Mostrar mensagens com a etiqueta Aranda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aranda. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Dia dos Fiéis Defuntos (com atraso)

«O que pensas dos cemitérios?»
«...»
«Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se havia que falar de estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas, ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas. 

«Mas não era disto que queria falar. Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.

«Na minha família não se falava muito do passado, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.

«Era… É nos vivos que eu sinto a morte, o engano da vida. Frustrada a experiência da visita ao sepulcro familiar, pus-me a caminhar por entre os túmulos, a espreitar os nomes e os rostos, a ler epitáfios. O Inverno tinha entrado, o dia estava cinzento, havia fumo de chaminés à volta dos muros e ao longe ladravam cães, como se aquele fosse um cemitério de aldeia ou a cidade regressasse ao século dezanove. Ardiam velas em recipientes vermelhos por todo o lado, fazendo da paisagem uma massa viva, palpitante. Vários jazigos estavam submersos em ramos de flores, coloridas, ainda viçosas. Tinham passado por mim alguns grupos mas agora apenas havia outro homem, idoso. Eu vira-o fitar durante muito tempo uma das sepulturas, provavelmente rezando. Depois, deu meia volta e parecia que tomava resolutamente o caminho da saída. Mas algures a meio de uma das áleas mudou de ideias e enveredou por outro sector da necrópole, detendo-se aqui e acolá com ar pesaroso. Talvez o homem fosse demasiado velho, o último sobrevivente de uma geração cujos membros tinham sucumbido. (Ele passeava pelo cemitério como numa rua a cumprimentar os vizinhos; os seus vizinhos agora viviam ali.) Foi através dele que senti a morte, mas não porque o seu aspecto fosse débil, de alguém que devesse uns anos à cova, como se costuma dizer. Não porque os seus pensamentos se ocupassem apenas de gente morta, como de certeza ocupavam. Mas porque ele passou por mim sem me ver. Cruzámo-nos já no exterior do cemitério, no parque de estacionamento, quase a tocar os ombros, e ele apenas aconchegou as golas do casaco ao pescoço, como se acometido de súbita corrente de ar. Eu é que era o fantasma. Centenas de sepulturas, milhares de cadáveres ali ao lado e eu é que lhe provoquei calafrios. Era em mim que a morte estava, não no solo, mesmo que se tratasse do solo especializado em morte de um cemitério.»

[Excerto de Aranda, 2011]

quinta-feira, 26 de março de 2015

Os primeiros trovões em Aranda

«O casal chegou trazendo um filho pequeno pela mão. A mulher era naturalmente bonita mas a amargura ou o tédio, ou talvez o ódio, pesavam-lhe no rosto, puxando os cantos da boca para baixo e com eles as pálpebras, um pouco vermelhas, de um vermelho escuro, a caminhar para o roxo. Não parecia ter estado a chorar, não era isso, embora também não estivesse contente. Não eram, de qualquer modo, olhos violentados, ninguém tinha desferido neles golpes físicos — mas havia ali sofrimento.
O homem, provavelmente da mesma idade dela, no início dos trinta, tinha bom aspecto, mas um bom aspecto suspeito. A barba, ainda que catalogável, inserida num protótipo comum a uma boa parte dos homens ocidentais daquela geração, estava demasiado crescida naquele rosto, era máscula em excesso. Depois havia a tentativa dele de parecer responsável com a criança (acorria sempre mais tarde do que a mãe) e de liderar a visita à esplanada, antecipando o pedido da companheira, que ela de imediato corrigiu por não corresponder de todo ao seu apetite.
Na mesa ao lado havia um advogado e o seu cliente. Ele tinha uma risca perfeita no cabelo, à direita, e o cliente desgrenhava-se, passando mãos sapudas e transpiradas pela cabeça encaracolada. O advogado era um Cyrano, ditando frases que o cliente repetia ao telemóvel. Não era um caso de divórcio doloroso, ou a tentativa de o evitar: aquele advogado era demasiado hesitante para enfrentar a ira de uma mulher e ao cliente de mãos gordas não tinha sido dada a possibilidade de amar, pelo menos de o fazer de uma forma romântica, mesmo que com poemas e serenatas sugeridos.
Eram certamente dívidas, acordos mal consumados, contratos por cumprir. O advogado mostrava-se indignado com a argumentação contrária que vinha pelo telemóvel do seu constituinte e tentava ser mais implacável nas instruções que lhe transmitia. Em momento nenhum pegou ele próprio no aparelho, pelo que teve tempo de reparar no desamparo da mulher que acabara de se sentar na mesa ao lado, esquecendo por minutos (ou sempre) o desamparo que oprimia o seu próprio cliente.

