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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Agentes da previsibilidade

Televisões
Quando as televisões generalistas fazem referência em horário nobre à estreia de um espectáculo de teatro, esse espectáculo é uma comédia ou tem actores que a própria televisão mediatizou noutras actividades. Na maior parte das vezes verificam-se as duas situações: é uma comédia com actores mediáticos.
De resto, não é por atribuírem importâncias às artes do palco que as televisões referem os espectáculos. Fazem-no para apanhar boleia do impacto que sabem que aquelas peças (jornalísticas) vão ter. É a mediatização a alimentar-se de si mesma. É notícia aquilo que a figura pública faz quando é feito por ela, não por alguém desconhecido. O mesmo espectáculo protagonizado por actores desconhecidos (ainda que excelentes) jamais terá honras de fecho de telejornal.

A televisão teme não ser vista. Vive nesse pânico. Torna-se histérica. Patológica. Deixa de ser um veículo de imagens, janela do mundo, para se tornar espelho de si própria. Aquilo que uma vez funcionou, foi visto pelos espectadores, é tudo o que a televisão arrisca mostrar. Apressa-se a deitar fora o que quer que tenha ficado um grau abaixo das melhores expectativas. Reduz o foco da sua atenção até, no futuro, não restar mais do que um pixel no centro do ecrã. O mais mediático pixel da história da humanidade. Devemos ansiar por esse dia.

Mecenato
Algo parecido acontece com o “mecenato” em Portugal. Com a fraca excepção dos equipamentos nacionais (em Lisboa e Porto), nenhuma empresa ou instituição patrocina a sério as artes neste país. Os patrocínios vão todos para artistas ou eventos mediáticos (por definição capazes de sobreviver sem apoios). Isto porque as empresas e as instituições (mesmo que em parte do Estado) não tencionam prestar nenhum serviço público. Como as TVs, querem apenas apanhar boleia do que é mediático, promoverem-se a si mesmas. Na verdade, o que fazem é comprar espaço de publicidade nos cartazes ou nos palcos das actividades que dizem apoiar. E que, perversamente, promiscuamente, acabam por apoiar de facto, promovendo ainda mais o que já é sobejamente conhecido e não raro medíocre.

Decisores
Isto não acontece porque o panorama artístico nacional, aquele que resiste apesar de tudo, seja miserável. Não é. Acontece porque a sofisticação cultural da maioria dos empresários e responsáveis deste país é nula*. Televisões, instituições e empresas estão-se nas tintas para a arte. São apenas agentes da previsibilidade, elemento e alimento do ciclo vicioso.

Público
O grande público é apanhado nas voltas deste ciclo vicioso, verdadeiro rolo compressor de mentalidades. Tudo o que lhe é dado a ver, tudo o que levam até ele, é aquilo que ele conhece. Não o questionam, não lhe pedem a opinião. Não o tratam democraticamente, apresentando-lhe em pé de igualdade um leque de alternativas para que ele possa escolher, em liberdade. Não o respeitam, portanto. Não o deixam ser livre. Não arriscam.

* Um estudo interessante e esclarecedor seria aquele que divulgasse a quantidade de vezes que, nos últimos anos, entraram num teatro, e para ver que espectáculos, os responsáveis por empresas e instituições e opinion makers nacionais. E, já agora, também o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da Cultura. 

Agentes da previsibilidade II

Não raro, em defesa da feira de vaidades instituída, é dito que a mediatização de intérpretes concedida pelas televisões é benéfica para o teatro. Que de alguma forma essa mediatização foi responsável por devolver público ao teatro. Mas a questão é esta: de que teatro falam? Salvo honrosas excepções, as vedetas de televisão sobem aos palcos para compor o orçamento (ou o ego) com umas comediazinhas ligeiras, muito vezes verdadeiramente execráveis. Que de quando em quando são apresentadas como exemplos de produção verdadeiramente “independente”. E rentável, claro: apostam sempre no número (de circo) vencedor.
A não ser se pretenda que teatro passe a ser sinónimo de comédia, que se pretenda reduzir, digamos, dramaticamente a amplitude da disciplina, amputá-la dos seus múltiplos ramos, purgá-la de géneros, correntes, autores, a não ser que o objectivo seja esta simplificação extrema (ideia que certamente excita muitas cabecinhas), a mediatização não tem servido de muito ao teatro. Quantos dos “famosos” aproveitam a sua fama para dar visibilidade a alguma forma de teatro que não seja a esperada pela TV? O métier português não é como o londrino, pois não.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Qual o rating da naftalina?

