outra revista só para recolher toda a prosa que me ocorre. Talvez comece mais um romance ou livro de contos. Um longo post cúmplice sobre o «what if?» que Roth diz ter levado à escrita de todos os seus livros. Quem sabe um pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova.
Mas nesta idade já não há embriaguez que dure. Caminho os duzentos metros até casa, ligo o computador, calço as pantufas e aqueço o chá e… fico cinco horas acordado para escrever aquela coisita sobre os albaneses que nenhum de vocês queria ler.

Já fiz quarenta há quatro, mas apetece citar o Pedro Mexia na sua crónica de sábado, comemorativa da entrada no clube da ternura: «Aos 40 anos, vivo com “expectativas diminuídas”, diminutas, em diminuição.»
Felizmente, ao contrário dele, as minhas expectativas tendem a voltar quotidianamente, mesmo que para esbarrarem uma e outra vez na dura realidade.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A crise e a cultura: manigâncias

O ilusionista Luís de Matos, citado num artigo do JN, vê um lado positivo na crise que (também) afecta o sector cultural: «algumas companhias, cuja razão de existir sempre foi o facto de que certo dia conseguiram passar a ser subsidiadas, vão acabar.»
Aparentemente, este regozijo com o fim de companhias não tem origem num sentimento de injustiça ou inveja, porque no mesmo artigo o ilusionista revela que «só neste ano já fez 40 espectáculos à bilheteira» e, sublinha, «todos com lucro». Luís de Matos não tem portanto razões para cobiçar o famigerado «subsídio». Donde poderíamos concluir que quem se congratula com a extinção de companhias é o cidadão contribuinte que há nele.
Mas não. O seu é um desabafo de agente cultural. Ouçam-no: «A forma como se financia a cultura em Portugal é profundamente desmotivadora para quem trabalha e altamente proteccionista para os chamados subsídio-dependentes». (Luís de Matos trabalha; certas companhias, não, deduz-se.)
Lido com atenção, o discurso do ilusionista revela-se, afinal, apenas mais um lamento pela falta de apoios. Como português genuíno que é, o mágico não se incomodaria com uma ajudinha do Estado. Incomoda-se, sim, com a existência de «companhias que são subsidiadas há mais de duas décadas e, invariavelmente, os seus espectáculos têm 20 ou 30 espectadores». (Não revelou ao jornal se a contagem de cabeças nas plateias, ao longos dos anos, incluiu, generosamente, a do próprio ilusionista.)

Este género de manifestos ocorre com alguma frequência, artistas ou produtores que fazem coexistir no mesmo parágrafo a vaidadezinha pelo sucesso comercial e o lamento pela falta de apoio do Estado. Não notam a incoerência, são verdadeiros artistas portugueses.

Um pouco mais à frente, reforçando a sua perspectiva da crise enquanto bondoso «processo de selecção natural» e a confiança na sua própria fórmula, Luís de Matos diz que «quem faz bem, nada deve temer». Só não explicou o que entende por «fazer bem». Devem as companhias optar pela prestidigitação em vez do teatro ou da dança? Ou acredita o mágico que obteria idêntico sucesso comercial se encenasse Beckett ou mesmo o «imperecível» Shakespeare? Talvez o segredo de ter público para a dança não esteja em levar à cena «O Quebra-Nozes» no Natal, mas em ter o Luís de Matos a interpretar Merce Cunningham ou Pina Bausch. O Estado deveria era despejar dinheiro em produções destas, êxitos garantidos de bilheteira. Quem não pagaria para ver?