Uma segunda mulher subiu à cena, vinda da parte inferior do jardim. O chão da esplanada estava pavimentado em pequenos cubos de granito, mal aparelhados, e ela vinha com as cautelas que têm todas as mulheres que usam saltos altos e não querem vê-los entalados nas juntas traiçoeiras da calçada. Caminhava de pernas flectidas, ombros levantados, tentando usar ainda menos os calcanhares, como em tempos antigos faziam alguns dos que ousavam atravessar descalços as fogueiras de São João. Sentou-se do outro lado do advogado, contribuindo para a desorientação dele, já dividido entre o cliente à sua frente e a mãe amarga à esquerda.
Esta nova mulher (com tatuagens à vista e uma respeitável massa corporal que a faziam parecer um nórdico apreciador de cerveja) tinha o que se diria um toque oriental, com o cabelo muito escuro penteado para trás e preso na nuca. Mas depois de melhor observação, o que se via era alguém que desejava a toda a força e com um método artesanal disfarçar a decadência do rosto. Talvez ela não acreditasse nos cremes ou não tivesse dinheiro para plásticas. Ou talvez aquele expediente se destinasse apenas a evitar ingenuamente que o duplo queixo ficasse ainda mais saliente. Fosse como fosse, o seu rosto, as peles e as rugas, tudo estava repuxado pelo cabelo, bem preso atrás, dando aos olhos uma obliquidade asiática, de lutador de sumo, e às maçãs do rosto e ao maxilar superior um ar de roedor. No entanto, o artifício não vencia a gravidade que lhe reclamava a ignóbil prega debaixo do queixo.

A terceira mulher a chegar não tinha nenhum destes problemas, embora nos seus dezoito anos se achasse certamente repositório de muitos outros e mais graves. Tinha uma ponta de acne e os dois rapazes que a acompanhavam não faziam jus à sua beleza entediada (mais do que dramática ou trágica) como costuma ser a de muitas mulheres jovens. Levantou-se logo depois de se ter sentado e reconhecido alguém numa mesa mais longínqua. Avançou para ali com passo destemido, mas calculista. Havia três outros rapazes naquela mesa do canto e só um era seu conhecido. Os olhos varriam a mesa, tanto para se certificar de que não conhecia de facto nenhum dos outros dois como para os avaliar, avaliar o seu potencial reprodutor, ainda que a reprodução, o fim último, não fosse exactamente o que desejava.
O rapaz conhecido estava de costas, o que facilitou a actuação. Pôde afagar-lhe o cabelo na nuca — manipuladoramente, como ela sabia que os rapazes gostavam, gatinhos imbecis, sentindo-se por segundos ingénuos os únicos destinatários do afecto de uma rapariga por quem vertiam saliva várias vezes ao dia —, pôde afagar-lhe o cabelo na nuca e ao mesmo tempo observar tacticamente o resto da mesa. Pediu um cigarro, fora essa a desculpa para deixar o seu próprio grupo. O rapaz conhecido apressou-se a oferecer um Marlboro, mas ela soube distrair-se o suficiente para em vez disso aceitar um dos cigarros que os outros dois estendiam.

Havia ainda mais uma mesa, onde dois homens avantajados e gabarolas falavam de sexo e violência, de ciúmes e vinganças, de conquistas e sucessos em rixas, mas nessa mesa Inês preferiu não se deter. (Ainda que talvez aquela fosse a mesa que mais fielmente resumia tudo.) Ajudou-a o facto de a encenação estar a atingir o momento alto: a dada altura, a esposa amarga (ou a mãe amarga, talvez o das barbas não fosse seu marido nem pai da criança, não havia nele determinação ou acomodamento suficiente no que concernia às duas relações) resolveu desistir. O filho que esbracejasse e derrubasse as cadeiras e a louça; o das barbas que continuasse inútil e ele próprio aborrecido com a relação; o advogado que a espreitasse de todos os ângulos que pudesse; e os outros, os adolescentes e a mulher zangada com a idade e as pregas da carne e os tipos gabarolas, que viessem no fim acusá-la de estupidez por se ter deixado parir aquele filho. Encostou-se na cadeira e deslizou por ali abaixo, a saia subindo pelas coxas, ela imergindo num mundo outro.
Talvez por obediência a um código tribal, a mulher amarga e o acompanhante vestiam de escuro, exibiam uma espécie de viuvez mútua, que a saia curta dela não resgatava. Por isso, aquele triângulo claro, quando surgiu entre as pernas abertas, desleixadas, desistentes, era eloquência pura: umas cuecas festivas, alegres, com um padrão de formas zombeteiras, vermelhas e amarelas, sobre um fundo branco, imaculado.
Inês não pôde deixar de considerar aquilo um novo grito do Ipiranga — ou um pedido de resgate. Aquelas cuecas naquele casal. Desde o início desconfiara que, primeiro, o das barbas não era pai da criança, segundo, chegara com pouca convicção à relação (e ansioso por ir andando) e, terceiro, a mãe amarga tinha ainda menos convicção naquela relação e não estava segura de que havia alguma espécie de realização pessoal na magna questão da maternidade. E, quarto (afinal havia uma quarta dedução), a menos que o das barbas baixasse naquele momento as calças para mostrar idêntica escolha no que se referia à roupa interior, ela apostaria que entre aqueles dois não tinha havido sexo (ou intimidade) nos últimos tempos. Umas cuecas coloridas eram, naquele agregado sombrio, mais do que segredo ou dissidência camuflada — eram traição. Ou talvez só desprezo.