«A secretaria de Estado [da Cultura] tem um papel na discussão do que deve ser o repertório de um teatro nacional.»

domingo, 4 de setembro de 2011

Música para as trincheiras

Peter Gabriel é alguém que respeito na música. Quando levanta a voz, petrifica. De vez em quando, fá-lo, com aquela sua voz que continua rouca mesmo se projectada umas oitavas acima do que seria de esperar em alguém com tão respeitável careca.
No álbum “Scratch My Back”, de 2010, tem algumas versões admiráveis de temas de outros músicos. “Heroes” (David Bowie), “Listening Wind” (Talking Heads) e “My Body is a Cage” (Arcade Fire) são as minhas preferidas (não só porque já gostava dos originais), junto com “Street Spirit” (Radiohead). Nesta última, se por um lado deixa que a idade ou a emoção lhe cortem a voz em certos falsetes, Gabriel lembra noutros momentos mais graves o nosso Vítor Espadinha. Mas isto deixou de ser vexatório desde que o mais romântico dos portugueses participou numa das grandes canções da música lusa. Conferir aqui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

No videoclube I

Com frequência talvez patológica, mas também com um certo desespero probabilístico, o artilheiro arrisca escolher filmes de aspecto e sinopse mais do que duvidosos. Em certos dias maus apetece um pouco de aventura, um thriller, suspense, ficção científica. E os períodos de crise económica têm muito dias maus. O organismo reage à depressão convocando o adolescente que ficou cá dentro, como um alter-ego, como o super-ego que combate o mal.

Um filme é uma porta aberta para um outro mundo. Ou deveria ser. Na esmagadora maioria dos casos, um filme é uma porta aberta para um território que já visitámos, para um lugar-comum, é um déjà vu, um plágio, em suma.

Está errada a ideia de que um argumentista é um criador. Não é. Ocupa na actualidade o lugar que os monges copistas ocupavam na Idade Média. Ei-los ali, pachorrentos, alinhados num claustro, a copiarem pacientemente o modelo que lhes foi facultado, com melhor ou pior letra, consoante a habilidade de cada um (quase sempre escassa — são pouco mais do que ignorantes, iluminados apenas por uma vela, ou uma tocha).

Talvez os argumentistas, inspirados um dia pela obra, seja ela qual for, tenham achado que era sua função propagá-la, como os seus ancestrais faziam com a Bíblia. Não se trata, afinal, de conceber produtos originais, de trazer novidade ao mundo, estimular a imaginação dos clientes dos clubes de vídeo, ou dos assinantes da TV Cabo, do Meo. Trata-se de proselitismo. A obra revelou-se aos argumentistas e eles querem que nos convertamos a ela. À força.

Ou talvez não seja nada disto. Talvez as companhias cinematográficas tenham feito estudos de mercado. Avaliado as capacidades mentais do espectador médio, do cidadão médio, bitola por que o mundo se rege — e se dana. Como pode comprovar qualquer pessoa que já tenha ido a um cinema popular, o espectador médio perante um filme novo, com argumento original, perde-se, não consegue seguir a história, aborrece-se, fica como um boi a olhar para um palácio. O boi quer erva igual e abundante, um pasto a perder de vista com milhões de pezinhos de erva replicando-se exactamente uns aos outros. Porque haveria o espectador médio de ser diferente? Porque haveria de desejar mais do que a enésima repetição do mesmo argumento?

Daí que as novas gerações de argumentistas já não frequentem cursos de escrita criativa. Vestem hábitos de serapilheira e passam temporadas em mosteiros a aprimorar as iluminuras.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Os homens da limpeza

O Ministério da Cultura não deveria ter terminado para dar lugar a uma secretaria de estado da cultura. A questão, sabe-se agora, não era um emagrecimento estrutural — era uma mudança de ramo. Do mesmo modo, a Direcção-Geral das Artes deveria ter mudado de nome — por que também mudou de ramo.
As notícias que vêm a público sobre estes organismos não são sobre cultura, são sobre outra coisa qualquer. Por exemplo, a DGArtes «passou a disponibilizar [online] todos os apoios concedidos às entidades financiadas pela Secretaria de Estado da Cultura»*. O objectivo é «implementar uma política de transparência entendível a todos os cidadãos». Além disso, a DGArtes «anunciou ainda que pretende iniciar um processo de monitorização e avaliação do trabalho efectuado pelas entidades beneficiárias, cujo resultado final esteja acessível de forma “clara e transparente a todos os cidadãos, sem filtros nem obstáculos”».