sábado, 29 de setembro de 2012

Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão

O Secretário de Estado da Cultura tem sido acusado de insensibilidade perante as artes. Há um ano no Governo e, tirando umas pilhérias sobre o dinheiro, diz-se, não cunhou nada que se veja. Ora, isto é injusto, esta percepção do SEC como emissor de moeda. Ele não está lá para isso. O SEC não é um patrono, um mecenas. Essas eram atribuições de príncipes e papas, e, como se sabe, o Estado além de laico é republicano. À maneira yankee, nestes dias.
Não se julgue, contudo, que ao SEC a arte passa ao lado. Não. No último ano ele tem-se preocupado bastante com a área. Sobretudo depois das cinco da tarde, depois de ter largado o serviço e as mangas de alpaca. Quem o acusa de não ter obra devia ler a edição de 31 de Agosto do oficioso Correio da Manhã. Há obra. Ela chama-se O Coleccionador de Erva e foi prometida ao editor José Alberto Valente até 15 de Setembro, para ser apresentada ao público em Novembro.
Talvez não fosse bem isto que os amantes das artes esperavam, mas cada um faz o que pode. E Deus sabe como tem sido difícil o ano para o SEC. Ponham-se no lugar dele. Um novo emprego, cheio de responsabilidades, numa época terrível para o sector, um emprego que, agora mais do que nunca, exigiu empenho, entrega, imaginação, criatividade, liderança, visão. Um homem comum nestas circunstâncias chega a casa derreado, não consegue pensar noutra coisa. Talvez beba um whisky ou dois, mas de certeza que sonha à mesma com as mil e uma diligências que tem de fazer no dia seguinte para salvar o barco, de certeza que ocupa a inescapável insónia a cismar nos dramas que testemunhou ou nos projectos que tem em mãos. Um homem comum nestas circunstâncias não conseguiria escrever uma linha depois do emprego, se lograsse ter um «depois do emprego».
Mas o SEC não é um homem comum. O SEC é, antes de mais, um Escritor. E não se pede a um Escritor que interrompa a prosápia só porque mudou de emprego, só porque lhe confiaram mais responsabilidades, só porque tem uma pasta melindrosa nas mãos. Um Escritor escreve, é tudo o que ele faz.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.


***

O novo livro do Secretário de Estado da Cultura será muito popular. E sê-lo-á por um golpe de génio. O volume estava para se chamar apenas O Coleccionador, mas um dos spin doctors do Governo previu o escândalo, a inoportunidade da edição, e sugeriu que se acrescentasse erva à obra. A ideia era apaziguar a esquerdalhada das artes dando-lhe algo com que se identificar. O problema vai ser convencê-la a enrolar as páginas antes de as queimar.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A arte portuguesa a gostar de si própria


Elisa Rodrigues - "Dumb" (com Júlio Resende).


Certa opinião publicada gosta de escarnecer das artes e da vida cultural portuguesas. Aparentemente, não temos produção nem talentos nem circuitos que justifiquem um orgulho nacional e muito menos o investimento de um centavo. Tais juízes têm na mente, é fácil presumir, Shakespeare, Mozart, Rembrandt e talvez Jonh Ford, poucos mais. Como se o estrangeiro fervilhasse de talentos históricos automáticos. Ou como se fora das circunscrições da Broadway, de West End e de Hollywood nada valesse realmente a pena. A arte, para estes árbitros do gosto, não é uma coisa viva, mas um estrato geológico que se apreciaria melhor num museu natural do que em auditórios, teatros, galerias, clubes, bares e antros afins. Por isso, não saem de casa, não se afastam das suas bibliotecas e dos seus CDs e DVDs (ou VHS), a não ser para uma ritual (ou turística) ida aos clássicos a Londres ou a Nova Iorque. Ironicamente, assemelham-se às massas na sua proverbial falta de curiosidade, com a pequena diferença de que as massas têm as televisões e as revistas sociais e a escola a atrofiar-lhes a atenção e o gosto e estas elites induzem a si próprias o ensimesmamento — reivindicando o alto patrocínio da História, como quem atesta a nobreza da família pelos fantasmas que lhe assombram o castelo.
E no entanto bastaria alguma atenção e uma pequena dose de generosidade, de abertura de espírito, para descobrir inúmeras possibilidades de prazer estético no país.
Os opinion makers em apreço estão para a pátria como certas populações para as suas cidades: é o mesmo provincianismo que constrói os dois géneros de passividade e ignorância. E se na província muitas vezes as pessoas partem duma vitimização genética, reflexa para denunciarem que habitam o deserto, o resultado final é que ambos os extractos sociais terminam exibindo com a arrogância dos néscios o seu desprezo pelo que existe e eles ignoram e juram não existir.
Recordo como numa das cidades mais bonitas e turísticas do interior do país, que frequentei, alguns autóctones diziam que aquela era uma terra onde não se passava nada, não havia sequer cinema. Havia (ainda há). Mas eles ignoravam, não procuravam, não estavam atentos, não tinham curiosidade. Havia cinema — e concertos e teatro (com menos frequência ou interesse) —; não havia era multiplex, ou shopping, ou pipocas, essas manifestações de uma outra contemporaneidade. Havia um auditório bem simpático e confortável (com programação comercial e alternativa) que infelizmente era por vezes um pouco prejudicado pela vozearia boçal na rua dos universitários que, não o frequentando, juravam pela sua inexistência, um ou outro fingindo até lamentá-la.
Em muitos lugares da província poucos reconhecem ou participam numa vida cultural interessante, quando ela existe, porque se habituaram a imaginar que isso apenas é possível numa grande cidade — construído e alimentado pelos outros. Como alguns escribas imaginam que uma vida cultural decente só é possível nas grandes capitais europeias — ou em certas épocas históricas do passado. Trata-se de um processo de auto-exclusão, de “boicote”, até, assente em ideias limitadas do que é ou pode ser uma vivência cultural. Trata-se de um processo de absentismo que não favorece o crescimento da oferta e, tantas vezes, promove o seu definhamento.
Quem viaje pela internet (e até há pouco tempo pelo país) munido do seu próprio mapa e de ânimo descobridor, disposto a fruir de experiências e não de preconceitos, pode ter belas surpresas e bons momentos. Portugal tem talentos nas artes suficientes para, se postos a circular, assegurarem um quotidiano interessante à maioria das cidades do país, pelo menos às capitais de distrito. Nos mais diferentes géneros musicais, na dança, no teatro, com as suas múltiplas expressões, nas artes plásticas. Quem, dos muitos que opinam, conhece de facto esta realidade ou está realmente disposto a conhecê-la (ou a reconhecê-la)?
As políticas culturais em Portugal são determinadas por um povo deixado na ignorância e na apatia — e pela idiossincrasia dos influentes. Não estando pessoalmente interessada nos assuntos ou sendo a eles avessa, esta espécie permite-se ainda assim emitir pareceres e estigmas sobre eles. É com este historial e neste ambiente que se espera agora em Portugal que o povo pague bilhete para as artes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Criatividade