Ela estava agora a ver como se arranjaria o advogado para espreitar as coxas da mulher amarga. Do seu lugar, o penteadinho não conseguiria desfrutar o panorama, mas tinha as antenas suficientemente alerta para se dar conta que havia um panorama para desfrutar. Talvez se levantasse para ir ao balcão pagar os cafés — esse tipo de investimento num cliente ele achava que podia fazer —, abrindo bem os olhos no regresso. E a mulher das tatuagens e do cabelo preso? E a adolescente? E ela própria? O que deveriam pensar as mulheres ali presentes daquela exibição de intimidade? O que deveria ela, Inês, pensar? Bem, não haveria escândalo, isso era certo. A não ser que fizesse o que lhe apetecia, que era afastar o incompetente das barbas, segurar na criança (era verdade? o instinto maternal era um facto científico?) e afagar o cabelo negro da mãe amarga.

Não fez nada disso. Bebeu o resto do café e chamou o empregado. Ao longe ouviram-se os primeiros trovões desde que chegara a Aranda.»

Inês, in Aranda

sexta-feira, 6 de março de 2015

Lugares de ficção


«Diz para si própria que é impossível, e no entanto o odor entra-lhe pelas narinas como se os cavalos ainda ali estivessem. Um cheiro a fezes que não enoja, porque emanado de seres belos, esbeltos, nobres. Merda dos deuses — não das suas montadas. Na altura não pensou estas coisas (o que pensaria então?), é agora que esta parte do passado lhe parece poética.
A vegetação cresceu, mas a sebe que delimitava o campo de saltos ainda sobressai, com alguns troços secos e a parte viva muito irregular, informe, a clamar pelas tesouras do mestre jardineiro. É como se a pátina de Roma tivesse caído também sobre aquele local, dando-lhe ares de império derrotado. As velhas boxes, com as suas portinholas onde assomavam os pescoços equinos, dificilmente se vêem por detrás de uma barreira de árvores novas e antigas e de ervas que dão pela cintura. A tribuna do júri, virada a poente, mostra-se como o casebre que talvez sempre tenha sido, flanqueada por três vacilantes mastros de bandeira. Do outro lado, as bancadas de cimento conservam as telhas da cobertura e as asnas de madeira (assentes em pilarzinhos de ferro forjado ao estilo Arte Nova), mas perderam as divisórias de pinho que, na fila da frente, compartimentavam e exibiam a aristocracia em lotes de quatro cadeiras e uma mesinha, sob guarda-sóis às riscas coloridas.
A barragem (seria este o nome? talvez poço) ainda existe, no meio da erva: uma concavidade larga de cimento, rasa — menos do que meia cana; com um raio bastante maior do que o de uma roda de carroça ou charrette —, que antigamente se enchia de água e assustava os cavalos mais do que os outros obstáculos, entretanto desaparecidos. Também existe a ruína da Casa de Chá.
Ao longe ouve-se o trovão. Podia ser um bombardeamento, o inimigo às portas, artilharia motorizada aproximando-se ameaçadoramente do império em declínio. Mas é apenas uma trovoada de Verão. As primeiras gotas de chuva volatizam-se no momento em que são percebidas na pele. O céu não parece ter nuvens capazes de fazer chover.
Esquecida a um canto das bancadas, uma boneca de porcelana rosada. Com o seu vestidinho azul debruado a rendas brancas e um chapéu de amplas abas, é um vestígio surpreendente, improvável e desmembrado. O braço esquerdo está caído ao lado do corpo, que por sua vez está rachado, revelando um interior oco. A boneca encosta-se a um dos postes de ferro que sustentam o telhado e observa melancolicamente alguma das provas inesquecíveis ou imagináveis do velho concurso hípico.
Ela segura a boneca pela cintura e o cheiro a excrementos regressa. Não o tropel dos cascos, o rumor da multidão (e a sineta, a voz de megafone do júri, os gritos de incitamento dos cavaleiros, o estalar do pingalim, o resfolegar dos animais). Não. Apenas o odor, como se nele se concentrassem todas as experiências dos sentidos e residisse nele toda a memória possível.
Ah, inebriar-se daquilo!
Levanta o nariz ao vento como um predador e toma o caminho das cavalariças sob a bancada. As portas de madeira com frinchas entre as tábuas filtram os raios de sol, que desenham uma grelha no chão de terra batida. Rangem quando ela as abre e tenta adaptar os olhos à penumbra. Um corredor atravessa todo o edifício e dos dois lados dele sucedem-se as baias.
— Pensei que não viesses — diz uma voz ao fundo.
— E por que não haveria de vir? — retorque ela.
— Não sei, poderia faltar-te a coragem. — A voz faz uma pausa. — Estás bonita, gosto desse vestido.
— Galanteios. Mal me arranjei.
— É cedo? Talvez pudéssemos ter marcado para mais tarde.
— Não, não. Quanto antes melhor.
— Então, diz-me: como fazemos?
— Não pensei nisso — diz ela, um pouco desconcertada. — Achei que irias tratar dos pormenores.
— E tratei, descansa. Só quis deixar-te tomar a iniciativa, sou um cavalheiro.
— Sim, o melhor deles. Tanto se me dá.
A boneca de porcelana dirige-lhe um olhar inquiridor e ela encolhe os ombros.
— Não vieste por acaso a cavalo? — pergunta ela.
— A cavalo? — ri-se a voz. — Que ideia mais estranha. Gostarias que o tivesse feito?
— Não, não é isso, apenas me pareceu que cheirava a cavalo, só isso.
— Agora ofendeste-me: eu lavo-me — protesta a voz com falsa indignação.
A boneca de porcelana parece ter um risinho de cortesã.
— Oh, esquece. Podemos visitar a Casa de Chá antes?
— Claro, as decisões são tuas.»