Não são estas notícias que estão mal, ou as iniciativas de que elas falam. Isso está muito bem, aplaude-se, é o que se espera de todos os organismos públicos. O problema é a total ausência de notícias sobre o que pretendem fazer as duas instituições em relação ao seu principal mister, a (com licença da palavra) cultura. Se vieram só para desratizar, deveriam ter tido a franqueza de se apresentar com as credenciais certas: Secretaria de Estado da Higienização. Direcção-Geral da Desparasitagem. (Talvez também Ministério do Fomento dos Tribunais Populares.)  

Caso alguém, por distracção, lhes venha a perguntar se consideram importante para um país ter teatro, dança, artes, os homens da limpeza, naturalmente dirão: Isso não é da nossa alçada. E com razão.

A dúvida agora é saber se o Executivo tem em mente, para o futuro, a criação de estruturas na área da cultura ou se apenas reformulará o organigrama governamental, como é forçoso, transferindo as duas instituições acima referidas para o ministério que tutela o Ambiente.

* Não é medida nova, mas parece que os almeidas não conseguiam ler o PDF que anteriormente se publicava.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Panem et circenses

«Há muito tempo que o Estado tomou sobre si o extraordinário encargo de animar a populaça», escreve Vasco Pulido Valente e tem razão. Nos factos e na crítica que o adjectivo deixa implícita. É, de resto, uma crítica partilhada por uma parte dos comentadores de direita e pelo Secretário de Estado da Cultura. Acabar com o circo parece e é uma campanha urgente. Num país a sério não se usam as instituições do Estado como comissões de festas. O papel de mordomos de romaria ou anfitrião de circo cabe à sociedade civil — e a palhaços encartados.
Acontece que a sanha da direita agora no poder mais do que se arrisca a deitar fora o menino com a água do banho.
A obscena promiscuidade entre o que é animação e cultura tem dois sentidos: algumas das instituições que providenciam o disparatado entretenimento vão sendo também responsáveis pelo pouquinho que resta de cultura na lusa pátria. Acabar com elas sem mais é pintar de cinzento o país, de um velho e estupidificante cinzento.
Ou a direita deseja isto ou não conhece o país que habita.
Uma das razões nem sempre mencionada quando se apela à extinção das estruturas culturais do país é o incómodo da direita com a arte contemporânea. A EGEAC, um dos alvos do artigo de VPV, é, entre outras coisas, também promotora de acções neste âmbito. Para a direita que temos no poder, animação e arte contemporânea são a mesma e desprezível coisa. Mas talvez a direita, se frequentasse mais o país real, soubesse que onde lê arte contemporânea poderia ler arte clássica. A realidade é esta: tirando a animação, tudo está no mesmo triste bote neste rectângulo que se afunda. Julga a direita que a música clássica se salva sem a subvenção e as instituições do Estado? O bailado? A ópera? A literatura? O teatro clássico? O teatro, tout court? Que os cidadãos correm a ver o que se lhes ofereça nesta área? Que pagam um tostão que seja se por azar passarem à porta? Em que planeta vive esta direita? 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A arte de demolir

Talvez não seja culpa dele (não é certamente), mas pelo que se vai lendo na imprensa o Secretário de Estado da Cultura parece mais um liquidatário, alguém contratado pelo Governo para conduzir o processo de falência de uma pasta. Começou pela auto-despromoção: Viegas deve ser o único convidado para um cargo que impôs como condição prévia a imediata regressão na carreira. Nos últimos dias, a imprensa citou-o a determinar que Portugal tem equipamentos culturais a mais. Deverá seguir-se, naturalmente, o anúncio de que a SEC cabimentou uma verba para explosivos.


Era uma ideia antiga pensar-se que os ministros e os secretários de estado concebiam e aplicavam políticas de gestão e de fomento da área que tutelavam. Hoje sabe-se que não é assim. Um ministro do ambiente não é necessariamente alguém que se preocupa com o ambiente. Pode simplesmente ser o tipo que facilita a aprovação dos PINs, pouco mais do que o funcionário que põe os carimbos, uma espécie de insider a trabalhar para a indústria.

Na cultura, um secretário de estado pode ser apenas alguém que vem corrigir a malta, acabar com veleidades. Chama-se secretário de estado mas poderia chamar-se, à boa maneira antiga, inspector, o tipo que vinha de fora observar o comportamento de determinada classe profissional e, geralmente, levantava uns autos e recomendava umas punições exemplares.

Segundo a imprensa, o Secretário disse que não há público para tantos equipamentos. A gente, iludida, esperaria ler no parágrafo seguinte as medidas que o Estado iria pôr em prática para formar públicos (porque, ao que parece, população ainda vai havendo). Mas não, ingénuos. A Secretaria de Estado, tanto quanto é sabido, não se deteve nesse item — talvez ocupada a trocar impressões com a Secretaria das Obras Públicas sobre os melhores métodos de demolição.