Uma das coisas em que a esquerda está prodigamente errada é na crença de que a criatividade teve distribuição abundante e uniforme pelo mundo. Não é um exclusivo seu, mas diria que se empenha particularmente no equívoco. Sob a sua égide, as crianças deixam de ser estimuladas a descobrir uma eventual vocação artística para serem encorajadas a acreditar terem uma vocação. As más consequências disto são várias, e não passam todas pela tortura a que os nossos sentidos são diariamente submetidos.

Com uma infinidade de “talentos” pululando por aí, torna-se difícil definir (e comunicar) o que há de especial num talento, por que devemos admirá-lo, que proveito há (para nós e para a comunidade) em nos submetermos ao dom dos outros. A criatividade tornou-se um assunto relativizável, do âmbito da democracia e do gosto ou opinião maioritários. A qualidade do que se produz é, pois, afectada por este ambiente.

Nas escolas, os miúdos quase deixaram de ser instigados a descobrir a beleza que outros produziram ou produzem. A palavra de ordem é fazer de cada aluno um artista e colocá-lo, literalmente, no palco que supostamente lhe pertence, com cumplicidade e gáudio das famílias. O défice de público em Portugal, com causas anteriores talvez na falta de instrução e na baixa condição económica da comunidade, continuou o seu caminho por aqui. Só a ignorância ou a fé cega podem convencer alguém de que, de tanto frequentarem o palco, as crianças vão gostar de estar na plateia.

Compreendo que para a esquerda (bem, para alguma esquerda) seja difícil aceitar a autoridade, defender a atitude passiva, mas é imperativo ultrapassar o trauma, porque a arte o exige. Não há arte onde todos cantam e ninguém ouve. Não há arte onde todos escrevem e ninguém lê. O que o mundo contemporâneo precisa urgentemente é que se formem leitores e espectadores exigentes, não multidões de “criativos” medíocres e inúteis. As escolas têm de começar a ensinar que os gostos se discutem, ainda que não se imponham; têm de começar a ensinar a ouvir, a ler e a compreender, a ver, a decifrar, a reter informação e a criticar com base no cruzamento de dados e experiências.

É pateticamente comum em Portugal haver “pintores” que não frequentam museus, galerias ou livros de arte; “escritores” que não leram nem tencionam ler; “músicos” que não assistem a concertos a não ser os da moda (por razões sociais e não artísticas); “actores” (e “encenadores”) que não vão ao teatro. A lista continua, mas pode-se resumir: Portugal é um autodidacta fechado à História e ao mundo — ninguém pode esperar dele grandes feitos.

A necessidade de formar público para as artes não tem, por isso, que ver com o interesse dos artistas, mas com o interesse da sociedade e de cada pessoa em particular. Um público instruído, curioso, crítico, participativo e exigente eleva o nível da criatividade nacional, com óbvio proveito para si próprio — e com possibilidades de osmose em relação a outras áreas, como a política e a economia. Na ausência de riquezas como petróleo ou diamantes, ou de uma providencial (e improvável) indústria, um país não pode esperar desenvolver-se com massas impreparadas e estupidamente convencidas de talentos que não têm.