Cláudia in Aranda

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

'Teoria Geral do Verão'

«Mário foi o primeiro a chegar. Acordou com o dealbar do dia. Na verdade, quase não dormiu, sentia demasiada excitação. Estar ali era como ter congeminado um teorema e ser-lhe oferecida depois a oportunidade de o testar e demonstrar ele mesmo. Já tinha um nome para aquilo, passou a noite com ele na cabeça: Teoria Geral do Verão. Basicamente, a sua ideia postulava que não havia felicidade na chuva, no vento, no frio, nos dias cinzentos e ensimesmados. O estio era o quinhão de paraíso que Deus legara à Terra, um vislumbre do que esperava na outra vida os bons, os justos, os impolutos. Era talvez também a manifestação do Seu sadismo, permitia-se Mário pensar, já que Ele sabia como falhara com o homem. Desvelar o paraíso era como mostrar imagens de fontes e lagos suíços a um moribundo no deserto africano ou deixar um suculento naco de carne meros centímetros fora do alcance da corrente de um cão esfaimado.
Tinha havido alguns erros no desenvolvimento humano, no seu desenvolvimento biológico. Havia tanto que aprender com aves, répteis, insectos. A selecção natural falhara ao fazer do homem um animal sedentário. Não tardaria a perceber-se porque definhava a civilização ocidental, por que é que o Hemisfério Norte se fazia triste e evitava reproduzir-se. Por que se suicidavam os nórdicos (por enquanto eles). Séculos de saber acumulado e ainda não havia uma solução para o mal-estar. E era tão simples: migração sazonal ou hibernação.
Lembrava-se de um episódio: dois casais de patos a esvoaçarem sobre uma albufeira. Talvez não fossem dois casais, podiam ser quatro machos ou quatro fêmeas, ou três de um género e um do outro, quem saberia dizê-lo? Era um daqueles dias de Outono apelidados de perfeitos, um dos que se rejeitariam na Primavera ou no Verão (demasiado frios e cinzentos, com o maldito nevoeiro a ameaçar cobrir tudo) e que pela sua pouca dureza seriam ignorados no Inverno, mas que, com um fundo de folhas coloridas e uma promessa de lareira, pareciam irrepetíveis. Mário estava com o pai e lembrava-se de o ver subir a gola do casaco ao mesmo tempo que falava de castanhas assadas e vinho tinto. Ali, ao seu lado, trinta anos antes, com a elegância enfiada num fato de três peças e camisa branca, o cabelo submetido pela brilhantina, o pai de Mário explicava que o pato selvagem era uma espécie rara naquelas paragens e a lagoa era apenas uma estação de serviço onde eles se detinham para abastecer no caminho para África, para terras mais quentes. Mário a tremer de frio e desconforto, insensível à beleza outonal, invejou a inteligência dos patos.
O europeu era intrinsecamente estúpido: rumava a sul no Verão e procurava a neve no Inverno, quando o que devia estar a fazer era aprender com as aves, descer uns quantos paralelos à medida que os dias diminuíam e regressar logo que as plantas ameaçassem florir. Claro que este tipo de migração em massa enfrentava obstáculos severos, por mais que os serviços de turismo do Magrebe esfregassem as mãos. As grandes deslocações de Estaline não tinham ficado bem vistas (mas essas não incluíam bilhete de volta); contudo, pondo de parte a engenharia social, ainda havia a biologia, a hibernação induzida. Se o homem, no seu longo percurso evolutivo, recusara um metabolismo como o dos ursos, estava ainda muito a tempo de se reencontrar por via científica com esse ramo da família. O que não se pouparia em recursos se a Europa adormecesse no Inverno. E o que se ganharia em felicidade social se todos saíssem do quarto apenas em Abril ou Maio, quando o Sol mostrava finalmente músculo.»

in Aranda

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Já ninguém lê o Tio Patinhas no Verão