Numa entrevista ao I em 14 de Maio, o futuro SEC perguntava-se: «Como é que é possível ter público se as escolas não têm educação artística?» Imaginava a gente que isto era uma pergunta programática, algo que enunciava uma estratégia. Agora sabe-se que não. Era apenas uma constatação. Na verdade, o que ali se dizia era: uma vez que as escolas não têm ensino artístico, não é possível ter público. Não havendo público, há equipamentos a mais. Logo, implodam-se equipamentos.

Não estava na entrevista, mas a gente, seguindo aquela linha de pensamento (errónea, como já vimos), poderia ser levada a fazer outras perguntas. Tipo: como é possível haver público se as televisões, com a RTP1 à cabeça, são monumentos à indigência intelectual, super-activas agências de promoção da cultura pimba? Como é possível haver públicos se na própria RTP1, que os nossos impostos pagam, qualquer coisa que cheire a bom gosto (para não falar em arte ou qualidade) é de imediato banida?

A resposta a esta questão parecia-nos ser já conhecida, parecia estar no programa eleitoral do PSD: imploda-se a RTP1… Ok, não era bem isto. O que aquelas almas liberais propunham era a privatização de um canal da RTP. (Repare-se: um canal da RTP. Assim desta forma vaga. Teriam a esperança de que alguém pegasse por elas na RTP2 e fizesse o serviço público que o Estado não faz? Ou foi apenas a maneira bizarra que arranjaram de dizer que vendiam um canal mas ficavam com a máquina de propaganda?)

A privatização de um canal da RTP não é bem uma implosão. O edifício destruído não serve para mais nada, enquanto o edifício privatizado, e isto é importante, permite que a merda continue a ser feita. (Felizmente já sem os nossos impostos.) De resto, ao Estado não compete formar (ou proteger) culturalmente os cidadãos, dirão.

Mais à frente na mesma entrevista ao I, o Secretário de Estado acrescentava: «Não podemos ter gente culta se não tivermos quem tenha contacto com bens da cultura.» Ora, isto pode resolver-se, pensou a SEC. Pode resolver-se pela, por assim dizer, disseminação de equipamentos. Isto não é incoerência, trata-se de outro tipo de disseminação. Tal como milhares tiveram contacto com a História quando guardaram o seu recuerdo do Muro de Berlim, milhares poderão ter o seu pedaço de cultura se os equipamentos forem redistribuídos — depois de implodidos.

Sabendo-se que, ao contrário do que o vulgo acredita, o Estado não tem investido praticamente nada nos equipamentos culturais do país (pelo menos fora de Lisboa e Porto), intriga um pouco esta preocupação com o excesso de equipamentos. Terá afinal a SEC em mente uma política de, digamos, fomento cultural? É um bocado estranho, mas pode acontecer, sabe-se lá.

Talvez a SEC, num devaneio, tenha pensado: «Ora vamos lá contribuir para o desenvolvimento, para a descentralização cultural, para a democratização do acesso à cultura.» Depois, a SEC pegou na máquina de calcular e descobriu que o que tinha para investir era uma miséria, se tivesse de o dividir nem para uma bica dava. Portanto: implodam-se equipamentos culturais.

Ainda na (pela minha mão agora famosa) entrevista ao I, lia-se «…as câmaras patrocinam através das empresas [municipais] a música pimba.» Eis uma preocupação séria. E não se pense que a SEC deixou de estar preocupada com o assunto. Não. Continua muito, muito preocupada. A SEC sabe que, sem o Estado e em época de crise, as câmaras cortarão no seu investimento cultural (como aliás lhes é pedido). A SEC sabe que os equipamentos culturais (que nos últimos dez anos deram uma ilusão de cosmopolitismo e descentralização ao país) correm o risco de ficarem sub-orçamentados. E a SEC sabe que as câmaras patrocinam a música pimba. A SEC sabe que música pimba será quase tudo o que os equipamentos culturais darão ao país. A SEC não quer isso, mas, claro, está impotente. Portanto, a SEC não tem dúvidas que o melhor é (isso mesmo, todos em coro) — implodir equipamentos culturais. Quem sentir falta pode sempre deslocar-se ao Porto ou a Lisboa, consoante der mais jeito. Era assim antigamente, que mal tem se voltar a ser?

sábado, 7 de maio de 2011

Notícias da trincheira

Escritores a falar de livros, encenadores a falar de teatro, coreógrafos a falar de dança.