A Secretaria de Estado da Cultura e o Ministério da Educação, se querem fazer alguma coisa, podem começar por desfazer este equívoco.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Vocação para ler

Quando tudo nos falha na vida, resta-nos sempre o talento dos outros. Se escrevesse um livro de auto-ajuda, seria esta a lição que eu transmitiria. Um lição inexacta, contudo.
Desde cedo alimentei indecisas ambições artísticas. E também cedo aprendi a definir-me, antes de mais, como alguém que assiste ao que os outros criam. Isto não foi o prémio de consolação que atribuí aos meus escassos talentos, mas a consciência de que me vinha mais prazer do acto de ler, ver ou ouvir do que de “criar”. Mesmo agora, quando a escrita me recruta quotidianamente, me comprazo em saber que um livro me aguarda com paciência na mesa-de-cabeceira. Não porque tema falhar e precisar de conforto nas palavras dos outros, mas porque estou ciente da minha vocação para ler. O talento dos outros não é, afinal, uma panaceia para o mal d’être, mas o território onde as nossas próprias aptidões se exercem e exercitam. Assistir é viver.

Vasco Graça Moura e a arte contemporânea

Vasco Graça Moura, conhecido opositor dos subsídios à arte “contemporânea”, escreveu para o S. Carlos o libreto da ópera Banksters, inspirado na peça Jacob e o Anjo, de José Régio. A ópera (de Nuno Côrte-Real, encenada por João Botelho) foi levada ao palco presumo que com dinheiro público, mas acredito que VGM, fiel aos seus princípios, não tenha cobrado um tostão pelo libreto.

Aparentemente, se um texto for escrito para o género “ópera” não é considerado criação contemporânea, mesmo que a ópera seja encenada à “moderna”, com música de um autor ligeiramente mais novo do que Rossini, digamos assim. Talvez a ousadia criativa do nosso tempo seja admitida se se submeter aos géneros clássicos*. Afinal, o que importa não é a qualidade da obra, mas a gaveta onde se pode arrumar. Não importa se Nuno Côrte-Real é inferior a Mozart — importa que escreveu uma ópera. Não importa se Vasco Graça Moura é inferior a Martin McDonagh ou a Jacinto Lucas Pires — importa que escreveu um libreto. Um libreto cujas personagens, aliás, se chamavam Angelino Rigoletto, Santiago Malpago e Mimi Kitsch.

*Desconfio que não, desconfio que ainda teria de passar pelo crivo do gosto de VGM.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Osso Vaidoso


A crise e a naftalina de turno devolverão a província à sua condição subalterna e atávica — é esse o plano. A que a província aliás não se opõe. No entanto, por um hiato a província foi um local decente para habitar. Um post do Luís no Rebuçado de Mentol fez-me recordá-lo. Dezembro do ano passado. Osso Vaidoso: Ana Deus e Alexandre Soares em concerto. Um de tantos momentos inesperados. Os textos de Regina Guimarães. Também para o Teatro de Ferro. Que já agora me recorda a Circolando. E o Teatro de Marionetas do Porto. E… As harpias e os assessores de serviço farão o seu serviço obliterador, claro que sim, mas talvez a memória seja um osso duro de roer. Um osso vaidoso.

domingo, 16 de outubro de 2011

O IVA, os livros e as corporações

Álvaro Covões, conhecido promotor de concertos pop/rock, queixa-se na rádio da subida do IVA dos bilhetes para espectáculos. Na peça que ouvi, a sua indignação ia a par com a inveja corporativa, como é bom costume português. Covões lamentava tanto o contratempo para o seu negócio como a manutenção do IVA a 5% para os livros. Uma injustiça clamorosa que nas suas palavras só se explica porque, claro, o Secretário de Estado da Cultura é na vida civil escritor e editor.
Os corporativistas têm dificuldade em ver as acções dos outros sob uma luz diferente da que ilumina as suas. Para Covões, Francisco José Viegas decidiu assim para benefício do seu mester — não porque tenha uma estratégia cultural.
Eu próprio tenho muitas dúvidas sobre qual seja a estratégia cultural desta Secretaria de Estado (sobre a sua estratégia económica estou esclarecido), mas não vejo razões sérias para discordar de que o livro deve ser uma prioridade. Deste e de qualquer governo, em qualquer época e circunstância. Se há margem para manter o IVA no escalão mais baixo apenas para um sector, ele que seja evidentemente o do livro. Um país pode ficar mais triste sem os concertos que Álvaro Covões promove — mas sem livros fica por certo mais estúpido.