«Já ninguém lê o Tio Patinhas no Verão e não sei bem o que fazem os putos no Verão. Talvez ainda joguem às cartas, mas para o Patinhas já não têm tempo. Fico às vezes a vê-los, todos iguais, como clones saídos de uma máquina que tivesse sido inventada para fazer face à crise demográfica. O mesmo cabelo cuidadosamente despenteado, os mesmos ténis de marca, as mesmas t-shirts, as mesmas calças de ganga pré-rotas — porque eles já não rompem os seus próprios jeans, não os vestem durante tempo suficiente para que eles se rompam, têm de os comprar previamente esgaçados. É a geração MTV, diz-se. Mas pergunto-me se a nossa não era também uma geração qualquer coisa — pós-punk, new wave, dos primórdios do videoclip, ou ainda não isso, a geração jornal Sete, algo do género. Seja como for, quando se é adolescente sente-se uma necessidade grande de copiar, e nem sempre se copia o melhor ou o mais adequado. Sabemo-lo quando regressamos de uma desintoxicação e temos a certeza que vamos recair, porque algures lá atrás experimentámos qualquer coisa que era imensamente fixe mas trazia inclusa a receita da nossa destruição.
Os montes em Aranda ardem com admirável regularidade e o vento percorre o vale como se soprasse num túnel. Nessas alturas recebemos na cara o seu bafo quente, impregnado de cheiros, e eu por vezes penso em corpos cremados, milhares de fantasmas arrancados do solo, e é a energia deles que nos toca, são as cinzas deles que vemos cair no chão da varanda, as suas memórias que nos visitam e avivam as nossas.
Passaram três carros particulares para o hipódromo, mas foi o táxi o que mais me intrigou. Um perfil, um rosto, os cabelos ondulados. Era uma lástima que não pudesse distinguir-lhes a cor, a cor dos cabelos, como tinha sido uma lástima deixar de ver o casaco vermelho do Tio Patinhas, o dólman azul do Pato Donald, a camisola amarela do Peninha, a laranja do Pateta, as penas verdes do Zé Carioca, toda a paleta viva saída dos lápis de Walt Disney.
A cor era uma das componentes das trips: voltávamos às drogas também pelas explosões de cor, pelas cornucópias e espirais psicadélicas, os abismos e túneis curvilíneos, labirínticos, os milhares de cintilações e raios, um firmamento extático que a natureza não podia copiar, porque com as cores vinham sensações físicas fabulosas, elas agiam como agulhas na acupunctura, cada cor o seu prazer; e não havia tempo, ali, cronologia, era um hiato infinito. Não tínhamos como saber que as visões fantásticas que desfrutávamos eram o nosso próprio cérebro a explodir, os neurónios que queimávamos, a fissão das sinapses. Andávamos nos ácidos e chutávamo-nos para ver por dentro o fogo-de-artifício na nossa cabeça e não o sabíamos; o cavalo era o bilhete que comprávamos para assistir ao vivo e em directo à auto-destruição da mente.
Depois veio uma tarde como esta, à varanda, Verão, a nostalgia benigna de mergulhar numa aventura do Tio Patinhas. E as cores a esbaterem-se, a desaparecerem, como se alguém tivesse escolhido a opção transformar em escala de cinza do Photoshop. O universo Disney a preto e branco, como algumas histórias em certas edições mistas. Mas não adiantava virar as páginas, avançar ou voltar atrás até aonde havia cor; de repente toda a edição estava descolorida, a própria capa, em papel brilhante, plastificado, era cinzenta.
Talvez não tenha sido assim de imediato, talvez eu tivesse perdido as cores de forma progressiva. Como o cabelo: não recordamos cada centímetro que ele cresce, mas sabemos, na altura de o cortar, que um dia o tivemos curto. Ou, se formos carecas, não recordamos a queda, mas a cabeleira que deixámos de ter. No entanto, é desta forma que eu lembro as coisas, num momento o mundo era normal e no seguinte parecia um filme do Frank Miller, redundante como um filme de Frank Miller. A vida já era suficientemente soturna, não havia necessidade de sublinhar o facto com o preto e branco. Eu percebo que os espectadores dos filmes precisem de uma representação gráfica da atmosfera para melhor entenderem a ideia, mas eu não era um espectador, não observava de fora.
Acromatismo. Havia os daltónicos, que confundiam o verde com o vermelho — coisa chata em dia de derby desportivo ou quando se esquecia a ordem das luzes num semáforo — e havia eu, um caso extremo e raro de discromatopsia. Não era apenas estar na merda, olhar em volta e ver tudo cinzento como num dia de chuva. Não era alucinação, supondo-se que há alucinações descoloridas. Não era passageiro. As substâncias químicas têm destas coisas, ninguém sabe muito bem o alcance dos seus poderes, como algumas personagens da Marvel. Um dia salvam a humanidade de ameaças terríveis e no seguinte caem em desgraça e destroem tudo aquilo em que tocam. Eu conhecia (e apreciava) enredos destes — não contava era ser vítima de um deles.
Ruivos. Adivinhei-os ruivos, aos cabelos que passaram na parte de trás do táxi. Tão ruivos que evocavam os montes em chamas de Aranda e tão ruivos que me doía a alma por não os poder já ver desta forma.»

Pedro, in Aranda

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Confidencial

Porque as coisas são o que são e porque esta noite me visitou o espírito carrancudo mas empreendedor do Torga, comunico aos que se interessam que editarei por mim mesmo, num qualquer dia solarengo, o Hotel do Norte e o Aranda. Não prometo é que esse dia esteja perto (e com isto não estou a ser um céptico do aquecimento global). 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cansado da guerra

Furtei-me ao dever (as Metamorfoses de Ovídio) para ler o artigo sobre Brideshead Revisited numa LER emprestada. Soube que Evelyn Waugh pediu uma licença da guerra para escrever o romance. Eu já revisitei a minha Brideshead em dois livros— mas, ah!, de bom-grado metia uma licença para tentar de novo, falhar melhor.

domingo, 24 de novembro de 2013

«A esquerda sem povo»

A propósito deste pragmático artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, recordei uma passagem do meu ainda inédito Aranda, escrita há três anos:

«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Carpe aestivum

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda

segunda-feira, 15 de abril de 2013

BD, literatura, fantasia e sexo

«Suponho que em algum momento da minha vida deveria ter acontecido uma evolução do meu interesse da BD para a literatura. Não necessariamente uma evolução que rejeitasse as anteriores etapas; um progresso com alargamento de horizontes, acumulação de interesses e curiosidades. Estava claro para mim que a ficção iria ser sempre um suporte de que não me separaria, como se na infância me tivesse sido diagnosticada uma deficiência num dos membros inferiores e aquela fosse a bengala adequada para me deslocar. Mas, com o crescimento, esperar-se-ia que reivindicasse uma bengala maior, proporcional à altura que entretanto adquirira. Não o fiz, porém, e talvez me devesse perguntar se a isso se atribui a forma desequilibrada como avancei na vida.
Não me fiquei pelas revistas juvenis, embora nunca as abandonasse; ganhei também interesse por álbuns de maior erudição e exigência, com um humor adulto e subtil, desenhos sofisticados, artisticamente relevantes, histórias mais complexas e personagens mais densas, com narrativas de maior profundidade dramática. Ganhei interesse, em suma, por muito do que a literatura representa, mas a leitura de romances foi prática a que me dediquei com pouca frequência e, quando ocorria pegar num livro, na maior parte das vezes preferia a ficção científica. Um sintoma, terei de dizer, de que mais do que a ficção me interessava a fantasia.
A capacidade de sonhar é tida como um dom, aquilo que nos permite superar as limitações, encontrar alegria onde ela não existe. O sonho compensa a vida. Pelo que se podia inferir que um livro — um livro de BD, no meu caso — seria uma extensão do sonho, ou algo que substituía o sonho, se essa nossa faculdade estivesse atrofiada. Mas talvez sonho seja também, ou sobretudo, sinónimo de refúgio. Ler revelar-se-ia, então, menos uma forma de sonhar do que de nos escondermos, nos pormos a salvo da vida. A leitura não como entretenimento mas como suspensão do tempo, da existência. Trazer uma revista de BD no bolso de trás das calças era como, para utilizar imagens adequadas, transportar tecnologia avançada, um aparelho onde poderia digitar a ordem de teleportação quando estavam iminentes ocorrências ameaçadoras.
(…)
Era previsível que um espírito tão prolongadamente ancorado na fantasia como o meu adquirisse vícios e posteriormente não soubesse muito bem como viver sem a bengala da ficção. Quando comecei a frequentar prostitutas fi-lo não tanto por incapacidade de arranjar outro tipo de parceiras sexuais, mas porque apenas elas, algumas delas, aceitavam, sem questionar, pôr a cabeleira ruiva que eu levava comigo. Isso aconteceu numa altura em que eu já consumia regularmente drogas (outra forma de viver em fantasia) e não era evidente para mim se o fazia para consumar através de terceiras o meu flirt gorado com Rita ou se porque não encontrava outra maneira de manter uma erecção por um tempo razoável.»

Pedro, in Aranda

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Guarda-fatos

«Havia um guarda-fatos lá em casa que era como o baú de um mágico. No seu metro e setenta de largura de madeira sólida, continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças, coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava, porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, como estratos geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais, uma variedade de cachimbos — e sobretudo mistérios. Por cima do armário amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.
Recorri àquele móvel em diferentes fases da minha vida. Inicialmente, usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida. Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse. Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.
Numa das vezes que usei o armário para compor a figura escolhi uma gabardina. Pareceu-me, por alguma fotografia que vi na imprensa ou imagem breve na televisão, que o defunto vocalista dos Joy Division usava gabardinas escuras. Achei lógico. Tinha lido coisas sobre a banda, conseguira uma cassete, identificava-me com aquele ambiente depressivo e ao mesmo tempo frenético. Era Verão, mas tinha chovido e a noite ficara um pouco mais fresca. Razões suficientes, pensei, para procurar no guarda-fatos uma gabardina. Estava farto das minhas roupas sem dignidade nem estilo, os trajes gastos e únicos e sem carácter de um filho da baixa classe média provinciana. Cobri-me com aquela peça, provavelmente militar, e saí para rua com a auto-estima nos píncaros, ar fatal, passo gingão, cigarro no canto da boca — a suar demasiado. Atrevi-me a cruzar a praça e a entrar no Luxor, o melhor café da vila, com uma decoração vagamente colonial. Encostei-me ao balcão e pedi cerveja.
Contava voltar-me para apreciar o ambiente como um Humphrey Bogart discreto, mas o que me esperava eram olhares de escárnio, comentários, risadas, dedos apontados. Eu era o centro das atenções, mas não porque me distinguisse pela elegância, causasse sensação e inveja.
Em cinco minutos tinha desmoronado o edifício que diligentemente construíra meia hora antes. Queria colher os frutos da ousadia, da diferença, mas apenas sentia vergonha. Era só um miúdo ridículo, demasiado vestido para a estação, que descolorava o cabelo nas fontes com água oxigenada.
Bebi o fino de um gole e saí de imediato, cabeça baixa, mais deprimido do que antes, com vontade de ler outra vez sobre o suicídio do meu ídolo.»