Monocultura

Mas a indignação de Álvaro Covões na peça radiofónica abrangia ainda outras áreas. Na sua opinião, se o Governo precisava de arrecadar mais dinheiro, podia ir mais longe nos cortes orçamentais de instituições como a Casa da Música, o São Carlos e congéneres. Que, aliás, ao serem subsidiadas pelo Estado fazem «concorrência desleal» à empresa do senhor Covões.
Temos, portanto, o Portugal umbiguista no seu melhor. Não há nada mais importante que o nosso quintalejo — e a monocultura que nele praticamos. Se podemos sobreviver só do que dá o nabal, porque havemos de plantar outras hortaliças?

Concorrência desleal, eis a questão

A «concorrência desleal» das instituições culturais financiadas pelo Estado é a espaços referida por produtores ou empresários do ramo, geralmente empresários que se orgulham da sua «independência» e da popularidade do seu produto, da «importância» que o público lhe dá. Este discurso enferma de dois equívocos, nem sempre inconscientes. Em primeiro lugar, a verificação de tal «concorrência» pressupunha, por exemplo, que o cidadão hesitasse entre assistir a uma peça de Harold Pinter ou a uma comédia ligeira com vedetas televisivas. Hesitasse entre assistir ao último espectáculo da C de la B ou à última produção de La Féria. Hesitasse entre a nona sinfonia de Bethoven e a nova edição do Super Bock Super Rock. Ora, todos sabemos como estas hesitações são vulgares em Portugal. Nem Hamlet padeceu de mais frequentes e dilacerantes dúvidas do que as que assolam os portugueses na hora de escolher o espectáculo.

Rock, pop ou pimba

O segundo equívoco assenta na ideia de que a fórmula de sucesso dos produtos populares pode ser aplicada às instituições do Estado, libertando-as assim da sua subsídio-dependência. Bem, na verdade, pode — se enquanto nação estivermos dispostos a aceitar que o musical à la Broadway elimine a ópera, que todo o teatro seja comédia brejeira e toda a música rock, pop ou pimba. (Já estivemos mais longe.) Esta resignação teria a vantagem de tornar óbvia a escolha para dirigir o São Carlos. Já para a Casa da Música a hesitação resolver-se-ia com um regime dinástico: depois do pai Carreira, dirigiria o equipamento o filho Mickael.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Oh Beyoncé, Beyoncé, (não) quero bailar com você


O telejornal diz que a cantora Beyoncé foi acusada de plágio pela coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker (fundadora da companhia Rosas). Um vídeo da cantora parece ser cópia descarada de algumas peças daquela importante coreógrafa de dança contemporânea, que recorreu à justiça.
Num primeiro momento, achamos que Beyoncé não merecia uma condenação em tribunal, mas umas palmadinhas nas costas. Difundir dança contemporânea, quando esta é de boa qualidade, devia ser louvado, não castigado.
Mas depois o locutor cala-se e a música fica mais alta — é então que nos pomos a pensar se a cantora será julgada na Bélgica ou nos Estados Unidos. Torcemos pelos EUA, claro — ali há pena de morte.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Público-alvar

Nos “extras” de um DVD, os actores e o realizador falam da sua ambição para o filme. Todos esperam que seja um «bom entretenimento», que os espectadores desfrutem da acção, dos efeitos especiais. Conseguido isso, seria maravilhoso se o público gostasse da história, por exemplo, se se emocionasse com as personagens, apreciasse a evolução da narrativa, a sua estrutura, e, oh felicidade, se sentisse estimulado com o suspense e o «paradoxo» do final. O realizador espera que as pessoas pelo menos não se aborreçam se não perceberem tudo. Tem confiança que não, porque a acção e os efeitos especiais, talvez a história de amor, hão-de ser suficientes para a maior parte das pessoas apreciar o trabalho.
O filme chama-se “Código Base” e é bonzito — apesar da audiência imbecil para quem, a julgar pelos testemunhos dos protagonistas, parece ter sido feito.