Pedro in Aranda

domingo, 22 de julho de 2012

Running Up That Hill*

No caminho para casa, existia uma parede grafitada que Rita apreciava. Não era seu hábito reparar nestas coisas. Ou antes: reparava mas não lhe agradavam, não ficava a admirá-las. A cidade não desenvolvera vocações neste campo, se é que as tinha desenvolvido em algum. A maior parte dos graffiti estavam ao nível das criações dos seus filhos na primária: umas desajeitadas reproduções de lugares comuns. Mas aquela parede fora recentemente brindada com um pouco de talento: os gangues tinham requisitado algum artista de fora, ou um errante Miguel Ângelo dos aerossóis, desses que só se imaginam em filmes ou livros, passou e deixou o seu fresco, a marcar território como um cão o faria. Talvez pelas mesmas razões.
Nos últimos tempos ela iniciara uma rotina temerária. Tinha-se divorciado e queria voltar a experimentar a liberdade, queria estar de novo aberta ao que o mundo tivesse para lhe oferecer. Era em princípio um pouco exagerado como projecto de reabilitação sair para correr depois das onze da noite, como se as coisas de que ela sentia falta fossem nocturnas, noctívagas, mas a verdade é que não conseguira encontrar outro horário para o jogging no meio de tudo o que tinha para fazer. Ter ficado sem um marido não lhe concedera tempo, continuavam a existir os filhos, o trabalho e as horas que perdia em transportes públicos. Mas talvez a escolha do horário fosse consciente, uma necessidade de adrenalina que preenchesse o vazio. O divórcio podia ser apresentado como uma conquista, mas era também uma derrota amarga.
Levava, nos headphones, sob o capuz de rapper que a ajudava a isolar-se, uma selecção musical disparatada. Ou não disparatada: nostálgica. Kate Bush. Ela própria ordenara os temas: Babooshka, Wuthering Heights, Running Up That Hill, e, três ou quatro canções depois, o dueto com Peter Gabriel. Não confessaria a ninguém que ouvira isto anos antes, in illo tempore, e muito menos que o fazia agora. Era parte das coisas que ela reservava para si. Ouvir estas músicas fazia-a imaginar que voava em vez de correr. Havia algo de épico naquele som, na voz. Não lhe custava adivinhar a cantora com uma nova imagem de matrona, quilos a mais, rugas, os ossos a começar a encolher — tinha de se lembrar de ir à Internet ver como ela estava —, mas sentia isso como um sopro benevolente, como uma tia que a amparasse e estimulasse e acariciasse. Ou talvez uma irmã mais velha, afinal não as separavam assim tantos anos. E depois, no fim da selecção, havia aquela voz masculina, rouca, aguda, esforçada, que soava como se tivesse uma sílaba para cada vértebra da sua coluna. Peter Gabriel, agora tão gordo e careca, mas na altura tão perfeito e tão carente, com aquela barba por fazer e a agarrar num desespero encenado mas adorável uma Kate Bush que lhe dizia para não desistir. Era como cortar a meta em primeiro lugar, orgástico dessa forma, e ela abria os braços quando a voz dele soava mais aguda; levantava a cabeça, indiferente aos olhares.
A parede grafitada parecia diferente. Estava a vê-la a uma distância considerável, sem óculos, com os olhos húmidos da brisa nocturna, mas parecia diferente e ela não conseguiu perceber logo porquê. Talvez alguém tivesse desenhado por cima — havia disso, sobreposição de tags, ou lá como se chamava o que eles faziam. Um palimpsesto. Era assim a vida, escrever por cima do que foi erodido. Ou nem isso, não esperar pela acção do tempo.
O que tornava o graffito diferente era uma figura humana. Alguém que adoptava as precauções dos predadores, confundindo-se com as manchas verticais da pintura. Ela continuava a correr e a silhueta ia-se tornando um pouco mais nítida. Tinha um braço levantado, como se segurasse um telemóvel na orelha ou talvez um cigarro pensativo ao lado do rosto. Devia recear? Passava da meia-noite, a rua estava deserta e ela era uma mulher sozinha a fazer jogging, exposta aos elementos. O fato-de-treino folgado não disfarçava as suas curvas. No entanto, era de um género diferente o medo que ela sentia. Talvez nem fosse medo; algo que temer, mas não medo.
Subiu no elevador. As escadas, o esforço adicional de as galgar como remate da prescrição de exercícios que fizera a si própria, ficariam para outra noite. De certa forma, gostava da emoção de ser esperada, ou simplesmente espiada, mas não tinha perdido de todo o bom-senso.
Espreitou pela janela da sala enquanto desenroscava a tampa de plástico de uma garrafa de água. A figura tinha desaparecido, restava a parede tal como ela a via nas últimas semanas. Bebeu a água e virou-se para ir à cozinha preparar um copo de leite quente ou algo que confortasse o estômago antes de dormir. No momento em que avançava na penumbra do compartimento, pareceu-lhe esbarrar em alguma coisa. Não havia ali nada com que pudesse chocar, tanto quando o seu conhecimento da cartografia do apartamento lho lembrava e tanto quanto os seus olhos já habituados à escuridão conseguiam adivinhar. E na verdade não sentiu fisicamente um obstáculo — embora se tivesse detido, como se se tivesse materializado ali alguém que, ombro no ombro, medisse forças consigo. Era aquela coisa dos fantasmas, pensou, dos espíritos. Se somos capazes de imaginar uma presença, ela certamente tem como se manifestar. Dedicou uns segundos a ponderar o fenómeno, a conceber uma voz que lhe dizia das sombras: vês como se quiser te faço parar? Depois reflectiu sobre a sua própria fantasia e deixou de ver habitantes nas sombras. Foi-se deitar.