P.S. Não sei se isto é exactamente uma qualidade do filme, mas podem todos ficar descansados: o público-alvo consegue decerto percebê-lo e desfrutar — embora, claro, talvez se sinta defraudado no que toca a acção e a piadas de taberna. Por mais que tivesse, nunca seriam demais, dirá.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Agentes da previsibilidade

Televisões
Quando as televisões generalistas fazem referência em horário nobre à estreia de um espectáculo de teatro, esse espectáculo é uma comédia ou tem actores que a própria televisão mediatizou noutras actividades. Na maior parte das vezes verificam-se as duas situações: é uma comédia com actores mediáticos.
De resto, não é por atribuírem importâncias às artes do palco que as televisões referem os espectáculos. Fazem-no para apanhar boleia do impacto que sabem que aquelas peças (jornalísticas) vão ter. É a mediatização a alimentar-se de si mesma. É notícia aquilo que a figura pública faz quando é feito por ela, não por alguém desconhecido. O mesmo espectáculo protagonizado por actores desconhecidos (ainda que excelentes) jamais terá honras de fecho de telejornal.

A televisão teme não ser vista. Vive nesse pânico. Torna-se histérica. Patológica. Deixa de ser um veículo de imagens, janela do mundo, para se tornar espelho de si própria. Aquilo que uma vez funcionou, foi visto pelos espectadores, é tudo o que a televisão arrisca mostrar. Apressa-se a deitar fora o que quer que tenha ficado um grau abaixo das melhores expectativas. Reduz o foco da sua atenção até, no futuro, não restar mais do que um pixel no centro do ecrã. O mais mediático pixel da história da humanidade. Devemos ansiar por esse dia.

Mecenato
Algo parecido acontece com o “mecenato” em Portugal. Com a fraca excepção dos equipamentos nacionais (em Lisboa e Porto), nenhuma empresa ou instituição patrocina a sério as artes neste país. Os patrocínios vão todos para artistas ou eventos mediáticos (por definição capazes de sobreviver sem apoios). Isto porque as empresas e as instituições (mesmo que em parte do Estado) não tencionam prestar nenhum serviço público. Como as TVs, querem apenas apanhar boleia do que é mediático, promoverem-se a si mesmas. Na verdade, o que fazem é comprar espaço de publicidade nos cartazes ou nos palcos das actividades que dizem apoiar. E que, perversamente, promiscuamente, acabam por apoiar de facto, promovendo ainda mais o que já é sobejamente conhecido e não raro medíocre.

Decisores
Isto não acontece porque o panorama artístico nacional, aquele que resiste apesar de tudo, seja miserável. Não é. Acontece porque a sofisticação cultural da maioria dos empresários e responsáveis deste país é nula*. Televisões, instituições e empresas estão-se nas tintas para a arte. São apenas agentes da previsibilidade, elemento e alimento do ciclo vicioso.

Público
O grande público é apanhado nas voltas deste ciclo vicioso, verdadeiro rolo compressor de mentalidades. Tudo o que lhe é dado a ver, tudo o que levam até ele, é aquilo que ele conhece. Não o questionam, não lhe pedem a opinião. Não o tratam democraticamente, apresentando-lhe em pé de igualdade um leque de alternativas para que ele possa escolher, em liberdade. Não o respeitam, portanto. Não o deixam ser livre. Não arriscam.

* Um estudo interessante e esclarecedor seria aquele que divulgasse a quantidade de vezes que, nos últimos anos, entraram num teatro, e para ver que espectáculos, os responsáveis por empresas e instituições e opinion makers nacionais. E, já agora, também o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da Cultura. 

Agentes da previsibilidade II

Não raro, em defesa da feira de vaidades instituída, é dito que a mediatização de intérpretes concedida pelas televisões é benéfica para o teatro. Que de alguma forma essa mediatização foi responsável por devolver público ao teatro. Mas a questão é esta: de que teatro falam? Salvo honrosas excepções, as vedetas de televisão sobem aos palcos para compor o orçamento (ou o ego) com umas comediazinhas ligeiras, muito vezes verdadeiramente execráveis. Que de quando em quando são apresentadas como exemplos de produção verdadeiramente “independente”. E rentável, claro: apostam sempre no número (de circo) vencedor.
A não ser se pretenda que teatro passe a ser sinónimo de comédia, que se pretenda reduzir, digamos, dramaticamente a amplitude da disciplina, amputá-la dos seus múltiplos ramos, purgá-la de géneros, correntes, autores, a não ser que o objectivo seja esta simplificação extrema (ideia que certamente excita muitas cabecinhas), a mediatização não tem servido de muito ao teatro. Quantos dos “famosos” aproveitam a sua fama para dar visibilidade a alguma forma de teatro que não seja a esperada pela TV? O métier português não é como o londrino, pois não.