* In Aranda

Morrisey

— Havia uma música dos Smiths onde se repetia hang the DJ, hang the DJ e era a minha última noite e eu entrei na pista da discoteca possuída pelas fúrias a berrar aquele refrão. Gostava da música, pelo que, afinal, era uma injustiça fazer coro de um slogan assim, mas suponho que retoricamente não me importava que se matasse alguém, fosse quem fosse. Não estava era preparada para descobrir que ele era o DJ naquela noite. Eu para ali aos berros a reclamar a morte do DJ, simultaneamente eufórica pela bebida e pela música e infeliz de amores, e o DJ era ele. Os nossos olhares cruzaram-se quando eu rodopiava, e o que vi a seguir a tomar consciência de que era ele foi o meu reflexo num dos espelhos da discoteca. Eu de boca aberta, desgrenhada, braços no ar, escanzelada, sem jeito para aquilo, apenas histérica e demasiado bebida — a pedir que se enforcasse o DJ.*

* Rita, in Aranda

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pelos céus comunitários*

O casal de namorados que viu de manhã fê-lo lembrar-se de si próprio. O artista quando jovem. Passou por eles ao contornar um relvado (detestava a merda dos cães — não tanto quanto os bichos em si, claro — e não queria correr o risco). Primeiro notou o olhar vago da rapariga. Ela fixava um ponto qualquer no correr de edifícios do outro lado da rua. O namorado assediava-a. Queria um beijo, um toque, roçar-lhe o seio, o entrepernas. Queria fodê-la, em suma. Quim Zé voltou para trás e foi posicionar-se num sítio onde poderia apreciar a cena. Conhecia-a. Vivera-a muitas vezes. A rapariga resistia fracamente às investidas. O olhar fixo era sonhador. Queria estar naquela situação — mas com outro tipo. Não a repugnava ser beijada, apalpada, fodida, mas ficava melancólica pela tremenda má-sorte. Aceitara o namoro porque uma gaja tinha de namorar, não era? Mas agora só queria acabar com aquilo. Cumprir o seu papel, distanciada, resistindo tanto quanto possível, e rezar para que da próxima vez as coisas se passassem com outro, com um de meia dúzia que ela era capaz de enumerar.
Quim Zé também sabia o que o rapaz pensava. Não era muito diferente, de resto, do que pensava a rapariga de olhar perdido. Os rapazes não sabiam fazer aqueles olhares (excepto alguns, profissionais de outro calibre) mas também não era o seu papel. O seu papel era investir, forçar caminho, sem demasiada ternura mas sem violência. E geralmente pensavam o mesmo que elas, partilhavam a mesma sensação de infortúnio: era outra tipa que gostavam de ter ali à mão. A diferença é que os rapazes conseguiam mesmo entusiasmar-se com o que tinham: afinal, havia mamas, carne.
Depois do almoço a cena foi mais insólita, mas não menos previsível (se o seguiam no raciocínio). Da varanda de um edifício baixo de habitação estavam a ser arrojadas roupas e objectos pessoais. Uma ou outra peça de mobília. Em cima, possuída por fúria bíblica e forças sobrenaturais, actuava uma mulher. No passeio, encolhido contra um poste, envergonhado, humilhado, vencido, pouco menos do que morto — um homem, marido da senhora. Era a cena típica que estava reservada a todos os casais, só que esta viera para a rua. O homem, como Quim Zé bem sabia, estava a assistir a um filme, como se diz que as vítimas de acidentes assistem antes da inconsciência. Toda a puta da sua vida em ecrã panorâmico, a 3D. Os erros, as estupidezes, os momentos em que podia ter evitado chegar a este ponto, as encruzilhadas onde poderia ter escolhido outra direcção. Mais um imbecil que acreditara no amor e que agora via as suas cuecas e as suas peúgas espalhadas pela rua, depois de um voo gracioso pelos céus comunitários.

*in Aranda

sábado, 16 de junho de 2012

Cemitérios*

Quim Zé (…) a dada altura queixou-se da frivolidade dos assuntos.
— Falemos de coisas grandes, profundas, não do comezinho.
Beto ia protestar, mas desistiu, talvez por não se sentir com forças. Preferiu reabastecer-se de whisky enquanto perguntava:
— E quais são as coisas grandes?
Não era retórica, o cérebro de Beto já precisava de alguma ajuda.
— O amor, a morte, a guerra, temas destes — informou-o Quim Zé.
— Ah… Ok, podes começar — disse Beto recompondo-se com esforço na cadeira, o que o fez parecer irónico.
Quim Zé olhou através da janela para a noite escura durante um hiato considerável Depois decidiu-se:
— O que pensas dos cemitérios?
— ?
— Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra, coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas, e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se o assunto era a estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas e ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas.
— Mas não era disto que queria falar — continuou Quim Zé. — Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.
— Na minha família não se falava muito do passado — confidenciou Quim Zé —, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.

*in Aranda

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Música*

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. Começámos por Nouvelle Vague não por acaso.

*in Aranda

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Verão*

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda